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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A saga Snowden anuncia mudança radical no capitalismo

26/12/2013, [*] Evgeny Morozov, Financial Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

USA Spy & Co.
Depois das revelações, esse ano, sobre os excessos de Washington na espionagem, Edward Snowden enfrenta agora onda crescente de “fadiga da novidade” da vigilância, entre o grande público – e, isso, porque o empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional que se autoconverteu em “apitador-alertador” revelou quantidade imensíssima de verdades desconfortáveis sobre como funciona o mundo nos nossos dias. 

Infraestrutura técnica e poder geopolítico; consumismo rampante e vigilância absoluta, total; a retórica sublime-delirante da “liberdade da internet” e a dura realidade do controle sempre crescente sobre a internet – todas essas são vias interligadas que a maioria de nós nem perceberá ou considerará com atenção. Em vez disso, nos focamos num único elemento dessa longa cadeia – o estado que nos espiona – e ignoramos todos os demais.

Mas o debate sobre a espionagem foi rapidamente circunscrito, estreitado, e convertido em debate insuportavelmente técnico; questões como a consistência da política externa dos EUA; o futuro ambivalente do capitalismo digital; a relocação do poder, de Washington e Bruxelas, para o Vale do Silício – nenhuma dessas questões recebeu a devida atenção. 

"Os EUA nos espionam e nos roubam"
Fato é, contudo, que não só a Agência de Segurança Nacional dos EUA está quebrada: o modo como fazemos – e pelo qual pagamos – as nossas comunicações também está quebrado. 

E foi quebrado por razões políticas e econômicas, não só por razões “de lei” e tecnológicas: muitos estados, desesperados por dinheiro e carentes de imaginação infraestrutural, entregaram as suas redes de comunicação, rendidas, um pouco cedo demais, a empresas de tecnologia.

Snowden criou uma abertura para um muito necessário debate global que poderia ter iluminado várias dessas questões. Infelizmente, esse debate nunca começou. 

As revelações de que os EUA são viciados em vigilância só receberam resposta desbotada, unidimensional. Grande parte dessa retórica superaquecida – não raras vezes com tintas de antiamericanismo e canalizada para modalidades improdutivas de reformas – foi até agora inútil. Muitos governantes estrangeiros ainda se agarram à fantasia de que basta(ria) que os EUA lhes garantam um acordo de não espionagem, ou, pelo menos, a promessa de que pararão de monitorar os seus equipamentos e sistemas, para fazer sumir as perversões que Snowden revelou. 

Nesse ponto, os políticos estão cometendo o mesmo erro que o próprio Snowden comete: em suas raras, mas sempre consistentes manifestações públicas, Snowden sempre atribui os erros e vícios ao alcance desmesurado das agências de inteligência. Parece que, ironicamente, nem o próprio Snowden tem consciência clara do que encontrou e revelou. 

Complexo de Espionagem e instalações da ASN em Fort Meade, Maryland
Não se trata de abuso por instâncias isoladas de poder, que se possa corrigir com novas leis, mais controle sobre os espiões, novas ferramentas que zelem pela privacidade, e com súplicas, pelo estado, às empresas de tecnologia, para que se façam “mais transparentes”. 

É claro que tudo isso tem de ser feito: são os frutos políticos mais acessíveis, que todos sabemos como alcançar e colher. No mínimo, essas medidas criarão a impressão de que algo está sendo feito. 

Mas de que servirão essas medidas, para conter a tendência muitíssimo mais perturbadora, que já mostra que informações pessoais sobre nós mesmos – muito mais que o dinheiro – estão já convertidas em “moeda” que paga por serviços e em breve, talvez, também, pelos bens indispensáveis à vida diária? 

Não há lei nem ferramenta que proteja os cidadãos que, inspirados pelos contos de fadas do empoderamento do Vale do Silício, correm a converter-se em empresários “de dados”, sempre à procura do meio mais novo, mais rápido, mais lucrativo para monetarizar os próprios dados – seja informação sobre os próprios hábitos de compra, ou cópias do próprio genoma. Esses cidadãos querem ferramentas que os capacitem para abrir cada vez mais os próprios dados, não para escondê-los. 

Agora, quando cada dado ou fragmento de dado, por trivial que seja, também é capital disfarçado, só falta encontrar o comprador certo. Ou é o comprador que encontra o dado certo – e o respectivo proprietário – e oferece-se para criar um serviço convenientemente pago, a ser pago com aqueles dados. Esse, aliás, parece ser o modelo Google combinado ao g-mail, o serviço de correio eletrônico da mesma empresa.

Edward Snowden
O que Snowden parece não ver – nem ele nem seus detratores e apoiadores – é que é possível que estejamos passando por uma transformação no modo como o capitalismo opera: dados pessoais aparecem aí como um regime alternativo de pagamento. 

Os benefícios para o consumidor já são óbvios; os custos potenciais para os cidadãos, esses, absolutamente não são claros. Ao mesmo tempo em que proliferam os mercados de compra e venda de informações pessoais, também proliferam as externalidades. E a democracia é a principal vítima.

Nada sugere que a transição em curso, de dinheiro para dados, venha a enfraquecer o poder & mando da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Ao contrário! É possível que se criem intermediários mais fortes e em maior número, todos unidos para manter e ampliar o mesmo vício, a mesma obsessão por mais e mais dados. 

Por isso, se quiser escapar da obscuridade do gueto legalista do debate sobre a privacidade; e para que continue relevante e ganhe pegada (e dentes) políticos, é indispensável que o debate sobre vigilância seja linkado ao debate sobre o capitalismo.

O CUSTO da espionagem e da NSA é ESCONDIDO do povo dos EUA
Há outras dimensões nisso tudo, também esquecidas ou subestimadas, e também cruciais. Não teríamos, nós, de criticar muito mais os argumentos trazidos à baila pela Agência de Segurança Nacional e outras agências, segundo os quais precisa(ria)m daqueles dados que coletam, para agir preventivamente sobre os problemas? 

Não devemos deixar passar sem criticar a ideia de que a prevenção (só porque parece ser hoje a ideia mais barata), substitui(ria) completamente todas as tentativas mais sistemáticas para identificar as origens do problema que temos de resolver, muito mais do que apenas impedir que aconteça hoje. 

Só porque as agências de inteligência dos EUA tanto se empenham para um dia ter mapeadas todas as crianças do Iêmen, porque entendem que elas manifestem tendência inata para explodir aviões, não implica que os EUA estejamos dando a devida atenção à fonte da insatisfação infantil iemenita: uma das quais pode ser o uso alucinado de drones para matar os pais e mães daquelas crianças. 

Infelizmente, essas questões não estão na agenda atual, em parte porque muitos de nós compramos a narrativa simplória – conveniente para Washington e para o Vale do Silício – de que só nos faltam mais leis, mais ferramentas, mais ‘transparência’. 

O que Snowden revelou ao mundo é a nova tensão nos pilares que dão/davam sustentação ao capitalismo e a vida democrática como os conhecemos. Para resolver os novos problemas é preciso um pouco mais de imaginação.
__________________

[*] Evgeny Morozov nasceu em 1984 na Soligorsk, Bielorrússia. Frequentou a American University na Bulgária e mais tarde viveu em Berlim antes de se mudar para os Estados Unidos onde foi aluno-visitante na Stanford University. Atualmente é associado da New America Foundation e editor colaborador-blogueiro (blog New Effect) da revista Foreign Policy. Colabora com o noticiário do Yahoo!; é professor visitante na Georgetown University’s Walsh School of Foreign Service; associado do Open Society Institute; diretor de novas mídias da ONG Transitions Online e colunista do jornal russo Akzia.
Artigos de Morozov têm sido publicados em vários jornais e revistas em todo o mundo, incluindo The New York Times, The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, The Guardian, New Scientist, The New Republic, Corriere Della Sera, Times Literary Supplement, Newsweek International, International Herald Tribune, Boston Review, Slate e San Francisco Chronicle. 
Neste ano de 2013 está obtendo o título de Ph.D. em História da Ciência em Harvard.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pepe Escobar: “Encontro você no lado escuro”

13/6/2013, Pepe EscobarThe Roving Eye, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The lunatic is in my head / The lunatic is in my head
You raise the blade / you make the change 
You re-arrange me 'til I'm sane. 
You lock the door / And throw away the key
There's someone in my head but it's not me
Pink Floyd, [*] Brain Damage [Dano Cerebral]


Pepe Escobar
Falemos um pouco sobre PRISM.  E vejamos algumas das implicações para a Ciber-Dominação Total, do vazamento, por Edward Snowden, da apresentação em PowerPoint da Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. National Security Agency (NSA)].

O que há num nome? Um prisma, que quebra a luz num espectro de cores. PRISM, como se vê no logotipo com ares de O Lado Escuro da Lua [álbum de Pink Floyd], nada é além de manifestação gráfica do mais enlouquecido sonho molhado do Pentágono dos neoconservadores: a doutrina da Dominação de Pleno Espectro.

A National Security Agency, NSA – também chamada de “No Such Agency” [Não existe essa agência] – é parte do Pentágono.

A doutrina da Dominação de Pleno Espectro foi formalizada no documento 2002 Joint Vision 2020 do Pentágono. É o mapa-a-seguir do Pentágono/Agência de Segurança Nacional para o futuro próximo; em pentagonês marca-registrada, identifica “quatro capacidades” – “manobra de dominação, engajamento de precisão, logística focada e proteção pluridimensional”. Quer dizer: Cobertura Total da Informação [ing. Total Information Awareness (TIA)].

Incomoda-se de ir de carro até Utah?

O novo centro de dados da Agência de Segurança Nacional, que custou US$2 bilhões, em Utah, foi descoberto pela revista Wired há muito tempo, em março de 2012. [1] Podem chamar de a Matrix – ou um nó chave de Matrix. Estará operante em setembro.

O nó de Matrix, em Utah, é o sonho da TIA (Total Information Awareness / Cobertura Total da Informação) transformado em realidade. Essa “Cobertura Total da Informação”, se alguém está lembrado, foi invenção de Bush 1.0, alimentada pela Agência da Defesa para Projetos de Pesquisa Avançada [orig. Defense Advanced Research Projects Agency, DARPA), que o Congresso conseguiu matar em 2003, porque – ou, pelo menos, foi o que disseram – destruiria a privacidade dos cidadãos norte-americanos.

James Clapper
Pois... ela voltooooooou – sob o neodisfarce de nódulo Utah Matrix. E totalmente privatizada, operada pela legião de suspeitos de sempre, fornecedores privados do Departamento de Defesa, todos com acesso liberado até para o mais top, dos top secrets.

Entra em cena – outra vez – a turma da privataria.

Em março, o Diretor da Inteligência Nacional [orig. Director of National Intelligence (DNI)] James Clapper, negou completamente que a Agência de Segurança Nacional recolhesse “qualquer tipo, absolutamente nenhum tipo de dado, de milhões ou de centenas de milhões de norte-americanos” (assista vídeo que se segue). Era descarada mentira. E a senadora Dianne Feinstein deixou passar.


Mike McConnel, ex-diretor da Agência de Segurança Nacional e ex-Diretor da Inteligência Nacional, é hoje vice-presidente da empresa Booz Allen Hamilton – patrão de Snowden até a semana passada. Porta giratória entre estado e empresas privadas é isso! Sai da Agência de Segurança Nacional, vai para a Booz Allen, dali para a Diretoria da Inteligência Nacional... e volta para a Booz Allen. Só nesse ano, McConnell já ganhou US$1,8 milhão, ações e opções da Booz Allen. Clapper, atual Diretor da Inteligência Nacional foi, antes, executivo da Booz Allen.

Mike McConnel
Os “especialistas” e colunistas de jornal do governo dos EUA estão feito o monolito negro de “2001”, de Kubrick. PRISM é do bem. PRISM é legal. Só espiona não norte-americanos fora dos EUA. Quer dizer... ele até “pode” espionar informação digital privada de cidadãos norte-americanos, e é perfeitamente legal, mas não podemos contar a ninguém.

E vêm com o mantra de que PRISM teria sido essencial para impedir grandes atentados terroristas. Já se sabe que não é verdade. O que ninguém assume é que PRISM é TIA (Total Information Awareness / Cobertura Total da Informação) em ação. Qualquer um – com a autorização adequada – pode usar a Cobertura Total de Informação para recolher informação financeira interna quentíssima e lucrar muito, muitíssimo. Assim sendo, sim senhores, sigam o dinheiro.

Snowden vai de Cobertura Total de Informação

A empresa Google disse e insiste que estaria havendo “grave erro de compreensão” sobre PRISM, nas palavras do principal advogado da empresa, David Drummond. Google insiste que não há “caixa preta”, não há “entrada pelos fundos” e que a Agência de Segurança Nacional não tem acesso direto aos seus servidores. Só que a empresa Google não pode explicar coisa alguma, porque há “impedimentos de lei”.

Edward Snowden
Sem precisar considerar “impedimentos de lei”, não há dúvidas de que Snowden foi suficientemente esperto para farejar um rato, grandes ratazanas. Depois de Clapper ter negado tudo no Congresso, ele já não poderia confiar nem no Congresso. Para nem falar da imprensa-empresa norte-americana, de papagaiada. Chegou a fazer contato com o Washington Post – mas acabou decidindo-se por Glenn Greenwald, que definitivamente não é aliado da mídia dominante. A posição do britânico The Guardian é mais duvidosa. O jornal deseja furiosamente entrar no mercado dos EUA, mas, ao mesmo tempo, descartou Julian Assange, solenemente, tripudiando, depois de obter dele o que interessava ao jornal.

Snowden está surfando como mestre a tsunami de Relações Públicas – controlando-a à perfeição, todo o tempo. Ah, sim, sempre se aprende alguma coisinha na CIA. O momento da revelação foi escolha perfeita, uma beleza: Snowden entregou o melhor presente com que Pequim poderia sonhar, justamente quando Obama empurrava Xi Jinping para as cordas, na reunião da Califórnia sobre ciberguerra.

David Lindorff
Como David Lindorff percebeu, certeiro, Pequim já não pode simplesmente abandonar Snowden à intempérie. É cultural. Trata-se de não se desmoralizar.

E então Snowden até facilitou as coisas para Pequim – e revelou o óbvio: assim como Pequim, se não ainda mais, Washington “hackeia” feito doida.

Seguir o dinheiro, o processo e os atores da privataria da segurança e os movimento de Snowden – tudo ao mesmo tempo – abre vias para muitos, muitos, cenários saborosíssimos... a começar por atores seletos incorporados no nódulo Matrix centrado na Agência de Segurança Nacional e que podem estar abarrotando as burras com muito dinheiro, servindo-se de informação interna, quentíssima. Snowden não divulgou coisa alguma que já não fosse sabida – ou de que muitos suspeitassem – desde 2002. Para os que estão comandando o jogo, tudo é sempre business. A única diferença é que o ethos desse O-grande-irmão-está-de-olho-em-você-Digital, dessa “Blackwater Digital”, está agora completamente exposto. 

O grupo da TIA [Total Information Awareness / Cobertura Total da Informação], um punhado de investidores ricos e um sólido plano de negócios – Dominação de Pleno Espectro privatizada – continua no jogo. Doravante, trata-se só de, cuidadosamente, gradualmente, dirigir a opinião pública até “normalizar” completamente a Cobertura Total da Informação, TIA. Afinal, fazemos todos esses sacrifícios para proteger você.



Nota de rodapé
[1] Março, 2012, “Cuidado com o que você diz: a Agência de Segurança Nacional está construindo o maior centro de espionagem do mundo”, Wired em: The NSA Is Building the Country’s Biggest Spy Center (Watch What You Say)


Nota dos tradutores

[*] “Brain Damage, do álbum “The Dark Side of the Moon” [O lado escuro da lua] 1973. Ouve-se a seguir com legendas da letra original em inglês. Existe também a letra traduzida para português (tradução ruim, mas ajuda a ler). 
 

Edward Snowden: O governo dos EUA “hackeia” Hong Kong e China há anos

13/6/2013, Lana Lam, South China Morning Post, Hong Kong   
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Edward  Snowden
Edward Snowden, vazador de enorme quantidade de informação secreta da Agência de Segurança Nacional dos EUA, reapareceu onde em Hong Kong e disse, em entrevista ao jornal South China Morning Post, que permanecerá na cidade, para enfrentar os prováveis esforços do governo dos EUA para extraditá-lo.

Lana Lam
Em entrevista exclusiva, concedida de local ignorado na cidade, o ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos EUA disse que o governo dos EUA há anos invade computadores em Hong Kong e na China. A pedido de Snowden, esse jornal não divulgará detalhes de onde e como realizou essa entrevista.

Uma semana depois de revelar que o governo dos EUA há anos recolhe informação secreta de telefonemas e mensagens de e-mail dos cidadãos norte-americanos, Snowden disse que permanecerá em Hong Kong “até que me mandem partir”, e acrescentou:

Tive várias ocasiões e oportunidades para fugir de Hong Kong, mas prefiro ficar e enfrentar o governo dos EUA nos tribunais, porque confio na lei de Hong Kong.

Em conversa franca, que durou uma hora, o norte-americano de 29 anos, que os EUA já acusaram formalmente por prática de crime grave, disse:

  • que não é nem herói nem traidor: “sou um norte-americano”;
  • que o controverso programa PRISM da Agência de Segurança Nacional estende-se a pessoas e instituições em Hong Kong e em território chinês;
  • que os EUA estão exercendo pressão diplomática abusiva [orig. bullying] sobre Hong Kong, para conseguir que ele seja extraditado;
  • que o Estado de Direito e a lei em Hong Kong o protegerão de qualquer ataque pelos norte-americanos;
  • que teme pela própria segurança e pela segurança de sua família.
Snowden está em Hong Kong desde 20 de maio, quando deixou sua casa no Havaí. O movimento foi criticado por muitos, para os quais a cidade não tem meios para garantir-lhe qualquer proteção.

Quem entende que cometi um erro ao escolher Hong Kong não compreende corretamente minhas intenções. Não estou aqui para esconder-me da justiça. Estou aqui para revelar inúmeros crimes que foram cometidos e continuam a ser cometidos – disse Snowden.

Snowden disse também que, segundo documentos que o Washington Post recebeu, a Agência de Segurança Nacional dos EUA vem invadindo computadores em Hong Kong e na China desde 2009.

Nenhum dos documentos revela qualquer tipo de informação sobre sistemas militares chineses – disse Snowden.

Entre os alvos da Agência de Segurança Nacional, segundo Snowden, sempre estiveram a Universidade chinesa, funcionários públicos, empresários e estudantes na cidade. Os documentos também mostram que a Agência de Segurança Nacional visou alvos também na China.

Snowden estima que a Agência de Segurança Nacional tenha conduzido mais de 61 mil operações de hacking em todo o mundo, com centenas de alvos em Hong Kong e na China.

“Hackeamos” os grandes roteadores da internet, basicamente. Assim, temos acesso às comunicações de centenas de milhares de computadores, sem precisar “hackeá-los” um a um – disse ele. – Até a semana passada, o governo dos EUA operou livremente, sem qualquer respeito à opinião dos governados, sem buscar o consentimento dos cidadãos. Agora, isso acabou. Todos os níveis da sociedade exigem que o governo lhes preste contas e satisfações do que faz, e exigem o direito de supervisionar as ações do governo.

Snowden disse que distribuía as informações para comprovar a

(...) hipocrisia do governo dos EUA, que diz que não espionaria a infraestrutura civil como seus adversários.

O atual governo não apenas espiona os cidadãos: também tem medo de que a sociedade saiba que espiona. Por isso usará todos os meios, inclusive a intimidação por via diplomática, para impedir que as informações tornem-se públicas.

Desde as revelações chocantes da semana passada, Snowden tem sido demonizado por uns e elogiado por apoiadores, como Julian Assange, de WikiLeaks.

Não sou nem traidor nem herói: sou norte-americano – disse, acrescentando que - se orgulha de ser norte-americano. Sempre acreditei e continuo a acreditar na liberdade de expressão. Agi de boa fé, mas é direito do público formar opinião própria.

Snowden disse que não fez qualquer contato com sua família, e que teme pela segurança deles, tanto quanto por sua própria segurança.

Nunca mais me sentirei seguro. As coisas são muito difíceis agora, em todos os sentidos, mas dizer a verdade ao poder nunca se faz sem riscos – disse. – Foi difícil, mas me alegra ver que o público global começa a manifestar-se contra esse tipo de violação sistemática de privacidade.

A única coisa que posso fazer é confiar que sei fazer o que fui treinado para fazer e esperar que os governos do mundo recusem-se a deixar-se abusar pelos EUA e que resistam a perseguir pessoas que buscam asilo político.

Perguntado se o governo russo lhe oferecera asilo, Snowden respondeu:

Só posso dizer que me alegra que ainda haja governos que se recusam a deixar-se intimidar pela força.

Dezenas de milhares de apoiadores de Snowden assinaram petição em que pedem que os EUA perdoem Snowden; e muitos têm doado dinheiro para constituir um fundo de ajuda.

Agradeço muito pelo apoio público – disse ele. – Mas peço que prestem atenção ao próprio interesse do próprio público: guardem dinheiro para escrever cartas contra governos que desrespeitam a lei e pretendem que teriam algum direito de agir como agem.

A verdade é que corri e corro grave risco pessoal para ajudar o público em todo o mundo, sejam norte-americanos, europeus ou asiáticos.


Tentamos contato com o consulado dos EUA em Hong Kong, mas ontem, feriado na cidade, ninguém atendeu o telefone.

James Bamford: “O cronista da Agência de Segurança Nacional dos EUA”

10/6/2013, Alexander Nazaryan, The New Yorker    
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

James Bamford

Alexander Nazaryan
Em 1982, muito antes de a maioria dos norte-americanos sequer ter começado a pensar sobre escutas clandestinas, o jornalista James Bamford  publicou The Puzzle Palace: A Report on N.S.A., America’s Most Secret Agency [O palácio-quebra-cabeças: reportagem sobre a Agência de Segurança Nacional, a mais secreta das agências secretas dos EUA], o primeiro livro publicado sobre a National Security Agency (NSA), iniciada em 1952 pelo presidente Harry Truman para recolher inteligência sobre entidades estrangeiras, e a qual, como ficamos sabendo semana passada, recolhe hoje registros de chamadas telefônicas e de mensagens de e-mail de cidadãos norte-americanos e outros. No livro, Bamford descreve a agência como “livre de qualquer limitação legal” e com “capacidades tecnológicas além da imaginação para escutas clandestinas”. E conlui com um alerta assustador: “Como um poço eternamente sem fundo, a tecnologia de vigilância continuará a expandir-se, silenciosamente alcançando mais e mais sistemas de comunicação e eliminando gradualmente cada vez mais direitos de privacidade.” Três décadas depois, o alerta soa desconfortavelmente certeiro: todos fomos avisados.

Bamford, que prestou serviço militar na Marinha e estudou Direito antes de tornar-se jornalista, publicou outros três livros depois de The Puzzle Palace, que formam uma tetralogia sobre a Agência de Segurança Nacional: Body of Secrets: Anatomy of the Ultra-Secret National Security Agency [Corpo de segredos: anatomia da ultrassecreta Agência de Segurança Nacional] (2001); A Pretext for War: 9/11, Iraq, and the Abuse of America’s Intelligence Agencies [Um pretexto para a guerra: 11/9, Iraque e o abuso das agências de inteligência dos EUA] (2004); e The Shadow Factory: The Ultra-Secret N.S.A. from 9/11 to the Eavesdropping on America [A fábrica de sombras: a ultrassecreta NSA, do 11/9 às escutas clandestinas nos EUA] (2008). 

Scott Shane
Como se vê na progressão dos subtítulos, Bamford desencantou-se com a agência que ele, provavelmente, conhecia melhor que qualquer outro “observador externo”. Outros jornalistas investigativos consideram Bamford com o que, em termos amplos, pode-se descrever como admiração, embora, como Scott Shane, repórter do Times, escreveu em 2008, “Seu relacionamento com a Agência Nacional de Segurança pode ser comparado a um longo e atormentado affair no qual a fascinação pelo gigantismo e pelas capacidades alternava-se com o horror pelo poder para invadir qualquer privacidade”.

Bamford riu da imagem de romance turbulento. “Eu tinha uma relação de amor e ódio com a NSA”, Bamford riu, quando falei com ele semana passada, logo depois da revelação de que a Agência está reunindo metadados de telecomunicações e das empresas de internet: “Eu os amo e eles me odeiam”. E têm boas razões. Bamford, que hoje divide seu tempo entre Washington, D.C. e Londres, é personagem levemente perverso, sempre ajudado por curiosidade e persistência óbvias. Fala com o à vontade de criança que entrou em sala proibida e sabe que voltará a entrar. Resolveu escrever novamente sobre a Agência, que se crê que receba 10 bilhões de dólares anuais do Estado  e emprega cerca de 40 mil pessoas, porque ninguém jamais escreveu sobre ela – e porque se diverte muito mais escrevendo que lendo processos judiciais e depoimentos. 

Quando pesquisava no Instituto Militar da Virginia, descobriu grande quantidade de documentos relacionados à NSA, dos arquivos de um mestre criptógrafo da Moldávia, William Friedman, aos de Marshall Carter, que dirigiu a Agência de 1965 a 1969. E, por incrível que pareça, o Departamento de Justiça de Jimmy Carter, acedeu ao pedido de Bamford, fundamentado na Lei da Liberdade de Informação, e entregou-lhe documentos secretos relacionados à Comissão Church, comissão do Senado que, em 1975, investigou as agências de inteligência dos EUA acusadas de possíveis transgressão e abuso das respectivas autorizações para investigar.

O fato de o governo entregar informação sensível a Bamford, como se pode adivinhar, enfureceu a Agência de Segurança Nacional. Advogados do governo Reagan tentaram coagir Bamford a devolver os documentos, ameaçando-o com a Lei de Espionagem, enquanto a própria Agência tentava sequestrar os documentos que ele revelara. Mas, porque era, ele próprio, advogado, Bamford sabia que nada fizera de ilegal. 

Glenn Greenwald
Diferente da ordem judicial secreta sobre escuta clandestina que ordenou que a empresa Verizon entregasse à Agência os registros telefônicos de seus clientes, a qual foi clandestinamente repassada a Glenn Greenwald do Guardian, a informação que Bamford recebeu foi-lhe entregue por via legal, por canais legais. 

Tive muito trabalho para encontrar um exemplar de The Puzzle Palace. Procurei também em livrarias online, mas o único exemplar impresso que consegui encontrar estava na Queens Central Library [Biblioteca Central do Queens]. O livro estava arquivado, me disseram, e demoraria para ser encontrado. De fato, The Puzzle Palace parece objeto místico, do tipo mais obscuramente revelador. Embora publicado nos anos Reagan, é fortemente subversivo e poderosamente clarividente e presciente. Seus vários alertas contra a “tecnotirania” e a ideia de que “a mesma tecnologia usada contra a livre manifestação do pensamento pode ser usada para protegê-la” soam como algo que facilmente se ouviria de um executivo da Google em conferência pública. Bamford escreve com descrença e ceticismo sobre os procedimentos legais criados em 1978 nos termos da Lei para Vigilância de Inteligência Estrangeira [orig. Foreign Intelligence Surveillance Act] para legitimar a espionagem – as mesmas leis que, desde 11/9, permitem escutas clandestinas dentro dos EUA – chamando-as de “corte super precária e insuficiente, virtualmente impotente”.

O livro de Bamford, em 1982, lembra a todos que suponham que as escutas clandestinas sejam parte necessária de um mundo pós 11/9, que a Agência Nacional de Segurança já forçara, bem antes, os limites da 4ª Emenda. O Projeto Shamrock, implantado depois da 2ª Guerra Mundial, obrigava empresas como a Western Union a entregar, em lotes diários, todos os telegramas que entrassem e saíssem dos EUA. Irmão mais novo, o Projeto Minaret, nascido em 1969, coletava informação sobre “indivíduos ou organizações envolvidas em agitações civis, movimentos/manifestações antiguerra e desertores do serviço militar envolvidos no movimento antiguerra”.

Minha passagem favorita é de um tipo mais leve. Descreve o quartel-general da Agência Nacional de Segurança, perto de Washington – às vezes chamado “Crypto City” – que Bamford visitou, em troca de algumas poucas concessões, aceitando não divulgar informação que muito interessava à Agência que não fosse divulgada. Ele escreve: “Embora a segurança no Puzzle Palace pareça quase hermética, grande parte de tudo não passa de fantasia. Apesar do triplo revestimento e da eletricidade [a verificar: orig. Triple-wrapping in chain link and electricity notwithstanding], o acesso ao lobby do prédio e à área acarpetada da recepção é tão fácil quanto entrar num terminal de ônibus da empresa Greyhound”. Não há dúvidas de que isso, hoje, mudou. 

Complexo principal de edificações da NSA (sede)
Se The Puzzle Palace é hoje tão difícil de encontrar, é porque o volume seguinte, Body of Secrets, eclipsou quase completamente o primeiro. Publicado meses antes do 11/9, é a história de uma agência sem rumo, a ameaça soviética já evanescida no horizonte e a nova ameaça que viria logo depois, do Oriente Médio, ainda não configurada nem em foco. O livro é denso de história da própria agência, em parte porque, para esse trabalho, Bamford receberia a mais completa e intensiva cooperação da própria Agência. O então diretor Michael Hayden, que assumira a direção da Agência em 1999, até convidou Bamford para jantar em sua casa. (“Ele tinha uma banda, um trio” – Bamford contou-me – “Generais gostam dessas coisas”). 

A narrativa nem sempre é gentil: Body of Secrets começa com uma descrição do que eram os agentes de inteligência dos EUA ao final da 2ª Guerra Mundial, desesperados para pôr as mãos em decodificadores nazistas que os pudessem ajudar contra a crescente ameaça soviética. A crise de Suez de 1956, na qual Israel, Grã-Bretanha e França atacaram o Egito, “marcou uma triste entrada no mundo da inteligência de crises” – escreve Bamford, com a análise produzida pela agência reduzida a nada mais útil ou específico que “comunicações entre Paris e Telavive”. Oito anos depois, a Agência de Segurança Nacional cometeria “grande estupidez”, nas palavras de Bamford, ao inflar a ameaça de um segundo ataque no Golfo de Tonkin nos primeiros dias de agosto de 1964, que o presidente Lyndon B. Johnson usaria como pretexto para arrastar os EUA para o que viria a ser a Guerra do Vietnã 
McNamara, mente descaradamente aos jornalistas sobre o "incidente" no Golfo de
Tonkin que foi desculpa para a agressão dos EUA ao Vietnã do Norte em 1964
Adiante, Bamford diz que a Agência de Segurança Nacional perdeu equipamento de criptografia para os norte-coreanos, que passaram o equipamento para os soviéticos, os quais, por sua vez, entregaram-no aos seus aliados norte-vietnamitas (a Agência desmentiu essa informação). A Agência cercou a União Soviética com um “cordão eletrônico”, embora, como Bamford disse-me depois, “porque a Guerra Fria manteve-se fria, a Agência de fato nunca foi testada contra esse seu máximo desafio”. 

Lenta no processo de mudança ao longo dos anos 1990s, a Agência começou a adaptar-se para o mundo digital quando Hayden assumiu a direção. Seus decifradores de códigos eram matemáticos brilhantíssimos e cientistas de computação, mas não estavam sempre perfeitamente atualizados. Bamford escreve que “com a Guerra Fria virando passado, foram-se também os anos de apogeu da Agência de Segurança Nacional dos EUA”. E observa que, em 1997, “a comunidade de inteligência encolhera de volta às dimensões que tivera em 1980”. Para a NSA, significou que, nos primeiros sete anos dos anos 1990s, houve cortes; o pessoal foi reduzido em 17,5%.  

Dado que a Agência de Segurança Nacional parece ter tratado Bamford quase como um ombudsman civil naquele momento, o livro é cheio de pequenos detalhes curiosos: a agência de Correios da “Crypto City, já em 2000, distribuía 70 mil itens de correspondência diariamente; e “a Agência de Segurança Nacional dos EUA era o maior fornecedor de sangue para o programa de doação de sangue de Maryland”. Há até um “festival anual de cinema, patrocinado pela Associação de Cripto-Linguística [orig. Crypto-Linguistic Association] e um Battlegaming Club, além de lojas Taco Bell e Pizza Hut”. Os detalhes visam a criar, com uma aura de normalidade, o que Bamford descreve como “um avatar da Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges, um local onde a coleção de informações é ao mesmo tempo infinita e monstruosa, onde está armazenado todo o conhecimento do mundo, mas cada palavra aparece enlouquecidamente cifrada, escrita num código indecifrável”. 

A grande ironia é que a agência encarregada da oniciência deixou passar sem ver, nem registrar, o fato de que vários dos sequestradores de aviões do 11/9 viviam ali bem perto, em Laurel, Maryland, cidade-dormitório da comunidade de inteligência dos EUA. Bamford especula que os cinco ainda-não-terroristas, mas a poucos dias de se converterem nos maiores terroristas de todos os tempos, provavelmente se exercitavam, para manter a forma física, na mesma academia, Gold’s Gym, que vários funcionários da NSA. 

Em termos gerais, Bamford é gentil com Michael Hayden. Mas, depois do 11/9, acontecido apenas alguns meses depois da publicação do livro na primavera de 2001, a Agênia de Segurança Nacional passou a ser, simultaneamente, o bode expiatório e uma das organizações encarregadas de impedir futuros ataques. Parte de sua missão envolveu disseminar, com a ajuda da CIA, a ideia da Casa Branca de que o Iraque possuía armas de destruição em massa – noção que em seguida se verificou ser absolutamente falsa. Mas serviu bem, como Pretexto para a Guerra – terceiro volume da tetralogia – amplamente demonstra. Nesse livro, Bamford também relata que a Agência de Segurança Nacional recebeu ordens, do governo Bush, “para espionar os inspetores de armamentos da ONU  e para pressionar membros indecisos do Conselho de Segurança da ONU para que votassem a favor de guerra-já”. 

GWBush e o LtGen MVHayden na NSA em Fort Meade, Maryland  (2002)
Mas nem Bamford sabia do pior disso tudo. Outra vez, seu livro foi lançado no auge de um cataclismo. Dia 16/12/2005, o NYTimes publicou artigo intitulado “Bush Lets U.S. Spy on Callers Without Courts[Bush autorizou EUA a espionarem cidadãos norte-americanos sem autorização judicial]. A matéria dizia que o presidente “autorizou secretamente a Agência de Segurança Nacional a manter escutas clandestinas sobre cidadãos norte-americanos e outros dentro dos EUA, à procura de sinais de atividade terrorista, sem a autorização judicial que normalmente se exige para escutas clandestinas e espionagem doméstica, segundo disseram funcionários do governo” – movimento predecessor do programa PRISM hoje revelado. Bamford sentiu-se traído. Embora tivesse noticiado os excessos dos projetos Shamrock e Minaret, acreditava que a Agência de Segurança Nacional, sob a direção de Hayden, fosse organização mais escrupulosa do que antes. Hoje, Bamford diz que considera o livro generoso demais no retrato que pintou de Hayden. 

The Shadow Factory [Fábrica de sombras], o furioso livro que Bamford publicou em 2008, sobre os atuais problemas que a Agência de Segurança Nacional enfrenta, é, provavelmente, o mais importante de todos, hoje. Nesse livro, ele mostra uma Agência que se vai tornando cada dia mais autônoma sobre quais dados coleta, e de quem. Como um funcionário disse a Bamford, “É o que a Agência de Segurança Nacional faz desde 9/11. Hoje, só fazem mais, do mesmo”. Hayden, naquele momento, foi convertido em “sicofanta de três estrelas, que só pensava em proteger a Agência contra as forças destrutivas de Cheney e [David] Addington [chefe de gabinete de Cheney]. Body of Secrets faz referência a Borges. The Shadow Factory cita Orwell.

Recente atentado durante a Maratona de Boston (15/4/2013)
Particularmente forte é a suspeita de que, dentre todas as agências norte-americanas de espionagem, a Agência de Segurança Nacional não é, de fato, muito boa. Bamford disse que a Agência “falhou feio” na prevenção de ataques, desde a Guerra Fria. Não viu coisa alguma, desde o primeiro ataque ao World Trade Center em 1993, até o recente atentado na Maratona de Boston Isso, em parte, porque a Agência está afogada em tal quantidade de dados que, ao que parece, já perdeu a capacidade para avaliar a informação em tempo razoável. É preciso ter gente capaz de definir padrões, de dizer o que é importante e o que não tem importância alguma. Ou, como Bamford diz em A Pretext for War que “a Agência de Segurança Nacional carece de fontes de inteligência humana para ajudá-la a ver onde e quem espionar”. No passado, uma rivalidade com a CIA – responsável, sobretudo, pela inteligência humana, em contraste com a Agência de Segurança Nacional, focada só em recolher dados – impediu que se construísse essa simbiose. 

Na raiz da fixação de Bamford com a Agência de Segurança Nacional está uma fascinação com a facilidade com que os americanos “compram a ideia de empresa” de espionagem e espiões, e que é o que nos garantiria que a lei estaria sendo cumprida, que as liberdades civis estariam sendo respeitadas, por mais que se acumulem provas de que nada é bem assim, que a verdade é o contrário disso. É como se os norte-americanos quisessem acreditar que os encarregados de nos proteger poderiam, vez ou outra, desobedecer a lei, mas só para nos manter em segurança, mais ou menos como faz a patriota-bandida Carrie Mathison  personagem de Claire Danes, no seriado Homeland.


Tudo isso tem enfurecido Bamford, cada dia mais. Embora não se tenha vangloriado durante nossa conversa, é visível que se sente vingado pelos muitos anos de feroz perseguição que sofreu. E continua furioso, tão furioso quanto em 1982, quando só bem poucos norte-americanos haviam algum dia ouvido falar de “Crypto City”. Surpreendentemente apolítico, Bamford quer, simplesmente, que os espiões respondam pelo que fazem, antes de fazer: “Querem espionar? Acham que espionar é vitalmente importante?” – pergunta, falando do programa PRISM da Agência de Segurança Nacional. – “Pois apresentem um projeto de lei, consigam que o Congresso aprove. Abram um debate nacional, público”.