Mostrando postagens com marcador Massacre em Gaza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Massacre em Gaza. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Israel apara a grama

31/7/2014, [*] Mouin Rabbani, London Review of Books, vol. 36, n. 15, p. 8
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Ilustrações de Latuff - via web

Não alimente o criminoso
Em 2004, um ano antes de Israel retirar-se da Faixa de Gaza, Dov Weissglass, eminência parda de Ariel Sharon, explicou o objetivo da iniciativa, em entrevista ao jornal Haaretz:

O significado do plano de desengajamento é congelar o processo de paz (…) e quando se congela aquele processo, impede-se o estabelecimento de um estado palestino, e impede-se que se discuta a questão dos refugiados, as fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado o estado palestino, com tudo que implica, foi removido por prazo indefinido, de nossa agenda. E isso tudo com (...) as bênçãos do presidente dos EUA e a ratificação das duas casas do Congresso (...). O desengajamento é, de fato, formol. Fornece a quantidade necessária de formol para que não haja processo político algum com os palestinos.

Em 2006, Weissglass era igualmente franco sobre a política de Israel para os 1,8 milhão de habitantes de Gaza:

A ideia é pôr os palestinos em regime de restrição de comida, não matá-los de fome.

Não falava metaforicamente: soube-se depois que o Ministério da Defesa de Israel havia feito pesquisa detalhada sobre como pôr em prática seu projeto, e chegou ao número limite de 2.279 calorias por pessoa por dia – cerca de 8% menos que cálculo anterior, porque a equipe de pesquisa havia esquecido, da primeira vez, de considerar os fatores “cultura e experiência”, no cálculo para determinar as “linhas vermelhas” nutricionais.

Não foi exercício acadêmico. Depois de aplicar uma política de integração entre 1967 e o final da década dos 1980s, a política israelense deu uma guinada no rumo da separação durante os levantes de 1987-93, e da fragmentação durante os anos de Oslo. Para a Faixa de Gaza, área do tamanho da Grande Glasgow, essas mudanças implicaram gradual rompimento e separação do mundo exterior, com a entrada e saída de pessoas e bens para dentro e para fora do território já cada vez mais difíceis.

   Povo Escolhido                       Povo Caçado
Os parafusos foram sendo arrochados cada vez mais durante o levante de 2000-5, e em 2007 afinal a Faixa de Gaza foi efetivamente fechada para o mundo. Todas as exportações foram proibidas e só 131 caminhões de comida e alguns produtos essenciais podiam entrar, por dia. Israel também controlava rigorosamente que produtos podiam e não podiam ser importados. Itens proibidos incluíam papel A4, chocolate, coentro, lápis de cera, geleia, macarrão, xampu, sapatos e cadeiras de rodas.

Em 2010, comentando essa degradação premeditada e sistemática do padrão de humanidade de uma população inteira, David Cameron disse que a Faixa de Gaza era um “campo de concentração de prisioneiros” e – pela primeira vez – não suavizou a avaliação acrescentando-lhe um comentário sobre o direito de os carrascos defenderem-se contra o “perigo” que seus prisioneiros e vítimas representariam.

Tem-se repetido que a razão pela qual Israel sempre torna cada vez mais violento o seu regime de castigo coletivo seria derrubar o Hamás, que chegou ao poder em 2007, em Gaza. É só, uma mentira a mais. Remover o Hamás do poder é objetivo dos EUA e da União Europeia desde o dia em que o movimento venceu as eleições parlamentares de 2006; e os esforços combinados daquelas forças para derrubar o Hamás do poder ajudou a preparar o cenário para que Israel se dedicasse a aprofundar o cisma palestino.

A agenda de Israel é bem outra. Se quisesse pôr fim ao poder do Hamás, já o teria feita e até bem facilmente, sobretudo antes, enquanto o Hamás ainda consolidava seu controle sobre Gaza em 2007, a sem necessariamente reverter o desengajamento de 2005. Mas, não. Israel viu o cisma entre o Hamás e a Autoridade Palestina como uma oportunidade para aprofundar suas políticas de separação e fragmentação, e para aliviar a crescente pressão internacional para pôr fim a uma ocupação da Palestina que já durara meio século.

Os ataques massivos de Israel contra a Faixa de Gaza em 2008-9 (Operação Chumbo Derretido) e em 2012 (Operação Pilar de Defesa), além dos incontáveis ataques individuais entre uma grande guerra e outra, foram, nesse contexto, exercício para o que os militares israelenses chamaram de “aparar a grama”: enfraquecer o Hamás e ampliar os poderes “de contenção” de Israel. Como o Relatório Goldstone de 2009 e outras investigações demonstraram, às vezes em detalhes horrivelmente dolorosos, a “grama” é gente, pessoas, civis palestinos não combatentes, tomados como alvos humanos da artilharia indiscriminada dos israelenses.

Operação Chumbo Derretido (Cast Lead)
O atual ataque de Israel contra a Faixa de Gaza, que começou dia 6 de julho/2014, com invasão também por terra iniciada dez dias depois, é mais uma ação na mesma agenda. As condições foram consideradas maduras no final de abril. Negociações que se arrastavam há nove meses começaram a parar quando o governo israelense não cumpriu o compromisso de libertar vários palestinos mantidos encarcerados desde antes dos Acordos de Oslo de 1993; e pararam, mesmo, quando Netanyahu anunciou que não mais negociaria com Mahmoud Abbas, “porque” Abbas acabava de assinar acordo de reconciliação com o Hamás.

Nessa ocasião, em atitude em tudo diversa da “normal”, o Secretário de Estado dos EUA John Kerry explicitamente culpou Israel pelo rompimento das conversações. O enviado especial dos EUA, Martin Indyk, profissional lobbyista pró-Israel, também culpou o insaciável apetite de Israel por terras palestinas e pela expansão continuada das colônias, e demitiu-se.

O desafio lançado contra Netanyahu foi bem claro. Se até os norte-americanos já estão dizendo ao mundo que Israel não tem qualquer interesse em paz, os mais diretamente investidos num acordo com vistas a uma solução de Dois Estados – como a União Europeia, que já começou a excluir entidades israelenses ativas nos Territórios Palestinos Ocupados, de participação em acordos bilaterais – podem começar a pensar em novos meios para empurrar Israel de volta para dentro das fronteiras de 1967.

Negociações sobre coisa-alguma são planejadas para garantir cobertura política à odiosa política israelense de anexação. Agora que novamente fracassaram, o patrimônio estratégico que é a opinião pública norte-americana pode começar a perguntar-se por que o Congresso dos EUA é mais leal a Netanyahu que o Knesset israelense.

Kerry trabalhou a valer para conseguir acordo amplo: pegou praticamente todas as exigências de Israel e enfiou-as pela goela abaixo de Abbas. Pois mesmo assim Netanyahu continuava a reclamar. Além de se recusar a especificar futuras fronteiras israelenses-palestinas durante os nove meses de negociação, os líderes israelenses levantaram tais acusações contra Washington, tão violentas – de encorajar o extremismo, socorrer terroristas – que quase se poderia concluir que o Congresso dos EUA apoia o Hamás, não Israel! E ao custo de US$ 3 bilhões anuais.

Israel recebeu outro golpe dia 2/6/2014, quando tomou posse um novo governo da Autoridade Palestina, depois do acordo de reconciliação de abril entre os partidos Hamás e Fatah. O Hamás apoiou o novo governo apesar de não receber postos no Gabinete e de a composição e o programa do governo serem virtualmente idênticos aos do governo anterior.

Hamas e Fatah
Praticamente sem protesto dos islamistas, Abbas repetiu e proclamou que o governo aceitava as demandas do “Quarteto do Oriente Médio”: reconhecia Israel, renunciava à violência e aderia a acordos anteriores. Anunciou também que as forças de segurança na Cisjordânia continuariam a colaborar com Israel.

Quando Washington e Bruxelas sinalizaram a intenção de cooperar com o novo governo, todos os sinais de alarme dispararam em Israel.

O que Israel repetiu sempre, que os negociadores palestinos falam cada um só por si próprio – e que, por isso, nenhum acordo seria jamais cumprido – começara a perder sentido: a liderança palestina não apenas podia dizer que representa a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, como, também, conseguira cooptar o Hamás para que apoiasse um acordo negociado para Dois Estados, quase, praticamente, no contexto de Oslo. Sem demora, começariam as pressões sobre Israel para que negociasse a sério com Abbas. O formol começava a evaporar.

Nesse ponto, Netanyahu apropriou-se do desaparecimento, dia 12/6/2014, de três israelenses jovens na Cisjordânia, como um afogado agarra-se a uma boa salva-vidas.

Apesar das provas que recebeu das forças de segurança de Israel de que os três já estavam mortos, e não há até hoje prova alguma de que o Hamás tivesse tido qualquer envolvimento nesses eventos, Netanyahu imediatamente acusou diretamente o Hamás e, na sequência, lançou vasta campanha para “resgatar os reféns” em toda a Cisjordânia. Foi, de fato, operação de assalto e saque militar. Incluiu o assassinato de pelo menos seis palestinos, nenhum dos quais acusado de participação no desaparecimento dos três israelenses; prisões em massa, inclusive de deputados do Hamás e a recaptura de prisioneiros libertados em 2011; demolição de muitas casas e invasão e saque de outras; e variedade enorme de depredações do tipo que Israel elevou à posição de uma das belas artes ao longo de décadas de ocupação.

Netanyahu desencadeou festival de fogos de artifício demagógicos contra todos os palestinos; o sequestro seguido de assassinato – foi queimado vivo – de um jovem palestino em Jerusalém não pode ser e não será separado dessa mesma campanha de incitamento ao ódio.

Mahmoud Abbas e o massacre em Gaza
Por sua parte, Abbas falhou mais uma vez e não se opôs à operação israelense; até ordenou que suas forças de segurança continuassem a cooperar com Israel na caçada ao Hamás. O acordo de reconciliação foi posto sob grave pressão. Na noite de 6/7/2014, um ataque aéreo israelense resultou na morte de sete militantes do Hamás.

O Hamás respondeu com fogo sustentado de foguetes que invadiram o centro do território israelense; e escalaram novamente depois que Israel lançou campanha de massacre massivo.

Ao longo do último ano, o Hamás esteve sempre em posição precária: perdeu suas instalações em Damasco e o status preferencial de que gozava no Irã, efeito de o grupo ter-se recusado a declarar apoio ao regime sírio; e enfrentou níveis sem precedentes de hostilidade, pelo novo regime militar egípcio. A economia subterrânea dos túneis entre Egito e Gaza foi sistematicamente atacada pelos egípcios, e pela primeira vez desde que passou a controlar politicamente o território, em 2007, o Hamás não conseguiu pagar em dia os salários das dezenas de milhares de funcionários públicos. O acordo de reconciliação com o partido Fatah foi a tentativa de trocar o próprio programa político pela sobrevivência imediata: em troca de conceder a arena política a Abbas, o Hamás conservaria o governo da Faixa de Gaza, com seus funcionários incluídos na folha de pagamentos da Autoridade Palestina e a passagem de fronteira com o Egito reaberta.

No evento, a troca que o Hamás esperava ver realizada não aconteceu; e, segundo Nathan Thrall do International Crisis Group, “a vida em Gaza piorou”. “A escalada real”, Thrall escreveu, “é resultado direto de Israel e o Ocidente terem-se oposto à implementação do acordo de reconciliação entre os palestinos, de abril de 2014”. Ou, dito de outro modo: os que, dentro do Hamás, viram a crise como uma oportunidade para pôr fim ao governo de Weissglass, passaram a controlar o partido. Até agora, parecem ter com eles a maioria da população – porque preferem morrer sob fogo dos F-16, do que morrer mergulhados em formol.

Ante o coral de uivos hipócritas – que dessa vez incluem os guinchos de um acovardado Cameron – sobre um “direito de autodefesa” que caberia a Israel, e ante a absoluta negação aos palestinos do mesmo direito, com muita frequência se deixa passar sem ver o ponto fundamental: que o ataque israelense contra os palestinos é ilegítimo.

Como argumentou com muita pertinência o advogado Noura Erakat, “Israel não tem qualquer direito de autodefesa, nos termos da lei internacional, contra território palestino ocupado”. O argumento de Israel, de que já não estaria ocupando a Faixa de Gaza, foi descartado por Lisa Hajjar, da Universidade da Califórnia, como uma autoemitida “licença para matar”.

Netanyahu e o massacre em Gaza
Mais uma vez, Israel está “aparando a grama” em total impunidade, assassinando civis não combatentes e destruindo infraestrutura civil. Dada a afirmativa repetida dos israelenses de que usam as armas mais precisas disponíveis e miram atentamente os alvos, é impossível não concluir que os assassinatos são deliberadamente mirados.

Segundo agências da ONU, mais de ¾ dos mais de 260 palestinos mortos até agora são civis, e mais de ¼ desses são crianças. A maioria foi “mirada’ e morta dentro das próprias casas: não podem ser apresentados como “dano colateral”, seja qual for a definição dessa expressão. Claro que os militantes palestinos miram cruelmente os centros israelenses mais populosos, embora seus ataques só tenham produzido uma única morte: um israelense que oferecia doces a soldados que pulverizavam a Faixa de Gaza. 

A ONG Human Rights Watch criticou os dois lados, sim. Mas só acusou os palestinos por crimes de guerra...


[*] Mouin Rabbani nasceu na Holanda. Recebeu seu Bacharelado em História e Relações Internacionais pela Universidade de Tufts, em 1986; Mestrado em Estudos Contemporâneos árabes na Universidade de Georgetown. Foi analista político para assuntos do Oriente Médio no International Crisis Group, Diretor do Centro de Pesquisa Palestino−Americano, Diretor de Projetos da Associação de Municípios Países Baixos; Editor Geral voluntário do anuário Al Haq. Rabbani é atualmente um membro sênior do Instituto de Estudos da Palestina, co-editor de Jadaliyya, e editor colaborador do Middle East Report. Rabbani publicou em vários veículos, incluindo Third World Quarterly, Journal of Palestine Studies, The Nation, Foreign Policy, London Review of Books, e The Hill . Suas opiniões e análises tem sido citados por vários meios de comunicação internacionais, como o The New York Times, The Guardian, Reuters, Haaretz, The Washington Post, e Al Jazeera. É ardente defensor da solução de Estado Único para Israel-Palestina.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pepe Escobar: “Ouçam o som do Sul Global”

17/7/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abertura  VIª Cúpula dos BRICS - Fortaleza, 2014
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
A reunião dos BRICS no nordeste do Brasil já fez história por uma razão chave: a criação do Novo Banco de Desenvolvimento.

Podem chamá-lo de antídoto Sul Global àquela máquina de ajuste estrutural, o FMI. Muitas e muitas vezes, as nações membros do grupo BRICS e outras insistiram para que se fizesse uma reforma institucional no FMI, que reconhecesse o peso econômico do Sul Global. Pacotes de reformas dormem no Congresso dos EUA desde 2010. E em abril passado, mais uma vez, foram bloqueados.

O Novo Banco de Desenvolvimento será muitíssimo mais democrático que o FMI controlado por EUA e União Europeia (UE).Considerem o dinheiro: 10 bilhões de dólares, contribuição de cada país membro. Significa que, mais cedo ou mais tarde, outras nações em desenvolvimento poderão juntar-se ao projeto. Já chamei de capitalismo de cassino versus um modelo de capitalismo produtivo.

A agenda da reunião foi gigantesca: os BRICS discutiram comércio, estratégias de desenvolvimento sustentável, política macroeconômica, energia, finanças, terrorismo, mudança climática, segurança regional, contrabando de drogas, crimes transnacionais, industrialização da África. Os BRICS já estão fazendo avançar uma torrente de projetos multilaterais estratégicos em termos de demarcar uma rede alternativa de infraestrutura; por exemplo, o cabo BRICS [BRICS cable], atualmente em implantação de Vladivostok a Shantou, Chennai, Cape Town e Fortaleza (onde se realizou a reunião). O cabo BRICS tem tudo a ver com segurança para a Tecnologia de Informações, transferência de tecnologia, giro de commodities – e facilitação de operações financeiras. Detalhe crucialmente importante: o cabo não passa pelos EUA.

Cabo submarino dos BRICS (em vermelho)
No segundo dia de reunião, os cinco presidentes dos países BRICS passaram quatro horas e meia em torno de uma mesa com líderes dos estados da UNASUL [esp. Unasur], a União das Nações Sul-Americanas [ing. the Union of South American Nations]. Ali estavam – Kirchner, da Argentina; Bachelet, do Chile; Santos, da Colômbia; Evo Morales, da Bolívia; Correa, do Equador; Pepe Mujica, do Uruguai; Maduro, da Venezuela; Umala, do Peru, dentre outros. Foi o Sul Global em ação; parcela substancial da verdadeira “comunidade internacional”, a que existe, discutindo produção, investimento, integração, não sanções e bombas.

Falaram sobre a miríade de possibilidades de investimentos BRICS em projetos de infraestrutura – e integração – por toda a América Latina. Por exemplo, como o presidente chinês Xi Jinping sugeriu, a estrada de ferro perenemente sonhada do Oceano Pacífico no Peru, ao Atlântico, no Brasil. Foi criado um grupo trilateral Brasil-Peru-China encarregado de planejar, desenhar, construir e operar a estrada de ferro transcontinental.

A Rússia partilhou a experiência que tem em investigações sobre lavagem de dinheiro e crimes transnacionais transfronteiras. No campo da segurança, Rússia e China partilharam a sinergia que há entre os dois BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] que conecta Rússia e China numa política de segurança comum com a Ásia Central.

Falaram sobre várias estratégias para escapar à vigilância do complexo orwelliano/ Panopticon. E muito falaram sobre lentamente implementar um mundo multilateral, multipolar.

Reunião de trabalho na VIª Cúpula dos BRICS 
Foto Yasuyoshi Chiba-15/7/2014
De Brasília a Bruxelas

Em resumo, Putin e Xi jogaram xadrez no “quintal” de Obama, enquanto o moço-lá do “Yes We Can” brincava com – e o que poderia ser?! – mais sanções.

Eis o que disseram os BRICS, a uma só voz, sobre sanções:

Enfatizamos nosso compromisso com a solução sustentável e pacífica de conflitos, conforme os princípios e objetivos da Carta da ONU. Condenamos intervenções militares unilaterais e sanções econômicas em violação ao direito internacional e normas universalmente reconhecidas das relações internacionais. Tendo isso presente, enfatizamos a singular importância da natureza indivisível da segurança e que nenhum Estado deve fortalecer sua segurança em detrimento da segurança dos demais.

Enquanto os BRICS e a UNASUL falavam sobre cooperação e integração em Brasília, em Bruxelas a França, a Alemanha e a Itália eram os principais países da União Europeia que se recusaram a acompanhar Washington e impor à Rússia “sanções econômicas e de comércio setorial”. Mas a rachada União Europeia não tinha alternativa e acabou por ter de dançar conforme a Voz do Dono (as sanções que EUA estão criando agora ajudam muito a promover a “Parceria Comercial Trans-Atlântico”, o “livre” comércio de multibilhões de dólares contra o qual muitos ainda se opõem dentro da União Europeia).

Portanto, o Banco Europeu de Investimentos e o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento [orig. European Bank for Reconstruction and Development (EBRD)] vetarão novos projetos na Rússia, e a Comissão Europeia também suspenderá muitas dotações e empréstimos prometidos à Rússia.

A Casa Branca, claro, é senhora de um escaninho só dela, de mesquinharia e vingancismo. Significa mais sanções contra as empresas Rosneft, Gazprombank, Novatek, e contra o banco estatal de desenvolvimento econômico VEB, plus uma lista de mais oito empresas da Defesa, de propriedade do estado russo, contra funcionários do governo russo, contra uma empresa de petroleiros na Crimeia e contra federalistas em Donetsk e Lugansk no leste da Ucrânia. Os proverbiais “funcionários dos EUA” que não se identificam lá estavam, à mão, para declarar que essas sanções “restringirão” o acesso da Rússia ao “mercado dos EUA”.

Foto: Dmitry Kostyukov
Agora então comparem isso e a voz harmônica dos BRICS sobre a Ucrânia, que clama

(...) por um diálogo abrangente; pelo declínio das tensões no conflito; e pela moderação de todos os atores envolvidos, com vistas a encontrar solução política pacífica, em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas.

Alexei Pushkov, presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do Parlamento Russo, definiu muito bem, antes do encontro, o contexto em que aparecem os BRICS:

Quando dizem no ocidente que há algum tipo de “comunidade internacional” que nos condena, estão falando dos 28 estados-membros da OTAN e da União Europeia. Mas isso não é o mundo: isso é só a comunidade euro-atlântica. Tem seu peso, mas não é a comunidade mundial. É só uma fração dela.

Implica dizer pois que não são apenas BRICS contra o consenso de Washington; são também BRICS contra o “modelo” ocidental das sanções. E as mensagens superpostas que nos vêm de Fortaleza são claras como cristal: o monopólio do Ocidente, que o autorizava a definir a agenda global já não existe. Acabou.

Considerem também a voz unívoca dos BRICS sobre Israel/Palestina: os BRICS conclamam

(...) Israel e Palestina a retomar as negociações conducentes a uma solução de dois Estados, com um Estado palestino contíguo e economicamente viável, existindo lado a lado e em paz com Israel, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e reconhecidas internacionalmente com base nas linhas de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital.

Os BRICS claramente se opõem (...) à continuada construção e à expansão dos assentamentos nos Territórios Palestinos Ocupados pelo Governo israelense, que violam o direito internacional, solapam gravemente os esforços de paz e ameaçam a viabilidade da solução de dois Estados. Saudamos os recentes esforços pela unidade intra-palestina, inclusive a formação de um governo de unidade nacional e os passos em direção à realização de eleições gerais, elemento-chave para consolidar um Estado palestino democrático e sustentável.

Israel, claro, nem ouve. Prefere prosseguir com a limpeza étnica em câmera lenta e massacre, de Gaza.

Afinal, o ex-leão de chácara e hoje truculento ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman disse ao Kneset [parlamento] que:

(...) a operação deve concluir com o exército de Israel no pleno controle de toda a Faixa de Gaza.

Massacre em Gaza 2014
Os BRICS, por insistência de Rússia e China, até introduziram um projeto de Resolução da ONU, atualizado, sobre a necessidade de impedir a militarização do espaço sideral – como no projeto “Guerras das Estrelas” que é parte essencial da doutrina do Pentágono, de Dominação de Pleno Espectro. Adivinhe então quem sempre votou contra, na ONU: Telavive e Washington.

Por tudo isso, a escolha que o Sul Global está apresentando é, de fato, bem simples. Escolha o seu modelo: de um lado, há um modelo marcado por integração, cooperação, respeito mútuo; de outro lado, há outro modelo que ordena que você se curve à Voz do Dono; se você desobedecer, o modelo tentará matar você a golpes de sanções; detonará sua indústria de energia, seu acesso aos mercados financeiros, o bem-estar de seus cidadãos; se nada funcionar, o modelo bombardeia você, detona tudo, seu país é empurrado de volta à Idade Média.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.