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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pepe Escobar: EUA “pivoteiam-se”, China colhe dividendos

24/4/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A demência dos EUA encarnada no "Projeto para o Novo Século Americano"
Para começar, um flashback até fevereiro de 1992 – dois meses depois da dissolução da União Soviética. Primeira versão das Orientações para Planejamento da Defesa [orig. Defense Planning Guidance]. Adiante, foi suavizado, mas ainda serviu como base para a demência excepcionalista encarnada no “Projeto para o Novo Século Americano”; e reapareceu em toda sua glória em O Grande Tabuleiro de Xadrez do Dr. Zbig “Vamos tomar a Eurásia” Brzezinski, de 1997.

Está tudo lá, cru, azedo e acabado:

Nosso primeiro objetivo é impedir a reemergência de novo rival, seja no território da ex-União Soviética ou onde for, que gere ameaça da ordem que a União Soviética gerou. Isso (...) exige nos empenharmos para impedir que qualquer potência hostil venha a dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global. Essas regiões incluem a Europa Oriental, o Leste da Ásia, o território da ex-União Soviética e o sudoeste da Ásia.

Aí está tudo que é preciso saber sobre o “pivoteamento” para a Ásia, do governo Obama, e também sobre o “pivoteamento” para o Irã (“já que não iremos à guerra”, como o Secretário de Estado, John Kerry deixou escapar), e sobre o “pivoteamento” para a Guerra Fria 2.0, usando a Ucrânia como um “novo Vietnã” remix, logo ali, ao pé da porta da Rússia. E esse é também o contexto crucial da coleção de primavera Pax Americana de Obama atualmente em exibição em seletas passarelas asiáticas (Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas).

O tour asiático de Obama começou essa semana em todo seu esplendor no afamado restaurante “Jiro” (vídeo-trailer no fim do parágrafo) em Ginza, Tóquio, ingerindo nigiri sushi, tomara que não de Fukushima, nem radioativos (furo: estive lá, em 1998, quando o mestre dos sushis, Jiro Ono, não era absolutamente celebridade e os sushis não eram absolutamente atômicos). 


O anfitrião de Obama, militarista/nacionalista linha-duríssima Primeiro-Ministro, Shinzo Abe, obviamente pagou a conta. Mas a verdadeira conta chegou depois, com o Japão curvado a todas as duras demandas dos EUA – no comércio, nos investimentos, na nova lei para empresas e de propriedade intelectual – reunidas na Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] de 12 nações, que é codinome de “o Big Business norte-americano afinal meteu o pé na porta e entrou no super protegido mercado japonês”.

Abe é freguês durão. Tem retórica pesada sobre “escapar ao regime pós-guerra”, rearmar o Japão e deixar de servir como jogador de alambrado, em termos militares, para Washington na Ásia. O Pentágono, claro, tem outras ideias. Na era pós-sushi no Jiro, o que interessa a Obama é forçar o Japão a curvar-se, não só ante a TPP como, também, ante a necessidade de manter subordinado à agenda norte-americana mais ampla o movimento de armar o Japão. 

Barack Obama e Shinzo Abe cumprimentam-se à entrada do restaurante Jiro
Pequim, como se poderia prever facilmente, vê tudo isso como tudo isso realmente é – como se lê em coluna publicada na rede 
Xinhua: ações de uma superpotência “anacrônica”, “esclerosada” e “míope”, que bem fará se “livrar-se das algemas históricas e filosóficas que a mantêm cativa
” (“Dinamismo da Ásia exige que EUA reformatem suas políticas anacrônicas”, 23/4/2014, Deng Yushan, Xinhua, Pequim, traduzido na redecastorphoto).

O braço sudeste-asiático do pivô e desfile de Obama para apresentar a Coleção Primavera [“Pivoting” também se aplica aquela “voltinha” altamente científica que as modelos dão nas passarelas de moda. Vê-se (e aprende-se) em vídeo no fim do parágrafo] tem a ver, todo ele, com garantir a Malásia e Filipinas, não militarmente tão fortes quanto o Vietnã, que a Marinha dos EUA jamais será substituída como o hegemon do Mar do Sul da China; e que não se admitirá, sequer, que a China torne-se equivalente.


Esse afinal é o coração da matéria da pivotagem para a Ásia, como ferramenta para conter a China: impedir que a China venha a tornar-se potência naval simultaneamente no Oceano Índico e no Pacífico Ocidental.

O Pentágono, previsivelmente, está tomado de surto paranoico, acusando a China de fazer, não uma, mas “três guerras” contra os EUA.

O caso é que Pequim está desenvolvendo uma base subterrânea hiper-mega-super high tech para 20 submarinos nucleares na ilha Hainan, enquanto a Malásia amplia sua própria base de submarinos em Bornéu, e as Filipinas só fazem suplicar a Washington que mande mais aviões, mais navios, mais largura de banda e ciber-capacidades, como proteção para fazer o que veem como sua absoluta prioridade: procurar petróleo e gás no Mar do Oeste das Filipinas para estimular a economia.

Me irradie com negócios, baby

A Coleção Primavera não está conseguindo tirar de cenas outras pivotagens – cujos modelos mais recentes se veem na atual campanha “antiterroristas” no leste da Ucrânia, pelos mudadores-de-regimes em Kiev, e que seguem um calendário estranhíssimo. John Brennan da CIA passa por Kiev... e os mudadores-de-regime lançam seu primeiro ataque ali mesmo contra o “terô” [terror], como dizia Bush. Vergonhoso fracasso. O vice-presidente Joe Biden aparece em Kiev... e os mudadores-de-regime, na horinha, já vêm com mais guerra ao “terô”.

Assim a pivotagem para a Guerra Fria 2.0 segue inabalável, com Washington trabalhando duro para erguer uma cortina de ferro entre Berlin e Moscou – impedindo que se integrem ainda mais pela Eurásia – mediante a instigação de uma guerra civil na Ucrânia. A Chanceler alemã, Angela Merkel continua equilibrando-se no arame: ou alta-fidelidade atlântica, ou sua Ostpolitik – e Washington quer que ela fique bem onde está, por um fio.

Ilhas Senkaku/Diaioyu disputadas por China e Japão (uma nova Crimeia)
Quanto às facções de doidos-pirados-totais que circulam nas portas giratórias que conectam think-tanks-governo-imprensa-empresas em Washington, vale tudo, desde “alertar” a China para não “tentar uma de Crimeia”, até pregar a favor de guerra à Síria e, até, que a OTAN entre em guerra nuclear, como se lê em coluna assinada por alguém que muito apropriadamente atende pelo nome de Anne Marie Massacre [orig. Slaughter]. É o que essa senhora ensina a seus alunos excepcionalistas em Princeton. 

E como Pequim está reagindo a essa histeria toda? Simples: Pequim recolhe os dividendos. Pequim ganha com a ofensiva dos EUA que tentam separar Moscou e os mercados ocidentais, porque assim consegue melhor preço para o gás leste-siberiano que compra. Pequim ganha com o medo, na União Europeia, de perderem negócios com a Rússia, porque assim negocia acordo de livre-comércio com seu principal parceiro comercial que acontece de ser, precisamente, a União Europeia.

Wang Yi - MRE da China
E, sim, vejam o exemplo mais definitivamente claro: comparem o desfile da Coleção Primavera de Obama, com coda de pivoteamento, à recente viagem por Cuba, Venezuela, Brasil e Argentina, do Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi. Pura bonança de negócios, focada em financiamentos bilaterais e, claro, acordos e mais acordos comerciais.

Há de tudo no pacote: cobre peruano e chileno; soja e ferro brasileiros; apoio aos projetos sociais venezuelanos e desenvolvimento energético; apoio a Cuba, que promove maior envolvimento dos chineses na Venezuela, o que gera energia a preço subsidiado para Cuba.

E, isso, num contexto em que Washington só faz repetir, excitadíssima, que a economia chinesa enfrenta terríveis dificuldades. Nada disso. A economia chinesa cresceu 7,4% ao ano, no primeiro trimestre de 2014. A demanda por ferro e cobre não diminuirá significativamente – porque a urbanização comandada por Pequim ainda não chegou, sequer, à velocidade máxima. O mesmo vale para a soja – com milhões de chineses começando a comer carne regularmente (os produtos de soja são itens cruciais para a alimentação do gado). E, claro, o apetite insaciável das empresas chinesas, que se querem diversificar por toda a América do Sul.

Quanto à grande e crescente classe média chinesa – a caminho de se tornar membro de pleno direito da primeira economia do planeta já em 2018 – essa Coleção Primavera de Obama é nada. Ele/ela podem perfeitamente ir a Hong Kong e fazer filas em Canton Road para comprar MUITO de Hermès e Prada. Na sequência, podem estrategicamente celebrar com sushi padrão Jiro (não os radioativos, à Fukushima).




[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Pepe Escobar: Os B-52s cantam “Pivô rumo à Ásia”

28/11/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fortaleza voadora Boeing B-52, bombardeiro estratégico da Força Aérea dos EUA (Foto: Tim Chong)
Então, um par de bombardeiros norte-americanos B-52 fizeram uma excursão até o Mar do Leste da China, sobrevoando aquelas ilhas rochosas que a China chama de Diaoyu e o Japão, de Senkakus – cercadas por uma fabulosa riqueza de gás e petróleo ainda por explorar.

Os B-52s gêmeos decolaram de uma base dos EUA em Guam e invadiram a Zona Aérea de Identificação de Defesa (ZAID) da China [orig. Air Defense Identification Zone (ADIZ)], poucos dias depois de a Zona ter sido declarada.

Zona Aérea de Identificação de Defesa (ZAID) da China

Ocultado na bruma do “excepcionalismo” de rotina, ficou o fato de que ambos, EUA (em 1950) e o Japão (em 1969), para nem falar de Rússia, Indonésia e outros países, também demarcaram suas respectivas Zonas Aéreas de Identificação de Defesa (ZAIDs) – o que, na essência significa que os aviões em entrem naquele específico espaço aéreo têm de identificar-se.

Carolyn Kennedy
Previsivelmente, a reação de Washington/Wall Street ao show dos B-52 foram muitos vivas à “causa da segurança global” contra “ações militares chinesas crescentemente agressivas”, “temeridade de Pequim”, “graves violações da lei internacional”, “ameaça à liberdade de navegação” e evidente “tentativa de agressão”.

Até a embaixadora dos EUA no Japão, Carolyn Kennedy, saiu das sombras para acusar a China de “escalar as tensões”.

Bobagens. O Pentágono – pelo secretário de Defesa Chuck Hagel – e o Departamento de Estado – via o secretário John Kerry – entregaram o joguinho, quando ambos condenaram a Zona Aérea de Identificação de Defesa (ZAID) chinesa como tentativa de mudar “pela força” o “status quo” das Senkakus.

Pior: Washington insiste que Pequim estaria tentando “controlar” uma imensa área do Pacífico Ocidental, a qual, claro, são águas prometidas que Deus deu aos EUA. Assim sendo, Washington tinha de “mandar um recado”. Se não, o movimento de “pivô para a Ásia” do presidente Obama ficaria congelado, de vez, num oceano de incredibilidade.

Chuck Hagel
Quer dizer, pois, em resumo: mais uma vez ficou provado que a pivotagem “para a Ásia” é estratégia militar fundamental para “conter” a China, item da doutrina de Dominação de Pleno Espectro do Pentágono, que tem sido a Bíblia militar dos EUA desde 2002. E que ninguém esqueça: a tal pivotagem foi oficialmente anunciada por Obama, no Pentágono.

Vai ter volta

A Força Aérea dos EUA insiste que os B-52s estavam desarmados e que tudo foi feito “sem comunicação” com os chineses. Implica que os chineses teriam obrigação de adivinhar, só de olhar pela janela, que os B-52s não eram letais. O Ministério de Defesa da China confirmou, é claro, que “monitorou” todo o voo dos B-52s.

Zona Aérea de Identificação de Defesa (ZAID) é, na essência, uma área de presença notificada. Até Taiwan – que não é exatamente líder de torcida organizada de Pequim – já disse oficialmente que a ZAID da China é pacífica. E as ilhas, de fato, são mais próximas de Taiwan do que do Japão ou da China. De onde se tem de concluir, necessariamente, que a aventura dos B-52 foi planejada, completamente, como provocação.

John Kerry
Mas imagine que Pequim tivesse decidido interceptar os B-52s, depois do que os EUA despachariam seus jatos de combate das bases japonesas. A aventura dos B-52 poderia dar letalmente errado.

A provocação, além do mais, zomba da tal “lei internacional” que Washington tanto respeita e preza. Agora, já nada impede que China ou Rússia, por exemplo, mandem seus próprios bombardeiros nucleares invadir a ZAID do Japão.

A imprensa chinesa acusou os EUA e o Japão de exagero na reação, destacando que a China tem o mesmo direito que qualquer país de impor sua própria ZAID, e que a ZAID chinesa não visa “nenhum país específico”.

O que torna tudo ainda mais absurdo, é que China e Japão assinaram, em 2008, um acordo de cooperação para o desenvolvimento conjunto do Mar do Leste da China. Ainda não gerou nada de concreto.

Ilhas Diaoyu e Senkaku 
Há também um fator crucial, que Pequim não pode admitir publicamente. Baseados em textos antigos, os chineses afirmam que as ilhas foram território chinês desde “tempos imemoriais”, até serem capturadas pelos japoneses em 1895. Com isso, despertaram novamente aqueles tempos de ódio nacionalista mútuo, que o atual primeiro-ministro do Japão, Shinto Abe, está manipulando incansavelmente. Um das razões pelas quais Pequim impôs essa ZAID é impedir que japoneses nacionalistas pirados ejetem-se de paraquedas sobre as ilhas, para literalmente plantar ali bandeira do Japão.

Prof. Sun Zhe
O Saker, emérito blogueiro, pintou o retrato definitivo do comportamento cowboy dos EUA e suas implicações para a geopolítica do Pacífico Ocidental. No que tenha a ver com a doutrina da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono, e sua doutrina-filhote de “pivô para a Ásia”, não há lugar para diplomacia e soft power, muito menos para alguma suposta “responsabilidade” da pressuposta superpotência. A esplêndida aventura dos B-52s é equivalente a da Agência de Segurança Nacional dos EUA viver a bisbilhotar os celulares de presidentes e governantes por todo o planeta.

E Pequim? Anotou o recado? Com certeza, sim. O professor Sun Zhe da Universidade Tsinghua em Pequim observa que a China não se deixará prender em posição de tigre de papel:

Se os EUA fizerem mais dois ou três voos semelhantes, a China terá de responder. E se responder só verbalmente, terá sido humilhada.

Haverá resposta não verbal. Esperem desenvolvimentos muito rápidos, abaixo dos radares, que terão a ver com submarinos nucleares chineses, mísseis com várias ogivas nucleares e todos os tipos de estratégias assimétricas.

Mas, principalmente, não esperem respostas espetaculosas. Por aqui, reina Sun Tzu. A resposta virá, certeira, fulminante. E onde o excepcionalismo norte-americano menos espera.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CHINA, Costa do Pacífico: avistada ponta de iceberg gigante batizado de “Estupidez da Diplomacia dos EUA”

27/11/2013, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Anotado pela Nêga Dafé lá na Vila Vudu:
Lido (e traduzido) de um dos comentários da postagem
De: The Saker
Para: @ G Mitchell
KKKKKK! Eu escrevi “profound strategic shit” [lit. “profunda merda estratégica”]?! Escrevi. Foram meus dedos, sem pensar, não eu! Lapso freudiano, sei lá! Nas versões seguintes já corrigi: melhor, coisa mais bem educada. Não shit [merda], mas shift [mudança]. Corrigi, sim, mas com alguma lástima... :-))))))

The Saker
Lembram de quando o presidente Bill Clinton enviou porta-aviões de combate para o Estreitode Taiwan em 1996, como “um recado” à China. Ora... parece que Barack Obama, pato manco, sem coluna vertebral, multi-humilhado e multi-derrotado presidente dos EUA, num surto de testosterona, decidiu provocar a China mais uma vez, e zombar da decisão dos chineses de estender sua zona de defesa aérea até as ilhas Senkaku/Diaoyu.

O modo que Tio Sam escolheu para enviar seu recado usual de desprezo imperial foi enviar dois bombardeiros B-52 para invadir a zona de defesa aérea chinesa. Não satisfeitos com esse gesto tão absolutamente estúpido e irresponsável, os norte-americanos cuidaram de acrescentar à estupidez uma declaração incendiária.

Localização das ilhas Senkaku/Diaioyu nas costas chinesas
Segundo a BBC, (negritos meus):

O Coronel dos EUA, Steve Warren no Pentágono disse que Washington conduziu operações na área das [ilhas] Senkakus. Continuamos a seguir nossos procedimentos normais, que inclui não preencher planos de voo, não informar sobre rota, e não registrar nossas frequências – disse ele. Ainda não há resposta da China, acrescentou o Coronel.

Brilhante, não é?

Os gênios no Pentágono enviaram dois bombardeiros estratégicos (com capacidade para ataques nucleares) diretamente para um espaço aéreo que os chineses acabavam de declarar “zona de identificação da defesa aérea” na qual qualquer descumprimento das regras chinesas desencadearia “medidas emergenciais de defesa”. E, para infligir o máximo de provocação à China, deram-se o trabalho de zombar dos chineses por não terem tomado nenhuma medida “bélica”.

São ações que qualifico de criminosamente levianas e fenomenalmente estúpidas.

Para começar, imagine só por um instante que os chineses tivessem derrubado os dois bombardeiros dos EUA. E daí? Aconteceria o quê? Os EUA, que não têm colhões sequer para bombardear o Irã ou a Síria, bombardeariam a China? Com certeza, os EUA não recorreriam ao apoio do Conselho de Segurança da ONU, porque ali só ouviriam gargalhadas da Rússia e da China e, provavelmente de muitos dos demais membros.

Os norte-americanos, então, contaram com que os chineses fariam a coisa certa? Nesse caso, a única mensagem enviada a Pequim é:

(...) seguinte: somos irresponsáveis e levianos, e contamos com a sanidade de vocês para salvar nossa pele.

Dificilmente essa mensagem impressionaria alguém na China.

Em segundo lugar, agora que os chineses agiram com inteligência e ignoraram a estupidez dos norte-americanos, o que o “movimento” obteve, além de afastar ainda mais a China?

É preciso ser absolutamente ignorante, não saber absolutamente coisa alguma sobre a Ásia, para supor que alguém tentaria pôr a China em papel ridículo, e conseguiria safar-se sem pagar muito caro pela tentativa. A grande diferença entre EUA e China é que os EUA agem como adolescente malcriado, capacidade de atenção e memória de, no máximo, 5-10 minutos:

Os chineses não atacaram nossos bombardeiros. Deve querer dizer que tomaram uma boa lição!

Errado.

Os chineses farão os norte-americanos pagar – caro – pela humilhação (e, sim, Deus sabe que houve muitas dessas humilhações nas últimas décadas; lembram o caso da embaixada chinesa em Belgrado?). Mas a cobrança virá na hora que os chineses escolherem. E, sim: pode demorar séculos, literalmente.

Vista aérea das ihas Senkaku/Diaioyu
Os políticos e diplomatas chineses têm 4.000 anos de experiência em contatos e negócios com bárbaros mal educados e não civilizados. Eles sabem da importância de não agir de afogadilho. Sabem que agir é agir com determinação rigorosamente focada. E relembrarão essa humilhação pelo tempo necessário; até que colham, dela, a vingança.

Em terceiro lugar, será que alguém no Pentágono, em Foggy Bottom ou na Casa Branca realmente supôs que os aliados/colônias dos EUA na região ficariam positivamente impressionadíssimos? Não. Claro que não! Diplomatas japoneses, sul-coreanos e de Taiwan ficarão horrorizados ante a ameaça de se verem associados a esse bando de cow-boys pirados montados em bombas atômicas, mas nada dirão, porque sabem que seus países não passam de estados vassalos, na província USPACOM [orig. United States Pacific Command/Comando dos EUA no Pacífico] do Império norte-americano.

E, por fim, o que os EUA provaram ao resto do mundo? Que são poderosos? Difícil. Derrotados nas guerras no Iraque e no Afeganistão; tendo perdido o controle da situação na Líbia; e já derrotados pelos diplomatas russos e iranianos na Síria e no Irã, os EUA são, no máximo, gigante obeso, flácido, detestável; gigante poderoso não são.

É leviano e temerário mandar aviões bombardeiros literalmente para o quintal da China (ou para o degrau de entrada da casa, escolham a metáfora), mas leviandade não é qualidade que impressione alguém na Ásia. Os norte-americanos estão muito iludidos se supõem que “assustaram” os chineses.

A única coisa que essa mais recente provocação norte-americana conseguiu foi provar ao mundo e, especialmente à Ásia, que os EUA absolutamente não entendem, nem a natureza, nem o propósito da diplomacia.

Pessoalmente, não tenho posição na disputa pelas ilhas Senkaku/Diaoyu. O que estou dizendo é que esse tipo de disputa só se resolve com negociações diplomáticas, que são demoradas, cansativas, e com medidas diplomáticas. E que, se o Japão realmente deseja que a China desista do direito que declarou sobre aquelas ilhas, o melhor a fazer é cuidar para que os EUA não metam os pés pelas mãos, nem se metam a tentar “ações” para “desmoralizar” a China.

Mas, para um país que desde os anos de George Bush (pai) não tem governo capaz de alguma (qualquer que fosse) diplomacia, o tipo de provocação que o mundo acaba de testemunhar é, só, mais do mesmo.

Georg W.F. Hegel
Para concluir, quero dizer aqui que os políticos erram gravemente sempre que ignoram a dialética de Hegel e suas regras. Mudanças quantitativas graduais (ao longo do tempo), eventualmente resultam em mudanças qualitativas – e isso se aplica muito claramente aos militares chineses, os quais, hoje, estão empenhados num vastíssimo programa de profunda modernização e reforma. Essa reforma, quando completada, resultará, sim, em profunda mudança estratégica em toda a região do Pacífico Asiático.

Diferente das velhas e absolutamente super desgastadas forças armadas dos EUA, as forças armadas da China estão em pleno crescimento e desabrochamento, e estão andando rápido.

É verdade que, nos anos 1980s, as forças armadas chinesas pareciam, mais, as forças soviéticas do final dos anos 1950s. Mas o boom econômico mudou muito profundamente esse quadro. Hoje, as forças armadas chinesas já começam a ter características do século 21. Em pouco tempo, com certeza, os chineses facilmente ultrapassarão as capacidades militares da Coreia do Sul e do Japão.

Chuck Hagel
por Paul Szep
Em seguida, e antes que o pessoal que habita a Casa Branca compreenda exatamente o que aconteceu, os EUA estarão diante de um exército chinês tecnologicamente equivalente e, em seguida superior ao seu, e mais eficaz. A China também age com inteligência, no movimento de criar uma aliança formal, mas realmente estratégica, com a Rússia. E, muito diferente dos EUA, dedica-se empenhadamente a manifestar respeito e apoio ao gigante seu vizinho.

Se algum dia houver um concurso de tiros entre EUA e China, não tenho dúvida alguma de que a Rússia apoiará a China, se não houver alternativa além de atacar alvos norte-americanos.

Por hora, o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, diz que a China ter ampliado sua zona de defesa aérea teria sido “tentativa desestabilizadora para alterar o status quo na região”. E a Casa Branca diz que a zona seria “desnecessariamente inflamatória”.

Sim. OK.

Mas... Será que esses cowboys arrogantes não se olham no espelho?