4/7/2013, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
[*] Tamarod será a
primeira vítima de seu sucesso, disse Mohamed Abdel-Baky. Nada poderia agradar
mais aos seus organizadores!
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| Manifestantes do grupo Tamarod em 30/6/2013 |
Quando
o obstetra Ayman Zein perguntou à mulher que acabava de dar à luz uma criança na
Praça Tahrir, que nome daria a ela, a mulher respondeu: “vai-se chamar
Tamarod [ar. “rebelde”]”.
A
campanha que serviu como gatilho para os protestos contra o presidente Mohamed
Mursi nunca previu que seria o primeiro passo que levaria milhões de egípcios
comuns às ruas, para exigir a renúncia do presidente. Lançada por um grupo de
jovens ativistas, o abaixo-assinado “Tamarod” obteve, segundo o
movimento, mais de 22 milhões de assinaturas, em apenas dois meses de campanha
na qual exigiram que Mursi renunciasse e que as eleições fossem antecipadas.
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| Mahmoud Badr |
Duas
semanas antes dos protestos marcados e programados para 30 de junho, Mahmoud
Badr, cofundador da campanha, disse ao jornal Al-Ahram Weekly que, tão
logo o movimento Tamarod alcançasse seu objetivo, não haveria motivo para
manter a campanha.
Tamarod, diz o
analista político Abdallah Helmi, não parece interessado em converter-se em
partido político:
Os 22
milhões de pessoas que assinaram o abaixo-assinado de Tamarod são
cidadãos egípcios comuns, que não querem que a Fraternidade Muçulmana governe o
Egito. Esse é o único item de programa com o qual todos concordar. Absolutamente
não são membros potenciais de algum partido político – diz
Helmi.
Amr
Bakli, comentarista, enquanto discute o futuro político da campanha e dos nomes
a ela associados, destaca que o sucesso que obtiveram na mobilização popular
inevitavelmente terá algum impacto na formatação do mapa do caminho para o
período de transição que virá depois da queda do governo de Mursi.
Bakli prevê que o movimento Tamarod desapareça suavemente da cena política,
embora preveja novos confrontos, no caso de a Fraternidade Muçulmana tentar
obter, dos militares, para os “irmãos”, qualquer tipo de privilégio.
Líderes
da campanha entendem que ninguém deve coisa alguma à Fraternidade Muçulmana e
que ceder nesse campo apenas facilitará o processo que os Irmãos conhecem bem,
de manobrar para obter favores para eles mesmos – diz
Bakli.
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| Mohamed Mursi |
O
movimento Tamarod já rejeitou a última oferta feita por Mursi, que propôs
um diálogo nacional; responderam que o povo egípcio já deixara bem claro que
deseja o fim do governo Mursi.
Não é
hora de ceder coisa alguma. A única coisa é fazer é encerrar de forma pacífica o
governo da Fraternidade Muçulmana e garantir que nossa revolução possa
recomeçar, diz o
porta-voz do movimento, Hassan Shahin.
O
movimento Tamarod – não
controla os milhões de egípcios que se manifestam nas ruas. A única coisa que
podemos fazer é ouvir o que dizem e repetir o que dizem. A campanha não pode
ceder em nenhuma de suas exigências, porque ceder nisso é andar contra as
expectativas dos egípcios, diz
Shahin
Agora,
para Badr, o papel mais importante do movimento-campanha é manter a pressão
sobre a Fraternidade Muçulmana, para que cedam, saiam do governo e abram caminho
para um novo processo democrático. O movimento Tamarod procura agora
ajudar a oposição a unir-se com eles, nas negociações que tenham de fazer com os
militares, em futuro próximo. Para
isso, o movimento, no domingo, ajudou a lançar a “Frente 30 de junho”, que reúne
o movimento Tamarod e todos os grupos de oposição, inclusive a Frente de
Salvação Nacional.
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| Mohamed El-Baradei |
Na
3ª-feira, a Frente anunciou que escolhera Mohamed El-Baradei como seu
representante e negociador oficial.
El-Baradei
coordenará esforços com instituições do Estado, para ajudar a construir um mapa
do caminho para o governo de transição concebido pelos grupos de oposição ao
longo dos últimos dias –
disse a Frente, em declaração.
A
Frente também decidiu ontem (3ª feira) que o líder da oposição será seu
principal negociador, no contato com os militares, durante a transição.
O
exército mostrou boas intenções, e está protegendo o desejo do povo. Nosso papel
é dar ao exército o mapa do caminho que construímos há três semanas, em
cooperação com as forças de oposição, para que seja implantado –
disse o porta-voz da Frente.
O
mapa do caminho proposto pelo movimento Tamarod dia 26/6 inclui a
indicação de um primeiro-ministro independente, que represente a Revolução de 25
de Janeiro; o desmonte do Conselho da Shura; a suspensão da atual
Constituição e a elaboração de nova Constituição. Segundo esse mapa do caminho,
o primeiro-ministro convocará um Conselho de Defesa Nacional, encarregado de
prover e defender a segurança.
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| Praça Tahrir no Cairo (noite de 1/7/2013) |
Enquanto
alguns analistas manifestaram temores de que o sucesso do movimento
Tamarod possa abrir caminho para que outros grupos de oposição tentem
sequestrar a segunda fase da revolução egípcia, Badr não parece temeroso. O
movimento Tamarod, diz ele, é constituído de pessoas comuns, egípcios
absolutamente comuns, não de políticos.
Todo
mundo no Egito sabe que o sucesso da Revolução 30 de Junho é sucesso do povo
egípcio, não do Tamarod ou de
qualquer dos outros grupos de oposição –
disse.
[*] Perfil do grupo
egípcio TAMAROD
1/7/2013, BBC,
Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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| Manifestante exibe cartaz do grupo Tamarod em 30/6/2013 |
“Tamarod”
[ar. “rebelde”] é um novo movimento de base, surgido no Egito, e que parece ter
servido como catalisador do movimento popular nacional contra o presidente
Mohammed Mursi, um ano depois de ter sido eleito à presidência, na primeira
eleição que o Egito conheceu em toda sua história moderna.
Esse
grupo que se autodenominou “Rebelde”, diz que recolheu mais de 22 milhões de
assinaturas num abaixo assinado que exige o fim do governo do presidente Mursi,
para que se realizem novas eleições no Egito.
Depois
das massivas demonstrações do domingo, das quais participaram milhões de
egípcios nas ruas do Cairo e de outras cidades, o grupo Tamarod deu ao
presidente um ultimatum, para que renunciasse até as 17h (15h GMT) da
3ª-feira, ou enfrentaria companha de “total desobediência civil”.
O
mesmo ultimatum exigia que “instituições do Estado, inclusive Exército,
Polícia e Judiciário, se alinhassem imediatamente ao desejo do povo, manifestado
pelas multidões nas ruas”.
Foi
o grupo Tamarod que rejeitou a oferta do presidente Mursi, para um
diálogo nacional.
Não há
como aceitarmos meias medidas – o
grupo declarou. – A única via possível é
pôr termo pacífico ao poder da Fraternidade Muçulmana e de seu representante,
Mohamed Mursi.
Muitos
manifestantes acusaram o presidente de pôr os interesses da Fraternidade
Muçulmana, poderoso grupo político-islamista ao qual Mursi pertence, à frente
dos interesses do país como um todo. Os defensores de Mursi rejeitaram as
acusações.
“Surpreendente”
O
grupo Tamarod foi fundado no final de abril, por membros do Movimento
Egípcio pela Mudança [orig. Egyptian Movement for Change] mais conhecido
pelo slogan Kefaya (“Basta!”), que exigia uma reforma política no Egito
ainda sob governo do ex-presidente Hosni Mubarak em 2004 e 2005. Embora o
movimento Kefaya tenha participado dos protestos de massa que levaram à
renúncia de Mubarak, em 2011, não chegou a ter papel muito destacado.
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| Abaixo assinado do grupo Tamarod (Rebelde) |
Tamarod
organizou-se para recolher assinaturas num abaixo-assinado em que o grupo
denuncia:
·
A
segurança nunca foi restaurada desde a revolução de 2011;
·
Os
pobres “não têm lugar” na sociedade;
·
O
governo teve de “implorar” ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por um
empréstimo de $4,8bn (£3,15bn) para fazer frente às despesas do
Estado;
·
Não há
“justiça” para os que foram assassinados por forças de segurança durante o
levante e os manifestos contra o governo que aconteceram depois do
levante;
·
“Os
egípcios estão obrigados a sobreviver sem dignidade” no seu próprio
país;
·
A
economia “colapsou”, o crescimento é baixo, e a inflação é
alta;
·
O Egito
“segue atrás, nas mesmas pegadas dos EUA”.
Os
ativistas do movimento Tamarod tornaram-se imagem frequente e familiar
nas ruas do Egito, bloqueando o trânsito para distribuir panfletos e recolher
assinaturas para seu abaixo-assinado. O grupo também recolheu assinaturas
em sua página Internet , pelo Facebook e Twitter.
Tamarod
diz que as assinaturas de seu abaixo-assinado foram verificadas nos registros
eleitorais oficiais. E outros grupos de oposição rapidamente jogaram seu peso
político a favor da campanha, oferecendo apoio logístico e escritórios.
********
No
final de junho, o movimento Tamarod anunciou que reunira 15 milhões de
assinaturas, as quais, insistem eles, foram verificadas nos registros eleitorais
recentes do Ministério do Interior. Cada signatário assina, com número de
identidade e endereço da província onde resida.
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| Fraternidade Muçulmana |
O
Partido Liberdade e Justiça, da Fraternidade Muçulmana contestou os números do
abaixo-assinado e disse que o movimento Tamarod não recolhera mais que
170 mil assinaturas.
No
sábado – um dia antes dos protestos de massa que o movimento convocou para
marcar o 1º aniversário do governo de Mursi – o movimento anunciou que alcançara
22 milhões de assinaturas, mais de ¼ da população do Egito.
Um
dos fundadores do movimento Tamarrod avaliou como “surpreendente” o
sucesso do abaixo-assinado. “Não sei quantos membros temos por aí. Posso
imaginar que milhões de egípcios são membros” – disse Ahmed al-Masry à Agência
Associated Press. – “Num dado momento, o povo desistiu [de Mursi]. Não se ouvia
outra voz que não fosse do presidente e sua tribo.”










