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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pepe Escobar: “Ouçam o som do Sul Global”

17/7/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abertura  VIª Cúpula dos BRICS - Fortaleza, 2014
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
A reunião dos BRICS no nordeste do Brasil já fez história por uma razão chave: a criação do Novo Banco de Desenvolvimento.

Podem chamá-lo de antídoto Sul Global àquela máquina de ajuste estrutural, o FMI. Muitas e muitas vezes, as nações membros do grupo BRICS e outras insistiram para que se fizesse uma reforma institucional no FMI, que reconhecesse o peso econômico do Sul Global. Pacotes de reformas dormem no Congresso dos EUA desde 2010. E em abril passado, mais uma vez, foram bloqueados.

O Novo Banco de Desenvolvimento será muitíssimo mais democrático que o FMI controlado por EUA e União Europeia (UE).Considerem o dinheiro: 10 bilhões de dólares, contribuição de cada país membro. Significa que, mais cedo ou mais tarde, outras nações em desenvolvimento poderão juntar-se ao projeto. Já chamei de capitalismo de cassino versus um modelo de capitalismo produtivo.

A agenda da reunião foi gigantesca: os BRICS discutiram comércio, estratégias de desenvolvimento sustentável, política macroeconômica, energia, finanças, terrorismo, mudança climática, segurança regional, contrabando de drogas, crimes transnacionais, industrialização da África. Os BRICS já estão fazendo avançar uma torrente de projetos multilaterais estratégicos em termos de demarcar uma rede alternativa de infraestrutura; por exemplo, o cabo BRICS [BRICS cable], atualmente em implantação de Vladivostok a Shantou, Chennai, Cape Town e Fortaleza (onde se realizou a reunião). O cabo BRICS tem tudo a ver com segurança para a Tecnologia de Informações, transferência de tecnologia, giro de commodities – e facilitação de operações financeiras. Detalhe crucialmente importante: o cabo não passa pelos EUA.

Cabo submarino dos BRICS (em vermelho)
No segundo dia de reunião, os cinco presidentes dos países BRICS passaram quatro horas e meia em torno de uma mesa com líderes dos estados da UNASUL [esp. Unasur], a União das Nações Sul-Americanas [ing. the Union of South American Nations]. Ali estavam – Kirchner, da Argentina; Bachelet, do Chile; Santos, da Colômbia; Evo Morales, da Bolívia; Correa, do Equador; Pepe Mujica, do Uruguai; Maduro, da Venezuela; Umala, do Peru, dentre outros. Foi o Sul Global em ação; parcela substancial da verdadeira “comunidade internacional”, a que existe, discutindo produção, investimento, integração, não sanções e bombas.

Falaram sobre a miríade de possibilidades de investimentos BRICS em projetos de infraestrutura – e integração – por toda a América Latina. Por exemplo, como o presidente chinês Xi Jinping sugeriu, a estrada de ferro perenemente sonhada do Oceano Pacífico no Peru, ao Atlântico, no Brasil. Foi criado um grupo trilateral Brasil-Peru-China encarregado de planejar, desenhar, construir e operar a estrada de ferro transcontinental.

A Rússia partilhou a experiência que tem em investigações sobre lavagem de dinheiro e crimes transnacionais transfronteiras. No campo da segurança, Rússia e China partilharam a sinergia que há entre os dois BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] que conecta Rússia e China numa política de segurança comum com a Ásia Central.

Falaram sobre várias estratégias para escapar à vigilância do complexo orwelliano/ Panopticon. E muito falaram sobre lentamente implementar um mundo multilateral, multipolar.

Reunião de trabalho na VIª Cúpula dos BRICS 
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
De Brasília a Bruxelas

Em resumo, Putin e Xi jogaram xadrez no “quintal” de Obama, enquanto o moço-lá do “Yes We Can” brincava com – e o que poderia ser?! – mais sanções.

Eis o que disseram os BRICS, a uma só voz, sobre sanções:

Enfatizamos nosso compromisso com a solução sustentável e pacífica de conflitos, conforme os princípios e objetivos da Carta da ONU. Condenamos intervenções militares unilaterais e sanções econômicas em violação ao direito internacional e normas universalmente reconhecidas das relações internacionais. Tendo isso presente, enfatizamos a singular importância da natureza indivisível da segurança e que nenhum Estado deve fortalecer sua segurança em detrimento da segurança dos demais.

Enquanto os BRICS e a UNASUL falavam sobre cooperação e integração em Brasília, em Bruxelas a França, a Alemanha e a Itália eram os principais países da União Europeia que se recusaram a acompanhar Washington e impor à Rússia “sanções econômicas e de comércio setorial”. Mas a rachada União Europeia não tinha alternativa e acabou por ter de dançar conforme a Voz do Dono (as sanções que EUA estão criando agora ajudam muito a promover a “Parceria Comercial Trans-Atlântico”, o “livre” comércio de multibilhões de dólares contra o qual muitos ainda se opõem dentro da União Europeia).

Portanto, o Banco Europeu de Investimentos e o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento [orig. European Bank for Reconstruction and Development (EBRD)] vetarão novos projetos na Rússia, e a Comissão Europeia também suspenderá muitas dotações e empréstimos prometidos à Rússia.

A Casa Branca, claro, é senhora de um escaninho só dela, de mesquinharia e vingancismo. Significa mais sanções contra as empresas Rosneft, Gazprombank, Novatek, e contra o banco estatal de desenvolvimento econômico VEB, plus uma lista de mais oito empresas da Defesa, de propriedade do estado russo, contra funcionários do governo russo, contra uma empresa de petroleiros na Crimeia e contra federalistas em Donetsk e Lugansk no leste da Ucrânia. Os proverbiais “funcionários dos EUA” que não se identificam lá estavam, à mão, para declarar que essas sanções “restringirão” o acesso da Rússia ao “mercado dos EUA”.

Foto: Dmitry Kostyukov
Agora então comparem isso e a voz harmônica dos BRICS sobre a Ucrânia, que clama

(...) por um diálogo abrangente; pelo declínio das tensões no conflito; e pela moderação de todos os atores envolvidos, com vistas a encontrar solução política pacífica, em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas.

Alexei Pushkov, presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do Parlamento Russo, definiu muito bem, antes do encontro, o contexto em que aparecem os BRICS:

Quando dizem no ocidente que há algum tipo de “comunidade internacional” que nos condena, estão falando dos 28 estados-membros da OTAN e da União Europeia. Mas isso não é o mundo: isso é só a comunidade euro-atlântica. Tem seu peso, mas não é a comunidade mundial. É só uma fração dela.

Implica dizer pois que não são apenas BRICS contra o consenso de Washington; são também BRICS contra o “modelo” ocidental das sanções. E as mensagens superpostas que nos vêm de Fortaleza são claras como cristal: o monopólio do Ocidente, que o autorizava a definir a agenda global já não existe. Acabou.

Considerem também a voz unívoca dos BRICS sobre Israel/Palestina: os BRICS conclamam

(...) Israel e Palestina a retomar as negociações conducentes a uma solução de dois Estados, com um Estado palestino contíguo e economicamente viável, existindo lado a lado e em paz com Israel, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e reconhecidas internacionalmente com base nas linhas de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital.

Os BRICS claramente se opõem (...) à continuada construção e à expansão dos assentamentos nos Territórios Palestinos Ocupados pelo Governo israelense, que violam o direito internacional, solapam gravemente os esforços de paz e ameaçam a viabilidade da solução de dois Estados. Saudamos os recentes esforços pela unidade intra-palestina, inclusive a formação de um governo de unidade nacional e os passos em direção à realização de eleições gerais, elemento-chave para consolidar um Estado palestino democrático e sustentável.

Israel, claro, nem ouve. Prefere prosseguir com a limpeza étnica em câmera lenta e massacre, de Gaza.

Afinal, o ex-leão de chácara e hoje truculento ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman disse ao Kneset [parlamento] que:

(...) a operação deve concluir com o exército de Israel no pleno controle de toda a Faixa de Gaza.

Massacre em Gaza 2014
Os BRICS, por insistência de Rússia e China, até introduziram um projeto de Resolução da ONU, atualizado, sobre a necessidade de impedir a militarização do espaço sideral – como no projeto “Guerras das Estrelas” que é parte essencial da doutrina do Pentágono, de Dominação de Pleno Espectro. Adivinhe então quem sempre votou contra, na ONU: Telavive e Washington.

Por tudo isso, a escolha que o Sul Global está apresentando é, de fato, bem simples. Escolha o seu modelo: de um lado, há um modelo marcado por integração, cooperação, respeito mútuo; de outro lado, há outro modelo que ordena que você se curve à Voz do Dono; se você desobedecer, o modelo tentará matar você a golpes de sanções; detonará sua indústria de energia, seu acesso aos mercados financeiros, o bem-estar de seus cidadãos; se nada funcionar, o modelo bombardeia você, detona tudo, seu país é empurrado de volta à Idade Média.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Pepe Escobar: “BRICS contra o Consenso de Washington”

15/7/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Construindo com "bricks" (tijolos)
A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

O diabo, claro, reside nos detalhes de como farão tudo isso.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

O Banco de Desenvolvimento dos BRICS – com capital inicial de US$ 50 bilhões – não visará só a projetos dos BRICS, mas também investirá em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em escala global. O modelo é o BNDES brasileiro, que apoia empresas brasileiras que investem em toda a América Latina. Em poucos anos, alcançará capacidade para financiamento de mais de US$ 350 bilhões. Com fundos extras vindos de Pequim e Moscou, a nova instituição pode fazer o Banco Mundial comer poeira. Comparem:

(I) acesso a capital realmente existente gerado por poupança, e
(II) acesso a papel pintado de verde que o governo dos EUA imprime sem lastro.

Dilma Rousseff discursa na abertura da Reunião dos BRICS - Fortaleza, Brasil - 2014
E há também o acordo que estabelece um pool de US$100 bilhões de moedas de reserva – o CRA [orig. Contingent Reserve Arrangement, Acordo de Reserva de Emergência], que o ministro de Finanças da Rússia, Anton Siluanov, descreveu como “uma espécie de mini-FMI”. É um mecanismo de não-Consenso-de-Washington, contragolpe para neutralizar a fuga de capitais. Para esse pool, a China contribuirá com US$ 41 bilhões; Brasil, Índia e Rússia, com US$ 18 bilhões cada; e África do Sul com US$ 5 bilhões.

O banco de desenvolvimento deverá ter sede em Xangai – embora Mumbai muito se tenha empenhado em causa própria. (Para conhecer mais a posição da Índia sobre os BRICS, vide India Tribune, 14/7/2014, “Construindo sobre tijolos [ing. bricks] de solidariedade”)

Muito mais que de economia e finança, aqui se trata de geopolítica: potências que estão emergindo oferecem uma alternativa ao fracassado Consenso de Washington. Ora, afinal, como dizem os apologistas do Consenso, os BRICS podem bem conseguir “aliviar os desafios” que lhes são impostos pelo “sistema financeiro internacional”. A estratégia é também é um dos elos-chaves da aliança progressivamente mais firme entre China e Rússia, que já se viu firmemente amarrada no “negócio do século”, de gás, e no Fórum Econômico de São Petersburgo.

Vladimir Putin e Xi Jinping reencontram-se em Fortaleza, BR (15/7/2014)
Vamos ao jogo de bola geopolítica

Assim como o Brasil conseguiu, contra muitas expectativas, construir e oferecer uma Copa do Mundo inesquecível – apesar de a seleção nacional do Brasil ter-se liquefeito – Vladimir Putin e Xi Xinping chegam agora à mesma grande área para uma exibição de geopolítica categoria top.

O Kremlin considera altamente estratégica a relação bilateral com Brasília. Putin não se limitou a assistir ao jogo final da Copa do Mundo no Rio de Janeiro; além do encontro com a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, também se reuniu com a chanceler alemã Angela Merkel (discutiram detalhadamente a Ucrânia). Um dos membros mais importantes da comitiva do presidente Putin é Elvira Nabiulin, presidenta do Banco Central da Rússia; ela tem divulgado em toda a América Latina o conceito de que as negociações com os BRICS devem deixar de lado o dólar norte-americano.

O encontro extremamente potente, emocionante, simbólico, entre Putin e Fidel Castro em Havana, além do cancelamento de US$ 36 bilhões da dívida cubana, não poderiam ter impacto mais significativo em toda a América Latina. Comparem a visita e o perdão da dívida, ao embargo perene e doentiamente vingancista que o Império do Caos impõe a Cuba.


Na América do Sul, Putin reúne-se não só com o presidente Pepe Mujica do Uruguai, com quem discutirá, dentre outros itens, a construção de um porto de águas profundas, mas também com Nicolás Maduro, da Venezuela e com Evo Morales, da Bolívia.

Xi Jinping também está em Fortaleza, Brasil. Visitará, além do Brasil, Argentina, Cuba e Venezuela. O que Pequim anda dizendo (e fazendo) complementa Moscou: a América Latina também é vista pela China como altamente estratégica. É ideia que se pode traduzir em mais investimentos chineses e maior integração Sul-Sul.

Essa ofensiva comercial/diplomática russo-chinesa integra-se ao movimento dessas potências na direção de um mundo multipolar – lado a lado com líderes sul-americanos. Exemplo claríssimo disso é a Argentina. Enquanto Buenos Aires, já mergulhada em recessão, ainda combate contra os fundos-carniceiros norte-americanos – o ápice da especulação financeira – nos tribunais de New York, Putin e Xi chegam a oferecendo investimento para tudo, de estradas de ferro à indústria da energia.

Claro que a indústria russa de energia precisa de investimentos e de tecnologia das multinacionais ocidentais privadas. E é verdade que a “Made in China” que se conhece desenvolveu-se sem investimento ocidental, mas explorando mão de obra barata. Agora, os BRICS tentam apresentar ao Sul Global uma escolha.

De um lado, a especulação financeira, os fundos-carniceiros e a hegemonia dos EUA, Patrões do Universo. Do outro lado, um capitalismo produtivo – uma estratégia alternativa para o desenvolvimento capitalista, se comparada ao que sempre fez e faz o “Trio” (EUA, UE e Japão).

Os fundos-carniceiros atacam...
Seja como for, ainda falta muito para que os países BRICS projetem um modelo produtivo independente do “modelo” de especulação & jogatina do capitalismo de cassino, o qual, por falar dele, ainda mal se recupera da crise massiva de 2007/2008 (a bolha financeira não rebentou “bem”...).

Há quem talvez veja a estratégia dos BRICS como parte de uma crítica construtiva, em andamento, em processo, em que o criticado é o próprio capitalismo: como livrar o sistema de ter perenemente de financiar o déficit fiscal dos EUA e sua síndrome da militarização planetária – relacionada ao complexo militar orwelliano/Panopticon – subordinado a Washington.

Como diz o economista argentino Julio Gambina, o importante não é ser “emergente”; o importante é ser “independente”.

Em coluna publicada essa semana em RT, Claudio Gallo, jornalista de La Stampa, introduz a questão que talvez seja a questão definitiva de nossos tempos: o fato de que o neoliberalismo – regendo quase todo o mundo, diretamente ou indiretamente – parece estar produzindo uma desastrosa mutação antropológica que nos está jogando, todos nós, num totalitarismo global (por mais que tantos falem tanto, praticamente sem parar, das “liberdades” das quais goza(ria)m no “ocidente”).

É sempre instrutivo voltar ao caso da Argentina. A Argentina está presa a uma crise de dívida externa gerada, há mais de 40 anos, pelo FMI – e atualmente “assumida” e perpetuada pelos fundos-carniceiros. O banco dos BRICS e o fundo de reserva, como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial oferece a possibilidade de que dezenas de outros países escapem ao suplício argentino. Para nem falar da possibilidade de que outras nações emergentes, como Indonésia, Malásia, Irã e Turquia também passem a contribuir para as novas instituições.


Não surpreende que a gangue de Patrões do Universo ainda hegemônica esteja agitada, nas suas poltronas estofadas. O Financial Times resume o pensamento da City de Londres, notório paraíso do capitalismo de cassino.

Vivem-se dias entusiasmantes na América do Sul, em mais de um sentido. A hegemonia atlanticista ainda permanecerá por aí, como parte do quadro, é claro. Mas é a estratégia dos BRICS que indica o rumo a tomar, na marcha para futuro mais adiantado. E é a roda multipolar que continua a rodar.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

América Latina não quer viver no “mundo-quartel” dos EUA


Putin na América Latina

8/7/2014, [*] Nil Nikandrov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Espantando fantasmas da América Latina
A América Latina ouviu com muita atenção o discurso do presidente Putin na Reunião com Embaixadores e Representantes Permanentes da Federação Russa, dia 1º de julho, no Kremlin. O interesse aumentou, depois que se divulgaram, dia 4/7/2014, os planos do presidente russo Vladimir Putin, que visitará Cuba, Argentina e Brasil, em meados do mesmo mês de julho.

O presidente Putin visitará a América Latina e participará de uma reunião do grupo dos países BRICS, as cinco principais potências emergentes do mundo – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, dias 11-16/7/2014.

Durante o encontro dos países BRICS, Putin tem reuniões marcadas com líderes da China, Índia e África do Sul, além de vários outros governantes latino-americanos – como informou o Kremlin.

A VIª reunião de cúpula dos BRICS acontecerá em Fortaleza, nordeste do Brasil, dia 15/7/2014. A convite da Rússia, a Argentina também participará dos trabalhos. Na reunião, os países BRICS discutirão a possível admissão da Argentina como sexto país-membro.

Proteger os interesses nacionais da Rússia e reforçar as bases e princípios das relações internacionais – essas são as metas prioritárias que o presidente Putin fixou para o Ministério de Relações Exteriores da Rússia e todas as missões diplomáticas russas em todo o mundo.

Putin conclamou o ocidente (a começar pelos EUA) a parar de tentar converter o planeta num “mundo-quartel”, ditando normas aos demais países.

Tenho esperanças de que o pragmatismo acabará por prevalecer. Temos de nos livrar de ambições. Pôr fim às tentativas para criar um mundo-quartel, todos em fila, regidos por “ordem-unida”, vivendo sob regras únicas de comportamento e de vida. Temos de começar, finalmente, a construir relações baseadas na igualdade, no respeito mútuo e na atenção aos interesses comuns. É tempo de todos admitirmos o direito do outro, de ser diferente; o direito de todos os países de viver a vida como escolham, sem ter de obedecer ao que outros lhes digam que façam ou deixem de fazer – disse Putin.

“Mundo-quartel” (Global Barracks)
As guerras sangrentas insufladas pelo Departamento de Estado dos EUA, pelo Pentágono, pelos serviços secretos norte-americanos na região de fronteiras da Rússia – do Afeganistão à Ucrânia – não pode deixar indiferentes os governantes racionais da América Latina.

Se se examina o noticiário de periódicos sérios como Punto Final (Chile), La Jornada (México), Granma (Cuba) e inúmeros outros – tudo se resume a um único ponto: toda a fúria dos EUA está dirigida hoje contra a Rússia e a China, países capazes de responder a qualquer ação agressiva dos norte-americanos. Obama precisa recompor a imagem de “durão”, agora que sua popularidade alcança picos negativos recordes. Então, os EUA estão à procura de uma presa – qualquer regime hostil a ser provocado.

Obama não se atreverá a iniciar operação punitiva em regiões muito distantes, nesse momento em que a economia dos EUA está em ruínas. Portanto, procurará alguém mais próximo, ao sul do Rio Grande, no antigo quintal do ex-império norte-americano.

E quem Washington escolherá como “caso exemplar” demonstrativo dessa “neutralização de regime” pouco amigável? Esse item aparece com prioridade nas principais listas de discussões políticas na América Latina.

Muito se têm discutido as ações em que os EUA estão trabalhando, ações subversivas, especialmente contra governos “populistas”, servindo-se de avançados meios e armas da guerra de informação. Na América Latina há muitos alvos: Cuba, Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia, Argentina e até o Brasil, que está longe de adotar políticas populistas, mas mantém-se firme numa linha de política externa que visa a proteger interesses nacionais. As nações do Caribe que mantêm laços com Cuba e Venezuela e participam do Projeto Petrocaribe podem também enfrentar a fúria do ex-império.

Petrocaribe é uma aliança em torno do petróleo constituída de vários estados caribenhos com a Venezuela, que lhes vende petróleo em condições especiais de pagamento. Essa aliança foi lançada em 2005. Foi o período durante o qual Washington iniciou a luta contra regimes “concorrentes”, período durante o qual usou métodos “soft” de desestabilização: agravou crises econômicas, induziu e alimentou movimentos de protesto com a ajuda de organizações não governamentais (ONGs) articuladas por agentes da CIA ou funcionários da USAID; em quase todos os casos, usa-se falsa informação, ou informação duvidosa, quase sempre acusações de corrupção, lançadas contra figuras chaves da política local, para fazer crescer as tensões. Trabalham incansavelmente para desacreditar líderes campeões de votos. Qualquer informação serve, se bem divulgada e “repercutida” pela imprensa-empresa; como informações sobre contas bancárias privadas. Disseram que Fidel Castro teria 40 bilhões de dólares [precisamente 40 bilhões de dólares] numa conta privada em seu nome; e também houve inúmeras “notícias” sobre contas bancárias bilionárias em nome de Hugo Chávez e Daniel Ortega. Nenhuma prova jamais apareceu.

Rafael Correa venceu o golpe de outubro/2010
Quando a desestabilização alcança determinado nível, os serviços especiais dos EUA entram em ação, para “esquentar” os tumultos. No Equador, policiais comandados pelos serviços secretos dos EUA e trabalhando como serviço consular ou diplomático na Embaixada dos EUA, urdiram um golpe armado e atacaram o presidente. Na Bolívia, diplomatas norte-americanos comandavam grupo terrorista, de mercenários, constituído pela CIA na Europa. A ação decisiva de agentes das forças especiais bolivianas conseguiu desbaratar parte dessa formação terrorista, com alguns dos rebeldes já presos. E os EUA continuam ativos na Bolívia, como na Venezuela, onde os serviços secretos dos EUA geraram subversão econômica, criando desabastecimento de alguns itens vitais, em conluio com empresários locais; encenaram protestos de rua, bloqueios de estradas, prédios públicos foram incendiados e houve outros atos terroristas.

No Brasil, a agência USAID patrocina organizações não governamentais que lançaram campanha de protesto contra a Copa do Mundo da FIFA realizada no país, usando o evento como “cenário” para expor críticas contra a “política social falha” da presidenta Dilma Rousseff. O golpe fracassou, a Copa está sendo realizada com grande sucesso e a presidenta Dilma Rousseff aparece como favorita nas pesquisas de tendências de voto. Nenhum presidente jamais implementou programas e políticas sociais de tão amplo alcance e com tal sucesso, antes, no Brasil, que o ex-presidente Ignácio Lula da Silva; e, depois, sua sucessora e atual presidenta Dilma Rousseff.

A abordagem confrontacional de Washington para os problemas internacionais criam um fator negativo permanente em todo o sistema de relacionamento internacional na América Latina. Falando aos embaixadores, o presidente russo deu definição precisa da razão que espreita por trás da política dos EUA para a América Latina:

Gostaria de começar dizendo que nosso Ministério de Relações Exteriores e nossas embaixadas estão sob muita pressão; vê-se, sabe-se que estão, mas essa pressão não diminuirá. Só aumentará, assim como a exigência de que mostremos eficiência, precisão e flexibilidade em nossas ações, para preservar interesses nacionais da Rússia. Vocês sabem o quanto os desenvolvimentos internacionais podem ser dinâmicos e imprevisíveis. Parecem ser empurrados ao mesmo tempo e, infelizmente, nem todos são desenvolvimentos de caráter positivo. O potencial para conflitos está crescendo no mundo, velhas contradições vão-se tornando sempre mais agudas e novas vão sendo provocadas. Deparamo-nos com esses desenvolvimentos, às vezes sem esperar por eles, e observamos com lástima que a lei internacional não está funcionando, as normas mais básicas de decência são desrespeitadas e a mais irrestrita permissividade vai ganhando predominância.

Vladimir Putin fala aos Embaixadores (1/7/2014)
Os EUA estão lutando claramente para preservar o sistema mundial de modelo unipolar, o mesmo que já fracassou. A política de aferrar-se aos modos velhos de fazer as coisas tem implicações globais.

A infraestrutura das bases militares de EUA e OTAN é criada para ações de ataque; os planos para ataques nucleares contra Rússia e China nunca saem “de cima da mesa”. Especialistas do Pentágono vivem a avaliar cinicamente os parâmetros de dano aceitável para o caso de segundo ataque, de retaliação, contra os EUA. Na teoria, há perdas aceitáveis; os especialistas do Pentágono não se envergonham de “conceder” milhões de vidas de norte-americanos. Esses cálculos, de gente sedenta de sangue, fazem empalidecer o horror produzido em Hollywood.

O presidente Putin disse que:

Não cabe dúvida alguma de que a ordem do mundo unipolar não se realizou. Povos e países erguem a voz a favor da autodeterminação e da identidade civilizacional e cultural, o que conflita com as tentativas de alguns países para manter sua dominação sobre a esfera militar, na política, nas finanças, na economia e na ideologia.

É chegada a hora de reconhecer o direito de ser diferente e de determinar o próprio destino com independência. Mas alguns países latino-americanos ainda têm de obedecer ao que Washington lhes ordene. Colômbia, Honduras, Guatemala, Paraguai e alguns outros, ainda vivem como quartéis dos EUA. As instalações militares em território desses países são usadas pelo Pentágono para chantagear regimes inamistosos e incendiar conflitos militares locais.

O presidente Putin disse que a Rússia está pronta para desenvolver relações com todos os parceiros. Enfatizou a rica experiência de relações políticas e humanitárias entre Rússia e América Latina, o enorme potencial dos mercados latino-americanos emergentes. Por exemplo, em Havana o presidente Putin e Raul Castro, presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, discutirão comércio, economia, energia, aviação civil e transporte, atenção pública à saúde e uso pacífico do espaço sideral. A agenda do presidente Putin inclui reunião com o líder histórico da revolução cubana, Fidel Castro. É encontro de grande significado simbólico. Antes da visita, o Parlamento Russo (Duma) tomou a decisão de cancelar 90% da dívida de mais de US$ 30 bilhões que Cuba deve à Rússia. A dívida correspondia, predominantemente, a gastos para suprir necessidades militares. A eliminação da dívida e o processo de liberalização da economia cubana pavimentam a via para efetiva cooperação econômica entre os dois países. As empresas russas Rosneft e Zarubezhneft já assinaram acordos com Cuba para desenvolver campos submarinos de petróleo cubano junto ao litoral – vale dizer, na vizinhança próxima da costa dos EUA.

Cuba - Porto de Mariel - Localização
(clique na imagem para aumentar)
Os planos para recuperar o Porto de Mariel preveem perfuração e construção de oleodutos. A imprensa cubana já noticiou que o futuro Porto de Mariel está previsto para largura de 700 metros, o que permitirá receber simultaneamente dois navios oceânicos grandes. Os planos até 2022 incluem instalações para exploração e extração de petróleo em alto mar, novos terminais para contêineres, carga em geral, instalações para armazenamento e manuseio de cargas congeladas e uma Zona Especial de Desenvolvimento Econômico para armazenamento de cargas leves. O novo Porto de Mariel poderá receber navios de maior calado que a Baía de Havana, onde um túnel sob o canal limita a profundidade a 11 metros. O terminal de contêineres de Mariel terá capacidade anual de 850 mil/1 milhão de contêineres (o de Havana tem capacidade para 350 mil). Esses desenvolvimentos permitirão que o Porto de Mariel acomode os grandes navios-contêineres que transitarão para a Ásia pelo Canal do Panamá, quando o alargamento desse canal estiver completado, no verão de 2014.

O presidente Putin da Rússia também discutirá projetos econômicos de grande escala na Argentina e no Brasil. Trata-se, em todos os casos, de mostrar que há alternativa ao sistema de “mundo-quartel” imposto por Washington.



[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascarar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.