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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

AS ILHAS DA MAGIA DA UNIÃO POPULAR

Raul Longo

Raul Longo

Ilha da Magia é o dístico de Florianópolis em função da mitologia local que confere à colonização açoriana, a participação de algumas bruxas.

Bruxas eram comuns nos Açores porque ao arquipélago no meio do Atlântico, equidistante de Europa e América, os poderosos de Portugal degredavam seus contestadores.

Como nas sociedades de todas as épocas, lá em Portugal os contestadores também eram da gente do povo, pois raramente acontece de um nobre, um vigário ou qualquer classe de acomodado às benesses ou aos farelos do Poder, contestar alguma coisa.

E, naqueles tempos medievais, isso era ainda mais raro, pois o Poder era tanto e a obstinação em mantê-lo tamanha, que nem preciso contestá-lo. Bastava não se sujeitar a um daqueles poderosos para ser mandado aos Açores.

Na Ibéria, como em toda a parte, a força contestadora das mulheres sempre teve um efeito muito forte. Ainda hoje é assim. Reparem que um sujeito que reclama ou não se sujeita, por mais admirado que seja, nunca o é tanto quanto uma mulher que peita a empáfia e prepotência dos poderosos, como há pouco tempo a, hoje, Presidenta Dilma fez a um extinto senador.

Natural, pois da mulher se construiu o mito da fragilidade, da candura. Quando uma foge desse estereótipo, se entende que tenha superado a condição feminina.

Observando bem, é condição imposta, patriarcal, formada por preceitos religiosos que relegam a mulher à condição de servis. Agora, imaginem as feministas da Europa medieval, dando uma banana para tais mitos!

E acontecia, porque aqueles povos ibéricos, antes do domínio do Império Romano, provinham dos celtas, uma cultura baseada em outros ritos onde a entidade religiosa suprema era a Grande Mãe. Aí, quando os romanos se fazem cristãos e se instaura o Império Católico com aquela transformação do Jeová dos semitas hebreus em deus único, dá-se o embate das sacerdotisas da Grande Mãe com os sacerdotes católicos.

Assim nasceu o mito das bruxas. A magia, divulgada pelos contos de fadas, foi a forma de convencer as pessoas de que aquelas mulheres contestadoras eram do mal. E quem era do mal, naqueles tempos, ou ia pra fogueira da inquisição ou para os Açores.

Lá pelo século 18, aquela gente ali abandonada desde cerca de 1430, estava à míngua, morrendo de fome, pois a insuficiente produção agrícola das ilhas era monopolizada pela Igreja e há registros de um édito real obrigando o bispo de uma delas a distribuir os grãos armazenados nos silos de sua capela, do contrário o povo morreria de fome.

Compreensível a avareza do bispo, afinal nos Açores tornou-se impossível satisfazer a gula e o jeito foi transferir aquele povo pela região litorânea da vasta e nova colônia: o Brasil.

Assim vieram as bruxas, muitas delas declaradas como tal por provocarem os párocos com a tentação da luxúria, como o caso de uma cabocla da Paraíba, dona de um corpo tão diabolicamente atentado que o padre não teve outro jeito senão mandar queimar a obra do demo.

Atenção! Aqui não se trata de alusão à sigla de partido político, coisa que então nem existia, embora, de uma forma ou de outra, marque ainda hoje a história de Florianópolis como Ilha da Magia.

Marcou e não apenas pela eleição do partido ao governo do estado, nas últimas eleições, mas principalmente porque aqueles açorianos que de lá vieram, cá continuam em situação similar. Ainda que bastante melhorada no tocante ao quesito alimentação, pois com índios aprenderam o cultivo e trato da mandioca, confundindo alguns historiadores locais que chegam a divulgar engenhos de farinha e de cana como de origem açoriana, apesar de por lá não haver matéria prima que justificasse tais empenhos. E além de práticas agrícolas, aprenderam também a construir canoas e outros recursos de pesca.

Dos negros escravos aprenderam muito da culinária que hoje vai se tornando mais um atrativo turístico desta Ilha de Santa Catarina ou da Magia, entre outras artes hoje esquecidas. Ou melhor, ainda desenvolvidas, mas esquecidas de onde tenham se originado, de forma que aqui se pensa que tudo tenha vindo dos Açores e que não exista em outras partes do país.

Não é bem verdade, pois os guaranis desde o sul se espalhavam por São Paulo adentrando Mato Grosso afora até a fronteira oeste do Paraguai. E negros foram misturados todos: bantos, iorubas, minas, nagôs, angolas, etc. Misturados na dispersão promovida pelos senhores brancos, mas mesmo formando variações culturais, se os dança em cada um dos estados brasileiros.

Estados pouco conhecidos pelos ilhéus de Santa Catarina ou pelos sulistas em geral. Limitados em suas fronteiras únicas dentro das quais se creem exclusivos na manutenção de tradições adaptadas de negros e índios que olvidaram no decorrer das miscigenações às culturas ibéricas, enaltecidas na busca de uma identidade europeia que além de não identificar coisa alguma, solidifica provincianismos e imobiliza a criatividade das gerações, reduzindo a cultura a mesmices xenofóbicas.

As similaridades com as origens açorianas, sem dúvida, se mantêm. Mais notáveis são as relações sociais, pois ainda que não mais se careça de éditos que obriguem a dar de comer ao povo, quase tão quanto continua reprimido e abandonado. Ou simplesmente ignorado, como ainda há pouco foram ignorados e até anunciados como inexistentes pela então principal autoridade pública do país no setor, natural de Santa Catarina, os mais tradicionais trabalhadores da região, onde constituem uma das maiores colônias de pesca do Brasil.

Certas comunidades étnicas como num passe de mágica se tornam invisíveis.

A exemplo do Rio de Janeiro e Espírito Santo, ou onde haja aglomerações urbanas próximas a regiões montanhosas, os mais pobres de Florianópolis também são amontoados nos morros e escondidos nas favelas.

Em compensação, assim como no Rio e por todo o Brasil, anualmente os pobres se congraçam com as classes privilegiadas para fazer a maior festa popular do mundo. Temos até nosso sambódromo, que aqui leva o prosaico nome de Passarela Nego Quirido, em homenagem a Juventino João dos Santos Machado que era negro, mas era querido. Nessa de “é nego, mas é quirido” que em outras plagas se substitui por “é negro, mas de alma branca”, João acabou atraindo alguns não negros para a entidade carnavalesca Os Garotos do Ritmo que, com a introdução de brancos no samba, passou a ser denominada de Copa Lord, tal como hoje é conhecida uma das maiores escolas de samba da cidade.

Duas outras de Florianópolis também têm nomes sintomáticos: Consulado e, a mais antiga, Protegidos da Princesa.

A que teve Rodolfo Silva, o popular “Seu das Cor”, como primeiro presidente, já não se preocupou em buscar batismo que atestasse apadrinhamento da elite, vindo a existir apenas como Unidos da Coloninha, em homenagem ao bairro onde foi criada, na porção continental do município.

Ainda assim, quem vai à Passarela Nego Quirido assistir a um desfile, se pergunta de onde saem tantos negros para fazer o carnaval da capital catarinense. Foi o que intrigou o cineasta alagoano César Cavalcanti que, em 2005, produziu “Além do Samba, a Resistência Afro-Brasileira”, onde se documenta essa Florianópolis que não se vê nem se enxerga.

De fato, uma magia, um bruxedo. Pois como demonstrado no filme, em shopping e por todo o comércio, restaurantes, bares noturnos, no movimento cotidiano das ruas do centro da cidade, nas praias, no banho de mar e até mesmo nos hospitais e órgãos públicos da cidade, se conseguiu tornar invisível 18% da população da cidade.

Já foram 25% há algumas décadas, mas um sistemático processo de embranquecimento ou mais apropriadamente desnegrecimento populacional, conseguiu reduzir o número de cidadãos negros. Mesmo assim é intrigante: afora os da Nego Quirido, durante o ano onde se enfiam tantos negros menos queridos pela elite florianopolitana?

Não adianta acompanhar a programação local de TV. Ali não há nenhum. Tampouco nas páginas dos poucos jornais de uma mídia monopolizada pelo grupo gaúcho RBS. No entanto, com o apoio da comunidade negra e sob a legenda do PT, o vereador Márcio de Souza, graduado em química, foi eleito por 5 mandatos. Licenciado neste ano, acaba de ser substituído pelo também negro e doutor, professor em urbanismo da UFSC, Lino Peres.

Não há outros políticos negros na cidade, mas esses já são suficientes para demonstrar a razão do título do filme de César Cavalcanti, confirmando que além do samba do carnaval na Nego Quirido, há uma resistência afro-brasileira em Florianópolis ao bloqueio racial.

Talvez por tal experiência é que a mais recente escola de samba do município, fundada em 2009 após 3 títulos consecutivos de campeão como bloco carnavalesco, resolveu homenagear outra ilha da magia: Cuba.

Há 5 décadas bloqueada pela maior potência político/bélica e econômica do mundo, a resistência de Cuba pela sobrevivência de sua soberania como nação, não deixa de ser uma magia. E ao homenageá-la, o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba União da Ilha da Magia tem obtido para o carnaval de Florianópolis inédita promoção popular, como se infere da constante circulação pela internet de textos e matérias como a do Alípio Freire, reproduzida adiante.

E me chegam de todo o Brasil, de leste a oeste, de norte a su... deste. Quase deslizei, mas a verdade é que daqui do sul, propriamente, nem tanto. O que, talvez, se explique pelo monopólio da RBS.
  
Todos os anos, ao reproduzir flagrantes dos desfiles de cada capital, em cadeia nacional a Rede Globo exibe alguns poucos minutos de imagens da Nego Quirido, produzidas pela sua filiada RBS. Tanto isso é verdade que, comentando a eventualidade da assistência de um desses momentos, um assíduo visitante de temporadas de final de ano me perguntou se os passistas seriam contratados do Rio de Janeiro. Com essa observação confirmou a magia da invisibilidade dos negros de Florianópolis, mas também atestou o esforço da Globo e da RBS em dar alguma visibilidade às manifestações populares brasileiras, ocorridas fora do eixo Rio - São Paulo. Isso ocorre ao menos no carnaval quando as fronteiras culturais do Brasil se estendem até a Bahia.

Mesmo assim, o carnaval de Florianópolis nunca obteve maior notoriedade nem tanta divulgação pelos esforços de alguma de suas escolas de samba como vêm ocorrendo neste ano, em razão do enredo da União da Ilha da Magia.

Não pela Globo ou qualquer outra emissora, pois no que depende da difusão da mídia convencional o país também é reduzido, ainda que por outros motivos. Mais para mercadológicos do que de cunho xenofóbicos.

De toda forma, seja por questões de mercado ou xenofóbicas, sempre se empobrece o regionalismo pela invisibilidade da riqueza de nossa diversidade e a promoção de anacrônicos jacobinismos e ridículos ufanismos. Mas, graças ao enredo da União da Ilha da Magia, ainda que pelo país continuem ignorando a presença negra na conformação sócio/cultural da capital catarinense, muitos brasileiros pela primeira vez estão sendo informados de que aqui existe carnaval. E carnaval de resistência.

Apesar dessa divulgação ser importante para uma cidade de vocação turística que, queira-se ou não, integra um país internacionalmente conhecido pelo evento, ouvi dizer que a União da Ilha da Magia está tendo dificuldades e sofrendo bloqueios de patrocínios públicos e privados. Fui comentar o fato com alguém que me respondeu como se evidente: “Também! Quem manda escolher um enredo como esse?”

Na matéria “Revolução cubana dá samba”, Alípio Freire demonstra que a resposta a essa pergunta está mais na magia da união popular no que na crença das bruxas de Florianópolis. Essas, únicas sobreviventes do incêndio dos galpões da Grande Rio na Cidade do Samba, desfilarão no Sambódromo carioca.

Embora a prefeitura de Florianópolis, que no final do ano passado antecipou a cobrança do IPTU com significativos acréscimos para o período 2011, tenha se recusado a ajudar a escola mais vitimada pelo incêndio; caso ocorra uma mágica e fantástica consagração oficial da União da Ilha da Magia como campeã deste carnaval, certamente a RBS irá sugerir que os jurados foram comprados com dólares e uísques cubanos.

Cuba nunca produziu uísque e, sim, rum; mas aí são outras magias e das verdadeiramente pesadas. Isso de magia branca e magia negra é só manipulação de preconceitos dos velhos podres poderes que detêm a os verdadeiros e perigosos bruxedos. Tem aqueles que não creem, “pero que las hay, las hay”. 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Não é só em São Paulo que os demotucanos são incompetentes...

Professor James Pizarro

ANESTESIADA ATÉ QUANDO, CANASVIEIRAS – Florianópolis, SC?




Ouvi uma pessoa aqui em Canasvieiras que, não conseguindo ficar calada pra não dizer besteira, saiu-se com esta “pérola” diante da enchente que invadiu casas, lojas, shoppings, mercados, Banco do Brasil, campings,restaurantes e bares :

- Deus está zangado com Canasvieiras!

Que coisa asnática! (asnática vem de asno...) Esta mesma pessoa é fumante e já presenciei, por diversas vezes, ela jogar a bagana do seu cigarro no estreito ralo da nossa rua. 

  • Deus deixa os sacos de lixo nas ruas?
  • Deus esquece as latinhas de cerveja nas calçadas?
  • Deus deixa as dezenas de garrafas plásticas de refrigerante soltas pelas ruas ? 
  • Deus pega seu lavajato e limpa as calçadas com a água potável da CASAN (que vem de longe e custa caro) e direciona toda sujeira para as bocas-de-lobo estreitas e já lotadas de dejetos?
  • Deus asfaltou e calçou toda a cidade, impermeabilizando o solo e não deixando saída correta para as águas da chuva?
  • Deus construiu centenas de edifícios em plena zona das dunas, ao arrepio da lei?
  • Deus autorizou condomínios irregulares em zonas de preservação permanente?
  • Deus ocupou com casebres as encostas do morro sabendo que elas iriam deslizar mais tarde?
  • Deus é o ganancioso dono de Imobiliária Celestial e, por isso, quer ganhar dinheiro a qualquer custo e constrói em qualquer lugar, com ou sem alvará?
  • Deus derrubou as florestas dos morros que ajudavam a conter o solo com seus milhares de quilômetros de raízes entrelaçadas?
  • Deus se apossou de morros, encostas, cursos d*água, terrenos que são da Marinha, ilhas que são do Governo?
  • Deus impediu que nossas autoridades criassem juízo e tivessem um sistema de alerta eficaz e precoce, além de um eficiente e rápido sistema de evacuação?
  • Deus é que exige que as autoridades fiquem apenas "monitorando", "aguardando licitações" e outros papos furados, enquanto a população pamonha e calada não vai para as ruas protestar?

Os desastres se repetem e qualquer ecologista sabe que se repetirão cada vez com mais frequência e gravidade, ceifando cada vez maior número de preciosas vidas. Foi assim ano passado. Foi assim este ano. Será assim ano que vem.

Logo virá o Carnaval. O povo anestesiado desfilará pela Passarela “Negu Quiridu”, fantasiado de conde ou de marquês. E todo mundo esquecerá essa enchente. Como esqueceu outras.

Ficarão assim até o dia em que não existir mais areia na praia de Canasvieiras. Os hotéis e pousadas ficarem vazios. E tudo ficar entregue aos cães errantes que vagam pelas ruas. E às águas-vivas que fazem arder a pele dos insensatos. Um dia todos descobrirão que dinheiro não é tudo na vida!

Mas, por favor, absolvam Deus de toda esta sacanagem.

Assistam a seguir (ou no blog redecastorphoto) as tristezas de Canasvieiras:





Extraído do Blog de James Pizarro e enviado por Ana Echevenguá

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SENSO X CONTRASSENSO - MAIS UMA VITÓRIA DE FLORIANÓPOLIS

Raul Longo

Viver em Florianópolis é conviver num constante embate entre senso e contrassenso. Mal se descansa de uma luta para evitar um absurdo a ser acometido pelas autoridades contra o bem estar comum e já se vê em novas reuniões, discussões, manifestações.

Assim foi nos tempos da ditadura, quando a Marinha resolveu privatizar a Ponta do Sambaqui, uma área pública constituída por um bosque de Pitangueiras onde famílias vindas de outros bairros se reúnem nos domingos de verão, aproveitando à sombra das árvores à beira do mar.

Além desta função que a identifica como patrimônio público, a Ponta do Sambaqui é um sítio arqueológico. Não pesquisado, mas é. Geologicamente também chamada de berbigueira, caieira, caleira, mina de sernambi, ostreira, samauqui, sarnambi; sambaqui é um depósito de origem natural que através dos tempos vai constituindo terraços de diversos agentes geológicos, sobretudo cascas de moluscos, conchas.

Deduzem alguns paleontólogos que em busca da eternidade os pré-históricos que ocuparam a América do Sul desenvolveram um processo rudimentar de mumificação, enterrando seus mortos nesses sítios onde a grande presença do cálcio das conchas dos moluscos impediria a corrosão dos esqueletos. Outros não são tão confiantes nessa observação e consideram mais provável uma mera coincidência e consequência provocada porque esses sítios que se espalham por toda a costa atlântica e à beira de rios, seriam os mais propícios para a subsistência coletora daqueles primórdios da humanidade. Vivendo onde pudessem satisfazer a dieta de moluscos catados, ali também enterravam seus mortos.

De qualquer forma, como em todos os cultos funerários das mais antigas culturas, junto aos mortos sepultavam seus pertences: ferramentas, utensílios e objetos de pedra, e até alguns objetos cerâmicos.

Em diversos estados brasileiros há sambaquis pesquisados por arqueólogos. No Maranhão há um muito importante e mesmo nas propriedades particulares se é obrigado a ceder o acesso à pesquisa desenvolvida por instituições universitárias, como a da USP que anualmente deslocada uma equipe de professores e alunos para a Ilha do Mar Virado, no litoral norte do estado de São Paulo, em Ubatuba, uma concessão da Marinha ao empresário da Tigre, a indústria de tubos e conexões.

Ali no Mar Virado a condição para a manutenção da concessão da ilha não só é a hospedagem da equipe de arqueólogos, como inclusive a responsabilidade pelo impedimento de qualquer outro acesso ao local demarcado de pesquisa, inclusive aos ocupantes da ilha. Mas em Florianópolis a Marinha resolveu ceder a península que forma a Ponta do Sambaqui para o capital privado empreender ali um hotel. Evidente desastre que poluiria e destruiria um dos mais paradisíacos recantos da Ilha de Santa Catarina, sobretudo pela falta de sistema de coleta de esgoto que inevitavelmente seria despejado ao mar, pois trata-se de uma península com uma entrada que não tem 20 metros de largura.

Para que as autoridades da época pudessem enxergar o óbvio, foi preciso muita briga e muita luta da comunidade do Sambaqui, o que gerou a criação da primeira Associação de Moradores do Município de Florianópolis.

Nessa luta se formou uma das comunidades mais guerreiras da cidade.

Mas a população de Florianópolis protagonizou muitos momentos de grande bravura popular, como em Novembro de 1979 quando estudantes e trabalhadores cercaram a comitiva do então ditador João Baptista Figueiredo acompanhado pelo interventor Jorge Bornhausen. Quase todos da comitiva ditatorial iam apanhando da multidão e só foram salvos pela intervenção da Polícia Militar com ajuda da Polícia do Exército.

Ainda hoje relembrado com muito orgulho pelos catarinenses como a Novembrada, o episódio deu início a queda da ditadura que culminou com o Movimento das Diretas já iniciado por Lula da Silva em Diadema e logo desenvolvido por Teotônio Vilela nas Alagoas. Mas ainda sem o nome de Diretas Já. Foi o movimento da população de Florianópolis que deixou claro aos militares que o contrassenso da ditadura já estava com os dias contados.

O próprio nome da cidade resulta de um contrassenso e de um embate desses. Além de massacrar os líderes revoltosos aprisionados na fortaleza da ilhota de Anhatomirim, se impôs à antiga Desterro uma eterna homenagem a Floriano Peixoto, o tirano milicanalha contra o qual aqui se revoltava.

E se perpetua o estigma. Se mensura o tempo pelas lutas e mobilizações populares para manutenção de algum senso de lógica. É comum se ouvir as pessoas comentarem terem se conhecido em uma ou outras dessas lutas em que se envolvem os cidadãos para conter os desmandos dos políticos.

Por vezes se fica em dúvida se uma amizade surgiu na briga contra o prefeito quando quis elevar a cota de andares permitidos às construções de edifícios, ou na outra para impedir que a companhia de saneamento do estado desviasse a verba do PAC economizando no destino do sistema de esgoto implantado, para despejá-lo no rio mais próximo.

Nesse último caso, um exemplo típico foi o de quando o diretor da estatal afrontou a comunidade afirmando que o esgoto seria jogado no rio “Nem que for na marra”. Convocou-se ministros e técnicos de Brasília e hoje há uma comissão formada para buscar a decisão mais acertada, mas a rede de esgoto, já implantada, não promoverá o contrassenso de poluir a desembocadura do maior rio da Ilha de Santa Catarina, nem mesmo na marra, porque aqui só quem faz marra é a multidão.

Costumo dizer que em muitos aspectos essa Ilha é um continente. Mas em outros parece um hospício onde os doentes tomaram a direção e a população constantemente tem de adverti-los para não porem fogo e destruírem tudo. E se esses alienados que detêm o poder contam com o incondicional apoio da mídia local monopolizada pelo grupo RBS, por outro lado os sadios têm contado com significativo apoio dos Ministérios Públicos. Tanto o Estadual quanto o Federal.

Mas para ter ideia do que é o poder que controla este estado, basta lembrar que é o único do país onde ainda hoje não se respeita a determinação constitucional e não se criou uma Defensoria Pública. De todo o Brasil, apenas Santa Catarina!

Tais fatos provocados pelo controle político da eminência parda de Jorge Bornhausen, muitas vezes nos faz sentir mantidos nos anos de chumbo do século passado. Apesar de ser um dos estados mais ricos do país e se localizar na tão decantada região sul, em termos democráticos Santa Catarina é um dos estados mais atrasados do Brasil.

Talvez por esta razão o empresário Eike Batista se imbuiu de tanta certeza em emplacar suas pretensões de obter financiamento para instalação de um estaleiro, com objetivos paralelos ainda não revelados, mas que se evidenciam no comunicado da desistência da implantação do megaestaleiro no canal da Ilha, ao afirmar que: “O Grupo EBX estuda o desenvolvimento de outros empreendimentos para a propriedade em Biguaçu, reafirmando assim o seu compromisso com o Estado e a população de Santa Catarina.”

Blablablá à parte, o que não se ignora é que há muito tempo Eike Batista adquiriu a área onde pretendia instalar o maior estaleiro latino-americano. Muito antes da descoberta do Pré Sal. E também se sabe que a área total corresponde ao dobro de seu megaprojeto de estaleiro. Afora isso, também não é segredo que o empresário tinha e continua tendo outras opções no estado que não provocariam o mesmo caos social e ambiental a ser provocado pela localização em Biguaçu, além do considerável menor custo de instalação com imediata viabilidade.

Mister X revelou seu truque para uma plateia que estará muito atenta à natureza dos outros empreendimentos para a propriedade em Biguaçu. Se não forem tão nocivos e impactantes às águas da baía que conforma o canal entre a Ilha e o continente, não haverá indisposição em assistir as mágicas do bilionário. Do contrário, já sabe que não adianta contratar ajudantes para distrair a atenção do público na tentativa de fazer desaparecer as comunidades e atividades tradicionais desta população.

Desta vez, além dos Promotores dos Ministérios Públicos, tanto do Estadual quanto do Federal, sempre pautando pelo bom senso e no combate ao contrassenso junto com a população, temos muito a agradecer aos técnicos do  ICMBio.

Lamentamos, e muito, o contrassenso dos políticos. Não de todos, pois estamos acostumados à maioria deles e não era de esperar qualquer postura de real defesa dos interesses do povo de Santa Catarina; mas o contrassenso daqueles de quem mais esperávamos a defesa dos interesses das classes mais populares de trabalhadores desta região: pescadores e maricultores; foi bastante decepcionante.

Esperamos que ao menos reconheçam ter provocado e promovido inúmeros outros contrassensos, como os daqueles que já adiantavam culpabilidades ao governo federal com afirmações estapafúrdias e sem qualquer embasamento ou fundamentação, como a de que Lula seria sócio do Eike Batista, ou de que Lula e Dilma busquem desenvolvimento a qualquer custo.

Aos que usavam dessas acusações vazias para brigar contra o empreendimento, desejamos que em próximas lutas sejam capazes de reconhecer quanto tais posturas são improdutivas, quando não, contraproducentes.

Se a esses faltou perspectiva, também é preciso reconhecer que foram enganados pelos primeiros, os que, sendo de Santa Catarina e próximos ao governo através do PT, anunciaram que a Ministra do Meio Ambiente haveria desconsiderado o parecer técnico, transformando a questão em decisão política.

E aí também me enganaram e também minhas perspectivas sobre o caso se distorceram, chegando a escrever desaforos à Ministra. Agradeço às técnicas do ICMBio cujos nomes me comprometi não revelar e que me alertaram sobre essa falácia. Mas se a realidade resgata a imagem da Ministra, à quem me desculpo, ainda mais chafurda a dos mentiram sobre a real posição de Izabella Teixeira, comprometendo-a injustamente perante a opinião pública.

Mas há um político que merece um desagravo pela repreensão de sua nota pública de discordância ao estaleiro. O presidente de seu partido no estado reclamou por Nildomar Freire não ter consultado o diretório estadual. Nildão fez é muito bem em consultar as bases e os trabalhadores, pois o seu partido não é o PD, o Partido dos Diretórios. Seu partido é o PT, o Partido dos Trabalhadores. Quem não consultou os trabalhadores que o fizesse. Ou que procure os que representam outras classes.

E do PT agradeço a todos os blogs que publicando os textos sobre o estaleiro, ajudaram a levar as informações sobre esse contrassenso por todo o Brasil. Todos os blogs e listas de apoiadores do governo Lula e da presidente Dilma, sobretudo ao Beatrice do Maranhão, à redecastorphoto de São Paulo, a Tribuna da Internet e ao “Quem Tem Medo do Lula” do Rio de Janeiro que muito torceram, apoiaram e divulgaram a luta catarinense. A minha amiga Lila de Brasília (não posso dizer exatamente da onde, mas é você mesma Lila Verão!) E ao Marcos Lula por indicar meu textos sobre o tema do estaleiro ao portal Dilma na Rede.

A força tarefa suprapartidária em prol de Eike Batista precisou invadir o gabinete da Ministra Izabella para tentar transformar o processo em questão política, e vocês nos ajudaram a lutar politicamente para manter a decisão técnica do órgão federal de regulação ambiental.

E agradeço também as palavras de incentivo de correspondentes do PSOL e do PV. Inclusive a da correspondente do DEM ou PSDB que nesta questão em particular encontrou um ponto de concordância comigo, sem cair no contrassenso dos que tentaram me convencer que a ameaça do estaleiro seria consequência de um governo inconsequente ou irresponsável.

Mas apesar desse contrassenso, a esses também se deve valorizar a participação na luta. Talvez doravante consigam entender com maior clareza o processo e aprendam onde encontrar aliados com bom senso e acima dos conceitos montados ou fabricados.

E por falar nos pré conceitos, há que se agradecer e aplaudir a comunidade do Jurerê Internacional que enfrentou inclusive seus antigos aliados da RBS e do Diário Catarinense com muita galhardia, arrostando-lhes a evidência da canalhice.

Haverá despeitados que dirão que só vencemos o bilionário Eike Batista porque vocês também são ricos, mas sabemos bem que isso é falácia e os admiramos por irem às ruas como multidão e como multidão carregar faixas e vaiar a Polícia Naval quando prenderam nossos maiores heróis nessa luta. Uma luta que começou aí do vosso lado, através da comunidade da Daniela.

E é preciso lembrar que foi a comunidade da Daniela que iniciou essa luta contra Eike Batista. Dos de Santa Catarina citei apenas os nomes do Nildão, porque foi individual e politicamente muito prejudicado no apoio que nos deu, e não quero citar o de mais ninguém para não ser injusto com tantos, mas preciso lembrar aqui, como exemplo, um diálogo entre Paulo Monteiro, o diretor da OSX e uma brava companheira da Daniela. Ao se encontrar frente a frente com a companheira num momento da audiência pública, Paulo tenta um sorriso e ruge: “Você é uma pedra no meu sapato”. Sem sorrir, ela decepa: “Então você vai ter de amputar o pé!”

Da comunidade do Sambaqui e Sto. Antonio de Lisboa nem preciso dizer nada. Nosso Boi, nossa Bernunça e o Baiacú de Alguém dispensam palavras. Mas quero agradecer o apoio e as informações do Sambaqui na Rede, a divulgação do Fala Sambaqui, e o Estala Estaleiro do Portal Desacato.

Hoje ganhamos uma guerra em que muita gente nos acreditou vencidos já no início, embora nós todos nunca duvidássemos disso de nosso bom senso em lutá-la. Nunca duvidamos de que a multidão derrota o bilhão. Nunca duvidamos de que não há exercito maior e mais do que o da multidão. Nem aqui e nem em Honduras.

É verdade que as amigas do ICMBio me tranquilizaram bastante já naquela audiência pública em que tentaram nos coibir e constringir, mas o dinheiro e as forças políticas bem poderiam ter pervertido o essencial sentido técnico da decisão, para a qual esta nota da OSX abaixo se faz uma saída honrosa, ou menos constrangedora.

Talvez conseguissem reverter, mesmo a contragosto da Ministra, obrigando o governo a aceitar pressões dos políticos catarinenses, com opinião pública manipulada pela RBS. Daí a grande importância de nossa luta que inviabilizou as tentativas e manobras nesse sentido, como quando conquistamos os passageiros da dezena de enormes ônibus de auto luxo para colher a gente pobre da periferia de Biguaçu que deveria fazer claque à OSX na audiência em que nos coagiam com teleobjetivas, tentando nos amedrontar com outra dezena de guarda-costas; mas ao final a claque da OSX aplaudiam nossas falas.

E nessa luta, tivemos um herói muito simbólico. Se há um momento em que pudemos ter certeza de que a partir daquele momento ganháramos a luta, foi quando a Polícia Naval conduziu nosso Pescador para a Capitania dos Portos.

A luta foi grande e vencemos o homem mais rico do país. Isso tem de ficar nos anais da história dessa região e desta cidade. Isso merece um marco, uma comemoração para que as futuras gerações jamais esqueçam do poder da multidão. E sugiro que ali, onde a Polícia Naval nos devolveu nosso herói, a ele seja erigido um marco. E que nele se inscreva: “Aqui, em tal data, um manézinho pescador desta baía fez o homem mais rico do Brasil tomar senso e ir embora desse canal!”

E quando outro voltar com novos contrassensos, a gente leva ate ali e mostra para ver se adquire um pouco de senso e não nos dá tanto trabalho.

Até a próxima luta, torcendo para que algum dia tenhamos melhores políticos para eleger no estado.         

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Comprovado! Existe: O PESCADOR!

Raul Longo

O Ministro da Pesca disse que ele não existe e todo mundo acreditou. Nem a moça que diz defender e representar os interesses de sua classe, apareceu para pedir opinião sobre o fim da atividade na região. Nem opinião nem voto. E olha que era época de eleição!

O empresário deitou falação sobre golfinhos dizendo que os levará para outra parte, que cuidará dos cetáceos, que ninguém precisa se preocupar com o “bicho” (conforme a esses animais se refere o “especialista” contratado pela empresa). Mas sobre ele, o Pescador, não disse uma palavra.

É como se não existisse mesmo. Pelo menos não tanto quanto os golfinhos que ao menos têm quem se preocupe com eles. E todo mundo acredita que golfinhos existam, apesar de só porem o dorso fora d’água e já afundam rapidinho!

Os técnicos e cientistas fazem cara feia pro empresário e falam em área de preservação, em reserva ambiental, em espécies ameaçadas. Mas dele ninguém fala nada. E é das espécies mais antigas daqui dessas bandas!

Muita gente aí, cheia das existências, chegou bem depois dele que tá aqui desde quase a época dos índios. Há quem diga até que, pelo lado de um antepassado, ele é meio índio.

Será que índio existe? Ou é só história dos antigos que acreditavam em tudo o que não existe? Vai ver ele deixou de existir de tão antigo que é!

O Ministro é moderno! Não vai ser tolo de acreditar em assombração!

Será que ele é assombração?

Se é assombração, pelo menos é uma assombração que se alimenta e se os técnicos e cientistas não falam dele, ainda assim estão defendendo a reprodução dos peixes. Enquanto existir peixe poderá manter a inexistência de toda a família.

E quando também não existir mais peixe e frutos do mar, o que é que ele vai fazer?

Varrer chão de estaleiro? Trabalhar de graxeiro de guindaste, de motor de navio cargueiro, de máquina de plataforma de petróleo?

A filha vai servir café, a mulher vai lavar macacão de operário, o filho será moleque de mandados e um dia, um dia quem sabe, poderá ir ao mercado comprar um peixe pro almoço de domingo. Vai ser peixe chique... Importado!

Desses que o Estudo de Impacto Ambiental do empresário bilionário diz existir aqui. Diz que existe, mas ele mesmo nunca viu. Não viu nem pescou porque é peixe de água doce que só existe no Estudo de Impacto Ambiental do bilionário. Pra quem não é bilionário, é peixe que existe em rio.

Vai ver que o Ministro não acredita em sua existência porque é do interior. Pode ser que nem conheça a capital e nunca viu o mar. É Ministro só de pesca de peixe de rio, peixe de Estudo de Impacto Ambiental.

Pescador de rio pesca de barranco e não sabe o que é ter de buscar a rede com tempestade ameaçando lá no fundo, por trás do morro do continente ou do outro lado da Ilha. Pescador de barranco não faz ideia do que é o vento rebojo rodopiando um barco no meio do canal, com medo de ser jogado na costeira. No barranco do rio não tem a correnteza gelada e cortante que sobe da Antártica arrastando as lanternas de ostras e os cachos de mexilhão que se tem de buscar no frio da madrugada.

Quem é do barranco, o que sabe do camarão ou da tainha? Tudo isso é lenda, mitologia. Conversa de pescador!

Será que ele é uma mentira?

Mas e o peixe do turista no hotel? A ostra no restaurante? O camarão do bar à beira da praia? É o quê?

O que ele pesca não tem em rio de Ministro nem em Estudo de Impacto Ambiental de bilionário, mas se ele realmente não existisse quem ia trazer esse peixe, pescar esse camarão, cultivar essa ostra e esse mexilhão?

Quem vai dar emprego ao garçom? Ao cozinheiro? À ajudante da cozinha?

O estaleiro também? Ou só o que existe, o que vai existir, será o estaleiro com seus 4 mil empregados trazidos de fora pra fazer o que ninguém aqui nunca fez nem tem ideia de como é?

Vão todos deixar de existir ou o estaleiro vai dar emprego para as camareiras, as moças das lavanderias de hotel? Os estafetas, gerentes, ascensoristas, aquele pessoal que arruma ocupação para hóspedes que não sabem que o pescador tem muito mais a divertir, a contar, a ensinar?

Músicos! Haverá quem considere romântico uma serenata ao luar se espelhando em nódoas de óleo ou verniz, químicas e venenos? Com torres de ferro e aço ao fundo?

Ou quem sabe a malevolente pachorra de um petroleiro inspire um nova dupla de Menescal/Boscoli ilhéus: “Dia de sol, festa de luz/e o cargueiro a fumegar, no oleado cinza do mar”.

O que será de sua cidade? Existirá a cidade? Se ele não existe, como pode existir a cidade? Toda a região de seis ou sete municípios? Até o Lúcio Costa, apesar de ter criado uma cidade do futuro, sabia que cidade nenhuma é apenas uma arrumação de prédios, avenidas, viadutos e interesses políticos e econômicos. Toda a humanidade sabe que uma cidade é seu povo, sua gente.

Roma é os romanos. A luz de Paris são as pessoas dos cafés, dos cabarés. Não existe Salvador sem os baianos. Não existe Rio de Janeiro sem os cariocas.

O que será de sua cidade se ele não mais existe? É ele a música da cidade, o motivo do desenho do pintor. É por ele que a rendeira trança os bilros, o artesão escalavra a madeira, o mercador mercadeja e o Mercado se faz festa a cada dia da semana. Só por ele é que se faz passeios, se dança, se brinca no boi-de-mamão, na dança-de-fita. É para ele o canto da ratoeira, o chiste, a fala, o dito, a graça e a piada.

Tudo aqui é ele e sem a sua existência será um lugar qualquer, sem cultura e sem história. Um lugar que será feio, sujo, fétido, sem amor e sem humor.

Mas quem haverá de ouvir essa verdade se na verdade do Ministro ele não existe? Não existe tanto quanto não existem, no Estudo de Impacto Ambiental do empresário bilionário, os peixes que pesca há tantos anos. E pescou seu pai e seu avô, e o avô do avô de seu pai.

O peso dessa ancestral inexistência recai em suas costas e, na tristeza do inexistir, o pescador se põe a olhar distraidamente à Ilha do outro lado do canal. O canal que é estreito e dá para divisar a fimbria da praia na outra margem.

Há um vulto na praia em frente. Talvez também acocorado sobre uma ponta de pedra. Um vulto cismático como o dele. E parece que está olhando à sua praia. Parece que está olhando para ele.

Reparando bem, há ali um barco. E se for do vulto aquele barco...

A silhueta distante se ergue. Se faz ereta, caminha ao barco e recolhe a poita. Mais um inexistente como ele!

Reconhecer aquele igual é uma última esperança na própria existência. Sente como um descobrir-se e, no estímulo da repentina sensação, acena. O vulto responde e aponta uma direção. Ele compreende: é preciso adentrar o canal em direção sul, ao centro da Ilha.

Seguindo para a sua embarcação, o pescador vê muitos de outros barcos zarpando de vários pontos da orla da outra margem. Ao subir para adentrar em seu barco, reconhece outros mais partindo das praias da margem de seu lado. Já se afastando da costa, percebe mais outros barcos adiante. Olha atrás de cada margem e vê que são muitos, todos seguindo à mesma direção sul, ao centro da Ilha. Mais e mais barcos com seus motores de popa martelando, ecoando no meio do silêncio do canal marítimo trincado de azul e sol.

De suas proas os pescadores se acenam e há naquele aceno uma multiplicação. Uma multiplicação impossível de ser imaginada pelo bilionário que para ser o homem mais rico do mundo, faz do X a divisão solerte da solidão. Mas o pescador, já não se dividi entre existir ou não existir, como quer o Ministro. O pescador se confirma em cada um daqueles pequenos barcos, em todos seus companheiros. E é nos companheiros, nos trabalhadores como ele, nos seus iguais, que o pescador redescobre a existência negada.

O tóc-tóc do motor em seus ouvidos tem um sentido que se repete nos motores de cada barco; o ao lado, o mais atrás, o que vai à frente, o que vem lá de longe. Naquela batida cartesianamente repetitiva, em seus ouvidos insiste uma verdade: “Eu existo. Eu existo. Eu existo.”

E a existência do pescador se tornou tão concreta e real que a Polícia Naval, apesar de nunca o ter enxergado em sua ínfima condição de senhor do imenso, desta vez reconheceu-lhe. Se não propriamente a existência, por uma inusitada insolência.

Mas no caso do Ministro ainda duvidar dessa existência, não confiando nem nos registros de atuação da polícia da Marinha, aí abaixo está Nossa Excelência, o Pescador, entrevistado pelo Portal PortoGente para que ninguém nunca mais duvide de que existe, sim, atividade pesqueira no canal da Ilha de Santa Catarina. A existência desse e de outros pescadores é uma demonstração clara de que o governo do Partido dos Trabalhadores terá de considerar a promoção de 20 mil desempregos reais e existentes, para ponderar a possibilidade dos 4 mil prometidos, e ainda hipotéticos.

E a existência desses pescadores tão negados quanto já foram os direitos de todos os trabalhadores desse país, inclusive daquele que nos resgatou da situação de progressivo e alarmante desemprego, me dá grande esperança de que um dia tenhamos um pescador como Presidente do Brasil.

Já se provou que um operário tem tudo para ser um presidente que dignifique o país e um dia será a vez de um pescador, de olho na bússola e firmeza no leme, nos defender das ganâncias dos bucaneiros que ainda existem em toda e qualquer parte. E como existem!


Notícia (entrevista) comprobatória da existência do... PESCADOR!

Texto atualizado em 09 de Novembro de 2010 - 01h46

PortoGente conversou com o pescador Wagner Vitorino, um dos jovens pescadores da Baía de São Miguel, em Biguaçu (Santa Catarina), que tem orgulho da sua profissão. Sua comunidade é localizada na área onde Eike Baptista quer construir o estaleiro da OSX. Ele participou da “barqueata” no último sábado (6) e conta como foi a apreensão do barco do seu irmão, Eliton Vitorino. “Voltamos pra casa soltando foguetes, porque jamais vamos nos esconder. Entramos nessa luta e vamos até o final”.

PortoGente - Quantos barcos foram apreendidos?
Vitorino - Foi só um barco apreendido, mas no mesmo dia já fomos lá na Marinha e foi liberado. Agora estamos esperando se vai vir a multa

PortoGente - Qual foi o motivo da apreensão?
Vitorino - O motivo foi porque estava sem alguns equipamentos e como o barco tinha acabado de ser reformado ainda estava sem o nome. Eles alegaram isso, mas nunca fazem essa vistoria toda. 

PortoGente - Qual a opinião de vocês sobre a apreensão?
Vitorino - Ficamos indignados porque moramos no meio de duas marinas e o que se vê de irregularidades... Essas pessoas saem de lancha cheias de vodka, todos os tipos de bebida, fazendo palhaçadas com as lanchas podendo causar até um acidente. Todos sabem que ninguém navega melhor que um pescador em nosso mar e muito menos conhece como nós conhecemos. Então se for para fiscalizar, que seja igual pra todos.


extraído de PortoGente

terça-feira, 20 de julho de 2010

O ESTALEIRO E A INSÂNIA

Introdução

Por Raul Longo

Melancolicamente, ao final do governo que mais fez pela preservação da qualidade de vida do povo brasileiro, se está ameaçando com a perpetração do que será o maior crime sócio/ambiental da história do Brasil, depois da invasão amazônica dos anos 70, durante a ditadura militar.

E o mais lamentável é que se o faz com o apoio e o aval de importantes nomes e cargos deste governo que muito fez por merecer um desfecho mais memorável e sem a mancha de ser aquele onde se iniciou a degradação humana e paisagística de um dos mais belos e internacionalmente valorizados pontos turístico do país, composto por uma de suas sociedades de mais singulares características.

Um crime estúpido e desnecessário, por meras exigências de máxima lucratividade com o mínimo investimento do homem mais rico do país. Crime cometido através do ludibrio de uma população tímida e ingênua e da compra de abjetos políticos prostitutos sem o mínimo pudor de se reafirmarem como tal na lembrança de todo, brasileiro e/ou estrangeiro, que um dia tenha conhecido e admirado a bela Ilha de Santa Catarina e suas cercanias.

O ESTALEIRO E A INSÂNIA

Edison Jardim

O empresário Eike Batista, que a imprensa noticia ser a pessoa mais rica do Brasil, e a revista norte-americana Forbes colocou, em seu ranking mundial de fortunas de 2.010, como ocupando a oitava posição, com um patrimônio estimado em US$ 27 bilhões, almeja construir, por intermédio da empresa OSX- o braço naval do seu conglomerado-, um mega estaleiro no município de Biguaçu, na grande Florianópolis, ao custo previsto de R$ 2,5 bilhões. Luiz Henrique da Silveira, que, como governador do Estado, revelou-se um “intelectual” sem nenhuma percepção e sensibilidade para a questão ambiental, prometeu-lhe vida fácil. Afinal, já havia reduzido a FATMA, o órgão encarregado dos licenciamentos ambientais do governo do Estado, a um mero escritório “carimbador” dos interesses dos empresários poderosos. Isso ficou muito claro desde a denominada: “Operação Moeda Verde”, deflagrada pela Polícia Federal no dia 03/05/07, com a prisão de influentes empresários, políticos e agentes públicos, inclusive da FATMA e da FLORAM, este o órgão ambiental de Florianópolis.

A FATMA se arvorava no direito de “cuidar” sozinha do processo de licenciamento ambiental do estaleiro. O estaleiro seria o galinheiro... O Ministério Público Federal em Santa Catarina, conhecendo a história da FATMA na “defesa” do meio ambiente catarinense, e respaldado na legislação vigente, ameaçou interpor as competentes medidas judiciais para garantir à participação dos órgãos ambientais federais no licenciamento do estaleiro, afinal, a navegação dos navios seria realizada num corredor de reservas federais. Sem moral para bater o pé, a FATMA perdeu a parada, embora continuando no circuito.

Recentemente, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade- ICMBio, órgão federal criado pela Lei nº 11.516, de 28 de agosto de 2.007, tendo procedido à análise do Estudo de Impacto Ambiental- EIA, apresentado pela OSX, tornou público alentado parecer redigido por cinco dos seus técnicos, cuja conclusão está vazada nestes termos peremptórios: “Considerando a incidência de impactos permanentes, negativos, de alto risco e irreversíveis para os ecossistemas costeiros e a biota da ESEC Carijós, APA do Anhatomirim e REBIO Arvoredo, incluindo a população de golfinhos-cinza, assim como para as atividades de maricultura, pesca e extrativismo no caso da APA do Anhatomirim e RESEX Pirajubaé, a equipe técnica integrante conclui pela inviabilidade ambiental do empreendimento para a alternativa locacional proposta. Portanto, recomendamos que o ICMBio não conceda a autorização requerida.” As abreviaturas acima têm os seguintes significados: ESEC é Estação Ecológica; APA é Área de Proteção Ambiental; REBIO é Reserva Biológica; e RESEX é Reserva Extrativista.

O risco ao meio ambiente é tão grande que o professor Paulo César Simões Lopes, reputado cientista de zoologia aquática, contratado pela OSX para elaborar os documentos legais de impacto ambiental, concluiu o seu parecer da seguinte forma:

“Sugere-se, fortemente, a recolocação do empreendimento para outra área, onde já existam complexos portuários fora de baías ou enseadas, de maneira que os efeitos nocivos não sejam potencializados como ocorre nas áreas internas”; recomendando, por fim, àquela empresa que “não aceite” bancar “o risco do passivo ambiental”.

O parecer técnico do ICMBio não é contra o empreendimento em si, mas defende com veemência, como visto, que ele seja realocado em uma outra área de Santa Catarina, dentre as três apontadas pelo próprio EIA apresentado pela OSX. Esta empresa recorreu para o Ministério do Meio Ambiente, em Brasília, ameaçando com a possibilidade de construir o estaleiro no Estado do Rio de Janeiro.

Seguiu-se uma mobilização maior ainda dos aliados de sempre: a classe política- o empresário Eike Batista já deve estar providenciando as devidas contribuições financeiras para as campanhas eleitorais- e as entidades associativas do empresariado, dentre as quais a Fiesc, Acif e Sinduscon- cada uma pensando somente nos rentáveis negócios futuros das empresas que representam.

Enviado por Raul Longo

segunda-feira, 12 de julho de 2010

REPASTO DE ILHA PARADISÍACA AO OLEO EM MOLHO DE CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL À MODA DA FLORIDA.

Raul Longo

Em breve ninguém precisará ir ao Golfo do México para assistir e experimentar um bom e gigantesco desastre ecológico. Está sendo preparado com bastante dedicação e será servido aqui mesmo, em Floripa.

Não na Florida, Flo-ri-pa! Ou, como carinhosamente chamavam os turistas argentinos: Flório.

Chamavam. Não chamarão mais. Afinal, não haverá mais qualquer razão de carinhos. Como Santos, a cidade do litoral paulista que muitos se orgulham por ser o maior e mais movimentado porto do Brasil, onde entram e saem as grandes riquezas da nação.

Mas quem consegue ter carinho por um horizonte de cargueiros e praias de areias tingidas de fuligens e dejetos náuticos?

Não confunda Floripa com Florida, nem esportes ou passeios náuticos com o que estamos falando, pois não falamos de windsurf, barcos a vela, veleiros, escunas e saveiros. Tampouco falamos de iates ou elegantes transatlânticos.

Estamos nos referindo a petroleiros, cargas gigantescas de óleo. Óleo igual aquele do Golfo do México.

Calma! Nada de pensar em catástrofes. Aquilo lá foi uma falha técnica na plataforma a quilômetros da costa. Não foi nenhum erro de prospecção da empresa contratada para análise das condições ambientais do local a ser implantada a extração.

Alarmistas já cogitam a possibilidade de ter sido a mesma empresa norte-americana contrata pela OMX para os estudos das condições ambientais do estreito e tranquilo canal marítimo que separa a Ilha de Santa Catarina do continente. Mas afora a idêntica nacionalidade, na verdade ainda não há nada que confirme tal cogitação.

Certo é que, segundo a OMX, os experientes técnicos da tal empresa passaram cerca de 10 meses ou exatamente um ano monitorando todos os movimentos de marés, ventos, correnteza e demais variáveis entre as quatro estações climáticas. E concluíram que o local é propício.

Propício a quê? Para mim, quando conheci essa baía norte, achei propício para viver, como tantos outros que também escolheram viver às margens desse canal. Garanto que, como eu, não imaginavam a possibilidade de acontecer o furacão Catarina.

Quem iria imaginar, mesmo com um ou dez anos do mais rigoroso monitoramento, que um dia ocorreria um furacão em qualquer parte do Brasil? Se fosse possível imaginar o vazamento do Golfo do México, a população e o governo da Florida não se arriscariam ao desastre que hoje quase supera a arrecadação de toda a história daquele estado.

Só louco se aventuraria à possibilidade da rabeira do Catarina, como tive de enfrentá-lo aqui! Felizmente não havia nenhuma British Petroleum por perto, mas o amanhã ninguém sabe e já que aqui estou, e na natureza ninguém manda nem prevê, apenas me resta rezar a Zéfiro e Euro, os deuses dos ventos de Homero, para que não soprem minha Tróia do mapa.

Mas saindo da linha das imprevisibilidades catastróficas e quiméricas, vamos ao concreto, real, sólido, firme como o ferro das plataformas petrolíferas a serem construídas pelo estaleiro da OMX nas tranquilas águas do canal da Ilha de Santa Catarina, frigida em fogo alto pelo gourmet Eike Batista.

O aroma exalado promete e já reuniu os primeiros convivas à mesa, lá em Brasília, todos com aquela fome típica de vésperas de eleições.

Apreciem a experiência e destreza do maître! Vejam como conhece os paladares de seus comensais! A ponto de reunir, em perfeita harmonia e numa mesma mesa, aqueles que daqui a pouco estarão acusando o que for eleito, pela indigestão que previsivelmente provocará o acepipe.

Não! Não voltamos às previsões catastróficas, pois se sabe perfeitamente que os que estão à mesa não correrão esse risco. A congestão ficará por conta dos que aguardam ansiosos e não vêem a hora de raspar o fundo da panela dos 3.500 empregos para instalação e 4.000 para operação, prometidos pelo empreendimento.

E o bom anfitrião também promete que aguardará pacienciosamente, com todo o “se tirer d’affaire”, a especialização da população local através de cursos gratuitos oferecidos pela própria OMX.

Não é uma maravilha? Da rede de pesca, das lanternas de maricultura, dos serviços de hotelaria, e outras atividades tradicionais da região; ao cartão de ponto para à solda, o andaime, a aplicação de anticorrosivos, tintas, solventes, aditivos e outros fluídos. Simples assim: aditivos e outros fluídos aqui nas tranquilas correntezas onde se espraiam as águas do Oceano Atlântico, junto a manguezais e estuários, berçário de fauna e flora que faz desta região um paraíso.

O Ministério do Meio Ambiente ainda não decidiu, mas pelo tamanho da fome e voracidade dos nobres e ansiosos comensais, podemos considerar que paraíso já era. Praticamente já não é mais. Pois paraíso é como dizia meu amigo Polé: “enquanto não pensarem o ambiente por inteiro, não haverá meio algum”.

Da sopa ao mel, faz lembrar os mesmíssimos argumentos em defesa do Floripa Shopping instalado no mangue do Saco Grande com promessas de emprego à comunidade do bairro do Monte Verde. De fato, estão todos lá trabalhando: de faxineiro, guarda noturno, cozinheira, porteiro e atividades similares. Mocinhas bonitas como recepcionistas, vendedoras, promotoras e engravatados gerentes chegam de carro, vindos de bairros menos próximos, como Agronômica, Centro, Canasvieiras, por aí.

De onde virão os técnicos, engenheiros, administradores, especialistas da área que aqui nunca existiu? Os fornecedores, serviços correlatos, terceirizados e demais de instantânea demanda?

São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Até da Florida ou qualquer outra parte deste vasto mundo globalizado. Todos convidados ao grande banquete!

Alojamento e hospedagem não é problema. É só desengavetar o projeto do prefeito de Florianópolis e vamos lá aos prédios de oito andares em cada praia, à beira-mar. 8? Será pouco. Que tal 12? Ou 40 como em Santos?

E o escoamento do tráfego da população duplicada? O saneamento básico? O tratamento de águas e esgotos?

Duplica-se a estrada, as avenidas, a Beira Mar. Duplica-se a Ilha! E tome mais aterros, túneis, pontes e viadutos! Afinal, há que se pensar nos desabrigados que chegarão depois dos morros tomados, das novas favelas montadas. E estes retardatários de todos os grandes e abruptos movimentos e concentrações populacionais, precisarão ir pra debaixo de algum lugar.

Em compensação, aumentam as riquezas, as compras, ofertas e procura. Arrecadação e especulação. Novos templos do comércio: lojas, magazines e mega shoppings igualzinho São Paulo, igual Nova Iorque até! Seremos uma Manhattan!

O Floripa Shopping, junto com o Shopping Iguatemi e outros empreendimentos igualmente previdentes como o Estaleiro da OMX, deram na Operação Moeda Verde, com Polícia Federal e tudo. Mas no repasto oferecido pelo Eike Batista, embora todos da mesma quadrilha estejam envolvidos, há novos convidados que garantem a lisura do processo. Se não exatamente isso, ao menos a segurança contra futuros incômodos, pois sabem como são os empreendedores e seus interesses: detestam ser incomodados.

No final da festa, haja detergente para lavar a louça suja! Mas façam a digestão sossegadamente porque a natureza levará alguns séculos ou milênios para limpar tamanha sujeira com a qual teremos de aprender a conviver.

E ainda há quem, em defesa do meio ambiente, reclame de uma latinha de cerveja boiando na praia!