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quinta-feira, 11 de abril de 2013

E Obama abraça a “austeridade” com cortes na seguridade social, na assistência médica...


10/4/2013, Paul Jay entrevista Bob Pollin - The Real News Network, TRNN (11’24”)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


PAUL JAY, Editor Sênior, TRNN: Bem-vindos ao The Real News Network. Sou Paul Jay em Baltimore. Essa semana, temos conosco Bob Pollin, fundador e co-diretor do PERI, Political Economy Research Institute, Amherst, Massachusetts e autor de vários livros, dentre os quais o recente Back to Full Employment.[1] E então, Paul, o que tem a nos dizer sobre essa semana?

BOB POLLIN: Bem... É semana importante em termos de notícias de economia, porque na 6ª-feira (5/4/2013) saiu o mais recente relatório do Departamento de Empregos, sobre o desemprego nos EUA, que diz que o desemprego teria caído de 7,7% para 7,6%, pelos números oficiais. A verdade é que o número apenas parece menor, por 496 mil pessoas, quase meio milhão de norte-americanos desistiram de procurar emprego e deixaram a força de trabalho. Se tivessem continuado a procurar emprego, a taxa de desemprego teria aumentado para 7,9%. Fato é que as notícias sobre o mercado de trabalho são terríveis.

Além disso, no mesmo dia, na mesma 6ª-feira (5/4/2013), a Casa Branca divulgou a notícia de que o presidente Obama apresentará seu orçamento para o próximo ano. E que apóia a ideia de mais cortes na Social Security e Medicare, os dois programas mais básicos que representaram o que afinal de contas ainda tínhamos no estado de bem-estar muito, muito modesto que conhecemos neste país.

Obama, portanto, afirma seu apoio à “austeridade” fiscal, à ideia de que o principal problema da economia dos EUA seria o déficit fiscal, no momento em que a taxa de desemprego não está diminuindo e, de fato, só faz aumentar.

E há mais uma coisa também importante. Na véspera, houve notícias da Casa Branca de que Obama falara a seus apoiadores/financiadores; deixou bem claramente sugerido que se prepara para apoiar publicamente a construção do oleoduto Keystone, que cortará o meio oeste dos EUA. O argumento segundo o qual a construção do oleoduto Keystone seria importante: para criar empregos.

Quer dizer: por um lado, o governo Obama apóia políticas de “austeridade” que destroem empregos e que de modo algum, algum dia, seja como for, criarão emprego algum. E, por outro lado, usa o falso argumento de que a construção do oleoduto Keystone ajudará a criar empregos. De fato, não criará empregos.

O próprio Departamento de Estado, do próprio governo Obama, já indicou que a construção do oleoduto Keystone pode talvez criar algo entre 4.000 e 5.000 empregos por ano. Digamos que crie o número máximo previsto, 5.000 empregos: não passa de um centésimo do número de pessoas que deixaram a força de trabalho nos EUA, só no mês passado.

Tudo isso só comprova que Obama não tem programa de emprego. Que apóia as políticas de “austeridade”. Que apóia cortes nos programas de saúde pública. E que estamos andando exatamente na direção oposta à que deveríamos andar: teríamos de apoiar programas que expandam o número de empregos.

JAY: Bob, por favor, explique-me uma coisa. Você sabe... sou norte-americano criado no Canadá. E há coisas que não entendo em detalhe. Sempre pensei que a Segurança Social fosse programa que, mais ou menos, se auto financiasse, com contribuições dos empregadores e dos empregados. O que isso teria a ver com o déficit?

POLLIN: Você tem toda a razão. A Segurança Social é mantida com impostos cobrados do empregador e do empregado. Hoje, nos EUA, a Segurança Social é solvente. E, conforme várias projeções, permanecerá solvente por no mínimo 20 anos, sem qualquer mudança. É possível que no longo prazo seja preciso fazer algum ajuste, porque a população envelhece. Mas, no geral, sim, você tem toda a razão: nada tem a ver com o déficit fiscal. Medicare (Assistência Médica Federal, uma espécie de SUS dos EUA), tampouco; também nada tem a ver, nada, com o déficit fiscal.

O déficit fiscal em 2007, último ano do governo de George Bush, antes das eleições presidenciais de 2008 ou, pode-se dizer, o último ano antes da recessão, o déficit fiscal dos EUA era 1,7% do PIB. Veja bem: 1,7% do PIB, já com os cortes de impostos para os mais ricos instituídos por Bush, e com as guerras do Afeganistão e do Iraque. A única causa para o salto gigante no déficit fiscal foi a quebradeira em Wall Street e a Grande Recessão. Essa é a única causa. Nada tem a ver com a Segurança Social, nem, de fato, com Medicare.

JAY: Então, voltemos ao ponto onde você começou. Há quase meio milhão de pessoas que saíram da força de trabalho, essencialmente, gente que desistiu de procurar emprego. Não são pessoas que encontraram trabalho.

POLLIN: Bem, não sabemos o que é, mas sabemos que, nesse momento, a proporção de pessoas em idade laboral integrada à força de trabalho é a mais baixa desde – de fato, desde que as mulheres entraram na força de trabalho em números acentuadamente maior. É um momento de absoluta mudança, no qual é muito claro que as pessoas estão desistindo da força de trabalho.

Agora, temos alguns dados oficiais em que se pergunta às pessoas se cada um parou de procurar trabalho no mês em curso. Assim, se se inclui essas pessoas nas estatísticas do desemprego e as pessoas estão assumindo empregos de tempo parcial, em vez dos empregos de tempo integral que sempre prefeririam. Essa porcentagem já chega a 13,8%, número oficial do Departamento do Trabalho. São 21,5 milhões de pessoas, oficialmente, segundo o Departamento do Trabalho. Estamos – e continuamos nela, já discutimos muito esse assunto – numa crise de emprego.

Políticas de “austeridade” nos estão direcionando para a direção errada. Se se demitem pessoas no setor público, que é exatamente o que as políticas de “austeridade” estão fazendo, não se estão criando empregos, por isso, no setor privado. Demite-se e não se criam empregos. Por isso, precisamente, as pessoas estão saindo da força de trabalho.

JAY: O objetivo dos dois partidos parece bem claro – do governo Obama e dos Republicanos. O objetivo de todos eles, me parece, é o que se vê: grande aumento nos lucros, aumentos recordes nos lucros das grandes empresas. O mercado de ações vai muito bem, sobretudo porque os salários estão muito baixos. O dinheiro é barato. E acho que enquanto continuar a haver recessão, o dinheiro continua barato, o que é bom para as grandes empresas, porque estão emprestando – e os custos dos financiamento são praticamente zero, e é ótimo momento para comprar novas tecnologias e demitir mais e mais empregados. Sim, mas... a que, diabo, isso levará alguém?

POLLIN: Sim, é... Deixe-me dar-lhe mais um número. De 2009 a 2011, do total da renda na economia dos EUA, a parte do crescimento total que vai para o 1%, aumentou 121%. Todo o crescimento de renda nos EUA mais 21% concentrou-se no 1% superior. Os restantes 99% da população não viram nenhum crescimento. Esses 99% viram a própria renda encolher, sumir. E, isso, no período que chamamos de “a retomada”.

Por tudo isso, sim, você tem toda a razão. Os EUA não temos plano algum para coisa alguma diferente do que se vê agora: os ricos enriquecendo cada vez mais por causa da “austeridade” imposta aos mais pobres, que assegura que os ricos encontrem dinheiro barato para tomar emprestado, salários baixos a pagar... Para todo o resto da população norte-americana, o emprego só faz encolher cada vez mais.

JAY: Isso, em parte, porque os ricos descobriram um momento na economia em que se reúnem: salários baixos, recessão, dinheiro barato sem inflação – em outras palavras... A teoria econômica tradicional diria que, quando o dinheiro mantém-se barato por tanto tempo, a inflação virá; então ninguém pode manter dinheiro barato por tempo indefinido. Mas parece que, por aqui, já se descobriu que não há inflação, de fato, porque toda a economia global está tão deprimida que é possível manter as coisas como estão? Quero dizer... é isso o que está acontecendo? Vi, dia desses, que você consegue hipotecar um prédio comercial – se você tiver um prédio comercial, claro –, com juros de 3,3% e até menos. É extraordinariamente barato. Para quem seja proprietário de um prédio comercial... é excelente negócio hipotecá-lo. Soma-se tudo: dinheiro barato, salários achatados e altos lucros. Por que, então, alguém estaria preocupado com a economia? Quem estaria interessado em alguma “recuperação”?!

POLLIN: É isso e, de fato, acho que é até pior que isso. A direita, sem dúvida, pensa exatamente assim. E nem vou dizer que Obama seja parte disso, ou, pelo menos, acho que não é, até agora. Mas é claro que a direita está vendo a grande oportunidade que se abriu não só para altos lucros, mas, também, para destripar e esquartejar, de vez, o pobre, o modesto estado de bem-estar social que algum dia houve nos EUA, destruir os sindicatos, inclusive os sindicatos do setor público, e modificar permanentemente o equilíbrio de poder a favor da riqueza, de tal modo que a situação siga como a vemos, por tempo indefinido: sem pressão para aumentar salários, desemprego sempre alto, suficientemente alto para que as pessoas estejam desesperadas e sem poder de barganhar, com a produtividade crescente, com ganhos de produtividade sempre crescente.

Esse, precisamente, é o quadro que tivemos. Infelizmente, se tivesse de datar precisamente o momento em que tudo isso começou... a data é a data da eleição da falecida Margaret Thatcher.

É o modelo neoliberal. Aquele modelo só fez intensificar-se. Em nenhum momento foi “moderado” por qualquer tipo de força oposta. Começou, sem dúvida alguma, com Thatcher; e, nos EUA, com Ronald Reagan. Muitos supuseram que sairia enfraquecido da crise. Não. O modelo, nos EUA, está saindo mais forte, da crise, não mais fraco.

[Despedidas e fim da entrevista]



Nota dos tradutores
[1]Autor também do “e-book”: Austerity Economics and the Struggle for the Soul of U.S. Capitalism [Economia de “austeridade” e a disputa pela alma do capitalismo norte-americano], 5/4/2013:

Resumo:
Ante o desastre de Wall Street (2008-09) e a Grande Recessão, economistas ortodoxos e as elites políticas nos EUA e na Europa Ocidental têm-se esforçado para divulgar a ideia de que a “austeridade” seria a única opção política viável. A base dos falcões da “austeridade” é que as economias, dos EUA e europeias estariam sendo consumidas por níveis descontrolados de endividamento público. Seria indispensável portanto cortar o gasto público antes de que o colapso econômico se imponha como possibilidade real.

Os falcões da “austeridade” terão razão? Será verdade que absolutamente não haveria agenda alternativa, diferente da agenda deles? De fato, os argumentos dos falcões da “austeridade” nascem errado e continuam errados desde a base.

Esse artigo, focado no caso dos EUA, mostra que o que dizem os propagandistas da “austeridade” – que grandes déficits gerariam inflação alta e juros altos – é premissa já comprovadamente errada há, no mínimo, quatro anos. Pior que isso, os EUA aproximaram-se cada vez mais, ao longo desse tempo, de uma crise fiscal, no sentido mais simples da expressão: nem com todos os cortes já feitos, o governo tem conseguido pagar o que deve aos credores.

O artigo revisa a experiência recente, no plano do governo dos EUA e dos governos locais, que mostra que a agenda da “austeridade” ataca exclusivamente as bases do que já é um modesto Estado de Bem-Estar nos EUA. Vai-se tornando cada vez mais evidente que se não todos, muitos dos propagandistas da “austeridade” vêem nesse período uma oportunidade para eviscerar o setor público, os sindicatos, a segurança social e outras proteções sociais básicas. Na conclusão, o artigo oferece algumas ideias que podem trabalhar contra a agenda da “austeridade”: se, no curto prazo, empurrarmos a economia dos EUA na direção do pleno emprego; e se, no longo prazo, se o país conseguir manter-se nesse curso.



terça-feira, 17 de julho de 2012

A Grande Transformação dos EUA: “De Estado-Previdência em Estado-Policial-Imperial”


por James Petras


Os Estados Unidos experimentaram a maior reviravolta política da sua história recente: a transformação de um florescente estado previdência (ing. welfare state) num estado policial altamente intrusivo, profundamente arraigado e em rápida expansão, ligado às mais desenvolvidas inovações tecnológicas. 

A “Grande Transformação” verificou-se exclusivamente a partir de cima, organizada pelos escalões superiores da burocracia civil e militar sob a direção do Executivo e do seu Conselho de Segurança Nacional.

A “Grande Transformação” não foi um evento único, mas um processo de acumulação de poderes, via decretos executivos, apoiado e aprovado por líderes do Congresso acomodatícios. Em momento algum no passado recente e distante esta nação testemunhou o crescimento de tais poderes repressivos e a proliferação de tantas agências de policiamento voltadas para tantas áreas da vida ao longo de um período de tempo tão prolongado (num tempo virtualmente sem discordância interna de massa).

Nunca o ramo executivo do governo assegurou tantos poderes para deter, interrogar, sequestrar e assassinar seus próprios cidadãos sem amarras judiciais. 
Estado Policial
A dominância do estado policial é evidente no enorme crescimento dos orçamentos da segurança interna e militar, no vasto recrutamento de pessoal de segurança e militar, na acumulação de poderes autoritários restringindo liberdades individuais e coletivas e a impregnação da vida cultural e cívica nacional com a quase religiosa glorificação dos agentes e agências do militarismo e do estado policial como se evidencia em eventos esportivos e entretenimento de massa. 

O estancamento de recursos para previdência pública e serviços é um resultado direto do crescimento dinâmico do aparelho de estado policial e do império militar. Isto só poderia ocorrer através de um constante ataque direto contra o estado previdência – em particular contra o financiamento público para programas e agências que promovem a saúde, educação, pensões, rendimento e alojamento para a classe média e trabalhadora. 

George Bush (pai)
A ascendência do estado policial 

O ponto central à ascensão do estado policial e do consequente declínio do estado previdência tem sido a série de guerras imperiais, especialmente no Oriente Médio, lançadas por todos os presidentes desde Bush (pai), Clinton, Bush (filho) e Obama. Estas guerras, voltadas exclusivamente contra países muçulmanos, foram acompanhadas por uma onda de leis repressivas "anti-terroristas" e implementadas através do rápido fortalecimento do maciço aparelho policial do estado, conhecido como Ministério da Segurança (ing. Homeland Security).  

Os principais advogados e propagandistas do militarismo além-mar contra países com grandes populações muçulmanas e a imposição de um estado policial interno têm sido promovido por sionistas dedicados AIPAC, p. ex>) que promovem guerras concebidas para o reforço do poder esmagador de Israel no Oriente Médio. Estes sionistas americanos (incluindo cidadãos com dupla nacionalidade, dos EUA e de Israel) conseguiram posições estratégicas dentro do aparelho estado policial estadunidense a fim de aterrorizar e reprimir ativistas, especialmente muçulmanos americanos e imigrantes críticos do estado de Israel.

George Bush (filho)
Os eventos do 11/Set/2001 serviram como o detonador para o maior arranque militar global desde a 2ª Guerra Mundial e da mais generalizada expansão de poderes da polícia de Estado na história dos Estados Unidos. O terror sangrento do 11/Set/2001 foi manipulado para estabelecer uma agenda pré planejada – transformando os EUA num estado policial - e, ao mesmo tempo, lançando durante uma década séries de guerras no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Somália, Iêmen e, agora, a Síria, bem como guerras encobertas contra o Irã e o Líbano. O orçamento militar explodiu e o déficit do governo inchou enquanto programas sociais e de previdência foram denegridos e desmantelados quando a “Guerra global ao terror” passou à marcha plena. Programas concebidos para manter ou elevar padrões de vida de milhões e aumentar o acesso a serviços para os pobres e a classe trabalhadora caíram como vítimas do 11/Set.

Enquanto as guerras no Oriente Médio ocuparam a cena central, a economia estadunidense afunda.

Bill Clinton
Na frente interna, o vital investimento público em educação, infraestrutura, indústria e inovações civis foi cortado. Centenas de bilhões de dólares dos contribuintes foram despejados nas zonas de guerra, pagando mercenários (empreiteiros privados), subornando regimes corruptos fantoches e proporcionando uma oportunidade de ouro para oficiais responsáveis pelo aprovisionamento e seus amigos empreiteiros privados aumentarem (e embolsarem) derrapagens de custos de muitos bilhões de dólares.

Em consequência, a política militar dos EUA em relação ao Oriente Médio, política militar que num certo momento foi concebida para promover interesses econômicos imperiais americanos, agora assume uma vida própria: guerras e sanções contra o Iraque, Irã, Síria e Líbia minaram lucrativos contratos petrolíferos negociados pelas multinacionais estadunidenses enquanto promoviam o militarismo. Na verdade, a configuração de poder sionista-israelense nos Estados Unidos tornou-se muito mais influente na direção da política militar dos EUA no Oriente Médio do que qualquer combinação do Big Oil – e tudo em benefício do poder regional israelense.

Lyndon Johonson
As guerras imperiais e a morte do Estado Previdência

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial até o fim da década de 1970, os EUA conseguiram combinar, com êxito, guerras imperiais além-mar com um estado previdência em expansão no plano interno. De fato, as últimas peças principais de legislação do estado previdência verificaram-se durante a sangrenta e custosa guerra EUA-Vietnã, sob os presidentes Lyndon Johnson e Richard Nixon. A base econômica do militarismo-previdência eram os poderosos fundamentos industriais-tecnológicos da máquina de guerra dos EUA e sua dominância nos mercados mundiais.

Subsequentemente, o declínio da posição competitiva dos EUA na economia mundial e a maciça relocalização além-mar dos EUA-multinacionais (e seus empregos) esticou o “casamento” do bem-estar interno e o militarismo até o ponto de ruptura. Assomavam déficits fiscais e comerciais mesmo quando as exigências por medidas de previdência e pagamentos de desemprego cresciam, devido em parte a mudança dos empregos estáveis bem pagos na manufatura para trabalho mal pago. Enquanto a posição econômica global dos EUA declinava, sua expansão militar acelerava-se em consequência do fim dos regimes comunistas na URSS e na Europa do Leste e a incorporação dos novos regimes do antigo bloco do Leste na aliança militar da OTAN dominada pelos EUA.

O desaparecimento dos estados comunistas levou ao fim da competição global em sistemas de bem-estar (ing. welfare) e permitiu aos capitalistas e ao estado imperial cortar no bem-estar para financiar a sua maciça expansão militar global.

Richard Nixon
Não houve virtualmente qualquer oposição dos trabalhadores: a conversão gradual dos sindicatos dos EUA em organizações altamente autoritárias dirigidas por “líderes” milionários que se auto-perpetuavam e a redução do número de sindicalizados dos 30% da força de trabalho em 1950 para menos de 11% em 2012 (com mais de 91% dos trabalhadores do setor privado sem qualquer representação sindical) significou que os trabalhadores americanos ficaram com menos poderes para organizar greves a fim de proteger seus empregos, muito menos para aplicar pressão política em defesa de programas públicos e do bem-estar.

O militarismo estava em ascensão quando o presidente Jimmy Carter lançou a sua “guerra secreta” de muitos bilhões de dólares contra o regime pró soviético no Afeganistão e o presidente Ronald Reagan iniciou uma série de “guerras por procuração” por toda a parte na América Central e no Sul da África e enviou US Marines à minúscula ilha de Granada. Reagan dirigiu a escalada de gastos militares jactando-se de que levaria a União Soviética à “bancarrota” com uma nova “corrida armamentista”. O presidente George Bush Sr. invadiu o Panamá e a seguir o Iraque, a primeira das muitas invasões estadunidenses no Oriente Médio. O presidente Bill Clinton acelerou a investida militar, cortando pelo caminho a previdência pública em favor do “trabalho social privado”, bombardeando e destruindo a Iugoslávia, bombardeando e esfomeando o Iraque enquanto estabelecia enclaves coloniais no Norte do Iraque e expandia a presença militar dos EUA na Somália e no Golfo Pérsico.

Os constrangimentos ao militarismo estadunidense impostos pelo maciço popular anti-Guerra do Vietnã e a derrota dos militares dos EUA pelos comunistas vietnamitas foram gradualmente desgastados, pois guerras de curto prazo com êxito (como Granada e Panamá) minaram a Síndrome do Vietnã – a oposição pública ao militarismo. Isto preparou o público americano para o militarismo incremental enquanto escavava o sistema de bem-estar.

Se Reagan e Bush construíram os fundamentos para o novo militarismo, Bill Clinton proporcionou três elementos decisivos: juntamente com o vice-presidente Al Gore, Clinton legitimou a guerra ao Estado Previdência, estigmatizando a assistência pública e mobilizou apoio de líderes religiosos e políticos na comunidade negra e na AFL-CIO. Em segundo lugar, Clinton foi a chave para a “financeirização” da economia dos EUA, através da desregulamentação do sistema financeiro (revogando o Glass-Steagal Act de 1933) e nomeando financeiros da Wall Street para o leme da política econômica nacional. Em terceiro lugar, Clinton nomeou sionistas importantes para as posições chave da política externa relacionada com o Oriente Médio, permitindo-lhes inserir a visão militar de Israel da realidade dentro das tomadas de decisões estratégicas em Washington. Clinton pôs em vigor a primeira série de legislação repressiva da polícia de estado “anti-terrorista” e expandiu o sistema nacional de prisões. Em suma, as políticas de guerra no Oriente Médio de Bill Clinton, sua “financeirização” da economia dos EUA, sua “guerra ao terror”, sua orientação sionista em relação ao mundo árabe e, acima de tudo, sua própria ideologia anti-Estado Previdência (ing. anti-welfarism) levaram diretamente à conversão total promovida por Bush Júnior do estado previdência em estado policial.

Explorando o trauma do 11/Set, os regimes Bush e posteriormente Obama quase triplicaram o orçamento militar e lançaram uma série de guerras contra estados árabes. O orçamento militar subiu de US$359 bilhões em 2000 para US$544 bilhões em 2004 e escalou para US$903 bilhões em 2012. As despesas militares financiaram as principais ocupações militares estrangeiras e administrações coloniais no Iraque e no Afeganistão, guerras de fronteira no Paquistão e as operações encobertas das Forças Especiais dos EUA (incluindo sequestros e assassinatos) no Iêmen, Somália, Irã e 75 outros países em todo o mundo.

Enquanto isso a especulação financeira corria desenfreada, déficits orçamentários inchavam, padrões de vida afundavam, déficits no comércio internacional atingiam níveis recordes e a dívida pública duplicava em pouco menos do que oito anos. Guerra imperiais múltiplas arrastavam-se sem fim; os custos destas guerras multiplicavam-se enquanto a bolha financeira estourava. A contradição entre bem-estar interno e militarismo explodiu. Finalmente, a regressão maciça dos programas sociais básicos para todos os americanos coroou a agenda presidencial e legislativa.

Barack Obama discursa para militares (ou "terceirizados")
Programas anteriormente “intocáveis”, como Segurança Social, Medicare, o US Post Office, emprego do setor público, serviços para os pobres, idosos e deficientes e selos alimentares foram todos colocados no compartimento do carniceiro. Ao mesmo tempo o governo federal aumentou seu financiamento de empreiteiros militares e policiais privados (mercenários) além-mar e estendeu o âmbito e profundidade das operações clandestinas da Forças Especiais dos EUA. Bush e Obama aumentaram amplamente os gastos com militares e agentes de espionagem em apoio de regimes colaboracionistas impopulares e brutais no Paquistão e no Iêmen. Eles financiaram e armaram mercenários estrangeiros na Líbia, Síria, Irã e Somália. Na primeira década do novo século ficou claro que o militarismo imperial e o bem-estar interno eram um jogo de soma zero: quando as guerras imperiais se multiplicaram, os programas internos foram cortados.

A severidade e profundidade dos cortes em programas de bem-estar internos populares foram apenas em parte o resultado das guerras imperiais; igualmente importante foi o enorme aumento no financiamento de pessoal e tecnologia de vigilância para o florescente estado policial interno.

As origens da conversão do Estado Previdência em Estado Policial

O declínio precipitado do estado previdência e o desmantelamento de serviços sociais, educação pública e acesso a cuidados de saúde a preço acessível para as classes trabalhador e média não podem ser explicados pela morte do trabalho organizado, nem tão pouco se deve à "viragem à direita" do Partido Democrático. Duas outras profundas mudanças estruturais são importantes como fundamento para o processo: a transformação da economia dos EUA de uma economia manufatureira competitiva numa economia “FIRE” (ing. Finance, Insurance and Real Estate) (trad. Finanças, Seguros e Especulação Imobiliária); e, em segundo lugar, a ascensão de um vasto aparelho de estado policial-legal-político-administrativo empenhado na “guerra interna” permanente dentro de caso, destinado a apoiar e complementar a guerra imperial permanente no exterior. 

Agências e pessoal da polícia de estado expandiram-se dramaticamente durante a primeira década do novo século. O estado policial penetrou nos Sistemas de Telecomunicações, patrulhou e controlou Terminais de Transportes (portos e aeroportos, p. ex.); dominou procedimentos judiciais e supervisionou as principais “novas saídas”, associações acadêmicas e profissionais.

O estado policial expandido entrou encobertamente e abertamente na vida privada de dezenas de milhões de americanos. 

A perda para os contribuintes em termos de direitos de cidadania e de Estado Previdência foi estarrecedora. 

Quando o maior e mais intrusivo componente do aparelho de estado policial, batizado “Homeland Security”, cresceu exponencialmente, o orçamento e as agências que providenciavam bem-estar e serviços públicos, saúde, educação e desemprego, contraíram-se. Dezenas de milhares de espiões internos foram contratados e custosas tecnologias intrusivas de espionagem (ing. spyware) foram compradas com dinheiro dos contribuintes, enquanto centenas de milhares de professores e profissionais da saúde pública e do bem-estar social perderam os seus empregos. 

O Ministério da Segurança Interna ( ing. Department of Homeland Security) é composto por aproximadamente 388 mil empregados, incluindo tanto os federais como agentes contratados. Entre 2011-2013 o orçamento do DHS de US$173 bilhões não enfrentou cortes graves. A rápida expansão da Segurança Interna verificou-se a expensas dos Serviços de Saúde e Humanos, educação e Administração da Segurança Social, os quais atualmente enfrentam retrocesso em grande escala. 

Dentre os responsáveis de topo, nomeados pela administração Bush Jr. para posições chave no aparelho de estado policial, há dois que foram os mais influentes no estabelecimento da política: Michael Chertoff e Michael Mukasey. 

Michael Chertoff
Michael Chertoff dirigiu a Divisão Criminal do Departamento da Justiça (de 2001 a 2003). Durante esse período foi responsável pela prisão arbitrária de milhares de cidadãos dos EUA e imigrantes de ascendência muçulmana e do Sul da Ásia, os quais foram mantidos incomunicáveis sem acusação e sujeitos a abusos físicos e psicológicos – sem um único estrangeiro residente ou cidadão americano muçulmano ligado ao 11/Set. Em contraste, Chertoff rapidamente interveio para libertar grande número de israelenses suspeitos de espionagem e cinco agentes israelenses do MOSSAD que estiveram filmando e celebrando a destruição do World Trade Center e estavam sob investigação ativa do FBI. Mais do que qualquer outro responsável, Michael Chertoff foi o arquiteto chefe da “Guerra Global ao Terror” – co-autor do notório “Patriot Act” o qual deitou no lixo o habeas corpus e outros componentes essenciais da Constituição dos EUA e da Carta de Direitos. Como secretário do Homeland Security de 2005 a 2009, Chertoff promoveu “tribunais militares” e organizou a vasta rede interna de espiões, a qual agora vitimiza cidadãos privados dos EUA. 

Michael Mukasey
Michael Mukasey, o Procurador Geral nomeado por Bush, foi um defensor entusiasta do Patriot Act, apoiando tribunais militares, tortura e assassinatos além-mar de indivíduos suspeitos do que ele chamava “terrorismo islâmico” sem julgamento. 

Tanto Chertoff como Mukasey são ardentes sionistas com laços antigos a Israel. Acreditava-se que Michael Chertoff possuísse dupla cidadania, dos EUA e Israel, quando lançou a administração na guerra interna a cidadãos estadunidenses. 

Uma breve revisão das origens e direção do aparelho de polícia do estado e dos escalões de topo da guerra global ao “terrorismo islâmico” – linguagens em código para imperialismo militar – revela um número desproporcional de adeptos do “Israel em primeiro lugar” (Israel-Firsters), os quais dão maior importância a perseguir críticos potenciais dos EUA das guerras no Oriente Médio por Israel do que em defender garantias constitucionais e a Carta de Direitos. 

De volta à vida “civil”, Michael Chertoff lucrou muito com a falsa “Guerra ao terror” promovendo a radioativa e degradante tecnologia do rastreamento (scanning) do corpo em aeroportos por todo os EUA e a Europa. Ele estabeleceu a sua própria firma de consultoria, Chertoff Groups (2009), para representar os fabricantes de rastreadores de corpos. Os americanos podem agradecer a Michael Chertoff cada vez que passam pela humilhação de um rastreamento de corpo em aeroportos. 

A fusão do aparelho de estado policial com o complexo industrial-securitário e suas importantes ligações além-mar com suas contrapartes de empresas de segurança no estado de Israel acentua as ligações do estado imperial ao establishment militar israelense. 

À medida que o estado policial cresce ele cria um poderoso lobby de apoiadores da indústria de vigilância de alta tecnologia e seus beneficiários que pressionam por gastos federais e estaduais em “segurança” às expensas de programas de bem-estar social. 

O esmagamento pelo estado policial dos programas sociais, de educação e bem-estar tem um aliado poderoso na Wall Street, a qual emergiu como o sector dominante do capital estadunidense em termos de acesso a e para influenciar mais o Tesouro dos EUA e suas destinações das verbas orçamentárias. 

Ao contrário do setor manufatureiro, o capital financeiro não necessita de uma população de trabalhadores educados, saudáveis e produtivos. A sua própria “força de trabalho” é composta de uma pequena elite educada de especuladores, analistas, traders e corretores nos níveis de topo e médios e de um pequeno exército de varredores de escritório contratados, secretárias e trabalhadores subalternos na base. Eles têm o seu próprio exército “invisível” de servidores domésticos, cozinheiros, fornecedores de comida, jardineiros e governantes privados de qualquer “Segurança Social”, cobertura de saúde e planos de pensão. E o setor financeiro tem as suas próprias redes de médicos e clínicas, escolas, sistemas de comunicações e mensageiros, propriedades e clubes, agências de segurança e guardas pessoais; ele não necessita um sector público educado e qualificado; e certamente não quer que a riqueza nacional apoie sistemas públicos de alta qualidade em saúde e educação. Ele não tem interesse em apoiar estas instituições públicas de massa que considera como um obstáculo para “libertar” vastas quantias de riqueza pública para a especulação. Por outras palavras, o setor dominante do capital não tem objeções ao “Homeland Security”; na verdade partilha muitos sentimentos com os proponentes do estado policial e apoia a contração do estado de bem-estar social. Ele está preocupado é com a redução de impostos sobre o capital financeiro e o aumento dos fundos de salvamento federais para a Wall Street enquanto controla a cidadania empobrecida. 

Conclusão  

A conversão de um Estado Providência num Estado Policial é o resultado do imperialismo militarizado no exterior e da ascendência do capital financeiro internamente, bem como da proliferação de agências de segurança do estado e das indústrias privadas relacionadas e do papel estratégico dos sionistas de extrema direita em posições de topo do aparelho de estado policial. 

A convergência de mudanças estruturais internacionais e internas teve lugar durante as décadas de 1980 e 1990 e a seguir acelerou-se durante a primeira década do século XXI.

A degradação dos vastos serviços públicos do Estado Providência foi encoberta por uma maciça propaganda governamental para promover a “guerra global ao terror” juntamente com uma generalização fabricada da “ameaça terrorista” interna envolvendo os mais desafortunados suspeitos (incluindo excêntricos haitianos milenaristas capturados por agentes do FBI).

Os apoiadores e beneficiários do Estado Previdência encontram-se à margem de qualquer debate nacional. A campanha de propaganda dos mass media/regime exigiu e assegurou com êxito aumentos maciços em poderes centralizados do policiamento interno, da vigilância, provocações, desaparecimentos e prisões.

Ao longo da década passada, o que o Estado Providência perdeu em apoio e financiamento, o Estado Policial ganhou.

A ascensão do capital financeiro e a desregulamentação do sistema financeiro eliminou quaisquer subsídios públicos para promover e sustentar a competitividade do sector manufactureiro dos EUA. Isto levou a uma grande ruptura nas ligações entre indústria, trabalho e o Estado Previdência. Enormes cancelamentos fiscais para grandes negócios, combinado com o crescimento em despesas de uma burocracia não produtiva do estado policial e a série de custosas guerras além-mar, provocaram défices orçamentais e comerciais insustentáveis, os quais tornaram-se então o pretexto para novos cortes selvagens no Estado Previdência. 

Mudanças políticas, culturais e ideológicas significativas ajudaram o predomínio do estado policial sobre o estado de bem-estar público. O êxito de importantes sionistas americanos em assegurar poder no interior dos media chave fabricantes de propaganda e de obter nomeações para posições críticas nos escalões de topo do aparelho de estado policial, judiciário e na burocracia do estado imperial (Tesouro e Departamento de Estado) colocaram os interesses coloniais de Israel e do seu próprio aparelho de estado policial no centro da política estadunidense. O estado policial dos EUA adotou o estilo de repressão israelense apontando para cidadãos e residentes nos EUA. 

A sociedade estadunidense está agora dividida em dois setores: os “vencedores” ligados ao complexo financeiro e de segurança lucrativo e em expansão, incorporado no estado policial, enquanto os “perdedores”, ligados ao estado manufactureiro-previdênciário, são relegados a uma “sociedade civil” cada vez mais marginalizada. O estado policial expurga dissidentes que questionam a “doutrina Israel First” do aparelho de segurança-militar dos EUA. O setor financeiro, encaixado no seu próprio “casulo” de serviços privados, exige o estripamento total de serviços públicos destinados aos pobres, trabalhadores e classes médias. O tesouro público foi capturado a fim de financiar salvamentos bancários, guerras imperiais e agências de polícia do estado enquanto paga aos possuidores de títulos da dívida dos EUA. 

A Segurança Social está na mira da privatização. Estão sendo reduzidas pensões, aposentadorias e serviços auto financiados. Selos alimentares, cuidados de saúde acessíveis e apoio ao desemprego serão cortados. O estado policial não pode pagar por novas e reluzentes tecnologias repressivas, maior policiamento, vigilância mais intrusiva, detenções e prisões enquanto financia o estado-previdência existente com seus vastos serviços educacionais, de saúde e humanos, bem como os benefícios de pensões. 

Em suma, não há futuro para o estado-previdência nos Estados Unidos dentro do seu poderoso sistema de estado financeiro-imperial-policial. Os dois principais partidos políticos alimentam este sistema, apoiam guerras em série, apelam às elites financeiras e debatem sobre a dimensão, âmbito e temporização de novos cortes no bem-estar social. 

O sistema de bem-estar social americano foi um produto de uma fase anterior do capitalismo estadunidense em que a supremacia industrial global dos EUA permitiu tanto gastos militares como em bem-estar e até que os gastos militares fossem constrangidos por exigências dos setores socioeconômicos manufatureiros internos. Na fase anterior a influência sionistas baseava-se em indivíduos ricos e no seu lobby no Congresso – eles não ocupavam posições chave na decisão política federal estabelecendo agendas para a guerra no Oriente Médio e para o estado policial interno. 

Os tempos mudaram para pior: um estado policial, ligado ao militarismo e a guerras imperiais perpétuas no Oriente Médio ganhou ascendência e agora impacta nossas vidas diárias.

Subjacentemente, tanto ao crescimento do estado policial, como à erosão do estado previdência está a ascensão de uma intrincada “elite do poder financeiro-securitário”, mantida unida por uma ideologia comum, riqueza privada sem precedentes e o impulso implacável para monopolizar o tesouro público em detrimento da vasta maioria dos americanos.

Uma confrontação e a exposição plena de toda a propaganda em causa própria, a qual fortalece a elite do poder, é um primeiro passo essencial.

Os enormes orçamentos para guerras imperiais são a maior ameaça ao bem-estar dos EUA. O estado policial desgasta serviços públicos reais e mina movimentos sociais. O capital financeiro pilha o tesouro público exigindo salvamentos e subsídios para os bancos.

"Israel First" -  "USA..."
Os “Israeli Firsters”, em posições chave para a tomada de decisões, servem os interesses de um estado policial estrangeiro contra os interesses do povo americano. O Estado de Israel é o espelho oposto do que nós americanos queremos para nós próprios e nossos filhos: uma república laica livre e independente sem estabelecimentos coloniais, racismo clerical e militarismo destrutivo em causa própria 

O combate de hoje para restaurar os avanços no bem-estar dos cidadãos estabelecidos através de programas públicos do passado recente exige que transformemos toda uma estrutura de poder: verdadeiras reformas no bem-estar exigem uma estratégia revolucionária e, acima de tudo, um movimento de massa das bases rompendo com o arraigado regime de “dois partidos” ligado ao sistema financeiro-imperial-segurança interna.

14/Julho/2012

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: The Great Transformation: From the Welfare State to the Imperial Police State” -  Global Research, July 14, 2012

Esta tradução foi extraída de Resistir , ilustrada  e ligeiramente adaptada pela redecastorphoto

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Wall Street contra os pobres e a classe média: O orçamento 2012 de Obama é uma ferramenta da guerra de classe

Antiga fábrica Packard, em Detroit.
por Paul Craig Roberts [*]

O novo orçamento de Obama é uma continuação da guerra de classe da Wall Street contra os pobres e as camadas médias.

A Wall Street não acabou conosco quando os banksters venderam os seus derivativos fraudulentos aos nossos fundos de pensão, arruinaram as perspectivas de empregos e planos de aposentadoria dos americanos, asseguraram um salvamento de US$700 mil milhões a expensas dos contribuintes enquanto arrestavam os lares de milhões de americanos e sobrecarregavam o balanço da Reserva Federal com vários milhões de milhões de dólares papel financeiro lixo em troca de dinheiro recém criado para escorar os balanços dos bancos.

O efeito da “facilidade quantitativa” da Reserva Federal sobre a inflação, as taxas de juro e o valor cambial do dólar ainda está para nos atingir. Quando o fizer, os americanos obterão uma lição do que é a pobreza.

As oligarquias dominantes atacaram novamente, desta vez através do orçamento federal. O governo dos EUA tem um enorme orçamento militar e de segurança. Ele é tão grande quanto os orçamentos do resto do mundo somados. Os orçamentos do Pentágono, da CIA e da Segurança Interna representam US$1,1 trilhão do déficit federal que a administração Obama prevê para o ano fiscal de 2012. Este gasto deficitário maciço serve apenas a um único propósito – o enriquecimento de companhias privadas que servem o complexo militar/securitário. Estas companhias, juntamente com aquelas da Wall Street, são quem elege o governo dos EUA.

Os EUA não têm inimigos exceto aqueles que os próprios EUA criam ao bombardearem e invadirem outros países e pela derrubada de líderes estrangeiros e instalação de fantoches americanos no seu lugar.

A China não efetua exercícios navais ao largo da costa da Califórnia, mas os EUA efetuam jogos de guerra junto às suas costas no Mar da China. A Rússia não concentra tropas nas fronteiras da Europa, os EUA instalam mísseis nas fronteiras da Rússia. Os EUA estão determinados a criar tantos inimigos quanto possível a fim de continuar a sangrar a população americana para alimentar o voraz complexo militar/securitário.

O governo dos EUA gasta realmente US$56 mil milhões por ano a fim de que os americanos que viajam de avião possam ser porno-rastreados e sexualmente tateados de modo a que firmas representadas pelo antigo secretário da Segurança Interna Michael Chertoff possam ganhar grandes lucros vendendo o equipamento de rastreamento (scanning).

Com um déficit orçamentário perpétuo conduzido pelo desejo de lucros do complexo militar/securitário, a causa real do enorme déficit do orçamento dos EUA está fora dos limites para discussão.

O secretário belicista da Guerra, Robert Gates, declarou: “Se evitarmos as nossas responsabilidades da segurança global é sob o nosso risco”. As altas patentes militares advertem contra o corte de qualquer dos milhares de milhões de ajuda a Israel e ao Egito, dois dos funcionários da sua “política” para o Médio Oriente.

Mas o que são as “nossas” responsabilidades globais de segurança? De onde vieram? Por que a América ficaria em perigo se cessasse de bombardear e invadir outros países e de interferir nos seus assuntos internos? Os riscos que a América enfrenta são criados por ela própria.

A resposta a esta pergunta costumava ser que do contrário seríamos assassinados nas nossas camas pela “conspiração comunista mundial”. Hoje a resposta é que seremos assassinados nos nossos aviões, estações de comboios e centros comerciais por “terroristas muçulmanos” e por uma recém criada ameaça imaginária – “extremistas internos”, isto é, manifestantes contra a guerra e ambientalistas.

O complexo militar/securitário dos EUA é capaz de criar qualquer número de invencionices (false flag) a fim de fazer com que estas ameaças pareçam reais para um público cuja inteligência é limitada à TV, experiências em centros comerciais e jogos de futebol.

Assim, os americanos estão fincados em enormes déficits orçamentários que a Reserva Federal deve financiar imprimindo dinheiro novo, dinheiro que mais cedo ou mais tarde destruirá o poder de compra do dólar e o seu papel como divisa de reserva mundial. Quando o dólar se for, o poder americano também irá.

Para as oligarquias dominantes, a questão é: como salvar o seu poder.

A sua resposta é: fazer o povo pagar.

E isso é o que o seu mais recente fantoche, o presidente Obama, está a fazer.

Com os EUA na pior recessão desde a Grande Depressão, uma grande recessão que John Williams e Gerald Celente, assim como eu próprio, afirmaram estar a aprofundar-se, o “orçamento Obama” tem como objetivo programas de apoio para os pobres e os desempregados. As elites americanas estão se transformando em idiotas quando procuram replicar na América as condições que levaram às quedas de elites analogamente corruptas na Tunísia e no Egito e a desafios crescentes aos demais governos fantoches.

Tudo o que precisamos é de uns poucos milhões mais de americanos sem nada a perder a fim de trazer as perturbações no Médio Oriente para dentro da América.

Com os militares estadunidenses atolados em guerras lá fora, uma revolução americana teria ótima oportunidade de êxito.

Políticos americanos têm de financiar Israel pois o dinheiro retorna em contribuições de campanha.

O governo dos EUA deve financiar os militares egípcios para haver alguma esperança de transformar o próximo governo egípcio em outro fantoche americano que servirá Israel pelo bloqueio contínuo dos palestinos arrebanhados no gueto de Gaza.

Estes objetivos são, de longe, mais importantes para a elite americana do que o Pell Grants que permite a americanos pobres obterem educação, ou água limpa, ou block grants comunitários, ou o programa de assistência em energia aos baixos rendimentos (cortado na mesma quantia em que os contribuintes americanos são forçados a dar a Israel).

Também há US$7.7 bolhões de cortes no Medicaid e outros programas de saúde ao longo dos próximos cinco anos.

Dada a magnitude do déficit orçamentário dos EUA, estas somas são uma ninharia. Os cortes não terão qualquer efeito sobre as necessidades de financiamento do Tesouro. Eles não interromperão a necessidade de imprimir dinheiro do Federal Reserve a fim de manter o governo dos EUA em operação.

Estes cortes servem apenas uma finalidade: reforçar o mito do Partido Republicano de que a América está em perturbação econômica por causa dos pobres. Os pobres são preguiçosos. Eles não querem trabalhar. A única razão porque o desemprego é alto é que os pobres preferem confiar no estado previdência.

Um novo acréscimo ao mito do estado previdência é que membros da classe média saídos recentemente de faculdades não querem os empregos que lhes são oferecidos porque os seus pais têm demasiado dinheiro e os rapazes gostam de viver em casa sem terem de fazer nada. Uma geração mimada, eles saem da universidade recusando qualquer emprego que não seja para começar como executivo principal de uma companhia da Fortune 500. A razão porque licenciados em engenharia não conseguem entrevistas de emprego é que não os querem.

Tudo isto leva a um assalto aos “direitos adquiridos”, o que significa Segurança Social e Medicare. As elites programaram, através do seu controle dos media, uma grande parte da população, especialmente os que se consideram conservadores, a assimilar o conceito de “direitos adquiridos” ao de estado-previdência. A América está indo para o inferno, não por causa de guerras externas que não servem qualquer objetivo americano, mas porque o povo, que durante toda a sua vida pagou 15% das suas remunerações para pensões de velhice e cuidados médicos, quer “dádivas” nos seus anos de aposentadoria. Por que estas pessoas egocêntricas pensam que trabalhadores americanos deveriam ser forçados através de contribuições sobre remunerações a pagar as pensões e cuidados médicos dos afastados do trabalho? Porque os afastados não consomem menos e preparam a sua própria aposentadoria?

A linha da elite, e a dos seus porta-vozes contratados em “think tanks” e universidades, é de que a América está perturbada devido aos aposentados.

Demasiados americanos tiveram os seus cérebros lavados a fim de acreditar que a América está em perturbação por causa dos seus pobres e aposentados. A América não está perturbada porque coage um número decrescente de contribuintes a suportarem os enormes lucros do complexo militar/securitário, governos fantoche americanos lá fora e Israel.

A solução da elite americana para os problemas da América não é simplesmente arrestar as casas dos americanos cujos empregos foram exportados, mas aumentar o número de americanos aflitos com nada a perder, de doentes, afastados do trabalho e privados de tudo e de licenciados das universidades que não podem encontrar os empregos que foram enviados para a China e a Índia.

De todos os países do mundo, nenhum necessita uma revolução tão urgentemente quanto os Estados Unidos, um país dominado por um punhado de oligarcas egoístas que têm mais rendimento e riqueza do que pode ser gasto durante toda uma vida.


[*] Ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro dos EUA.   Seu livro mais recente, HOW THE ECONOMY WAS LOST , acaba de ser publicado pela CounterPunch/AK Press.  

O original encontra-se em:A Tool for Class War
Este artigo encontra-se em: Resistir
Enviado por Beatrice (AMelo)