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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pepe Escobar: Regozijem-se com a “nova” Casa de Saud

8/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Rei Salman Bin AbdelAziz da Arábia Saudita
É fascinante assistir ao vasto, bem remunerado exército ocidental de lobbyistas/ estenógrafos dos sauditas a cantar loas a uma “instituição tradicional e conservadora”, também conhecida como Casa de Saud, e que agora embarca em nova “assertiva política externa”.

No que tenha a ver com a matriz ideológica de todas as variações salafistas-jihadistas na tresloucada galáxia do extremismo wahhabista, eu diria que se trata de um update na chefia da gangue. Nada sequer próximo, em termos de entretenimento, da saga “O Chefão” de Coppola, e com certeza mais sinistra.

Imaginem o escândalo, que seria “repercutido” pela “mídia” até as mais distantes galáxias, se a mesma coisa estivesse acontecendo entre os oponentes certificados do Império do Caos, como Irã, Venezuela, Equador, Rússia ou China. Mas como os membros da Casa de Saud são “nossos felásdaputa”, completados por um ministro, Ali al-Naimi, capaz de dizer que deveria ser Alá a determinar os preços do petróleo, o pessoal lá se safa sempre, façam, literalmente, qualquer coisa.

O novo capo di tutti i capi da Nova Casa de Saud, rei Salman, o Guardião das Duas Mesquitas Sagradas, deve ter dado uma escovada no Al Pacino que vive nele, para aprender a cortar rápido como adaga. Aprendeu bem: só com um movimento, conseguiu tudo que segue:

Livrou-se de seu meio irmão e príncipe coroado, Muqrin. Muqrin jurou fidelidade ao novo patrão.

Promoveu seu sobrinho, príncipe Mohammed bin Nayef, de nº3 para nº2 na linha de sucessão na Casa de Saud.

Promoveu o próprio filho, príncipe Mohammed bin Salman, a nº3.

Livrou-se do ex, eterno, Ministro de Relações Exteriores, príncipe Saud Al-Faisal, e pôs no posto um favorito de Washington, o não real Adel al-Jubeir, que foi embaixador nos EUA e tem sido a voz em inglês, não perdida na tradução, da guerra saudita (ilegal) contra o Iêmen.

Distribuiu a todas as forças militares e de segurança um bônus equivalente a um mês de salário.

Mohammed bin Nayef, novo nº 2 na linha
de sucessão no reino da Arábia Saudita
Separou o Ministro saudita do petróleo, da ARAMCO, a estatal do petróleo saudita. Precisa tentar equilibrar os livros – especialmente com a guerra dos preços de petróleo instigada pelos sauditas dando, já, em nada; a ridiculamente cara guerra contra o Iêmen; e todos esses bônus gigantescos para contentar os bonificados; afinal, virtualmente todos na hacienda do petróleo trabalham para a Casa de Saud. Quem apareceu com o esquema Ministério do Petróleo/ARAMCO foi o filho de Salman, Mohammed bin Salman.

De caso com a Máfia, remix [1]

Eis o que o mundo precisa saber sobre o update na chefia da gangue.

Comecemos pelo “jovem” príncipe Mohammed bin Salman (O que haveria de errado? Hagiógrafos ocidentais bajuladores especulam alegremente sobre a idade do homem como se fosse uma donzela em perigo, não homem feito de barba negra. Vale tudo, desde que não passe de 35 anos).

O Jovem Real “enfeixa enorme poder” e como Ministro da Defesa deu andamento ao bombardeio/ guerra/ “operação cinética” no Iêmen. O próprio rei elogiou suas “massivas capacidades”. Fontes sauditas dizem-me que é resultado, em matéria de incompetência, de cruza do Dr. Evil com Mini-Me, sem Austin Powers para salvar o dia dele. Embora seja um pop star e celebridade televisiva dentro da hacienda mafiosa, não convenceu ninguém – ninguém, do Egito ao Paquistão! – a enviar tropas para a guerra “dele”.

Para seu novo n. 3, segundo os especialistas oficiais, obteve “apoio da vasta maioria do Conselho de Fidelidade”. A palavra operativa aí é “vasta maioria”. Implica que o pessoal de Muqrin andava ligeiramente inconfortável. O Conselho de Fidelidade é um grupo de 35 descendentes do fundador da Máfia, rei Abdul Aziz bin Saud.

O Jovem Real, segundo a biografia oficial, teve obscura “carreira profissional de dez anos” quando então – miraculosamente – tornou-se conselheiro especial do pai, então governador de Riad. Foi nomeado Ministro da Defesa e Chefe da Corte Real no mesmo dia, 23 de janeiro de 2015, quando Salman tornou-se rei, depois da morte do ex-rei Abdullah, cuja família inteira foi completamente apagada politicamente.

Mohammed bin Salman al Saud, atual nº 3 na
linha de sucessão ao trono da Arábia Saudita
Mohammed bin Nayef, 55, o novo príncipe coroado, é muito bem amado no Departamento de Defesa dos EUA, como uma espécie de policial saudita top e casca grossa do contraterrorismo. Consta que derrotou a al-Qaeda dentro da Arábia Saudita, só para que ela se reagrupasse no Iêmen onde agora, para todas as finalidades práticas, a mesma al-Qaeda recebe ajuda direta da Máfia, o que acrescenta novo significado à ideia de “ter-um-caso-com-a-Máfia”. O pai dele, o ultra direitista falecido príncipe coroado Nayef, era coloridamente conhecido como “Príncipe Negro”.

Como novo nº2, Nayef terá muito trabalho – continua Presidente do Conselho Econômico e de Desenvolvimento, e também foi nomeado Vice-Primeiro-Ministro. Para todas as finalidade práticas é o novo sujeito-com-quem-se-tem-de-falar na Máfia.

Quanto a al-Jubeir, está sendo elogiado pelos suspeitos de sempre por sua “expertise” em política norte-americana. Nonsense. Al-Jubeir foi nomeado diretamente por Washington.

Dentro desse balé, é o silêncio de Muqrin que se ouve mais eloquentemente. É filho de uma escrava iemenita; foi protegido chave do falecido rei Abdullah; não é exatamente íntimo do ramo de Salman, da Máfia, os sudairis. Já há apostas sobre quando – se algum dia acontecer – ele finalmente contará a verdade sobre a coisa que fala e anda como golpe palaciano.

Qual a estratégia hoje?

Seja qual for o objetivo da sacudida, a “nova” Casa de Saud – com o governo Obama “liderando pela retaguarda” – continuará a vender a ficção de que está libertando o Iêmen de um bando de terroristas, quando, de fato, está é realmente empoderando a al-Qaeda na Península Arábica (AQPA). São os mais ferozes inimigos da AQPA – os houthis – que estão sendo bombardeados por ordens do Jovem Real.

Para nem dizer que a Máfia reciclada – com pequena ajuda dos amigos qataris e turcos – está cuidando para que a Frente Nusra (ramo sírio da al-Qaeda) e o ISIS/ ISIL/ Daesh (que é facção que se separou da al-Qaeda) continue avançando em todas as frentes por todo o “Siraque” [orig. Syraq].

Barack Obama e o novo Rei da Arábia Saudita em 27/1/2015 

E além do objetivo da sacudida, como espertos israelenses já identificaram, o autodescrito governo “Não faça merda coisa estúpida” de Obama continuará a seguir todos os sinuosos mantras da Máfia. Mais ou menos. Se houver alguma coerência em apoiar jihadistas linha-dura na Síria, mas bombardear jihadistas linha-dura no Iraque; apoiar jihadistas linha-dura no Iêmen, mas apoiar jihadistas linha-dura na Líbia e, depois, reprimir jihadistas linha dura na Líbia e por aí vai.

O que torna tudo ainda mais absurdo é que a “nova” Casa de Saud absolutamente detesta a “estratégia” de Washington no Iraque e não acredita nem por um segundo que haja alguma “estratégia” para a Síria. Quanto à própria sinuosa guerra deles mesmos contra o Iêmen, é muito menos sobre wahhabistas que odeiam xiitas “apóstatas”, que sobre wahhabistas impermeáveis a qualquer sopro de Primavera Árabe perto das fronteiras deles.

A Máfia reina, de fato, desde 1902, mantida ou pelo fundador Ibn Saud Abdul-Aziz, ou por seus filhos. O rei Salman será o último de seus filhos a chegar ao poder. O Jovem Real já está afiando as adagas. Agora, é só esperar que a mídia-empresa ocidental o torne mais popular que Justin Bieber.
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Nota dos tradutores:
[1] De Caso com a Máfia, comédia – trailer a seguir:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Geopolítica da guerra dos EUA no Iêmen (II)

31/3/2015, [*] Mahdi Darius NazemroayaStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ver também e antes: 30/3/2015, Mahdi Darius Nazemroaya,  Strategic Culture em: Geopolítica da guerra dos EUA no Iêmen (I)


A revolta dos Houthis (Sanaa - 20/3/2015)
Dia 6 de março, a revista Foreign Policy dizia que:

Estão sendo traçadas linhas de combate no Iêmen, o país mais pobre do mundo árabe e mais recente candidato a estado fracassado. Se, como parece mais provável a cada dia, a guerra irromper em breve, a disputa pela supremacia regional entre Arábia Saudita e Irã só tornará piores as coisas. As duas potências já se mostraram ansiosas por armar grupos que lhes parece que possam controlar, apesar do legado que essa rivalidade destrutiva já deixou na Síria e no Iraque.

Nada mais distante da realidade!

Aliança dos houthis com o Irã: pragmatismo ou sectarismo?

Os houthis absolutamente não são “procuradores” dos iranianos, não são, de modo algum. O movimento houthi é ator político independente, que emergiu como resultado da repressão. Pretender que os houthis seriam “delegados” dos iranianos é erro empírico, e ignora toda a história e a política do Iêmen. Até a revista Foreign Policy teve de admitir que:

Se eclodir uma guerra de oposições sectárias, não será porque haja alguma divisão sectária histórica no Iêmen; será porque os financiadores estrangeiros da guerra estão fazendo incendiar divisões sempre existentes, que nunca tiveram qualquer importância.

Os líderes houthis repetidas vezes rejeitaram qualquer alegação de que receberiam ordens de Teerã. Nem os repetidos desmentidos contudo impediram que funcionários dos sauditas e Khaliji (do Golfo) e agentes da empresa-mídia usassem e manipulassem declarações de funcionários do Irã, como uma comparação dos houthis aos Basij do Irã, para pintar os houthis como se fossem agentes ou clientes do Irã.

Protestos ocorrem por todo o Iêmen
Assim como os houthis não são agentes “procuradores” do Irã, tampouco há qualquer aliança xiita entre eles e Teerã no Iêmen. Conversas, noticiário e “análises” que se concentrem nessa narrativa simplória sobre sectarismo inexistente servem para ocultar a natureza e as motivações reais do conflito no Iêmen – e encobrem, para vergonha eterna dos encobridores, a luta dos houthis contra a repressão. Até os anos 1970s, a Casa de Saud sempre foi dedicada apoiadora dos grupos pró-realeza no Iêmen – que eram predominantemente muçulmanos xiitas.

Sobretudo, os muçulmanos xiitas no Iêmen não são Jaffaris (Dos 12) como a maioria dos muçulmanos xiitas no Irã, na República do Azerbaijão, Líbano, Iraque, Afeganistão, Paquistão e na região do Golfo Pérsico. Além de bolsões de xiitas ismaelitas – que podem também ser chamados “Dos 7” – nos governoratos de Saada, Hajja, Amran, Al-Mahwit, Sana, Ibb e Al-Jawf, a maioria dos muçulmanos xiitas no Iêmen são zaidistas. Os ismaelitas no Iêmen são, na maioria, membros das seitas davidianas e Sulaimani (Salomônicas) do ismaelismo Mustali que se separou do grupo maior dos ismaelistas Nizari (nizaristas).

Foi a hostilidade de EUA e sauditas contra o movimento houthi que empurrou os houthis a se movimentarem, pragmaticamente na direção do Irã, em busca de ajuda que lhes servisse como contrapeso. Nas palavras do Wall Street Journal,

(...) militantes houthis que controlam a capital do Iêmen tentam construir laços com o Irã, Rússia e China, para contrabalançar o apoio que o ocidente e os sauditas dão ao presidente deposto. (...) O governo interino dos houthis enviou delegações ao Irã em busca de fornecimento de combustível, e à Rússia, à procura de projetos para investimentos em energia, segundo dois altos oficiais houthis. Outra delegação planeja visitar a China nas próximas semanas, dizem os mesmos oficiais – dizia também o Wall Street Journal na mesma matéria de 6 /3/2015.


Arábia Saudita bombardeia áreas urbanas por todo o Iêmen
Resultado do movimento dos houthis para fora, em busca de apoios, Irã e Iêmen anunciaram que a partir do dia 2/3/2015 haverá voos diários entre Teerã e Sana. É importante linha de suprimentos, vital para o movimento houthi.

A narrativa sectária e a carta do sectarismo

A instabilidade no Iêmen não é causada pelo Irã nem pelos houthis, mas pela interferência dos EUA e dos sauditas no Iêmen – desde a invasão pela Arábia Saudita em 2009, até os atuais ataques pelos drones norte-americanos – e décadas de apoios saudita garantiu longa vida, no Iêmen, a um governo autoritário e impopular.

O Iêmen absolutamente não é país inerentemente dividido. À parte a Al-Qaeda, que sauditas e EUA alimentam e mantêm viva, não há real divisão nem tensões graves entre xiitas e sunitas. Para impedir a independência do Iêmen, os EUA e os sauditas reforçaram todas as tendências a qualquer sectarismo, na esperança de “implantar” no Iêmen uma oposição mortal entre xiitas e sunitas.

Diferente do que reza a falsa narrativa hoje dominante, as alianças do Irã com países do Oriente Médio não são alianças baseadas em divisões sectárias. Todos os aliados palestinos de Teerã são predominantemente muçulmanos sunitas; e no Iraque e Síria, além dos respectivos governos, o Irã apoia e ajuda uma gama variadas de grupos religiosos e étnicos que também inclui não árabes e cristãos. Na Síria, por exemplo, incluem-se aí muçulmanos sírios predominantemente sunitas e curdos iraquianos, além da ala Sutoro Assíria do Syriac Union Party (SUP) na Síria. No Líbano, além do Hezbollah, os iranianos também são aliados de partidos sunitas, drusos e cristãos, dentre os quais o Movimento da Frente Patriótica de Michel Aoun – o maior partido cristão que há no Líbano.

Se há alguém realmente engajados em sectarismos como política, são os EUA e seus aliados nos petro-emirados árabes. Ambos, EUA e Arábia Saudita já lutaram antes contra os houthis e os usaram contra a Fraternidade Muçulmana no Iêmen. Além disso, durante a Guerra Fria, ambas, a Casa Branca e a Casa de Saud tentaram usar os xiitas iemenitas contra os republicanos no Iêmen do Norte e na República Popular Democrática do Iêmen no sul. Foi quando o movimento houthi deixou muito claro que não seria vassalo nem de Washington nem de Riad, que EUA e a Arábia Saudita tornaram-se extremamente hostis.

Arábia Saudita quer invadir o Iêmen
(clique no "link" ou na imagem para aumentar)

Preparação para invadir o Iêmen

Dia 20/3/2015, suicidas-bombas atacaram as mesquitas de Al-Badr e Al-Hashoosh duranteasr salat (“as preces da tarde”). Morreram mais de 300 pessoas. Abdul Malik al-Houthi acusou EUA e Israel de apoiarem os ataques terroristas, além de apoiarem também oISIL/ISIS/Daesh/Estado Islâmico e a Al-Qaeda no Iêmen. A Arábia Saudita também foi responsabilizada.

Enquanto persiste o silêncio no Marrocos, na Jordânia e nos petro-emirados, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Marziyeh Afkham, condenou os ataques terroristas no Iêmen. De um modo ou de outro, Síria, Iraque, Rússia e China todos condenaram também os ataques terroristas no Iêmen. Para fazer prova do apoio de Teerã ao Iêmen, dois aviões cargueiros do Irã carregados com itens de ajuda humanitária foram enviados ao Iêmen, e a Sociedade do Crescente Vermelho transportou para hospitais iranianos mais de 50 iemenitas vítimas dos ataques terroristas, para serem tratados.

A Casa de Saud fracassou no Iêmen

O movimento dos houthis é resultado das políticas da Arábia Saudita no Iêmen e do apoio dos sauditas ao governo autoritário. Nesse sentido, os houthis são uma reação à brutalidade dos sauditas e ao apoio que a Casa de Saud garantiu sempre ao autoritarismo iemenita. Os houthis emergiram como parte de uma rebelião liderada por Hussein Badreddin Al-houthi em 2004, contra o governo iemenita.

Bairros de Sanaa destruídos pelos bombardeios sauditas
No projeto de demonizar o movimento dos houthis, os regimes saudita e iemenita têm insistido em divulgar a ideia falsa de que os houthis aspirariam a impor um imamato zaidista na Arábia. Mas nada disso impediu que o movimento se fortalecesse. Em 2009, o exército do Iêmen ditatorial não conseguiu dar conta deles, o que levou à intervenção saudita chamada “Operação Terra Chamuscada” [orig. Operation Scorched Earth] lançada dia 11/8/2009.

A Arábia Saudita fracassou quando enviou seus militares para o Iêmen para lutar contra os houthis em 2009 e 2010. Fracassou na tentativa de obrigar o Iêmen e o movimento dos houthi a ajoelhar-se e obedecer. Quando os sauditas exigiram que os houthis e o governo iemenita de transição dançassem conforme a música saudita e viajassem a Riad para negociações, o “convite” foi totalmente rechaçado pelos houthis e pelos Comitês Revolucionários do Iêmen, porque as tais negociações e qualquer esquema de partilha do poder que os sauditas apoiassem sempre poriam de lado os houthis e outras forças políticas iemenitas. Essa é a razão pela qual a posição dos houthis contra a Arábia Saudita recebeu o apoio da União das Forças Populares, do Congresso Geral do Povo do próprio Hadi e do Partido Baath do Iêmen.

Dividir o Iêmen?

O Iêmen conheceu numerosas insurreições, intervenções militares por exércitos dos EUA e da Arábia Saudita, e cresce, nos governoratos do sul um movimento separatista. O exército iemenita está fragmentado e há tensões tribais. Ouve-se falar cada vez com mais frequência de o país acabar transformado em mais um estado árabe falhado.

Abdrabbuh Al-Hadi e o Rei Salman da Arábia Saudita
Em 2013, o jornal New York Times propôs que Líbia, Síria, Iraque e Iêmen fossem divididos. No caso do Iêmen, a “proposta” era dividir o país novamente em dois. Para o New York Times aconteceria, ou poderia acontecer depois de um possível referendo nos governoratos do sul do país. O New York Times também propôs que:

(...) todo o Iêmen Sul, ou parte dele, poderia então ser incorporado à Arábia Saudita. Praticamente todo o comércio saudita faz-se por mar, e garantir acesso direto ao Mar da Arábia diminuiria a dependência do Golfo Pérsico – e medos da capacidade do Irã para fechar o Estreito de Ormuz.

Agora, a Arábia Saudita e Al-Hadi cortejam desavergonhadamente os separatistas no sul do Iêmen, que têm apoio de, no máximo, 1/10 da população. A próxima opção para EUA e Arábia Saudita pode ser dividir o Iêmen, como meio para mitigar o duro golpe e a mudança estratégica que advirão de uma vitória dos houthis. Com o Iêmen dividido, a Arábia Saudita e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teriam ponto de trânsito no sul para o Oceano Índico, e os EUA preservariam o pé que ainda têm no Golfo de Aden.
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[*] Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado freqüente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio.
Recentemente, em viagem pela América Central, contactou a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Como Observador Internacional esteve em El Salvador no primeiro turno das eleições.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pepe Escobar: Petróleo/bomba atômica: a charada do Oriente Médio

17/3/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Arábia Saudita extrai petróleo à noite...
O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, parece estar começando a gostar do frisson de viver perigosamente na sua “diplomacia”, quando diz que “não se sabe ainda” se EUA e Irã chegarão a algum tipo de acordo nuclear antes do final do mês.

Ouviram-se aplausos retumbantes pelos corredores, de Telavive a Riad.

Com as negociações sendo reiniciadas em Lausanne, fato é que um possível acordo nuclear entre Irã e o P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China (dos BRICS) e Alemanha) pode abrir a possibilidade de o petróleo iraniano chegar ao mercado em maiores quantidades – o que fará desabar ainda mais rapidamente o preço do petróleo. No início da semana em curso, o Brent cru estava sendo vendido a US$ 54,26 o barril.

Assumindo-se que as nações da UE que participam do P5+1 realmente concordem até o verão com suspender as sanções da ONU (Rússia e China já concordaram), não apenas o Irã exportará mais energia – pode demorar alguns meses – mas também a OPEP, como um todo, estará aumentando ainda mais a super oferta.

A UE precisa muitíssimo comprar grandes quantidades da energia iraniana – e investir na infraestrutura iraniana. Pequim, membro chave, embora ainda discreto, do P5+1, também observa cuidadosamente esses desenvolvimentos.



Aconteça o que acontecer, ainda é situação de ganha-ganha para a China, com Pequim construindo ativamente suas reservas estratégicas de petróleo, aproveitando-se dos baixos preços. E mesmo que os preços do petróleo permaneçam pressionados pelo forte EUA-dólar – o que torna o petróleo muito mais caro, se você paga com outra moeda – não há aí, com certeza, problema grave para a China, que tem reservas tamanho mamute de EUA-dólares.

A guerra do preço do petróleo desencadeada essencialmente pela Arábia Saudita atingiu muito duramente o Irã. O país está caído, mas nem por isso está fora de jogo. Não há boas opções para Teerã, além de tentar manter sua fatia de mercado, oferecendo os mesmos descontos – especialmente para a Ásia – que os sauditas oferecem.

Teerã está afogada numa tsunami de terríveis sanções ocidentais, que limitam sua possibilidade de exportar petróleo e aumentar a produção. É extremamente difícil para os governos iranianos reduzir o buraco gerado pela diferença entre a renda com que o país podia contar, baseado nos velhos altos preços do petróleo, e a renda com que conta hoje.

Hoje, o nome do jogo entre todos os grandes produtores de petróleo é defender a qualquer custo a própria fatia de mercado. O Irã não pode fugir disso – porque precisa manter controlado, eternamente, o medo de excesso de oferta e o próprio desejo de aumentar a produção. Alguns países produtores de petróleo estão mantendo fora do mercado qualquer aumento que haja no petróleo produzido. O resultado é que o Irã terá sérios problemas para produzir mais e exportar mais, ao mesmo tempo em que tentar recupera a fatia de mercado que tinha antes do início das sanções.

Quer comprar um apê no Oriente Médio?

Ao mesmo tempo em que um tipo de “guerra do petróleo” não declarada continua ainda longe de qualquer solução, o front nuclear promete eventos de embasbacar.

Arábia Saudita extrai petróleo também de dia...
Facções poderosas – mesmo que conflitantes – do “Império do Caos” em Washington alimentam ativamente o sonho de transferir ativos militares dos EUA, do Oriente Médio para a Europa, para manter sempre crescente a pressão sobre a Rússia, sob o pretexto de uma “agressão” contra a Ucrânia.

Pode até acontecer, mas só depois de o “controle” sobre o Oriente Médio estar partilhado entre Turquia, Irã e, em menor extensão, também com a Casa de Saud. Para a notoriamente atrapalhadíssima política exterior de “Não faça merda coisa estúpida” do governo Obama, esse desenvolvimento talvez seja o argumento de fundo por trás do movimento para conseguir, esse verão, um acordo nuclear bem-sucedido entre o P5+1 e o Irã.

O Irã já cultivou – e já viu florir – sua própria esfera de influência. Muito mais complicado é caso Turquia-sauditas.
Bashar al-Assad

Ancara, que vê bem claramente o terrível arranca-rabo em curso pelo poder regional entre Teerã e Riad, cuida de manter boas relações com esses dois lados.

Crucialmente importante, Ancara e Riad estão quase na mesma página do script de “Assad tem de sair”. “Quase” – porque de fato o que se tem é uma aliança Turquia-Qatar pró-Fraternidade Muçulmana, que há quatro anos está em luta direta contra uma Casa de Saud pró-salafistas.

Pelo sim, pelo não, quando o presidente turco, também conhecido como “Sultão” Erdogan, visitou o rei Salman da Arábia Saudita no início de março, a dupla chegou a um entendimento: os dois vão garantir “apoio” super turbinado – armas e todo o resto – para a oposição síria. O único problema é que não há “oposição síria” a quem entregar o “apoio”. Virtualmente todos os personagens capazes de operar uma arma já migraram para o falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que isso significa, em resumo, é cenário de sunitas contra xiitas. Gambito clássico de Divide e Impera que é perene prioridade para a Casa de Saud.

O “Império do Caos”, em teoria, deveria estar gostando. Mas não está. O objetivo – declarado – do governo Obama – é “[dar prioridade] ao Estado Islâmico, não a Assad”.

Mas também isso pode mudar de um momento para outro. O novo Supremo do Pentágono, Ashton Carter, acaba de admitir que:

(...) as forças que treinamos na Síria (...), teremos alguma obrigação de garantir apoio a elas, depois de serem treinadas. Mas aí também se inclui a possibilidade de que, ainda que tenham sido treinadas e equipadas para combater o ISIL, as mesmas tropas entrem em contato com forças do regime Assad.

Erdogan visitou Salman no início de março de 2015
Não surpreende que Damasco esteja desconfiada, e decidida a esperar pelas “ações” dos EUA, antes de qualquer possível negociação com Washington. Um dia, Kerry diz que é necessário conversar com Damasco para pôr fim à guerra na Síria. Dia seguinte, repete que “Assad tem de sair”.

Os rapazes de Osama fazem-se de loucos

Quanto à zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria – que Erdogan muito deseja e é o sonho molhado de neoconservadores em Washington – não decolará. Mais uma razão para que Ancara fique à distância dessa nova intentona anti-Irã dos sauditas.

Para complicar ainda mais as coisas, o poder dentro da Casa de Saud permanece difuso. Ambas, a CIA e a BND – inteligência alemã – concordam, e ouvem-se constantes rumores em Washington, segundo os quais a Casa de Saud pode estar por um fio.

A Casa de Saud ainda não compreendeu que a Síria não é a principal “ameaça” contra os sauditas. Os sauditas estão tão pirados por causa da fronteira com o Iraque – como por causa das fronteiras com Iêmen e Bahrain. Como se não bastassem, já compraram briga também contra a Rússia, por causa da guerra dos preços de petróleo. Os sauditas dizem que estão bombeando só 9,5 milhões de barris/dia, dos 12,5 milhões que poderiam bombear; Moscou diz é que, de fato, estão bombeando a capacidade total dos poços.

Se, por um lado, a guerra dos preços do petróleo faz a delícia dos “Masters of the Universe” que só pensam em demonizar a Rússia, aquela guerra ao mesmo tempo os enfurece, porque está detonando a “revolução” do petróleo de xisto dos EUA. O que resta para as massas de trabalhadores norte-americanos desempregados? Procurar emprego na Arábia Saudita ( vídeo abaixo). Mais uma razão para os “Masters of the Universe” jogarem a Casa de Saud para fora do barco, no momento que lhes der na telha.


Como se poderia prever, a paranoia continua a reinar na Casa de Saud. O príncipe Turki, ex-capo di tutti i capi da inteligência saudita (e ex-amigão de Osama bin Laden) está fazendo horas extras culpando o Irã por ser “ator agitador em vários cenários do mundo árabe, como Iêmen, Síria, Iraque, Palestina ou Bahrain”, insistindo que “o inimigo” são Assad e o ISIS/ISIL/Daesh; e por último, mas não menos importante, atacando com fúria qualquer possível acordo nuclear com o Irã.

Ainda mais preocupante é que o rei Salman trouxe a Riad o Primeiro-Ministro do Paquistão Nawaz Sharif – até correu a recebê-lo no aeroporto – para confirmar um acordo estratégico nuclear secreto, chave, antes que aconteça qualquer acordo Irã/P5+1. Resumo: a Casa de Saud já não confia no guarda-chuva nuclear norte-americano. Estão tratando de fazer seu próprio jogo nuclear, com a ajuda do Paquistão nuclear. A conexão existe, mas permanece cercada de mistério extremo.

Nem é necessário elaborar sobre o pântano de consequências terríveis: alguém estaria apostando em wahhabistas doidos e nucleares?
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, Nimble Books, 2014.