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domingo, 21 de agosto de 2011

Alô Governo! Cadê o MARCO CIVIL da internet?

A internet ameaçada


Por Emiliano José em 9 de agosto de 2011

Está em curso no Brasil uma clara luta política, envolvendo a internet.
Que ninguém se engane: é uma luta política.

Há a posição dos que acreditam, como eu e vários outros deputados e deputadas, como Paulo Teixeira, Luiza Erundina, Jean Willis, Manuela D´Avila, Paulo Pimenta e tantos outros, que primeiro é o caso de garantir a existência de um marco civil garantidor das liberdades, uma espécie de orientação básica do direito humano de acesso à internet, hoje um instrumento fundamental para o desenvolvimento da cidadania, da cultura, da educação e da própria participação política.

E a posição dos que se apressam a procurar mecanismos de criminalização dos usuários da rede, que hoje no Brasil, com todas as dificuldades de acesso, já chegam perto dos 70 milhões. Como pensar primeiro no crime face a essa multidão, e depois na liberdade de acesso? Só os conservadores, interessados em atender a evidentes interesses econômicos, podem pensar primeiro na criminalização e só então nos direitos democráticos dos usuários.

Creio que a internet, tenho dito isso com frequência, é uma espécie de marco civilizatório, que mudou a natureza da sociabilidade contemporânea, a relação entre as pessoas e os povos, mudou a própria política, impactou a própria noção de representação. Constitui um admirável mundo novo, a ser preservado sob um estatuto de liberdades, e não constrangido sob uma pletora de leis criminalizantes. Talvez seja o seu potencial revolucionário, a possibilidade que ela dá de articulação em rede, que provoque urticária nos conservadores. Talvez, não. Certamente.

Nos últimos dias, os defensores da criminalização navegam num cenário de representação terrorista, como se os últimos ataques de hackers a sites governamentais fossem uma absoluta novidade e como se uma legislação que criminalize usuários ou tente colocá-los sob o guante de um vigilantismo absoluto fosse segurança suficiente para a ação dos hackers. Os ataques aos sites governamentais não tiveram qualquer gravidade, foram coisas de amadores, como já se provou. E curioso é que só tenham sido atacados sites do governo. Não é que não haja leis ou que não deva haver. Deve. Mas, devagar com o andor que o santo é de barro.

Primeiro, vamos pensar nas liberdades. 
Não devemos nos apressar, como pretende o deputado Azeredo, com o projeto de criminalização de usuários.

Pretender uma vigilância absurda ao acabar com a navegação anônima na rede, ao querer guardar por três anos os dados de todo mundo nos provedores, ao estabelecer uma espécie de big brother pairando sobre a multidão de navegantes, que tem o direito de liberdade de expressão e não podem estar submetidos ao grande irmão.

O governo federal se preocupou com isso, com as liberdades, e instalou uma consulta pública sobre o Marco Civil da Internet no Brasil de forma a construir democraticamente um sistema garantidor de princípios, garantias e direitos dos usuários da internet, o que é a atitude mais correta, e primeira, se quisermos tratar a sério das coisas da rede.

Entre outubro de 2009 e maio de 2010 a consulta se desenvolveu, com ampla participação, e, ao que sabemos, o marco civil foi elaborado, só faltando a assinatura do Ministério do Planejamento para voltar à Casa Civil da Presidência da República, para então, assinado pela presidenta Dilma, chegar à Câmara Federal.

Não se trata de primeiro chamar a polícia. Primeiro, vamos garantir liberdades e direitos. Depois, pensar na tipificação dos crimes. Até porque a ideia de que colocar na cadeia um bocado de jovens usuários resolve o problema é uma ilusão de bom tamanho. Os hackers, os mais competentes, os mais habituados aos segredos da rede, costumam entrar em sistemas sofisticados sem grandes dificuldades. A própria rede, no entanto, tem condições amplas de desenvolver sistemas de prevenção, de segurança, reconhecidamente eficientes, embora não se possa dizer nunca que invioláveis.

Creio que o melhor é baixar a bola, insistir junto ao governo para o envio o mais rápido possível do projeto do marco civil da internet para o Congresso, e depois disso, então pensar na tipificação dos crimes e nas punições possíveis, sem nunca mexer nas liberdades dos usuários, e sem estabelecer quaisquer medidas que visem acabar com a navegação anônima, até porque isso, sem dúvida, seria mexer com o princípio sagrado das liberdades individuais e confrontaria com a própria Constituição.

No dia 13 de julho, foi realizado um seminário na Câmara Federal, com a participação de especialistas e de setores da sociedade civil, para debater o assunto. O seminário foi resultado de uma proposta minha, com a visão que expresso aqui, e outra do deputado Sandro Alex, que tem uma visão diversa, embora, como me disse, disposto ao diálogo para chegar a um consenso. Nós juntamos as duas iniciativas, e o debate foi muito esclarecedor de que interesses estão em jogo.

De um lado, aqueles que defendem o projeto Azeredo, estiveram empresas de segurança da área da informática, BANQUEIROS, escritórios de advocacia interessados nos clientes que o projeto Azeredo vai criar, e setores conservadores do Judiciário.


Do outro lado, entre os que sustentam as posições que tenho defendido; os que defendem a liberdade na internet e que demonstraram o quanto de atraso poderia significar a aprovação desse projeto, que a rede dos libertários chamou com propriedade de AI-5 digital da internet.

Ficou evidente, durante o seminário, que o projeto Azeredo, além de tudo, atende aos interesses do mundo das empresas que defendem os direitos autorais no sentido mais conservador, inclusive dos grandes centros da indústria cultural dos EUA. É que o projeto pretende impedir a prática tão comum da maioria dos internautas de baixar músicas, por exemplo. Milhões de pessoas seriam criminalizadas se o AI-5 digital fosse aprovado. Os militantes digitais que se colocam contra o projeto entregaram ao presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, Bruno Araújo, do PSDB, durante o seminário, por proposta minha, um abaixo-assinado com mais de 163 mil assinaturas contra o projeto, a evidenciar o quanto de revolta ele tem provocado.

Há a previsão de que o projeto seja votado logo no início de agosto deste ano. Lutamos para que não fosse votado imediatamente, como se pretendia, e justiça se faça, o deputado Azeredo concordou com o adiamento. Creio, no entanto, que o melhor seria, como já disse, aguardar a chegada do marco civil para só depois, então, pensar na tipificação de crimes. E vamos tentar isso. Na verdade, o projeto é muito ruim e não deveria ser aprovado. O importante é que todos estejam atentos para que a democracia não seja atingida, para que a liberdade na internet não seja violentada.

Emiliano José é jornalista, escritor, doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia.
Extraído do Blog do Emiliano José

sábado, 4 de dezembro de 2010

WikiVazamentos mostram que os EUA redigiram a “lei para a Internet” da Espanha

PERIGO! ATENÇÃO À LEI AZEREDO! TUDO É POSSÍVEL! VAMOS ABRIR O OLHO!


3/12/2010, Cory Doctorow, 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Congresso da Espanha está às vésperas de votar nova lei, extremamente rígida sobre copyright/Internet law. É ideia “secreta” sabida de todos, que a lei foi redigida por grupos da indústria norte-americana, trabalhando com representantes comerciais dos EUA na Espanha.

Mas a coisa agora ficou mais interessante: 115 dos telegramas vazados por WikiLeaks interceptados da Embaixada da Espanha em Madri, eram marcados pela expressão "KIPR" – relativos a “propriedade intelectual”. A grande questão é: o jornal El Pais, que recebeu na Espanha os arquivos de WikiLeaks divulgará o conteúdo dos telegramas a tempo de a descoberta afetar a votação da nova lei?

Pelo menos, já começaram a divulgação. Foram publicados os primeiros 35 do total de 115 telegramas, e confirma-se a suspeita de todos: o governo espanhol e o partido de oposição foram levados como boi de argola, pelo nariz, pelos norte-americanos, que são hoje a única autoridade legislativa com poder na Espanha.

Chegamos então à segunda pergunta: quando o Congresso espanhol votar a nova lei de copyrights ainda esse mês, votarão como Congresso soberano, ou votarão como Estado fantoche dos EUA?

A prioridade que os norte-americanos atribuem à questão está bem evidente no nível dos interlocutores que selecionaram: a vice-presidenta María Teresa Fernández de la Vega foi das primeiras a serem abordadas. Um ataché da Embaixada dos EUA falou à vice-presidenta dia 22/2/2005. O telegrama n. 27536, que redigiu no dia seguinte ao encontro com de la Vega, encerra-se com o seguinte parágrafo:

“Dada a quantidade de estrelas da indústria do entretenimento com clara abertura favorável ao governo socialista (é significativo que Zapatero tenha assistido ao equivalente espanhol da cerimônia de entrega dos Oscar), é possível que esse governo seja especialmente sensível a fazer alguma coisa nesse setor. Precisamos de cerca de um ano para que essa sensibilidade seja traduzida em resultados”.

Dia 10/11/2005, o embaixador encontrou-se com a ministra da Cultura, Carmen Calvo: no telegrama n. 45583, o próprio embaixador conclui que o governo espanhol tem boas intenções, mas que não há resultados.

A tônica é sempre a mesma. A gigante Motion Pictures Association, que reúne as majors de Hollywood, pressiona dos EUA. A indústria espanhola se queixa da permissividade em relação ao que se baixa da Internet, sobretudo músicas. 

Em 2007 acontece o ponto de inflexão: dia 28/12; a delegação norte-americana em Madri emite um telegrama (n. 135868) que contém plano detalhado. Assunto: a estratégia para reformar os direitos de propriedade intelectual na Espanha. 

O telegrama detalha um plano de curto, longo e médio prazo, com cronograma de visitas a vários políticos, com ações intermédias nos ministérios da Cultura e da Indústria, encontros com operadoras de telecomunicações, visitas de especialistas norte-americanos à Espanha... E antecipa uma medida a ser tomada imediatamente: incluir a Espanha na lista negra dos países que não tem “lei de meios” aceitável.