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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pepe Escobar: Regozijem-se com a “nova” Casa de Saud

8/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Rei Salman Bin AbdelAziz da Arábia Saudita
É fascinante assistir ao vasto, bem remunerado exército ocidental de lobbyistas/ estenógrafos dos sauditas a cantar loas a uma “instituição tradicional e conservadora”, também conhecida como Casa de Saud, e que agora embarca em nova “assertiva política externa”.

No que tenha a ver com a matriz ideológica de todas as variações salafistas-jihadistas na tresloucada galáxia do extremismo wahhabista, eu diria que se trata de um update na chefia da gangue. Nada sequer próximo, em termos de entretenimento, da saga “O Chefão” de Coppola, e com certeza mais sinistra.

Imaginem o escândalo, que seria “repercutido” pela “mídia” até as mais distantes galáxias, se a mesma coisa estivesse acontecendo entre os oponentes certificados do Império do Caos, como Irã, Venezuela, Equador, Rússia ou China. Mas como os membros da Casa de Saud são “nossos felásdaputa”, completados por um ministro, Ali al-Naimi, capaz de dizer que deveria ser Alá a determinar os preços do petróleo, o pessoal lá se safa sempre, façam, literalmente, qualquer coisa.

O novo capo di tutti i capi da Nova Casa de Saud, rei Salman, o Guardião das Duas Mesquitas Sagradas, deve ter dado uma escovada no Al Pacino que vive nele, para aprender a cortar rápido como adaga. Aprendeu bem: só com um movimento, conseguiu tudo que segue:

Livrou-se de seu meio irmão e príncipe coroado, Muqrin. Muqrin jurou fidelidade ao novo patrão.

Promoveu seu sobrinho, príncipe Mohammed bin Nayef, de nº3 para nº2 na linha de sucessão na Casa de Saud.

Promoveu o próprio filho, príncipe Mohammed bin Salman, a nº3.

Livrou-se do ex, eterno, Ministro de Relações Exteriores, príncipe Saud Al-Faisal, e pôs no posto um favorito de Washington, o não real Adel al-Jubeir, que foi embaixador nos EUA e tem sido a voz em inglês, não perdida na tradução, da guerra saudita (ilegal) contra o Iêmen.

Distribuiu a todas as forças militares e de segurança um bônus equivalente a um mês de salário.

Mohammed bin Nayef, novo nº 2 na linha
de sucessão no reino da Arábia Saudita
Separou o Ministro saudita do petróleo, da ARAMCO, a estatal do petróleo saudita. Precisa tentar equilibrar os livros – especialmente com a guerra dos preços de petróleo instigada pelos sauditas dando, já, em nada; a ridiculamente cara guerra contra o Iêmen; e todos esses bônus gigantescos para contentar os bonificados; afinal, virtualmente todos na hacienda do petróleo trabalham para a Casa de Saud. Quem apareceu com o esquema Ministério do Petróleo/ARAMCO foi o filho de Salman, Mohammed bin Salman.

De caso com a Máfia, remix [1]

Eis o que o mundo precisa saber sobre o update na chefia da gangue.

Comecemos pelo “jovem” príncipe Mohammed bin Salman (O que haveria de errado? Hagiógrafos ocidentais bajuladores especulam alegremente sobre a idade do homem como se fosse uma donzela em perigo, não homem feito de barba negra. Vale tudo, desde que não passe de 35 anos).

O Jovem Real “enfeixa enorme poder” e como Ministro da Defesa deu andamento ao bombardeio/ guerra/ “operação cinética” no Iêmen. O próprio rei elogiou suas “massivas capacidades”. Fontes sauditas dizem-me que é resultado, em matéria de incompetência, de cruza do Dr. Evil com Mini-Me, sem Austin Powers para salvar o dia dele. Embora seja um pop star e celebridade televisiva dentro da hacienda mafiosa, não convenceu ninguém – ninguém, do Egito ao Paquistão! – a enviar tropas para a guerra “dele”.

Para seu novo n. 3, segundo os especialistas oficiais, obteve “apoio da vasta maioria do Conselho de Fidelidade”. A palavra operativa aí é “vasta maioria”. Implica que o pessoal de Muqrin andava ligeiramente inconfortável. O Conselho de Fidelidade é um grupo de 35 descendentes do fundador da Máfia, rei Abdul Aziz bin Saud.

O Jovem Real, segundo a biografia oficial, teve obscura “carreira profissional de dez anos” quando então – miraculosamente – tornou-se conselheiro especial do pai, então governador de Riad. Foi nomeado Ministro da Defesa e Chefe da Corte Real no mesmo dia, 23 de janeiro de 2015, quando Salman tornou-se rei, depois da morte do ex-rei Abdullah, cuja família inteira foi completamente apagada politicamente.

Mohammed bin Salman al Saud, atual nº 3 na
linha de sucessão ao trono da Arábia Saudita
Mohammed bin Nayef, 55, o novo príncipe coroado, é muito bem amado no Departamento de Defesa dos EUA, como uma espécie de policial saudita top e casca grossa do contraterrorismo. Consta que derrotou a al-Qaeda dentro da Arábia Saudita, só para que ela se reagrupasse no Iêmen onde agora, para todas as finalidades práticas, a mesma al-Qaeda recebe ajuda direta da Máfia, o que acrescenta novo significado à ideia de “ter-um-caso-com-a-Máfia”. O pai dele, o ultra direitista falecido príncipe coroado Nayef, era coloridamente conhecido como “Príncipe Negro”.

Como novo nº2, Nayef terá muito trabalho – continua Presidente do Conselho Econômico e de Desenvolvimento, e também foi nomeado Vice-Primeiro-Ministro. Para todas as finalidade práticas é o novo sujeito-com-quem-se-tem-de-falar na Máfia.

Quanto a al-Jubeir, está sendo elogiado pelos suspeitos de sempre por sua “expertise” em política norte-americana. Nonsense. Al-Jubeir foi nomeado diretamente por Washington.

Dentro desse balé, é o silêncio de Muqrin que se ouve mais eloquentemente. É filho de uma escrava iemenita; foi protegido chave do falecido rei Abdullah; não é exatamente íntimo do ramo de Salman, da Máfia, os sudairis. Já há apostas sobre quando – se algum dia acontecer – ele finalmente contará a verdade sobre a coisa que fala e anda como golpe palaciano.

Qual a estratégia hoje?

Seja qual for o objetivo da sacudida, a “nova” Casa de Saud – com o governo Obama “liderando pela retaguarda” – continuará a vender a ficção de que está libertando o Iêmen de um bando de terroristas, quando, de fato, está é realmente empoderando a al-Qaeda na Península Arábica (AQPA). São os mais ferozes inimigos da AQPA – os houthis – que estão sendo bombardeados por ordens do Jovem Real.

Para nem dizer que a Máfia reciclada – com pequena ajuda dos amigos qataris e turcos – está cuidando para que a Frente Nusra (ramo sírio da al-Qaeda) e o ISIS/ ISIL/ Daesh (que é facção que se separou da al-Qaeda) continue avançando em todas as frentes por todo o “Siraque” [orig. Syraq].

Barack Obama e o novo Rei da Arábia Saudita em 27/1/2015 

E além do objetivo da sacudida, como espertos israelenses já identificaram, o autodescrito governo “Não faça merda coisa estúpida” de Obama continuará a seguir todos os sinuosos mantras da Máfia. Mais ou menos. Se houver alguma coerência em apoiar jihadistas linha-dura na Síria, mas bombardear jihadistas linha-dura no Iraque; apoiar jihadistas linha-dura no Iêmen, mas apoiar jihadistas linha-dura na Líbia e, depois, reprimir jihadistas linha dura na Líbia e por aí vai.

O que torna tudo ainda mais absurdo é que a “nova” Casa de Saud absolutamente detesta a “estratégia” de Washington no Iraque e não acredita nem por um segundo que haja alguma “estratégia” para a Síria. Quanto à própria sinuosa guerra deles mesmos contra o Iêmen, é muito menos sobre wahhabistas que odeiam xiitas “apóstatas”, que sobre wahhabistas impermeáveis a qualquer sopro de Primavera Árabe perto das fronteiras deles.

A Máfia reina, de fato, desde 1902, mantida ou pelo fundador Ibn Saud Abdul-Aziz, ou por seus filhos. O rei Salman será o último de seus filhos a chegar ao poder. O Jovem Real já está afiando as adagas. Agora, é só esperar que a mídia-empresa ocidental o torne mais popular que Justin Bieber.
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Nota dos tradutores:
[1] De Caso com a Máfia, comédia – trailer a seguir:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Pepe Escobar: Camaleão saudita: E agora? “Jihad” na Crimeia?


11/3/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

À frente, a partir da esquerda: presidente do Parlamento do Povo Tártaro, Refat Chubarov; e Sergei Aksyonov, líder da organização Unidade Russa e deputado do Parlamento da região autônoma da Crimeia (RIA Novosti/Taras Litvinenko).
A Casa de Saud pode estar aprontando alguma na Crimeia. Pivoteêmo-nos de volta ao deserto, para ver como isso pode ser possível.

Há uma semana, o ministro da Informação e da Cultura, Abdelaziz Khoja proclamou que a Casa de Saud “renova sua firme posição de condenar o terrorismo em todas as suas formas”. Foi o preâmbulo, antes de dizer que todos os cidadãos sauditas, jihadistas ou não, abandonem a Síria. Cometeram um crime, decretou, cada dia mais perto de encontrar-se com seu Criador, o rei Abdullah, saudita.

Então, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain, todos esses, tiraram seus embaixadores do Qatar, sob o pretexto de que Doha continua a apoiar “mídia hostil”, tipo Al Jazeera.

Finalmente, a Arábia Saudita declarou oficialmente que a Fraternidade Muçulmana, a Frente Al-Nusra (ramo sírio oficial da Al-Qaeda) e o Estado Islâmico do Iraque e Levante [Islamic State of Iraq and the Levant, ISIL] – jihadistas bandidos que lutam contra ambos, o governo de Assad, na Síria e o de Maliki, no Iraque – são organizações terroristas. Qualquer membro saudita de qualquer desses grupos que não esteja de volta ao Reino dentro de 15 dias, será preso por até 30 anos.

Por decreto, o ministro saudita do Interior (por via das dúvidas) também declarou terroristas os rebeldes xiitas huthis no norte do Iêmen, além de um grupo obscuro, com base na Arábia Saudita, chamado “Hezbollah Dentro do Reino”. Nenhum desses pode, sequer, manter conta no Facebook.

Implosão da petromonarquia

É de rir, essa implosão épica da primeira coleção do que o ocidente chama de “nossos filhos da puta” – as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), codinome Club Contrarrevolucionário do Golfo (CCG).

Ministro do Interior saudita, príncipe Mohammed bin Nayef
(Reuters/Hamad I Mohammed)
E, sim, rapidamente a coisa degenerou em arranca-rabo vicioso entre árabes, marca registrada. Para os qataris, por exemplo – acusados pelos sauditas de “intromissão” – quem se intromete são, de fato, os sauditas, que apoiaram o golpe militar de agosto de 2013 no Egito e são responsáveis pela confusão gigante entre os grupos que combatem na Síria. Como era de prever, magotes de jornalistas sauditas e dos Emirados deixaram os empregos em muitos veículos da mídia qatari, vários deles depois de “polidamente” convidados a sair pelo ministro saudita de Cultura e Informação.

E é ainda mais complicado. O decreto real saudita aparece depois de uma lei de contraterrorismo ultra-linha-dura, que proíbe qualquer tipo de crítica à Casa de Saud. Quer dizer: não se trata só de a Casa de Saud estar aterrorizada ante o risco de um revide interno, pelos magotes de jihadistas linha-dura, que aprimoraram seus talentos e habilidades no Levante. Estão terrificados ante qualquer coisa que se mova dentro e em volta da Arábia Saudita. Imaginem o que sentem ante o grande mundo em geral.

Estão terrificados ante os sauditas jovens e ocidentalizados, com ideias “revolucionárias”. Estão terrificados ante jihadistas freelancers. Estão terrificados ante a Fraternidade Muçulmana apoiada pelos primos dos sauditas no Qatar – os quais o ocidente (e é muito engraçado) avaliam que pratiquem um ramo “mais moderado” do wahabismo medieval. O velho emir Hamad al Thani – que recentemente se autodepôs em favor de seu filho Tamim – manipulou habilmente a Fraternidade, como principal alavanca das ambições de Doha no vasto Oriente Médio.

RIA Novosti / Roman Hasaev
Para temperar o mingau saudita-qatari, só há um príncipe saudita na família real que é a favor de algum tipo de acomodação, seguindo as ordens de seus patrões excepcionalistas norte-americanos. E o herdeiro aparente, príncipe Nayef, ministro perene do Interior de 1975 a 2012, está, agora, morto.

Agora já está perfeitamente visível que Riad e Doha põem-se aos murros sobre virtualmente tudo e qualquer coisa – da Palestina e Egito à Síria. Afinal de contas, todos os grãos de areia dos desertos do sudeste da Ásia sabem que a Casa de Saud é a favor dos salafistas, enquanto a política de estado de Doha sempre foi apoiar os Irmãos da Fraternidade Muçulmana [orig. o Ikhwan].

Agora é fácil: ou você está conosco, ou você é terrorista. Ora... o governo Bush-Cheney nos EUA fez a mesma coisa, muito antes. A diferença é que, com tantos freelancers, a empresa Jihad Inc. gerou um problema monstro de Relações Públicas, e os financistas usuais do Golfo, principalmente os sauditas e os emiradistas, perderam o controle da manada.

Agora, pela nova ordem, qualquer commando, mercenário, suicida-bomba ou degolador têm de rezar pelo manual norte-americano-saudita; ou não será armado até os dentes, ou, pior, vira candidato à incineração por um míssil Hellfire, arma preferencial de Obama. O Império quer vocês, rapazes, mas vocês têm de se comportar.

Ônibus para Simferopol?

E isso, não por acaso, nos leva à Crimeia. Ouvi, de fonte saudita muito boa, que eu ficasse de olho nas maquinações da Casa de Saud na Ucrânia; eles parecem imensamente interessados no que está acontecendo ali. Acontece depois da destituição do excessivamente volátil Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, de seu poleiro como comandante supremo da inteligência na guerra contra a Síria (o secretário de Estado John Kerry dos EUA teve papel crucial na queda de Bandar); da substituição de Bandar pelo ministro do Interior príncipe Mohammed bin Nayef, que é muito popular em Washington; e do “toque de recolher” dos combatentes sauditas no Levante.

Os tártaros na Crimeia são muçulmanos. Estão às vésperas de “celebrar” o 70º aniversário de sua deportação em massa, por Stalin. Voltaram à Crimeia no final dos anos 1980s, e hoje são cerca de 250 mil na Crimeia; 13% da população majoritariamente russa, com taxa de desemprego de, no mínimo, 50%.

Os tártaros da Crimeia são muçulmanos (15/4/2012)
Refat Chubarov, presidente do Parlamento, a Assembleia Nacional dos Tártaros da Crimeia, considera o referendo crimeano de 16 de março uma “ameaça” à Ucrânia. Não está promovendo uma jihad, mas, como muitos representantes tártaros, já antevê “sérias consequências” se o estatuto da Crimeia for modificado. Há provas do apoio tártaro aos neofascistas/neonazistas do tipo partidos Svoboda e Setor Direita (Pravy Sektor) em Kiev. Dessa “aliança” até a jihad, a distância é um suicida-bomba.

Aconteça o que acontecer na Crimeia, a Casa de Saud está aprontando alguma. Bandar Bush vangloriou-se para o presidente Putin de que controlava os jihadistas do Cáucaso e podia movê-los como bem entendesse. Seu sucessor bem pode sentir-se tentado a movê-los não no Cáucaso, mas por uma linha direta de ônibus, do deserto sírio para Simferopol. Que espetacular favor prestado aos patrões norte-americanos. O imperador, afinal, em breve visitará Riad.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.