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quinta-feira, 28 de julho de 2011

“Pela porta dos fundos, Mr. Murdoch, please”

22/7/2011, Geoffrey Wheatcroft, The New York Review of Books Blogs, vol. 58, n. 12
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


No estranho vaudeville que foi o “interrogatório” de Rupert e James Murdoch no Parlamento britânico dia 19 de julho – que Rupert ensaiou aplicadamente –, desde a frase “Foi o dia mais triste da minha vida”, que desencadeou solidariedades e protestos, até o momento final, em que alguém tentou jogar uma torta-pastelão em Murdoch, que foi salvo por salto verdadeiramente acrobático de Mrs. Murdoch, parece que outra frase, dita já ao final do depoimento, passou despercebida: “Queria que eles me deixassem em paz”.

R. Murdoch por John Springs
“Eles”, naquela frase, são os principais políticos britânicos – líderes de partidos e primeiros-ministros – que jamais deixaram de cortejar Murdoch, incansável e descaradamente, inclusive David Cameron. Em maio do ano passado, Murdoch foi convocado para encontro em Downing Street 10, dois dias depois de Cameron assumir o cargo de primeiro-ministro; Murdoch disse que o encontro lhe pareceu pura perda de tempo. Por que Murdoch não entrou, como um dos deputados perguntou durante a audiência, pela porta da frente, como outros notáveis? “Porque me disseram que eu, por favor, entrasse pela outra porta”, Murdoch respondeu.

Murdoch dizer que gostaria que os políticos o deixassem em paz talvez soe arrogante ou pouco inteligente, mas não há dúvidas de que não tinha prazer algum naquelas reuniões; precisava, só, que os políticos lhe dessem o que queria. Quase sempre deram. E aí está o problema.

Um ou dois analistas tentaram defender Murdoch. Seu admirador e biógrafo indulgente William Shawcross defendeu-o na rede BBC. Disse, mais uma vez, que a derrota que Murdoch impôs aos sindicatos de gráficos há 25 anos beneficiou toda a imprensa. Matthew Parris, ex-deputado conservador e hoje colunista altamente remunerado do Times de Murdoch, disse que “essa história de grampos não passa de ridícula hiper encenação”; e Simon Jenkins, ex-editor doTimes e correspondentemente ex-empregado de Murdoch, escreve que “A Grã-Bretanha enlouqueceu (...) Morreu alguém?” e insiste que “sua [de Murdoch] influência na indústria da comunicação foi de inovador serial”.

A verdade é que alguém, sim, morreu, assassinada: a repulsa pública contra o grampo e a invasão ao correio de voz de uma menina assassinada não foi invenção dos inimigos de Murdoch. E os espantosos acontecimentos do mês – o fechamento sacrificial do jornal News of the World, a autodemissão de Rebekah Brooks e de Les Hinton (os dois que Murdoch mais quis proteger), a prisão de um ex-editor de News of the World, Andy Coulson, e depois de outro(a), Mrs. Brooks, a renúncia do chefe da Polícia Metropolitana e de seu vice – não são, exatamente, trivialidades.

A operação frenética de controle de danos que os Murdochs acionaram não está funcionando, como se pode ver. Cada dia, desde que estiveram em Westminster, trouxe-lhes alguma nova péssima notícia. Cameron dizer que nada houve de “não apropriado” em seus contatos com Mrs. Brooks equivaleu a ele admitir que o tema “BSkyB”, a operadora de televisão por satélite cujo controle acionário (mais 39% das ações, além das que já são suas) Murdoch queria comprar, sim, apareceu nas conversas da dupla.

Na mais recente reviravolta da história, dois ex-executivos da empresa News International publicamente desmentiram partes do depoimento de James Murdoch sobre o ex-jogador de futebol e hoje executivo do sindicato de jogadores ingleses Gordon Taylor, que teve seus telefones grampeados, processou o jornal News of the World e em seguida aceitou polpuda indenização extra-judicial para calar-se. À época do acordo, a empresa News International dizia que um único “repórter bandido” [ing. “rogue reporter”] seria responsável pelo grampo. Mas os advogados de Taylor apresentaram provas importantes de que os grampos telefônicos eram recurso amplamente empregado e, obviamente, autorizado: uma mensagem de e-mail dirigida a um dos principais repórteres do jornal News of the World, com a transcrição de uma mensagem de correio de voz extraída de telefone celular grampeado.

No Parlamento, James Murdoch disse aos deputados que jamais vira o e-mail crucial; ontem, Colin Myler, último editor de News of the World no momento em que o jornal foi fechado, e Tom Crone, chefe do departamento jurídico do jornal, desmentiram-no cabalmente: “A memória de James Murdoch, do dia e hora em que foi informado e concordou com o acordo no caso de Gordon Taylor, o traiu”. O filho de Murdoch disse que ninguém lhe falara sobre o e-mail. “A verdade é que nós o informamos” – disse Tom Crone.

E como se não bastasse, o escândalo expôs a extensão dos laços de corrupção crônica que ligavam a empresa News International e a Polícia Metropolitana de Londres. É quase inacreditável, mas agora se sabe que dez, dos 45 assessores de imprensa da Polícia Metropolitana eram ex-empregados da NI; também não há dúvida possível de que o jornal News of the Worl  pagava propinas a policiais, com regularidade.

Dado que o jornal é propriedade também de uma empresa norte-americana, a prática de corromper funcionários públicos pode gerar processo criminal também nos EUA. E o FBI já iniciou investigação de acusações de que empregados de Murdoch podem ter grampeado mensagens de voz de vítimas dos atentados de 11/9. Se as acusações forem comprovadas, além das consequências legais, o efeito na opinião pública norte-americana será devastador. Será interessante observar o que fará a claque de jornalistas leais a Murdoch, do Wall Street Journal, para tentar neutralizar esse efeito.

Pois mesmo assim, apesar de todos esses horrores barrocos, a verdadeira história não é a dos jornais de Murdoch e os métodos repulsivos usados por seus repórteres: é a força, o peso descomunal da influência política que Murdoch exercia através de seus jornais. 

Por mais que a responsabilidade pela conduta obscena dos jornais que comandava caiba a Murdoch, a culpa pelo modo como exercia esse poder político ilegítimo e arbitrário é dos políticos que, por tanto tempo, ajoelharam-se, reverenciais, à sua frente. Cameron é o mais recente, e talvez ainda consiga provar alguma inocência. Mas é preciso dizer que, em todos os casos, Cameron nunca foi tão cínico, tão sem princípios, tão amoral em seus negócios com Murdoch, quanto Tony Blair.

No dias das eleições em 1992, the Sun superou-se a si mesmo, com a manchete que pôs na primeira página (“Se Neil Kinnock vencer hoje, o último que sair da Grã-Bretanha apague a luz”). Depois que os Conservadores já estavam reeleitos (e Kinnock renunciara à liderança do Partido Trabalhista) um doador de campanha dos Conservadores disse off the records que os Conservadores deviam a vitória, de fato, aos tablóides. O comentário alimentou um surto de onipotência do jornal que manchetou, também na primeira página: “O Sun é o grande vitorioso”. Provavelmente, mais uma mentira. Mas Blair estava convencido de que o Sun fora, sim, eleito. 

Logo que assumiu a liderança dos Trabalhistas ingleses em 1994, Blair passou a trabalhar para firmar uma aliança com Murdoch; no ano seguinte viajou à Austrália, para discursar na reunião anual da News Corp mundial (onde fez discurso que o posicionou muito mais à direita que qualquer dos predecessores). Não há dúvidas de que o Sun apoiou Blair em três eleições, e o Times foi convertido em verdadeiro Pravda do Novo Trabalhismo, com acesso irrestrito aos meandros obscuros da cabeça de Blair, e falando pela boca de seu pestilento, imundo assessor de imprensa e porta-voz, Alastair Campbell.

Os dois jornais tinham acesso privilegiado às notícias. A data em que Blair convocaria as eleições de 2001 foi vazada para o Sun antes até de Downing Street ter comunicado à rainha e chefe de Estado. Lance Price, que trabalhou na Downing Street de Blair, disse que todos sempre sentiam que Murdoch era uma invisível 25ª presença nas reuniões do Gabinete. E nenhum jornalista foi mais íntimo da casa que Tom Baldwin do Times, que às vezes falava como boneco de ventríloquo de Campbell.

Essa aliança foi plenamente explorada durante os meses que levaram à invasão – desnecessária, inútil e ilegal – do Iraque. O próprio Murdoch disse, sobre a invasão, que “a maior coisa que sairá disso, para a economia mundial, se se pode dizer assim, será o petróleo a $20 o barril”. Mas o Sun entendeu que sinceridade tão brutal, em tão altas doses, seria excessiva para muitos de seus leitores. Então, em vez do que Murdoch dissera, o Sun publicou, no dia 15/3/2003, que “Saddam armazenou armas de destruição em massa e recusa-se a entregá-las”; simultaneamente, Richard Littlejohn, colunista do Sun, escreveu que “será guerra, a menos que Saddam Hussein entregue suas armas de destruição em massa. Ele as tem. Sabemos que as tem. Ele sabe que nós sabemos que as tem.”

Esse relacionamento sórdido e manipulatório entre o governo de Blair e a imprensa foi exposto, do modo mais repulsivo, quando Downing Street, subrepticiamente, vazou a identidade de David Kelly, o inspetor de armas que, horrorizado ante a desavergonhada barragem de propaganda, dissera à BBC, em entrevista off the record, que o que Downing Street estava dizendo sobre armas de destruição em massa no Iraque não passava de grosseiro exagero.

Depois que Blair, pessoalmente e privadamente, tomou a decisão de “demitir” Kelly, começaram a pingar pistas de sua identidade, e vários jornalistas foram sendo conduzidos até a completa identificação. O Financial Times foi o primeiro a publicar o nome completo de Kelly, mas os jornais de Murdoch chegaram imediatamente depois. Kelly foi arrastado até uma comissão parlamentar de inquérito, onde foi agredido, insultado e humilhado. Suicidou-se dois dias depois.

Seria de supor que, depois de tudo isso, os honrados e ‘éticos’ Conservadores afastar-se-iam de qualquer relação mais próxima com Murdoch (ou, no mínimo, que tentariam encobrir suas relações com mais eficácia), mas Cameron também já fora fisgado. Em julho de 2007, contratou Andy Coulson como seu “diretor de comunicações”, ou sua resposta a Campbell. 

Também é muito significativo que a coisa mais próxima de um verdadeiro emprego, que Cameron jamais tivera, antes de ser eleito ao Parlamento, foi o de chefe de Relações Públicas numa empresa de televisão de segunda classe, Carlton Communications – na qual nunca foi reconhecido, em tempo algum, pelos escrúpulos.

Quando Coulson foi contratado, os Conservadores haviam despencado nas pesquisas, e perderam a cabeça. Coulson foi recomendado a Cameron por George Osborne – o que Rebekah Brooks confirmou no depoimento ao Parlamento. Osborne é o atual ministro das Finanças da Grã-Bretanha [ing. Chancellor of the Exchequer], e só resta rezar para que mostre mais prudência no trato das finanças públicas. Cameron e Osborne eram muito conscientes do próprio pedigree, de filhos de famílias abastadas, educados em escolas caras, que uma vez trajaram os paletós azuis do afamado Bullingdon Club em Oxford. Careciam desesperadamente de alguém como Coulson, que sabia falar às massas, por direitos de nascimento.

E Coulson acabava de ser forçado a demitir-se da editoria do News of the World já acossado pelas primeiras nuvens do escândalo dos grampos. Mas as nuvens só fizeram aumentar. Antes da eleição, Cameron foi alertado, privadamente, por Alan Rusbridger, editor do Guardian (jornal que persistiu na investigação, até que a história dos grampos estourou), de que provas que apareceriam na investigação em andamento, de um assassinato, seriam muito graves, contra Coulson, em função do envolvimento dele com um detetive e escroque.

Mesmo assim, Cameron insistiu em trazer Coulson para Downing Street. E ele lá ficou mesmo depois de a New York Times Magazine noticiar, em setembro passado, que Coulson era cúmplice direto no crime de grampear telefones. Dia 5 de outubro, Cameron disse que “não temos uma única reclamação a fazer sobre como [Coulson] trabalhava (...). É homem que serviu ao governo e atualmente dirige um bem sucedido escritório de assessoria de imprensa”. Coulson só deixou Downing Street em janeiro, quando as nuvens, de tão inchadas, desabaram, como dilúvio e como inferno.

Se a tolice de Cameron, antes de tudo, ao contratar Coulson, já seria indesculpável, a insistência em manter-se colado a ele, enquanto mais e mais provas se acumulavam, pareceria incompreensível, não fosse essa uma daquelas questões em cuja explicação tropeça-se, mesmo sem procurá-la. Tudo, hoje, leva a crer que Cameron, sim, desejava manter um agente de ligação com a empresa News International: um laço direto com Murdoch. OK. Teve o seu. E vejam no que deu! 

Tudo isso deu a Ed Milliband sua primeira oportunidade para brilhar, depois de meses marcando passo na obscuridade, desde que se tornou líder dos Trabalhistas em setembro. E Milliband agarrou-se a ela, batendo o mais que pôde em Cameron, o qual, então, também estava obrigado a romper qualquer laço que o ligasse a Murdoch. A declaração de independência de Milliband aconteceu quando disse, depois das revelações, que Murdoch não poderia ser autorizado a comprar a BSkyB. No mesmo momento, Murdoch retirou sua proposta, tática de retirada, evidentemente, na esperança de depois voltar, apesar de, hoje, todo o negócio já ser politicamente inconcebível.

“Com visão panorâmica e a posteriori e considerado tudo o que se seguiu”, Cameron discursou na Câmara dos Comuns, falando de Coulson, “eu nunca lhe ofereceria o emprego e espero que ele nunca aceitasse”. Qualquer ser humano sabe que não seria necessária nenhuma visão panorâmica: bastaria o mais elementar bom senso, ou o talento básico conhecido como autopreservação. Milliband tem muito que dizer contra Cameron, sim. Mas... Quem Milliband contratou como seu “diretor de estratégia e comunicação”?! Ninguém menos que Tom Baldwin! 

O mais engraçado é que, ano passado, ainda no Times, Baldwin ostentou o furo – excitante –, de que Ed Milliband concorreria à liderança dos Trabalhistas, contra seu irmão David Miliband, até então, a aposta mais quente. E nem bem Ed assumira a nova função em janeiro, quando Baldwin mandou instruções para os deputados da linha de frente dos Trabalhistas, no sentido de que “evitassem comentários que dessem a impressão de ataque desmedido a um grupo jornalístico”. Um doce, a quem adivinhar que grupo Baldwin tinha em mente. Ainda não apareceu político inglês cujas mãos não sejam manchadas de murdochismo.

Nada autoriza a supor que os truques sujos de News of the World sejam exclusividade dos tablóides de Murdoch, ou que a imprensa popular ‘aprenderá a lição’: até que o crime de grampear telefones converteu-se em “grande notícia”, inevitável, inescapável, o que se ouvia era o silêncio ensurdecedor sobre o assunto no Daily Mail e no Daily Mirror. A única coisa que aconteceu, depois de tantos e tantos escândalos anteriores, é uma ostentação de arrependimento fingido, algum tempo de moderação e então, como viciado que não resiste à droga, tudo voltará a ser feito como antes, pelos velhos sujos caminhos.

Até aqui, a resposta dos tablóides tem sido “denunciar” a cobertura que a BBC ofereceu da história, e reclamar, furiosamente, contra qualquer tentativa de regulação da imprensa. 

Há, sim, urgente necessidade de reformar-se a lei da mídia, para obrigar a imprensa a respeitar a privacidade dos cidadãos e a servir ao interesse público. Mas, isso, é o que nos prometem há anos, e continuamos à espera.

Seja como for, pode-se afirmar, no mínimo, que a obscena influência que Rupert Murdoch exercia sobre a política britânica, se não acabou, sofreu duro baque. Quebrou-se o feitiço. Vince Cable, ministro do gabinete Liberal Democrata que já enfrentou Murdoch, comparou o estado de espírito reinante em Westminster ao êxtase popular quando cai um tirano. 

Cameron, em tom compungido-grandiloquente, diz que todos “temos de aprender as lições e fazer, do momento presente, momento de catarse”. Sim, sim. E a primeira lição é que, para o futuro, os magnatas bilionários das empresas de comunicação e mídia sejam mantidos bem longe da convivência com primeiros-ministros, ministros etc. Nada muda, de fato, se são obedecidos, se entram pela entrada principal ou pela porta dos fundos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

“Murdoch falava MUITO MAIS com seus editores, do que diz”

Oliver Wright

27/7/2011, Oliver Wright, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Excerto da discussão de pauta, na Vila Vudu:
Vam traduzi isso aí, sim. Taí o caso Murdoch, prá prová comé o negócio. 
Os nossos ministros dos nossos governos Lula-Dilma têm de pará coesse papim-fraco de dar entrevista pro grupo GAFE (Globo-Abril-Folha-Estadão) do desjornalismo brasileiro. 
Um dia, a casa cai prôs murdochs do grupo GAFE Brasil-2011, os carin lá vai tudo pará na cadeia... e comé kefica quem vivia em convescotes com eles?!
Já não basta a presepada dos mervais e miogosdainardis e goldembergs e cerras & tucanaria udenista golpista, em lambeção de bota côs sub-dos-subs da embaixada dos EUA, como WikiLeaks noticiou?! 
Se, no Brasil os jornalistas são “idiotas que perderam a modéstia” (e são!), por que, diabos, o Jobim vive a dar entrevistas por aí, prôs mesmos idiotas arrogantes do grupo GAFE? 
Deu pá entendê, ministro Jobim... OU A GENTE VAI TÊ QUE DESENHÁ?!

Rupert Murdoch mantinha contato muito mais próximo e mais frequente com os editores de seus jornais londrinos do que admitiu no depoimento a deputados do Parlamento inglês, semana passada –, disse ontem seu biógrafo.

Michael Wolff, que gravou mais de 60 horas de entrevista com Rupert Murdoch para sua biografia semiautorizada, disse que o presidente e principal executivo da empresa News Corp passava “mais da metade do dia, todos os dias” envolvido com os jornais e conversava regularmente com os editores sediados em Londres sobre matérias a serem publicadas.

Semana passada, em depoimento ao Parlamento, Rupert Murdoch declarou que “só muito raramente” conversava com seus editores em Londres, e acrescentou: “Vocês não fazem ideia da quantidade de assuntos de que tenho de tratar diariamente. Acabei por perder de vista o The News of the World, talvez porque era pequeno demais, praticamente insignificante no contexto geral de minha empresa”. 

Mas em entrevista ao Independent, Mr. Wolff, que teve o mais irrestrito acesso à intimidade da família Murdoch quando escreviaThe Man Who Owns the News publicado em 2008, disse que Rupert Murdoch sempre foi proprietário muito mais presente e ativo do que agora admite.

“O envolvimento [de Murdoch] com os jornais sempre foi total” – disse Wolff. “Rupert foi chamado a depor, e seus advogados disseram ‘Você tem de dizer que não se envolvia com os jornais’. E ele foi e mentiu.” 

E acrescentou: “Estive com ele durante horas e horas. Todas as vezes em que trabalhamos, ele atendia, pelo menos, um telefonema e muitas vezes atendia vários telefonemas, de Londres. Sempre eram os editores – James [Murdoch] e Rebekah [Brooks].

“Pelas minhas contas, ele passava metade do dia envolvido diretamente no dia a dia dos jornais. Ele trabalha assim. Ele telefona – e pergunta sobre as manchetes. Quer saber o que está sendo preparado. Quer saber de onde vieram as matérias. É sempre muito preciso quando fala de uma ou outra matéria, quando pensa sobre uma matéria, ao analisar a substância da história: se é boa, ou se é fraca.” 

Mr. Wolff lançou dúvidas sobre as declarações de que a empresa News Corp nada teria tido a ver com a indicação de Andy Coulson para trabalhar com David Cameron. Disse que acredita que tenha sido parte de uma estratégia construída por Rebekkah Brooks e James Murdoch, para conseguir que Rupert decidisse apoiar o então líder da oposição.

“Em 2007, quando eu estava preparando o livro, Rupert não tolerava Cameron” – disse Mr. Wolff. “Falava abertamente contra ele, sempre com desdém. Depois, começou a dizer “meu filho gosta dele e vou ter de confiar no que meu filho diz. A decisão será do meu filho.” 

“Rebekkah fez campanha, se não para obter o apoio de Rupert a Cameron, pelo menos para reduzir a antipatia que Cameron lhe inspirava. Parte dessa campanha foi a indicação de Andy Coulson. Pessoalmente, não tenho dúvidas que houve uma barganha: para atrair Rupert na direção de Cameron. Rebekkah incluiu Andy no processo, como alguma espécie de garantia, para convencer Rupert a apoiar Cameron.”

Na opinião de Mr. Wolff, que rompeu espetacularmente com Rupert Murdoch depois da publicação do livro, o papel crucialmente decisivo que Murdoch desempenhava na empresa está hoje gravemente comprometido.

“Agora, estamos diante de um fato consumado. Não há como voltar atrás. É impossível meter a pasta de dente de volta no tubo” – diz ele.

Encontros com ministros... 

George Osborne [desde maio de 2010, é Ministro da Fazenda do Reino Unido, Chancellor of the Exchequer]

Teve dois encontros com Rupert Murdoch depois da eleição de maio de 2010; quatro com seu filho, James Murdoch; cinco com a ex-editora executiva de Murdoch na empresa News International, depois de presa, acusada de participação no crime de grampeamento ilegal de telefones; e um encontro com Elisabeth Murdoch. Convidou Elisabeth Murdoch para sua festa de aniversário.

Jeremy Hunt [Secretário de Estado da Cultura, Jogos Olímpicos, Mídia e Esportes] 

Teve dois encontros em janeiro de 2011 com James Murdoch para “delinear o processo da fusão da BSkyB”. Jantou com Rupert Murdoch dias depois da eleição geral.

Michael Gove [Secretário de Estado da Educação] 

Rupert Murdoch almoçou ou jantou seis vezes com Michael Gove a partir das eleições, mais do que com qualquer outro ministro do Gabinete. Gove reuniu-se uma vez com James Murdoch.

Liam Fox [Secretário da Defesa do Reino Unido]

Três reuniões com executivos da empresa News International, nas quais o ministro passou-lhes informes da Defesa (em agosto do ano passado e em março e junho de 2011). Rebekkah Brooks esteve presente às três reuniões; James Murdoch participou de duas; e Rupert Murdoch, de uma.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

“Murdoch modela a política inglesa há 40 anos”

13/7/2011, Leo Panitch (Prof. Emérito de Ciências Políticas da UNY), 
The Real News Channel
Entrevista transcrita (traduzida pelo pessoal da Vila Vudu) 



[Panitch]
A primeira coisa que se deve anotar, é que Murdoch é homem da direita. O fato de ter apoiado o Partido Trabalhista [inglês] nada altera. É conhecido na Grã-Bretanha e na Austrália como “o Cavador”, por suas raízes australianas. Chegou em 1969 e comprou o Sun, que era então um clássico jornal da classe trabalhadora. Como disse Dennis Potter, o grande dramaturgo britânico, autor de roteiros para televisão, autor de The Singing Detective, em entrevista, não há ninguém na Grã-Bretanha mais responsável que Murdoch por poluir ainda mais, uma imprensa que já era muito poluída. 

Mas não se deve raciocinar como se o que estamos vendo tivesse sido, digamos, obra exclusivamente de Murdoch.

Quando tomou o Sun, Murdoch de fato ocupou aquele jornal dos trabalhadores, cuja história remonta aos anos 50s – antes, o jornal chamara-se The Labour Herald [Voz do Trabalho], trocara de nome e fora também jornal do Partido Trabalhista. Murdoch imediatamente converteu o jornal em panfleto da direita, que atacava a esquerda. 

Murdoch tornou-se dono de grande parte da imprensa. Comprou o Times, do canadense Lord Thomson of Fleet, quando Thomson desinteressou-se de jornais, porque conseguiu uma licença para um canal de televisão na Escócia (que ele chamava de “autorização para imprimir dinheiro”). 

Murdoch, como se sabe, entrou nesse mesmo jogo, também com a televisão BSkyB, com a rede Fox News, com todo o império Fox. É dono do Sunday Times também, que é jornal dominical dirigido aos ricos, e também foi acusado nesse escândalo de escutas clandestinas e invasão de telefones celulares, até de ter invadido o telefone de [Gordon] Brown, ex-líder do Partido Trabalhista. 

Tudo isso para dizer que não se trata só do jornal News of the World que, diferente do Sun, tem história que chega a meados do século 19. De qualquer modo, o News of the World e o Daily Sun – que já mostra uma mulher seminua na página 3 – não são os únicos jornais que fazem dinheiro com a repressão sexual dos britânicos e, portanto, com o frenesi social que qualquer escândalo sexual desperta, para desempenhar papel terrível na política britânica, papel que já se conhece, por exemplo, do canal Fox. Mas a coisa piorou, quando o mesmo papel começou a aparecer também nos diários. E feito de tal modo que passou a ser claro assassinato de reputações.

Você talvez já tenha ouvido a palavra “Bennismo”, hoje usada como ofensa, o pior dos palavrões. Origina-se do nome “Benn”, de Tony Benn, que foi ministro do Gabinete nos anos 1960s e depois passou para a esquerda, quando percebeu o pequeno espaço que tinha no governo britânico [foi ministro do governo trabalhista de Harold Wilson]. Abraçou a esquerda e propôs várias reformas radicais que iam além da simples “regulação” do estado de bem-estar e implicavam regular o próprio capital. 

Hoje, quando se diz “Bennismo”, a palavra significa palavrão, designa o pior dos homens, a “esquerda lunática”. Mas Benn foi um dos políticos mais efetivos, mais inteligentes e mais corajosos da Grã-Bretanha. Hoje, é lembrado como se fosse louco, ou imbecil. De fato, as coisas nunca são assim tão simples. Fato é que Benn, ao longo dos anos 1970s tornou-se muito popular entre os trabalhadores.

[Entrevistador]: Lembro que o Sun publicou matéria com um laudo de um psiquiatra norte-americano bastante conhecido, que declarava que Tony Benn era mesmo louco. A matéria analisava longamente o laudo psiquiátrico. Depois, se descobriu que tudo fora forjado: o psiquiatra jamais assinara o tal laudo.

PANITCH: E assim continuaram, lixo diário, publicado diariamente. Várias vezes em que estive com Tony [Blair], ele me disse que seu telefone estava grampeado. Não sabia se era a segurança, a imprensa, mas o telefone estava grampeado, Ouvia-se um clique e o som de uma fita rodando, quando se pegava o telefone. O que quero dizer é que nada, do que vemos hoje, é novidade.

[Entrevistador]: Vejamos então o contexto político, para compreender a importância de destruir a reputação de Benn e como isso levou ao surgimento de Tony Blair.

PANITCH: Os políticos do Partido Trabalhista que se opunham a Benn – que não queriam que o Partido Trabalhista voltasse a ser partido socialista –, assustavam-se quando abriam os jornais no café da manhã, e liam mais uma declaração atribuída a Benn, posta em manchete de primeira página do Times ou do Sun – ou, às vezes, sabe-se lá, também no Guardian, porque nem o Guardian estava imune àquilo –, que feria a reputação de todos os membros do Partido Trabalhista, a reputação pessoal, os deputados apresentados como Maria-vai-com-as-outras, como iguais aos políticos da direita, apoiadores do império norte-americano, traidores. A verdade era que, naquele momento, Benn trabalhava a favor da nacionalização dos cinco principais bancos britânicos. 

Mas os trabalhistas viviam apavorados com o que liam nos jornais de Murdoch. E, então, decidiram usar o Sun. Não foram só vítimas nem foram as únicas vítimas do Sun ou do News of the World nem do Sunday Times. Os trabalhistas decidiram usar o Sun: vazavam comentários para o Sun. Criavam “relatórios” absurdos, “dossiês” imundos, que os jornais amplificavam o mais que podiam, e tudo isso para desacreditar a esquerda trabalhista.

Os beneficiados foram a direita e o centro do Partido Trabalhista. Serviram-se do que a imprensa fazia, para atender interesses seus. Até que conseguiram livrar-se de Benn e elegeram Neil Kinnock para a liderança do Partido, quando Benn seria o líder óbvio, pode-se dizer, natural. 

Nem assim Murdoch aliviou a mão. Os que haviam conseguido livrar-se do “risco Benn”, logo viram que Murdoch já estava apresentando Kinnock como “desequilibrado”, “despreparado para o cargo”, “incompetente”, “corrupto”, “pouco ético” etc., etc. 

Foi quando, afinal, políticos extremamente pragmáticos, oportunistas, como Tony Blair, fizeram um acordo com o diabo. Disseram “- ok. Dancemos conforme a música”. Passaram a dizer o que Murdoch queria que dissessem. 

E Blair, depois que Kinnock foi derrotado em 1992 – em larga medida por efeito da campanha imunda de demonização que sofreu, sobretudo no Sun, que é jornal, como eu disse, popular – nas eleições de 1992 (...), Blair abriu caminho para a liderança do Partido Trabalhista, por acordo que fez com Brown. 

Blair, imediatamente, partiu para a Austrália, para o encontro anual do grupo News International, e lá ficou amigo de Murdoch. E Murdoch passou a apoiá-lo. Todos os jornais de Murdoch apoiaram Blair, mas, mais que todos, oSun, que praticamente o elegeu nas eleições de 1997. Blair tinha um acordo com Murdoch.

Mas não se pode esquecer que, com isso, Blair envolveu-se no mesmo tipo de política que se vê no Canal Fox, dos EUA. Todos assistimos ao papel que Blair desempenhou na guerra do Iraque, mas, sobretudo, todos assistimos ao modo como Blair, enquanto sorria para as televisões, decidiu que a desigualdade na Grã-Bretanha seria irremediável, que não se poderia impedir que continuasse a aumentar, e, em resumo, conseguiu levar o Partido Trabalhista de volta ao poder... ao preço de adotar o “Thatcherismo”. Por isso os jornais de Murdoch sempre o promoveram. Mas não promoveram todos os políticos do Partido Trabalhista. 

Jornalismo, para Murdoch é escândalo. Vivem a “denunciar” escândalos, às vezes, também entre os Conservadores, mas sempre e sempre mais entre os Trabalhistas. 

Dado que os jornais de Murdoch não sabiam exatamente para que lado velejaria Gordon Brown, que sucedeu Blair, com certeza dedicaram-se a cavoucar em busca de detalhes da privacidade de Brown. 

Mas tudo isso, do ponto de vista de Murdoch, são negócios, são questões comerciais. É o modo pelo qual Murdoch defende o capitalismo e seu patrimônio de $50 bilhões em todo o planeta. Mas também são negócios, são questões comerciais, no sentido de que tratam a notícia como um produto cuja matéria-prima é o escândalo. Os britânicos não sabem como reagir a seja o que for que tenha conotação sexual.

[Entrevistador]: Do modo como se fala do affair Murdoch, sobretudo nos EUA, é como se Murdoch fosse uma espécie de maçã podre, quase uma anomalia. A verdade é que nada há de excepcional no conluio entre os barões da grande mídia e os políticos. Todos os barões da grande mídia têm acesso facilitado aos políticos. Alguém, que participava das reuniões do Gabinete no governo Blair em Londres, escreveu recentemente que, naquelas reuniões, só três pessoas tinham poder de decidir: Blair, Brown e Murdoch, que era como sombra imaterial que pairava naquelas reuniões. Esse tipo de ‘convivência íntima’ entre os barões da imprensa e os políticos não acontece sempre? Não é sempre assim, em todo o mundo?

PANITCH: Claro que é. Todos sabemos que a liberdade de imprensa é liberdade para quem tenha empresa jornalística. “Liberdade de imprensa, só para quem tem imprensa” – como se diz. É engraçado que esses personagens venham tão frequentemente da Austrália e do Canadá. Lord Beaverbrook era canadense. Lord Thomson era canadense. Agora, o “cavador” Rupert Murdoch, é australiano. E conseguiu, vale lembrar, a cidadania norte-americana, sem a qual não poderia comprar o The New York Post. Como todos sabemos, é difícil ver cidadão não norte-americano proprietário de empresa de mídia nos EUA. Murdoch de fato, comprou a cidadania norte-americana. 

[Entrevistador]: Interessante também que, depois da experiência com Blair, Murdoch tenha apoiado Obama, contra Clinton, desde as primárias do Partido Democrata. 

PANITCH: Acho que houve algum “acerto” semelhante ao que Blair fez. Você sabe: desde os anos 90s há uma relação incestuosa entre os Democratas dos EUA e o Partido Trabalhista inglês, um aprendendo com o outro. Esse incesto continua. 

Mas o que queria dizer é que, por menos que se deva enfatizar o papel do indivíduo na história, há uma diferença entre o que Murdoch faz hoje e o que fizeram, antes deles,LordBeaverbrook ou, mesmo, Lord Thomson, embora fosse homem muito mais rude que Beaverbrook, que foi, de pleno direito, um intelectual. 

Murdoch sempre foi pior que os outros, pelo mercantilismo, pelo uso que dá à imprensa para objetivos pessoais seus, essencialmente capitalistas. Vê-se no Canal Fox News. Vê-se, de fato, nos seus jornais britânicos, acho. E acho que tudo que se possa dizer sobre a péssima qualidade da imprensa nesses países e em todos os países de língua inglesa pode ser atribuído ao ‘espírito’ de Murdoch, ao tipo de poder político que esse tipo de jornalismo dá a alguém ou a grupos, poder para modelar as políticas nacionais. Se o proprietário é homem sem escrúpulos, se é fascista... não vejo que tipo de benefício a liberdade de imprensa traria a alguém. Para começar, a liberdade de imprensa garantida a homens e grupos que não têm nenhum interesse em qualquer tipo de democracia legítima, destrói o sentido do próprio jornalismo. [Fim da entrevista]

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Líderes políticos unidos contra Murdoch

13/7/2011, The Independent, UK  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os três principais partidos políticos unir-se-ão hoje, em ataque sem precedentes contra o homem que os mesmos partidos vivem, há décadas, de cortejar incansavelmente: Rupert Murdoch.

Os líderes dos três principais partidos políticos britânicos instruíram seus deputados para que votem a favor de uma moção que exige que Murdoch, depois do escândalo dos telefones grampeados, desista da proposta que apresentou para comprar a BSkyB. 

David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband se reuniram em privado para discutir os termos de referência de um inquérito público sobre o escândalo
David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband se reuniram em privado para discutir os termos de um inquérito público sobre o escândalo

Esse show de pensamento único é consequência de intervenção dramática de David Cameron. A decisão foi tomada depois que Cameron percebeu que poderia perder a votação na Casa dos Comuns para a oposição (partidos Labour e Liberal Democrats). Dizia-se ontem que o clima, na residência do primeiro-ministro em Downing Street, era “sombrio”. 

A moção – que agora será garantidamente aprovada por vasta maioria – aumenta muito significativamente a pressão sobre a empresa News Corp para que desista completamente de tentar comprar a BSkyB – num momento em que não param de surgir denúncias de crimes e erros de má administração na News International, subsidiária britânica da News Corp, de Murdoch. 

As ações da BSkyB caíram mais 3%, depois que a City concluiu que a pressão da opinião pública torna o negócio praticamente impossível, pelo menos nesse momento.

Ao longo do dia de ontem, o affair teve os seguintes desdobramentos: 

  • Dois dos mais graduados comandantes da Polícia britânica acusaram a empresa News International de mentir e prevaricar no curso do primeiro inquérito policial; 
  • A Scotland Yard admitiu que, até agora, só notificou 170 das pessoas cujos celulares podem ter sido grampeados, de um total de 4.000 nomes que aparecem nos arquivos de Glenn Mulcaire; 
  • Uma comissão da Câmara dos Comuns convocou Rupert e James Murdoch a comparecer pessoalmente ao Parlamento na próxima 3ª-feira, com Rebekah Brooks, para serem interrogados publicamente pelos deputados sobre o escândalo; e
  • David Cameron, Ed Miliband e Nick Clegg reuniram-se privadamente para discutir os termos de referência para uma investigação pública sobre o escândalo.

Ficou acertado entre os três que Cameron anunciará hoje a instauração de comissão de inquérito, comandada por juiz especial, para tratar de dois tópicos: o fracasso da Polícia (que não investigou devidamente as denúncias de invasão de telefones celulares) e temas mais amplos da ética na mídia. As testemunhas a serem ouvidas nessa comissão falarão sob juramento. Espera-se que o primeiro-ministro, no mesmo ato, nomeie o juiz que presidirá os trabalhos da comissão de inquérito. 

(...) Fonte do governo disse que, depois de aprovada a moção conjunta, a empresa News Corp só poderá comprar 100% das ações da BSkyB, se vender os três jornais que ainda controla – The Sun, The Times e The Sunday Times. “A moção conjunta altera todo o jogo” – disse. 

(...) Em New York, os altos executivos da News Corp estão sendo pressionados a separar-se dos problemas atuais na Grã-Bretanha, para que a empresa possa concentrar-se nas partes do negócio que têm maior potencial de crescimento: a televisão a cabo nos EUA. 

(...)a tentativa de tranquilizar os acionistas, Murdoch anunciou que destinará 5 bilhões de dólares dos lucros da News Corp para “segurar” o preço das ações. A companhia informou que o dinheiro seria gasto ao longo dos próximos 12 meses para recomprar as ações da empresa – medida que reduz o risco de a cotação despencar. Com essa medida, Murdoch espera obter a simpatia dos investidores, enquanto tenta encontrar meio para impedir que o escândalo britânico contamine todo o império de $45 bilhões. 

Murdoch sabe que, se nada fizer, os acionistas poderão concluir que ele próprio e a família, que controla o negócio, estariam “segurando” o dinheiro investido. O próprio Murdoch e vários diretores já são alvo de processo movido por acionistas rebeldes, que alegam que os executivos da empresa puseram os interesses da família acima do interesse dos demais investidores. 

A jogada de Murdoch parece estar dando certo. O preço das ações estabilizou-se e vários grandes acionistas já manifestaram apoio aos Murdochs. O príncipe saudita Alwaleed bin Talal – principal acionista da News Corp, depois da família Murdoch – deu várias entrevistas, dizendo que o fechamento do jornal News of the World bastava, para encerrar o escândalo. E que a empresa News Corp continuava sólida. “A News Corp é muito mais que um jornal” – disse o príncipe.
Mas ontem começaram a aparecer sinais de que os problemas da empresa News Corp na Grã-Bretanha podem contaminar outras partes do negócio. Em depoimento aos deputados, dois altos oficiais de Polícia acusaram a empresa de deliberadamente encobrir provas de que muitos telefones estavam sendo grampeados e invadidos, durante o tempo em que a News International foi dirigida por Les Hinton – braço direito de Murdoch há décadas, que hoje é diretor de Dow Jones nos EUA. É provável que também seja convocado para prestar depoimento no inquérito público, sobre se teria autorizado ou não, que seus jornalistas sonegassem provas e produzissem as provas falsas que foram entregues à Polícia.