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quarta-feira, 20 de julho de 2011

POR QUE LUTAMOS?

Raul Longo aprecia o Sambaqui

Raul Longo

Enquanto éramos seguidos por duplas intimidadoras ao sairmos de nossas casas, mesmo para ir até a esquina fazer compras ou conversar com os amigos. Em nossas manifestações tínhamos de nos conter perante as provocações e ofensas de especuladores interessados em empreendimentos paralelos à instalação do megaestaleiro que se anunciava como o maior da América Latina. Pela internet recebíamos diversas acusações a nos prejulgar como defensores de propósitos individuais. Pela imprensa local, acusados de contrários ao desenvolvimento do estado e de melhorias para aqueles mesmos a quem defendíamos.

Companheiros políticos tiveram suas candidaturas alijadas do esforço promocional da campanha partidária ao pleito de 2010. Embarcações de pescadores foram apreendidas sob alegações inéditas da Marinha local e tivemos de nos cotizar em pagamento de pesadas multas para a liberação de seus instrumentos de trabalho e sustento.

Éramos submetidos a constantes inverdades sobre os motivos e caráter de nossa luta, nossa própria realidade individual e a realidade de nossa região.

Já tivemos oportunidade de agradecer àqueles que nos apoiaram, mas aproveitamos para novamente indicar alguns dos que nos foram mais prestativos e se destacaram pela pronta resposta e sensibilidade às evidências do que expúnhamos quanto a inviabilização do histórico direcionamento cultural, econômico e social da região compreendida no entorno à Ilha de Santa Catarina.

Se fomos vitoriosos naquela luta, devemos também a participação do sítio “Dilma na Rede, o blog “Quem Tem Medo do Lula?” e atual “Quem Tem Medo da Democracia?”, administrado pela jornalista Ana Helena Tavares do Rio de Janeiro. A “redecastorphoto”  do Castor Filho, o Grupo Beatrice do Adauto Melo.

Também nos auxiliou o “Assaz Atroz", do escritor Fernando Soares Campos do Rio de Janeiro e, aqui em Florianópolis, destacaram-se o blog “Faaala Sambaqui” da profissional em comunicação social Angelita Brandão, o blog “Sambaqui na Rede e o “Portal Daqui, ambos do jornalista e historiador Celso Martins; além do “Portal Desacato”, do ativista Raul Fittipaldi.

Mas não foram os únicos. Muitos integrantes de listas de debates e discussões políticas e sociais foram capazes de dimensionar a amplitude social do evento e nos alentaram com informações e avaliações sobre a absurda desproporção entre as condições de sobrevivência de uma população de cerca de 500 mil ou mais pessoas, e o capricho empresarial do maior conglomerado capitalista do país.

A todos os que nos ajudaram na divulgação do que então aqui se pretendia cometer, pedimos que nos ajudem mais uma vez na divulgação do mesmo despropósito pelo mesmo empreendimento no Estado do Rio de Janeiro.

Para implantar seu projeto em Santa Catarina, irresponsavelmente o empresário Eike Batista adquiriu extensa área que abrange dois municípios de nossa região. Sem qualquer prévia consulta sobre a realidade local e através do apoio político dos principais partidos do estado e das agremiações de elite, tentou nos impor suas assumidas e propagadas pretensões de ilimitado enriquecimento.

Sem nenhuma demonstração de sensibilidade humana ou preocupação ambiental, armou audiências públicas através das quais propagou publicitariamente as conquistas de suas empresas. Aqueles que ousaram contestar expondo razões de desacordo ao empreendimento, foram noticiados pela imprensa local como bêbados e baderneiros. Reagimos comparecendo à última assembleia com exibição de nossas manifestações culturais, narizes de palhaços e apitos, sem nos deixar intimidar pelos 9 guarda-costas postados em prontidão de ataque e as teleobjetivas constantemente miradas contra nossas crianças por 2 fotógrafos típica e ridiculamente caracterizados de escolta árabe.

Contamos 9 ônibus de alto luxo que transportaram a população das periferias de Biguaçu, a ser utilizada como claque. Iludidos pelo prefeito daquele município com o anúncio de criação de 4 mil empregos em atividades para as quais nunca tiveram qualquer formação ou experiência, foi graças a ostentação da força e do poder da empresa OSX, que pudemos, então,  informá-la sobre a omitida extinção de no mínimo 20 mil empregos em atividades tradicionais da região: pesca, maricultura, agricultura, gastronomia, artesanato, comércio e turismo.

Para compensar, Eike Batista nos acusou pela programação nacional de TV de sermos meia dúzia de eco-xiitas preocupados em defender um cardume de golfinhos. Até então éramos poucos, sim, e o empresário sabia de nossa impossibilidade de demonstrar que os golfinhos de nossa luta éramos nós mesmos. Mas, talvez por essa declaração, nos angariou o apoio de jornalistas como o Paulo Henrique Amorim.  

Insistindo em ignorar a realidade mesmo quando advertidos por especialistas por eles mesmos contratados para avaliação técnica dos impactos sócios/ambientais, tentaram omitir a existência do laudo indicativo de riscos irreversíveis a serem potencializados pelo empreendimento. E hoje processam o cientista Simões Lopes por termos logrado a divulgação daquele documento ignorado e escamoteado pela inconsequente presunção de que a imediata progressão econômica de poucos, deva prevalecer sobre as condições de sobrevivência de toda uma população.

Lamentaremos profundamente se o oceanógrafo Simões Lopes for penalizado por termos utilizado de sua correção científica para comprovarmos as evidências dos motivos de nossa luta. Correção confirmada por reconhecidos cientistas e doutores de instituições privadas e públicas que apontaram erros elementares e grosseiros na análise final, arranjada em substituição a de Simões Lopes para corresponder aos intentos do projeto.

Talvez por mero lapso e não por provocação a estes cientistas, naquela última audiência pública o diretor da empresa contratada para estudo substitutivo ao de Simões Lopes, mais de uma vez se referiu aos golfinhos como “bicho”. Embora nossa luta não fosse pelos golfinhos ou qualquer outro animal que não o ser humano, em momento algum nos pareceu que fizéssemos mais diferença do que uma barata de praia.

No entanto, não há no que nos lamentarmos sobre nós mesmos. Afinal, com a colaboração de tantos em todo o Brasil, apesar de sermos realmente poucos no início, terminamos vencendo.     

Para lamentar só nos restou a lembrança das sanções sofridas por técnicos e cientistas que mantiveram a prerrogativa de defesa dos interesses públicos. E também aos que os sancionaram e ameaçaram publicamente: superiores hierárquicos, autoridades e políticos que ao priorizar os interesses do empresário Eike Batista em detrimento da responsabilidade pública, perderam nosso apoio e credibilidade.

A esses lamentamos muito, pois sabemos quanta falta faz à história do Brasil, e de Santa Catarina em particular, o devotamento aos reais interesses do futuro de sua gente. Devoção da qual os acreditávamos imbuídos.

A eles por certo em nada comoverá os depoimentos registrados pelo vídeo acessado pelo link abaixo, mas não podemos deixar de divulgá-lo, pois ao contrário das ilações dos que nos prejulgaram sem conhecimento de nossas história e realidade, não somos contrários ao implemento e evolução da indústria naval brasileira. Regozijamo-nos pela recuperação de setor tão vital a um país com nossa extensão costeira, mas não nos conformamos com o financiamento do desenvolvimento através de custos humanos.

Temos confiança de que o slogan utilizado pelo governo Dilma Rousseff: “país rico é país sem pobreza”, se exemplificará no impedimento a que os depoentes desse vídeo sejam levados à mesma miséria e degradação humana a que seriam relegados os cidadãos da Grande Florianópolis, se não tivéssemos lutado nem recebido apoio de todo o Brasil e mesmo de brasileiros e estrangeiros que vivem no exterior.

Se incompreendidos por muitos que nos acusaram de defender interesses pessoais, ainda mais foram os que nos escreveram prestando esse apoio hoje igualmente necessário aos moradores de São João da Barra no Estado do  Rio de Janeiro.

Por mera questão de responsabilidade humana e por termos passado exatamente pelo que agora passa a população aí documentada, tomamos a iniciativa de daqui de Florianópolis novamente recorrer a todos, para que ali não sucumbam aos pesados métodos de “persuasão” financiados pela maior riqueza individual do Brasil.

À nossa vitória, pela qual também devemos reconhecimento ao Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual de Santa Catarina, não pode corresponder a derrota de outros brasileiro em qualquer parte do país. E muito nos preocupa a impressão de que embora em São João da Barra sejam pessoas tão simples quanto nossos pescadores, lá não contam, como aqui pudemos contar, com a participação de proprietários de residências e imóveis de alto padrão e empresários de valorizados setores de turismo e comércio. Por essa razão pedimos a atenção daqueles que se mantêm atentos as condições humanas de todo o povo brasileiro.  

Assim como não admitimos o absoluto desrespeito à nossa cultura, nossa história, nossas vidas e humanidade, também não podemos admitir o que está se passando com a população do litoral do Rio de Janeiro e sabemos bem do que se trata. Pedimos à todos que nos apoiaram que também apoiem a gente de São João da Barra do estado do Rio Janeiro, vitimada pelos mesmos intentos e a mesma prepotência e irresponsabilidade que nos atingiu no ano passado.

Indústria naval, sim. Mas sem o afogamento e inviabilização de condições de sobrevivência das comunidades litorâneas. Somos uma das maiores costas litorâneas do mundo e inadmissível que pelo aproveitamento desse potencial se aceite a eliminação de insuperável potencial maior: o humano.

A seguir vídeo e comentário enviado pela ativista Isabella Vitória

Recebi este video de um companheiro e repasso a vocês! Trata-se de uma pequena mostra das atrocidades cometidas pelo grande capital, no Estado do Rio de Janeiro. Já não conseguimos mais estabelecer as diferenças entre as ações do Estado e do Grande Capital. É revoltante.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SENSO X CONTRASSENSO - MAIS UMA VITÓRIA DE FLORIANÓPOLIS

Raul Longo

Viver em Florianópolis é conviver num constante embate entre senso e contrassenso. Mal se descansa de uma luta para evitar um absurdo a ser acometido pelas autoridades contra o bem estar comum e já se vê em novas reuniões, discussões, manifestações.

Assim foi nos tempos da ditadura, quando a Marinha resolveu privatizar a Ponta do Sambaqui, uma área pública constituída por um bosque de Pitangueiras onde famílias vindas de outros bairros se reúnem nos domingos de verão, aproveitando à sombra das árvores à beira do mar.

Além desta função que a identifica como patrimônio público, a Ponta do Sambaqui é um sítio arqueológico. Não pesquisado, mas é. Geologicamente também chamada de berbigueira, caieira, caleira, mina de sernambi, ostreira, samauqui, sarnambi; sambaqui é um depósito de origem natural que através dos tempos vai constituindo terraços de diversos agentes geológicos, sobretudo cascas de moluscos, conchas.

Deduzem alguns paleontólogos que em busca da eternidade os pré-históricos que ocuparam a América do Sul desenvolveram um processo rudimentar de mumificação, enterrando seus mortos nesses sítios onde a grande presença do cálcio das conchas dos moluscos impediria a corrosão dos esqueletos. Outros não são tão confiantes nessa observação e consideram mais provável uma mera coincidência e consequência provocada porque esses sítios que se espalham por toda a costa atlântica e à beira de rios, seriam os mais propícios para a subsistência coletora daqueles primórdios da humanidade. Vivendo onde pudessem satisfazer a dieta de moluscos catados, ali também enterravam seus mortos.

De qualquer forma, como em todos os cultos funerários das mais antigas culturas, junto aos mortos sepultavam seus pertences: ferramentas, utensílios e objetos de pedra, e até alguns objetos cerâmicos.

Em diversos estados brasileiros há sambaquis pesquisados por arqueólogos. No Maranhão há um muito importante e mesmo nas propriedades particulares se é obrigado a ceder o acesso à pesquisa desenvolvida por instituições universitárias, como a da USP que anualmente deslocada uma equipe de professores e alunos para a Ilha do Mar Virado, no litoral norte do estado de São Paulo, em Ubatuba, uma concessão da Marinha ao empresário da Tigre, a indústria de tubos e conexões.

Ali no Mar Virado a condição para a manutenção da concessão da ilha não só é a hospedagem da equipe de arqueólogos, como inclusive a responsabilidade pelo impedimento de qualquer outro acesso ao local demarcado de pesquisa, inclusive aos ocupantes da ilha. Mas em Florianópolis a Marinha resolveu ceder a península que forma a Ponta do Sambaqui para o capital privado empreender ali um hotel. Evidente desastre que poluiria e destruiria um dos mais paradisíacos recantos da Ilha de Santa Catarina, sobretudo pela falta de sistema de coleta de esgoto que inevitavelmente seria despejado ao mar, pois trata-se de uma península com uma entrada que não tem 20 metros de largura.

Para que as autoridades da época pudessem enxergar o óbvio, foi preciso muita briga e muita luta da comunidade do Sambaqui, o que gerou a criação da primeira Associação de Moradores do Município de Florianópolis.

Nessa luta se formou uma das comunidades mais guerreiras da cidade.

Mas a população de Florianópolis protagonizou muitos momentos de grande bravura popular, como em Novembro de 1979 quando estudantes e trabalhadores cercaram a comitiva do então ditador João Baptista Figueiredo acompanhado pelo interventor Jorge Bornhausen. Quase todos da comitiva ditatorial iam apanhando da multidão e só foram salvos pela intervenção da Polícia Militar com ajuda da Polícia do Exército.

Ainda hoje relembrado com muito orgulho pelos catarinenses como a Novembrada, o episódio deu início a queda da ditadura que culminou com o Movimento das Diretas já iniciado por Lula da Silva em Diadema e logo desenvolvido por Teotônio Vilela nas Alagoas. Mas ainda sem o nome de Diretas Já. Foi o movimento da população de Florianópolis que deixou claro aos militares que o contrassenso da ditadura já estava com os dias contados.

O próprio nome da cidade resulta de um contrassenso e de um embate desses. Além de massacrar os líderes revoltosos aprisionados na fortaleza da ilhota de Anhatomirim, se impôs à antiga Desterro uma eterna homenagem a Floriano Peixoto, o tirano milicanalha contra o qual aqui se revoltava.

E se perpetua o estigma. Se mensura o tempo pelas lutas e mobilizações populares para manutenção de algum senso de lógica. É comum se ouvir as pessoas comentarem terem se conhecido em uma ou outras dessas lutas em que se envolvem os cidadãos para conter os desmandos dos políticos.

Por vezes se fica em dúvida se uma amizade surgiu na briga contra o prefeito quando quis elevar a cota de andares permitidos às construções de edifícios, ou na outra para impedir que a companhia de saneamento do estado desviasse a verba do PAC economizando no destino do sistema de esgoto implantado, para despejá-lo no rio mais próximo.

Nesse último caso, um exemplo típico foi o de quando o diretor da estatal afrontou a comunidade afirmando que o esgoto seria jogado no rio “Nem que for na marra”. Convocou-se ministros e técnicos de Brasília e hoje há uma comissão formada para buscar a decisão mais acertada, mas a rede de esgoto, já implantada, não promoverá o contrassenso de poluir a desembocadura do maior rio da Ilha de Santa Catarina, nem mesmo na marra, porque aqui só quem faz marra é a multidão.

Costumo dizer que em muitos aspectos essa Ilha é um continente. Mas em outros parece um hospício onde os doentes tomaram a direção e a população constantemente tem de adverti-los para não porem fogo e destruírem tudo. E se esses alienados que detêm o poder contam com o incondicional apoio da mídia local monopolizada pelo grupo RBS, por outro lado os sadios têm contado com significativo apoio dos Ministérios Públicos. Tanto o Estadual quanto o Federal.

Mas para ter ideia do que é o poder que controla este estado, basta lembrar que é o único do país onde ainda hoje não se respeita a determinação constitucional e não se criou uma Defensoria Pública. De todo o Brasil, apenas Santa Catarina!

Tais fatos provocados pelo controle político da eminência parda de Jorge Bornhausen, muitas vezes nos faz sentir mantidos nos anos de chumbo do século passado. Apesar de ser um dos estados mais ricos do país e se localizar na tão decantada região sul, em termos democráticos Santa Catarina é um dos estados mais atrasados do Brasil.

Talvez por esta razão o empresário Eike Batista se imbuiu de tanta certeza em emplacar suas pretensões de obter financiamento para instalação de um estaleiro, com objetivos paralelos ainda não revelados, mas que se evidenciam no comunicado da desistência da implantação do megaestaleiro no canal da Ilha, ao afirmar que: “O Grupo EBX estuda o desenvolvimento de outros empreendimentos para a propriedade em Biguaçu, reafirmando assim o seu compromisso com o Estado e a população de Santa Catarina.”

Blablablá à parte, o que não se ignora é que há muito tempo Eike Batista adquiriu a área onde pretendia instalar o maior estaleiro latino-americano. Muito antes da descoberta do Pré Sal. E também se sabe que a área total corresponde ao dobro de seu megaprojeto de estaleiro. Afora isso, também não é segredo que o empresário tinha e continua tendo outras opções no estado que não provocariam o mesmo caos social e ambiental a ser provocado pela localização em Biguaçu, além do considerável menor custo de instalação com imediata viabilidade.

Mister X revelou seu truque para uma plateia que estará muito atenta à natureza dos outros empreendimentos para a propriedade em Biguaçu. Se não forem tão nocivos e impactantes às águas da baía que conforma o canal entre a Ilha e o continente, não haverá indisposição em assistir as mágicas do bilionário. Do contrário, já sabe que não adianta contratar ajudantes para distrair a atenção do público na tentativa de fazer desaparecer as comunidades e atividades tradicionais desta população.

Desta vez, além dos Promotores dos Ministérios Públicos, tanto do Estadual quanto do Federal, sempre pautando pelo bom senso e no combate ao contrassenso junto com a população, temos muito a agradecer aos técnicos do  ICMBio.

Lamentamos, e muito, o contrassenso dos políticos. Não de todos, pois estamos acostumados à maioria deles e não era de esperar qualquer postura de real defesa dos interesses do povo de Santa Catarina; mas o contrassenso daqueles de quem mais esperávamos a defesa dos interesses das classes mais populares de trabalhadores desta região: pescadores e maricultores; foi bastante decepcionante.

Esperamos que ao menos reconheçam ter provocado e promovido inúmeros outros contrassensos, como os daqueles que já adiantavam culpabilidades ao governo federal com afirmações estapafúrdias e sem qualquer embasamento ou fundamentação, como a de que Lula seria sócio do Eike Batista, ou de que Lula e Dilma busquem desenvolvimento a qualquer custo.

Aos que usavam dessas acusações vazias para brigar contra o empreendimento, desejamos que em próximas lutas sejam capazes de reconhecer quanto tais posturas são improdutivas, quando não, contraproducentes.

Se a esses faltou perspectiva, também é preciso reconhecer que foram enganados pelos primeiros, os que, sendo de Santa Catarina e próximos ao governo através do PT, anunciaram que a Ministra do Meio Ambiente haveria desconsiderado o parecer técnico, transformando a questão em decisão política.

E aí também me enganaram e também minhas perspectivas sobre o caso se distorceram, chegando a escrever desaforos à Ministra. Agradeço às técnicas do ICMBio cujos nomes me comprometi não revelar e que me alertaram sobre essa falácia. Mas se a realidade resgata a imagem da Ministra, à quem me desculpo, ainda mais chafurda a dos mentiram sobre a real posição de Izabella Teixeira, comprometendo-a injustamente perante a opinião pública.

Mas há um político que merece um desagravo pela repreensão de sua nota pública de discordância ao estaleiro. O presidente de seu partido no estado reclamou por Nildomar Freire não ter consultado o diretório estadual. Nildão fez é muito bem em consultar as bases e os trabalhadores, pois o seu partido não é o PD, o Partido dos Diretórios. Seu partido é o PT, o Partido dos Trabalhadores. Quem não consultou os trabalhadores que o fizesse. Ou que procure os que representam outras classes.

E do PT agradeço a todos os blogs que publicando os textos sobre o estaleiro, ajudaram a levar as informações sobre esse contrassenso por todo o Brasil. Todos os blogs e listas de apoiadores do governo Lula e da presidente Dilma, sobretudo ao Beatrice do Maranhão, à redecastorphoto de São Paulo, a Tribuna da Internet e ao “Quem Tem Medo do Lula” do Rio de Janeiro que muito torceram, apoiaram e divulgaram a luta catarinense. A minha amiga Lila de Brasília (não posso dizer exatamente da onde, mas é você mesma Lila Verão!) E ao Marcos Lula por indicar meu textos sobre o tema do estaleiro ao portal Dilma na Rede.

A força tarefa suprapartidária em prol de Eike Batista precisou invadir o gabinete da Ministra Izabella para tentar transformar o processo em questão política, e vocês nos ajudaram a lutar politicamente para manter a decisão técnica do órgão federal de regulação ambiental.

E agradeço também as palavras de incentivo de correspondentes do PSOL e do PV. Inclusive a da correspondente do DEM ou PSDB que nesta questão em particular encontrou um ponto de concordância comigo, sem cair no contrassenso dos que tentaram me convencer que a ameaça do estaleiro seria consequência de um governo inconsequente ou irresponsável.

Mas apesar desse contrassenso, a esses também se deve valorizar a participação na luta. Talvez doravante consigam entender com maior clareza o processo e aprendam onde encontrar aliados com bom senso e acima dos conceitos montados ou fabricados.

E por falar nos pré conceitos, há que se agradecer e aplaudir a comunidade do Jurerê Internacional que enfrentou inclusive seus antigos aliados da RBS e do Diário Catarinense com muita galhardia, arrostando-lhes a evidência da canalhice.

Haverá despeitados que dirão que só vencemos o bilionário Eike Batista porque vocês também são ricos, mas sabemos bem que isso é falácia e os admiramos por irem às ruas como multidão e como multidão carregar faixas e vaiar a Polícia Naval quando prenderam nossos maiores heróis nessa luta. Uma luta que começou aí do vosso lado, através da comunidade da Daniela.

E é preciso lembrar que foi a comunidade da Daniela que iniciou essa luta contra Eike Batista. Dos de Santa Catarina citei apenas os nomes do Nildão, porque foi individual e politicamente muito prejudicado no apoio que nos deu, e não quero citar o de mais ninguém para não ser injusto com tantos, mas preciso lembrar aqui, como exemplo, um diálogo entre Paulo Monteiro, o diretor da OSX e uma brava companheira da Daniela. Ao se encontrar frente a frente com a companheira num momento da audiência pública, Paulo tenta um sorriso e ruge: “Você é uma pedra no meu sapato”. Sem sorrir, ela decepa: “Então você vai ter de amputar o pé!”

Da comunidade do Sambaqui e Sto. Antonio de Lisboa nem preciso dizer nada. Nosso Boi, nossa Bernunça e o Baiacú de Alguém dispensam palavras. Mas quero agradecer o apoio e as informações do Sambaqui na Rede, a divulgação do Fala Sambaqui, e o Estala Estaleiro do Portal Desacato.

Hoje ganhamos uma guerra em que muita gente nos acreditou vencidos já no início, embora nós todos nunca duvidássemos disso de nosso bom senso em lutá-la. Nunca duvidamos de que a multidão derrota o bilhão. Nunca duvidamos de que não há exercito maior e mais do que o da multidão. Nem aqui e nem em Honduras.

É verdade que as amigas do ICMBio me tranquilizaram bastante já naquela audiência pública em que tentaram nos coibir e constringir, mas o dinheiro e as forças políticas bem poderiam ter pervertido o essencial sentido técnico da decisão, para a qual esta nota da OSX abaixo se faz uma saída honrosa, ou menos constrangedora.

Talvez conseguissem reverter, mesmo a contragosto da Ministra, obrigando o governo a aceitar pressões dos políticos catarinenses, com opinião pública manipulada pela RBS. Daí a grande importância de nossa luta que inviabilizou as tentativas e manobras nesse sentido, como quando conquistamos os passageiros da dezena de enormes ônibus de auto luxo para colher a gente pobre da periferia de Biguaçu que deveria fazer claque à OSX na audiência em que nos coagiam com teleobjetivas, tentando nos amedrontar com outra dezena de guarda-costas; mas ao final a claque da OSX aplaudiam nossas falas.

E nessa luta, tivemos um herói muito simbólico. Se há um momento em que pudemos ter certeza de que a partir daquele momento ganháramos a luta, foi quando a Polícia Naval conduziu nosso Pescador para a Capitania dos Portos.

A luta foi grande e vencemos o homem mais rico do país. Isso tem de ficar nos anais da história dessa região e desta cidade. Isso merece um marco, uma comemoração para que as futuras gerações jamais esqueçam do poder da multidão. E sugiro que ali, onde a Polícia Naval nos devolveu nosso herói, a ele seja erigido um marco. E que nele se inscreva: “Aqui, em tal data, um manézinho pescador desta baía fez o homem mais rico do Brasil tomar senso e ir embora desse canal!”

E quando outro voltar com novos contrassensos, a gente leva ate ali e mostra para ver se adquire um pouco de senso e não nos dá tanto trabalho.

Até a próxima luta, torcendo para que algum dia tenhamos melhores políticos para eleger no estado.         

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Comprovado! Existe: O PESCADOR!

Raul Longo

O Ministro da Pesca disse que ele não existe e todo mundo acreditou. Nem a moça que diz defender e representar os interesses de sua classe, apareceu para pedir opinião sobre o fim da atividade na região. Nem opinião nem voto. E olha que era época de eleição!

O empresário deitou falação sobre golfinhos dizendo que os levará para outra parte, que cuidará dos cetáceos, que ninguém precisa se preocupar com o “bicho” (conforme a esses animais se refere o “especialista” contratado pela empresa). Mas sobre ele, o Pescador, não disse uma palavra.

É como se não existisse mesmo. Pelo menos não tanto quanto os golfinhos que ao menos têm quem se preocupe com eles. E todo mundo acredita que golfinhos existam, apesar de só porem o dorso fora d’água e já afundam rapidinho!

Os técnicos e cientistas fazem cara feia pro empresário e falam em área de preservação, em reserva ambiental, em espécies ameaçadas. Mas dele ninguém fala nada. E é das espécies mais antigas daqui dessas bandas!

Muita gente aí, cheia das existências, chegou bem depois dele que tá aqui desde quase a época dos índios. Há quem diga até que, pelo lado de um antepassado, ele é meio índio.

Será que índio existe? Ou é só história dos antigos que acreditavam em tudo o que não existe? Vai ver ele deixou de existir de tão antigo que é!

O Ministro é moderno! Não vai ser tolo de acreditar em assombração!

Será que ele é assombração?

Se é assombração, pelo menos é uma assombração que se alimenta e se os técnicos e cientistas não falam dele, ainda assim estão defendendo a reprodução dos peixes. Enquanto existir peixe poderá manter a inexistência de toda a família.

E quando também não existir mais peixe e frutos do mar, o que é que ele vai fazer?

Varrer chão de estaleiro? Trabalhar de graxeiro de guindaste, de motor de navio cargueiro, de máquina de plataforma de petróleo?

A filha vai servir café, a mulher vai lavar macacão de operário, o filho será moleque de mandados e um dia, um dia quem sabe, poderá ir ao mercado comprar um peixe pro almoço de domingo. Vai ser peixe chique... Importado!

Desses que o Estudo de Impacto Ambiental do empresário bilionário diz existir aqui. Diz que existe, mas ele mesmo nunca viu. Não viu nem pescou porque é peixe de água doce que só existe no Estudo de Impacto Ambiental do bilionário. Pra quem não é bilionário, é peixe que existe em rio.

Vai ver que o Ministro não acredita em sua existência porque é do interior. Pode ser que nem conheça a capital e nunca viu o mar. É Ministro só de pesca de peixe de rio, peixe de Estudo de Impacto Ambiental.

Pescador de rio pesca de barranco e não sabe o que é ter de buscar a rede com tempestade ameaçando lá no fundo, por trás do morro do continente ou do outro lado da Ilha. Pescador de barranco não faz ideia do que é o vento rebojo rodopiando um barco no meio do canal, com medo de ser jogado na costeira. No barranco do rio não tem a correnteza gelada e cortante que sobe da Antártica arrastando as lanternas de ostras e os cachos de mexilhão que se tem de buscar no frio da madrugada.

Quem é do barranco, o que sabe do camarão ou da tainha? Tudo isso é lenda, mitologia. Conversa de pescador!

Será que ele é uma mentira?

Mas e o peixe do turista no hotel? A ostra no restaurante? O camarão do bar à beira da praia? É o quê?

O que ele pesca não tem em rio de Ministro nem em Estudo de Impacto Ambiental de bilionário, mas se ele realmente não existisse quem ia trazer esse peixe, pescar esse camarão, cultivar essa ostra e esse mexilhão?

Quem vai dar emprego ao garçom? Ao cozinheiro? À ajudante da cozinha?

O estaleiro também? Ou só o que existe, o que vai existir, será o estaleiro com seus 4 mil empregados trazidos de fora pra fazer o que ninguém aqui nunca fez nem tem ideia de como é?

Vão todos deixar de existir ou o estaleiro vai dar emprego para as camareiras, as moças das lavanderias de hotel? Os estafetas, gerentes, ascensoristas, aquele pessoal que arruma ocupação para hóspedes que não sabem que o pescador tem muito mais a divertir, a contar, a ensinar?

Músicos! Haverá quem considere romântico uma serenata ao luar se espelhando em nódoas de óleo ou verniz, químicas e venenos? Com torres de ferro e aço ao fundo?

Ou quem sabe a malevolente pachorra de um petroleiro inspire um nova dupla de Menescal/Boscoli ilhéus: “Dia de sol, festa de luz/e o cargueiro a fumegar, no oleado cinza do mar”.

O que será de sua cidade? Existirá a cidade? Se ele não existe, como pode existir a cidade? Toda a região de seis ou sete municípios? Até o Lúcio Costa, apesar de ter criado uma cidade do futuro, sabia que cidade nenhuma é apenas uma arrumação de prédios, avenidas, viadutos e interesses políticos e econômicos. Toda a humanidade sabe que uma cidade é seu povo, sua gente.

Roma é os romanos. A luz de Paris são as pessoas dos cafés, dos cabarés. Não existe Salvador sem os baianos. Não existe Rio de Janeiro sem os cariocas.

O que será de sua cidade se ele não mais existe? É ele a música da cidade, o motivo do desenho do pintor. É por ele que a rendeira trança os bilros, o artesão escalavra a madeira, o mercador mercadeja e o Mercado se faz festa a cada dia da semana. Só por ele é que se faz passeios, se dança, se brinca no boi-de-mamão, na dança-de-fita. É para ele o canto da ratoeira, o chiste, a fala, o dito, a graça e a piada.

Tudo aqui é ele e sem a sua existência será um lugar qualquer, sem cultura e sem história. Um lugar que será feio, sujo, fétido, sem amor e sem humor.

Mas quem haverá de ouvir essa verdade se na verdade do Ministro ele não existe? Não existe tanto quanto não existem, no Estudo de Impacto Ambiental do empresário bilionário, os peixes que pesca há tantos anos. E pescou seu pai e seu avô, e o avô do avô de seu pai.

O peso dessa ancestral inexistência recai em suas costas e, na tristeza do inexistir, o pescador se põe a olhar distraidamente à Ilha do outro lado do canal. O canal que é estreito e dá para divisar a fimbria da praia na outra margem.

Há um vulto na praia em frente. Talvez também acocorado sobre uma ponta de pedra. Um vulto cismático como o dele. E parece que está olhando à sua praia. Parece que está olhando para ele.

Reparando bem, há ali um barco. E se for do vulto aquele barco...

A silhueta distante se ergue. Se faz ereta, caminha ao barco e recolhe a poita. Mais um inexistente como ele!

Reconhecer aquele igual é uma última esperança na própria existência. Sente como um descobrir-se e, no estímulo da repentina sensação, acena. O vulto responde e aponta uma direção. Ele compreende: é preciso adentrar o canal em direção sul, ao centro da Ilha.

Seguindo para a sua embarcação, o pescador vê muitos de outros barcos zarpando de vários pontos da orla da outra margem. Ao subir para adentrar em seu barco, reconhece outros mais partindo das praias da margem de seu lado. Já se afastando da costa, percebe mais outros barcos adiante. Olha atrás de cada margem e vê que são muitos, todos seguindo à mesma direção sul, ao centro da Ilha. Mais e mais barcos com seus motores de popa martelando, ecoando no meio do silêncio do canal marítimo trincado de azul e sol.

De suas proas os pescadores se acenam e há naquele aceno uma multiplicação. Uma multiplicação impossível de ser imaginada pelo bilionário que para ser o homem mais rico do mundo, faz do X a divisão solerte da solidão. Mas o pescador, já não se dividi entre existir ou não existir, como quer o Ministro. O pescador se confirma em cada um daqueles pequenos barcos, em todos seus companheiros. E é nos companheiros, nos trabalhadores como ele, nos seus iguais, que o pescador redescobre a existência negada.

O tóc-tóc do motor em seus ouvidos tem um sentido que se repete nos motores de cada barco; o ao lado, o mais atrás, o que vai à frente, o que vem lá de longe. Naquela batida cartesianamente repetitiva, em seus ouvidos insiste uma verdade: “Eu existo. Eu existo. Eu existo.”

E a existência do pescador se tornou tão concreta e real que a Polícia Naval, apesar de nunca o ter enxergado em sua ínfima condição de senhor do imenso, desta vez reconheceu-lhe. Se não propriamente a existência, por uma inusitada insolência.

Mas no caso do Ministro ainda duvidar dessa existência, não confiando nem nos registros de atuação da polícia da Marinha, aí abaixo está Nossa Excelência, o Pescador, entrevistado pelo Portal PortoGente para que ninguém nunca mais duvide de que existe, sim, atividade pesqueira no canal da Ilha de Santa Catarina. A existência desse e de outros pescadores é uma demonstração clara de que o governo do Partido dos Trabalhadores terá de considerar a promoção de 20 mil desempregos reais e existentes, para ponderar a possibilidade dos 4 mil prometidos, e ainda hipotéticos.

E a existência desses pescadores tão negados quanto já foram os direitos de todos os trabalhadores desse país, inclusive daquele que nos resgatou da situação de progressivo e alarmante desemprego, me dá grande esperança de que um dia tenhamos um pescador como Presidente do Brasil.

Já se provou que um operário tem tudo para ser um presidente que dignifique o país e um dia será a vez de um pescador, de olho na bússola e firmeza no leme, nos defender das ganâncias dos bucaneiros que ainda existem em toda e qualquer parte. E como existem!


Notícia (entrevista) comprobatória da existência do... PESCADOR!

Texto atualizado em 09 de Novembro de 2010 - 01h46

PortoGente conversou com o pescador Wagner Vitorino, um dos jovens pescadores da Baía de São Miguel, em Biguaçu (Santa Catarina), que tem orgulho da sua profissão. Sua comunidade é localizada na área onde Eike Baptista quer construir o estaleiro da OSX. Ele participou da “barqueata” no último sábado (6) e conta como foi a apreensão do barco do seu irmão, Eliton Vitorino. “Voltamos pra casa soltando foguetes, porque jamais vamos nos esconder. Entramos nessa luta e vamos até o final”.

PortoGente - Quantos barcos foram apreendidos?
Vitorino - Foi só um barco apreendido, mas no mesmo dia já fomos lá na Marinha e foi liberado. Agora estamos esperando se vai vir a multa

PortoGente - Qual foi o motivo da apreensão?
Vitorino - O motivo foi porque estava sem alguns equipamentos e como o barco tinha acabado de ser reformado ainda estava sem o nome. Eles alegaram isso, mas nunca fazem essa vistoria toda. 

PortoGente - Qual a opinião de vocês sobre a apreensão?
Vitorino - Ficamos indignados porque moramos no meio de duas marinas e o que se vê de irregularidades... Essas pessoas saem de lancha cheias de vodka, todos os tipos de bebida, fazendo palhaçadas com as lanchas podendo causar até um acidente. Todos sabem que ninguém navega melhor que um pescador em nosso mar e muito menos conhece como nós conhecemos. Então se for para fiscalizar, que seja igual pra todos.


extraído de PortoGente

domingo, 7 de novembro de 2010

Polícia Naval a serviço de EIKE BATISTA

Protesto pacífico na Beira Mar Norte em Florianópolis acaba com repressão da polícia naval da Marinha do Brasil. Capitania dos Portos aprendeu barco de dois pescadores artesanais de Biguaçu.

Isso é só o começo. Defesa de estaleiro OSX tem apoio de lobbystas fortíssimos, como a ACIF (Associação Comercial Industrial de Florianópolis) a ex-senadora Ideli Salvatti e o governador bandido Leonel Juarez Pavan

Caçado no ato contra estaleiro


O jornalista e blogueiro Mosquito e o oficial de justiça que confidenciou ser fã do blog - Estudou comigo no ginásio

Durante o ato contra o Estaleiro OSX,  esse jornalista foi citado por um oficial de justiça. Mais uma ação de Ideli Salvatti  TJSC 023.09.050561-4 e citação para julgamento de ação de Edison Cabrinha Andrino TJSC 023.08.077179-6 em 16 de novembro próximo.

"Não é  primeira vez que sou citado em lugares públicos.  Café na Praça XX, Bloco de carnaval na Alfândega e Calçadão da Felipe".


Polícia Naval escolta manifestantes até a Capitania dos Portos

Por Celso Martins
Florianópolis-SC
A Marinha do Brasil através de sua Polícia Naval reprimiu a barqueata contra o Estaleiro OSX, realizada nesta sabado (6.11) pela manhã nas águas da Baía Norte de Florianópolis e na principal avenida da cidade, a Beira-Mar Norte, região central da capital catarinense. Poucos minutos antes da chegada da barqueata integrada por pescadores de São Miguel (Biguaçu) e de Governador Celso Ramos, a Polícia Naval aguardava nas proximidades do trapiche em reconstrução. Ao avistarem a primeira leva de embarcações na altura de Cacupé, os políciais se deslocaram num bote inflável na direção da barqueata.

"Metade do pessoal que estava com a gente desistiu e retornou por causa da ação da Marinha", reclamou publicamente o pescador Jonas Oscar Pereira, cujo colega, Eliton Vitorino, teve a embarcação apreendida e conduzida à sede da Capitania dos Portos de Santa Catarina, nas imediações da cabeceira continental da ponte Hercílio Luz. Eliton terá que retornar em dois dias para prestar depoimento e saber o valor da multa recebida. (Confira abaixo o auto de infração).

O ato repressivo da Marinha do Brasil aconteceu enquanto lideranças comunitárias e ambientalistas usavam um microfone para expor os motivos do ato. O oficial da reserva da Marinha e engenheiro naval Joel Guimarães de Oliveira usava o microfone quando a Polícia Naval passava pela frente do trapiche da Beira-Mar escoltando a embarcação de pesca de Rodrigo Machado. Ex-diretor de estaleiros e residente em Jurerê Internacional, Joel considerou a iniciativa arbitrária e duvidou que o comandante da Marinha do Brasil, almirante-de-esquadra Julio Soares de Moura Neto, "tenha conhecimento disso". A ordem para reprimir a barqueata contra o Estaleiro OSX foi dada pelo capitão-de-mar-e-guerra Marcelo Santiago Garcia, comandante da Capitania dos Portos de Santa Catarina. 

A notificação

O advogado Eduardo Lima, morador da Daniela, seguiu com integrantes do Movimento em Defesa das Baías de Florianópolis para a Capitania dos Portos, tendo acompanhado a ordem de apreensão da embarcação e e aplicação da multa. Em seguida o pescador Eliton Vitorino foi levado pela Polícia Naval até o local da manifestação da avenida Beira-Mar Norte: enquanto a Marinha recebeu vaias e ouviu palavrões, o pescador chegou aplaudido pelos manifestantes. "Nunca havia sido abordado antes por esse pessoal", disse. Outras duas embarcações foram notificadas.  

O ato contra o Estaleiro OSX contou com infraestrutura de som e barraca instaladas por volta das 9h30. Aos poucos começaram a chegar os manifestantes. Os oradores foram se revezando, esperando a chegada da barqueata iniciada em São Miguel (Biguaçu) e Governador Celso Ramos e engrossada no caminho por pescadores da Ilha, seguindo em levas de cinco a seis embarcações. Com a ação repressiva da Marinha do Brasil, a barqueata se dispersou. A movimentação foi acompanhada do alto por um helicóptero. O prefeito de Biguaçu, José Castelo Deschamps, estacionou seu veículo junto aos manifestantes e ficou observando. Depois foi embora. Os participantes do ato também foram fotografados por desconhecidos.   

Policiais navais aguardam chegada da barqueata

Policiais da Capitania são recebidos com vaias pelos manifestantes
Jonas Pereira, pescador: "Eu achava que a gente
era só uma pedra pequena no sapato deles. Agora
estou vendo que somos é uma pedra enorme".
Sílvia L. Santos Soares, maricultora de São Miguel (Biguaçu), mostra
notificação da Polícia Naval/Capitania dos Portos de Santa Catarina
Eliton Vitorino, pescador de São Miguel (Biguaçu): alvo da repressão
Manifestantes no momento em que a Marinha escoltava o pescador
A Associação de Jurerê Internacional se fez presente.
O Conselho Comunitário do Pontal do Jurerê também esteve no movimento.

A Associação de Bairro do Sambaqui também.

Enviado por Raul Longo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

É GUERRA! REDE RECORD X EIKE BATISTA

Raul Longo


Às vésperas da eleição, em 26 de setembro, domingo retrasado, a partir de um pedido do governo chileno para que o do Brasil contenha as pretensões do empresário Eike Batista sobre terras ocupadas por comunidades indígenas daquele país, na região do Atacama, o programa Domingo Espetacular da Record News traçou um perfil e resumo histórico da fortuna, casamentos, ostentação de luxo, investigações policiais e empreendimentos polêmicos do homem mais rico do país e 8º do mundo; finalizando com exposição de como grande parte de seu capital provêm mais de especulações acionárias do que resultados efetivos de empreendimentos em maioria ainda não produtivos.

A simples lembrança de que a crise financeira que ainda afeta todas as nações do mundo foi provocada exatamente por especuladores de grandes fortunas montadas sobre castelos de cartas, justifica sobejamente a matéria que em momento algum extrapolou a informação jornalística, não criou qualquer ilação ou denúncia sem fundamentos. Aliás, nem houve denúncia. Tão somente a notícia de fatos, em maioria bastante conhecidos.

Aquela edição pode ser revista consultando o portal do programa na internet. E também a edição do domingo último, 03 de outubro, onde o tema é retomado a partir da ameaça do empresário, afirmando que a Record “não sabe com quem se encrencou!” e prometendo usar de todas as mídias sociais contra a segunda maior rede de emissoras do país.

Estranha democracia, esta brasileira, onde políticos de qualquer importância e mesmo o Presidente da nação são livremente achincalhados, inclusive através de documentos forjados e divulgados por veículos de circulação nacional. No entanto, se algum veículo de informação noticia fatos comprovados que incomodem a um empresário, pode ser notoriamente chantageado através de seus concorrentes.

Estranho senso de liberdade de expressão, imparcialidade, transparência, direito e dever de informação.

A editoria do Domingo Espetacular parece ainda não ter se intimidado, pois em face da ameaça assumiu tom mais acusatório nesta última edição, revelando gravações que comprovam a tentativa de aliciamento de índios do litoral sul do estado de São Paulo com intenção de despojá-los de suas terras, por parte da LLX, uma das empresas do conglomerado acionário de Eike Batista. A transação foi considerada ilegal pelo Ministério Público, além de envolver corrupção de uma funcionária descendente de caingangue, por essa razão exonerada pela FUNAI.

A reportagem conta que Eike desistiu daquele empreendimento, mas insiste em outros tão ou mais degradantes em aspectos sociais ou ambientais, já instalados ou a se instalar em outras partes do país, entre os quais se inclui o megaestaleiro da OSX projetado para a Baía Norte da Ilha de Santa Catarina.

No que refere a este estado, o mais surpreendente da edição de 03 de outubro do Domingo Espetacular é que, enfim, se colhe depoimentos dos principais interessados e afetados pelo empreendimento defendido inclusive pelo grupo do governador eleito no mesmo dia em a reportagem foi ao ar. Apesar da eleição do DEM aqui no estado, o Domingo Espetacular soltou a matéria que pela primeira vez divulga o que foi omitido por toda a campanha eleitoral e por todos os meios de mídia: a opinião daqueles que serão drasticamente atingidos pela total e absoluta ruptura de vocação e realidade sócio/econômica e cultural na região metropolitana de Florianópolis.

Impressiona o silêncio geral daqueles que tão ufanamente exaltam o popular “Manezinho da Ilha” por motivos comerciais ou eleitorais, mas nesses momentos e sobre temas de tamanha e substancial importância, esquecem da existência do popular, do morador, do trabalhador, do cidadão comum e cotidiano. Muito se reclama dos votos em Tiririca, mas aqui mais uma vez o povo é utilizado exclusivamente como palhaço.

Dessa vez a editoria do Domingo Espetacular, lá de São Paulo, lembrou-se de mandar alguém para escutá-los e se naquele estado neste dia 3 de outubro se pode votar no Tiririca, em Florianópolis pudemos assistir, em transmissão nacional, a Gioconda e o Zeca, conhecido como Vaca Brava por sua tradicional combatividade em prol dos 300 maricultores cadastrados na EPAGRI, órgão governamental também responsável pela atividade de cerca de 2500 pescadores.

A Gioconda e o Vaca Brava, como seus demais companheiros, empregam uma média de 5 ajudantes cada e, junto com a pesca, compõem o primeiro setor profissional a ser eliminado da região através da dragagem do canal. Tudo para atender a voluntariosidade ou os interesses escusos do homem mais rico do país, que teima em instalar seu megaestaleiro na entrada do canal, no município de Biguaçu, apesar de fortemente recomendado pelas mais respeitadas autoridades científicas nacionais à não fazê-lo.

Enquanto Eike Batista não explicar as razões de preterir outras regiões do litoral catarinense onde a construção do estaleiro não provocaria tamanho impacto sócio/ambiental, além de diminuir os custos do empreendimento pela desnecessidade de dragagem e periódicas redragagens para desassoreamento dos 9 metros de aprofundamento em uma extensão de aproximados 13 kms por 200 metros de largura de leito arenoso e movediço, provocando a mudança de perfil de algumas das mais belas praias do município; todo aquele que apoie o empreendimento se assume contrário a preservação das condições de subsistência e qualidade de vida da população da Grande Florianópolis, por escusos interesses exclusivos.

Antes do Domingo Espetacular, a imprensa vinha dando ampla repercussão à versão do próprio empresário e dos diretores de sua OSX, culpando os golfinhos da Baía Norte por impedirem o empreendimento. Para ser mais exato, culpam os técnicos e cientistas classificados de xiitas do preservacionismo que, no afã de defender a natureza, seriam incapazes de avaliar a importância para o que prometem como salto econômico/social para a região.

Pela primeira vez alguém toma a iniciativa de documentar e colher a opinião dos que seriam os principais interessados neste salto. Ou serão apenas coringas da queda de cartas jogadas por Eike Batista sobre a Grande Florianópolis?

Talvez fosse esperar demais dos jornalistas dirigidos pelas editorias das sucursais que transmitem das antenas do Morro da Cruz, ou mesmo do governador eleito e dos políticos locais, alguma consideração sobre as consequências das profundas e marcantes mudanças a serem provocadas na região, com consequente desemprego nos setores gastronômico e hoteleiro. Afinal, somos apenas os palhaços estimados em 200 mil desempregados em curto prazo, mas ainda assim é de estranhar o esforço da mídia catarinense e daqueles que politicamente deveriam representar os interesses de seus eleitores, para concentrar todas as críticas aos técnicos do ICMBio, órgão federal cujo parecer foi contrário a instalação do megaestaleiro.

Por que a mídia local e mesmo a nacional tanto insiste em sumariamente nos rotular de eco-xiitas? Qual palhaçada conferem à mobilização daqueles que defendem a qualidade de vida de seus filhos e netos no lugar em que nasceram ou escolheram para viver?

É muito estranho que nenhuma emissora, nenhum jornal local, nenhum candidato, tenha tido a curiosidade de conversar com estes moradores organizados em associações de bairro e centros comunitários que semanalmente têm se reunido para discutir o assunto ou que manifestam suas contrariedades às intenções de Eike Batista em alguma praia, em algum ponto das cidades a serem prejudicadas.

Estranha democracia essa onde toda uma população se torna refém dos caprichos e interesses financeiros de um único homem!

Será que depois do Domingo Espetacular os diretores e editores de jornalismo da subsidiária local da Record, enfim começarão a se interessar pela opinião dos integrantes das associações de maricultura ou pesca que respondem pelos interesses dessas atividades básicas, geradoras e promotoras da cultura e do turismo local? Ou será que moradores, pescadores e maricultores não são público para as emissoras de TV de Santa Catarina?

Será que assim como precisou a editoria do Domingo Espetacular da Record de São Paulo descobrir a existência da Gioconda e do Vaca Brava, pessoas tão conhecidas em toda a Baía Norte, se vier alguém do Fantástico ou do CQC, os jornalistas da RBS ou da TVBV conseguirão perceber que os moradores de Florianópolis também formam um público?

Altemir Gregolin, Ministro da Pesca e natural do centro-oeste de Santa Catarina, comprovou a invisibilidade da população da capital de seu estado, ao afirmar que na Baía Norte, provedora de cerca de 70% do pescado comercializado no Mercado Público de Florianópolis, não ocorre atividade pesqueira. Será necessário que Dilma Rousseff venha até a Grande Florianópolis para mostrar ao Ministro da Pesca que os ranchos com barcos e canoas à beira de praias são de pesca? Que não são locações de veraneio ou acampamento hippie?

Para que alguém ligado ao governador eleito venha demonstrar a existência do trabalhador a ser desempregado em massa pelo projeto de Eike Batista, fica mais difícil. Como é sabido, o principal líder de seu partido, o DEM, apesar de interventor da ditadura nesse estado por mais de uma vez, hoje vive em São Paulo e nunca demonstrou qualquer apreço ou preocupação com o povo catarinense ou de qualquer lugar. Daí seu filho, reeleito à deputado federal, ser um dos mais ferozes defensores das escusas intenções do empreendimento.   

Dizem que as guerras revelam realidades humanas muitas vezes escondidas. Esta guerra declarada por Eike Batista à Rede Record já revelou a existência do difícil e duro trabalho cotidiano da Gioconda e do Vaca Brava. À continuar por aí talvez tenhamos, através do Domingo Espetacular, novas revelações sobre a população local ou sobre os escusos interesses que ameaçam seu futuro

Revelações de realidades escondidas pela incivilidade pública de políticos e jornalistas locais que não deveriam merecer nem nosso voto nem nossa audiência. 

Mas não podemos perder o próximo Domingo Espetacular.