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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Rússia poderá dispensar a rede SWIFT

E utilizar outro sistema de comunicações/compensações internacionais interbancárias

12/11/2014, [*] Yves SmithNaked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Muitos observadores nos EUA mostraram-se descabidamente excitados sobre o que chamam, pejorativamente, de “esforços para quebrar a hegemonia do dólar”, como, dentre outros, o esforço conjunto dos chamados países BRICS para formar um banco de desenvolvimento.

Por mais que seja considerado importante manter uma cadeia internacional de entidades de financiamento, particularmente as que se focam em atividades que, em teoria, aumentam os benefícios coletivos de depender de uma moeda de reserva, não se pode concluir disso que lançar novas e úteis instituições de financiamento quebrará a dominação do dólar. Por mais que faça todo o sentido que os países se ressintam de os EUA abusarem muito da sua posição de emissor da moeda de reserva, também é verdade que não há concorrente à espera nas coxias. A Eurozona acabou com a chance que tinha, ao fracassar na operação de sanear pelo menos, que fosse, os seus bancos ainda mais doentes do que os norte-americanos, e ao piorar ainda mais uma situação já ruim e aderir a destrutivas políticas de austeridade.

Claramente, a China tem potencial para deslocar os EUA no longo prazo, mas não dá sinais de disposição para incorrer nos indispensáveis déficits comerciais, uma vez que isso significaria exportar demanda e, portanto, empregos. Nenhum país fez, sem solavancos, a transição, de grande economia puxada por exportações, para grande economia puxada pelo consumo; uma crise, ou qualquer prolongado mal-estar, também adiariam o momento em que a China consiga substituir os EUA como cão chefe da moeda.

Mas não poder livrar-se do dólar no curtíssimo prazo absolutamente não significa que países que os EUA tentam castigar (usando a influência norte-americana sobre o sistema internacional de pagamentos) não consigam encontrar vias de fuga em prazo bem menos longo. A Rússia, convertida em inimigo n° 1 dos EUA, aparentemente pelos pecados de ajudar a Síria (quando o Congresso opôs-se firmemente a qualquer ação militar); por opor-se, com sucesso, contra o golpe de estado patrocinado pelos EUA na Ucrânia; por colaborar com o Irã; por dar abrigo a Edward Snowden tornou-se alvo de sanções econômicas cada vez mais violentas. As que mordem mais fundo são as sanções aplicadas contra bancos russos, que estão expostos em moedas estrangeiras e têm usado os mercados de capital estrangeiros para lançar papéis da dívida e ações [orig. to issue debt and equity].

Hoje, a Rússia anunciou que planeja lançar um novo sistema de comunicações de compensações interbancárias, que dispensará qualquer recurso à Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, o sistema de pagamento SWIFT. Como se lê em Russia Today:


A Rússia planeja ter com o seu próprio sistema de compensações interbancárias internacionais, operante, em maio de 2015. O Banco Central da Rússia diz que precisa apressar as providências para ter já montada sua versão da Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), no caso de surgirem possíveis novos “desafios” vindos do ocidente.

“Considerados os desafios, o Banco da Rússia está criando seu próprio sistema para transmissão de mensagens financeiras (...) É preciso pressa. Nos próximos poucos meses com certeza já teremos o que mostrar. Todo o projeto para retransmissão de mensagens financeiras estará completado em maio de 2015” – disse Ramilya Kanafina, vice-diretor do departamento do sistema nacional de pagamentos do Banco Central da Rússia [orig. Central Bank of Russia (CBR)].

Instruções para não usar o sistema da SWIFT nos bancos russos começaram a se tornar mais frequentes à medida que se deterioravam as relações entre Rússia e EUA, por causa das sanções. Até aqui, a SWIFT tem dito que, apesar da pressão que tem recebido de alguns países ocidentais para integrar-se às sanções contra a Rússia, não tem qualquer intenção de fazê-lo...

A SWIFT, é atualmente uma das principais conexões entre a Rússia e o sistema bancário internacional e, se for cortada, pode haver grave dano à economia russa, no curto prazo. Globalmente, a SWIFT transmite ordens para transações que chegam a mais de US$ 6 trilhões, e envolve mais de 10 mil instituições financeiras em 210 países. Segundo o estatuto da SWIFT, o sistema mantém grupos nacionais de membros e usuários em cada país. Na Rússia, é a ROSSWIFT – a segunda maior sociedade SWIFT mundial, menor, só, que a SWIFT dos EUA.

Todos os comentários dos leitores são bem-vindos, mas, para mim, há aí duas questões.


Primeira,  que, embora a SWIFT continue aberta para negócios com a Rússia, pode ser fechada a qualquer momento. É claro que Moscou não pode ter deixado de perceber que o Banco Central do Irã e muitos outros grandes bancos são barrados e impedidos de operar a partir da SWIFT em 2012. Como se lê no Wall Street Journal:

A União Europeia disse que está banindo qualquer tipo de transação financeira com empresas iranianas incluídas nas listas negras para sanções, mas políticos norte-americanos deixaram claro que insistirão para ação mais ampla.

A Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias com sede na Bélgica, SWIFT – sistema de comunicação financeira e de autenticação que é usado pela maioria dos grandes bancos em todo o mundo – disse que acataria as instruções da União Europeia.

A sanção aplica-se só a bancos iranianos que a União Europeia incluiu numa lista negra de sanções. Inclui o Banco Central do Irã e mais de uma dúzia de outras empresas.

Enquanto isso, o Congresso dos EUA está pedindo a total interrupção de todas as transações com todos os bancos iranianos, e ameaça punições contra a diretoria e alta administração da SWIFT, caso não rompam todos e quaisquer laços com o setor financeiro iraniano. Políticos norte-americanos não se cansam de repetir que o Irã está transferindo o financiamento de seu programa nuclear, tirando-o dos bancos sob sanção dos EUA e passando-o para outras empresas.

Segunda, que criar canal para pagamentos fora do âmbito da SWIFT pode permitir que a Rússia crie um sistema financeiro para todos que não desejem ficar submetidos ao que os EUA “ordenem”. Bancos que fizeram negócios com o Irã, tanto antes como depois das sanções aplicadas pela SWIFT, foram atingidos por sanções pelo crime de lavagem de dinheiro. Foram pagamentos em dólar, e feitos para ramos dos bancos em New York, o que os torna sancionáveis pela lei norte-americana. Todas as transações em dólares entre bancos são compensadas no final do dia comercial em New York; os pagamentos interbancários dependem, em última instância, da ação de um banco central, e muitos grandes pagamentos são feitos também pelo sistema de comunicações interbancárias do Fed, o FEDWIRE. Por tudo isso não há, pelo menos por hora, como construir qualquer coisa que fuja de todo esse cerco.

Benjamin Lawsky, superintendente de serviços financeiros de New York, ameaçou cassar a licença de operação do primeiro banco desobediente com que teve de lidar, o Standard Chartered.


Reguladores federais norte-americanos e britânicos mostraram-se muito ofendidos pela ação de Lawsky, mas os reguladores federais rapidamente reconheceram que Lawsky lhe prestara imenso favor. Eles subiram muitíssimo a aposta, quando atacaram outros bancos estrangeiros que estavam desafiando ordens dos EUA e fazendo negócios através de sistemas de pagamentos norte-americanos com países estrangeiros “listados”. Lawsky multou o Standard Chartered em US$ 340 milhões em 2012, multa que se somou às multas federais de mais US$ 327 milhões. Por espantosamente alta que fosse naquele momento, essa multa empalidece ante os US$ 8,9 bilhões em multas e penas impostas ao banco BNP Paribas. (Lawsky novamente multou o banco Standard Chartered em mais US$ 300 milhões, em agosto, por reincidência).

Mas muitos bancos estrangeiros, e até reguladores estrangeiros, ficaram impressionados pela magnitude das multas que os EUA impuseram por lavagem de dinheiro (como no caso de usar os sistemas de pagamento norte-americanos, para fazer negócios com empresas “proibidas”). Jornais-empresa e políticos franceses uivaram de fúria ante a multa de US$8,9 bilhões aplicada ao BNP Paribas.

Se o sistema russo de pagamentos funcionar (se for impenetrável aos espiões da Agência Nacional de Segurança, porque podem todos apostar que os EUA aplicaram todos os seus melhores talentos do hacking e do roubo de dados contra qualquer sistema russo!), permitirá que bancos como BNP Paribas e Standard Chartered negociem com o Irã. E, claro, facilitará o processo para que essas empresas tenham uma desejada vingança contra os EUA.

Além do mais, há na Europa, com certeza, empresários que não estão gostando do modo como as sanções da União Europeia estão ferindo seus respectivos negócios. Ainda não se pode saber quantos desses estariam dispostos a passar para o lado “selvagem” e a desafiar as sanções. Mas processar transações através de um sistema de pagamento controlado pelos russos sempre lhes parecerá menos detectável que pagamentos feitos através da SWIFT.

Em outras palavras, o movimento dos russos visa a reduzir a efetividade, como arma, de usar o dólar dominante. Ainda não se pode ter certeza de que os russos consigam criar e manter sistema suficientemente robusto, bem protegido e suficientemente rápido, de comunicações internacionais interbancárias. Mas é movimento inteligente de defesa e potencialmente, também de ataque. Pode vir a ter ramificações de longo prazo, se outros países, que não estão felizes com a ação dos EUA, decidirem usar o sistema russo, por motivos ou práticos ou políticos. Permaneçam sintonizados.

Nota dos tradutores
[1] Sigla de Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication [lit. Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais. A palavra  swift    (ing.)  criada nessa sigla, traduz-se pelo adjetivo “rápido”

[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige Aurora Advisors, uma empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York Times, The Christian Science Monitor, Slate, The Review Conference Board, Institutional Investor, The Daily Deal e da Australian Financial Review. É graduada no Harvard College e Harvard Business School. Anima o blog Naked Capitalism desde 2006.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pepe Escobar: “Ouçam o som do Sul Global”

17/7/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abertura  VIª Cúpula dos BRICS - Fortaleza, 2014
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
A reunião dos BRICS no nordeste do Brasil já fez história por uma razão chave: a criação do Novo Banco de Desenvolvimento.

Podem chamá-lo de antídoto Sul Global àquela máquina de ajuste estrutural, o FMI. Muitas e muitas vezes, as nações membros do grupo BRICS e outras insistiram para que se fizesse uma reforma institucional no FMI, que reconhecesse o peso econômico do Sul Global. Pacotes de reformas dormem no Congresso dos EUA desde 2010. E em abril passado, mais uma vez, foram bloqueados.

O Novo Banco de Desenvolvimento será muitíssimo mais democrático que o FMI controlado por EUA e União Europeia (UE).Considerem o dinheiro: 10 bilhões de dólares, contribuição de cada país membro. Significa que, mais cedo ou mais tarde, outras nações em desenvolvimento poderão juntar-se ao projeto. Já chamei de capitalismo de cassino versus um modelo de capitalismo produtivo.

A agenda da reunião foi gigantesca: os BRICS discutiram comércio, estratégias de desenvolvimento sustentável, política macroeconômica, energia, finanças, terrorismo, mudança climática, segurança regional, contrabando de drogas, crimes transnacionais, industrialização da África. Os BRICS já estão fazendo avançar uma torrente de projetos multilaterais estratégicos em termos de demarcar uma rede alternativa de infraestrutura; por exemplo, o cabo BRICS [BRICS cable], atualmente em implantação de Vladivostok a Shantou, Chennai, Cape Town e Fortaleza (onde se realizou a reunião). O cabo BRICS tem tudo a ver com segurança para a Tecnologia de Informações, transferência de tecnologia, giro de commodities – e facilitação de operações financeiras. Detalhe crucialmente importante: o cabo não passa pelos EUA.

Cabo submarino dos BRICS (em vermelho)
No segundo dia de reunião, os cinco presidentes dos países BRICS passaram quatro horas e meia em torno de uma mesa com líderes dos estados da UNASUL [esp. Unasur], a União das Nações Sul-Americanas [ing. the Union of South American Nations]. Ali estavam – Kirchner, da Argentina; Bachelet, do Chile; Santos, da Colômbia; Evo Morales, da Bolívia; Correa, do Equador; Pepe Mujica, do Uruguai; Maduro, da Venezuela; Umala, do Peru, dentre outros. Foi o Sul Global em ação; parcela substancial da verdadeira “comunidade internacional”, a que existe, discutindo produção, investimento, integração, não sanções e bombas.

Falaram sobre a miríade de possibilidades de investimentos BRICS em projetos de infraestrutura – e integração – por toda a América Latina. Por exemplo, como o presidente chinês Xi Jinping sugeriu, a estrada de ferro perenemente sonhada do Oceano Pacífico no Peru, ao Atlântico, no Brasil. Foi criado um grupo trilateral Brasil-Peru-China encarregado de planejar, desenhar, construir e operar a estrada de ferro transcontinental.

A Rússia partilhou a experiência que tem em investigações sobre lavagem de dinheiro e crimes transnacionais transfronteiras. No campo da segurança, Rússia e China partilharam a sinergia que há entre os dois BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] que conecta Rússia e China numa política de segurança comum com a Ásia Central.

Falaram sobre várias estratégias para escapar à vigilância do complexo orwelliano/ Panopticon. E muito falaram sobre lentamente implementar um mundo multilateral, multipolar.

Reunião de trabalho na VIª Cúpula dos BRICS 
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
De Brasília a Bruxelas

Em resumo, Putin e Xi jogaram xadrez no quintal de Obama, enquanto o moço-lá do “Yes We Can” brincava com – e o que poderia ser?! – mais sanções.

Eis o que disseram os BRICS, a uma só voz, sobre sanções:

Enfatizamos nosso compromisso com a solução sustentável e pacífica de conflitos, conforme os princípios e objetivos da Carta da ONU. Condenamos intervenções militares unilaterais e sanções econômicas em violação ao direito internacional e normas universalmente reconhecidas das relações internacionais. Tendo isso presente, enfatizamos a singular importância da natureza indivisível da segurança e que nenhum Estado deve fortalecer sua segurança em detrimento da segurança dos demais.

Enquanto os BRICS e a UNASUL falavam sobre cooperação e integração em Brasília, em Bruxelas a França, a Alemanha e a Itália eram os principais países da União Europeia que se recusaram a acompanhar Washington e impor à Rússia “sanções econômicas e de comércio setorial”. Mas a rachada União Europeia não tinha alternativa e acabou por ter de dançar conforme a Voz do Dono (as sanções que EUA estão criando agora ajudam muito a promover a “Parceria Comercial Trans-Atlântico”, o “livre” comércio de multibilhões de dólares contra o qual muitos ainda se opõem dentro da União Europeia).

Portanto, o Banco Europeu de Investimentos e o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento [orig. European Bank for Reconstruction and Development (EBRD)] vetarão novos projetos na Rússia, e a Comissão Europeia também suspenderá muitas dotações e empréstimos prometidos à Rússia.

A Casa Branca, claro, é senhora de um escaninho só dela, de mesquinharia e vingancismo. Significa mais sanções contra as empresas Rosneft, Gazprombank, Novatek, e contra o banco estatal de desenvolvimento econômico VEB, plus uma lista de mais oito empresas da Defesa, de propriedade do estado russo, contra funcionários do governo russo, contra uma empresa de petroleiros na Crimeia e contra federalistas em Donetsk e Lugansk no leste da Ucrânia. Os proverbiais “funcionários dos EUA” que não se identificam lá estavam, à mão, para declarar que essas sanções “restringirão” o acesso da Rússia ao “mercado dos EUA”.

Foto: Dmitry Kostyukov
Agora então comparem isso e a voz harmônica dos BRICS sobre a Ucrânia, que clama

(...) por um diálogo abrangente; pelo declínio das tensões no conflito; e pela moderação de todos os atores envolvidos, com vistas a encontrar solução política pacífica, em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas.

Alexei Pushkov, presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do Parlamento Russo, definiu muito bem, antes do encontro, o contexto em que aparecem os BRICS:

Quando dizem no ocidente que há algum tipo de “comunidade internacional” que nos condena, estão falando dos 28 estados-membros da OTAN e da União Europeia. Mas isso não é o mundo: isso é só a comunidade euro-atlântica. Tem seu peso, mas não é a comunidade mundial. É só uma fração dela.

Implica dizer pois que não são apenas BRICS contra o consenso de Washington; são também BRICS contra o “modelo” ocidental das sanções. E as mensagens superpostas que nos vêm de Fortaleza são claras como cristal: o monopólio do Ocidente, que o autorizava a definir a agenda global já não existe. Acabou.

Considerem também a voz unívoca dos BRICS sobre Israel/Palestina: os BRICS conclamam

(...) Israel e Palestina a retomar as negociações conducentes a uma solução de dois Estados, com um Estado palestino contíguo e economicamente viável, existindo lado a lado e em paz com Israel, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e reconhecidas internacionalmente com base nas linhas de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital.

Os BRICS claramente se opõem (...) à continuada construção e à expansão dos assentamentos nos Territórios Palestinos Ocupados pelo Governo israelense, que violam o direito internacional, solapam gravemente os esforços de paz e ameaçam a viabilidade da solução de dois Estados. Saudamos os recentes esforços pela unidade intra-palestina, inclusive a formação de um governo de unidade nacional e os passos em direção à realização de eleições gerais, elemento-chave para consolidar um Estado palestino democrático e sustentável.

Israel, claro, nem ouve. Prefere prosseguir com a limpeza étnica em câmera lenta e massacre, de Gaza.

Afinal, o ex-leão de chácara e hoje truculento ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman disse ao Kneset [parlamento] que:

(...) a operação deve concluir com o exército de Israel no pleno controle de toda a Faixa de Gaza.

Massacre em Gaza 2014
Os BRICS, por insistência de Rússia e China, até introduziram um projeto de Resolução da ONU, atualizado, sobre a necessidade de impedir a militarização do espaço sideral – como no projeto “Guerras das Estrelas” que é parte essencial da doutrina do Pentágono, de Dominação de Pleno Espectro. Adivinhe então quem sempre votou contra, na ONU: Telavive e Washington.

Por tudo isso, a escolha que o Sul Global está apresentando é, de fato, bem simples. Escolha o seu modelo: de um lado, há um modelo marcado por integração, cooperação, respeito mútuo; de outro lado, há outro modelo que ordena que você se curve à Voz do Dono; se você desobedecer, o modelo tentará matar você a golpes de sanções; detonará sua indústria de energia, seu acesso aos mercados financeiros, o bem-estar de seus cidadãos; se nada funcionar, o modelo bombardeia você, detona tudo, seu país é empurrado de volta à Idade Média.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Pepe Escobar: “BRICS contra o Consenso de Washington”

15/7/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Construindo com "bricks" (tijolos)
A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

O diabo, claro, reside nos detalhes de como farão tudo isso.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

Banco de Desenvolvimento dos BRICS – com capital inicial de US$ 50 bilhões – não visará só a projetos dos BRICS, mas também investirá em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em escala global. O modelo é o BNDES brasileiro, que apoia empresas brasileiras que investem em toda a América Latina. Em poucos anos, alcançará capacidade para financiamento de mais de US$ 350 bilhões. Com fundos extras vindos de Pequim e Moscou, a nova instituição pode fazer o Banco Mundial comer poeira. Comparem:

(I) acesso a capital realmente existente gerado por poupança, e
(II) acesso a papel pintado de verde que o governo dos EUA imprime sem lastro.

Dilma Rousseff discursa na abertura da Reunião dos BRICS - Fortaleza, Brasil - 2014
E há também o acordo que estabelece um pool de US$100 bilhões de moedas de reserva – o CRA [orig. Contingent Reserve Arrangement, Acordo de Reserva de Emergência], que o ministro de Finanças da Rússia, Anton Siluanov, descreveu como “uma espécie de mini-FMI”. É um mecanismo de não-Consenso-de-Washington, contragolpe para neutralizar a fuga de capitais. Para esse pool, a China contribuirá com US$ 41 bilhões; Brasil, Índia e Rússia, com US$ 18 bilhões cada; e África do Sul com US$ 5 bilhões.

O banco de desenvolvimento deverá ter sede em Xangai – embora Mumbai muito se tenha empenhado em causa própria. (Para conhecer mais a posição da Índia sobre os BRICS, vide India Tribune, 14/7/2014, “Construindo sobre tijolos [ing. bricks] de solidariedade”)

Muito mais que de economia e finança, aqui se trata de geopolítica: potências que estão emergindo oferecem uma alternativa ao fracassado Consenso de Washington. Ora, afinal, como dizem os apologistas do Consenso, os BRICS podem bem conseguir “aliviar os desafios” que lhes são impostos pelo “sistema financeiro internacional”. A estratégia é também é um dos elos-chaves da aliança progressivamente mais firme entre China e Rússia, que já se viu firmemente amarrada no negócio do século, de gás, e no Fórum Econômico de São Petersburgo.

Vladimir Putin e Xi Jinping reencontram-se em Fortaleza, BR (15/7/2014)
Vamos ao jogo de bola geopolítica

Assim como o Brasil conseguiu, contra muitas expectativas, construir e oferecer uma Copa do Mundo inesquecível – apesar de a seleção nacional do Brasil ter-se liquefeito – Vladimir Putin e Xi Xinping chegam agora à mesma grande área para uma exibição de geopolítica categoria top.

O Kremlin considera altamente estratégica a relação bilateral com Brasília. Putin não se limitou a assistir ao jogo final da Copa do Mundo no Rio de Janeiro; além do encontro com a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, também se reuniu com a chanceler alemã Angela Merkel (discutiram detalhadamente a Ucrânia). Um dos membros mais importantes da comitiva do presidente Putin é Elvira Nabiulin, presidenta do Banco Central da Rússia; ela tem divulgado em toda a América Latina o conceito de que as negociações com os BRICS devem deixar de lado o dólar norte-americano.

O encontro extremamente potente, emocionante, simbólico, entre Putin e Fidel Castro em Havana, além do cancelamento de US$ 36 bilhões da dívida cubana, não poderiam ter impacto mais significativo em toda a América Latina. Comparem a visita e o perdão da dívida, ao embargo perene e doentiamente vingancista que o Império do Caos impõe a Cuba.


Na América do Sul, Putin reúne-se não só com o presidente Pepe Mujica do Uruguai, com quem discutirá, dentre outros itens, a construção de um porto de águas profundas, mas também com Nicolás Maduro, da Venezuela e com Evo Morales, da Bolívia.

Xi Jinping também está em Fortaleza, Brasil. Visitará, além do Brasil, Argentina, Cuba e Venezuela. O que Pequim anda dizendo (e fazendo) complementa Moscou: a América Latina também é vista pela China como altamente estratégica. É ideia que se pode traduzir em mais investimentos chineses e maior integração Sul-Sul.

Essa ofensiva comercial/diplomática russo-chinesa integra-se ao movimento dessas potências na direção de um mundo multipolar – lado a lado com líderes sul-americanos. Exemplo claríssimo disso é a Argentina. Enquanto Buenos Aires, já mergulhada em recessão, ainda combate contra os fundos-carniceiros norte-americanos – o ápice da especulação financeira – nos tribunais de New York, Putin e Xi chegam a oferecendo investimento para tudo, de estradas de ferro à indústria da energia.

Claro que a indústria russa de energia precisa de investimentos e de tecnologia das multinacionais ocidentais privadas. E é verdade que a “Made in China” que se conhece desenvolveu-se sem investimento ocidental, mas explorando mão de obra barata. Agora, os BRICS tentam apresentar ao Sul Global uma escolha.

De um lado, a especulação financeira, os fundos-carniceiros e a hegemonia dos EUA, Patrões do Universo. Do outro lado, um capitalismo produtivo – uma estratégia alternativa para o desenvolvimento capitalista, se comparada ao que sempre fez e faz o “Trio” (EUA, UE e Japão).

Os fundos-carniceiros atacam...
Seja como for, ainda falta muito para que os países BRICS projetem um modelo produtivo independente do “modelo” de especulação & jogatina do capitalismo de cassino, o qual, por falar dele, ainda mal se recupera da crise massiva de 2007/2008 (a bolha financeira não rebentou “bem”...).

Há quem talvez veja a estratégia dos BRICS como parte de uma crítica construtiva, em andamento, em processo, em que o criticado é o próprio capitalismo: como livrar o sistema de ter perenemente de financiar o déficit fiscal dos EUA e sua síndrome da militarização planetária – relacionada ao complexo militar orwelliano/Panopticon – subordinado a Washington.

Como diz o economista argentino Julio Gambina, o importante não é ser “emergente”; o importante é ser “independente”.

Em coluna publicada essa semana em RT, Claudio Gallo, jornalista de La Stampa, introduz a questão que talvez seja a questão definitiva de nossos tempos: o fato de que o neoliberalismo – regendo quase todo o mundo, diretamente ou indiretamente – parece estar produzindo uma desastrosa mutação antropológica que nos está jogando, todos nós, num totalitarismo global (por mais que tantos falem tanto, praticamente sem parar, das “liberdades” das quais goza(ria)m no “ocidente”).

É sempre instrutivo voltar ao caso da Argentina. A Argentina está presa a uma crise de dívida externa gerada, há mais de 40 anos, pelo FMI – e atualmente “assumida” e perpetuada pelos fundos-carniceiros. O banco dos BRICS e o fundo de reserva, como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial oferece a possibilidade de que dezenas de outros países escapem ao suplício argentino. Para nem falar da possibilidade de que outras nações emergentes, como Indonésia, Malásia, Irã e Turquia também passem a contribuir para as novas instituições.


Não surpreende que a gangue de Patrões do Universo ainda hegemônica esteja agitada, nas suas poltronas estofadas. O Financial Times resume o pensamento da City de Londres, notório paraíso do capitalismo de cassino.

Vivem-se dias entusiasmantes na América do Sul, em mais de um sentido. A hegemonia atlanticista ainda permanecerá por aí, como parte do quadro, é claro. Mas é a estratégia dos BRICS que indica o rumo a tomar, na marcha para futuro mais adiantado. E é a roda multipolar que continua a rodar.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.