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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pepe Escobar: “Pivô” na Eurásia

21/5/2014, [*] Pepe Escobar, Facebook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar no canal Griboedov em São Petersburgo (não dá pra ver, mas ele tá lá)
Escrevo de São Petersburgo, cidade na qual, nas próximas horas e dias, haverá diversão da boa, garantida.

O timing para firmar o negócio de gás acordo Rússia-China de US$400 bilhões em Xangai, não poderia ser mais ESPETACULAR. É coisa IMENSAMENTE estratégica. Primeira coisa que fiz hoje cedo, mal cheguei ao aeroporto Schiphol, desembarcado em São Petersburgo, foi procurar jornais. A primeira página do Wall Street Journal, noticiava, pode-se dizer que com algum júbilo, “Negócio Rússia-China de gás emperrou”. Dois telefonemas depois da manchete precipitada, estava tudo resolvido, selado, assinado e confirmado.

Significa, dentre muitas outras coisas, que as sanções de EUA/UE contra Moscou já têm de ser analisadas pelo que realmente são: piada.

Analisem a declaração conjunta Rússia-China sobre a Ucrânia; é crise “doméstica”. “É indispensável que se encontrem ou se criem meios pacíficos, políticos, para resolver problemas que surjam”.

Entrementes, o Primeiro-Ministro Medvedev disse à TV Bloomberg que sim “estamos andando lenta, mas com certeza na direção de uma segunda Guerra Fria”. Subtexto: é o que Washington deseja.

Analisem então o que Xi disse a Putin:

O desenvolvimento posterior de uma parceria ainda mais ampla entre Rússia e China, com cooperação estratégica baseada nos interesses mútuos e ditada pela necessidade de promover justiça e igualdade no mundo, manter a paz no planeta, e pela necessidade de alcançar a prosperidade conjunta da China e da Rússia, é escolha inevitável que brota do próprio processo de formação de um mundo multipolar.

E analisem o que disse Putin, sobre o progressivo ultrapassamento do petrodólar:

Estamos trabalhando para aumentar a quantidade de pagamentos que serão feitos em moedas nacionais, e planejamos considerar novos instrumentos financeiros.

É coisa grande, MUITO, MUITO GRANDE, mais do que se pode ver já. Quase nem se acredita! Moscou completou o mais elegante e perfeito pivô estratégico na direção da Ásia e a China bailou junto, em perfeita harmonia.

Parabéns, governo Obama: vocês são excepcionais no basquetebol.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.   
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Imprensa−empresa pró−guerra ignora Plano de Paz de Putin

13/5/2014, [*] Mike Whitney, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Didier Burkhalter, da OCSE e Vladimir Putin, Presidente da Rússia em 6/5/2014

Permitam-me repetir que, do ponto de vista da Rússia, a culpa pela crise na Ucrânia é dos que organizaram o golpe de estado em Kiev dias 22-23/2/2014 (...) Mas, seja quem for, é absolutamente necessário encontrar algum meio para resolver a situação como a temos hoje (...)  E como eu já disse é preciso que haja diálogo igualitário e geral entre as autoridades em Kiev, e representantes da população no sudeste da Ucrânia. Não sei se uma rodada de conversações Genebra-2 é projeto realista, mas... Entendo que se queremos encontrar solução de longo termo para essa crise, temos de ter diálogo aberto, honesto e igual. Não há outra saída. [Vladimir Putin, Presidente da Rússia, Declaração à Imprensa, Reunião da Organização do Conselho de Segurança da Europa (OCSE), Moscou, 7/5/2014.


Tantos jazem sob o granito eterno
Mas os que são honrados nessa pedra,
Que ninguém os esqueça.
Que nem um deles seja jamais esquecido
[Olga Berggolts, “Leningrad”]



Na 4ª feira (7/5/2014), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma proposta para pôr fim à violência na Ucrânia, em reunião da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa, OCSE, em Moscou. Infelizmente, a maioria dos norte-americanos nunca foi informada sobre essa proposta, porque a imprensa-empresa norte-americana não noticiou a declaração e a proposta do presidente Putin. A razão pela qual a imprensa-empresa age como age é que não deseja que a opinião pública “descubra” que o presidente Putin NÃO É a caricatura que o sórdido “jornalismo” norte-americano inventou que ele seria, mas governante pragmático, que tem interesse em chegar logo a solução pacífica para uma crise que ele não inventou nem jamais desejou. Eis o que disse o presidente Putin:

Entendemos que a coisa mais importante agora é iniciar diálogo direto, genuíno, aberto, entre as autoridades de Kiev e representantes do sudeste da Ucrânia. Esse diálogo dará ao povo do sudeste da Ucrânia a chance de ver que seus direitos legítimos sejam realmente assegurados na Ucrânia.

São palavras de um “monstro−KGB” sedento de sangue, movido a sonhos de expansão territorial e expansão imperialista, ou, em vez disso, são palavras de governante responsável, que quer facilitar um cessar-fogo até que as cabeças esfriem e se possam pensar em melhor negociação de paz?

Você, leitor, foi informado de que Putin propôs “diálogo genuíno entre Kiev e os representantes do sudeste da Ucrânia”? O jornalismo, os jornais, os jornalistas não existem para distribuir informação, de modo que cada leitor possa construir sua própria opinião sobre Putin? Ou você entende que o jornalismo imprensa−empresa teria o direito de esconder a informação que decida esconder, se assim interessar aos patrões−anunciantes corporativos de cada jornal, de cada jornalismo e de cada jornalista? O que, afinal, se deve entender por “imprensa livre”?

Em seu discurso, Putin fez várias concessões, que merecem destaque. Por exemplo, concordou em afastar seus soldados da fronteira ucraniana onde permaneceram como muralha de contenção contra o governo de Obama, desde que o golpe de estado em Kiev começou a atacar, já há mais de duas semanas. Putin aceitou retirar seu exército, mesmo sabendo que estava enfraquecendo as defesas russas. Não é questão de somenos, de fato é importante questão de segurança nacional, e é responsabilidade primária básica do presidente, o tipo de responsabilidade que Putin jamais encarou levianamente, sobretudo quando há doidos neonazistas armados até os dentes, nos arredores, ameaçando matar russos étnicos onde os encontrem. Pois Putin fez essa concessão, na esperança de que um gesto de boa fé pudesse ajudar a pôr fim à violência. O presidente Putin disse, precisamente, o seguinte:

Já retiramos nossas forças e agora já não estão na fronteira ucraniana, mas de volta aos exercícios de rotina, nos campos de treinamento. É coisa fácil de confirmar, usando técnicas de coleta de inteligência, inclusive dos satélites, pelos quais onde nossos soldados podem ser facilmente vistos. Ajudamos a distribuir essa informação aos observadores militares da OSCE, e acho que, assim, também contribuímos para acalmar a situação.

É coisa que soe como mentira de um pervertido? É claro que não. Por isso, precisamente, os jornais, os jornalismos e os jornalistas não querem que ninguém ouça/leia o que o presidente Putin tem a dizer. Porque desmente o delírio “jornalístico”, segundo o qual “Putin é Satã”.

Putin é sujeito que atira sem sacar e diz o que quer dizer. Não é mentiroso. As pessoas percebem isso, motivo pelo qual a imprensa-empresa ocidental jamais o mostra ao vivo, nem jamais publica suas falas e discursos. Exclusivamente porque temem que os leitores e telespectadores acreditarão no que ouvirem−lerem e, onde e quando assim acontece, toda a propaganda pró-guerra à qual toda a imprensa−empresa ocidental está dedicada, é desmascarada.

John "Fraud" Kery
Fato é que as pessoas sabem, por instinto, quando o sujeito mente deslavadamente. As pessoas sabem ver, imediatamente, a diferença que separa um sujeito claro, como Putin, e uma fraude ambulante, com Kerry. Por isso Putin tem de ser escondido. Para isso, precisamente, serve a imprensa−empresa como a temos: para não noticiar.

Putin também pediu aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia que adiassem o referendo marcado para o dia 11/5/2014 [o referendo não foi adiado (NTs)].

Por que pediria tal coisa? Afinal, se realmente quisesse “reconstruir” o Império Russo, como dizem seus críticos, teria de desejar que o referendo fosse realizado e exibisse, precisamente, o resultado que mais o interessaria: o mundo veria que o leste rejeita o governo da Junta−de−Kiev e exigiria maior autonomia em relação ao governo central de Kiev [exatamente o resultado que já se conhece hoje, depois de realizado o referendo (NTs)]. Mas Putin não quer nada disso. O que ele quer é pôr fim aos massacres, motivo pelo qual pediu que se adiassem os referendos, para não dar à junta dos neonazistas em Kiev pretextos para mais ataques e mais massacres. Putin não tem interesse algum em ver a Ucrânia rasgada em farrapos, reduzida à anarquia que se vê hoje no Iraque, por ação de inimigos que usam o país como rinha de exercício de suas ambições geopolíticas. Putin quer restaurar a estabilidade e a segurança. Quer o fim das hostilidades. Eis, exatamente, o que ele disse:

Solicitamos aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia e apoiadores da federalização, que transfiram o referendo marcado para 11 de maio.

OK. Significa, então, que Putin recuou os próprios soldados, afastando-os da fronteira; e pediu que ativistas pró−Rússia adiem a votação que, com certeza, exigirá maior autonomia política. São duas concessões muito significativas. Mas... Por que Putin está fazendo o que está fazendo?

Será que tem alguma carta escondida na manga? Está tentando enrolar os inimigos, antes de ordenar ataque massivo, total, contra Kiev?

Falemos sério. Basta de tolices. Putin não quer tomar a Ucrânia; essa é conversa−terrorismo dos neoconservadores norte-americanos. Putin já tem problemas que cheguem, sem somar a eles a ocupação da Ucrânia. Por que, afinal, anexaria estado falido, falhado, quebrado, que desliza rapidamente para o fundo de Depressão das grandes? Por que faria tal coisa?!

Nesse caso, por que faz tantas concessões, tão rapidamente? Talvez porque esteja com medo? Talvez porque tema uma confrontação com a OTAN e os EUA, e, por isso, estaria tentando salvar seu front ocidental, antes que a guerra ecloda? É isso? Putin não passa de covarde?

O "pivoteamento" dos EUA para a Ásia
Segundo a imprensa−empresa ocidental, sim, Putin é covarde, mas isso porque a cobertura só tem olhos para a disposição para recuar os próprios soldados, o que quase faria crer que as políticas de linha−dura de Washington estariam funcionando, em vez de, como de fato estão, só tornarem as coisas cada dia piores, para o próprio ocidente.

O único detalhe que ABSOLUTAMENTE JAMAIS FOI NOTICIADO, CITADO, REFERIDO OU COMENTADO em toda a cobertura ocidental é o Plano de Paz de Putin para pôr fim à violência.

O PLANO DE PAZ DE PUTIN NÃO É JAMAIS NOTICIADO, porque a imprensa−empresa não quer que Putin apareça no lugar que, de fato, lhe cabe nessa guerra−golpe: Putin é o único estadista realmente interessado em gerar paz e cada vez mais paz. Isso, precisamente, não interessa ao ocidente.

Putin não tem medo de nada e de ninguém. Não terminará como Gaddafi ou Saddam. Mas, sim, está preocupado. Está preocupado, porque os EUA obram para tentar bloquear o acesso da Rússia ao seu maior mercado, a União Europeia. A Rússia não pode simplesmente redirecionar seu gás, do oeste (União Europeia) para o leste (China), como tantos “especialistas” parecem crer que fará. A loucura−imbecilidade é total. A Rússia precisa da Europa, como a Europa precisa da Rússia. É essa relação comercial/de trocas, tradicional, forte e natural, que Washington quer sabotar, para que possa meter as garras diretamente na Ásia Central. Trata-se, afinal, disso e só disso: do tal “pivoteamento” para a Ásia, de Obama.

Assim sendo, sim, claro, o interesse de Putin pela paz não é exclusivamente altruísta. Trata-se, também, é claro, de dinheiro, muito, muito dinheiro. Mas... e daí?! Que diferença faz isso? Putin não é limpo e puro como um querubim. Mas... e daí?! O fato que realmente conta é que Putin trabalha a favor da paz – e a paz não beneficiará apenas Moscou, mas toda a Europa e também a Ucrânia.

O único “agente” ao qual a paz não interessa é Washington. E por isso, precisamente, a imprensa−empresa oculta e omite qualquer informação que promova mais paz que guerra, que contribua mais para desarmar, que para armar, exércitos e espíritos. Por quê? PORQUE WASHINGTON DESEJA GUERRA.

Como os EUA veem o Oriente Médio e a Ásia
(clique na imagem para aumentar)
A guerra é o veículo para quebrar a Federação Russa em inúmeros estadetes microscópicos que não ameacem as bases militares dos EUA espalhadas pela Ásia. A guerra é o meio pelo qual Washington pode pôr-se a se pivotear, cercando a China, para controlar o futuro crescimento do Império do Meio. A guerra assenta o caminho para instalar postos avançados dos EUA na Ucrânia e subverter qualquer possível integração econômica crescente entre Rússia e Europa. A Guerra é a única política que os EUA são capazes de propor e fazer avançar, porque a guerra favorece os interesses dos norte-americanos. Ponto. Parágrafo.

Washington de modo algum alcançará seus objetivos estratégicos ou econômicos, se não houver guerra. Por isso, precisamente, a atual situação é tão preocupante, porque – a julgar pela sordidez da retórica que está sendo gerada na Casa Branca e de lá repercute pela imprensa−empresa para o mundo, o Departamento de Estado dos EUA e todos os conglomerados industriais−comerciais de imprensa−empresa: Obama CONTINUARÁ A PROVOCAR MOSCOU até obter a reação que deseja obter.

Já morreram 40 pessoas em Odessa; não bastaram; na próxima provocação, Washington mandará matar 400, 4 mil ou 400 mil. Não importa o número. Custe o que custar. Madeleine Albright, há algum tempo, quando lhe perguntaram se as sanções contra o Iraque valiam o custo de meio milhão de mortos, respondeu sem um segundo de vacilação ou hesitação: “Entendemos que sim, valem o que custam”.

Custe o que custar. Não importa quantos morram. A isso se reduz, numa linha, a política externa dos EUA.

Putin disse também que:

A responsabilidade pelo que está acontecendo na Ucrânia cabe ao que tomaram o poder por golpe, anti−constitucionalmente. (...) E aos que apoiaram essas ações e lhes asseguraram suporte financeiro, político, de informação e todos os tipos de suporte, e empurraram a situação até que se converteu nos trágicos eventos que aconteceram em Odessa. É de gelar o sangue. Todos viram os filmes dos eventos de Odessa.

Hordas nazi-fascistas, apoiadas pelos EUA, sob comando da Junta-de-Kiev, atearam fogo na Central Sindical em Odessa e assassinaram pelo menos 48 e feriram gravemente mais de 150 pessoas em 2/5/2014
Tentem imaginar Obama dizendo frases semelhantes. Imaginem Obtama preocupado com as pessoas que morreram em Odessa. Difícil, até, imaginar a cena. Agora, Obama com certeza já assistiu também aos mesmos filmes de que Putin falou. Com certeza já viu pessoas jogando-se pelas janelas, com as roupas em chamas. Já viu seus aliados neonazistas jogando pessoas pelas janelas; já viu os restos calcinados de vários cadáveres nas fogueiras. Pois viu... e não disse uma palavra! Permaneceu calado. Não protestou porque aqueles matadores de civis em fogueiras neonazistas são aliados dos EUA e das políticas dos EUA. A atitude de Obama é parte do cálculo político: gente não conta; só a política conta. Obama não é diferente de Albright nem de qualquer outro alto funcionário do establishment político dos EUA, no que tenha a ver com negócios e guerras. São todos iguais. A vida nada significa para eles. A única coisa que interessa é o que os doadores de suas campanhas eleitorais determinem como “interesses” seus, deles e só deles.

Assim sendo, o que Putin realmente deseja?

Eis o que ele disse:

A Rússia requer com urgência que as autoridades de Kiev cessem todas as operações militares e punitivas no sudeste da Ucrânia

Significa, precisamente, em outras palavras, que Putin que paz.

Desgraçadamente, a gangue de Obama estrangulou o Plano de Paz de Putin, ainda no berço. Ontem mesmo o regime−fantoche apoiado pelos EUA que “governa” Kiev prometeu ampliar os ataques contra manifestantes no leste. Segundo o Secretário de Defesa neonazista de Kiev, Andriy Parubiy:

A operação de contraterrorismo continuará sem mercê, contra a presença de terroristas e grupos insurgentes na região de Donetsk.

Quanto ao apelo de Putin, pela paz, Arseniy Yatsenyuk, o “Yats” fantoche−primeiro−ministro amigo de Victória Nuland, desqualificou-o completamente; para ele, não passaria de “um peido”.

Assim sendo... aí está! A ameaça da paz foi rapidamente neutralizada; Obama e seus amigos neonazistas neofascistas receberam luz verde para prosseguir na estratégia de esfacelar a Ucrânia, assassinar milhares de civis e implantar a OTAN no perímetro oeste da Rússia.

Por isso, precisamente, a imprensa−empresa privada ocidental absolutamente não noticiou sequer uma palavra do Plano de Paz de Putin: porque o plano de Washington prevê sempre mais e mais guerras, e nunca, jamais, pode prever alguma paz. É disso que se trata.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por um reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition. 
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pepe Escobar: EUA “pivoteiam-se”, China colhe dividendos

24/4/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A demência dos EUA encarnada no "Projeto para o Novo Século Americano"
Para começar, um flashback até fevereiro de 1992 – dois meses depois da dissolução da União Soviética. Primeira versão das Orientações para Planejamento da Defesa [orig. Defense Planning Guidance]. Adiante, foi suavizado, mas ainda serviu como base para a demência excepcionalista encarnada no “Projeto para o Novo Século Americano”; e reapareceu em toda sua glória em O Grande Tabuleiro de Xadrez do Dr. Zbig “Vamos tomar a Eurásia” Brzezinski, de 1997.

Está tudo lá, cru, azedo e acabado:

Nosso primeiro objetivo é impedir a reemergência de novo rival, seja no território da ex-União Soviética ou onde for, que gere ameaça da ordem que a União Soviética gerou. Isso (...) exige nos empenharmos para impedir que qualquer potência hostil venha a dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global. Essas regiões incluem a Europa Oriental, o Leste da Ásia, o território da ex-União Soviética e o sudoeste da Ásia.

Aí está tudo que é preciso saber sobre o “pivoteamento” para a Ásia, do governo Obama, e também sobre o “pivoteamento” para o Irã (“já que não iremos à guerra”, como o Secretário de Estado, John Kerry deixou escapar), e sobre o “pivoteamento” para a Guerra Fria 2.0, usando a Ucrânia como um “novo Vietnã” remix, logo ali, ao pé da porta da Rússia. E esse é também o contexto crucial da coleção de primavera Pax Americana de Obama atualmente em exibição em seletas passarelas asiáticas (Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas).

O tour asiático de Obama começou essa semana em todo seu esplendor no afamado restaurante “Jiro” (vídeo-trailer no fim do parágrafo) em Ginza, Tóquio, ingerindo nigiri sushi, tomara que não de Fukushima, nem radioativos (furo: estive lá, em 1998, quando o mestre dos sushis, Jiro Ono, não era absolutamente celebridade e os sushis não eram absolutamente atômicos). 


O anfitrião de Obama, militarista/nacionalista linha-duríssima Primeiro-Ministro, Shinzo Abe, obviamente pagou a conta. Mas a verdadeira conta chegou depois, com o Japão curvado a todas as duras demandas dos EUA – no comércio, nos investimentos, na nova lei para empresas e de propriedade intelectual – reunidas na Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] de 12 nações, que é codinome de “o Big Business norte-americano afinal meteu o pé na porta e entrou no super protegido mercado japonês”.

Abe é freguês durão. Tem retórica pesada sobre “escapar ao regime pós-guerra”, rearmar o Japão e deixar de servir como jogador de alambrado, em termos militares, para Washington na Ásia. O Pentágono, claro, tem outras ideias. Na era pós-sushi no Jiro, o que interessa a Obama é forçar o Japão a curvar-se, não só ante a TPP como, também, ante a necessidade de manter subordinado à agenda norte-americana mais ampla o movimento de armar o Japão. 

Barack Obama e Shinzo Abe cumprimentam-se à entrada do restaurante Jiro
Pequim, como se poderia prever facilmente, vê tudo isso como tudo isso realmente é – como se lê em coluna publicada na rede 
Xinhua: ações de uma superpotência “anacrônica”, “esclerosada” e “míope”, que bem fará se “livrar-se das algemas históricas e filosóficas que a mantêm cativa
” (“Dinamismo da Ásia exige que EUA reformatem suas políticas anacrônicas”, 23/4/2014, Deng Yushan, Xinhua, Pequim, traduzido na redecastorphoto).

O braço sudeste-asiático do pivô e desfile de Obama para apresentar a Coleção Primavera [“Pivoting” também se aplica aquela “voltinha” altamente científica que as modelos dão nas passarelas de moda. Vê-se (e aprende-se) em vídeo no fim do parágrafo] tem a ver, todo ele, com garantir a Malásia e Filipinas, não militarmente tão fortes quanto o Vietnã, que a Marinha dos EUA jamais será substituída como o hegemon do Mar do Sul da China; e que não se admitirá, sequer, que a China torne-se equivalente.


Esse afinal é o coração da matéria da pivotagem para a Ásia, como ferramenta para conter a China: impedir que a China venha a tornar-se potência naval simultaneamente no Oceano Índico e no Pacífico Ocidental.

O Pentágono, previsivelmente, está tomado de surto paranoico, acusando a China de fazer, não uma, mas “três guerras” contra os EUA.

O caso é que Pequim está desenvolvendo uma base subterrânea hiper-mega-super high tech para 20 submarinos nucleares na ilha Hainan, enquanto a Malásia amplia sua própria base de submarinos em Bornéu, e as Filipinas só fazem suplicar a Washington que mande mais aviões, mais navios, mais largura de banda e ciber-capacidades, como proteção para fazer o que veem como sua absoluta prioridade: procurar petróleo e gás no Mar do Oeste das Filipinas para estimular a economia.

Me irradie com negócios, baby

A Coleção Primavera não está conseguindo tirar de cenas outras pivotagens – cujos modelos mais recentes se veem na atual campanha “antiterroristas” no leste da Ucrânia, pelos mudadores-de-regimes em Kiev, e que seguem um calendário estranhíssimo. John Brennan da CIA passa por Kiev... e os mudadores-de-regime lançam seu primeiro ataque ali mesmo contra o “terô” [terror], como dizia Bush. Vergonhoso fracasso. O vice-presidente Joe Biden aparece em Kiev... e os mudadores-de-regime, na horinha, já vêm com mais guerra ao “terô”.

Assim a pivotagem para a Guerra Fria 2.0 segue inabalável, com Washington trabalhando duro para erguer uma cortina de ferro entre Berlin e Moscou – impedindo que se integrem ainda mais pela Eurásia – mediante a instigação de uma guerra civil na Ucrânia. A Chanceler alemã, Angela Merkel continua equilibrando-se no arame: ou alta-fidelidade atlântica, ou sua Ostpolitik – e Washington quer que ela fique bem onde está, por um fio.

Ilhas Senkaku/Diaioyu disputadas por China e Japão (uma nova Crimeia)
Quanto às facções de doidos-pirados-totais que circulam nas portas giratórias que conectam think-tanks-governo-imprensa-empresas em Washington, vale tudo, desde “alertar” a China para não “tentar uma de Crimeia”, até pregar a favor de guerra à Síria e, até, que a OTAN entre em guerra nuclear, como se lê em coluna assinada por alguém que muito apropriadamente atende pelo nome de Anne Marie Massacre [orig. Slaughter]. É o que essa senhora ensina a seus alunos excepcionalistas em Princeton. 

E como Pequim está reagindo a essa histeria toda? Simples: Pequim recolhe os dividendos. Pequim ganha com a ofensiva dos EUA que tentam separar Moscou e os mercados ocidentais, porque assim consegue melhor preço para o gás leste-siberiano que compra. Pequim ganha com o medo, na União Europeia, de perderem negócios com a Rússia, porque assim negocia acordo de livre-comércio com seu principal parceiro comercial que acontece de ser, precisamente, a União Europeia.

Wang Yi - MRE da China
E, sim, vejam o exemplo mais definitivamente claro: comparem o desfile da Coleção Primavera de Obama, com coda de pivoteamento, à recente viagem por Cuba, Venezuela, Brasil e Argentina, do Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi. Pura bonança de negócios, focada em financiamentos bilaterais e, claro, acordos e mais acordos comerciais.

Há de tudo no pacote: cobre peruano e chileno; soja e ferro brasileiros; apoio aos projetos sociais venezuelanos e desenvolvimento energético; apoio a Cuba, que promove maior envolvimento dos chineses na Venezuela, o que gera energia a preço subsidiado para Cuba.

E, isso, num contexto em que Washington só faz repetir, excitadíssima, que a economia chinesa enfrenta terríveis dificuldades. Nada disso. A economia chinesa cresceu 7,4% ao ano, no primeiro trimestre de 2014. A demanda por ferro e cobre não diminuirá significativamente – porque a urbanização comandada por Pequim ainda não chegou, sequer, à velocidade máxima. O mesmo vale para a soja – com milhões de chineses começando a comer carne regularmente (os produtos de soja são itens cruciais para a alimentação do gado). E, claro, o apetite insaciável das empresas chinesas, que se querem diversificar por toda a América do Sul.

Quanto à grande e crescente classe média chinesa – a caminho de se tornar membro de pleno direito da primeira economia do planeta já em 2018 – essa Coleção Primavera de Obama é nada. Ele/ela podem perfeitamente ir a Hong Kong e fazer filas em Canton Road para comprar MUITO de Hermès e Prada. Na sequência, podem estrategicamente celebrar com sushi padrão Jiro (não os radioativos, à Fukushima).




[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.