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sexta-feira, 11 de julho de 2014

América Latina não quer viver no “mundo-quartel” dos EUA


Putin na América Latina

8/7/2014, [*] Nil Nikandrov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Espantando fantasmas da América Latina
A América Latina ouviu com muita atenção o discurso do presidente Putin na Reunião com Embaixadores e Representantes Permanentes da Federação Russa, dia 1º de julho, no Kremlin. O interesse aumentou, depois que se divulgaram, dia 4/7/2014, os planos do presidente russo Vladimir Putin, que visitará Cuba, Argentina e Brasil, em meados do mesmo mês de julho.

O presidente Putin visitará a América Latina e participará de uma reunião do grupo dos países BRICS, as cinco principais potências emergentes do mundo – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, dias 11-16/7/2014.

Durante o encontro dos países BRICS, Putin tem reuniões marcadas com líderes da China, Índia e África do Sul, além de vários outros governantes latino-americanos – como informou o Kremlin.

A VIª reunião de cúpula dos BRICS acontecerá em Fortaleza, nordeste do Brasil, dia 15/7/2014. A convite da Rússia, a Argentina também participará dos trabalhos. Na reunião, os países BRICS discutirão a possível admissão da Argentina como sexto país-membro.

Proteger os interesses nacionais da Rússia e reforçar as bases e princípios das relações internacionais – essas são as metas prioritárias que o presidente Putin fixou para o Ministério de Relações Exteriores da Rússia e todas as missões diplomáticas russas em todo o mundo.

Putin conclamou o ocidente (a começar pelos EUA) a parar de tentar converter o planeta num “mundo-quartel”, ditando normas aos demais países.

Tenho esperanças de que o pragmatismo acabará por prevalecer. Temos de nos livrar de ambições. Pôr fim às tentativas para criar um mundo-quartel, todos em fila, regidos por “ordem-unida”, vivendo sob regras únicas de comportamento e de vida. Temos de começar, finalmente, a construir relações baseadas na igualdade, no respeito mútuo e na atenção aos interesses comuns. É tempo de todos admitirmos o direito do outro, de ser diferente; o direito de todos os países de viver a vida como escolham, sem ter de obedecer ao que outros lhes digam que façam ou deixem de fazer – disse Putin.

“Mundo-quartel” (Global Barracks)
As guerras sangrentas insufladas pelo Departamento de Estado dos EUA, pelo Pentágono, pelos serviços secretos norte-americanos na região de fronteiras da Rússia – do Afeganistão à Ucrânia – não pode deixar indiferentes os governantes racionais da América Latina.

Se se examina o noticiário de periódicos sérios como Punto Final (Chile), La Jornada (México), Granma (Cuba) e inúmeros outros – tudo se resume a um único ponto: toda a fúria dos EUA está dirigida hoje contra a Rússia e a China, países capazes de responder a qualquer ação agressiva dos norte-americanos. Obama precisa recompor a imagem de “durão”, agora que sua popularidade alcança picos negativos recordes. Então, os EUA estão à procura de uma presa – qualquer regime hostil a ser provocado.

Obama não se atreverá a iniciar operação punitiva em regiões muito distantes, nesse momento em que a economia dos EUA está em ruínas. Portanto, procurará alguém mais próximo, ao sul do Rio Grande, no antigo quintal do ex-império norte-americano.

E quem Washington escolherá como “caso exemplar” demonstrativo dessa “neutralização de regime” pouco amigável? Esse item aparece com prioridade nas principais listas de discussões políticas na América Latina.

Muito se têm discutido as ações em que os EUA estão trabalhando, ações subversivas, especialmente contra governos “populistas”, servindo-se de avançados meios e armas da guerra de informação. Na América Latina há muitos alvos: Cuba, Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia, Argentina e até o Brasil, que está longe de adotar políticas populistas, mas mantém-se firme numa linha de política externa que visa a proteger interesses nacionais. As nações do Caribe que mantêm laços com Cuba e Venezuela e participam do Projeto Petrocaribe podem também enfrentar a fúria do ex-império.

Petrocaribe é uma aliança em torno do petróleo constituída de vários estados caribenhos com a Venezuela, que lhes vende petróleo em condições especiais de pagamento. Essa aliança foi lançada em 2005. Foi o período durante o qual Washington iniciou a luta contra regimes “concorrentes”, período durante o qual usou métodos “soft” de desestabilização: agravou crises econômicas, induziu e alimentou movimentos de protesto com a ajuda de organizações não governamentais (ONGs) articuladas por agentes da CIA ou funcionários da USAID; em quase todos os casos, usa-se falsa informação, ou informação duvidosa, quase sempre acusações de corrupção, lançadas contra figuras chaves da política local, para fazer crescer as tensões. Trabalham incansavelmente para desacreditar líderes campeões de votos. Qualquer informação serve, se bem divulgada e “repercutida” pela imprensa-empresa; como informações sobre contas bancárias privadas. Disseram que Fidel Castro teria 40 bilhões de dólares [precisamente 40 bilhões de dólares] numa conta privada em seu nome; e também houve inúmeras “notícias” sobre contas bancárias bilionárias em nome de Hugo Chávez e Daniel Ortega. Nenhuma prova jamais apareceu.

Rafael Correa venceu o golpe de outubro/2010
Quando a desestabilização alcança determinado nível, os serviços especiais dos EUA entram em ação, para “esquentar” os tumultos. No Equador, policiais comandados pelos serviços secretos dos EUA e trabalhando como serviço consular ou diplomático na Embaixada dos EUA, urdiram um golpe armado e atacaram o presidente. Na Bolívia, diplomatas norte-americanos comandavam grupo terrorista, de mercenários, constituído pela CIA na Europa. A ação decisiva de agentes das forças especiais bolivianas conseguiu desbaratar parte dessa formação terrorista, com alguns dos rebeldes já presos. E os EUA continuam ativos na Bolívia, como na Venezuela, onde os serviços secretos dos EUA geraram subversão econômica, criando desabastecimento de alguns itens vitais, em conluio com empresários locais; encenaram protestos de rua, bloqueios de estradas, prédios públicos foram incendiados e houve outros atos terroristas.

No Brasil, a agência USAID patrocina organizações não governamentais que lançaram campanha de protesto contra a Copa do Mundo da FIFA realizada no país, usando o evento como “cenário” para expor críticas contra a “política social falha” da presidenta Dilma Rousseff. O golpe fracassou, a Copa está sendo realizada com grande sucesso e a presidenta Dilma Rousseff aparece como favorita nas pesquisas de tendências de voto. Nenhum presidente jamais implementou programas e políticas sociais de tão amplo alcance e com tal sucesso, antes, no Brasil, que o ex-presidente Ignácio Lula da Silva; e, depois, sua sucessora e atual presidenta Dilma Rousseff.

A abordagem confrontacional de Washington para os problemas internacionais criam um fator negativo permanente em todo o sistema de relacionamento internacional na América Latina. Falando aos embaixadores, o presidente russo deu definição precisa da razão que espreita por trás da política dos EUA para a América Latina:

Gostaria de começar dizendo que nosso Ministério de Relações Exteriores e nossas embaixadas estão sob muita pressão; vê-se, sabe-se que estão, mas essa pressão não diminuirá. Só aumentará, assim como a exigência de que mostremos eficiência, precisão e flexibilidade em nossas ações, para preservar interesses nacionais da Rússia. Vocês sabem o quanto os desenvolvimentos internacionais podem ser dinâmicos e imprevisíveis. Parecem ser empurrados ao mesmo tempo e, infelizmente, nem todos são desenvolvimentos de caráter positivo. O potencial para conflitos está crescendo no mundo, velhas contradições vão-se tornando sempre mais agudas e novas vão sendo provocadas. Deparamo-nos com esses desenvolvimentos, às vezes sem esperar por eles, e observamos com lástima que a lei internacional não está funcionando, as normas mais básicas de decência são desrespeitadas e a mais irrestrita permissividade vai ganhando predominância.

Vladimir Putin fala aos Embaixadores (1/7/2014)
Os EUA estão lutando claramente para preservar o sistema mundial de modelo unipolar, o mesmo que já fracassou. A política de aferrar-se aos modos velhos de fazer as coisas tem implicações globais.

A infraestrutura das bases militares de EUA e OTAN é criada para ações de ataque; os planos para ataques nucleares contra Rússia e China nunca saem “de cima da mesa”. Especialistas do Pentágono vivem a avaliar cinicamente os parâmetros de dano aceitável para o caso de segundo ataque, de retaliação, contra os EUA. Na teoria, há perdas aceitáveis; os especialistas do Pentágono não se envergonham de “conceder” milhões de vidas de norte-americanos. Esses cálculos, de gente sedenta de sangue, fazem empalidecer o horror produzido em Hollywood.

O presidente Putin disse que:

Não cabe dúvida alguma de que a ordem do mundo unipolar não se realizou. Povos e países erguem a voz a favor da autodeterminação e da identidade civilizacional e cultural, o que conflita com as tentativas de alguns países para manter sua dominação sobre a esfera militar, na política, nas finanças, na economia e na ideologia.

É chegada a hora de reconhecer o direito de ser diferente e de determinar o próprio destino com independência. Mas alguns países latino-americanos ainda têm de obedecer ao que Washington lhes ordene. Colômbia, Honduras, Guatemala, Paraguai e alguns outros, ainda vivem como quartéis dos EUA. As instalações militares em território desses países são usadas pelo Pentágono para chantagear regimes inamistosos e incendiar conflitos militares locais.

O presidente Putin disse que a Rússia está pronta para desenvolver relações com todos os parceiros. Enfatizou a rica experiência de relações políticas e humanitárias entre Rússia e América Latina, o enorme potencial dos mercados latino-americanos emergentes. Por exemplo, em Havana o presidente Putin e Raul Castro, presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, discutirão comércio, economia, energia, aviação civil e transporte, atenção pública à saúde e uso pacífico do espaço sideral. A agenda do presidente Putin inclui reunião com o líder histórico da revolução cubana, Fidel Castro. É encontro de grande significado simbólico. Antes da visita, o Parlamento Russo (Duma) tomou a decisão de cancelar 90% da dívida de mais de US$ 30 bilhões que Cuba deve à Rússia. A dívida correspondia, predominantemente, a gastos para suprir necessidades militares. A eliminação da dívida e o processo de liberalização da economia cubana pavimentam a via para efetiva cooperação econômica entre os dois países. As empresas russas Rosneft e Zarubezhneft já assinaram acordos com Cuba para desenvolver campos submarinos de petróleo cubano junto ao litoral – vale dizer, na vizinhança próxima da costa dos EUA.

Cuba - Porto de Mariel - Localização
(clique na imagem para aumentar)
Os planos para recuperar o Porto de Mariel preveem perfuração e construção de oleodutos. A imprensa cubana já noticiou que o futuro Porto de Mariel está previsto para largura de 700 metros, o que permitirá receber simultaneamente dois navios oceânicos grandes. Os planos até 2022 incluem instalações para exploração e extração de petróleo em alto mar, novos terminais para contêineres, carga em geral, instalações para armazenamento e manuseio de cargas congeladas e uma Zona Especial de Desenvolvimento Econômico para armazenamento de cargas leves. O novo Porto de Mariel poderá receber navios de maior calado que a Baía de Havana, onde um túnel sob o canal limita a profundidade a 11 metros. O terminal de contêineres de Mariel terá capacidade anual de 850 mil/1 milhão de contêineres (o de Havana tem capacidade para 350 mil). Esses desenvolvimentos permitirão que o Porto de Mariel acomode os grandes navios-contêineres que transitarão para a Ásia pelo Canal do Panamá, quando o alargamento desse canal estiver completado, no verão de 2014.

O presidente Putin da Rússia também discutirá projetos econômicos de grande escala na Argentina e no Brasil. Trata-se, em todos os casos, de mostrar que há alternativa ao sistema de “mundo-quartel” imposto por Washington.



[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascarar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Médicos Cubanos: Avança a integração da América Latina

25/8/2013, Beto Almeida, Diretor da Telesur,
Patria Latina – Papo do Dia
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


O que brilha com luz própria, ninguém pode apagar
Seu brilho pode alcançar a escuridão de outras costas
Que pagará este pesar do tempo que se perdeu
Das vidas que nos custou e das que nos podem custar
O pagará a unidade dos povos em questão
E a quem negar esta razão, a história condenará
Canción por La Unidad Latinoamericana
por Pablo Milanés


Não faltaram emoção, lágrimas e dignidade na chegada dos 176 médicos cubanos, que desembarcaram neste sábado à noite em Brasília, para um trabalho indispensável em municípios brasileiros, mais de 700, ainda sem qualquer assistência médica.

Chegada do 1º grupo de médicos estrangeiros ao Brasil em 2013
Quando aqueles cidadãos cubanos, muitos deles negros, muitas mulheres, com bandeirolas brasileiras e cubanas nas mãos, pisaram o solo brasileiro, ali estava o retrato do enorme progresso social, educacional e sanitário alcançado pela Revolução Cubana. Mas, também, uma prova concreta de que a integração da América Latina está avançando; não é só comércio, é também saúde.

O Brasil coopera com Cuba na construção do Complexo Portuário de Mariel - sua mais importante obra de infraestrutura atualmente - e Cuba coopera com o Brasil preenchendo uma lacuna imensa: a falta de médicos.

Complexo portuário de Mariel em Cuba - Vista Aérea
A campanha conservadora contra a integração latino-americana sofrerá um revés tremendo quando o programa Mais Médicos, começar a apresentar seus efeitos concretos. Esses resultados terão a força para revelar o teor medieval das críticas feitas pelas representações médicas e pela mídia teleguiada pela publicidade da indústria farmacêutica.

Volumosa desinformação

Tendo em vista o volume de desinformação que circulou contra a vinda de médicos estrangeiros, mas contra os médicos cubanos em especial, é obrigatório travar a batalha das ideias, primeiramente, em defesa da Revolução Cubana como uma conquista de toda a humanidade.

Cercada, sabotada, agredida, a Revolução Cubana, que antes de 1959, possuía os mais tenebrosos indicadores sociais, analfabetismo massivo, mortalidade infantil indecente, desemprego e atraso social generalizado, consegue libertar-se da condição de colônia, e, mesmo sem ter uma base industrial como a brasileira, por exemplo, e passa a exportar médicos, professores, vacinas, desportistas. Exporta, principalmente, exemplos!

Esse salto histórico da Revolução Cubana deixa desconcertada a crítica, seja a emanada pela mídia colonizada pelas lucrativas transnacionais fabricantes de fármacos ou equipamentos hospitalares, seja a crítica oligárquica difundida pelas representações médicas. Os que questionam a qualidade da formação profissional dos médicos cubanos são desafiados a responder por que a mortalidade infantil em Cuba é das mais baixas do mundo, sendo inferior, inclusive, àquela registrada no Estado de Washington, nos EUA?

Cuba e a libertação africana

Vale lembrar que Cuba possuía, antes de 1959, pouco mais de 6 mil médicos, dos quais, a metade deixou o país porque não queria perder privilégios, nem concordava com a socialização da saúde. Apenas cinco décadas depois, é esta mesma Cuba que tem capacidade de exportar milhares de médicos para socorrer o povo brasileiro de uma indigência grave construída por um sistema de saúde ainda determinado pelos poderosos interesses das indústrias hospitalar, farmacêutica e de equipamentos, privilegiando a noção de uma medicina como um negócio, uma atividade empresarial a mais, não como um direito, como determina nossa constituição.

Já em 1963, quando a Revolução na Argélia precisou, iniciou-se a prática de cubana de enviar brigadas médicas aos povos irmãos. Ensanguentada pela herança da dominação francesa, a Revolução Argelina encontrou em Cuba a fraternidade concreta, quando ainda não havia na Ilha um contingente médico tão numeroso como o existente atualmente. Predominou sempre na Revolução Cubana a ideia de que em matéria de solidariedade internacional comparte-se o que se tem, não o que lhe sobra. Foi exatamente ali na Argélia que se estabeleceram laços indestrutíveis entre a Revolução Cubana e os diversos movimentos de libertação da África. A partir daí, Cuba participou com brigadas militares e médicas em diversos processos de libertação nacional do continente. De tal sorte que, em 1966, a primeira campanha de vacinação contra a poliomielite realizada no Congo, foi organizada por médicos cubanos!

Os CRMs não sabem que a poliomielite foi erradicada em Cuba décadas antes de ser erradicada no Brasil?

Será o Revalida capaz de avaliar a dimensão libertadora da medicina cubana?

Quando Angola foi invadida por tropas do exército racista da África do Sul, baseado nas supremas leis do internacionalismo proletário, Agostinho Neto, presidente angolano, também médico e poeta, solicita a Fidel Castro ajuda militar para garantir a soberania da nação africana. Uma das mais monumentais obras de solidariedade foi realizada por Cuba que, ao todo, enviou a Angola, cerca de 400 mil homens e mulheres para, ao lado dos angolanos e namíbios, expulsar as tropas imperialistas sul-africanas tanto de Angola como da Namíbia. E sob a ameaça de uma bomba atômica, que Israel ofereceu à África do Sul, argumentando que as tropas cubanas tinham que ser dizimadas porque pretendiam chegar até Pretória...

Na heroica Batalha de Cuito Cuanavale - que todos os jornalistas, historiadores, militantes deveriam conhecer a fundo - lá estavam as tropas cubanas, mas lá estavam também as brigadas médicas de Cuba, que se espalharam por várias pontos de Angola. A vitória de Angola e da Namíbia contra a invasão da África do Sul, foi também a derrota do regime do apartheid. Citemos Mandela: “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid. Devemos o fim do apartheid a Cuba!”.

Qual exame Revalida será capaz de dimensionar adequadamente o desempenho de um médico cubano em Cuito Cuanavale, com sua maleta de instrumentos numa das mãos e na outra uma metralhadora, livrando a humanidade da crueldade do apartheid? Como dimensionar o bem que o fim do apartheid, com a decisiva participação cubana, proporcionou para a saúde social da História da Humanidade?

As crianças de Chernobyl em Cuba

O sentido de solidariedade internacionalista está tão plasmado na sociedade cubana que, quando aquele terrível acidente ocorreu na Usina Nuclear de Chernobyl, em 1986, o estado cubano recebeu, das organizações dos Pioneiros - que congregam crianças e adolescentes cubanos - a proposta de oferecer tratamento médico às crianças contaminadas pela radioatividade vazada no desastre.

Crianças vítimas de Chernibyl (Ucrânia) tratadas em Cuba
Um documentário realizado pelo extinto Programa Estação Ciência, dirigido pelo jornalista Hélio Doyle, exibido com frequência TV Cidade Livre de Brasília, registra como Cuba compartilhou seus recursos médicos e hospitalares, mas, sobretudo, sua fraterna solidariedade com cerca de 24 mil crianças russas que foram levadas para tratamento na Ilha, nas instalações dos Pioneiros, em Tarará.

Destaque-se, primeiramente, que a ideia partiu dos Pioneiros. Segundo, que Cuba não se colocava na condição de doadora, mas apenas cumprindo um dever solidário. Lembravam que o povo soviético havia sido solidário com Cuba quando os EUA iniciaram o bloqueio contra a Ilha cortando a cota de petróleo e do açúcar, suspendendo o comércio bilateral, na década de 60. A URSS passou a comprar todo o açúcar cubano, pelo dobro do preço do mercado internacional, e a abastecer Cuba de petróleo, pela metade do preço de mercado mundial. São páginas escritas, em outra lógica, solidária, fraterna, socialista. É de se imaginar o quanto os dirigentes das representações médicas brasileiras poderiam aprender com aquelas crianças cubanas que ofertaram tratamento às 3 mil crianças russas, um contingente menor que o de médicos cubanos que virão para o Brasil?

Impublicável

A cooperação entre Brasil e Cuba em matéria de saúde não está iniciando-se agora. Durante o governo Sarney, recém restabelecidas as relações bilaterais, em 1986, foram as vacinas cubanas contra a meningite que permitiram ao nosso país enfrentar aquele surto. Na época, a mídia teleguiada também fez uma sórdida campanha contra o governo Sarney, primeiro por reatar as relações, mas também por comprar grandes lotes da vacina desenvolvida pela avançada ciência de Cuba.

De modo venenoso, tentou-se desqualificar as vacinas, afirmando serem de qualidade duvidosa, tal como agora atacam a medicina cubana. Na época, foram as vacinas cubanas que permitiram controlar aquele surto e salvar vidas. Mas, também trouxeram, por meio do exemplo, a possibilidade de que aprendêssemos um pouco dos valores e das conquistas de uma revolução.

Afinal, por que um país com poucos recursos, com uma base industrial muito mais reduzida, conseguia não apenas elevar vertiginosamente o padrão de saúde de seu povo, mas, também desenvolver uma tecnologia com capacidade para produzir e exportar vacinas, enquanto o Brasil, com uma indústria muito mais expandida, capaz de produzir carros, navios e aviões, não tinha capacidade para defender seu próprio povo de um surto de meningite?

São sagradas as prioridades de uma revolução. E é por isso, que, ainda hoje, a sexta maior economia do mundo, se vê na obrigação de recorrer a Cuba para não permitir a continuidade de um crime social configurado na não prestação de atendimento médico a milhões de brasileiros.

Mais recentemente, quando a Organização Mundial da Saúde convocou a indústria farmacêutica internacional a produzir vacinas para combater um tenebroso surto de meningite que se espalhou pela África, obteve como resposta desta indústria o mais sonoro e insensível NÃO.

Cinturão da meningite que atingiu a África debelada pelo fornecimento
de vacinas pela cooperação Brasil Cuba
Os preços que a OMS podia pagar pelas vacinas não eram, segundo as transnacionais farmacêuticas, apetitosos. Milhões de vidas africanas passaram correr risco, não fosse a cooperação entre dois laboratórios estatais, o Instituto Bio Manguinhos, brasileiro, e o Instituto Finley, cubano. Essa cooperação permitiu a produção, até o momento, de 19 milhões de doses da vacina que a África necessitava, a um preço 90% menor que o preço do mercado internacional.

Onde foi publicada esta informação? Apenas na Telesur e na imprensa cubana.  
A ditadura dos anúncios da indústria farmacêutica, que dita a linha editorial da mídia brasileira em relação ao programa Mais Médicos e à cooperação da Medicina de Cuba, simplesmente impediu que o grande público brasileiro tomasse conhecimento desta importantíssima cooperação estatal brasileiro-cubana.

Os médicos cubanos e o furacão Katrina

Para dimensionar a inqualificável onda de insultos que os médicos cubanos vêm recebendo aqui na mídia oligárquica, lembremos um fato também sonegado por esta mesma mídia, o que revela suas dificuldades monumentais para o exercício do jornalismo como missão pública.

Quando ocorre o trágico furacão Katrina, que devasta Nova Orleans, deixando uma população negra e pobre ao abandono, dada a incapacidade e o desinteresse do governo dos EUA naquela oportunidade, em prestar-lhe socorro, também foi Cuba que colocou à disposição do governo estadunidense - malgrado toda a hostilidade ilegal deste para com a Ilha - um contingente de 1300 médicos, postados no Aeroporto de Havana, com capacidade de chegar prestar ajuda à população afetada pelo furacão. Aguardavam apenas autorização para o embarque, e em questão de 3 horas de voo estariam em Nova Orleans salvando vidas. 

Devastação causada pelo furacão Katrina em Long Beach - Mississipi
Foto Wikipedia - (Clique na imagem para visualizar melhor)
Esta autorização nunca chegou da Casa Branca. A resposta animalesca do presidente George Bush foi um sonoro NÃO à oferta de Cuba, o que tampouco foi divulgado pela mídia oligárquica, provavelmente para protegê-lo do vexame de ver difundido seu tosco caráter, que tal recusa representava. Os EUA estão sempre prontos para enviar militares e mercenários pelo mundo. Mas, são incapazes de prestar ajuda ao seu próprio povo, e também arrogantes o suficiente para permitir uma ajuda de Cuba à população pobre e negra afetada pelo furacão.

Uma Escola de Medicina para outros povos

Também não circulam informações aqui de que Cuba, após o furacão Mity, que devastou a America Central e parte do Caribe, decide montar uma Escola Latino-americana de Medicina, que, em pouco mais de 10 anos de funcionamento, já formou mais de 10 mil médicos estrangeiros, gratuitamente. Entre eles, 500 jovens negros e pobres dos EUA, moradores dos bairros do Harlem e do Brooklin. Eles me revelaram que se tivessem continuado a viver ali, eram fortes candidatos a serem presa fácil do narcotráfico. Frisavam que, estar ali em Cuba, formando-se em medicina, gratuitamente, era uma possibilidade que a maior potência capitalista do mundo não lhes oferecia. 

Campus da ELAM - Escola Latino Americana de Medicina
Há, estudando na ELAM, cerca de uma centena de jovens do MST, filhos de assentados da reforma agrária. Isto significa que Cuba compartilha com vários países do mundo seus modestos recursos. Também estudam lá cerca de 600 jovens do Timor Leste, sendo que existem 40 médicos cubanos trabalhando já agora no Timor. 

O tipo de exame Revalida seria capaz de dimensionar esta solidariedade cubana com a saúde dos povos?

Ampliar a integração em outras áreas

Também não se divulgou por aqui, que Cuba montou três Faculdades de Medicina na África, (Eritreia, Gâmbia e Guiné Equatorial), em pleno funcionamento, com professores cubanos. Toda esta campanha de insultos contra Cuba e os médicos cubanos, abre uma boa possibilidade para discutir e conhecer mais a fundo todas estas conquistas da Revolução Cubana, mas, especialmente, para que as forcas progressistas reflitam sobre quantas outras possibilidades de cooperação existem entre Brasil e Cuba, em muitas outras áreas.

Mas, serve também para reavaliar a posição de certos parlamentares médicos da esquerda no Brasil que se opõe, inexplicavelmente, ao Programa Mais Médicos, alguns chegando, ao absurdo de terem apresentado projetos de lei proibindo, pelo prazo de 10 anos, a abertura de qualquer novo curso de medicina no Brasil.

Qualificar o debate sobre a integração

Enfim, um debate democrático e qualificado em torno do programa Mais Médicos, da presença de médicos cubanos aqui no Brasil e em mais de 70 países, e também, sobre as conquistas da Revolução Cubana, deve ser organizado pelos partidos e sindicatos, pelo movimento estudantil, pelos movimentos sociais, pela Solidariedade a Cuba, pelas TVs e rádios comunitárias, como forma de impulsionar a integração da America Latina, que, neste episódio, está demonstrando o quanto pode ser útil à população mais pobre. A TV Brasil pode cumprir uma função muito útil, pode divulgar documentários já existentes sobre o trabalho de médicos em regiões inóspitas e adversas em diversos países.

É preciso expandir esta integração, avançar pela educação, pela informação, não havendo justificativas para que o Brasil ainda não esteja conectado com a TELESUR, por exemplo, que divulgado amplo material jornalístico informando que 3 milhões e meio de cidadãos latino-americanos já foram salvos da cegueira graças a Operação Milagro, pela qual médicos cubanos e venezuelanos realizam, gratuitamente, cirurgias de cataratas em vários países da região.

TELESUR -Logo do Canal Capibaribe (Brasil)
Enquanto o povo argentino, por exemplo, já pode sintonizar gratuitamente a TELESUR e informar-se de tudo isto, o povo brasileiro está impedido, praticamente, de receber informações que revelam o andamento da integração da America Latina. Mas, com a chegada dos médicos cubanos, a integração será cada vez mais pauta da agenda do debate político nacional e receberá , certamente, um impulso político e social, notável, pois o povo brasileiro, saberá , com nobreza e humanismo, valorizar e apoiar o programa Mais Médicos. Alias, é exatamente isto o que tanto apavora a medicina capitalista.

Há 70 mil engenheiros estrangeiros no Brasil hoje!

Segundo dados recentes do Ministério do Trabalho, existem hoje trabalhando no Brasil cerca de 70 mil engenheiros estrangeiros. Nenhuma gritaria foi feita. Neste caso, trata-se de petróleo e outros projetos, muito lucrativos para as multinacionais. Mas, quando se trata de salvar vidas, acendem-se todas as fogueiras do inferno da nova inquisição contra uma cooperação que é lógica e indispensável, solidária e humanitária. Por que é aceitável a importação de telefones, equipamentos médicos, remédios, cosméticos, roupas, caviar, bebidas, vacinas e não se aceita a cooperação de médicos de Cuba, sendo este o único país em condições objetivas de apresentar-se prontamente e de maneira eficaz com profissionais experimentados. Será que as representações médicas brasileiras possuem sequer uma remota ideia de que estão proferindo insultos a esta bela história da medicina socialista de Cuba?

Quem pagará a conta da demora?

A presidenta Dilma tem inteira razão em convocar os Médicos Cubanos, algo que já poderia ter sido feito há mais tempo, amenizando a dor e o sofrimento de milhões de brasileiros abandonados por um sistema de saúde e por uma mentalidade de parcelas das representações médicas que, por mais absurdo que pareça, ainda tentam justificar este abandono. Aliás, com a determinação da presidenta Dilma está absolutamente revelada a importância da integração da América Latina, não havendo justificativas para que esta modalidade de integração nas esferas sociais, não avance também para outras áreas, como a educação, por exemplo.

Foi exatamente com o método cubano denominado “Yo, si, puedo”, que Venezuela, Bolívia, Equador são países declarados pela UNESCO como “Territórios Livres do Analfabetismo”, sempre com a participação direta de professores cubanos.

Muito em breve, será a Nicarágua, que vai recuperar aquele galardão, que já havia conquistado durante a Revolução Sandinista, mas depois perdeu, na era neoliberal.

Por quanto tempo o Brasil terá apenas projetos pilotos, em apenas 3 cidades, com o método de alfabetização cubano, que, aliás, já tem absoluta comprovação e reconhecimento mundiais? Que espera a sexta economia do mundo em convocar ainda mais a cooperação cubana para erradicar o analfabetismo? Quem pagará a conta desta injustificável demora?

Dra. Milagro Cárdenas Lopes - médica cubana
Termino com a declaração da Dra. Milagro Cárdenas Lopes, cubana, negra, 61 anos “Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou. Em seguida, dirigiu-se com seus companheiros para os ônibus organizados pelo Exército Brasileiro, que cuida de seu alojamento. Sinal de que a integração está escrevendo uma nova página na história da América Latina.
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[*] Beto Almeida (Carlos Alberto Almeida), membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato, é jornalista premiado com a Medalha Félix Elmuza pela União dos Jornalistas de Cuba (UPEC); atualmente atua como membro da Junta Diretiva da La Nueva Televisión Del Sur (Telesur) e da Comissão de Justiça e Paz da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Também é correspondente da Radio de Madres Plaza de Mayo na Argentina.