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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sobre “State of the Union” (SOTU), 2012 (3): A influência de “Occupy”no discurso de Obama


Allison Kilkenny


25/1/2012, Allison Kilkenny, In These Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A desigualdade de renda foi um dos temas centrais do discurso “Estado da União” do presidente Obama ontem à noite. Como escrevi ontem (24/1/2012) [1], o fato de os políticos falarem abertamente sobre “classes” nos EUA – país quase absurdamente orgulhoso do fato de que seus cidadãos não discutam relações de classe – é um dos maiores triunfos do movimento Occupy Wall Street e outros grupos focados da desigualdade econômica.

Obama disse que a justiça econômica é “a questão definitória de nosso tempo” e acrescentou que “podemos nos conformar com ser país no qual um número cada vez menor de pessoas vive realmente bem, ou podemos recuperar uma economia na qual todos têm chance justa, todos fazem sua parte justa e todos jogam conforme o mesmo conjunto de regras.”

Essa mensagem de igualdade tem estado no coração do movimento Occupy Wall Street desde o primeiro dia, e os levantes por toda a parte ofereceram o quadro no qual o presidente pôde afinal ser específico sobre sua proposta de uma “Regra Buffet” [2]: “todos que ganhem mais de um milhão por ano terão de pagar no mínimo 30% de impostos”. E, o presidente continuou “todos que ganhem menos de 250 mil dólares por ano” – caso de 98% das famílias norte-americanas – “não terão aumentos de impostos”.

O presidente lançou sem medo a expressão proibida – estratégia bem clara que mostra que a maré de demagogia mudou.

No passado, os Democratas fugiam assustados de qualquer referência à luta de classes. No discurso de ontem, Obama encarou valentemente o tema: “Podem chamar de luta de classes, chamem como quiserem” – disse Obama. E continuou, antecipando a reação dos Republicanos: “Mas pedir a um bilionário que pague de impostos, no mínimo o que sua secretária paga [não é pedir demais]. A maioria dos norte-americanos chamariam isso de senso comum”. [3]

O discurso da noite passada marcou o momento em que o presidente afinal entrou em sintonia com a maioria do povo dos EUA, que exige impostos mais altos sobre a riqueza.

Mas o tema genérico do discurso State of the Union (SOTU) 2012 foi curioso. Por um lado, Obama aceitou o papel de combatente relutante na luta de classes, e exigiu uma nova era de responsabilização das corporações. Ainda falta saber o quanto, dessa “exigência” algum dia será convertido em lei. Ou se Obama limitou-se a solicitar, em tom super polido, que as corporações, por favor, se não for incômodo, não exportem postos de trabalho e, se não for exigir demais, paguem seus impostos.

Seja como for, a retórica de Obama soou firme, sim. Mas, por outro lado, ele pediu repetidas vezes que o Congresso se una na mesma luta, um Congresso no qual praticamente todos são milionários que, se aprovarem a Lei Buffett, terão de pagar mais impostos. E isso sem nem lembrar que todos os milionários eleitos para o Congresso, caso aprovem a Lei Buffet, também correrão o risco de perderem o apoio de outros milionários doadores de dinheiro para campanhas eleitorais, os quais também passarão a pagar mais impostos.

Eis o perigo de eleger milionários e dar a eles a missão de traçar políticas econômicas. Eles sempre tenderão a puxar a brasa para a sardinha deles.

O que os Occupiers temem é que, sim, o Congresso provavelmente se unirá. Mas aquela frente unida estará em oposição direta aos 99%. 

Ontem mesmo o movimento Occupy respondeu ao discurso de Obama. A mensagem abaixo foi lida no Microfone do Povo: as linhas eram ditas por um leitor e repetidas várias vezes, nas ondas de manifestantes, para que todos ouvissem (e falassem).

Na resposta, o movimento Occupy reafirma seu compromisso com lutar contra a desigualdade econômica. Não há qualquer referência ao presidente Obama – sinal de que o movimento Occupy ainda não está interessado em envolver-se diretamente na campanha eleitoral nem se vê como ator do sistema político-eleitoral nos EUA.



Checando o microfone! [Checando o microfone!] Checando o microfone! [Checando o microfone!]

Companheiros americanos, boa noite! [Companheiros americanos, boa noite!]

Somos homens e mulheres dos 99% 

Muitos de nós vivemos há meses no movimento Occupy Wall Street

e em outras Ocupações por todo o país e em todo o mundo 

Estamos aqui hoje para relatar o estado dos 99% dos EUA 

Claro, muitos norte-americanos conhecem bem o estado dos 99% nos EUA 

Mas às vezes o 1%, em Wall Street e em Washington, precisa ser reinformado 

Financeiramente, o estado dos 99% não é firme.

E isso é dizer pouco.

Nunca, em toda a nossa vida, tantos trabalhadores norte-americanos enfrentaram tantas e tão graves dificuldades, tantas incertezas, tantas indignidades.

Para alguns de nós, as coisas têm sido ainda mais difíceis que para outros.

E viver pelas praças no inverno não é piquenique.

Mas não desistimos e não desistiremos.

Nossa inspiração são os valentes norte-americanos que vieram antes de nós.

Desde o Dr. King, que deu a vida à luta pela justiça econômica.

Desde as Suffragettes, que insistiram em fazer ouvir a voz das mulheres.

Desde todos aqueles valentes ou loucos o suficientes para acreditar que a ideia que define os EUA é clara: democracia.

Que todos nascemos iguais.

Que todos temos voz igual para modelar as leis que nos regem.

EUA, sejamos honestos. Quando os tribunais decidem que empresas têm mais direito de falar que nós, o povo, não há democracia.

Quando spray de pimenta e ataques policiais na calada da noite zombam da lei declarada na 1ª. Emenda, e não respeitam o direito de reunião e manifestação, não há democracia.

Quando fraudar clientes, explodir a economia nacional, forjar milhares de documentos e tomar ilegalmente a casa de milhares de famílias não é crime, mas protestar contra tudo isso é crime, não há democracia.

Nossos EUA não são democracia. Ainda não são.

Todos sabemos por quê: porque Wall Street manda em Washington.

Subornar é legal. As leis sob as quais vivemos autorizam a vender ao corruptor que pague a maior propina.

Por isso nossos governos servem aos ricos e poderosos, à custa de todos os demais. 

Nossas leis protegem os bônus pagos a banqueiros e a executivos de Wall Street, mas não protegem o direito de o trabalhador viver em sua casa; protegem os paraísos fiscais para garantia dos muito ricos, enquanto, aqui, as pontes, as escolas e toda a infraestrutura caem aos pedaços.

Houve períodos sombrios na história dos EUA, quando a corrupção foi regra e muitas injustiças cresceram como obstáculos, no caminho que poderia levar os EUA a realizar seus melhores ideais.

Mas cada vez e sempre, os norte-americanos nos levantamos, para retomar para nós o nosso governo e corrigir nosso rumo.

Hoje, o movimento Occupy Wall Street e o movimento dos 99% retoma essa tradição que é motivo de orgulho para os norte-americanos.

Mas nada temam, 1%!

Não estamos aqui só para ajudar os 99% à custa do 1%.

Estamos aqui também para ajudar vocês.

Porque quando vocês supõem que jogar sujo passaria como se fosse jogo limpo, 

Quando veem o trabalhador norte-americano como quem não mereceria vida melhor, nem mereceria os benefícios que ele mesmo cria com o seu trabalho, 

Quando ameaçam e desrespeitam o povo que ergue os prédios onde vocês vivem e servem a mesa onde vocês comem e educam os filhos de vocês e cuidam da segurança da casa onde vocês dormem, vocês não perderam só o contato com a nossa humanidade; vocês perderam o contato, também, com a humanidade de vocês mesmos.

É preciso que vocês reencontrem a humanidade que perderam, para o bem de todos. 

Democracia real fará muito bem também a vocês.

Somos os 99%.

Aqui estamos para criar a democracia que prometeram a todos nós.

Somos os 99%.

Estamos mal de dinheiro, mas nosso espírito é forte.

Somos os 99%.

Nossa primavera está chegando.




Notas dos tradutores
[2]  A “Lei Buffett” é um projeto de lei e plano que Obama propôs em 2011, para reduzir a desigualdade fiscal nos EUA entre o 1% mais rico e os restantes 99% dos norte-americanos, por causa do crescimento desproporcional da renda do grupo 1% em comparação com os 99%. O plano recebeu o nome de Warren Buffett, que dissera, em 2011, não concordar com que sua secretária pagasse mais impostos que ele. Essa secretária de Buffet, que o acompanha há muitos anos, Debbie Bosanek, estava sentada ontem na primeira fila, ao lado de Michelle Obama, e foi longamente mostrada, aplaudindo vários pontos do discurso, nas imagens de televisão
[3]  O discurso pode ser lido na íntegra (em inglês) em: State Of The Union” (SOTU)  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre “State of the Union” (SOTU), 2012 (2): “GM é o pior modelo possível para recuperar os EUA”


Frank Hammer

25/1/2012, Frank Hammer, The Real News Network 
(vídeo e entrevista traduzida)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Frank Hammer é empregado aposentado da General Motors de Detroit, onde trabalhou durante 32 anos, e ex-presidente de Local 909 em Warren, Michigan. Atualmente, está organizando a Auto Worker Caravan [Caravana dos Trabalhadores da Indústria Automobilística], associação de trabalhadores ativos e aposentados, que viajará a Washington para apresentar suas reivindicações ao governo.


PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Pode-se dizer que a peça central do discurso do presidente Obama foi restaurar as fábricas norte-americanas. E o modelo de sucesso da intervenção do governo Obama teria sido a ‘salvação’ da General Motors e da indústria automobilística. Que lhe parece?

HAMMER: Acho que o modelo é ruim, é péssimo. Acho que se alguém soubesse o que realmente foi feito, que fomos jogados à falência pela crise financeira e, claro, Wall Street traçou o plano e ditou os termos do que fazer para tirar os bancos da falência. Resultado disso, os empregos desapareceram na indústria automobilística. Mais ainda: para recuperar a GM, foi preciso atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores. E tudo, a partir do mito inicial: de que a causa da falência teriam sido os salários. Não foram. A causa da falência foi a crise financeira.

JAY: O que você quer dizer, quando fala em atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores?

HAMMER: O presidente Obama mencionou que seu governo deixou que as empresas e os trabalhadores resolvessem suas diferenças. É. O que o governo Obama fez foi, primeiro, acabar com o direito de greve. Segundo, o governo Obama fixou, como salário máximo aqui em Detroit, o salário das fábricas do sul onde os trabalhadores não são sindicalizados. Assim reduziram nossos salários e nossa expectativa de vida decente. As fábricas em Detroit foram equiparadas às fábricas dos sul, cujos trabalhadores não são sindicalizados. Tudo isso foi feito pelo governo Obama, sim. Que obedeceu ordens de Wall Street.

E se esse é o modelo que Obama usou em seu discurso, o que Obama disse, de fato, é que todos devem reduzir o padrão de vida dos trabalhadores, equipará-los ao padrão de vida de trabalhadores do Terceiro Mundo, para que os EUA – lembre-se ele citou o exemplo da Master Lock[1] . O presidente Obama disse, isso sim, é que os trabalhadores chineses têm tido aumentos no salário mínimo e, portanto, é agora melhor negócio para a Master Lock voltar para os EUA, onde os salários dos trabalhadores são menores a cada dia. O que ele de fato disse é que está convertendo os EUA em país do Terceiro Mundo. E que, assim, seremos mais competitivos e que assim criaremos empregos. Mas só se os trabalhadores dos EUA aceitarem trabalhar por salários de Terceiro Mundo e sem direito de greve.

JAY: Obama também falou sobre desenvolver energia limpa. O que lhe pareceu?

HAMMER: Pareceu-me que ele mencionou a mudança climática uma vez. E só disse, sobre mudança climática, que o Congresso talvez esteja excessivamente dividido para discutir o problema. Foi muito pouco, uma droga de concessão, se se sabe que os cientistas têm dito que é preciso agir rapidamente. E continua repetindo aquelas bobagens, energia nuclear, biocombustíveis e petróleo. Quer dizer: Obama não parece ter ideia clara de que a questão central, definitória desse nosso tempo, são as energias renováveis, não os bicombustíveis, nem a energia nuclear, mas energia limpa. Para Obama, a questão definitória desse nosso tempo é se os EUA conseguirão manter o padrão de vida da classe média dos EUA. E ninguém manterá padrão algum de vida de classe média alguma, se não começar a preocupar-se com a mudança climática.

JAY: Um dos temas sobre os quais conversamos em outras entrevistas é que a recuperação da indústria de transportes poderia ser ponto de partida para outro tipo de economia. Mas Obama voltou ao modelo de Detroit.

HAMMER: Ele mencionou, a certa altura, que entende que as empresas devem receber incentivos para construir novas fábricas, nas áreas que foram mais duramente atingidas pela crise. Em 2009, Obama disse que cuidaria de áreas como Detroit como o governo Bush deveria ter cuidado de New Orleans depois do Katrina. Gostei daquela ideia, achei que ia na direção certa. Mas nesse discurso já nem apareceu um tópico que aparecera nos outros discursos Estado da União: a questão de construir transporte público, linhas férreas, transporte leve. Há muito tempo nós repetimos que algumas das grandes fábricas que foram fechadas em Detroit deveriam ser convertidas em fábricas de vagões, vagões leves, para linhas de alta velocidade. Em 2012, o presidente nem falou sobre isso. Tenho esperança de que se possa ver algum movimento na direção de utilizar energia solar e eólica, para reabrir algumas das fábricas que continuam fechadas. E que apareçam os incentivos que Obama mencionou no discurso.

JAY: Em termos gerais, qual foi sua impressão do discurso? Alguns dos que entrevistei hoje disseram que estão felizes de Obama ter falado, pelo menos, da desigualdade de renda. Quero dizer... Alguma coisa que se ouviu nesse discurso permite esperar que algum dia apareça um Obama diferente do que se viu?

HAMMER: Olhe, francamente, discordo muito de alguns dos meus queridos amigos afro-americanos, que ainda creem que, no segundo mandato, Obama será presidente diferente. Acho que, se for reeleito, veremos mais do mesmo Obama. O momento perfeito para um discurso que incendiasse a base foi ontem, naquela fala do Estado da União (State of the Union). E não aconteceu. Sei disso, porque minha filha, por exemplo, trabalhou muitíssimo para eleger Obama em 2008. Falei com ela hoje, e com meu genro, e nenhum dos dois estava muito entusiasmado com o discurso. Essa era a base de Obama. São os jovens que votaram aos milhões e o elegeram. E não acho que Obama os tenha emocionado, com o discurso de ontem. Fiquei com a impressão de que Obama cantava pelo livro de salmos dos Republicanos. Perdi a conta de quantas vezes repetiu que regulações são péssimas. Acho que o que se viu foi mais rendição, mais um passo na direção do que para muitos seria o centro, mas que cada dia mais é mais à direita, à direita, à direita, mais a cada ano que passa. Acho que Obama teria de tentar incendiar a sua base, em ano eleitoral. Fiquei com a impressão de que Obama está dando por garantidos os votos de sua base. Obama nem falou, nenhuma vez, sobre Occupy Wall Street – e é o movimento que está varrendo todo o país. Aliás... não falou de 99%, mas falou de 98% (os que estão com os salários estagnados). Entendeu?

JAY: Talvez tenha redefinido a base. Talvez esteja jogando para a base. Só que não é a base que acredita que ainda seja a base de Obama.

HAMMER: Pode ser. Mas a base de Obama em 2008 foi fonte de energia e entusiasmo para a campanha. Se Obama redefiniu sua base... Escolheu caminho terrivelmente perigoso.

JAY: Obrigado pela entrevista, Frank.




Nota dos tradutores
[1]   Master Lock  fabrica produtos de segurança, com sede em Milwaukee; há pouco tempo a empresa declarou que traria de volta os empregos que exportou para a China, se encontrasse condições de apoio econômico. Desde meados de 2010, a empresa “reimportou” 100 postos de trabalho, que voltaram à fábrica em Milwaukee (25/1/2012).

Sobre“State of the Union” (SOTU), 2012 : “Obama jura promover o império”


Glen Ford

25/1/2012, Glen Ford (vídeo e entrevista transcrita), The Real News Network, TRNN
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Glen Ford é conhecido radialista e comentarista político. Em 1977, Ford co-fundou, produziu e animou o programa “America's Black Forum” [Fórum Negro dos EUA], primeiro programa de entrevistas produzido por negros na televisão comercial dos EUA. Em 1987, Ford criou o primeiro programa nacional de Hip Hop, retransmitido para 65 rádios em todo o país. Em 2002, criou o programa Black Commentator e, em 2006, lançou Black Agenda Report. É também autor de The Big Lie: An Analysis of U.S. Media Coverage of the Grenada Invasion [A grande mentira: análise da cobertura, na mídia dos EUA, da invasão de Granada].


PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Você está em New York ou New Jersey, Glen?

GLEN FORD, diretor executivo de Black Agenda Report: New Jersey.

JAY: E qual é sua primeira impressão do discurso?

FORD: Bem, foi discurso sobre banqueiragem e império, porque são os únicos temas que existem para Barack Obama. O que não foi isso, foram jogos de palavras, fumaça e metáforas, nada que valha a pena comentar. Abriu e fechou o discurso com elogios à própria política externa. Temos aqui um presidente que disse ser candidato pela paz, mas que apresenta aos eleitores, como trunfo eleitoral, o número de pessoas que matou e quantos mais está disposto a continuar matando.

JAY: Surpreendeu-me muito, já na abertura do discurso, quando Obama falou sobre o Iraque e disse que a guerra do Iraque nos tornou mais seguros e mais respeitados... Não sei. Quero dizer, pode parecer que estou levantando a bola para você chutar, mas... O que você achou disso? 

FORD: É até engraçado. George Bush deve ter-se sentido aliviado de todas as culpas. Obama reescreveu a história. Obama vangloriou-se de ter feito a guerra do Iraque, guerra tão nobre, e também se vangloriou de um suposto papel que teria sido dele, e também muito nobre, de estar retirando os soldados de lá. Obama sempre faz isso, quando fala para os Democratas. Todos sabemos que Obama fez de tudo, usou os seus generais e todos os seus diplomatas, até o último momento, para tentar manter uma presença forte dos militares dos EUA no Iraque. Pena que os iraquianos não colaboraram. Os iraquianos, com resistência armada, obrigaram George Bush a assinar um acordo de retirada. Agora, Obama está saindo, cumprindo aquele mesmo acordo, no qual os iraquianos nunca aceitaram introduzir nenhuma mudança. Por isso os EUA estão saindo de lá. E, acho eu, nem o governo Maliki teria conseguido manter-se no poder no Iraque, se tivesse tentado mudar o acordo.

Quero dizer: temos um presidente que quer ganhar pontos pelos dois lados. Obama, de fato, sempre faz isso. Por um lado, apresenta-se como o formidável imperialista que diz que os EUA são o “número 1”, e “todos conhecerão minha mão pesada”, “para que vocês se orgulhem do que são”. E por outro lado, diz “vocês sabem, estou realmente me esforçando para trazer os soldados de volta para casa, e, quando voltarem, o herói serei eu”.

JAY: Tive a impressão de que Obama não deu sinal de qualquer incômodo por os EUA estarem agindo com mão pesada – quero dizer, por estarem tentando influenciar os desdobramentos da rebelião e os rumos da resistência que se vê no mundo árabe. Obama falou de “valores americanos”, mas evidentemente estava falando de interesses americanos.

FORD: Não há dúvida alguma de que, com Barack Obama, os EUA voltaram à ofensiva. Os EUA são hoje tão agressivos militarmente no mundo, quanto eram antes de serem derrotados no Iraque. É a promessa que Obama fez aos militares. Se se analisassem suas palavras quando falou ao equivalente da Comissão de Relações Exteriores em Chicago, todos saberíamos que Obama prometeu devolver os EUA a uma posição em que possam usar impunemente a força em todo o mundo, sem arruinar as interrelações com os aliados. Basicamente, essa é a missão que Obama se autoatribuiu. Agora, se pavoneia, dizendo que fez o que prometeu fazer. De fato, em vários sentidos, ele fez. A OTAN está transformada em força expedicionária que já atacou sem qualquer provocação, e destruiu, um país africano soberano. E Barack Obama conseguiu safar-se sem sequer ter de admitir que os EUA estavam engajados na guerra na Líbia. Mas é tentar enganar todos todo o tempo. 

JAY: E sobre afirmar os “valores americanos” na região, vê-se no Egito, onde o governo militar, como muitos já dizem, atacou os manifestantes com mais violência do que a própria polícia de Mubarak – e com pleno apoio do governo Obama.

FORD: De minha parte, não sei quais seriam esses “valores americanos”. Conheço os valores do mundo corporativo. Sei que se trata de encurralar mercados e criar monopólios, e sei que toda a política externa dos EUA só faz trabalhar a favor dessas corporações monopolísticas. Se se trata do que os EUA fazem, os valores americanos são esses, e só esses. A impressão que tenho é que Obama fala uma espécie de linguagem cifrada, que pouco significa, mas é a linguagem da maioria dos norte-americanos. Acho que os americanos estão pouco preocupados – a maioria, com certeza, não está preocupada – com democracia em outros países. Menos ainda, se são países “não brancos”. A maioria dos norte-americanos pensa mais, sempre, no poder e no prestígio dos EUA.

JAY: Voltando ao que você disse, que Obama é sempre isso. No discurso, ele disse, literalmente, que continuaremos a ser “nação indispensável no mundo dos negócios”. E afirmou: “vou manter as coisas nessa trilha”. Sabemos o que isso significa. Por outro lado, se você procura a via alternativa... quero dizer: não sei se podemos eleger Newt Gingrich, que quer John Bolton como secretário de Estado. Parece que, por aqui, estamos forçados a escolher entre o neoliberalismo imperial e os sociopatas.

FORD: É. Você citou John Bolton, que significa abolir a diplomacia. E acho que ele pensa exatamente nesses termos. “Nação indispensável”... Que frase! Pense bem. Qualquer outro país que tivesse a arrogância de proclamar-se indispensável, seria imediatamente odiado por 99,9% dos americanos e dos demais povos do mundo. Os EUA dizem isso, assim, sem mais nem menos, como se fosse normal, evidente, que os EUA sejam indispensáveis. Claro que, se são a única nação indispensável, estão dizendo que todos os demais países do mundo são dispensáveis. Depois, os norte-americanos não entendem por que somos tão odiados em todo o mundo.

JAY: Se se pensa na situação no Irã, Obama acaba de cancelar exercícios militares agendados com Israel. Para alguns analistas, teria sido mensagem a Israel, de que os EUA não apoiaríamos qualquer tipo de ataque militar preventivo de Netanyahu contra o Irã. Sabe-se que há opiniões divergentes sobre atacar o Irã também dentro de Israel. Até ex-chefes de agências de inteligência de Israel já disseram que Netanyahu é temerário e capaz de agir por sua conta. E, se se considera a alternativa eleitoral nos EUA, os Republicanos estão cada vez mais próximos de Netanyahu ideologicamente, politicamente, e no que tenha a ver com o Irã. Um presidente Republicano não estaria mais próximo de atacar o Irã? Não haveria alguma melhor racionalidade no modo como Obama conduz as coisas, se se pensa na alternativa eleitoral, hoje?

FORD: Bem, para começar, não estou convencido de que o governo Obama deseje atacar o Irã. Obama está em campanha eleitoral. Ele sabe que atacar o Irã teria consequências econômicas catastróficas, as quais, por sua vez, podem custar-lhe a reeleição. Mas esses navios de guerra gigantes... Depois que são postos em movimento, é difícil fazê-los dar meia volta. Se o país for induzido a crer que exista alguma real ameaça existencial contra os EUA, será difícil abortar um ataque no último instante, sobretudo se, do seu lado, há gente como Netanyahu, com agenda própria. Claro que, de um momento em diante, pode tornar-se impossível fazer abortar um ataque militar – mesmo que você não quisesse atacar ninguém. O que quero dizer é que os EUA já criaram uma situação extremamente perigosa, que não sei se poderão controlar.

JAY: Volto ao meu ponto. Quando as pessoas estão resolvendo em quem votar nessa eleição – e falo de gente que deseja movimento político independente, que não quer ver-se como apêndice do Partido Democrata – e se se pensa na questão do Irã... Você acha que há alguma diferença essencial aí, entre o que poderá acontecer em mais quatro anos de Obama, e num governo dos Republicanos, no que tenha a ver com o Irã?

FORD: Acho que há aí diferentes níveis de competência. Claro que entregar a política exterior a John Bolton é completa estupidez. Mas, sim, concordo que não haja muitas diferenças de objetivos. Acho que Obama é dos políticos mais inteligentes que jamais chegou à presidência. É também dos mais espertos, dos mais “lisos” e, sim, muitos espertos conseguem passar por inteligentes em algumas circunstâncias. Acho que pode estar havendo algum excesso de esperteza, se alguém pensa que pode bater tambores de guerra dia e noite sem parar, “porque” poderá declarar a paz de repente, quando bem entender.

JAY: Muito obrigado pela entrevista ao The Real News Network