Mostrando postagens com marcador Sheldon Wolin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sheldon Wolin. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Estertores da democracia nos EUA


5/1/2014, [*] Chris Hedges, Truthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Se os norte-americanos não desmantelarmos imediatamente o aparelho de segurança e vigilância, não haverá jornalismo investigativo ou supervisão judicial que detenha o abuso de poder. Não haverá contraditório organizado. Não haverá pensamento independente. A crítica, por morna que seja, será tratada como ato de subversão. O aparelho de segurança amortalhará o corpo político como mofo negro, até que o mais banal e ridículo seja convertido em questão de segurança nacional.

O Gen. Keith Alexander, Diretor da NSA (National Security Agency), testemunhou no Capitólio (no Comitê Judiciário do Senado) em dezembro de 2013, e obteve um memorando autorizando “Supervisão contínua pelas autoridades fiscalizadoras do Governo dos EUA” de quaisquer cidadãos sem prévia autorização judicial.
Os EUA vivemos nossos últimos estertores como democracia. A intrusão do estado na vida de cada um e todos, e a obliteração da privacidade já são agora fatos. O desafio para todos nós – dos desafios finais, suspeito eu – é nos levantarmos ultrajados e pôr fim ao assalto aos nossos direitos à liberdade e à livre expressão. Se não o fizermos, nos veremos convertidos numa nação de cativos.

Os debates públicos sobre medidas do governo para impedir o terrorismo, o assassinato de reputação contra Edward Snowden e seus apoiadores, as garantias, pelos poderosos, de que ninguém estaria dando mau uso à quantidade massiva de dados coletados e armazenados das nossas comunicações eletrônicas não visam ao alvo alegado.

Qualquer governo que tenha capacidade para monitorar seus cidadãos; qualquer estado tenha capacidade para descartar o debate público sobre fatos; qualquer estado que tenha ferramentas suficientes para calar instantaneamente a oposição discrepante é estado totalitário.

Hoje, o estado-empresa [orig. corporate state] norte-americano pode talvez não estar usando todo esse poder. Mas o usará, se se sentir ameaçado por uma população tornada impotente pela corrupção entre os próprios cidadãos, pela incapacidade para organizar-se para agir, ou por repressão galopante. No instante em que surja um movimento popular – e algum surgirá – que realmente confronte nossos patrões na imprensa-empresa ou no estado-empresa, o venal sistema-empresa norte-americano de vigilância total será posto a trabalhar a pleno vapor.

O mal mais radical, como Hannah Arendt apontou, é o sistema político que efetivamente esmaga seus oponentes marginalizados e abusados e, pelo medo e pela obliteração da privacidade, incapacita todos os demais. O sistema norte-americano de vigilância de massa é a máquina pela qual esse mal radical será ativado.

Se os norte-americanos não desmantelarmos imediatamente o aparelho de segurança e vigilância, não haverá jornalismo investigativo ou supervisão judicial que detenha o abuso de poder. Não haverá o contraditório organizado. Não haverá pensamento independente. A crítica, por morna que seja, será tratada como atos de subversão. O aparelho de segurança amortalhará o corpo político como um mofo negro, até que o mais banal e ridículo seja convertido em questão de segurança nacional.

Conheci mal dessa qualidade, quando trabalhei como repórter no estado-Stasi (al. no orig., “Ministério da Segurança do Estado”) da Alemanha Oriental. Era seguido por homens de cabelo cortado à militar, metidos em jaquetas de couro, que eu presumia que fossem agentes do Stasi, que eram apresentados como “escudo e espada” da nação. As pessoas que eu entrevistava eram visitadas por agentes do Stasi, imediatamente depois de eu sair da casa delas. Meu telefone era “grampeado”. Alguns dos que trabalhavam comigo eram pressionados para tornar-se informantes. O medo descia como gelo duro, sobre cada conversa.

O Stasi não criou massivos campos de morte e gulags. Não precisou. O Stasi, com rede de dois milhões de informantes, numa população de 17 milhões, estava em todos os cantos. Havia 102 mil funcionários da polícia secreta que trabalhavam em tempo integral para monitorar a população – um, para cada 166 alemães do leste. Os nazistas quebraram ossos; o Stasi quebrou almas. O governo da Alemanha Oriental foi pioneiro da “desconstrução psicológica” que os torturadores e interrogadores nos buracos negros da CIA pelo mundo, e dentro do sistema prisional norte-americano, elevaram à mais aterrorizante perfeição.

O objetivo da vigilância total, como Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo, não é, no fim, descobrir crimes, “mas estar a postos, quando o governo decide prender uma dada categoria da população.”

E porque os e-mails, as conversas telefônicas, as pesquisas na Web e os deslocamentos geográficos são gravados e armazenados para sempre nos bancos de dados do governo dos EUA, haverá sempre “provas” em quantidade suficiente para nos encarcerar, caso o estado considere necessário. A informação espera, como um vírus mortal, nos cofres do governo, para ser usada contra nós. Não importa o quanto a informação seja trivial ou inocente. Em estados totalitários, a justiça, como a verdade, é irrelevante.

O objetivo de estados totalitários eficientes, como George Orwell compreendeu, é criar um clima no qual as pessoas não pensem em rebelar-se, um clima no qual a tortura e a matança praticadas pelo governo são usadas só contra um punhado de renegados inadministráveis. O estado totalitário obtém esse controle, Arendt escreveu, mediante o esmagamento sistemático da espontaneidade humana e, por extensão, da liberdade humana. Espalha o medo incansavelmente, para manter a população traumatizada e imobilizada. Converte os tribunais, como os corpos legislativos, em mecanismos para legalizar os crimes do estado [e os crimes das classes e grupos de força dominantes, como os crimes da imprensa-empresa (NTs)].

O estado-empresa norte-americano, no caso dos EUA, usou a lei para silenciosamente abolir a 4ª e a 5ª Emendas da Constituição, estabelecidas para nos proteger contra intrusão do governo-empresa em nossa vida privada, sem mandado judicial. A perda da representação e da proteção judicial e política, parte do coup d’état engendrado pelo estado-empresa, implica que não temos nem voz nem proteção legal contra os abusos do poder. A recente sentença judicial que apoia e legaliza a espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, emitida pelo Juiz Distrital dos EUA, William H. Pauley III, é parte de uma longa e vergonhosa lista de sentenças e decisões judiciais que repetidas vezes sacrificaram nossos mais caros direitos constitucionais, no altar da segurança nacional, desde os ataques de 11/9.

Juiz Distrital dos EUA, William H. Pauley III
Os tribunais e corpos legislativos do estado-empresa invertem agora, rotineiramente, nossos mais básicos direitos, para justificar a pilhagem-empresa e a repressão-empresa. Declaram que doações secretas massivas para campanhas eleitorais – que é uma forma de legalizar a propina – são ações protegidas pela 1ª Emenda. Definem a empresa-lobby – mediante a qual empresas privadas fazem chover dinheiro sobre funcionários eleitos e escrevem nossas leis – como direito do povo, de agir como governo. E podemos, conforme as leis norte-americanas, ser torturados ou assassinados ou presos por tempo indefinido pelos militares; e podemos não receber o devido processo legal; e podemos ser espionados sem mandado judicial.

Cortesãos obsequiosos, servis, que se apresentam como jornalistas, santificam o poder da empresa e do estado-empresa e amplificam suas mentiras – a rede MSNBC faz isso tão caninamente quanto a rede Fox News – ao mesmo tempo em que enchem nossa cabeça com a imbecilidade das fofocas sobre “celebridades” e “notícias” que nem notícia são.

Nossas “polêmicas”, que permitem que políticos e jornalistas de futrica falem sem parar sobre questões que nem questões são, mascaram um sistema político que deixou de funcionar. História, arte, filosofia, investigação intelectual, nossas lutas sociais e individuais passadas, por justiça; o próprio mundo das ideias e da cultura, com a compreensão do que significa viver e participar numa democracia funcional, foram jogados nos buracos negros do que se deve esquecer, apagar.

Sheldon Wolin
O filósofo político Sheldon Wolin, em seu livro indispensável, essencial, Democracy Incorporated” [“Democracia-empresa”, sem edição no Brasil, “esgotado no fornecedor”, cf. webpage da Livraria Cultura (NTs)] chama o sistema de governo-empresa [orig. corporate governance] nos EUA, de “totalitarismo invertido”, que representa “a nova era de política-empresa e de desmobilização política da cidadania”.

O totalitarismo da política-empresa difere das formas clássicas do totalitarismo, que giram em torno de um líder carismático ou demagogo; sua expressão é o anonimato do estado-empresa [orig. “the anonymity of the corporate state” (NTs)]. As forças da empresa [orig. corporate forces] ativas por trás do estado-empresa inverteram o totalitarismo, para não substituir estruturas decadentes, como fazem os movimentos totalitários clássicos, por novas estruturas.

Em vez disso, fingem honrar a política eleitoral, a liberdade de manifestação e a imprensa democrática, o direito à privacidade e as garantias legais.

Mas manipulam a política eleitoral de tal modo, corrompem-na de tal modo, tão completamente – como também corrompem juízes, tribunais, a imprensa e todas as alavancas essencial do poder – que tornam impossível a genuína participação democrática das massas [isso está para acontecer também aqui no Brasil com a USURPAÇÃO pelo Poder Judiciário de prerrogativas dos Poderes Executivos e Legislativos (Nrc)].

A Constituição dos EUA não foi reescrita, mas já foi capada, nas interpretações que lhe dão juízes e corpos legislativos. E cá ficamos, com uma frágil capa democrática e um duro núcleo totalitário.

A âncora desse totalitarismo-empresa são os sistemas norte-americanos de segurança interna, que nada e ninguém supervisiona ou controla.

Nossos governantes totalitários-empresa se autoenganam, com tanta frequência quanto enganam o público. Política, para eles, é pouco mais que RP (Relações Públicas). Contam-se mentiras, não para obter algum resultado discernível de política pública, mas para proteger a imagem do governante e do governo dos EUA. Essas mentiras tornaram-se uma grotesca modalidade de patriotismo.

A capacidade do governo dos EUA, mediante vigilância total, para impedir qualquer investigação externa sobre o poder, engendra apavorante esclerose intelectual e moral, que se dissemina no interior da elite governante.

Noções absurdas, como a de implantar alguma “democracia” em Bagdá pela força, para que essa “democracia” se espalhasse pela região, ou a ideia de que os EUA poderiam aterrorizar o Islã radical no Oriente Médio para forçá-lo à submissão, já não são mantidas sob equilíbrio pela ação da realidade ou pela experiência ou por discussão social racional baseada em fatos. Dados e fatos que não se encaixem nas teorias-fantasias-alucinações das elites políticas norte-americanas, dos generais, dos gerentes do aparelho de inteligência são ignorados e ocultados para que os cidadãos não os vejam. A capacidade dos cidadãos para tomar medidas autocorretivas é frustrada, para todos os efeitos. E no final, como em todos os sistemas totalitários, os cidadãos norte-americanos tornam-se vítimas da loucura do governo norte-americano, de mentiras monstruosas, de corrupção avassaladora e do terror de estado.

Paul Celan
O poeta romeno Paul Celan capturou a lenta ingestão de um veneno ideológico – no caso dele, o fascismo – em seu poema “Fuga da Morte” [1]:

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã
nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado

Nós, os norte-americanos, como em todos os estados totalitários emergentes, fomos mentalmente inseminados por uma amnésia histórica cuidadosamente orquestrada; uma imbecilidade induzida pelo estado-empresa norte-americano. Cada dia menos nos recordamos do que seja ser livre. E porque esquecemos, não reagimos com a ferocidade apropriada quando afinal toma-se conhecimento de que nossa liberdade nos foi roubada. As estruturas do estado-empresa têm de ser derrubadas. Seu aparato de segurança tem de ser destruído. E os que pregam e defendem o totalitarismo-empresa – incluídos aí os líderes dos dois principais partidos dos EUA, os fátuos acadêmicos norte-americanos, jornais, televisões, imprensa-empresa e jornalistas-empresa corruptos – têm de ser expulsos dos templos do poder.

Protestos em massa, nas ruas, e prolongada desobediência civil são a única esperança que nos resta aos norte-americanos. Se esse nosso levante fracassar – fracasso com o qual o estado-empresa conta – os norte-americanos estaremos escravizados.




Clique na imagem
para aumentar
Nota dos tradutores
(trad. Modesto Carone, do livro: “Quatro mil anos de poesia”, J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares, Ed. Perspectiva, 1969, SP, em:

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã
nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha
eu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita.


________________________

[*] Chris Hedges, cuja coluna é publicada às segundas-feiras em Truthdig, passou quase duas décadas como correspondente internacional na América Central, no Oriente Médio, na África e nos Bálcãs. Escreveu reportagens em mais de 50 países e trabalhou para The Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News e The New York Times, para o qual foi correspondente internacional por 15 anos.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Totalitarismo invertido

Sheldon Wolin

1/5/2003, Sheldon Wolin, The Nation
Distribuído pelo pessoal da Vila Vudu


“Todos os impérios visam a explorar povos e territórios sob seu controle, mas os EUA são império de tipo diferente: os EUA raramente governam diretamente territórios estrangeiros por muito tempo, embora conservem lá suas bases militares (“lily pads”). O poder dos EUA é “projetado” em intervalos irregulares sobre outras sociedades, mesmo quando não é institucionalizado. O poder dos EUA tende a ser indireto, assume a forma de vaga “influência”, de “pressões” ou de propina. As principais preocupações dos EUA são militares ou econômicas (acesso a bases estratégicas, a mercados, ao petróleo). Quando os políticos consideram necessário ou útil, necessidades domésticas são subordinadas ao que ordenem as estratégias globais ou as necessidades reais ou pressupostas dos parceiros empresariais corporativos da ‘superpotência’” (Sheldon Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, material de divulgação de conferência a ser realizada dia 17/5/2011. Ver também: Lannan 2010 – 2011 Readings & Conversations ).

A guerra no Iraque de tal modo monopolizou a atenção pública que obscureceu a mudança de regime que está acontecendo aqui mesmo, nos EUA. Talvez tenhamos invadido o Iraque para levar para lá a democracia e tirar de lá um regime totalitário, mas, no processo, tudo faz crer que nosso próprio sistema esteja andando rapidamente em direção a se tornar sistema totalitário, cada vez menos democrático. 

A mudança doméstica, cá nos EUA, se vê claramente na repentina popularidade que ganharam dois termos, que raramente se ouviam antes no sistema político norte-americano: “império” e “superpotência”. Esses dois termos sugerem, ambos, que um novo sistema de poder, concentrado e expansionista, já existe entre nós e suplantou o anterior. 

“Império” e “superpotência” simbolizam acuradamente a projeção do poder dos EUA para além fronteiras, mas, por isso mesmo, obscurecem as consequências do processo para os norte-americanos. 

O absurdo se torna mais visível quando se ouve falar da “Constituição do império dos EUA” ou dos EUA como “superpotência democrática”. Nos dois casos as expressões soam falsas, porque “Constituição” significa limitação de poderes; e impérios não são regidos por Constituições; e “democracia” significa para a maioria da humanidade o ativo envolvimento dos cidadãos nas ações do governo e a exigência de que o governo preste contas aos cidadãos; portanto, não pode haver superpotência democrática e, além do mais, imperial. “Império” e “superpotência” são palavras que falam de não respeitar limites e de fazer encolher a cidadania.

O sempre crescente poder do Estado e declínio do poder das instituições previstas para controlar o Estado são coisas que vêm fermentando já há algum tempo. Ao deixar de ser genuíno partido que faz oposição, os Democratas pavimentaram o caminho até o poder, como partido sedento de poder para também usá-lo para promover o império dos EUA além-mar e promover o poder das corporações, em casa. 

Assim, agora, os elementos necessários estão afinal implantados: legislativo fraco; sistema legal ao mesmo tempo complacente (para uns) e repressivo (para outros); sistema partidário no qual os partidos, situação ou oposição, só fazem trabalhar para recompor o sistema partidário (‘reformas’ e ‘reformas’ que nada reformam) de modo a que mais e melhor possa servir aos ricos, aos bem relacionados e às empresas, ao mesmo tempo em que os pobres são abandonados, desamparados, entregues ao desencanto com a política e ao desespero; e, ao mesmo tempo, deixando as classes médias penduradas entre o desemprego e delírios de fantásticas  recompensas, tão logo a economia ‘se recupere’.

Ano passado, no impasse entre governo e oposição no Congresso nos EUA, ao contrário do que noticiou a mídia, não se tratou de oposição entre o governo e trabalhadores inocentes, beneficiários de favores do Estado ou turistas – por mais sinceros e legítimos que sejam os padecimentos de todas essas categorias. Tratou-se ali, sim, do amplo esquema de poder da nação. 

O impasse no Congresso, em 2002, foi, de fato, ataque direto ao princípio democrático pelo qual, numa democracia, o governo pertence ao povo. E o povo tem meios legais para derrubar qualquer governo, pode alterar o sistema de apresentar emendas, e pode resistir e desobedecer a governos despóticos. O impasse, que paralisou o governo dos EUA só mostra o ritmo verdadeiramente apavorante com que a despolitização está sendo promovida e a profundidade (abissal) à que a alienação já chegou.

A consequência combinada da contrarrevolução Republicana, o colapso do liberalismo convertido em centrismo e o ataque aos funcionários públicos, a Washington e ao governo é nada menos que o descrédito do princípio fundamental de uma sociedade democrática: que o poder político e o governo existem para atender às necessidades da maioria, não para fazer o que a minoria entenda como mais desejável.

O crescente poder do estado e o poder decrescente das instituições que existem para controlar o poder do estado é processo em andamento já há algum tempo. O sistema de partidos é exemplo claro. Os Republicanos surgiram como fenômeno único na história dos EUA, de partido furiosamente doutrinário, fundamentalista, antidemocrático, que fala como se fosse maioria. Na medida em que os Republicanos se foram tornando cada vez mais ideologicamente intolerantes, os Democratas encolheram-se até o centrismo, pregando o fim das ideologias. Ao deixar de ser genuíno partido de oposição, os Democratas seguiram a rota fácil de partido interessado, sobretudo, em promover o império americano além fronteiras e o poder das grandes empresas, em casa. Não se deve esquecer que partido fortemente ideológico, intolerante e fundamentalista, com base de massas, sempre foi elemento crucialmente importante em todos os regimes que, no século 20, aspiraram ao poder autoritário absoluto.

As instituições representativas já não representam os eleitores. Em vez disso, entraram em curto-circuito, profundamente corrompidas por um sistema institucionalizado de propinas que as tornaram sensíveis só aos interesses dos grupos de poder, das grandes empresas, da faixa mais rica dos cidadãos. E as cortes de justiça, por sua vez, quando não são pau para toda obra a serviço do poder das corporações, são consistentemente solidárias, só, às chamadas “exigências da segurança nacional”. 

As eleições passaram a ser antieventos pesadamente subsidiados que tipicamente só atraem menos da metade dos eleitores cuja informação sobre política nacional ou internacional é filtrada – de fato, é censurada – por uma mídia dominada pelas grandes empresas. Os cidadãos são manipulados e mantidos sob eterna tensão pela divulgação diária, pela mídia, de ondas de crimes e de atentados, apresentadas como trabalho de terroristas; por ameaças mais ou menos veladas de juízes e procuradores; e pelo medo eterno, sem alívio, do desemprego. Ainda mais crucialmente importante aqui não é o aumento do poder do governo, mas o inevitável descrédito das limitações constitucionais e dos processos institucionais, o que leva os cidadãos a descrer do poder que, em tese, seria seu; desestimula as práticas da cidadania militante; e torna os cidadãos politicamente apáticos.

Essa avaliação, não tenho dúvidas, será desacreditada também, por alguns, como alarmista. Mas insisto.  Para mim, o sistema político emergente hoje nos EUA é, de fato, um “totalitarismo invertido”. 

Com “invertido”, quero dizer que, embora o sistema político hoje emergente nos EUA e seus operadores partilhem com o nazismo a aspiração por poder ilimitado e o expansionismo mais agressivo, métodos e ações aparecem invertidos, de cabeça para baixo e pés para cima. 

Por exemplo, na Alemanha de Weimar, antes de os nazistas tomarem o poder, as “ruas” eram dominadas por gangues orientadas por pensamento totalitário, e o pouco de democracia que havia estava concentrada no governo. Nos EUA, contudo, só há democracia nas ruas ou, pelo menos, a democracia viva que há está nas ruas – e o maior perigo vem de um governo sobre o qual há cada vez menos controle social.

Outro exemplo da inversão: sob governo nazista, não havia nenhuma dúvida de que os “grandes negócios” eram subordinados ao regime político. Nos EUA, ao contrário, é absolutamente visível, há décadas, que o poder das grandes corporações tornou-se tão dominante, no establishment político, sobretudo no Partido Republicano, e é tão dominante sobre o poder político, que se pode pensar, sim, em perfeita inversão formal em relação aos nazistas. Ao mesmo tempo, é poder corporativo, representante da dinâmica do capitalismo e do poder sempre em expansão tornado possível pela integração da ciência e da tecnologia com a estrutura do capitalismo, que produz o ímpeto totalitário que, sob os nazistas, apareceu em noções ideológicas como o Lebensraum [1].

Cartaz nazista do Lebensraum [1]
Contra minha posição, não faltará quem diga que não há equivalente nos EUA [não havia, conhecido, em 2003; em 2011, claro, já se sabe que há (NT)] do regime nazista de tortura, campos de concentração ou outros instrumentos de terror. Mas é preciso lembrar que, na maior parte, o regime de terror nazista não se aplicava de modo geral a toda a população; que visava, isso sim, a promover certo tipo de medo difuso – o medo da tortura – que servia bem para manipular a população. De fato, os nazistas queriam sociedade mobilizada, pronta a apoiar o estado de guerra permanente, o expansionismo e o sacrifício da nação.

Se o totalitarismo nazista visava a dar às massas a sensação de poder coletivo e de força, Kraft durch Freude (“A força, pela alegria”), o totalitarismo invertido visa a promover uma sensação de fraqueza, de futilidade coletiva. 

Se os nazistas queriam sociedade continuamente mobilizada que não apenas apoiaria o regime sem protestar e entusiasticamente votaria “sim” em plebiscitos periódicos, o totalitarismo invertido quer sociedade politicamente desmobilizada que nem se interessa por votar. 

Basta lembrar o que disse o presidente Bush imediatamente depois dos eventos horríveis do 11/9: “Vamos nos unir, consumir e viajar”, disse ele, aos cidadãos ansiosos. Apesar de já ter incorporado o terrorismo a uma “guerra”, o presidente não fez o que fazem líderes democráticos em tempos de guerra: mobilizar os cidadãos, alertar para os sacrifícios à frente e exortá-los a unir-se em algum “esforço de guerra”. 

Em vez disso, o totalitarismo invertido passou a usar os meios que tem para promover o medo generalizado, não só mediante “alertas” repentinos, mas também mediante anúncios periódicos de células terroristas recentemente descobertas, de prisões de figuras sinistras, do tratamento violento infligido aos inimigos na Ilha do Diabo da baía de Guantánamo, ou de métodos de interrogatório perversos, divulgação que, na atmosfera de medo generalizado, gera ainda mais medo, porque os cidadãos já convivem com o desemprego, os cortes, as demissões sempre iminentes, ou a redução das aposentadorias e serviços públicos de saúde. O sistema político dominado pelas corporações não faz outra coisa além de ameaçar com a privatização: da Seguridade Social, dos serviços de saúde, de tudo que, por pouco que seja, ainda são os recursos com que os pobres contam para sobreviver. 

Com tantos instrumentos para promover a insegurança e a dependência, o totalitarismo invertido ainda usa sistema de justiça criminal extremamente punitivo, serve-se da pena de morte e é elitista, marcadamente discriminatório contra os sem poder.

Todo esse sistema é propagandeado por mídia servil e cada vez mais concentrada; por universidades integradas às empresas e aos interesses de seus mecenas corporativos; por máquina de propaganda institucionalizada em think-tanks milionários e fundações conservadoras; mediante a cooperação cada vez mais íntima entre as polícias locais e as agências nacionais que existem para identificar terroristas, dissidentes domésticos e, em geral, todos os ‘diferentes’, sempre suspeitos.

O que está em processo, portanto, é nada menos que uma tentativa para transformar uma sociedade toleravelmente livre, em variante dos regimes mais extremistas do século passado. Nesse sentido, as eleições nacionais de 2004 nos EUA manifestam uma crise no significado original do próprio sistema eleitoral, um ponto de virada.

O que os cidadãos precisam entender é: virada, sim, mas... em que direção? [2]




Notas de tradução
[1] Entre 1921 e 1925 Adolf Hitler desenvolveu a teoria de que a Alemanha careceria de Lebensraum (“espaço vital”) para conseguir sobreviver. A convicção de que esse espaço teria de ser conquistado ao leste, especificamente da Rússia Soviética, modelou toda sua política a partir de 1933 (NTs, com informações de: Hitler and “Lebensraun “ in the East, de onde se extraiu também o cartaz de propaganda dos nazistas alemães aí mostrado).
[2] Nas eleições presidenciais de 2004, Bush foi reeleito, contra John Kerry, então senador Democrata por Massachusetts. A política exterior foi tema dominante da campanha eleitoral, sobretudo a “Guerra ao Terror” de Bush e a invasão do Iraque, em 2003. Foi eleição outra vez, como em 2000, cercada de discussões e controvérsias. Só se conheceu o vencedor no dia seguinte, depois que Kerry decidiu não contestar a vitória de Bush no estado de Ohio. Ohio tinha, naquele caso, número suficiente de votos eleitorais para determinar quem seria eleito. Kerry e o presidente do Comitê Nacional dos Democratas Howard Dean haviam declarado que havia irregularidades na votação em Ohio e que, se fossem consideradas, a chapa Democrata seria eleita. De fato, a controvérsia foi menor em 2004 do que na eleição anterior, em 2000. De uma para outra eleição, só três estados mudaram de partido: New Mexico e Iowa votaram com os Democratas em 2000, e com os Republicanos em 2004; New Hampshire votou com os Republicanos em 2000, e com os Democratas em 2004. No Colégio Eleitoral, Bush recebeu 286 votos, e Kerry, 251. O candidato a vice na chapa de Kerry, John Edwards, que disputara eleições primárias, recebeu um voto para presidente, de um eleitor “distraído”, de Minnesota. Tudo leva a crer que tenha sido apenas engano, porque o mesmo eleitor votou também, corretamente, em Edwards, para vice-presidente (Extraído de: United States Presidential Election, 2004).