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terça-feira, 19 de maio de 2015

EUA-2105: Patologia da família branca rica

17/5/2015, [*] Chris HedgesTruthdig 
The Pathology of the Rich White Family
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
 
Tive como crença, e permaneço,  que a diplomacia
pessoal pode ser muito útil e produtiva. (Bush-pai)
A patologia da família branca rica é das mais perigosas nos EUA. A família branca rica é amaldiçoada com excesso de dinheiro e privilégios. Não conhece nenhuma empatia, resultado de gerações e gerações de privilegiados. Tem mínimo senso de lealdade, e é incapaz de autossacrifício. A definição de amizade na família branca rica está reduzida a “O que você pode fazer por mim?” A família branca rica é possuída por insaciável ambição de aumentar sempre a própria fortuna e o próprio poder. Acredita que riqueza e privilégio conferem a ela inteligência e virtude superiores. É presa dos mais impenetráveis hedonismo e narcisismo. 
 
E, por tudo isso, a família branca rica interpreta a realidade através de lentes de autoadulação e cobiça que reduzem a realidade a alguma espécie de fantasia distante. A família branca rica é uma perigosa ameaça que vive dentro dos EUA. As doenças dos pobres, se comparadas às doenças dos norte-americanos brancos ricos, são pequena vela ao lado do sol. 
 
Não faltam propagandistas e elogiadores às famílias norte-americanas brancas ricas. Dominam as ondas de rádio e TV em todo o país. Culpam a patologia das famílias negras pobres pela miséria, pela falência da sociedade, pela violência urbana, pelo consumo de drogas, pela violência doméstica – como se não conhecessem algum desses itens. Dizem que as famílias negras pobres estão em desintegração por causa de algum defeito inerente – o que implica dizer que veem os brancos como melhores que os negros – defeito que essas famílias pobres devem tratar de consertar. 
 
Colete e regurgite todo esse lixo simplista racista, e você estará qualificado para assinar coluna no The New York Times. Bajular famílias brancas ricas sempre é bem negócio nos EUA. 
 
Se você é negro, e papagueia as mesmas pirações racistas dos brancos ricos, os brancos ricos enlouquecem de alegria. São capazes de cometer o desatino de oferecer-lhe palanques. Você pode até vir a ser presidente ou juiz da Suprema Corte. Dão-lhe programa de entrevistas na televisão, ou emprego bem remunerado numa universidade. Você receberá dinheiro para a sua fundação. Você pode publicar livros de autoajuda. Aparecerá dinheiro para fazer seus filmes. Pode acontecer até de você ser contratado para presidir uma empresa. 
 
Negro contratado para presidir uma "grande empresa"...
As famílias brancas, dizem os seus elogiadores profissionais, muito tentaram ajudar. As famílias brancas ricas deram incontáveis recursos aos pobres, muitos programas governamentais para erguê-los acima da pobreza. Muita, muita caridade, a mais generosa. Mas os negros, dizem eles, assim como outros pobres de cor, deixam-se derrotar pelas próprias atitudes e pelo próprio comportamento autodestrutivo. Programas governamentais são, pois, desperdiçados, com essa gente irresponsável. 
 
As famílias pobres, dizem os bajuladores de brancos ricos, nunca serão redimidas, se não se autorredimirem. Nós queremos ajudar, dizem os brancos ricos, mas os negros pobres têm vestir as calças, ficar na escola, dar jeito de se educarem, encontrar um emprego, dizer “Não às drogas” e respeitar a autoridade constituída. Se não fazem isso... merecem o que têm. E o que a família negra média consegue em termos econômicos é um níquel para cada dólar embolsado pela família branca média. 
 
Desde os dez anos, bolsista de uma escola de elite em New England, tive de aprender a conhecer a patologia das famílias brancas ricas. Não é experiência que eu recomende a alguém. Anos depois, por decisão pessoal, mudei-me para Rosbury, Boston, quando estava no seminário. Vivi do outro lado da rua de um dos projetos de moradia mais pobres da cidade, e era responsável por uma pequena igreja no centro do projeto, por quase três anos. Eu já tinha um sentimento de profundo desprezo contra famílias brancas ricas, e ele só aumentou depois de ver o que eles faziam contra os mais pobres. Gente branca rica, concluí depois da minha infância e dos meus anos em Roxbury, são sociopatas. 
 
A miséria e o colapso da família e da comunidade em Roxbury não eram causados por alguma patologia inerente das famílias negras. Os ricos que tratavam os pobres como refugo humano eram a causa de todos os problemas. Camadas superpostas de racismo institucionalizado – os tribunais, as escolas, a polícia, os oficiais de condicional, os bancos, o acesso fácil às drogas, o desemprego endêmico e o subemprego, as estruturas em colapso e o sistema prisional – tudo efetivamente sempre conspirou para assegurar que os pobres permanecessem pobres. Drogas, crime, famílias em desintegração são resultado da pobreza, não da cor da pele. Vê-se o mesmo quadro também entre brancos pobres. Tire todas as oportunidades, encha a vida dos pobres de desespero e desesperança, e o resultado é o mesmo, entre brancos ou entre negros. Mas aí está exatamente o que famílias brancas ricas não querem que ninguém saiba. Se se soubesse de tudo isso, os ricos teriam de ser responsabilizados. 
 
Divisão da riqueza nos EUA
Michael Kraus, Paul Piff e Dacher Keltner, cientistas sociais da Universidade da California, completaram uma pesquisa que os levou a concluir que os pobres têm mais empatia que os ricos. Os pobres, dizem eles, não conseguem dominar o ambiente em que vivem. Têm de construir relacionamentos com outros, para sobreviver. É coisa que só é possível se os pobres aprenderem a ler as emoções à sua volta e responder adequadamente a elas. Para isso, é indispensável que os pobres se olhem, uns os outros. Com isso se tornam mais sensíveis ao próximo. Os ricos, que podem dominar o ambiente em que vivem, não têm de se incomodar com o que outros sintam ou pensem. Estão no comando. Conseguem o que querem. O que querem que seja feito é feito. E quanto mais vivem no centro do próprio universo estanque, mais duros, mais insensíveis e mais cruéis se tornam. 
 
A família branca rica tem excepcional aptidão para o crime. Membros de famílias brancas ricas comandam corporações falidas (pensem nos Irmãos Lehman), fraudam acionistas e investidores, vendem hipotecas podres como se fossem investimentos dourados a fundos de pensão, comunidades e escolas e quando a coisa toda explode, ainda saqueiam o Tesouro dos EUA. Roubam centenas de milhões de dólares em Wall Street mediante fraude e assaltos, pagam poucos impostos ou nenhum, praticamente jamais vão para a cadeia, escrevem as leis e regulações que legalizam seus próprios crimes e, depois, são convidados a participar da direção das universidades de elite, ou tomam assento nos boards das grandes empresas privadas. Inventam fundações e são admirados como filantropos. E se acabam por meter-se em coisa realmente grave, têm os advogados mais caros e todos os seus “contatos” nas elites políticas, para se safarem. 
 
Isso é preciso reconhecer nas famílias brancas ricas: roubam com muito mais finesse que qualquer outra família. Se você é adolescente negro pobre e salta de uma caminhonete com alguns vidros de shampoo que acabou de roubar, o mais provável é que seja assassinado a tiros, pelas costas, ali mesmo na calçada ou, então, é condenado a anos de cadeia. Se houvesse Olímpiadas de crime, as famílias brancas ricas levariam todas as medalhas; as famílias negras pobres teriam sorte se ficassem menos de cem metros atrás do último classificado. Nem sei por que há negros que tentam competir com os brancos, no setor “crime”. Comparados aos criminosos brancos, os criminosos negros são lastimáveis fracassos. Os monarcas do crime são gente branca, que chafurdam na própria riqueza, enquanto vão trancafiando nas prisões porcentagem enorme de homens pobres negros. 
 
Famílias brancas ricas são também os matadores mais eficientes que há no planeta. É verdade há já 500 anos, começando na conquista da América e no genocídio contra os povos nativos norte-americanos, e continuando hoje, nas guerras dos EUA no Oriente Médio. As famílias brancas ricas não matam com as próprias mãos. Não precisam arriscar o próprio pescoço nas ruas das cidades nos EUA ou no Iraque. Mas contratam gente, quase sempre pobres, para matar por elas. Famílias brancas ricas queriam o petróleo do Iraque, ergueram bandeiras e entoaram slogans patrióticos, e assim arregimentaram legiões de crianças pobres para guerrear em nome delas e passar a mão nos poços de petróleo do Iraque. 
 
Casal branco rico típico
Famílias brancas ricas queriam guerra sem fim para benefício da indústria de armas. Foi só convocar para uma guerra ao terror, que conseguiram o que queriam. Famílias brancas ricas queriam que a polícia usasse impunemente força letal contra os pobres e que os prendessem aos milhares, inchando ainda mais as prisões dos EUA com 25% da população prisional do planeta. Foi só criar uma rede de leis antidrogas e militarizar os departamentos de Polícia, que conseguiram o que queriam. 
 
A beleza de fazer outros matarem por você é que você consegue se fazer passar por “razoável” e “bom”. Assim, você logo pode pôr-se a matar pobres muçulmanos por serem fanáticos furiosos. Você consegue divulgar a mensagem da tolerância num sorriso de querubim – o que implica continuar a tolerar os crimes e a violência cometidos por norte-americanos brancos ricos. 
 
Compare os tiros partidos de um carro em movimento em Watts e o bombardeio de saturação no Vietnam. Compare as guerras de gangues em Chicago e o ataque da polícia militarizada contra pelo menos um homem negro por dia, praticamente todos os dias. Ninguém produz mais rapidamente maior número de cadáveres que os ricos brancos. Só no Iraque, produziram um milhão de cadáveres, só até agora. E os ricos e poderosos que matam números espantosos de pessoas nunca vão para a prisão. Podem aposentar-se e ir viver num rancho em Crawford, Texas, e pintar retratos ridículos de líderes mundiais copiados de Google Image Search
 
Não há decadência como a decadência dos brancos ricos. Conheço um bilionário que, aposentado, passa o dia num iate fumando maconha e tratado por uma resma de prostitutas caras. Os filhos das famílias brancas ricas – cercados de empregados e cevados em escolas privadas, nunca voam em aviões de carreira nem se servem do transporte público – desenvolvem o ócio e a preguiça como meio de vida, quase sempre embalado em drogas, que com frequência os levam a desperdiçar completamente a própria vida, como parasitas sociais. As mães não precisam ser mães. Os pais não precisam ser pais. Babás e porteiros fazem o serviço. Os ricos vivem encastelados em reinos privados, protegidos por sua própria guarda privada, nos quais o mundo real não se intromete. São filisteus culturais ocupados com acumular mais riqueza e mais propriedades. O “sucesso material”, como escreveu C. Wright Mills, “é a única e verdadeira base da autoridade”. Misturam-se ao mundo das celebridades. E jornais e televisões comerciais de massa – que famílias brancas e ricas controlam – convertem-nos em ídolos a serem reverenciados só porque são ricos. Profissionais de “relações públicas” [mas que só sabem de relações privadas! :-D)))))] constroem as personas desses ricos, para o mundo exterior. Legiões de advogados atormentam e silenciam quem critique os ricos e brancos. Profissionais da bajulação promovem a sagacidade deles. Em pouco tempo, os brancos ricos estão convencidos da veracidade da mentira que criaram. 
 
Manifestação de negros pobres
Daniel Patrick Moynihan escreveu em 1965 o que se conhece como “Relatório Moynihan”, ou “The Negro Family: The Case for National Action” [A Família Negra: proposta de ação nacional]. O relatório concluiu que “no coração da deterioração do tecido da sociedade dos negros nos EUA está a deterioração da família dos negros”. Os oprimidos passavam a ser culpados pela própria opressão. Nenhum programa social poderia, sozinho, salvar os pobres. O relatório é exemplo clássico do modelo da economia neoliberal, ali re-embalado como uma ideologia. 
 
As patologias dos ricos logo nos levarão para uma ladeira econômica e ecológica. E quando mais nos afundarmos, mais os ricos, sem qualquer empatia e incapazes de compreender, determinados a manter a riqueza e os privilégios deles, mais usarão a guarda pretoriana deles, os veículos deles da comunicação de massas deles, os fantoches políticos deles, e o aparelho de vigilância e segurança deles para nos manter submissos. 
 
“O segredo de um grande sucesso sem causa aparente é sempre um crime jamais descoberto porque foi bem executado”, escreveu Honoré de Balzac em seu romance Le Père Goriot
 
Os ricos executaram um golpe de estado que transformou os três braços do governo dos EUA e praticamente todas as instituições, inclusive as empresas-mídia e todos os veículos comerciais de comunicação de massa em subsidiárias da empresa-estado. 
 
Esse golpe dá aos ricos autorização e poder para acumular riqueza inimaginável, sempre à nossa custa. O golpe permite que os ricos imponham pobreza cada vez mais incapacitante a círculos sempre crescentes da população. A pobreza passou a ser o pior dos crimes – como George Bernard Shaw escreveu, “todos os demais crimes passam a ser virtudes, se comparados à pobreza”. 

Martin Luther King e Malcolm X assassinados
por serem incômodos à elite branca e rica
E a habilidade de uma elite rapace, para deixar crianças morrerem de fome; para fazer homens e mulheres sofrerem a perda da própria dignidade humana e a autoestima, porque não encontram trabalho; a ter de abandonar as próprias casas e cidades; para jogar às ruas os doentes mentais e os velhos sem teto; para cortar sempre mais os magros serviços que ainda dão algum socorro e alguma esperança aos que sofrem, para meter centenas de milhares de pobres em celas de prisões por anos e anos; para fazer guerras sem fim; para fazer curvar os mais moços, sob o peso de dívidas estudantis sem fim; para lançar o estado de terror; e para pôr fim a qualquer esperança entre os menos afortunados, tudo isso demonstra e comprova que os oligarcas brancos e ricos norte-americanos são a força mais destrutiva e mais perigosa ativa hoje nos EUA.

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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Respeitem o arquiteto: Malcolm X, eleições e a política do império


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nosso problema é problema também de vocês. Não importa quanta independência os africanos conquistem na África. A menos que nunca dispam seus trajes africanos quando andarem pelos EUA, vocês correm lá o risco de ser confundidos com um de nós. E serão espancados como nós, em qualquer rua. Essa é a rotina de todos os negros, nos EUA.

Obama foi ao Cairo como “enviado do império” buscando universalizar o poder norte-americano. Malcolm X lá esteve para “internacionalizar as lutas pela liberdade dos negros e aproximá-las das lutas no Terceiro Mundo, onde vivem as vítimas do império”.  [GALLO/GETTY]

Com Guantánamo ainda em operação, os drones matando como sempre, e o sentimento antimuçulmano soando nas claves mais baixas e marcando as passadas do avanço imperial, as próximas eleições presidenciais nos EUA fazem surgir, mais uma vez, o espectro do Terceiro Mundo islâmico e muçulmano apresentado como ameaça à segurança nacional e aos interesses dos EUA. E com Obama concorrendo à reeleição como um, dentre dois candidatos, a questão da Negritude volta a ser o elefante na sala de visitas.

Enquanto muitos ainda querem estigmatizar Obama, cada vez mais, como “cripto-muçulmano” e “candidato árabe” do século 21, outros veem a evidência de que Obama é negro como meio para “reposicionar” a imagem dos EUA e ajudar a promover os interesses dos EUA no Terceiro Mundo muçulmano, acrescentando a eles um verniz ‘pós-racial’ e benevolente.

Mas, como detalho em meu livro mais recente [2], esses relacionamentos e histórias entre a Negritude, o Islã e o Terceiro Mundo muçulmano nada têm de novidade nos EUA.

De fato, foi Malcolm X quem definiu essas histórias convergentes. E é esse legado dele que, em vários sentidos, provoca tanta ansiedade em EUA pós-11/9, com um negro na presidência, cujo segundo prenome é Hussein.

Porque ser negro nos EUA basta, para ser excluído como não-norte-americano; mas ser negro e muçulmano é ser anti-norte-americano. A “desqualificação” de Obama como muçulmano no clima do pós-11/9 veio ocultada pela ameaça representada por aquela coisa chamada “al-Qaeda”; mas a negritude de Obama e sua “proximidade” do Islã provoca, de fato, uma espécie de reirrupção de uma ansiedade nacional muito mais profunda nos EUA, que vai até Malcolm X.

Malcolm X desafiou a autoridade do Estado norte-americano, não só no que tivesse a ver com o passado dos negros, mas também com um futuro para os negros; e exigiu que os negros norte-americanos aprendessem a ver-se não como uma minoria nacional, mas como parte de uma maioria global.

Para Malcolm X, “o Islã foi a maior força de unificação do Mundo Negro” [orig. Dark World], e o Terceiro Mundo muçulmano teve impacto definitório na vida e na visão política de Malcolm X – fosse Meca, como centro espiritual; ou as lutas anticoloniais no Egito, Argélia, Palestina, Iraque e por toda a parte. Mas, para Malcolm, ninguém teria de ser muçulmano. O que importava era reconhecer a realidade do racismo no sofrimento secular dos negros; assim se veria, afinal, o suprematismo branco como fenômeno global e laço necessário que liga as lutas dos negros com as lutas no Terceiro Mundo. Mas sempre houve atenção persistente, nos EUA, para conter e mesmo para erradicar qualquer possibilidade de internacionalismo negro.

Como uma espécie de realização da tradição dos Direitos Civis, a presidência de Obama sugeriu, no plano simbólico, que não apenas os negros têm a própria existência investida nos EUA, mas, também, que a recíproca é verdadeira; o status de Obama como “líder do mundo livre” casaria a identificação dos negros com os EUA, e com o poder e o destino dos EUA.

Barack Obama durante o Discurso do Cairo de 4/6/2009
Obama tentou capturar a euforia em torno de sua eleição no muito divulgado “Discurso do Cairo”, em 2009, intitulado “Um Novo Começo” [orig. "A New Beginning"], que visava a marcar uma mudança, depois do militarismo polarizado do 2º governo Bush.

Mas Malcolm X também falou no Cairo: em 1964, falou numa reunião de chefes de Estado da Organização da Unidade Africana [orig. Organisation of African Unity].

Obama foi ao Cairo como enviado do império que buscava universalizar o poder dos EUA; Malcolm lá esteve para internacionalizar as lutas pela liberdade dos negros no Terceiro Mundo e que eram as vítimas do império.

No Cairo, Malcolm conclamou os chefes de Estado a não se deixarem enganar pelo “lobo imperialista” dos EUA ou pelas tentativas do Departamento de Estado de usar propaganda para convencer as nações africanas de que os EUA estariam avançando no rumo da igualdade racial depois do julgamento do caso Brown vs Board e de a legislação dos Direitos Civis ter sido aprovada.

Como Malcolm disse lá, aquelas medidas eram “manobras de propaganda” e “não passam de truques da potência neocolonial que domina o século”. Malcolm pediu que ouvissem o que fora dizer: “Não fujam do colonialismo europeu, só para se deixar escravizar ainda mais profundamente pelo dolarismo norte-americano, falsamente solidário”.

Ao chamar a atenção para o uso da propaganda e para o gerenciamento da imagem dos EUA no exterior, Malcolm anteviu não só o que aconteceria depois do 11/9, quando o Departamento de Estado daria postos destacados na arte e na política a muçulmanos, para influenciar a opinião pública em outros países, mas, também, como e o quanto a eleição de Obama e a retórica da “diversidade” seriam usadas para reposicionar a imagem dos EUA, promovendo uma imagem renovada de inclusão progressista e “pós-racial”, exclusivamente para mascarar o enraizamento do suprematismo branco, não só nacionalmente, nos EUA, mas também no plano global.

E ao ligar as políticas racistas domésticas nos EUA ao papel da “potência neocolonial” e a emergência do “dolarismo norte-americano”, Malcolm mostrou também o quanto o racismo operava como elo que unia todo o colonialismo europeu aos EUA que emergiam como superpotência global.

Obama foi ao Egito para cooptar aquela cidade sagrada e apresentar uma face benevolente do poder dos EUA. Malcolm lá esteve para rasgar a máscara de benevolência e revelar a verdade nua sobre o nexo que liga a injustiça racial nos EUA e a ambição imperial. Por isso o legado de Malcolm X é tão importante: porque lança luz sobre a dinâmica racista que modela hoje toda a paisagem global sob o poder dos EUA.

Cicatrizes vermelhas, negras e verdes

Logo depois da 2ª Guerra Mundial, quando os EUA substituíram a Europa como ator dominante no cenário global, o presidente Truman declarou o “comunismo” inimigo público n.1; o comunismo seria, disse ele, ameaça maior que o colonialismo, para o Terceiro Mundo em luta para descolonizar-se. Resultado disso, os EUA e seus aliados europeus convenceram-se de que um Terceiro Mundo independente seria a maior ameaça contra a ordem do pós-guerra que os EUA desejavam dominar, porque um Terceiro Mundo independente geraria um vácuo de poder que poderia ser facilmente preenchido pelo comunismo.

O medo real, como Malcolm e outros como Lumumba, Fanon e Nkrumah compreenderam, era medo da libertação e da independência da maioria do mundo, que ganharia força potencial para redistribuir radicalmente o poder e a riqueza globais – e sem considerar qualquer prioridade para o mundo branco.

Então, os EUA expandiram o seu tacão imperial para o Terceiro Mundo e, com ele, estenderam a lógica do racismo colonialista, servindo-se do “anticomunismo” como meio que justificaria a intervenção, o apoio a ditaduras, a deposição de governos democraticamente eleitos, os assassinatos e a desestabilização em todo o Terceiro Mundo (como o comprovam Mossadegh, Arbenz, Lumumba e tantos outros). A política exterior dos EUA usou o “anticomunismo” como simulacro, como máscara, para esconder o racismo; e, assim, conseguiu minar o processo de descolonização do Terceiro Mundo.

Malcolm emergiu desse cadinho da Guerra Fria, onde ativistas dos Direitos Civis abraçaram uma identidade norte-americana e passaram a argumentar que a violência de Jim Crow seria um calcanhar de Aquiles que minaria as ambições globais dos EUA num Terceiro Mundo já hostil ao suprematismo branco. Malcolm criticou duramente o establishment dos Direitos Civis por ter domesticado a luta dos negros, limitando-a ao cenário dos EUA e usando-a como suporte da lógica do “anticomunismo”.

Para Malcolm e outros, o establishment dos Direitos Civis – por não entender a natureza global do suprematismo branco – não obteria qualquer ganho efetivo na luta contra o racismo. Em vez de tentar a sorte ao lado das lutas pela descolonização do Terceiro Mundo, a luta pelos Direitos Civis apenas mascarou o poder branco, com postura reformista para exclusivo uso interno; ao mesmo tempo em que facilitou o processo pelo qual o poder branco entrincheirou-se em todo o mundo, sob a lógica sobreposta, e falhada, do “anticomunismo”.

Em 1964, Malcolm X fez o conhecido e tantas vezes criticado discurso “À urna ou à bala” [orig. The Ballot or the Bullet] [3], em que confrontou o establishment dos Direitos Civis, e disse que o voto sempre seria inútil, para os negros, como meio para alcançar direitos iguais nos EUA.

Em vez de votar, disse ele, os negros deveriam internacionalizar suas lutas e aproximar-se das lutas em curso no Terceiro Mundo, na África, na Ásia e na América Latina. Como disse, “ninguém leva o próprio caso para ser julgado pelo criminoso: leva-se para ser julgado por tribunal”.

Para Malcolm X, a deriva, de “direitos civis” para “direitos humanos”, implicava apresentar a causa dos negros norte-americanos ante um fórum ampliado, o que forçaria os EUA a submeter-se ao escrutínio e desafio do Terceiro Mundo; e isso, sim, poderia fazer pender a balança do poder a favor das nações negras, tanto quanto revelaria as hipocrisias dos EUA, tornaria menos exequíveis os objetivos da política externa dos EUA no Terceiro Mundo e exporia a extensão brutal do mesmo racismo colonial europeu.

Todos esses compromissos e apoios são signos de seu internacionalismo radical e da profunda divergência que o afastava do establishment dos Direitos Civis. Malcolm apoiou a luta dos palestinos contra os sionistas; aproximou os guetos do Harlem sob leis de segregação racista à Casbah de Argel sob leis colonialistas francesas; elogiou a posição de Nasser contra Inglaterra, França e Israel; comemorou a Conferência de Bandung [4], que viu como um modelo para unificar a cultura política negra durante a Guerra Fria; apoiou a revolta dos Mau Mau contra o colonialismo britânico, e do Vietnã contra o colonialismo francês; reuniu-se com Fidel Castro, elogiou Lumumba como “o maior negro que jamais andou pelo continente africano” e, como Fanon, afirmou o valor ético da luta armada; fundamentalmente, desafiou todo o consenso da Guerra Fria.

O presente pós 11/9

Com o hipernacionalismo da era pós 11/9 a soprar as chamas do incêndio da guerra dos EUA contra o Terceiro Mundo muçulmano, o legado de resistência de Malcolm – no qual se combinam o internacionalismo negro e as políticas do Terceiro Mundo muçulmano – é como roteiro pronto para quem se empenhe em desafiar o consenso imperial que caracteriza a era pós-11/9.

O racismo está crescendo nos EUA

Assim como o “anticomunismo” foi usado para encobrir o racismo durante a Guerra Fria, o “antiterrorismo” é a nova máscara que, hoje, esconde o mesmo racismo e o re-entrincheiramento do suprematismo branco. Serve para justificar a intervenção pelos EUA em vários pontos do mundo, ao mesmo tempo em que contém a insatisfação popular interna, com a lógica do “terrorismo” usada até para determinar quem é cidadão e que é inimigo; quem é humano e quem não é; quem é marcado para morrer e quem ganha alvará para continuar vivo.

Forjado nas lutas da Guerra Fria, o legado de Malcolm tem potência para impedir que comunidades minoritárias (inclusive muçulmanas) sejam manipuladas pela retórica do “terrorismo”. O legado de Malcolm ajuda a reconhecer as raízes racistas dessa nova retórica. Ajuda a ver o modo como o “antiterrorismo” é usado, não só para conter qualquer oposição interna, mas, também, para promover a violenta expansão de ambição imperial, dos EUA. Porque a lógica do “antiterrorismo” opera a favor da lógica racista que divide os muçulmanos entre “moderados” e “radicais”, ela rouba também qualquer dignidade aos que se ergam em oposição ao poder imperialista dos EUA em todo o mundo.

Hoje, quando já muitos ativistas, artistas, acadêmicos e organizações voltam-se outra vez para o pensamento de Malcolm e servem-se dele em seu trabalho, é importante que as comunidades negras e outras não brancas, e as comunidades muçulmanas, continuem a traçar e recompor as profundas conexões internacionalistas às quais Malcolm deu tanta atenção.

Essa conexão de todas essas lutas nada tem a ver com qualquer ideia romântica de solidariedade. É conexão que brota da compreensão mais firmemente enraizada de o quanto são profundamente conectadas, de fato, todas essas forças da violência. É o reconhecimento de que a persistência do racismo nos EUA acontece como efeito de o suprematismo branco ser muito fundamente entretecido no próprio tecido do poder político nos EUA; por isso, o suprematismo branco recebe novo fôlego mediante a simples operação do Estado norte-americano, do modo como os EUA conduzem seus negócios, interna ou externamente.

Implica reconhecer que a lógica do encarceramento em massa nos EUA destruiu qualquer possibilidade de vida política para os negros norte-americanos. Conter internamente as forças de oposição popular, usando as polícias locais e a contraguerrilha, é motivação que também inspira os militares norte-americanos em suas prisões imperiais em Abu Ghraib, Guantánamo, Bagram e outras.

Implica reconhecer também que o suplício dos migrantes através da fronteira pesadamente militarizada entre EUA e México é em tudo muito assemelhado ao processo pelo qual os palestinos são simultaneamente contidos e destruídos, os palestinos e a terra deles.

Implica reconhecer que as políticas econômicas neoliberais que destruíram o salário social e fizeram emergir o estado de guerra nos EUA são muito profundamente enraizadas na exploração do Terceiro Mundo – exploração para a qual operam o capital financeiro e a guerra.

Falar só sobre o antirracismo doméstico e não ver o suprematismo branco como problema global, ou só tecer críticas mornas às políticas externas dos EUA, sobre táticas e estratégias, nunca sobre sua postura nacional fundamentalmente racista, é ter perdido completamente o rumo. Porque essa fala e essa crítica mostram que não veem – ou impedem que todos vejam – que o suprematismo branco enraíza-se na própria estrutura das relações globais que os EUA tanto têm trabalhado para inventar; um conjunto de relações nas quais a diplomacia, o comércio, a manobra política, a guerra e questões de soberania são disputadas em terreno absolutamente desnivelado, sobre o qual os EUA e a Europa têm poder de arbitragem, poder político e brutal força militar.

Ignorar tudo isso nos leva às piores formas do internacionalismo liberal, que presume que os EUA sejam potência benéfica para o mundo, e reproduz o problema contra o qual Malcolm X lutou tão heroicamente, até ser morto. [5]

Malcolm deixou uma marca indelével para gerações de artistas e ativistas. Mas seu legado está hoje sob ataque, como se o projeto fosse apagá-lo, desta vez para sempre, em tempos em que o governo Obama e a narrativa triunfante dos Direitos Civis ainda insistem em dar à ação internacionalista dos movimentos de negros ares de impulso antiquado e irrelevante.

Sohail Daulatzai
Frente aos que dizem que votar em Obama seria “mais pragmático”, e que votar em candidato independente ou não votar seria “não pragmático”, Malcolm viraria a mesa. Para ele, jamais houve coisa alguma de “pragmático” em votar em Democratas ou em Republicanos, se as forças que comandam esses atores permanecem resistentes a qualquer mudança (para já nem falar em transformação). Para Malcolm, nada jamais houve de ‘pragmático’ em continuar a investir e a envolver-se nesse processo em que nada muda, sempre sonhando com mudanças. Para Malcolm, isso é pragmatismo-zero. E caminho direto para a irrelevância.

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Notas dos tradutores

[1]  Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2]  Black Star, Crescent Moon: The Muslim International and Black Freedom beyond America [Estrela Negra, Lua Crescente: A internacional muçulmana e Liberdade Negra, além dos EUA], 2012 (sumário em inglês).

[3]3/4/1964, em Detroit, EUA. Pode ser lido (em inglês) em: “The Ballot or the Bullet”: Malcolm X

[4] 18-24/4/1955, realizada em Bandung, Indonésia: primeira conferência em grande escala (29 países, representando ¼ da superfície terrestre e população total de 1,5 bilhão de pessoas) de países africanos e asiáticos, a maioria dos quais acabavam de tornar-se independentes. A Conferência de Bandung está na origem da constituição do Movimento dos Não Alinhados.

[5] Malcolm X foi assassinado num atentado, dia 21/2/1965, em New York, aos 39 anos.