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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Pepe Escobar - “Snowden: rumo a algum desenlace”

9/7/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O título de trabalho do filme Edward Snowden ainda é: O espião que Continua no Frio. Eis onde estamos:

  • Snowden só conseguiu sair de Hong Kong, porque a China permitiu.
  • Snowden só conseguiu chegar a Moscou, porque a Rússia sabia da viagem – em cooperação com a China. É parte da relação estratégica entre os dois países, que inclui os BRICS (com Brasil, Índia e África do Sul), e a Organização de Cooperação de Xangai [orig. hanghai Cooperation Organization]. Nenhuma fonte oficial jamais confirmará.
  • Com a oferta de asilo feita pelos latino-americanos (Venezuela, Bolívia, Nicarágua; até o Uruguai consideraria a possibilidade), nos aproximamos do momento da decisão: Moscou agora avalia se – e como – ajudar Snowden a alcançar sua destinação final e, ao mesmo tempo, extrair de Washington o máximo de capital político.

O Equador ofereceu asilo político a Snowden
Nesse roteiro, entra em cena, trovejante, o subenredo do golpe-que-não-é-golpe no Egito. Haverá erguer de sobrancelhas dos mais cínicos: bem no momento em que o governo Barack Obama começava a pirar por causa do escândalo de espionagem pela Agência de Segurança Nacional, explode no Egito uma revo-golpe-lução.

Continuam a surgir novas revelações sobre a extensão do Panopticon Orwelliano NSA-Cêntrico, mas estão sendo totalmente degradadas pela imprensa-empresa norte-americana; só se fala de Egito. Afinal, o Pentágono – ao qual a Agência de Segurança Nacional é ligada – é proprietário dos militares egípcios, coisa que até o New York Times teve de reconhecer. [1]

Mas ainda não pegaram Snowden. A coisa nada tem a ver com “teror” [*].

Simultaneamente, o gambito tentado pela inteligência dos EUA, de interceptar um avião presidencial de estado não inimigo, saiu-lhe espetacularmente pela culatra, em evento típico de “Spy vs Spy”, da revista Mad. [2] Obama disse que não poria jatos “na correria”, para apanhar Snowden; claro que não; só para forçar aviões presidenciais a pousos de emergência.

William Eacho
O jornal austríaco Die Presse revelou que o embaixador dos EUA na Áustria, William Eacho, foi o responsável por espalhar a informação (falsa) de que Snowden estaria a bordo do Falcon da presidência da Bolívia no qual viajava o presidente Evo Morales, saindo da Rússia – informação (falsa) que levou França, Espanha, Portugal e Itália a negar o direito de sobrevoo. [3] E acho – ex-presidente de uma empresa de distribuição de alimentos, sem qualquer experiência diplomática – foi nomeado por Obama para Viena, em junho de 2009. Por quê? Porque levantou muito dinheiro para a campanha de Obama.

E acho que pouco fez a favor dos que insistem que a Agência Nacional de Segurança dos EUA precisa mesmo “analisar” todos os telefonemas, e-mails e tuítes do planeta inteiro. Se não o fizerem, onde encontrarão tais pérolas de inteligência, como detectar a presença de Snowden no avião de Evo?! Quanto à insuperável incompetência acumulada da inteligência das agências europeias, não se discute. Contudo, sempre foram muitíssimo competentes, na logística das incontáveis operações de “entrega extraordinária” da CIA, nos muitos voos em que levavam prisioneiros para interrogatório em “outros países”, nos anos Bush. Não há notícia de avião forçado a “aterrar” – naqueles dias.

Tom Engelhardt
Os vazamentos de Snowden – de PRISM a TEMPORA – mostraram definitivamente que a acumulação de petabytes de dados de praticamente todos no mundo nos arquivos da Agência de Segurança Nacional dos EUA já é rotina e regra. O governo Obama insiste que isso seria essencial para sua nova (requentada) Global War on Terror (GWOT) [Guerra Global ao Terror], que Tom Engelhardt já disse, para a memória dos tempos, que é, de fato, Global War on You (GWOY) [Guerra Global a Você]. [4]

Já escrevi que a ciberguerra de sombras da Agência de Segurança Nacional nada tinha a ver com “teror” [*] – mas com construir um mapa de alvos pelo mundo, para cenários futuros de ciberguerra, do qual qualquer país possa ser facilmente varrido da superfície do mapa (digital).

Todos sabem que a Agência de Segurança Nacional dos EUA está tomada pelo programa Echelon. [5] EUA e Reino Unido consolidaram sua espionagem “secreta” em torno de Echelon. O que Snowden detalhou é que o Reino Unido também “intercepta” cabos de fibras óticas. E que a Alemanha também está na cama com a Agência de Segurança Nacional dos EUA.  [6] E que o Brasil também está sendo espionado até o osso.  [7] De fato, no mapa “Informante sem Fronteiras”,  [8] o Brasil é alvo muito maior que a Rússia, embora os dois sejam ínfimos, se comparados à China, alvo principal.

NSA - panoptcon orweliano
As reações tiveram o mérito de retratar, graficamente, como cada nação está em relação ao Panopticon Leviatã/Orwelliano dos EUA. A Europa Ocidental é um descampado de poodles – incluídos supostos rottweilers, como o Reino Unido e a Suécia. A América Latina exibe crescente solidariedade interna (exceto estados-clientes como Colômbia e Chile). Não surpreende que o Wall Street Journal já esteja rilhando os dentes, sonhando com a volta das ditaduras militares na América Latina; sim, já conseguiram uma, mas é no Egito.

De volta ao mundo real...

Enquanto Washington espiona, funcionários da segurança dos países BRICS, reunidos em Vladivostok esse mês, decidiram expandir sua cooperação em cibersegurança; afinal, todos eles percebem que os EUA é a maior ameaça comum. Já estão colaborando na instalação de um cabo BRICS de fibra ótica, de US$1,5 bilhão, que ligará os cinco a 21 países africanos e que começará a operar em 2015.

Enquanto Washington espiona, os países BRICS fazem negócios. Rússia e China estão ampliando o comércio bilateral. A China está recebendo a maior parte do óleo exportado pelo Iraque e vai firmando sua parceria estratégica com o Irã. Mais para dentro do Oleogasodutostão, no Afeganistão, os EUA podem esquecer, de vez, o oleogasoduto TAPI – do Turcomenistão à Índia, via Afeganistão e Paquistão – (a menos que os Talibã recebam fatia gorda).

Por outro lado, o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, antes de uma visita à China, anunciou que “o corredor econômico que parte de Kashgar [na província chinesa de Xinjiang] e vai até Gwadar [no sudoeste do Paquistão] mudará o jogo”.

E é dizer ainda pouco. Esse corredor econômico, que corre paralelo à rodovia Karakoram, fará germinar e crescer uma série de zonas econômicas especiais, cabos de fibra ótica, uma ferrovia e – claro! – um oleogasoduto. Assim se prova que o oleogasoduto Irã-Paquistão (IP), que os governos Bush e Obama combateram com unhas e dentes, ganhará uma extensão até a China, converter-se-á em IPC e dará aos chineses mais um acesso ao Oceano Índico. Engulam essa, “pivoteantes” para a Ásia.

Vladimir Putin
O hoje famoso tuíte de Alexei Pushkov, presidente da Comissão de Assuntos Estrangeiros da Duma e muito próximo do presidente Vladimir Putin, sobre a oferta de asilo feita pela Venezuela ser a “última chance” de Snowden, foi mal interpretado. Em vez de ser tomado como mostra de exasperação entre os russos, deve ser visto como sinal de trepidante excitação. Caracas, sim, recebeu o pedido de extradição, de Washington. O presidente da Venezuela Nicolas Maduro já disse que o pedido já foi rejeitado. E Caracas também recebeu um pedido de asilo, de Snowden. [9]

Maduro foi claro; Snowden “terá de decidir quando voará para cá”. Se o filme virará Nosso Homem em Caracas cabe a Moscou fazê-lo acontecer. Snowden não pode voar por Havana, sobrevoando espaço aéreo europeu e muito próximo do espaço aéreo dos EUA. Obama pode mandar jatos “na correria”, claro.

A declaração anterior de Putin, quando ofereceu asilo a Snowden sob a condição de que parasse de vazar informações teve o claro objetivo de acalmar um enfurecido governo Obama. Mas Putin estará preparado para autorizar que Snowden seja contrabandeado para a América do Sul num bombardeiro estratégico russo (ou, melhor ainda, num submarino nuclear)? E nem assim há garantias de que Nosso Homem em Caracas não seja detonado, mais cedo ou mais tarde, por matador terceirizado da CIA. A bola está no campo da Rússia.


Notas de rodapé

[*] Orig. tera. É como Bush pronunciava a palavra terror [NTs].

[1] 3/7/2013, The New York Times, em: “Military Reasserts Its Allegiance to Its Privileges”.

[2] A Internet está cheia de boas imagens de Spy vs Spy, da Mad. Por exemplo esta aqui. [NTs].

[3]  4/7/2013, Russia Today em: “God bless the United Stasi of America”.

[4]  2/7/2013, TomDispatch em: “The Dictionary of the Global War on You (GWOY)”


[6]  7/7/2013, redecastorphoto em: “Edward Snowden fala sobre a NSA e suas “ajudantes/cúmplices” (traduzido de Der Spiegel Online International).

[7]  7/7/2013, The Guardian, Glenn Greenwald em: “The NSA’s mass and indiscriminate spying on Brazilians”

[8]  Orig. Boundless Informant.  

[9]  8/7/2013, Russia Today em: “Venezuela confirms receipt of Snowden asylum request”.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Pepe Escobar: O governo da “Blackwater Digital”

11/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
A avaliação de Daniel “Documentos do Pentágono” Ellsberg é definitivo: “Nunca houve, na história dos EUA, vazamento mais importante que a divulgação do material da Agência de Segurança Nacional, feita por Edward Snowden. Em entrevista de 12 minutos, publicada peloThe Guardian, Snowden detalha seus motivos. 

Agora, tudo que gira em torno da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) aponta para uma caixa negra num buraco negro. A caixa negra é o próprio quartel-general da Agência, em Fort Meade, Maryland. O buraco negro é uma área que inclui os subúrbios do condado de Fairfax, na Virginia, próximo da CIA, mas, principalmente, o cruzamento da Baltimore Parkway e da estrada Maryland Route 32.

Daniel Ellsberg
Ali se encontra um conjunto de prédios comerciais, a menos de dois quilômetros de distância da Agência Nacional de Segurança, área da qual Michael Hayden, ex-diretor da Agência (1999-2005) disse a Tim Shorrock, da revista Salon que “é a maior concentração de ciberpoder do planeta”. Hayden chamou-a de “Blackwater Digital”.
O blog Pro-Publica apresenta lista decente de cinco perguntas chaves  ainda não respondidas sobre o buraco negro. Mas no que tenha a ver com como é possível que um especialista em TI, de 29 anos, com pouca escolarização formal, tenha tido acesso a quantidade extraordinária de segredos ultrassensíveis do complexo de segurança-inteligência nacional dos EUA, a resposta é simples: aconteceu como efeito direto da orgia de privatização da espionagem – sobre a qual muitos falam, sempre mediante eufemismos do tipo “responsabilidade do fornecedor”. Verdade é que toda a operação de praticamente todo o maquinário (hardware) e de todos os programas (software) com os quais opera a gigantesca rede de 16 agências de segurança dos EUA foi privatizada.

Investigação feita pelo Washington Post descobriu que as agências norte-americanas de segurança interna, de contraterrorismo e de espionagem negociam com mais de 1.900 empresas privadas. Consequência óbvia desse tsunami de fornecedores privados – hordas de proletários high-tech “do conhecimento” em cubículos-tocas – é o acesso indiscriminado a peças ultrassensíveis do aparato de segurança. Um administrador de sistemas como Snowden tem acesso a praticamente tudo.

Edward Snowden
A “porta giratória” nem remotamente basta para explicar todo o problema. Snowden foi um dos 25 mil empregados da empresa Booz Allen Hamilton (“Somos visionários”), nos últimos três meses. Mais de 70% desses empregados, segundo a empresa, têm passe livre para questões de segurança, fornecido pelo governo; 49% têm acesso aos “top secrets” (como no caso de Snowden) e acesso ainda superior. O ex-diretor da Inteligência Nacional, Mike McConnell, é um dos atuais vice-presidentes da Booz Allen. O novo diretor da inteligência nacional, general aposentado, de ar sinistro, James Clapper, foi executivo da mesma Booz Allen.

Pelo menos, a opinião pública nos EUA – e em todo o mundo – pode agora começar a entender como acontece que uma menina pashtun, no Waziristão, seja assassinada num “ataque predefinido”. Tudo é efeito dos metadados obtidos pela Agência de Segurança Nacional privatizada dos EUA, multiplicados num esquema Matrix, que leva a uma “assinatura”, que é sinônimo de “ataque predefinido”. A menina pashtun, “terrorista” naturalmente, pode vir a metamorfosear-se em perigosíssima abraçadora de árvores ou manifestante do tipo que ocupa ruas e parques.

É tudo culpa da China

Como sempre acontece, no instante em que Snowden revelou a própria identidade, a empresa-imprensa nos EUA passou a atirar diretamente na cabeça do mensageiro, sem dar atenção à mensagem. Esse “jornalismo” foi, da mais reles tentativa de assassinato de reputação, ao ex-agente da CIA que diz que muitos suspeitam que Snowden seja agente de possível golpe da espionagem chinesa.  
Também muito se discutiu o movimento à John Le Carré, com Snowden abandonando a boa vida no Havaí e voando para Hong Kong dia 20 de maio, porque “têm profundo envolvimento com a liberdade de expressão e o direito à divergência política”. O blogueiro Wen Yunchao, que trabalha em Hong Kong, escreveu, para a posteridade, que Snowden teria “saído da toca do tigre e entrado no buraco do lobo”. Seja como for, o visto de entrada carimbado no passaporte de Snowden no aeroporto Chek Lap Kok vale por 90 dias – tempo mais do que suficiente para pensar sobre o passo seguinte.

Deng Xiaoping
Desde 1996, antes de os britânicos devolverem a cidade à China, há um tratado de extradição vigente entre o tigre e o lobo. O Departamento de Justiça dos EUA já analisa as opções disponíveis. É importante lembrar que o sistema judicial de Hong Kong é independente da China – conforme a concepção formalizada por Deng Xiaoping, de “um país, dois sistemas”. Assim como Washington pode tentar a extradição de Snowden, ele pode, por sua vez, pedir asilo político. Nos dois casos, poderá permanecer por meses, talvez anos, em Hong Kong.

O governo de Hong Kong não pode extraditar ninguém que se declare perseguido em seu país de origem. E, muito importante: o artigo 6º do Tratado determina que “nenhum fugitivo será entregue, se a ofensa de que a pessoa é acusada ou pela qual foi condenada é ofensa de caráter político”. Outra cláusula determina que nenhum fugitivo será entregue, se isso tiver consequências sobre “a defesa, as relações internacionais ou interesse público ou política pública essencial para – adivinhem! – a República Popular da China”.

Assim sendo, é possível que aí esteja um caso em que Hong Kong e Pequim terão de chegar a algum acordo. E mesmo que decidam extraditar Snowden, ainda assim ele poderá argumentar, em sua defesa, no tribunal, que se tratou de “crime político”. Em resumo – é possível que o caso se arraste por anos a fio. E é muito cedo para saber como Pequim agirá, para extrair da história o máximo de proveito. Situação de “ganha-ganha”, do ponto de vista chinês, seria equilibrar seu compromisso com a absoluta não interferência em assuntos domésticos de outros países, com o desejo chinês de sacudir o bote das frágeis relações bilaterais, sempre considerando o movimento de ‘anti-pivoteamento’ que o governo dos EUA ofereça em troca.

O mais consumado Panopticon

Panopticon
A direita furiosa de sempre, nos EUA, como era de esperar, desconsiderou o gato de que Snowden não vê os analistas de inteligência – nem, sequer, o próprio governo dos EUA, per se – como gente “inerentemente do mal”. Mas chama a atenção para o fato de que todos eles trabalham sob uma falsa premissa: “se um programa de vigilância produz informação valiosa, o valor da informação legitimaria o programa. Num só passo, demos jeito de justificar a operação do Panopticon”.

Ah, sim, que ninguém se engane! Snowden leu atentamente seu Michel Foucault (também falou de sua repugnância ante “as capacidades desse tipo de arquitetura da opressão”).

Michel Foucault
O trabalho de Foucault, que desconstruiu a arquitetura do Panopticon, já é clássico. O Panopticon foi o sistema de vigilância levado ao ponto máximo, projetado pelo filósofo do utilitarismo, Jeremy Bentham, no século 18. O Panopticon – uma torre cercada de celas, exemplo pré-Orwell de “arquitetura da opressão” – foi concebido originalmente, não para vigiar uma prisão, mas para vigiar uma fábrica cheia de camponeses sem terra em situação de trabalho forçado.

Oh, mas esses foram os passados dias dos protocapitalistas rudimentares. Bem-vindos ao futuro (de privatização selvagem)! Ali, os senhores do buraco negro da Agência de Segurança Nacional, a “Blackwater Digital”, tudo comandam, desse seu mais consumado Panopticon de última geração.




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