Mostrando postagens com marcador OPEP. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador OPEP. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pepe Escobar: Petróleo/bomba atômica: a charada do Oriente Médio

17/3/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Arábia Saudita extrai petróleo à noite...
O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, parece estar começando a gostar do frisson de viver perigosamente na sua “diplomacia”, quando diz que “não se sabe ainda” se EUA e Irã chegarão a algum tipo de acordo nuclear antes do final do mês.

Ouviram-se aplausos retumbantes pelos corredores, de Telavive a Riad.

Com as negociações sendo reiniciadas em Lausanne, fato é que um possível acordo nuclear entre Irã e o P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China (dos BRICS) e Alemanha) pode abrir a possibilidade de o petróleo iraniano chegar ao mercado em maiores quantidades – o que fará desabar ainda mais rapidamente o preço do petróleo. No início da semana em curso, o Brent cru estava sendo vendido a US$ 54,26 o barril.

Assumindo-se que as nações da UE que participam do P5+1 realmente concordem até o verão com suspender as sanções da ONU (Rússia e China já concordaram), não apenas o Irã exportará mais energia – pode demorar alguns meses – mas também a OPEP, como um todo, estará aumentando ainda mais a super oferta.

A UE precisa muitíssimo comprar grandes quantidades da energia iraniana – e investir na infraestrutura iraniana. Pequim, membro chave, embora ainda discreto, do P5+1, também observa cuidadosamente esses desenvolvimentos.



Aconteça o que acontecer, ainda é situação de ganha-ganha para a China, com Pequim construindo ativamente suas reservas estratégicas de petróleo, aproveitando-se dos baixos preços. E mesmo que os preços do petróleo permaneçam pressionados pelo forte EUA-dólar – o que torna o petróleo muito mais caro, se você paga com outra moeda – não há aí, com certeza, problema grave para a China, que tem reservas tamanho mamute de EUA-dólares.

A guerra do preço do petróleo desencadeada essencialmente pela Arábia Saudita atingiu muito duramente o Irã. O país está caído, mas nem por isso está fora de jogo. Não há boas opções para Teerã, além de tentar manter sua fatia de mercado, oferecendo os mesmos descontos – especialmente para a Ásia – que os sauditas oferecem.

Teerã está afogada numa tsunami de terríveis sanções ocidentais, que limitam sua possibilidade de exportar petróleo e aumentar a produção. É extremamente difícil para os governos iranianos reduzir o buraco gerado pela diferença entre a renda com que o país podia contar, baseado nos velhos altos preços do petróleo, e a renda com que conta hoje.

Hoje, o nome do jogo entre todos os grandes produtores de petróleo é defender a qualquer custo a própria fatia de mercado. O Irã não pode fugir disso – porque precisa manter controlado, eternamente, o medo de excesso de oferta e o próprio desejo de aumentar a produção. Alguns países produtores de petróleo estão mantendo fora do mercado qualquer aumento que haja no petróleo produzido. O resultado é que o Irã terá sérios problemas para produzir mais e exportar mais, ao mesmo tempo em que tentar recupera a fatia de mercado que tinha antes do início das sanções.

Quer comprar um apê no Oriente Médio?

Ao mesmo tempo em que um tipo de “guerra do petróleo” não declarada continua ainda longe de qualquer solução, o front nuclear promete eventos de embasbacar.

Arábia Saudita extrai petróleo também de dia...
Facções poderosas – mesmo que conflitantes – do “Império do Caos” em Washington alimentam ativamente o sonho de transferir ativos militares dos EUA, do Oriente Médio para a Europa, para manter sempre crescente a pressão sobre a Rússia, sob o pretexto de uma “agressão” contra a Ucrânia.

Pode até acontecer, mas só depois de o “controle” sobre o Oriente Médio estar partilhado entre Turquia, Irã e, em menor extensão, também com a Casa de Saud. Para a notoriamente atrapalhadíssima política exterior de “Não faça merda coisa estúpida” do governo Obama, esse desenvolvimento talvez seja o argumento de fundo por trás do movimento para conseguir, esse verão, um acordo nuclear bem-sucedido entre o P5+1 e o Irã.

O Irã já cultivou – e já viu florir – sua própria esfera de influência. Muito mais complicado é caso Turquia-sauditas.
Bashar al-Assad

Ancara, que vê bem claramente o terrível arranca-rabo em curso pelo poder regional entre Teerã e Riad, cuida de manter boas relações com esses dois lados.

Crucialmente importante, Ancara e Riad estão quase na mesma página do script de “Assad tem de sair”. “Quase” – porque de fato o que se tem é uma aliança Turquia-Qatar pró-Fraternidade Muçulmana, que há quatro anos está em luta direta contra uma Casa de Saud pró-salafistas.

Pelo sim, pelo não, quando o presidente turco, também conhecido como “Sultão” Erdogan, visitou o rei Salman da Arábia Saudita no início de março, a dupla chegou a um entendimento: os dois vão garantir “apoio” super turbinado – armas e todo o resto – para a oposição síria. O único problema é que não há “oposição síria” a quem entregar o “apoio”. Virtualmente todos os personagens capazes de operar uma arma já migraram para o falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que isso significa, em resumo, é cenário de sunitas contra xiitas. Gambito clássico de Divide e Impera que é perene prioridade para a Casa de Saud.

O “Império do Caos”, em teoria, deveria estar gostando. Mas não está. O objetivo – declarado – do governo Obama – é “[dar prioridade] ao Estado Islâmico, não a Assad”.

Mas também isso pode mudar de um momento para outro. O novo Supremo do Pentágono, Ashton Carter, acaba de admitir que:

(...) as forças que treinamos na Síria (...), teremos alguma obrigação de garantir apoio a elas, depois de serem treinadas. Mas aí também se inclui a possibilidade de que, ainda que tenham sido treinadas e equipadas para combater o ISIL, as mesmas tropas entrem em contato com forças do regime Assad.

Erdogan visitou Salman no início de março de 2015
Não surpreende que Damasco esteja desconfiada, e decidida a esperar pelas “ações” dos EUA, antes de qualquer possível negociação com Washington. Um dia, Kerry diz que é necessário conversar com Damasco para pôr fim à guerra na Síria. Dia seguinte, repete que “Assad tem de sair”.

Os rapazes de Osama fazem-se de loucos

Quanto à zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria – que Erdogan muito deseja e é o sonho molhado de neoconservadores em Washington – não decolará. Mais uma razão para que Ancara fique à distância dessa nova intentona anti-Irã dos sauditas.

Para complicar ainda mais as coisas, o poder dentro da Casa de Saud permanece difuso. Ambas, a CIA e a BND – inteligência alemã – concordam, e ouvem-se constantes rumores em Washington, segundo os quais a Casa de Saud pode estar por um fio.

A Casa de Saud ainda não compreendeu que a Síria não é a principal “ameaça” contra os sauditas. Os sauditas estão tão pirados por causa da fronteira com o Iraque – como por causa das fronteiras com Iêmen e Bahrain. Como se não bastassem, já compraram briga também contra a Rússia, por causa da guerra dos preços de petróleo. Os sauditas dizem que estão bombeando só 9,5 milhões de barris/dia, dos 12,5 milhões que poderiam bombear; Moscou diz é que, de fato, estão bombeando a capacidade total dos poços.

Se, por um lado, a guerra dos preços do petróleo faz a delícia dos “Masters of the Universe” que só pensam em demonizar a Rússia, aquela guerra ao mesmo tempo os enfurece, porque está detonando a “revolução” do petróleo de xisto dos EUA. O que resta para as massas de trabalhadores norte-americanos desempregados? Procurar emprego na Arábia Saudita ( vídeo abaixo). Mais uma razão para os “Masters of the Universe” jogarem a Casa de Saud para fora do barco, no momento que lhes der na telha.


Como se poderia prever, a paranoia continua a reinar na Casa de Saud. O príncipe Turki, ex-capo di tutti i capi da inteligência saudita (e ex-amigão de Osama bin Laden) está fazendo horas extras culpando o Irã por ser “ator agitador em vários cenários do mundo árabe, como Iêmen, Síria, Iraque, Palestina ou Bahrain”, insistindo que “o inimigo” são Assad e o ISIS/ISIL/Daesh; e por último, mas não menos importante, atacando com fúria qualquer possível acordo nuclear com o Irã.

Ainda mais preocupante é que o rei Salman trouxe a Riad o Primeiro-Ministro do Paquistão Nawaz Sharif – até correu a recebê-lo no aeroporto – para confirmar um acordo estratégico nuclear secreto, chave, antes que aconteça qualquer acordo Irã/P5+1. Resumo: a Casa de Saud já não confia no guarda-chuva nuclear norte-americano. Estão tratando de fazer seu próprio jogo nuclear, com a ajuda do Paquistão nuclear. A conexão existe, mas permanece cercada de mistério extremo.

Nem é necessário elaborar sobre o pântano de consequências terríveis: alguém estaria apostando em wahhabistas doidos e nucleares?
__________________________________________________________ 

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, Nimble Books, 2014. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Pepe Escobar: Que jogo joga a Casa de Saud?

16/1/2015, [*] Pepe Escobar, RT − Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Extração de petróleo em terra firme
A Casa de Saud atravessa tempos de problemas extremos. A arriscadíssima guerra que criaram com o baixo preço do petróleo pode sair pela culatra. A sucessão do rei Abdullah pode virar banho de sangue. E o protetor norte-americano pode estar passando por mudanças nas suas inclinações.

Comecemos pelo petróleo – e alguns prolegômenos. Ao mesmo tempo em que o fornecimento aumentou alguns milhões de barris/dia para os EUA, não sai petróleo suficiente do Irã, Kirkuk no Iraque, Líbia e Síria; e isso compensa o petróleo norte-americano a mais no mercado. Na essência, a economia global – pelo menos por hora, não está procurando mais petróleo, por causa da estagnação/recessão europeia e da relativa desaceleração na China.

Desde 2011, a Arábia Saudita vinha inundando o mercado para compensar a diminuição nas exportações do Irã causada pela guerra econômica que os EUA movem contra o país, codinome “sanções”. Riad, além de tudo, impediu que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP (ing. OPEC), reduzisse as quotas de produção por país. A Casa de Saud acredita que possa jogar o jogo de espera – enquanto o óleo extraído por fracking, quase todo norte-americano, é inexoravelmente expelido do mercado, porque é caro demais. Depois disso, os sauditas creem que recuperarão seus mercados.

Paralelamente, a Casa de Saud está obviamente gostando muito de “punir” Irã e Rússia pelo apoio que dão a Bashar Assad em Damasco. Mais do que qualquer outra coisa, a ideia de um acordo nuclear essencialmente entre EUA e Irã – que pode levar a uma détente de longo prazo – aterroriza a Casa de Saud (embora esse acordo ainda seja um gigantesco “talvez”). 

Previsão de variação dos preços do petróleo até 2025
Teerã, contudo, mantém-se em atitude de desafio. A Rússia conseguiu desviar o ataque, porque o rublo baixo significou que as entradas estatais não se modificaram – e não haverá déficit no orçamento. Quanto ao Leste Asiático, sedento de petróleo – inclusive a China, grande cliente dos sauditas – curte os tempos de fartura, enquanto duram.

Os preços do petróleo continuarão muito baixos, por hora. Essa semana, Goldman Sachs baixou suas previsões para 2015 para o petróleo WTI e o Brent Crude; o Brent baixou de US$ 83,75 o barril, para US$ 50,40, WTI caiu de US$ 73,75 para US$ 47,15 o barril. Os preços por barril podem logo cair para US$ 42,00 e US$ 40,50. Mas então haverá uma inevitável “recuperação em forma de meia-volta” [orig. “U-shaped recovery”].

Nomura aposta que o petróleo estará de volta aos US$ 80,00 o barril, ao final de 2015.

Castigar a Rússia ou morrer

O Presidente Barack Obama dos EUA, em entrevista, admitiu abertamente que queria “disruptions” no “preço do petróleo”, porque entendia que o presidente Vladimir Putin da Rússia teria “dificuldades enormes para lidar com a coisa”. Assim se resolve a discussão sobre castigar a Rússia e colusão EUA-sauditas – depois que o Secretário de Estado dos EUA permitiu/ endossou o que fazia o rei Abdullah em Jeddah, e simultaneamente elevava a produção de petróleo e embarcava numa estratégia de cortar o preço.

Barack Obama
Se Kerry entregou toda a indústria de gás de xisto dos EUA por estupidez ou por incompetência – provavelmente pelas duas causas – é irrelevante. O que interessa é que se a Casa de Saud tivesse recebido ordens para recuar, teria de recuar imediatamente; o “Império do Caos” domina os vassalos do Golfo Persa, que não têm autonomia nem para respirar, sem luz verde, no mínimo implícita, dos EUA.

Muito mais perturbador que isso é que a gangue que governa Washington não parece estar defendendo os interesses nacionais e industriais dos EUA. Se déficits monstruosos na balança comercial não bastassem, agora virtualmente toda a indústria norte-americana de petróleo corre o risco de ser destruída por uma escroqueria no preço do petróleo. Todos os analistas mentalmente sãos interpretam o movimento como contrário aos interesses nacionais dos EUA.

Seja como for, o negócio de Riad foi música para os ouvidos da Casa de Saud. A política oficial deles sempre foi impedir o desenvolvimento de quaisquer potenciais substitutos para o petróleo, inclusive o gás de xisto norte-americano. Assim, por que não deprimir os preços do petróleo e mantê-los deprimidos por tempo suficiente para que os investimentos em gás de xisto sejam convertidos em coisa de doidos?

Mas há um grande problema. A Casa de Saud simplesmente não obtém entradas suficientes para apoiar o orçamento anual, com o petróleo abaixo de US$ 90,00 o barril. Castigar Irã e Rússia pode parecer muito sedutor, mas ferir as próprias cadernetas de ouro de bolso, não.

No longo prazo, parece só haver preços mais altos. É possível substituir o petróleo em vários casos, mas ainda não há substituto – ainda – para o motor de combustão interna. Assim sendo, seja o que for que a OPEP esteja fazendo, está sempre preservando, de fato, a demanda por petróleo, versus substitutos para o petróleo, e maximizando o retorno de um recurso limitado. Resumo: é, sim, preço predatório.

Mais uma vez, há um vetor imenso, crucial, que complica. Pode-se ter a Casa de Saud e outros produtores do Golfo Persa inundando o mercado – mas são os Goldman Sach, JP Morgan e Citigroup quem faz o jogo sujo, nas sombras, via derivativos futuros alavancados de curto prazo [orig. via leveraged derivative short futures].

Quem manda nos preços do petróleo...
Preços do petróleo são questão tão opaca que só grandes bancos que comerciam petróleo, como Goldman Sachs ou Morgan Stanley têm alguma ideia de quem está comprando e quem está vendendo contratos futuros ou derivativos do petróleo – o que se chama “papel-petróleo” [orig. “paper oil”]. As não regras desse cassino multibilionário configuram o que se conhece como uma “bolha especulativa” – com pequena ajuda daqueles amigos nas bombas de bombear petróleo no Golfo. Com a venda de contratos futuros de petróleo e com as duas principais bolsas de valores, Londres e New York, monopolizando esses contratos futuros, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, na realidade não mais controla os preços do petróleo; quem os controla é Wall Street. Esse é o grande segredo. A Casa de Saud talvez acalente a ilusão de que permanece no controle. Mas não permanece.

Aquele casamento disfuncional

Como se as coisas já não estivessem suficientemente confusas, a crucial sucessão da Casa de Saud ganhou ímpeto. O rei Abdullah, 91, foi diagnosticado com pneumonia e hospitalizado em Riad, na véspera do dia de Ano Novo, e respirava por aparelhos. Pode ter – ou não ter, nos termos da sempre secretiva Casa de Saud – câncer de pulmão. Não durará muito. O fato de que Abdullah seja saudado como “reformador progressista” diz tudo que se precisa saber sobre a Arábia Saudita. “Liberdade de manifestação”? Você está brincando.

Assim sendo, quem será o próximo? O primeiro, na linha de sucessão deve ser o príncipe coroado Salman, 79, também Ministro da Defesa. Foi governador da província de Riad por longos 48 anos. Esse falcão com alvará foi quem supervisionou as ricas “doações” privadas para os mujahedin afegãos na jihad dos anos 1980s, operando em conjunto com pregadores wahhabistas linha-dura. Dentre os filhos de Salman destacam-se o governador de Medina, príncipe Faisal. Desnecessário dizer, a família Salman controla virtualmente toda a imprensa-empresa saudita.

Saud al-Faisal, MRE da Arábia Saudita
Para pôr as mãos no Santo Graal, Salman tem de provar que está apto. Não é automático e, acima de tudo, Abdullah, osso duro de roer, já sobreviveu a dois de seus príncipes coroados, Sultan e Nayef. O futuro de Salman não é luminoso: passou por cirurgia na coluna, teve um infarto e há suspeitas de que esteja sofrendo de – muito apropriadamente – demência.

Não é bom augúrio que, quando promovido a Vice-Ministro da Defesa, Salman não tenha chegado a esquentar a cadeira – porque se envolveu no atroz jogo dos jihadistas de Bandar Bush, na Síria.

Seja como for, Salman já tem sucessor: segundo Vice Primeiro-Ministro príncipe Muqrin, ex-governador da província de Medina e depois chefe da inteligência saudita. Muqrin é muito, muito próximo de Abdullah. Muqrin parece ser o último filho “capaz” de Ibn Saud; “capaz”, aqui, é figura de retórica. O problema real contudo começa quando Muqrin tornar-se príncipe coroado. Porque, então, o seguinte, na linha de sucessão, será escolhido dentre os netos de Ibn Saud.

Ali entram em cena os chamados príncipes de 3ª-geração – um bando terrível. O primeiro dentre eles é ninguém menos que Mitab bin Abdullah, 62, o filho do rei; gritos de nepotismo têm procedência. Como um senhor da guerra, Mitab controla seus próprios homens armados na Guarda Nacional. Fontes contaram que Riad fervilha de boatos de que Abdullah e Muqrin fizeram um pacto: Abdullah faz Muqrin rei, e Muqrin faz Mitab príncipe coroado. Mais uma vez, sendo essa a secretiva Casa de Saud, aplica-se o mantra de Hollywood: ninguém sabe de coisa alguma.

Casa de Saud (Arábia Saudita)
Há filhos de Abdullah por todos os cantos: Governador de Meca, Vice-Governador de Riad, Vice-Ministro de Relações Exteriores, Presidente do Crescente Vermelho Saudita. Vale o mesmo para os filhos de Salman. Mas vem então Muhammad bin Nayif, filho do falecido príncipe coroado Nayif, que se tornou Ministro do Interior em 2012, encarregado da ultrassensível segurança interna, tipo capaz de atacar qualquer um e qualquer coisa. É o principal concorrente contra Mitab, dentre os príncipes de 3ª geração.

Implica dizer que podem esquecer qualquer ideia de “unidade” familiar, quando está em cena essa troupe notável de donos de fazendas de petróleo fingindo que personificam um país. E, seja como for, quem quer que herde o butim terá de encarar o abismo e a mesma litania de dificuldades: desemprego crescente; desigualdade abissal; horrenda divisão sectária; todas as formas de jihadismo – incluído o falso Califato de Ibrahim no “Síriaque”, já ameaçando marchar contra Meca e Medina; o indizivelmente medieval Conselho da Ulemas (aqueles, dados a açoitar, amputar, degolar); total dependência do petróleo; paranoia ilimitada contra o Irã; e um relacionamento tormentoso com A Voz do Dono, os EUA.

E quando chamarão a cavalaria?

E então acontece que os verdadeiros Mestres do Universo no eixo Washington-New York estão discutindo exatamente a erosão desse relacionamento; com a Casa de Saud sem ter com quem falar, além dos capachos, de Bush-2 a Kerry. O que quero dizer é que qualquer coisa que Kerry tenha dito sobre “cooperação” da Casa de Saud para destruir a economia russa valem realmente nada, coisa alguma.

Bandar (Bush) bin Sultan
Rumores do território dos Mestres do Universo indicam que a CIA, mais cedo ou mais tarde, pode mexer-se contra a Casa de Saud. Nesse caso, a única via pela qual a Casa de Saud pode garantir a própria sobrevivência é tornar-se amiga de, nem mais nem menos, Moscou. É onde se vê claramente mais uma vez o quanto é suicidaria a rota em que está hoje a Casa de Saud, ainda insistindo em tentar ferir a economia russa.

Como todos são inexoravelmente outsiders sempre que se trata da totalmente opaca Casa de Saud, há também uma corrente analítica para a qual os sauditas saberiam o que estão fazendo. Não necessariamente. A Casa de Saud parece acreditar que agradar aos neoconservadores dos EUA melhorará o status dos sauditas em Washington. Simplesmente não é assim, nunca acontecerá desse modo. Os neoconservadores permanecem obcecados com a ajuda da Casa de Saud ao Paquistão, para desenvolver mísseis nucleares; alguns dos quais – mais uma vez: é questão aberta à discussão – podem mesmo ser instalados na Arábia Saudita para “objetivos de defesa” contra a mítica “ameaça” iraniana.

Confuso? A palavra não explica nem o começo. Mas uma coisa é certa: seja qual for o jogo que Riad pensa que esteja jogando, melhor iniciarem logo conversações sérias com Moscou. Mas, por favor: não mandem Bandar Bush em outra missão russa.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 



domingo, 30 de novembro de 2014

Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP): guerra de preços contra produtores norte-americanos

29/11/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Países membros da OPEP
A reunião da OPEP em Viena na 5ª-feira (27/11/2014) foi como divisor de águas, no ir e vir da maré da política de energia. A Arábia Saudita expôs ali, sem meias palavras, a decisão de que não haverá qualquer corte na produção para deter a acentuada queda nos preços do petróleo. Ouviram-se vozes discordantes, mas na OPEP os sauditas mandam e desmandam.

Será o raiar de uma “nova ordem do petróleo”? Os sauditas distribuíram notícias de que a OPEP está realmente em guerra aberta contra os produtores norte-americanos de petróleo de xisto, e de que é guerra necessária, para que se preservem as fatias de mercado dos países reunidos na OPEP.

Mas, privadamente, os sauditas já informam que todos tratem de aprender a viver com menor renda por um ano ou dois, e que se agarrem com unhas e dentes à própria fatia de mercado. Mas nem todos estão convencidos de que a posição dos sauditas seja autêntica.

Reunião da OPEP em Viena, Áustria - 27/11/2014
Há mérito na posição dos sauditas, na medida que já se constatou grande mudança no mercado global de petróleo nos anos recentes. Se o forte aumento nos preços do petróleo em meados dos anos 2000 (graças a forte aumento na demanda global) galvanizou a busca por novas fontes, e eventualmente levou ao uso das revolucionárias tecnologias do fracking e da perfuração horizontal, para extrair petróleo de “formações de xisto” nos EUA, o salto na produção gera a ameaça de crise de excesso de oferta.

Somada ao enfraquecimento da demanda por petróleo na Europa (Alemanha) e Ásia (China e Japão), só a produção adicional dos EUA (4 milhões de barris/dia) significa aumento substancial na oferta (antes baseada em 75 milhões de barris/dia). Além disso, houve aumento na produção de petróleo também no Canadá e na Rússia, e a Líbia está de volta aos negócios, depois da caótica “mudança de regime” pela qual o país passou.


Essencialmente, a OPEP (saudita) decidiu deixar o preço cair a um preço tal que os projetos de perfuração de altíssimo custo em curso nos EUA sintam que a nova produção é antieconômica e sejam forçados a desistir.
Abdalla Salem El-Badri, Secretário Geral da OPEP

É gambito de alto risco, porque ninguém sabe, com certeza, qual o ponto a partir do qual a extração de petróleo de xisto tornar-se-á “não lucrativa”.

Na verdade, a combinação de demanda mais fraca e oferta crescente fez o preço cair de US$ 115/barril em meados de junho, para US$ 80/barril em meados de novembro. Depois da reunião da OPEP na 5ª-feira (27/11/2014), os preços literalmente desabaram. O Brent cru está agora em torno de US$ 70/barril.

Claramente, a influência da OPEP sobre o mercado mundial de petróleo já não é hoje a mesma de antes, historicamente. Até o presente, a OPEP (que produz hoje 40% do petróleo do mundo) podia “controlar” efetivamente o preço mundial do petróleo pelo método simples de coordenar cortes (ou picos positivos) na produção. Já não é o caso.

Produziremos 30 milhões de barris/dia nos próximos seis meses, e veremos como se comportam os mercados.

Assim o secretário-geral da OPEP, Abdalla El-Badri comentou o resultado da reunião de 5ª-feira (27/11/2014) em Viena. Em resumo, há à vista uma nova era no mecanismo de fazer preço para o petróleo, na qual o próprio mercado administrará a oferta, não mais a OPEP.

Preços de petróleo até 2040, previsão (EIA -EUA) 
(Clique na imagem para aumentar)
Enquanto isso, para todos os efeitos práticos, a OPEP declarou guerra aos perfuradores norte-americanos de xisto, com os EUA como novo “produtor duvidoso” [orig. swing producer]. O impacto de tudo isso na política mundial não pode ser mais profundo. Se o mundo estava dividido entre países produtores e países consumidores de petróleo, os países consumidores serão os grandes ganhadores.

A queda nos preços do petróleo para US$ 70 ou abaixo disso por barril é como ganhar a sorte grande para aquelas economias e entre elas estão a União Europeia, China, Japão e Índia. A conta a pagar por petróleo importado da Índia, ano passado, chegou a US$135 bilhões. A economia é muito substancial.

Moscou deu-se por parte prejudicada, com EUA e Irã, os principais perdedores ante a queda nos preços do petróleo. Mas a história não acaba aí. Moscou parece ter interesses comuns com a Arábia Saudita, como país produtor interessado em desalojar do mercado o petróleo de xisto dos norte-americanos.

Interessante: o Ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, Faisal Al-Saud, visitou Moscou apenas uma semana antes da reunião da OPEP, e os dois países concordaram amplamente com a abordagem saudita a ser divulgada, como foi, na reunião da OPEP.

Sergey Lavrov em 22/11/2014
Como o Ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov disse depois das conversações com o ministro saudita,

(...) quando países exportadores de petróleo veem desequilíbrio entre oferta e demanda, quando veem que a oferta ou a demanda está sendo artificialmente manipulada por atores particulares no mercado, é claro que têm o direito de tomar medidas que visem a corrigir aqueles fatores não objetivos, para devolver o mercado à sua posição natural.

Mais uma vez, a queda nos preços do petróleo teria variados impactos também na China. O ponto é que se sabe que a China tem as maiores reservas do mundo de gás de xisto. Atualmente está às voltas com a extração – o que pode mudar, se a tecnologia norte-americana for acessível.

A assinatura do recente acordo entre China e os EUA pode dar o ímpeto de que os dois lados carecem para cooperar na extração do petróleo de xisto.

Extraindo petróleo de xisto em West Virginia, EUA
Mas, feitas todas as contas, a atitude dos sauditas, de desafio, é jogada arriscada. Com certeza é mais barato bombear petróleo na Arábia Saudita, que extrair petróleo de solos de xisto no Texas ou Dakota do Norte. Em princípio, claro, se o preço do petróleo continuar a cair, pode acontecer de os produtores norte-americanos fugirem do negócio – com o que os preços do petróleo se estabilizarão e a OPEP manterá sua fatia de 40% do mercado.

O caso é que ninguém sabe qual terá de ser o preço do petróleo no mercado mundial, para que o boom do xisto realmente fracasse. A Agência Internacional de Energia só sabe que cerca de 4% dos projetos de xisto dos EUA podem ruir, se o preço do petróleo cair abaixo de US$ 80/barril. Por outro lado, muitos projetos na formação Bakken em Dakota do Norte permanecerão nos negócios, a menos que os preços do petróleo caiam abaixo de US$ 42/barril (o que é impensável).


Será longa jornada noite adentro até junho/2015, quando deve acontecer a próxima reunião da OPEP.
_____________________________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.