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terça-feira, 1 de maio de 2012

A revolução egípcia e as economias neoliberais


1/5/2012, The Real News Network (TRNN),
Vídeo: legendas e falas traduzidas pelo pessoal da Vila Vudu


Os trabalhadores protestam no Egito, enquanto o Banco Europeu procura ratificar empréstimos de $1,5 bilhão de dólares para o Egito.

Danya Nadar [TRNN]: Condições cada dia mais difíceis pra os pobres e a classe media foram os principais fatores que levaram à eclosão, ano passado, do levante da Praça Tahrir. Os trabalhadores egípcios dizem que a vida só piorou depois que a junta militar substituiu o ex-presidente Hosni Mubarak.

Trabalhadores do transporte [legendas]: “O gás de cozinha custa 25 libras egípcias ($5); um quilo de legumes, 7 LE ($1,5); um quilo de carne, 70 LE ($10,50); um quilo de peixe, 20 LE ($4).”

[Manifestante]: “Pão, liberdade, justiça social”. “Não há nenhuma justiça social. Nem sinal de que algum dia haja”.

Supervisor do transporte por trilhos: “Enquanto as demandas dos trabalhadores e dos pobres no Egito não forem atendidas, as demandas da revolução não terão sido atendidas. A revolução aconteceu por “liberdade, justiça social e dignidade humana”. Os homens do governo continuam, como antes, a só pensar nos próprios interesses deles.”

Danya Nadar: Desde o início de 2012, instituições financeiras internacionais negociam empréstimos que, dizem elas, ajudarão a reconstruir a destroçada economia egípcia. O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento [orig. European Bank for Reconstruction and Development, também chamado EBRD], espera aprovação de seus acionistas para emprestar $1,5 bilhão de dólares, por ano, ao Egito.

Será a primeira vez, desde que foi criado, que o EBRD empresta dinheiro a país do Oriente Médio. Em fevereiro de 2012, o EBRD publicou informe técnico de avaliação do país, e recomendou que prossigam as políticas de privatização já aplicadas no Egito há mais de 20 anos.

Fatma Ramadan, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Independentes do Egito: “Os trabalhadores sempre manifestaram sua opinião sobre a privatização, em passeatas, greves, manifestações em frente ao Parlamento e, isso, ao longo dos últimos anosa. Era frequente encontrarmos empregados de cinco ou seis empresas manifestando-se, ao mesmo tempo, em frente ao Parlamento. Dia 1º de maio de 2010, houve mais uma manifestação em frente ao Parlamento, trabalhadores de várias indústrias: telecomunicações [Amoncito], [Tanta le Ketan], ou Ghazly Shebeen e de várias empresas privatizadas, todas lá, simplesmente, para dizer “a privatização arruinou nossa existência”, “privatização destruiu a empresa”, “a privatização acabou com nossos empregos” etc. Tudo que diziam e cantavam era que somos contra a privatização e queremos as empresas outra vez em mãos públicas.”

[Mulheres cantando]: Oh, egípcios, os investidores arruinaram nossos lares.

Amr Ismail Adly, Diretor da Iniciativa Egípcia por Direitos Individuais, Justiça Social e Igualdade Econômica:“O que mais surpreende na avaliação técnica feita pelo EBRD é que ainda fala de novas empresas disponíveis para serem privatizadas. Não tenho qualquer problema com a privatização em si, não acho que o Estado deva ser o único proprietário de tudo, nada disso. O problema é que, agora, falam de privatizar empresas que nunca, nem no tempo de Bubarak foram consideradas privatizáveis. Falam hoje, por exemplo, de privatizar o que chamam de “instalações e serviços urbanos”, quer dizer, de água potável, infraestrutura nas grandes cidades, como se o Estado devesse ceder a propriedade nesses campos a investidores privados, egípcios e estrangeiros. É fácil entender que a água potável é fator crítico de sobrevivência para toda a vida pessoa, social e econômica e é um direito humano essencial.”

[Manifestantes]: Não se vê investimento! Só se vê imperialismo!

Danya Nadar: O plano do EBRD é focar os projetos de privatização e investimento em negócios médios e pequenos, para assim, como dizem, começar a criar empregos.

Amr Ismail Adly: A economia egípcia vinha crescendo, de 2006 a 2010 em ritmo impressionante, 6,5-7% ao ano, o que é historicamente sem precedentes. Mas, ao mesmo tempo, a miséria, o desemprego, e os empregos de baixa produtividade que foram criados no mercado informal, sempre muito mal remunerados, virou regra para a maioria da população. Essa foi a causa dos protestos sociais e econômicos que aconteciam no Egito desde 2005 e culminaram no levante popular de janeiro.

Fatma Ramadan: “Em 2002-2003, vimos cerca de meio milhão de trabalhadores empurrados para a aposentadoria, por causa da privatização. O pessoal que comprou as empresas queria as empresas, não os empregados. O governo Mubarak, tentando livrar-se dos seus empregados, para conseguir comprador para as empresas públicas, fez aprovar uma lei que criou uma “pensão para aposentadoria precoce”, que obrigava o trabalhador a aposentar-se, mesmo que pudesse continuar a trabalhar. Com isso, o governo lançou milhares de pessoas na rua, na miséria. Os trabalhadores que receberam alguma indenização, rapidamente consumiram aquele dinheiro e, embora fossem perfeitamente qualificados para encontrar outros empregos, já não encontraram emprego algum. É comum encontrar alguns desses companheiros, hoje, varrendo ruas, quando, há pouco tempo, estavam conosco no sindicato.”

Amr Ismail Adly: “Um dos problemas da economia na qual opera a maioria dos novos investidores privados é que estão em setores extremamente intensivos em energia e capital, mas absolutamente não criam empregos e não contribuem para o bem-estar das sociedades onde operam.”

Danya Nadar [mostra gráficos do Banco Mundial]: Esse gráfico do Banco Mundial mostra que o desemprego e a desnutrição aumentam, no Egito, desde 2004. Durante o mesmo período, a inflação foi às alturas, a quase 30%. E o salário mínimo é, hoje, o mesmo dos anos 1980s.

Manifestante:Como um trabalhador pode viver com salário de LE 110 ($20)? Um quilo de açúcar custa LE8 ($1,2). E como pagar escola, eletricidade, sempre aumentando? E o gás, a água, o transporte? Dissemos, faz tempo, que isso não basta para manter vivo nem o trabalhador sozinho, imagine manter esposa, crianças, a casa. Quando o governo anuncia que vai aumentar o salário mínimo em 17%, as pessoas nem se dão conta de que 17% de LE110 são só LE 17,5 ($3). Não há justiça. Há os muito ricos e o resto, todos nós, muito abaixo. Alguns estão ganhando milhões e outros têm de sobreviver com centavos. Houve gente que quase morreu de susto quando soube dos milhões que nos roubaram.”

Danya Nadar: Muitos casos de corrupção no processo da privatização vieram a público nos anos de Mubarak, quando patrimônio público foi vendido a preços muito baixos, e transferido para as mãos de alguns poucos que, na maioria dos casos, mantinham relações íntimas com o governo.

Khaled Abdel Gawad, operário da Legrand Company:Até esse momento, ainda não temos nenhum direito nessa empresa. Nem salário digno, nem aposentadoria, nada disso. É o resultado das leis do governo corrupto de Mubarak. As leis aprovadas no Parlamento sempre favoreceram os empresários. Todos os membros do parlamento eram empresários.”

Fatma Ramadan: “Esses operários reuniram-se e moveram uma ação contra seis empresas privatizadas, entre as quais Tanta le Kettan, Ghazly Shbeen, Maragel el Bokhareya e Omar Effendi. Ganharam a ação, a privatização foi revertida e as empresas voltaram à propriedade do estado, sobretudo por duas razões: corrupção comprovada no processo de venda das empresas e desrespeito à lei que ordenava que os novos proprietários respeitassem os contratos de trabalho vigentes. Agora, o estado está acionando os trabalhadores que fizeram reverter aqueles processos de privatização, porque não querem receber as empresas de volta. Mas os operários sempre se manifestaram contra a privatização, desde antes de ela acontecer, porque a privatização, na opinião deles, não interessa nem ao país nem as próprios trabalhadores.”

Danya Nadar: Não faz diferença, de fato, que o aEBRD empreste dinheiro ao governo egípcio ou ao setor privado. Nos dois casos, o dinheiro chegará às mãos de empresários ou de funcionários do governo que mantêm estreitos laços com a junta militar que governa a política e a economia do Egito há 60 anos.

Supervisor de transporte urbano: “Na Revolução de 25 de Janeiro, houve mártires e feridos que se sacrificaram pela esperança de mudança. Hoje se vê que derrubamos a cabeça do regime, mas todo o resto do establishment, que também são restos do regime, continuam no poder. Eles estão por toda parte: nas empresas, nos bancos, na política, nas empresas de comunicação e mídia, em hordas.”

Manifestantes: “Abaixo o regime militar. Abaixo a corrupção!”

Khaled Abdel Gawad, operário da fábrica Legrand Company x2: “O problema são as leis. Essas leis são aprovadas, mas são sempre injustas com os trabalhadores. Nosso problema é que as leis que foram aprovadas pelo antigo regime sempre tiveram impacto negativo sobre os trabalhadores e, com isso, a vida dos egípcios médios foi ficando cada vez mais miserável.”

Manifestantes: “O assassino de egípcios não pode governar o Egito.”

Danya Nadar: O EBRD também está propondo que se façam parcerias público-privadas (PPPs) no setor de transporte e energia, e na infraestrutura municipal. São projetos que já existem no Egito desde 2007. Os críticos dizem que o EBRD ignora a devastadora corrupção e o capitalismo ‘de padrinhos’ associados a esses projetos, hoje como sempre.

Amr Ismail Adly: “O problema inerente da PPPs é que esse tipo de parceria é sempre muito vulnerável à corrupção. E não temos, no Egito, um quadro de regulação e leis que garanta que os deveres do estado sejam tão firmes e claros quanto os do setor privado, no que tenha a ver com o bem-estar social. E há também o risco de que os lucros se encaminhem todos para o setor privado que, no caso do Egito é uma rede de grandes empresários com muitos laços de relacionamento com o Estado, ou para as empresas transnacionais envolvidas em mega projetos de construção de infraestrutura. Esse problema é muito grave. Seria preciso revisar toda a legislação, que terá de obrigar a haver muito mais transparência do que jamais houve no Egito.”

Trabalhador da Fábrica Legrand: Estamos exigindo que o atual governo corrija as leis que favorecem os investidores. Para os investidores, o Egito é um grande país para receber investimentos: a mão de obra é barata, os materiais são baratos, não há barreiras comerciais, o país está geograficamente localizado num ponto central... Por isso, querem investir aqui. A terra é vendida a eles a preço de areia, e acertam-se entre eles, de modo que pareça que estão investindo e “criando empregos”. Mas, se já recebem tantas facilidades, por que os investidores não pagam salários decentes aos trabalhadores? Temos direito de criar decentemente os nossos filhos e manter padrão de vida digno.”

Amr Ismail Adly: “As dificuldades têm a ver com os próprios termos das leis e dos contratos. Muitas vezes, ou quase sempre, os termos dos contratos favorecem demais os investidores. Mesmo que os negócios pareçam formalmente legais, os próprios termos dos contratos são tão desiguais, o governo tem sempre de pagar tanto, para cada empresa que se estabelece no Egito, que o país perde sempre muito mais do que ganha.”

[Manifestante]: A greve é luta legítima, contra os restos do regime deposto. Revolução, revolução, até a vitória. Hoje, é a prisão de Tora que governa ao Egito.

Fatma Ramadan: “Os trabalhadores foram decisivos, nos últimos 3, 4 dias antes da queda de Mubarak. A junta militar supôs que, se deixassem a revolução prosseguir, o mundo se acabaria – o que seria extremamente perigoso para o establishment. Por isso resolveram livrar-se de uma pessoa, e preservar o regime, em vez de permitir que a revolução prosseguisse até conseguir desmontar todo o sistema que privatiza etc..

Amr Ismail Adly: O que se vê na avaliação técnica feita pelo EBRD é que ignoraram absolutamente tudo que aconteceu, ignoraram a revolução e a história das privatizações no Egito. Por isso continuam a ver, conceitualmente, desenvolvimento ‘igual a’ privatizações e liberalização externa, como se nada tivesse mudado. Nos dois últimos anos do governo de Mubarak, os neoliberais já avaliavam que o Egito seria caso de sucesso da liberalização, ou, pelo menos, do que chamam de liberalização externa, que significa, mesmo, liberalização comercial e das finanças, e privatização de tudo, a qualquer custo.”

[Manifestantes]O Marechal de Campo é a cara da opressão! Diga, Marechal de Campo: quanto ganha por mês?”

Amr Ismail Adly: “Mas não sei que história de sucesso seria essa, em anos que levaram a uma revolução que aconteceu, sobretudo, por causa das terríveis condições sociais e econômicas que temos aqui. Onde está o sucesso? Sucesso de quem? O Egito ainda não viu sucesso algum!”

[Manifestantes]: Inflacionaram todos os preços, do açúcar, do óleo de cozinha. Para comer, temos de vender os móveis.

Danya Nadar: A decisão de expandir os empréstimos do EBRD para o Egito e o norte da África será tomada pelos países acionistas do banco, nos próximos meses.
Com a economia que continua a degradar-se, salários cada vez mais baixos e racionamento de gás que deflagram indignação cada vez maior, os operários egípcios mobilizam-se para novas manifestações de rua e novas greves, que ameaçam intensificar-se, contra as mesmas políticas econômicas fracassadas. 
Sou Danya Nadar, para Real News, do Cairo, Egito.

[Manifestantes]: “Greve é luta legítima, contra os restos de um regime deposto”.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

EUA contra Manning & Assange


29/2/2012, *Michael Ratner (entrevista transcrita pelo The Real News Network, TRNN)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

*Michael Ratner é presidente emérito do Centro pelos Direitos Constitucionais em New York e presidente do Centro Europeu pelos Direitos Constitucionais e Humanos em Berlim. Atualmente, trabalha como conselheiro para questões de lei nos EUA, contratado por Wikileaks e Julian Assange. Ratner e o CDC foram os primeiros a denunciar a ilegalidade da detenção de suspeitos na prisão de Guantanamo e continuam a trabalhar pelo fechamento daquela prisão. Foi professor da Faculdade de Direito de Yale e da Faculdade de Direito de Columbia, e presidente da Associação Nacional de Advogados. É autor de vários livros, dentre os quais Hell No: Your Right to Dissent in the Twenty-First Century America [Proibido! O direito de discordar, nos EUA do século 21] e Who Killed Che? How the CIA Got Away With Murder [Quem matou Che? Como a CIA escapou de responder por aquele crime]. As opiniões de Ratner nessa entrevista são opiniões pessoais, e não envolvem as organizações das quais participa.

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PAUL JAY, editor sênior, TRNN: Você é um dos advogados de Julian Assange e WikiLeaks e acompanhou a sessão da corte militar que está julgando Bradley Manning. O que aconteceu lá? 

RATNER: Bem, como você e seus ouvintes, melhor, seus telespectadores, certamente sabem, Bradley Manning é acusado de ser a fonte de grande parte do material que WikiLeaks publicou: o vídeo “Assassinato Colateral”, em que se assiste aos assassinatos cometidos no Iraque, os tiros partidos de um helicóptero; e as centenas de milhares de documentos de guerra sobre o Afeganistão e também sobre o Iraque; e um quarto de milhão dos chamados “telegramas diplomáticos”. E é acusado de ter feito tudo isso aos 22 anos, servindo ao exército. Está agora com 24 anos. Foi tratado com extrema, extrema violência, foi torturado durante longo tempo. E agora está sendo mandado para uma corte marcial – em que militares julgam militares. Pesam contra ele 22 acusações, inclusive, e a mais grave de todas, de ter cooperado com o inimigo, crime punível com pena de morte. Quanto a isso, os procuradores disseram – falaram, pelo menos, sobre isso, o governo disse – que não pedirão a pena capital; disseram que querem julgá-lo e condená-lo à prisão perpétua.

Na sessão mais recente desse processo, Manning foi levado ante o juiz, para que se declarasse culpado ou não culpado, ou pedisse uma prorrogação. Assisti a essa sessão. Foi rápida, cerca de uma hora, em Fort Meade, perto de Baltimore, a uma hora, mais ou menos, talvez 40 minutos de distância, do centro da cidade. É uma base militar imensa. Ninguém entra. Meu carro foi revistado. Exigem que você exiba seguro do carro, vários documentos. Se se passa por essa inspeção, entra-se numa fila.

Não se pode levar nenhum tipo de objeto para dentro da sala do tribunal, só papel e lápis. Não se pode usar nenhum tipo de telefone, transmissor, computador, nada. E lá fiquei, naquela sala limpa como quarto de hospital. É difícil descrever aquele tipo de limpeza, de assepsia: revestimento de tipo industrial, barato, no piso; teto de compensado, com pequenos furos; e lugares para apenas 20 pessoas. Havia dez presentes, a maioria, da imprensa. Bradley Manning entrou. É baixo, menos de 1,60m, magro, em uniforme de soldado, ao lado de seu advogado civil (que já foi advogado militar). Sentou-se junto à mesa. E continuava uma sensação estranha, naquela corte antisséptica.

Ali estava aquele homem, acusado de ter revelado quantidades massivas de crimes de guerra cometidos, segundo se sabe, pelos EUA. Mas quem ali estava era Manning, ali, naquele Fort Meade. Sentado ali, o que eu sentia é que ali deveriam estar sentadas as vítimas do que os EUA fizeram no Iraque e no Afeganistão. Mas bem claramente não estavam ali. Ali se viam os militares da acusação, com mais medalhas e condecorações do que eu jamais vira numa mesma sala. E o acusado, claro. Acusado de crimes muito, muito sérios.

O juiz é novo, recentemente indicado, e Bradley Manning foi chamado para responder perguntas. A única coisa que se ouviu dele naquela sala foi “sim, meritíssimo”; e “não, meritíssimo”. O advogado falou por ele; pediu uma prorrogação. E marcaram a data para a próxima audiência, que será em março.

Quanto à data do julgamento – os militares querem que o julgamento aconteça em agosto. O que significa que, se for julgado em agosto – e não creio que o julgamento seja marcado para agosto – Bradley Manning terá permanecido preso, até lá, mais de 800 dias. Durante esse tempo, foi submetido a tratamento que muitos de nós entendemos que seja tortura: foi mantido completamente nu, numa cela solitária, durante nove meses, até que, afinal, muita gente pôs-se a protestar pelo mundo, e ele foi transferido para a prisão de Fort Leavenworth, no estado do Kansas.

Quanto às 22 acusações, como já disse, são pesadíssimas. Na última audiência, seu advogado, David Coombs, disse que Manning está sendo acusado de tantos crimes exclusivamente porque as autoridades norte-americanas acreditam que ele tenha repassado os documentos a WikiLeaks e supõem que ele conheça algum segredo sobre WikiLeaks e Julian Assange; então, querem que Manning conte tudo o que supõem que Manning saiba; não apenas que confesse que passou os arquivos a Assange, mas que diga algo que realmente implique Julian Assange e WikiLeaks.

JAY: A ideia geral é que, se houve um vazamento, Manning é responsável; mas ele pode ter apenas passado adiante, digamos, o material que reuniu. Mas se Assange o instruiu antes, se disse a ele o que fazer ou como fazer, nesse caso seria possível acusar Assange de envolvimento nos mesmos crimes de que acusam Manning. É isso?

RATNER: Você está lembrando um aspecto muito importante. É exatamente isso. Quero dizer: eu não diria exatamente nessas palavras, mas a questão é, sim, exatamente essa. Os juízes militares querem provar – ou, pelo menos, é o que o estado está tentando provar – que Julian Assange participou da conspiração ou que, no mínimo, convenceu e ajudou Bradley Manning a pôr as mãos naqueles documentos. Querem construir um cenário em que Manning e Assange teriam trabalhado juntos desde o começo; Assange não recebeu, apenas, de Bradley Manning documentos que Assange nem sabia que existissem.

Eu não usaria exatamente essas palavras, porque tenho outra hipótese sobre o caso. Considere o seguinte. O repórter James Risen, do New York Times, o jornalista que descobriu as gravações ilegais de telefonemas de cidadãos, que Bush autorizara, recebeu “de dentro”, os documentos que provavam as gravações ilegais; recebeu-as de alguém da Agência Nacional de Segurança, ou de alguma outra agência do governo norte-americano. Não se comentou, mas presumo – não sei desses detalhes – que os documentos não foram simplesmente deixados sobre a mesa de James Risen no New York Times nem lhe foram entregues, de repente, pelo correio. Presumo, não sei, estou presumindo, que houve contatos anteriores entre o jornalista e a “fonte”. Talvez vários contatos.

O que quero dizer é que, em certo momento, os contatos entre jornalista e fonte podem, sim, começar chegar muito perto de conspiração contra o estado, o governo, o presidente. Mas se digo à minha fonte: “encontre-me na esquina de Hollywood e Vine; há um restaurante ali; entre e deixe os documentos sobre o balcão”... Ora. Isso não converte nenhum jornalista em conspirador. Se o jornalista disser à fonte “deixe o envelope embaixo de uma pedra do jardim”... Nada disso, por si só, converte o jornalista em conspirador ou em “formador de quadrilha” [1].

Os EUA estão procurando qualquer vestígio de pêlo em ovo, nesse caso, porque os juízes e advogados que estão trabalhando para acusar Manning já sabem que têm um problema. Se não conseguirem envolver Julian Assange e WikiLeaks num caso de conspiração, no qual alguém consiga provar que Assange instruiu e ajudou Bradley Manning, os juízes nada têm para construir uma acusação formal contra Assange. Qual seria a diferença entre Julian Assange e o jornalista; ou entre WikiLeaks e o jornal The New York Times? Todos os dias abrimos o jornal e lemos páginas e páginas de material sigiloso vazado para a imprensa. Mas os EUA têm agora de tentar – como você disse, precisam manter preso Bradley Manning pelo maior tempo possível, na esperança de que, seja como for, conseguirem implicar Julian Assange nos crimes de que acusam Bradley Manning.

JAY: Entendido. E sobre... 

RATNER: Foi exatamente o que disse o próprio advogado de Bradley Manning. Por isso é que Manning está sendo tratado de modo tão violento. Sim, ele baixou todos aqueles documentos. E o governo quer puni-lo pelo que fez, quando ainda era soldado. Mas o que o governo realmente quer – os peixes grandes que o governo dos EUA quer enredar nesse caso são WikiLeaks e Julian Assange.

JAY: A imprensa tem discutido a estratégia da defesa, e parece, pelo que se diz, que, em primeiro lugar, Manning estava em estado mental, psicológico, tão precário, que, em primeiro lugar, ele jamais poderia ter tido acesso a tantos segredos. Ninguém parece interessado em afirmar que, se um soldado encontra provas de que se cometeram crimes de guerra, é dever dele expor o que sabe; que esse seria seu direito e, até, seu dever. A defesa não parece interessada em explorar esse caminho. Estão dizendo apenas que há algum problema, alguma, digamos, fragilidade psicológica, em Bradley, e que ele deve ser absolvido por causa disso.

RATNER: Veja... Ao final da audiência da semana passada, eu estava lá com, digamos, outras dez pessoas, entre as quais um homem que esteve preso com o Padre Berrigan [2], nos anos 1970s. – Imagine só. O homem estava lá, em Baltimore, semana passada! – De fato, acho que foi dos primeiros feridos naquelas manifestações populares dos anos 1970s. Foi preso e depois, acabou por ser posto em liberdade. O homem é do tipo que resiste, você sabe, dos que nunca desistem, um daqueles indestrutíveis militantes pacifistas da resistência contra a guerra. E estava lá, no julgamento de Manning. Ao final da audiência, aquele homem – e isso é importante, a favor do que você lembrou – gritou: “E não é dever de todos os soldados denunciar crimes de guerra?!” 

Acho que a questão é exatamente essa. É obrigação dos soldados revelar crimes de guerra que vejam acontecer. E isso, em minha opinião, é exatamente o que Bradley Manning fez. Por isso, todos os que como eu creem que os EUA cometeram inúmeros crimes de guerra, pelos quais tentam não ser responsabilizados, vemos com tanta simpatia a causa de Manning. Assumindo-se que Manning tenha feito o que é acusado de ter feito, ele desempenhou papel muito importante ao trazer todos aqueles crimes ao conhecimento do povo dos EUA.

Mas, sim, como você disse, a defesa parece trabalhar numa via diferente dessa. A defesa de Manning, pelo menos na audiência que chamam de “audiência do artigo 32”, uma audiência preliminar, para estabelecer se há provas suficientes para acusar e julgar alguém, a defesa, como estava dizendo, optou por uma espécie de defesa psicológica. 

A defesa de Manning, de fato, optou por uma defesa ‘em dois tempos’: começaram por argumentar que, afinal de contas, havia 3,5 milhões de pessoas, todas com o mesmo nível de acesso a documentos secretos que Bradley Manning também tinha; essas 3,5 milhões de pessoas foram autorizadas a ver aqueles documentos pelos serviços militares e de segurança dos EUA. Assim sendo, o que o governo esperava? Que ninguém, daquelas 3,5 milhões de pessoas, jamais revelasse coisa alguma? 

JAY: Só para explicar aos que nos ouvem: Bradley Manning tinha o mesmo tipo/nível de acesso a documentos secretos que outros 3,5 milhões de militares e agentes de segurança. A loucura inicial, portanto, parece ser que tantos documentos hoje apresentados como tão sensíveis, tenham sido expostos a essa verdadeira multidão. Ok. Prossiga.

RATNER: Exatamente. O que quero dizer é que, de fato, aqueles documentos eram de nível “secreto” ou inferior. Nada havia, nos documentos divulgados, que fosse “top secret”. Nos telegramas diplomáticos não há um só documento classificado como “top secret”. Há o vídeo “Assassinato Colateral”, importante; mas foi classificado como “secreto”, não é “top secret”. Por isso, 3,5 milhões de pessoas tinham acesso àqueles documentos. Ainda que Manning e outros não tivessem qualquer motivo para fazer o que Manning está sendo acusado de ter feito, se tinham acesso àqueles documentos, esse acesso lhes foi autorizado por militares ou agentes de segurança de patente superior à de um cabo. Com o que se vê que todo o sistema de segurança é fragilíssimo. Assim sendo, a responsabilidade pelos vazamentos é dos serviços militares e de inteligência dos EUA, que não fizeram o que existem para fazer. 

De qualquer modo, pouco me preocupa a fragilidade do sistema de segurança. O que me interessa é que, sim, estavam acontecendo crimes por lá; e os crimes vieram à tona, talvez, exatamente, porque os eventos daquela guerra não estavam protegidos por sistemas de segurança eficazes.

Por tudo isso, a defesa de Manning começou por aí: se aqueles documentos eram sigilosos e importantíssimos... por que não estavam protegidos adequadamente? Só depois de fixar esse primeiro argumento é que a defesa de Bradley Manning entrou no campo das dificuldades psicológicas do próprio Bradley.

Bradley é gay, o que não seria problema em si. Mas, pelo que se sabe, foi severamente abusado pelos colegas, desde o primeiro dia de serviço militar, por ser gay, por ter baixa estatura, todos conhecemos esse tipo de violência: Bradley Manning não tinha os atributos que os preconceitos associam ao “soldado modelo”. Sabe-se que o comando no qual Manning estava alistado recebeu várias reclamações, dos chefes imediatos de Manning, que protestaram contra Manning ser mandado para o Iraque. Fato é que Manning foi mandado para o Iraque e, lá, foi posto na sala de computadores onde trabalhou. Sabe-se também que Manning escreveu e-mails sobre o assunto, e que pesquisou vários sites em que se discutem questões de gênero; que enfrentava problemas de identidade sexual; que considerou a possibilidade de inscrever-se para uma cirurgia de mudança de sexo. Algumas vezes, ao que se sabe, foi encontrado no chão, em posição fetal. E há outras informações desse tipo, no processo.

O que interessa observar é que a defesa de Manning não construiu uma defesa política; não disse, até agora, que o soldado tem o direito, se não a obrigação (que, de fato, o soldado tem) de denunciar publicamente crimes de guerra dos quais tenha conhecimento. Se o soldado leva os crimes ao conhecimento dos superiores imediatos, e não vê tomarem-se providências, é preciso, então, denunciar os mesmos crimes, por outras vias. Mas os advogados de Manning não adotaram essa via política de defesa. 

Minha opinião é que a defesa está convencida de que o caminho que escolheu é o melhor para Bradley Manning. Eles estão preparando o campo para, no caso de Manning ser condenado, haver fatores que possibilitem requerer reduções da pena. Pessoalmente, essa é a minha opinião até agora. 

JAY: É possível que a defesa tenha razão. Afinal, é difícil imaginar que uma corte militar de justiça aceite que soldados revelem segredos, em todos os casos em que os soldados suponham que tenha havido crime de guerra.

RATNER: Por um lado, é claro, foi uma decisão dos advogados que estão defendendo Bradley Manning. Claro que, sim, como você disse, se tivessem optado por defesa mais fortemente política, o mais provável é que fossem detonados naquela corte militar. Mas, se adotassem uma via mais política, conseguiriam mobilizaria mais facilmente a opinião pública mundial. Talvez até, num determinado momento, sob forte pressão popular, o governo fosse forçado a conceder alguma espécie de indulto, ou perdão; talvez o governo ficasse em posição de não poder continuar a julgar Manning como criminoso, se as pessoas o vissem como herói. Concordo que, aqui, já entramos no terreno da pura especulação. Eu talvez, como advogado, preferisse a linha mais política. Mas o advogado de Manning é experiente e está conduzindo as coisas como lhe parece melhor para Manning.

Mas eu sou advogado de WikiLeaks e Julian Assange, e todo esse julgamento me interessa diretamente, porque interessa aos meus clientes, por algumas razões muito importantes. Primeiro, como já disse e como o advogado de Manning também disse, o governo está tentando forçar Bradley Manning a testemunhar contra Julian Assange. Manning foi torturado para que dissesse qualquer coisa que incriminasse Assange. Está sendo julgado com a fúria condenatória que se vê naqueles juízes, também, para forçá-lo a dizer qualquer coisa que incrimine Assange. Vai ser julgado em corte militar marcial, exclusivamente como mais um meio para tentar forçá-lo a dizer qualquer coisa que incrimine Assange. Por tudo isso, o julgamento de Manning é muito importante para nós.

E o julgamento de Manning também é importante para nós, porque os EUA estão muito fortemente empenhados em indiciar Julian Assange. Há um Grande Júri, uma corte federal instalada, pronta e à espera, em Alexandria, Virginia. Está constituída e suspensa há um ano. Não tenho tido notícias recentes, mas está aberta e em andamento lá uma investigação sobre WikiLeaks. Além disso, todos entendemos que o objetivo dos EUA é conseguir extraditar Julian Assange, seja da Grã-Bretanha, se Assange permanecer lá; seja da Suécia, se Assange tiver de voltar à Suécia na sequência de um processo ainda não encerrado, em que Assange foi acusado de abuso sexual e estupro. O objetivo dos EUA é conseguir extraditar Assange, seja da GB ou da Suécia, para julgá-lo nos EUA.

JAY: Há alguma razão pela qual seja mais provável extraditá-lo da Suécia para os EUA, do que da GB para os EUA?

RATNER: Deixe-me só concluir meu argumento, antes de falar sobre isso, que é muito, muito importante.

O segundo aspecto do julgamento de Bradley Manning interessa e tem muito a ver com Julian Assange é que, na tentativa para extraditar Julian Assange, um aspecto que a Corte Europeia considerará é como Assange será tratado nos EUA. Será tratado como combatente inimigo? É possível. É pouco provável, mas é possível. Será posto em cela solitária e torturado, como Bradley Manning, deixado nu, sem poder ver ninguém? Isso com certeza é muito, muito provável, como todos sabemos. E será acusado de crimes para os quais a Lei Antiespionagem [orig. Espionage Act] prevê pena de morte? Tudo isso será discutido na Corte Europeia que decidirá sobre a extradição de Assange. Por isso, quando se analisa o modo como Bradley Manning está sendo tratado nos EUA, uma das defesas possíveis para Julian Assange – e, quanto a isso, não faz diferença de onde ele seja extraditado – será mostrar como os prisioneiros são tratados nos EUA.

Agora, sobre o que você perguntou, se será mais fácil extraditá-lo da Suécia, que da Grã-Bretanha, acho que – é minha opinião, pessoal – sim, será mais fácil extraditá-lo da Suécia. Acho que uma das razões de eu pensar assim é ver que, sim, os EUA preferem tentar extraditá-lo da Suécia. O que sei é que na Grã-Bretanha (e conheço bem os advogados ingleses de Assange) a extradição não é fácil. Não é fácil arrancar prisioneiros de Londres. Há advogados britânicos especialistas nesse tipo de defesa. Há o caso de um hacker que, muito jovem, invadiu os computadores do Pentágono. Os EUA tentam extraditá-lo há oito anos E não estou dizendo que demore tanto. Não sei. Mas Assange tem muitos apoiadores na Grã-Bretanha. Entendo que, para os EUA, será extremamente difícil, se chegarmos a isso, extraditar Assange da Grã-Bretanha. A Suécia é país menor. Apesar da boa imagem da Suécia nos EUA, o governo é muito mais cooperativo, com os norte-americanos, do que muita gente pensa. Muitos pensam como eu: que será muito mais fácil para os EUA tirarem Assange da Suécia, que da Grã-Bretanha.

E assim chegamos ao caso de Julian Assange. Interessante, que esperávamos que aparecesse, muito rapidamente, dado que estamos no contexto da União Europeia, um pedido de extradição que incluísse os dois países, Suécia e Grã-Bretanha. O sistema europeu é como ir de Maryland a New York, você sabe, é interestatal; o sistema judiciário europeu é praticamente interestatal. E supúnhamos que não seria difícil que os EUA obtivessem a extradição. Mas os advogados ingleses lutaram muito, e o caso acaba de chegar à Corte Suprema na Grã-Bretanha, à qual só chegam casos (como à Suprema Corte dos EUA) que a Suprema Corte queira julgar; a Suprema Corte não é obrigada a julgar. A defesa foi apresentada a sete juízes (acho que eram sete, talvez tenham sido cinco, não estou certo). E foi defesa muito forte, um argumento muito vigoroso. Ali, os advogados ingleses que defendem Assange decidiram começar por discutir as imperfeições do sistema sueco, uma discussão extremamente técnica. Um Procurador sueco expediu o mandado de prisão, de extradição, contra Assange, pedindo que a Grã-Bretanha o extraditasse. Nos termos da lei sueca, só juiz poderia expedir mandado de prisão, de extradição. Obviamente, autoridades judiciais são neutras. O Procurador insiste em que seu pedido deve prevalecer. O que se discute, então, é o seguinte: na Suécia, um Procurador é autoridade judicial? Não tenho dúvidas de que a corte britânica levará extremamente a sério essa discussão. E tenho esperanças de que Julian não será mandado para a Suécia. Seja como for, você sabe, é mandado de prisão, de extradição, válido para toda a Europa. Assim sendo, ainda não sabemos.

JAY: OK. Por favor, rapidamente: qual é a base legal, ou precedente, se houver, para que Manning argumente, em sua defesa, que um soldado que descubra provas de que se cometeram crimes de guerra tenha algum tipo de obrigação de tornar público o que sabe?

RATNER: Veja... É precedente antigo. De fato, pode-se rastrear a origem desse precedente até os julgamentos de Nuremberg. Há o precedente legal, nos termos da Convenção de Genebra, e também nos termos de nossas leis, nos EUA, de que não se podem nem cometer nem tolerar crimes de guerra. Se você descobre indício ou informação sobre crimes de guerra, você tem o dever legal de dar divulgação ao que sabe. Quanto aos EUA, em sentido geral, o soldado tem o dever de informar o superior imediato na cadeia de comando. Claro que, nos EUA, informar os superiores na cadeia de comando é, na essência, inútil. Conheço vários casos de estupro entre militares, de mulheres que denunciaram ter sofrido estupro, aos superiores militares. E a situação das vítimas só piorou, foram perseguidas, há casos de mulheres vítimas de estupro que tiveram de deixar a carreira militar. Imagine no caso de crimes de guerra. É gritar contra uma muralha. Não há saída.

Por tudo isso, não tenho dúvidas de que houvesse qualquer alternativa para Bradley Manning, além de fazer o que fez. E, você sabe... Sabe-se pouco, quase só o que foi noticiado, mas, segundo o que todos lemos, é fácil concluir que o problema, de fato, foi aquele vídeo, que mostra a morte de dois jornalistas da Reuters assassinados no Iraque, de um helicóptero norte-americano, e as crianças feridas. E é um vídeo. Manning viu aquilo. E concluiu que tinha de divulgar. 

Além disso, se se examina o que foi vazado, e por que aqueles documentos eram considerados secretos... A maioria daqueles documentos só são considerados secretos porque os EUA querem esconder seus próprios crimes, os procedimentos, as questões em que seus embaixadores envolvem-se, nos países onde atuam. E isso é especialmente verdade em relação ao vídeo de guerra “Colateral”.

==== FIM DA ENTREVISTA ====

Notas dos tradutores
[1] No Brasil, para ampliar o exemplo, a jornalista Renata LoPrete, da Folha de S.Paulo escreveu que foi procurada por telefone, num sábado pelo (hoje ex)deputado Roberto Jefferson, que lhe disse que tinha “revelações estarrecedoras”.
O deputado não tinha documento algum a exibir, nem a jornalista (?) investigou coisa alguma antes de noticiar, logo no domingo seguinte, um “escândalo” completamente inventado: hoje já se sabe que o tal “mensalão” que a jornalista e o (hoje ex) deputado Roberto Jefferson: (a) inventaram; (b) batizaram e (c) noticiaram como se fosse fato, e tudo isso sem exibir qualquer prova até hoje, jamais existiu. Nem por isso a jornalista LoPrete e o (hoje ex) deputado Roberto Jefferson foram acusados de conspirar contra governo democraticamente eleito, amparados, ambos, no direito à “liberdade de expressa” que também assegura direitos a qualquer jornalista caluniador de caluniar sem medo e sem vergonha, sequer quando jornalista e seu patrão nada investigam, publicam qualquer coisa que lhes interesse publicar e, eventualmente, bem podem estar agindo como quadrilha. De diferente, claro, na comparação – a favor de Manning e Assange e contra a jornalista LoPrete e o ex-deputado Roberto Jefferson – que Manning e Assange deram a conhecer ao mundo crimes cometidos e as correspondentes provas suficientes.
[2] Padre Philip Berrigan, padre católico e ativista dos movimentos antiguerra nos anos 1970s. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre “State of the Union” (SOTU), 2012 (2): “GM é o pior modelo possível para recuperar os EUA”


Frank Hammer

25/1/2012, Frank Hammer, The Real News Network 
(vídeo e entrevista traduzida)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Frank Hammer é empregado aposentado da General Motors de Detroit, onde trabalhou durante 32 anos, e ex-presidente de Local 909 em Warren, Michigan. Atualmente, está organizando a Auto Worker Caravan [Caravana dos Trabalhadores da Indústria Automobilística], associação de trabalhadores ativos e aposentados, que viajará a Washington para apresentar suas reivindicações ao governo.


PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Pode-se dizer que a peça central do discurso do presidente Obama foi restaurar as fábricas norte-americanas. E o modelo de sucesso da intervenção do governo Obama teria sido a ‘salvação’ da General Motors e da indústria automobilística. Que lhe parece?

HAMMER: Acho que o modelo é ruim, é péssimo. Acho que se alguém soubesse o que realmente foi feito, que fomos jogados à falência pela crise financeira e, claro, Wall Street traçou o plano e ditou os termos do que fazer para tirar os bancos da falência. Resultado disso, os empregos desapareceram na indústria automobilística. Mais ainda: para recuperar a GM, foi preciso atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores. E tudo, a partir do mito inicial: de que a causa da falência teriam sido os salários. Não foram. A causa da falência foi a crise financeira.

JAY: O que você quer dizer, quando fala em atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores?

HAMMER: O presidente Obama mencionou que seu governo deixou que as empresas e os trabalhadores resolvessem suas diferenças. É. O que o governo Obama fez foi, primeiro, acabar com o direito de greve. Segundo, o governo Obama fixou, como salário máximo aqui em Detroit, o salário das fábricas do sul onde os trabalhadores não são sindicalizados. Assim reduziram nossos salários e nossa expectativa de vida decente. As fábricas em Detroit foram equiparadas às fábricas dos sul, cujos trabalhadores não são sindicalizados. Tudo isso foi feito pelo governo Obama, sim. Que obedeceu ordens de Wall Street.

E se esse é o modelo que Obama usou em seu discurso, o que Obama disse, de fato, é que todos devem reduzir o padrão de vida dos trabalhadores, equipará-los ao padrão de vida de trabalhadores do Terceiro Mundo, para que os EUA – lembre-se ele citou o exemplo da Master Lock[1] . O presidente Obama disse, isso sim, é que os trabalhadores chineses têm tido aumentos no salário mínimo e, portanto, é agora melhor negócio para a Master Lock voltar para os EUA, onde os salários dos trabalhadores são menores a cada dia. O que ele de fato disse é que está convertendo os EUA em país do Terceiro Mundo. E que, assim, seremos mais competitivos e que assim criaremos empregos. Mas só se os trabalhadores dos EUA aceitarem trabalhar por salários de Terceiro Mundo e sem direito de greve.

JAY: Obama também falou sobre desenvolver energia limpa. O que lhe pareceu?

HAMMER: Pareceu-me que ele mencionou a mudança climática uma vez. E só disse, sobre mudança climática, que o Congresso talvez esteja excessivamente dividido para discutir o problema. Foi muito pouco, uma droga de concessão, se se sabe que os cientistas têm dito que é preciso agir rapidamente. E continua repetindo aquelas bobagens, energia nuclear, biocombustíveis e petróleo. Quer dizer: Obama não parece ter ideia clara de que a questão central, definitória desse nosso tempo, são as energias renováveis, não os bicombustíveis, nem a energia nuclear, mas energia limpa. Para Obama, a questão definitória desse nosso tempo é se os EUA conseguirão manter o padrão de vida da classe média dos EUA. E ninguém manterá padrão algum de vida de classe média alguma, se não começar a preocupar-se com a mudança climática.

JAY: Um dos temas sobre os quais conversamos em outras entrevistas é que a recuperação da indústria de transportes poderia ser ponto de partida para outro tipo de economia. Mas Obama voltou ao modelo de Detroit.

HAMMER: Ele mencionou, a certa altura, que entende que as empresas devem receber incentivos para construir novas fábricas, nas áreas que foram mais duramente atingidas pela crise. Em 2009, Obama disse que cuidaria de áreas como Detroit como o governo Bush deveria ter cuidado de New Orleans depois do Katrina. Gostei daquela ideia, achei que ia na direção certa. Mas nesse discurso já nem apareceu um tópico que aparecera nos outros discursos Estado da União: a questão de construir transporte público, linhas férreas, transporte leve. Há muito tempo nós repetimos que algumas das grandes fábricas que foram fechadas em Detroit deveriam ser convertidas em fábricas de vagões, vagões leves, para linhas de alta velocidade. Em 2012, o presidente nem falou sobre isso. Tenho esperança de que se possa ver algum movimento na direção de utilizar energia solar e eólica, para reabrir algumas das fábricas que continuam fechadas. E que apareçam os incentivos que Obama mencionou no discurso.

JAY: Em termos gerais, qual foi sua impressão do discurso? Alguns dos que entrevistei hoje disseram que estão felizes de Obama ter falado, pelo menos, da desigualdade de renda. Quero dizer... Alguma coisa que se ouviu nesse discurso permite esperar que algum dia apareça um Obama diferente do que se viu?

HAMMER: Olhe, francamente, discordo muito de alguns dos meus queridos amigos afro-americanos, que ainda creem que, no segundo mandato, Obama será presidente diferente. Acho que, se for reeleito, veremos mais do mesmo Obama. O momento perfeito para um discurso que incendiasse a base foi ontem, naquela fala do Estado da União (State of the Union). E não aconteceu. Sei disso, porque minha filha, por exemplo, trabalhou muitíssimo para eleger Obama em 2008. Falei com ela hoje, e com meu genro, e nenhum dos dois estava muito entusiasmado com o discurso. Essa era a base de Obama. São os jovens que votaram aos milhões e o elegeram. E não acho que Obama os tenha emocionado, com o discurso de ontem. Fiquei com a impressão de que Obama cantava pelo livro de salmos dos Republicanos. Perdi a conta de quantas vezes repetiu que regulações são péssimas. Acho que o que se viu foi mais rendição, mais um passo na direção do que para muitos seria o centro, mas que cada dia mais é mais à direita, à direita, à direita, mais a cada ano que passa. Acho que Obama teria de tentar incendiar a sua base, em ano eleitoral. Fiquei com a impressão de que Obama está dando por garantidos os votos de sua base. Obama nem falou, nenhuma vez, sobre Occupy Wall Street – e é o movimento que está varrendo todo o país. Aliás... não falou de 99%, mas falou de 98% (os que estão com os salários estagnados). Entendeu?

JAY: Talvez tenha redefinido a base. Talvez esteja jogando para a base. Só que não é a base que acredita que ainda seja a base de Obama.

HAMMER: Pode ser. Mas a base de Obama em 2008 foi fonte de energia e entusiasmo para a campanha. Se Obama redefiniu sua base... Escolheu caminho terrivelmente perigoso.

JAY: Obrigado pela entrevista, Frank.




Nota dos tradutores
[1]   Master Lock  fabrica produtos de segurança, com sede em Milwaukee; há pouco tempo a empresa declarou que traria de volta os empregos que exportou para a China, se encontrasse condições de apoio econômico. Desde meados de 2010, a empresa “reimportou” 100 postos de trabalho, que voltaram à fábrica em Milwaukee (25/1/2012).

Sobre“State of the Union” (SOTU), 2012 : “Obama jura promover o império”


Glen Ford

25/1/2012, Glen Ford (vídeo e entrevista transcrita), The Real News Network, TRNN
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Glen Ford é conhecido radialista e comentarista político. Em 1977, Ford co-fundou, produziu e animou o programa “America's Black Forum” [Fórum Negro dos EUA], primeiro programa de entrevistas produzido por negros na televisão comercial dos EUA. Em 1987, Ford criou o primeiro programa nacional de Hip Hop, retransmitido para 65 rádios em todo o país. Em 2002, criou o programa Black Commentator e, em 2006, lançou Black Agenda Report. É também autor de The Big Lie: An Analysis of U.S. Media Coverage of the Grenada Invasion [A grande mentira: análise da cobertura, na mídia dos EUA, da invasão de Granada].


PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Você está em New York ou New Jersey, Glen?

GLEN FORD, diretor executivo de Black Agenda Report: New Jersey.

JAY: E qual é sua primeira impressão do discurso?

FORD: Bem, foi discurso sobre banqueiragem e império, porque são os únicos temas que existem para Barack Obama. O que não foi isso, foram jogos de palavras, fumaça e metáforas, nada que valha a pena comentar. Abriu e fechou o discurso com elogios à própria política externa. Temos aqui um presidente que disse ser candidato pela paz, mas que apresenta aos eleitores, como trunfo eleitoral, o número de pessoas que matou e quantos mais está disposto a continuar matando.

JAY: Surpreendeu-me muito, já na abertura do discurso, quando Obama falou sobre o Iraque e disse que a guerra do Iraque nos tornou mais seguros e mais respeitados... Não sei. Quero dizer, pode parecer que estou levantando a bola para você chutar, mas... O que você achou disso? 

FORD: É até engraçado. George Bush deve ter-se sentido aliviado de todas as culpas. Obama reescreveu a história. Obama vangloriou-se de ter feito a guerra do Iraque, guerra tão nobre, e também se vangloriou de um suposto papel que teria sido dele, e também muito nobre, de estar retirando os soldados de lá. Obama sempre faz isso, quando fala para os Democratas. Todos sabemos que Obama fez de tudo, usou os seus generais e todos os seus diplomatas, até o último momento, para tentar manter uma presença forte dos militares dos EUA no Iraque. Pena que os iraquianos não colaboraram. Os iraquianos, com resistência armada, obrigaram George Bush a assinar um acordo de retirada. Agora, Obama está saindo, cumprindo aquele mesmo acordo, no qual os iraquianos nunca aceitaram introduzir nenhuma mudança. Por isso os EUA estão saindo de lá. E, acho eu, nem o governo Maliki teria conseguido manter-se no poder no Iraque, se tivesse tentado mudar o acordo.

Quero dizer: temos um presidente que quer ganhar pontos pelos dois lados. Obama, de fato, sempre faz isso. Por um lado, apresenta-se como o formidável imperialista que diz que os EUA são o “número 1”, e “todos conhecerão minha mão pesada”, “para que vocês se orgulhem do que são”. E por outro lado, diz “vocês sabem, estou realmente me esforçando para trazer os soldados de volta para casa, e, quando voltarem, o herói serei eu”.

JAY: Tive a impressão de que Obama não deu sinal de qualquer incômodo por os EUA estarem agindo com mão pesada – quero dizer, por estarem tentando influenciar os desdobramentos da rebelião e os rumos da resistência que se vê no mundo árabe. Obama falou de “valores americanos”, mas evidentemente estava falando de interesses americanos.

FORD: Não há dúvida alguma de que, com Barack Obama, os EUA voltaram à ofensiva. Os EUA são hoje tão agressivos militarmente no mundo, quanto eram antes de serem derrotados no Iraque. É a promessa que Obama fez aos militares. Se se analisassem suas palavras quando falou ao equivalente da Comissão de Relações Exteriores em Chicago, todos saberíamos que Obama prometeu devolver os EUA a uma posição em que possam usar impunemente a força em todo o mundo, sem arruinar as interrelações com os aliados. Basicamente, essa é a missão que Obama se autoatribuiu. Agora, se pavoneia, dizendo que fez o que prometeu fazer. De fato, em vários sentidos, ele fez. A OTAN está transformada em força expedicionária que já atacou sem qualquer provocação, e destruiu, um país africano soberano. E Barack Obama conseguiu safar-se sem sequer ter de admitir que os EUA estavam engajados na guerra na Líbia. Mas é tentar enganar todos todo o tempo. 

JAY: E sobre afirmar os “valores americanos” na região, vê-se no Egito, onde o governo militar, como muitos já dizem, atacou os manifestantes com mais violência do que a própria polícia de Mubarak – e com pleno apoio do governo Obama.

FORD: De minha parte, não sei quais seriam esses “valores americanos”. Conheço os valores do mundo corporativo. Sei que se trata de encurralar mercados e criar monopólios, e sei que toda a política externa dos EUA só faz trabalhar a favor dessas corporações monopolísticas. Se se trata do que os EUA fazem, os valores americanos são esses, e só esses. A impressão que tenho é que Obama fala uma espécie de linguagem cifrada, que pouco significa, mas é a linguagem da maioria dos norte-americanos. Acho que os americanos estão pouco preocupados – a maioria, com certeza, não está preocupada – com democracia em outros países. Menos ainda, se são países “não brancos”. A maioria dos norte-americanos pensa mais, sempre, no poder e no prestígio dos EUA.

JAY: Voltando ao que você disse, que Obama é sempre isso. No discurso, ele disse, literalmente, que continuaremos a ser “nação indispensável no mundo dos negócios”. E afirmou: “vou manter as coisas nessa trilha”. Sabemos o que isso significa. Por outro lado, se você procura a via alternativa... quero dizer: não sei se podemos eleger Newt Gingrich, que quer John Bolton como secretário de Estado. Parece que, por aqui, estamos forçados a escolher entre o neoliberalismo imperial e os sociopatas.

FORD: É. Você citou John Bolton, que significa abolir a diplomacia. E acho que ele pensa exatamente nesses termos. “Nação indispensável”... Que frase! Pense bem. Qualquer outro país que tivesse a arrogância de proclamar-se indispensável, seria imediatamente odiado por 99,9% dos americanos e dos demais povos do mundo. Os EUA dizem isso, assim, sem mais nem menos, como se fosse normal, evidente, que os EUA sejam indispensáveis. Claro que, se são a única nação indispensável, estão dizendo que todos os demais países do mundo são dispensáveis. Depois, os norte-americanos não entendem por que somos tão odiados em todo o mundo.

JAY: Se se pensa na situação no Irã, Obama acaba de cancelar exercícios militares agendados com Israel. Para alguns analistas, teria sido mensagem a Israel, de que os EUA não apoiaríamos qualquer tipo de ataque militar preventivo de Netanyahu contra o Irã. Sabe-se que há opiniões divergentes sobre atacar o Irã também dentro de Israel. Até ex-chefes de agências de inteligência de Israel já disseram que Netanyahu é temerário e capaz de agir por sua conta. E, se se considera a alternativa eleitoral nos EUA, os Republicanos estão cada vez mais próximos de Netanyahu ideologicamente, politicamente, e no que tenha a ver com o Irã. Um presidente Republicano não estaria mais próximo de atacar o Irã? Não haveria alguma melhor racionalidade no modo como Obama conduz as coisas, se se pensa na alternativa eleitoral, hoje?

FORD: Bem, para começar, não estou convencido de que o governo Obama deseje atacar o Irã. Obama está em campanha eleitoral. Ele sabe que atacar o Irã teria consequências econômicas catastróficas, as quais, por sua vez, podem custar-lhe a reeleição. Mas esses navios de guerra gigantes... Depois que são postos em movimento, é difícil fazê-los dar meia volta. Se o país for induzido a crer que exista alguma real ameaça existencial contra os EUA, será difícil abortar um ataque no último instante, sobretudo se, do seu lado, há gente como Netanyahu, com agenda própria. Claro que, de um momento em diante, pode tornar-se impossível fazer abortar um ataque militar – mesmo que você não quisesse atacar ninguém. O que quero dizer é que os EUA já criaram uma situação extremamente perigosa, que não sei se poderão controlar.

JAY: Volto ao meu ponto. Quando as pessoas estão resolvendo em quem votar nessa eleição – e falo de gente que deseja movimento político independente, que não quer ver-se como apêndice do Partido Democrata – e se se pensa na questão do Irã... Você acha que há alguma diferença essencial aí, entre o que poderá acontecer em mais quatro anos de Obama, e num governo dos Republicanos, no que tenha a ver com o Irã?

FORD: Acho que há aí diferentes níveis de competência. Claro que entregar a política exterior a John Bolton é completa estupidez. Mas, sim, concordo que não haja muitas diferenças de objetivos. Acho que Obama é dos políticos mais inteligentes que jamais chegou à presidência. É também dos mais espertos, dos mais “lisos” e, sim, muitos espertos conseguem passar por inteligentes em algumas circunstâncias. Acho que pode estar havendo algum excesso de esperteza, se alguém pensa que pode bater tambores de guerra dia e noite sem parar, “porque” poderá declarar a paz de repente, quando bem entender.

JAY: Muito obrigado pela entrevista ao The Real News Network