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sábado, 20 de junho de 2015

China Zomba do G7: “Convescote de endividados”. E alerta que “Confronto será desastre para a Europa”


15/6/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin não foi convidado para a reunião do G7 na Bavária de Angela Merkel semana passada, o que significa que o presidente russo não apenas perdeu dois dias no cinematográfico Castelo Elmau, mas também perdeu a chance de sair com Obama para comprarem calças curtas de couro (lederhosen). Obama, a julgar pelo que disseram testemunhas oculares e algumas fotos divertidas, deixou sair o Clark Griswold que vive nele, enquanto caminhava pela cidade bávara de Krun.

Obama no papel de Clark Griswold

O G7 não está gostando nada-nada do modo como a Rússia vem-se comportando no Leste da Europa e, assim, Putin foi excluído daquele “Clube do Bolinha” universal plus Merkel, até que o Kremlin decida-se a promover os valores democráticos ocidentais.
Mas o G7 também é excelente oportunidade para exclusionismos, o que significa que não só exclui ex-super potências, como também exclui super potências em ascensão, e ninguém viu à mesa por lá tampouco Xi Jinping.
Mas “Xi, Tiozão” (como é afetuosamente chamado na China) não parece estar perdendo o sono, porque, aos olhos de Pequim, o G7 — muito parecido, nisso, com o FMI e o BDA (Banco de Desenvolvimento da Ásia) – não passa de relíquia inoperante de uma ordem econômica e política global que está adiantadíssima na trilha rumo à obsolescência, se já não chegou lá.
O Global Times (o qual, nunca me canso de repetir, pertence ao jornal do Partido Comunista governante, o People’s Daily) tem muito mais a dizer sobre por que o G7 é muito amplamente irrelevante no mundo moderno.

G7 visto pelos chineses


Das páginas do The Global Times:
A reunião de cúpula do G7 chegou ao término na Alemanha, semana passada. Especialistas e a mídia chinesa não mostraram qualquer interesse por aquela instituição informal ultrapassada, exceto quanto a uma Declaração sobre Segurança Marinha emitida por ministros de Relações Exteriores do G7. A declaração manifestou as preocupações dos signatários quanto a “ações unilaterais” no Mar do Sul da China; a China foi o alvo óbvio.
A julgar pela agenda e resultados da reunião do G7 esse ano, ela caminhou na direção oposta à tendência global a favor da paz, do desenvolvimento, da cooperação e converteu-se em mera ferramenta geopolítica.
Desde os primeiros tempos de existência o G7 sempre foi um clube de ricaços onde se reúnem as grandes potências ocidentais, e tem o objetivo de manter a hegemonia coletiva do Ocidente sob mando dos EUA. Sempre se focou em questões da economia mundial, e depois passou a ocupar-se também de negócios políticos e de segurança. Depois da Guerra Fria, a Rússia foi incluída no grupamento, que por pouco não se converteu em centro da governança global, e parecia que estavam resolvidos a substituir o Conselho de Segurança da ONU.
Mas os demais membros do G7 jamais trataram a Rússia como parceiro igual. A Rússia só era autorizada a discutir política e segurança, nunca assuntos financeiros e econômicos.
Quando o mundo entrou no século 21, novas economias começaram a emergir e o centro político e econômico do mundo foi-se transferindo gradualmente para o Pacífico Asiático. A crise financeira global de 2008 empurrou os membros do G7 para um impasse, e essas nações começaram a aperceber-se de que só conseguiriam livrar-se da crise com a ajuda das economias emergentes. Foi quando os EUA propuseram definir um G20 como a principal plataforma para discutir problemas econômicos internacionais. Dentro do G20, por mais que o G7, como um subgrupo, tente dominar a construção da agenda, o G7 nada pode fazer sem a cooperação de novas economias cujas vozes são mais claramente audíveis atualmente.
Contudo, países como os EUA e o Japão não conseguem, sem muita dificuldade, aceitar o crescente prestígio internacional das economias emergentes, e relutam em ceder a própria hegemonia. Quando a crise financeira amainou um pouco, a mídia “ocidental” pôs-se a propagandear vigorosamente o “renascimento” do G7. Mas a performance econômica dos membros do G7 mostra que a reunião foi um convescote de endividados.
Putin e Merkel um tanto "azedos"... 

Em certa medida, o papel do G7 na governança econômica global é negativo. O FMI e o Banco Mundial são controlados por membros do G7. Essa é uma das razões da baixa capacidade de implementação do G20.
No campo da política e da segurança, as potências ocidentais jamais se cansam de destacar a grande importância que teria o G7. Mas o G7 já mostrou que não é capaz de manter a estabilidade regional e, em vez de construir alguma estabilidade, levou o Oriente Médio ao caos. Depois da crise na Ucrânia, o ocidente excluiu a Rússia do G8 original, com o que criaram o atual G7, formato que já está a caminho de converter-se em relíquia da Guerra Fria.
Rússia e China foram alvos principais das discussões nessa reunião do G7. Resolveram continuar a pressionar a Rússia, enquanto prossegue a crise ucraniana. Quanto à China, ocuparam-se com questões relacionadas ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) e aos Mares do Leste e do Sul da China. Mas vale a pena registrar que membros europeus manifestaram posição diferente de EUA e Japão, nos dois assuntos.
Se o G7 será convertido em ferramenta geopolítica ou em relíquia da Guerra Fria e coisa que depende largamente dos países europeus. Diferente dos EUA, a Europa mantém laços geopolíticos e econômicos muito íntimos com a Rússia. Se o G7 for convertido em plataforma para confrontação entre o ocidente e a Rússia, sem dúvida será um desastre para a Europa. Buscar solução pacífica para a crise ucraniana com a Rússia, isso sim, serve bem aos interesses europeus. Quanto às disputas nos Mares do Leste e do Sul da China, a milhares de quilômetros de distância do continente europeu, esses países não precisam envolver-se necessariamente.
Durante a reunião do G7, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe tentou atrair países europeus para o vagão japonês anti-China. A China deve continuar a desconfiar muito do governo japonês.
Claro que tudo isso tem de ser tomado com um grão de sal, considerando que vem diretamente do Politburo – mas não há dúvidas de que há aí algumas importantes observações a serem analisadas com atenção.
Xi Jinping (New Yorker)

Por exemplo, a China toma como iguais o G7, o FMI e o Banco Mundial, essas últimas duas instituições que Pequim, pode-se dizer, está desafiando diretamente com seu BAII e o Fundo “Rota da Seda”. Em público, a China tem cuidado para manter posição de conciliação em relação a bancos de financiamento multilaterais. Isso, em parte, porque a China não tem interesse algum em arrepiar quaisquer penas entre os países ocidentais que assumiram algum considerável risco político ao jogarem o próprio peso no prato BAII da balança, apesar da feroz oposição de Washington. Além disso, adotar posição declarada e abertamente crítica contra instituições cujos objetivos são ostensivamente semelhantes aos do BAII, cria o risco de enviar mensagem errada aos países que dependem da ajuda de instituições supranacionais.
Isso posto, fazer equivaler entre eles o FMI, o Banco Mundial, o Banco de Desenvolvimento Asiático e o G7, antes de subsequentemente chamar o G7 de “relíquia da Guerra Fria” é uma espécie de saída pela tangente, sugerindo que as instituições multilaterais dominadas por membros do G7 estão também, por causa das lideranças às quais servem, a caminho da irrelevância.
Além do mais, afirmar que “a performance econômica dos membros do G7 mostra que a reunião foi um convescote de endividados” é, por um lado, hipocrisia (afinal de contas, a China está sentada sobre dívida de US$ 28 trilhões); mas por outro lado dá conta do fato de que, ainda que o crescimento da China seja hoje mais lento, com Pequim fazendo uma difícil transição de uma economia puxada a investimentos, para um modelo de economia movida a consumo, o crescimento econômico no ocidente simplesmente não existe, parou; e quanto ao Japão, bem... Tóquio luta desesperadamente contra um pesadelo deflacionário há décadas, doença que a Abe-conomia ainda não deu jeito de curar.
Em outras palavras, talvez até se possa dizer que o milagre econômico chinês estaria enfrentando um “pouso difícil”. Mas com certeza não há como negar que, mesmo nesse estado “difícil”, a máquina econômica chinesa ainda consegue superar, em desempenho, o ocidente.
Por fim, e talvez o mais importante de tudo, a China sugere que a dominação por Washington levou o G7 a adotar políticas externas míopes, que conspiraram para incendiar o caos sectário que se vê hoje no Oriente Médio (hoje, a verdade é que os EUA já não tem nem ideia, nem meios para saber, quem os norte-americanos apoiam, se milícias xiitas, e onde; ou milícias sunitas, e onde). E criaram condições para uma 2ª Guerra Fria no Leste da Europa.


A exclusão deliberada da Rússia, Pequim está dizendo, ameaça converter o G7 no que seria efetivamente um braço político da OTAN. E isso compromete qualquer possibilidade de a instituição poder ser agente promotor de paz e cooperação.
Mais uma vez, sim, há aí muita propaganda servida quente, saída diretamente da cozinha do Partido Comunista. Mas... não há como negar que a análise geopolítica subjacente é perfeita e acuradíssima, ainda que nos seja servida em pratos de hiperbólica porcelana.
O G7, como o FMI e o Banco Mundial, vai-se rapidamente convertendo em vítima da arrogância dos seus membros mais poderosos. Algum senso dominante do excepcionalismo dos EUA pode vir a criar ali o mesmo tipo de autocomplacência e rigidez que paralisou o FMI. E pode acontecer já, antes até de as potências mundiais emergentes superarem corpos políticos já bem firmemente constituídos, exatamente como aquelas mesmas potências moveram-se e superaram instituições econômicas imprestáveis.
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[*] Tyler Durden é nome de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).e pseudônimo coletivo dos redatores de notícia “que contribuem” para o site e agregador de conteúdos Zero Hedge, especializado em relatórios sobre Economia, Wall Street e Setor Financeiro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Rússia, China – nem aliadas nem rivais

22/12/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline− rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Relações Rússia - China
Têm circulado ultimamente algumas teses surpreendentes, inclusive entre especialistas e jornalistas indianos, segundo as quais, na sequência de tensões da Rússia com o ocidente, Moscou ter-se-ia ‘'pivoteado'’ para a China, em termos estratégicos, e estaria tomando forma um eixo sino-russo na política mundial; e essas duas potências “orientais” estariam determinadas a desafiar os EUA.

Alguns especuladores chegaram até a fantasiar que o destino do dólar norte-americano estaria selado e que seria questão de meses, antes que o sistema de Bretton Woods viesse abaixo.

São elucubrações de pura fantasia, e quem tenha acompanhado a trajetória das relações russo-chinesas ao longo das últimas décadas sabe que há complexidades (e contradições) demais envolvidas nessas relações, e que em nenhum caso esses países simplesmente decidiriam, um belo dia, abraçar-se e tornar-se aliados.

Paradoxalmente, a estratégia dos EUA para Rússia e China está construída sobre a certeza virtual de que elas jamais possam formar um eixo no sistema internacional.

Claro que, em nome de fomentar as tendências ao “policentrismo” na política mundial, Rússia e China devem andar ombro a ombro. Mas, daí em diante, tal ideia permanecerá para sempre no domínio do wishful thinking (“pensamento desejante”) – ou como delírio de fumaças cachimbadas.

A China é potência muitíssimo autocentrada e “pragmática”, para pensar em alistar-se em alianças; e a Rússia, por sua vez, é ferozmente independente nas suas políticas externas, além de intensamente consciente e orgulhosa da própria história, e em nenhum caso se alistará como ‘parceira júnior’ de qualquer outro estado.

O presidente Vladimir Putin disse, há algumas semanas, na fala à Assembleia da Federação Russaem Moscou, que a Rússia jamais se porá em posição de potência militar inferior a qualquer país. Falava simultaneamente à China e aos EUA.

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Dois editoriais do jornal Global Times, voz do Partido Comunista Chinês, durante a semana, lançaram ainda mais luz sobre como a China vê a grave crise que a Rússia enfrenta, e qual deve ser a posição da China, na Guerra Fria da Rússia com os EUA. Como são editoriais, com certeza manifestam o pensamento chinês oficial.

Ponto interessante a ser observado aqui é que os dois editoriais apareceram imediatamente um antes, o outro depois da tradicional conferência anual do presidente Vladimir Putin da Rússia com a imprensa, no Kremlin, 5ª-feira, 18/12/2014.

Putin na Conferência de Imprensa em 18/12/2014
Para ser exato, o primeiro editorial do Global Times apareceu dia 17/12/2014, 4ª-feira, e o segundo, dia 22/12/2014 (quatro dias depois do evento no Kremlin).

E – detalhe interessante –, houve uma leve ‘correção de rota’, pelo Global Times, entre os dois editoriais, da 4ª-feira passada e de hoje.

A conferência anual de Putin com a imprensa no Kremlin estava marcada há semanas, e esperava-se que as tensões entre Rússia e EUA dominariam as conversas na 5ª-feira. De fato, o timing do editorial do Global Times, naquela 4ª-feira, véspera da conferência de imprensa, é detalhe que também se tem de considerar.

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editorial do Global Times (17/12/2014) na 4ª-feira pintava quadro alarmante da economia russa, mostrando-a na iminência de uma crise sem precedentes, e avaliando o futuro da Rússia como “imprevisível”.

A crise seria comparável ao colapso da extinta União Soviética. O editorial dizia que a crise impunha “novos desafios ao governo do presidente Vladimir Putin, obrigando-o a aplicar uma estratégia defensiva”; ao mesmo tempo, observava que também há preocupações sobre “[o presidente Putin] tornar-se mais agressivo”.

Os comentaristas chineses tradicionalmente tratam Putin com luvas de veludo, como se fosse herói invencível; sugerir que ele pudesse executar movimento errático é diferença notável.

No geral, o editorial estima que a Rússia superará a crise no curto prazo e que “a ameaça de colapso ainda é distante”. Mas prossegue, e diz que a China é fator significativo no envolvimento estratégico da Rússia e, portanto, a “opção mais realista” que Putin tem à frente é aceitar o apoio chinês.

Contudo, lê-se lá, a cooperação sino-russa “não é mais baseada em ideologia, mas movida por interesses comuns”; assim sendo, a China não deve ser “proativa”, mas deve, isso sim, esperar que Moscou peça ajuda.

A linha de mais peso segue daí em diante, até o fim do editorial, quando o comentarista avalia que a Rússia provavelmente “recalibrará” suas estratégias nacionais para lidar com a crise, mas nada assegura que venha a aproximar-se mais da China; e do lado chinês, portanto, as relações com a Rússia têm de ser conduzidas com base na reciprocidade.

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Pode-se quase dizer que esse editorial é estarrecedor, pelo que “adivinha”. Dia seguinte, Putin disse com absoluta clareza, na conferência com a imprensa, que a Rússia planeja apertar os cintos e sobreviver com seus próprios meios por cerca de um ano, até que a economia mundial volte a crescer; e que, nesse período, a Rússia propõe-se a levar a efeito uma muito necessária reforma estrutural, com vistas a reduzir a dependência da renda do petróleo.

Putin também desmentiu o noticiário de propaganda do ocidente, sobre a economia russa. Explicou a posição confortável das reservas em moeda estrangeira e destacou que não haverá cortes nem no setor social nem nos gastos com a Defesa.

No que tenha a ver com a China, Putin não mostrou qualquer sinal de que Moscou cogite pedir ajuda aos chineses ou, mesmo, que haja qualquer reflexão sobre a Rússia vir a “depender” da China.

Mega negócio de gás Rússia-China
Significativamente, Putin deu mais uma volta no parafuso do recente meganegócio de gás com a China, ao mesmo tempo em que negou claramente qualquer movimento de “pivô” em direção à China, na estratégia russa de exportação de energia, como alguma espécie de efeito do esfriamento nas relações com a Europa. O que Putin disse foi:

Quanto à energia, a demanda por recursos segue curso de saltos e rebotes na China, na Índia, como também no Japão e na Coreia do Sul. Tudo está em desenvolvimento mais rápido aí, que em outros pontos. Deveríamos por acaso deixar passar nossa oportunidade? Os projetos nos quais estamos trabalhando foram projetados e planejados há muito tempo, muito antes de começarem os problemas que temos hoje na economia global ou na economia da Rússia. Estamos simplesmente implementando planos que já estavam em andamento há muito tempo.

Jornalistas e comentaristas ocidentais distribuíram a “versão” segundo a qual a Rússia teria feito “concessões” à China, como se estivesse em posição de fraqueza. Mas Putin disse coisa completamente diferente:

Sobre o contrato chinês – não é projeto para perder. Há vantagens para os dois lados, os dois lados, repito. A China ofereceu alguns benefícios – não são benefícios extraordinários, nada disso. O governo chinês simplesmente decidiu oferecer algum suporte aos que participam do projeto. Nós, também, aceitamos fazer o mesmo. Assim o projeto tornou-se definitivamente lucrativo. Definitivamente.

Além disso, acertamos também uma fórmula para fazer preços, que não é muito diferente, se houver alguma diferença, da que se aplica nos nossos contratos com a Europa, exceto pelos específicos coeficientes para o mercado regional. É prática regular.

Também, ajudará a Rússia, que receberá e acumulará recursos gigantescos no estágio inicial do projeto, para começar a conectar nossas regiões do Oriente Extremo às grades de distribuição de gás, não só para exportar gás pelo gasoduto. Assim teremos condições para dar o passo seguinte – muito importante. Poderemos conectar um ao outro os sistemas ocidental e oriental de gás, e rapidamente recanalizar recursos numa direção, ou noutra, conforme o mercado internacional. Isso é muito importante. Sem isso, nunca conseguiríamos conectar o leste e o extremo leste da Sibéria ao sistema de distribuição de gás.

Vê-se portanto que o projeto carrega muitas vantagens mútuas. Para nem falar de que se trata de gigantesco canteiro de obras, que criará novos empregos e renda em todos os níveis e fará reviver o Extremo Leste da Rússia e toda a região.

Vladimir Putin e Xi Jinping em Fortaleza, BR
 (BRICS - 2014)
O que se vê é que Putin insistiu em chamar a atenção para o fato de que a cooperação Rússia-China no campo da energia foi determinada exclusivamente por considerações econômicas e de interesse para os dois lados, com mútuos benefícios. De modo bem sutil, deixou bem sinalizado que Moscou não está, de modo algum, diluindo os laços “energéticos” que a ligam à Europa; que está, de fato, criando um elo entre seus sistemas ocidental e oriental de gasodutos, pelos quais poderá “rapidamente recanalizar recursos numa direção, ou noutra, conforme o mercado internacional”.

Em termos políticos, Putin disse também ao correspondente da rede Xinhua, na conferência de imprensa, que a cooperação com a China no Conselho de Segurança da ONU é “elemento importante para estabilizar a situação internacional”, e que há “muitos interesses comuns no cenário internacional, como a estabilidade internacional”. Ponto. Parágrafo.

O que não foi dito foi que a última coisa na cabeça de Putin, durante as três horas que durou aquela conferência de imprensa, seria pedir que a China “resgatasse” a Rússia. Claro que, sem dizê-lo nas linhas, mas operando nas entrelinhas, Putin também reduziu a lixo a interpretação chinesa alarmista da “crise” russa.

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Interessante: o segundo editorial de Global Times, publicado hoje (22/12/2014), quatro dias depois da conferência de imprensa de Putinjá não apresenta a Rússia em tom e termos apocalípticosAvalia que, ao contrário, se sanções jamais funcionaram contra Cuba e Irã, por que e como seriam “a palha que quebraria o lombo do camelo” no caso da Rússia?

E destaca:

O poder de Vladimir Putin não poderá ser derrubado simplesmente pela inflação atual. A Rússia já conheceu muitos altos e baixos, e tem a tenacidade necessária para sobreviver a riscos e perigos.

O comentarista também deixa de lado o tom “superior autoritário” do primeiro editorial, para admitir que:

A Rússia não quer ser vassalo da economia chinesa, e a China deve compreender claramente essa linha vermelha (...) A China deve manter atitude positiva para ajudar a Rússia a vencer essa crise. (...) Mas o que façamos para ajudar será limitado por o que a Rússia nos solicite.

— Isto que é um PIVÔ!
A impressão absolutamente inevitável é que os editorialistas chineses do PCC caíram, de início, na armadilha das previsões ocidentais catastrofistas para a Rússia. Mas depois, tendo lido os pensamentos de Putin durante a conferência de imprensa da 5ª-feira (18/12/2014), conseguiram reagir e rapidamente escaparam da armadilha.

Por outro lado, o comentário do Global Times do dia 22/12/2014, também busca delimitar um território intermediário entre EUA e Rússia. Lá se lê que

(...) a China deve atuar como mediador ativo entre Rússia e EUA, ou terá de encarar inevitáveis riscos geopolíticos, se o conflito entre aqueles países escapar de controle.

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Fato é que jamais passaria pela cabeça de Moscou convidar a China para mediar suas diferenças com os EUA. Moscou sabe muito bem que China e EUA acabam de assinar em Chicago negócio monstro de comércio e investimento, que equilibra maior acesso para empresas norte-americanas, com movimento recíproco, de Washington, que está eliminando restrições a exportações de alta tecnologia para a China. (China Daily).

O vice-premier chinês Wang Yang disse aos seus anfitriões nas negociações em Chicago que China e EUA “Têm muito mais interesses comuns, que diferenças”, e que a cooperação econômica e comercial entre os países prosperará, se os dois países “buscarem terreno comum, enquanto vão superando as diferenças” em espírito de respeito mútuo, compreensão mútua e mútua acomodação. (China Daily).

Por falar disso, a divergência entre as perspectivas russa e chinesa sobre políticas dos EUA é, de fato, bem clara. Putin repetiu na conferência de imprensa, que os EUA alimentaram a insurgência na Chechênia, instigaram os rebeldes e seguiram política pouco amistosa para com a Rússia, com o objetivo de cercar, sitiar e enfraquecê-la. Nas palavras de Putin;

Não foram eles que nos disseram, depois do fim do Muro de Berlin, que a OTAN não avançaria para leste? Fato é que a expansão começou imediatamente. Houve duas ondas de expansão. Já não há muro? É verdade. Agora é muro virtual, mas o avanço prossegue. E o sistema de defesa antimísseis sobre nossas fronteiras? Não é um muro?

Vejam... o avanço contra as fronteiras russas nunca parou. Essa é a principal questão hoje, das relações internacionais. Nossos parceiros não pararam de avançar. Decidiram que teriam sido vencedores, que seriam império, e que o resto do mundo ficava como vassalos deles, e que tinham de mantê-los sob cerco.

É claro que a China não comunga dessa fúria existencial. Dito em outros termos, os EUA com os quais Putin tem de negociar e conversar não é o mesmo país com o qual o presidente Xi Jinping da China sonha com construir novo tipo de relacionamento.

Não surpreendentemente, Putin convidou o líder da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) Kim Jong Un para visitar Moscou em maio próximo (2015) e participar das cerimônias do 70º aniversário da derrota da Alemanha nazista, pelo Exército Vermelho soviético.

O convite surge no momento em que as relações entre China e a RPDC atingem um pico muito negativoXi ainda não visitou a RPDC e ainda não se encontrou com Kim como presidentes; de fato, em julho/2014, Xi visitou a Coreia do Sul e não foi a Pionguiangue


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Esperar para ver: EUA e a “não contenção”

15/2/2014, Global Times, Pequim, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Kerry cumprimenta om Presidente Xi Jinping em visita à China em 14/2/2014
Durante a visita de John Kerry à China na 6ª-feira (14/2/2013), o Secretário de Estado dos EUA disse que os EUA saúdam o crescimento pacífico da China e não têm intenção de “conter” a China, segundo a Agência de Notícias Xinhua.

Não importa se o que Kerry diz é verdade ou não, comparado às ações passadas dos EUA. A clara manifestação dessa posição já é bem-vinda.

Têm havido continuadas preocupações na China sobre o país ser “contido” pelos EUA. Muitos dos recentes movimentos dos EUA reforçaram essas preocupações. Desde que os EUA declararam seu “pivô” na direção do Pacífico Asiático, a situação em torno da China tem estado tumultuada. O Japão anda cada vez mais para a direita, com Shinzo Abe cada vez mais ousado nos desafios à China; as Filipinas também saltam de um lado para outro nas disputas territoriais; e a influência dos EUA por trás deles com certeza tem seu papel.

Os EUA têm insistido em que não “conterão” a China. Mesmo que o que dizem algumas vezes contradiga a percepção dos chineses, a ideia criará uma boa atmosfera para melhor relacionamento entre os dois países.

A China não tem poupado esforços para tornar-se parte de um mundo globalizado. Os EUA sabem bem disso, embora suas políticas para a China nem sempre atinjam os pontos certos.  

Os EUA não estão confrontando ativamente a China; mas tampouco estão cooperando ativamente conosco.

Você é o próximo...
Analistas resumem a estratégia da China como “engajamento, sem baixar a guarda”. Os EUA tornaram-se cada vez mais sensíveis nos anos recentes, e mais desconfiados sobre a China. O povo chinês observa, não raras vezes, que os EUA dizem de um modo e agem de modo diferente. Assim, os EUA mostram que desconfiam da China.

As suspeitas e desconfianças crescentes de lado a lado resultaram em riscos crescentes e custos, no relacionamento China-EUA. Os EUA foram os primeiros a criar nós no relacionamento; bem fariam a eles mesmos se cuidassem de desatar aqueles nós.

Os dois países vêm tentando construir um novo tipo de relacionamento entre grandes potências. Embora ideias antiquadas, como “contenção” e “alerta” ainda persistam, já se desenvolvem também ideias novas. Mesmo sem saber muito claramente o que são essas coisas novas, os dois países devem, conjuntamente, dar a elas uma chance. Mais contatos e trocas entre os governantes dos dois países são necessários e mutuamente benéficos.

Enquanto a China conseguir mostrar-se sincera na busca de crescimento com paz, os EUA e outros países não encontrarão pretextos para pôr-se a ‘conter’ estrategicamente a China.

Kerry disse alguma coisa, na tentativa de pressionar a China, como os políticos dos EUA sempre fazem. Mas também trocou ideias, razoavelmente, com governantes chineses e mostrou alguma boa fé. Que o que ele disse a favor de os EUA não “conterem” a China tenha pelo menos algum impacto, durante algum tempo, no comportamento de Washington. Não é pedir muito.