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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pepe Escobar: Regozijem-se com a “nova” Casa de Saud

8/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Rei Salman Bin AbdelAziz da Arábia Saudita
É fascinante assistir ao vasto, bem remunerado exército ocidental de lobbyistas/ estenógrafos dos sauditas a cantar loas a uma “instituição tradicional e conservadora”, também conhecida como Casa de Saud, e que agora embarca em nova “assertiva política externa”.

No que tenha a ver com a matriz ideológica de todas as variações salafistas-jihadistas na tresloucada galáxia do extremismo wahhabista, eu diria que se trata de um update na chefia da gangue. Nada sequer próximo, em termos de entretenimento, da saga “O Chefão” de Coppola, e com certeza mais sinistra.

Imaginem o escândalo, que seria “repercutido” pela “mídia” até as mais distantes galáxias, se a mesma coisa estivesse acontecendo entre os oponentes certificados do Império do Caos, como Irã, Venezuela, Equador, Rússia ou China. Mas como os membros da Casa de Saud são “nossos felásdaputa”, completados por um ministro, Ali al-Naimi, capaz de dizer que deveria ser Alá a determinar os preços do petróleo, o pessoal lá se safa sempre, façam, literalmente, qualquer coisa.

O novo capo di tutti i capi da Nova Casa de Saud, rei Salman, o Guardião das Duas Mesquitas Sagradas, deve ter dado uma escovada no Al Pacino que vive nele, para aprender a cortar rápido como adaga. Aprendeu bem: só com um movimento, conseguiu tudo que segue:

Livrou-se de seu meio irmão e príncipe coroado, Muqrin. Muqrin jurou fidelidade ao novo patrão.

Promoveu seu sobrinho, príncipe Mohammed bin Nayef, de nº3 para nº2 na linha de sucessão na Casa de Saud.

Promoveu o próprio filho, príncipe Mohammed bin Salman, a nº3.

Livrou-se do ex, eterno, Ministro de Relações Exteriores, príncipe Saud Al-Faisal, e pôs no posto um favorito de Washington, o não real Adel al-Jubeir, que foi embaixador nos EUA e tem sido a voz em inglês, não perdida na tradução, da guerra saudita (ilegal) contra o Iêmen.

Distribuiu a todas as forças militares e de segurança um bônus equivalente a um mês de salário.

Mohammed bin Nayef, novo nº 2 na linha
de sucessão no reino da Arábia Saudita
Separou o Ministro saudita do petróleo, da ARAMCO, a estatal do petróleo saudita. Precisa tentar equilibrar os livros – especialmente com a guerra dos preços de petróleo instigada pelos sauditas dando, já, em nada; a ridiculamente cara guerra contra o Iêmen; e todos esses bônus gigantescos para contentar os bonificados; afinal, virtualmente todos na hacienda do petróleo trabalham para a Casa de Saud. Quem apareceu com o esquema Ministério do Petróleo/ARAMCO foi o filho de Salman, Mohammed bin Salman.

De caso com a Máfia, remix [1]

Eis o que o mundo precisa saber sobre o update na chefia da gangue.

Comecemos pelo “jovem” príncipe Mohammed bin Salman (O que haveria de errado? Hagiógrafos ocidentais bajuladores especulam alegremente sobre a idade do homem como se fosse uma donzela em perigo, não homem feito de barba negra. Vale tudo, desde que não passe de 35 anos).

O Jovem Real “enfeixa enorme poder” e como Ministro da Defesa deu andamento ao bombardeio/ guerra/ “operação cinética” no Iêmen. O próprio rei elogiou suas “massivas capacidades”. Fontes sauditas dizem-me que é resultado, em matéria de incompetência, de cruza do Dr. Evil com Mini-Me, sem Austin Powers para salvar o dia dele. Embora seja um pop star e celebridade televisiva dentro da hacienda mafiosa, não convenceu ninguém – ninguém, do Egito ao Paquistão! – a enviar tropas para a guerra “dele”.

Para seu novo n. 3, segundo os especialistas oficiais, obteve “apoio da vasta maioria do Conselho de Fidelidade”. A palavra operativa aí é “vasta maioria”. Implica que o pessoal de Muqrin andava ligeiramente inconfortável. O Conselho de Fidelidade é um grupo de 35 descendentes do fundador da Máfia, rei Abdul Aziz bin Saud.

O Jovem Real, segundo a biografia oficial, teve obscura “carreira profissional de dez anos” quando então – miraculosamente – tornou-se conselheiro especial do pai, então governador de Riad. Foi nomeado Ministro da Defesa e Chefe da Corte Real no mesmo dia, 23 de janeiro de 2015, quando Salman tornou-se rei, depois da morte do ex-rei Abdullah, cuja família inteira foi completamente apagada politicamente.

Mohammed bin Salman al Saud, atual nº 3 na
linha de sucessão ao trono da Arábia Saudita
Mohammed bin Nayef, 55, o novo príncipe coroado, é muito bem amado no Departamento de Defesa dos EUA, como uma espécie de policial saudita top e casca grossa do contraterrorismo. Consta que derrotou a al-Qaeda dentro da Arábia Saudita, só para que ela se reagrupasse no Iêmen onde agora, para todas as finalidades práticas, a mesma al-Qaeda recebe ajuda direta da Máfia, o que acrescenta novo significado à ideia de “ter-um-caso-com-a-Máfia”. O pai dele, o ultra direitista falecido príncipe coroado Nayef, era coloridamente conhecido como “Príncipe Negro”.

Como novo nº2, Nayef terá muito trabalho – continua Presidente do Conselho Econômico e de Desenvolvimento, e também foi nomeado Vice-Primeiro-Ministro. Para todas as finalidade práticas é o novo sujeito-com-quem-se-tem-de-falar na Máfia.

Quanto a al-Jubeir, está sendo elogiado pelos suspeitos de sempre por sua “expertise” em política norte-americana. Nonsense. Al-Jubeir foi nomeado diretamente por Washington.

Dentro desse balé, é o silêncio de Muqrin que se ouve mais eloquentemente. É filho de uma escrava iemenita; foi protegido chave do falecido rei Abdullah; não é exatamente íntimo do ramo de Salman, da Máfia, os sudairis. Já há apostas sobre quando – se algum dia acontecer – ele finalmente contará a verdade sobre a coisa que fala e anda como golpe palaciano.

Qual a estratégia hoje?

Seja qual for o objetivo da sacudida, a “nova” Casa de Saud – com o governo Obama “liderando pela retaguarda” – continuará a vender a ficção de que está libertando o Iêmen de um bando de terroristas, quando, de fato, está é realmente empoderando a al-Qaeda na Península Arábica (AQPA). São os mais ferozes inimigos da AQPA – os houthis – que estão sendo bombardeados por ordens do Jovem Real.

Para nem dizer que a Máfia reciclada – com pequena ajuda dos amigos qataris e turcos – está cuidando para que a Frente Nusra (ramo sírio da al-Qaeda) e o ISIS/ ISIL/ Daesh (que é facção que se separou da al-Qaeda) continue avançando em todas as frentes por todo o “Siraque” [orig. Syraq].

Barack Obama e o novo Rei da Arábia Saudita em 27/1/2015 

E além do objetivo da sacudida, como espertos israelenses já identificaram, o autodescrito governo “Não faça merda coisa estúpida” de Obama continuará a seguir todos os sinuosos mantras da Máfia. Mais ou menos. Se houver alguma coerência em apoiar jihadistas linha-dura na Síria, mas bombardear jihadistas linha-dura no Iraque; apoiar jihadistas linha-dura no Iêmen, mas apoiar jihadistas linha-dura na Líbia e, depois, reprimir jihadistas linha dura na Líbia e por aí vai.

O que torna tudo ainda mais absurdo é que a “nova” Casa de Saud absolutamente detesta a “estratégia” de Washington no Iraque e não acredita nem por um segundo que haja alguma “estratégia” para a Síria. Quanto à própria sinuosa guerra deles mesmos contra o Iêmen, é muito menos sobre wahhabistas que odeiam xiitas “apóstatas”, que sobre wahhabistas impermeáveis a qualquer sopro de Primavera Árabe perto das fronteiras deles.

A Máfia reina, de fato, desde 1902, mantida ou pelo fundador Ibn Saud Abdul-Aziz, ou por seus filhos. O rei Salman será o último de seus filhos a chegar ao poder. O Jovem Real já está afiando as adagas. Agora, é só esperar que a mídia-empresa ocidental o torne mais popular que Justin Bieber.
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Nota dos tradutores:
[1] De Caso com a Máfia, comédia – trailer a seguir:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 26 de outubro de 2013

Pepe Escobar: “A Casa de Saud pivotear-se-á para a China?”

25/10/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye.
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bandar Bush bin Sultan
por Kerry Waghorn
O esporte geopolítico favorito du jour é desconstruir as razões pelas quais a Casa de Saud – o casamento da monarquia hiperabsoluta e de fanáticos wahabistas – pirou completamente, com o inefável Bandar Bush na linha de frente.

Estão aterrorizados ante a possibilidade de que o Muro de Desconfiança, de 34 anos, entre Washington e Teerã, finalmente venha abaixo. Estão aterrorizados ante o risco de aqueles infiéis norte-americanos recusem-se a fazer a guerra para a “nossa” mudança de regime contra a Síria. Estão aterrorizados ante a crítica (leve) contra a repressão linha duríssima no Bahrain (que os sauditas invadiram, em 2011, por falar nisso). Detestam mortalmente o culto norte-americano àquela divindade – a democracia – que permitiu que os EUA abandonassem tiranos amigos na Tunísia e no Egito (a Líbia é diferente; o rei Abdullah queria Gaddafi detonado desde, no mínimo, 2002).

A Casa de Saud está tão doidamente furiosa com o governo Obama, que até “todas as opções” estão previstas “sobre a mesa”. O que obriga a perguntar: e se Riad estiver realmente sonhando com pivotear-se para a China?

O “socialismo com características de mercado” como Pequim autodescreveu-se precisa muitíssimo do petróleo saudita; afinal, a Casa de Saud já é o principal fornecedor da China. O rei Abdullah olha para o leste e o que vê é uma superpotência aspirante, abarrotada de dinheiro ilimitado, a qual jamais sonhará com intervir em assuntos internos dos sauditas, para nem falar de considerar ideias de Primavera Árabe.

Hu Jintao (então presidente da China) visita o Rei Abdullah da Arabia Saudita em 2009
Imaginem então o rei Abdullah moribundo sonhando com um eixo Riad-Pequim como seu legado – com o benefício extra embutido de deslocar o Irã, inimigo mortal, fazendo do Irã problema de segurança nacional dos chineses (embora Pequim, com certeza, toma a coisa como a proverbial situação de ganha-ganha, interessada em comprar ainda mais gás dos sauditas, enquanto continua comprando mais gás do Irã).

A Arábia Saudita produz cerca de 10% do total global, o que perfaz cerca de 90 milhões de barris de petróleo/dia. É o maior exportador do mundo, produtor decisivo, [Orig. swing producer] essencial na definição do preço do petróleo – o qual permanece muito alto, não só por causa da demanda chinesa e indiana, mas também por causa da especulação incansável.

Riad está atentamente observando a possibilidade de os EUA tornarem-se autossuficientes em energia, por causa da tecnologia do fracking – tecnologia suja, imunda, repugnante e geradora de poluição devastadora. Com certeza estão avaliando que mesmo com os EUA produzindo mais do que os sauditas – cerca de 12 milhões de barris/dia, incluindo etanol – mesmo assim os EUA têm de importar nada menos que 6,7 milhões de barris/dia em 2013. Os EUA continuarão a carecer de petróleo – petróleo saudita – no futuro previsível.

Petrodólar perde valor...
Se “todas as opções” estão mesmo “sobre a mesa”, a Casa de Saud pode estar considerando acertar um negócio de décadas com o chineses vorazes consumidores de energia, garantindo-lhes suprimento a preço combinado. Mas assumamos que a demanda – especialmente da Ásia – suba, como subirá: a Casa de Saud sabe que os EUA podem ver-se numa enrascada e manifestar, com gestos e espalhafato, o próprio desprazer.

Perdendo minha religião (do petrodólar)

A Casa de Saud também sabe muito bem que ela é a âncora que mantêm a OPEP ligada ao sistema do petrodólar. Sem a Arábia Saudita, o petrodólar já era.

Essa, pode-se dizer é a fraude número 1 das relações internacionais. Praticamente todos e mais alguns precisam dos dólares norte-americanos, os quais são quase todos investidos em bônus do Tesouro dos EUA e outros papéis securitizados, e praticamente todos usados para comprar commodities denominadas em dólares dos EUA, como o petróleo. Como é doce ser comprado por você! Washington continua a produzir trilhões incontáveis de dólares em dívida norte-americana, que todos têm de comprar. A Casa de Saud, é claro, investe corretamente suas cascatas de dólares dos EUA, na dívida dos EUA. Imaginem, então, se a Casa de Saud decide livrar-se do petrodólar. Seria Apocalypse Now para a economia dos EUA.

Dollar Toilet Paper
Lenta, mas firmemente, os tempos estão mudando. O Irã, sob sanções em estilo declaração de guerra está mostrando o caminho, ao vender energia em outras moedas, aceitando ouro e até escambo (a Casa de Saud, aliás, está também aterrorizada ante a possibilidade de que, com a détente EUA-Irã, venha a haver muito mais petróleo e gás iranianos nos mercados ocidentais, o que diluirá os lucros sauditas).

A Rússia é agora a exportadora global número 1 de petróleo, e a China é a importadora número 1 de petróleo – importando mais da Arábia Saudita, que os EUA. Em 2020, a China estará importando vertiginosos 9,2 milhões de barris/dia. Assim sendo, obviamente não faz sentido algum que os BRICS Rússia e China continuem a usar o petrodólar: aí está um traço crucial da recente conclamação, de Pequim, para “desamericanizar” o mundo. E Riad sabe disso.

A Casa de Saud também considera duas outras tendências: já há anos, exporta a maior parte de seu petróleo, para a Ásia; e a China, inevitavelmente, tornou-se a principal exportadora – uma miríade de produtos manufaturados – para a Arábia Saudita, à frente dos EUA. Pequim, mais uma vez, está jogando jogo discreto, de longo prazo, investindo na infraestrutura saudita. Sabendo que a Arábia Saudita não pode exportar mais do que já exporta, de seu petróleo pesado, altamente sulfuroso – porque poucos países conseguem refiná-lo – a China está construindo um massivo novo complexo de refino/exportação. Vídeo a seguir:


Assim sendo, no longo prazo, o que temos é, na essência, um confronto EUA-China (com Rússia e Irã também pesando), pelo petrodólar.

A absoluta, total prioridade, da Casa de Saud – aconteça o que acontecer – é a autoperpetuação. Para continuar a ganhar rios de dinheiro – petrodólares ou quaisquer. Para poder manter contido, em xeque-mate, o Irã, inimigo mortal, aqueles “xiitas apóstatas”.

Mas... a ponto de pivotear-se para a China?

A rede de vender-comprar proteção à moda Máfia é tão doce! Por causa da religião do petrodólar, a Casa de Saud é, na essência, autoperpetuada pelo guarda-chuva do Pentágono e por aquelas toneladas de contratos de armas. 

No momento, a paranoia da Casa de Saud reproduz-se em duas frentes, como vírus mortal. Estão aterrorizados ante o risco de a rede não durar, se o Irã volta ao jogo. E pior, imaginam eles, com capacidade nuclear.

Petroyuan?
E os sauditas suspeitam que o muito alardeado – e até hoje inexistente – pivoteamento dos EUA para a Ásia seja um nada discreto “dê adeus ao seu novo amiguinho”, no caso de a Arábia Saudita passar a ser parceiro preferido da China. O pivoteamento pode até ser interpretado, por uma Casa de Saud paranoica, como dupla ameaça: dirigido na direção da China, no longo prazo, mas também contra a Arábia Saudita, do tipo “e nem pense em mudar-se para o petroyuan”.

Até aqui, uma Casa de Saud devorada por viciosa batalha pela sucessão, além de furiosa, com medo e paralisada pelo carrossel geopolítico que não para de modificar-se, não dá qualquer sinal de que deixará escapar o monstrengo híbrido do “relacionamento especial” com os EUA. Está só dando um berreiro-chilique. Se e quando entrar em modo de “estou perdendo minha religião” (dos petrodólares), aí, sim, a ação começa para valer.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pepe Escobar – “A Casa de Saud autodecapitante”

22/10/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido por João Aroldo

John Osborne
Não conte com uma dramaturga saudita escrevendo um remix séc. 21 de Look Back in Anger de John Osborne [1] estrelando um monte de gente da realeza saudita não trabalhadora.  Mas é raiva mesmo – do Rei Abdullah (abaixo); não apenas pela “dupla moral” da ONU, mas especialmente – silêncio – à administração Obama infiel. 

Esta é a explicação saudita oficial da recusa ao mandato de dois anos tão cobiçado no Conselho de Segurança da ONU, apenas algumas horas após sua nomeação. 

Não é à-toa que o movimento sem precedentes de autodecapitação da Casa de Saud foi louvado apenas pelos suspeitos submissos de sempre; petromonarquias do Clube Contrarrevolucionário do Golfo, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), assim como o Egito, que agora depende de dinheiro saudita para pagar suas contas e mal e mal sobreviver. 

Rei Abdullah da Arábia Saudita

O Kuwait tomou as dores de Riad, o suficiente para mandar “uma mensagem para o mundo”. OS EAU disseram que a ONU tem agora a “responsabilidade histórica” de rever seu papel. O Bahrain – invadido pelos sauditas em 2001 – sublinhou a “posição clara e corajosa”. Cairo disse que a coisa toda era “corajosa”. 

Como foi corajoso mesmo, pressionar nações árabes e do Pacífico por dois anos e gastar uma fortuna treinando uma dúzia de diplomatas em Nova Iorque por meses apenas para dizerem “não” quando você consegue o prêmio. A Casa de Saud substituiria o Paquistão com um assento do Pacífico; o Marrocos permanece até 2015 em um assento africano. Há apenas cinco meses o assento saudita era considerado como certo na ONU.

Torrentes de bits da NSA  fluíram especulando sobre a suposta “agenda reformista” saudita ou a “posição de princípio” quanto a R2P (a doutrina Responsabilidade de Proteger), Palestina e tornar o Oriente Médio uma zona livre de armas.

A seu crédito, o Rei Abdullah avançou um plano para a Palestina desde 2002 baseado em uma solução de dois estados e um retorno a fronteiras pré-1967. 

Arábia Saudita R2P (Responsability to Protect) por Daryl Cagle
Mas não houve pressão subsequente sobre Israel; ao contrário, Riad é aliada de Tel Aviv para tocar fogo na Síria. Isso implica nenhum esforço para incluir Israel como poder nuclear em um Oriente Médio livre de armas. Já quanto à versão saudita do R2P, isso só se aplica à “proteção” sectária de sunitas na Síria.  

Fora de poucos lugares no Oriente Médio, ninguém está seriamente perdendo o sono pela ação adolescente saudita - que mostra uma noção curiosa de influência, ao escolher um golpe de RP para reinventar a corrupta petromonarquia como os campeões de “princípios” de uma causa (reforma da ONU) tanto quanto eles possam tentar influenciá-la por dentro.

Chateau Petrus
Isso implicaria mais escrutínio. Por exemplo, nesta segunda-feira, o Human Rights Council (Conselho de Direitos Humanos), outra instituição da ONU, devidamente acusou a Arábia Saudita pelo seu autêntico histórico de discriminação contra as mulheres e sectarianismo, seguindo relatórios da Human Rights Watch e Anistia Internacional. Como membro do Conselho de Segurança da ONU, a discrepância entre a realidade medieval dentro da Arábia Saudita e sua pomposa agenda “reformista” seria ainda mais flagrante.

Eu quero meu fluido kafir

Uma garrafa daquele precioso fluido kafir [2], Chateau Petrus – muito apreciado por príncipes sauditas em viagens a Londres – pode ser a aposta de que a decisão de “desistir da ONU” veio direto da boca do camelo. E agora que a Casa de Saud decidiu manter sua “influência” do exterior, nada faz mais sentido que o ressurgimento de Bandar Bush – que, neste verão, foi designado pelo Rei Abdullah como o homem no comando da jihad na Síria.

O eterno Ministro do Exterior saudita, Príncipe Saud al-Faisal, almoçou com o Secretário de Estado americano, John Kerry em sua luxuosa residência em Paris nesta segunda-feira. O mistério é qual fluido kafir foi consumido; embora, sem dúvidas, na versão oficial e inofensiva, eles concordaram com um Irã não nuclear, um fim à guerra na Síria e um Egito “estável”. Após a festinha em Paris, durante o fim de semana, Bandar Bush já estava a todo vapor, anunciando abertamente a diplomatas europeus em Riad que ele vai comprar suas armas destinadas à Síria [3] em outro lugar, vai desassociar seu esquema da CIA e vai treinar “seus” rebeldes com outros players, notadamente França e Jordânia. 


O Wall Street Journal deu a história, que previsivelmente não apareceu na mídia árabe (90% dela é controlada por diferentes ramos da Casa de Saud).

Ainda mais interessantes são duas outras informações vazadas por diplomatas. A Casa de Saud queria que os EUA fornecessem alvos a serem atingidos na Síria quando a tal da guerra cinética de Obama começasse. Washington recusou peremptoriamente. 

Bandar Bush
Melhor ainda; Washington supostamente disse a Riad que os EUA não seriam capazes de defender a Província Oriental, majoritariamente xiita e rica em petróleo, se os Tomahawks começassem a voar pela Síria. Imagine o show de horrores em Riad; afinal, a proteção da máfia pelos petrodólares reciclados/investidos na economia americana é a base para este casamento disfuncional por quase sete décadas.

Portanto, isso deveria nos levar à tal da “postura independente em política externa saudita”, tão falada a ser implementada em relação à Washington. Não contem com isso.

Tanto quanto a Casa de Saud está completamente paranoica quanto às últimas ações da administração Obama, ter um ataque de raiva não vai mudar para onde os ventos geopolíticos estão soprando. A ascensão geopolítica do Irã é inevitável. Uma solução síria está no horizonte. Ninguém quer jihadis ensandecidos andando livres da Síria ao Iraque e pelo Oriente Médio.

Príncipe Saud al-Faisal
A tentativa saudita de criar “um novo arranjo de segurança para o mundo árabe” é uma piada – como demonstrado por este shill [4] financiado pelos sauditas.

A verdade é que uma Casa de Saud raivosa e temerária não consegue confrontar o protetor benigno Washington. Ter um ataque de raiva – como berrar para chamar – é para bebês geopolíticos. Sem os EUA - ou “o Ocidente” – quem vai manter a indústria saudita de energia? Camelos sem PhD? E quem vai vender (e manter) aquelas armas maravilhosas? Quem vai defendê-los por esmagar o verdadeiro espírito da Primavera Árabe, no CCG e além?

O eterno Ministro do Exterior Príncipe Saud está gravemente doente. Ele será substituído por um recém nomeado vice primeiro ministro.

Adivinhe quem?

O Príncipe Abdul Aziz bin Abdullah, o filho do rei. Ao invés de uma postura “de princípios” contra “double standards”, a ação da Casa de Saud na ONU se parece mais com nepotismo.
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Notas do tradutor
[1] Expoente dos Angry Young Men, movimento dramatúrgico inglês do final dos anos 1950.
[2] Fluido dos infiéis, ou seja, bebida alcoólica.
[3] Aos rebeldes sírios, bem entendido.
[4] Apologista.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma família a serviço do Ocidente


Rei Abdullah da Arábia Saudita

Publicado em 02/10/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

O Presidente Barack Obama em seu discurso nas Nações Unidas demonstrou uma forte dose de hipocrisia. Ameaçou o Irã, como já fez outras vezes, possivelmente pressionado pelo lobby sionista, que pesa nos votos da eleição de novembro. Os belicistas do setor preferem o candidato republicano, porque Mitt Romney ameaça muito mais.

O premier Benyamin Netanyahu não fez por menos em termos de ameaças de bombardear o Irã. Apareceu, de forma ridícula e arrogante, com um gráfico ditando regras ao Irã e à comunidade internacional. Netanyahu silencia quando questionado sobre o poder nuclear de Israel.

Noam Chomsky, que não pode ser acusado de antissemita, como geralmente faz a direita israelense a quem critica a agressividade sionista, até porque é filho de rabino, alertou que Israel representa um perigo na região e não o Irã. O linguista explicou que os governantes de Teerã não são insanos e não vão querer atacar porque sabem que a retaliação por parte dos Estados Unidos seria em grande escala. Mas Netanyahu diariamente faz ameaças e por ser insano representa um perigo à paz mundial.

Outra indicação de cinismo de Barack Obama tem sido a menção aos acontecimentos na Síria. Ao mesmo tempo em que pede o fim do regime autoritário de Bashar al-Assad, o governo estadunidense apoia as forças insurgentes, onde se encontram salafistas em conluio com integrantes da Al Qaeda, procedentes de países como, Turquia, Líbia e emirados árabes do Golfo. Trata-se de uma estranha aliança, que no fundo reforça a tese segundo a qual os atentados de 11 de setembro de 2011 tiveram o respaldo de setores da inteligência norte-americana.

Republicanos e democratas proclamam-se defensores dos direitos humanos em várias partes do planeta, em outra demonstração de cinismo e hipocrisia. O silêncio em relação às constantes violações dos direitos humanos cometidas pela monarquia da família Saud, os proprietários da Arábia Saudita, por exemplo, é uma prova concreta de que o objetivo da campanha promovida pelos EUA e outros governos ocidentais é apenas retórico e voltado para enganar a opinião pública, já anestesiada pelo esquema de manipulação da informação.

Notícias procedentes da capital Riad dão conta de que recentemente dezenas de manifestantes saíram às ruas para exigir a libertação de presos políticos, a maioria deles sem acusações formais, apenas pelo fato de não simpatizarem com a família elevada a proprietária pelo Ocidente quando mudaram a forma de dominação, optando por colocar no poder quem não oferecesse resistência à dominação das então sete irmãs petrolíferas, hoje um total de seis.

Pois bem, a polícia saudita, violenta por natureza, prende os manifestantes e os submete a torturas, segundo denúncias de fontes independentes. Mas a monarquia saudita como é aliadíssima dos Estados Unidos não é denunciada pelos que se dizem defensores dos direitos humanos.

Os opositores da monarquia denunciam a existência na Arábia Saudita de 30 mil presos políticos. Os manifestantes pedem a libertação de todos eles, a liberdade de expressão e de reunião, além do fim da discriminação generalizada contra os muçulmanos xiitas.

Os protestos se intensificaram a partir de novembro do ano passado quando as forças repressivas da família Saud mataram cinco manifestantes. Recentemente, dois manifestantes foram assassinados pelas forças de segurança saudita. Um deles foi um adolescente de 16 anos. Os agentes policiais queriam prender o ativista xiita Khaled al Labbad, que, segundo informações, também foi assassinado na manifestação realizada em Qatif, na Província Oriental da Arábia Saudita.

Labbad estava incluído na lista de 23 pessoas mais procuradas pela família Saud, sob a acusação de organizar protestos contra o regime.  

Mas o que mais impressiona é realmente o silêncio da mídia de mercado e do governo dos Estados Unidos, tão sequiosos quando se trata de denunciar violações dos direitos humanos em países que não rezam pela cartilha do Departamento de Estado norte-americano.

O regime saudita, além das violências internas, apoia e financia as forças de oposição ao regime de Bashar al-Assad. E também cinicamente, da mesma forma que a monarquia de Qatar, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, aparecem como defensores de valores democráticos no país conflagrado em que vários balanços indicam um total de 30 mil pessoas mortas em confrontos desde o ano passado.

Quando se fala sobre a matança na Síria, de um modo geral os meios de comunicação do Ocidente atribuem a culpa apenas ao governo Assad, quando o outro lado, as forças opositoras, também são responsáveis pelo banho de sangue.

Nesse sentido, a Presidenta Dilma Rousseff foi positiva em seu discurso nas Nações Unidas ao reafirmar que a saída militar não é solução para a crise na Síria e só através de negociações é que se poderá chegar ao fim do estado de beligerância.

Na verdade, a negociação pregada por Dilma Rousseff fica cada vez mais difícil quando os apoiadores externos dos opositores de Bashar al- Assad não dão nenhum passo concreto no sentido de terminar com o envio de armamentos e apoio financeiro aos opositores do regime. A ideia de negociação continua na ordem do dia, até porque, antes tarde do que nunca se tentar.

O tempo vai passando e as perspectivas seguem sombrias. Alguns analistas já estão prevendo o prolongamento da guerra civil desembocando numa luta sectária chegando à barbárie. Acusar apenas um dos lados é realmente demonstrar desinteresse em acabar com o banho de sangue.

Se o pós-Assad for como almejam os apoiadores externos das forças opositoras, dificilmente haverá paz na Síria. Pode ser até que o objetivo dos apoiadores seja mesmo esse.
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação