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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Esclarecedor WIKItelegrama assinado pelo (então) vice-embaixador Chris Stevens em 2/5/2008, Trípoli


(em inglês em: WikiLeaks Cablegate o8TRIPOLI374)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

OBS. Esse telegrama também foi publicado no jornal britânico The Telegraph, dia 31/1/2011

____________________

TELEGRAMA
08TRIPOLI374
Assunto
O Conselho de Segurança Nacional da Líbia (orig. NSC) consulta EUA sobre colaboração nuclear civil & compra de equipamento militar letal [1]
Origem
Embaixada dos EUA em Trípoli (Líbia)
Hora do tel.
8/5/2008, 14h TUC [ing. UTC] [2]
Classificação
SECRETO/VEDADO A ESTRANGEIROS (S/VE)
Fonte
Tels. Citados
Ref A: 08TRIPOLI340, Ref B: 08TRIPOLI372
Citado em
_________________


[outros detalhes do cabeçalho aqui omitidos]

(S/VE)  Resumo: Alto funcionário do Conselho de Segurança Nacional da Líbia perguntou o que pensa o Governo dos EUA [orig.USG] sobre a possibilidade de cooperação nuclear civil EUA-Líbia e vendas de equipamento militar letal à Líbia. Construir um reator nuclear para usos pacíficos, principalmente como gerador de energia e para dessalinização de água, é prioridade chave do Governo da Líbia [orig. Governo da Líbia] e a Líbia prefere que uma empresa dos EUA ou o Governo dos EUA forneçam orientação técnica e/ou assumam os esforços de construção. O funcionário destacou que o Governo da Líbia está ansioso para resolver fatores políticos bilaterais irritantes consideráveis (acusações relacionadas a terrorismo em tribunais dos EUA e a “Lei Lautenberg” [orig. Lautenberg Amendment  [3]], antes do fim do mandato do atual governo dos EUA  [4], para assegurar maior cooperação e mais atividade comercial dos EUA na Líbia. Não se sabe com certeza se a consulta ao Governo dos EUA sobre cooperação nuclear civil e venda de equipamento militar letal ao Governo da Líbia foi plenamente coordenada com outros elementos do Governo da Líbia. Atenção ao parágrafo 8, em que essa embaixada solicita orientação. FIM DO RESUMO.

GOVERNO DA LÍBIA QUER REATOR NUCLEAR PARA FINALIDADES CIVIS

2. (S/VE)  Em reunião com o vice-embaixador [STEVENS [5]] dia 7/5, XXX, da unidade de Relações Exteriores e Cooperação Internacional no Conselho de Segurança Nacional da Líbia [orig. Foreign Liaison and International Cooperation at Líbia’s National Security Council (NSC)], perguntou o que pensa o Governo dos EUA sobre a possibilidade de cooperação civil nuclear entre EUA e Líbia. XXX  disse que construir um reator nuclear para usos pacíficos, para aumentar a geração de energia e para dessalinização de água é prioridade do Governo da Líbia. Segundo XXX , o Governo da Líbia prefere fortemente que empresas dos EUA, de comum acordo com o Governo dos EUA, forneçam orientação técnica e/ou assumam a construção. Se empresas dos EUA e/ou o Governo dos EUA não estiverem interessados diretamente nesse projeto, o Governo da Líbia deseja obter garantias de que o Governo dos EUA aprovará que a Líbia abra concorrência internacional para outros países, para a construção de um reator civil.

AFIRMAM QUE A COOPERAÇÃO NUCLEAR COM EUA NÃO CONTRADIZ ESFORÇOS PARALELOS COM FRANÇA E RÚSSIA

3. (S/VE) O vice-embaixador [orig. CDA] observou que há notícias na imprensa de que o Governo da Líbia já assinou acordos de cooperação nuclear civil com a França, quando da visita do presidente Sarkozy a Trípoli, em julho de 2007, e com a Rússia, durante visita do presidente Putin em abril. (Atenção: Como já informamos [ref A], por insistência do Governo da Líbia e Rússia assinaram um memorando de entendimento em que se comprometem a finalizar um acordo formal de cooperação nuclear para usos civis, até o final de 2008. O Governo da Líbia esperava firmar o acordo formal durante a visita de Putin, mas nada estava oficialmente redigido antes da visita, e a Rússia recusou-se a assinar qualquer documento sem mais consultas. Contatos russos disseram que o acordo formal – se tivesse sido assinado – só estabeleceria um quadro geral para cooperação futura e não visaria/não visa a qualquer projeto específico. Fim da nota.) XXX garantiu que a cooperação nuclear civil EUA-Líbia complementaria, não contrariaria, esforços paralelos de França e Líbia. Concedeu que não está plenamente informada sobre as aspirações nucleares da Líbia; não sabe quantos reatores o Governo da Líbia prevê construir. Mas reiterou que a dessalinização é objetivo primário.

PEDE A POSIÇÃO DO GOVERNO DOS EUA SOBRE VENDA DE EQUIPAMENTO MILITAR LETAL

4. (S/VE) Na sequência, XXX levantou a possibilidade de vendas de equipamentos militares letais pelos EUA. Observando que a questão já havia sido levantada durante a visita do secretário-assistente do setor Oriente Próximo [orig. Near Eastern Affairs, NEA, órgão do Departamento de Estado] David Welch em agosto de 2007, XXX destacou que “o tempo é curto”, do ponto de vista do Governo da Líbia. A Líbia entendeu que ainda há questões bilaterais difíceis, como os graves processos relacionados a terrorismo em tribunais dos EUA, e sabe que construir confiança exigiu tempo; mas, se “houver outras questões políticas” que impeçam que os EUA vendam equipamento militar letal para a Líbia, o Governo da Líbia preferiria saber agora, para seguir outras opções.

O GOVERNO DA LÍBIA ESTÁ ANSIOSO PARA RESOLVER IMPORTANTES QUESTÕES POLÍTICAS, ANTES DO FINAL DO ANO

5. (S/VE) Traçando uma linha de separação entre preocupações sobre potencial nuclear e cooperação militar, de um lado, e, de outro, qualquer esforço para chegar a acordo amplo nos processos relacionados a terrorismo nos tribunais dos EUA, XXX destacou a importância de resolver questões políticas antes do fim do mandato do atual governo dos EUA, para facilitar maior cooperação bilateral. Reiterando pontos que já ouvimos antes, XXX  observou que empresas europeias e outras estão pesadamente envolvidas na Líbia; o Governo da Líbia gostaria de ver mais empresas dos EUA ativas aqui. A Seção 1.083 da Lei de Defesa Nacional de 2008 (a chamada “Lei Lautenberg”) complicou muito o ambiente de negócios para empresas dos EUA na Líbia, que enfrentam hoje risco potencial de encampação.

Manifestando preocupação com o risco de o próximo governo dos EUA ter posições e ideias diferente4s sobre o reengajamento com a Líbia, XXX  reafirmou a necessidade de pressa nos esforços para resolver os processos em curso nos EUA e isentar empresas líbias e norte-americanas de qualquer aplicação da Lei Lautenberg. XXX solicitou que o vice-chefe da Missão expressasse sua opinião sobre o Grupo Livingston [6], organização lobbyista contratada para promover a reputação da Líbia em Washington; e consultou sobre o status das negociações propostas nos principais processos.

6. (S/VE) No campo da cooperação, XXX propôs continuar e ampliar a troca de visitantes de renome, ao mesmo tempo em que prosseguem os esforços para resolver as dificuldades da Lei Lautenberg. Enfatizando nosso acordo com essa abordagem, o Vice-chefe da Missão [orig. CDA] comentou as dificuldades que a embaixada encontrara na tentativa de trazer visitantes dos EUA para programas educacionais e culturais, referindo-se a comentários feitos por funcionários do Ministério de Relações Exteriores, que declararam essas visitas pouco recomendáveis porque as relações entre EUA e Líbia não estavam “plenamente normalizadas” (ref B).

Expressando surpresa, XXX concordou com informar o Conselheiro de Segurança Nacional, Muatassim al-Gaddafi, para ver se o Conselho de Segurança Nacional pode ajudar a aliviar essas dificuldades.

7. (S/VE) COMENTÁRIO: Embora XXX estivesse claramente em missão para seu patrão, Muatassim al-Gaddafi, do Conselho de Segurança Nacional, chamou-nos a atenção que a consulta sobre ideias do Governo dos EUA sobre cooperação nuclear civil e venda de equipamentos militares letais não tivesse sido mais plenamente coordenada com outros elementos do Governo da Líbia (os equivalentes do Ministério da Defesa e de Relações Exteriores, por exemplo) que normalmente são ouvidos sobre essas questões. Desconfiamos que Muatassim possa estar querendo explorar os parâmetros de áreas que possa forçar mais para uma cooperação bilateral expandida. A consulta, mesmo assim, comprova que há expectativa em alguns setores do Governo da Líbia de que a cooperação bilateral se expandirá muito rapidamente – inclusive em áreas sensíveis – se se puder chegar a um acordo amplo para os vários casos de processos relacionados a terrorismo nos tribunais dos EUA e a Lei Lautenberg. Se se tem em mente o desapontamento do Governo da Líbia, que esperava que o engajamento fosse aprofundado imediatamente depois de sua decisão, em dezembro de 2003, de renunciar ao terrorismo e desistir das Armas de Destruição em Massa, nós teremos de controlar as expectativas líbias atuais e coordenar cuidadosamente nossa resposta a pedidos de expansão e cooperação em áreas sensíveis. Fim do comentário.

8. (S/VE) PEDIDO DE ORIENTAÇÃO: Solicitamos orientação sobre se e como essa embaixada deve responder a consultas sobre ideias do Governo dos EUA sobre possível cooperação nuclear civil e vendas de equipamentos militares letais. FIM. [assina] STEVENS.



Notas dos tradutores

[1]  Orig. Libya's NSC Solicits U.S. Views On Civilian Nuclear Cooperation & Lethal Military Equipment Sales.
[3] Domestic Violence Offender Gun Ban é a lei que, na origem, proíbe que pessoas condenadas por prática de violência doméstica recebam porte de arma. Foi aprovada em 1996; é conhecida como “emenda (ou lei) Lautenberg”, por ter sido encaminhada e defendida pelo senador Frank Lautenberg (D-NJ) e sempre enfrentou furiosa resistência das empresas produtoras de armas em geral e de suas organizações. Adiante, a mesma lei foi usada para tentar impedir qualquer venda de armas a condenados por terrorismo (que é o que se considera nessa referência, nesse telegrama.
[4]  Em maio de 2008, o presidente era Bush; Secretária de Estado, Condoleeza Rice. Obama tomou posse dia 20/1/2009.
[5]  Stevens foi vice-embaixador dos EUA em Trípoli, de 2007 a 2009. Obama nomeou-o embaixador, dia 23/1/2009.
[6]  Orig. Livingston Group

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estranha calma em Trípoli: “Acabaram com Gaddafi... ou com a Líbia?”

Franklin Lamb

22/8/2011, Franklin Lamb [de Trípoli], Counterpunch 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O grande retrato emoldurado em dourado do coronel Muammar Gaddafi, que há anos adornava a parede por trás do balcão da recepção no meu hotel, sumiu. Também sumiram as 72 bandeiras verdes que tremulavam em postes brancos, à entrada. Não seria de bom tom perguntar à equipe, reduzidíssima hoje, sobre quem removeu aqueles itens, porque o ato de remover pode vir a ser grave ofensa, conforme a evolução dos acontecimentos por aqui. Meu amigo Ismail, que comanda a recepção, fez-me uma careta de ‘não-me-venha-com-essa’, quando elogiei os novos espelhos que hoje ocupam o lugar do líder.

Olhando pela janela do 26º andar do Hotel Corinthia, às 7h30 da manhã de hoje, na direção da linha de arranha-céus no horizonte de Trípoli, parece que o regime de Gaddafi já não existe.

Durante toda a noite ouviram-se tiros celebratórios em áreas aqui próximas, em torno da “Praça dos Mártires” (ex-Praça Verde), mas todos na cidade acordaram com a cabeça fervilhando de dúvidas. Alguns perguntam “Será que o exército de Gaddafi está abrindo uma armadilha para as forças rebeldes, deixando-os entrar fácil e rapidamente, e em seguida, quando estiverem reunidos em celebrações públicas, contra-atacarão?” 

Poucos acreditam no que disse hoje cedo um representante do Comitê Nacional de Transição, que os rebeldes controlam 95% de Trípoli. É impossível. A cidade tem vasta superfície, e é evidente que as forças rebeldes são poucas e só se veem em alguns pontos.

Uma coluna de 22 veículos militares com pintura de camuflagem, cheios de soldados do exército regular passou lentamente pela frente do hotel às 8h10 hoje, virou à direita em direção ao mar, onde está o Bab al Bahar Hotel (“ponte para o mar”) e, junto à praia, o hotel JW Marriott não ocupado, onde estaria posicionado o atirador que acertou minha perna ontem. O médico entregou-me a bala, de lembrança, e eu estou bem, exceto porque o ferimento ainda dói. Um empregado do hotel disse, ao chegar, que há várias horas soldados do exército estão-se agrupando nos arredores de Trípoli.

Do outro lado do meu hotel, vejo pickups carregadas de “rebeldes” com a bandeira tricolor, que andam lentamente na direção da praça Verde (ou “dos Mártires”). Penso no que acontecerá, caso errem o caminho.

Notícias de que Saif e Mohammad Gaddafi teriam sido presos reforçam a ideia de que o governo pode ter exagerado ao estimar o apoio que teria entre a população. Outros dizem que o ataque pela OTAN-EUA foi tão brutal, que a população apavorou-se. Os poucos que trabalham no hotel e algumas crianças que, bem cedo, pulam o muro do hotel para nadar na piscina, e que, todos, cantavam “Allah, Mohammad, Muammar, Libya wa bass” [Deus, Maomé, Gaddafi e Líbia: só precisamos disso!], suspenderam os cantos, e o apoio à expulsão do “líder”, entre eles, parece ser unânime. Muitos dos que trabalham no meu hotel mostram-se desanimados, cabisbaixos.

O surto repentino de apoio à partida de Gaddafi, pelas mesmas pessoas que, quando cheguei à Líbia, há cinco meses, pareciam adorá-lo na Praça Verde, é surpreendente, mas talvez mostre que déspotas poderosos são muitas vezes mais forma que conteúdo e, dadas algumas condições, caem bem rapidamente.

Entre os estudantes meus amigos, as perguntas são, quase todas, sobre o que aconteceu à resistência contra “os ‘rebeldes’ da OTAN”; que fim levaram os 65 mil soldados treinados que impediriam que “os ‘rebeldes’ da OTAN” entrassem em Trípoli – dos quais falou, ontem à noite o porta-voz do governo Musa Ibrahim –; se realmente ainda havia algum exército líbio para defender Trípoli. E sobre a transição: como será? As tribos disputarão até a morte o poder central? A Líbia terá de pagar pela infraestrutura destruída? Os países da OTAN pagarão pela destruição? Haverá como garantir contratos de petróleo e gás para aqueles países, sem despertar a ira popular, cada dia mais hostil contra Europa e EUA por causa do alto número de civis mortos? Os EUA conseguirão mais uma base militar (a que havia na Líbia, Wheelus, foi fechada por Gaddafi em junho de 1970)? O novo governo reconhecerá Israel (diz-se por aqui que a OTAN já teria exigido imediato reconhecimento)? O Conselho Nacional de Transição cumprirá a promessa de transição rápida, democrática, com eleições imediatas? Não faltam perguntas.

Ontem pela manhã, andando de bicicleta por Trípoli, vi sinais de que algo estranho está acontecendo: não há guardas de segurança pelas ruas (à frente do meu hotel, sempre houve uns vinte). Nenhum dos empregados que dormiram fora do hotel apareceu para trabalhar hoje cedo. Ismail e o rapaz que cuida dos computadores com conexão para Internet dormiram no hotel – e Miss Lorraine, senhora britânica que cuida da recepção aos hóspedes, mora no hotel. Só esses estavam no hotel hoje (Miss Lorraine parecia muito perturbada). 

Ontem de manhã, ao sair do hotel pelas 7h30, com minha bicicleta, surpreendi-me ao ver uma mulher parada, sozinha, na calçada em frente ao hotel. E mais ainda surpreendi-me quando me cumprimentou, com um sorriso – “Hello Mr. Lamb!”  

É Marianne, que trabalha com Lorraine em algum ponto das entranhas desse aclamado hotel de “sete estrelas”. Já falara com ela pelo telefone, mas não se lembrava de nos termos encontrado. Perguntei-lhe o que fazia na rua deserta. “Tenho de conseguir quem me leve até o porto!” Estranho, naquelas circunstâncias; perguntei-lhe por quê. “Minhas férias de duas semanas começam hoje, e tenho de conseguir lugar em algum barco para Malta”. Levei um susto. “Minha filha, por favor, não há barco algum para Malta hoje; e o porto é local perigoso para você.” “Mas meu namorado está à minha espera em Malta”, ela insistiu. “Então faça o seguinte: se conseguir um táxi, telefone para mim, que eu divido o custo da corrida e acompanho você até o porto”. Marianne concordou, mas nunca mais a vi.

A delegação da ONU partiu ontem, depois de cinco dias em “missão para recolher dados”. Não sei que dados terão recolhido, porque não saíram do hotel, sempre à espera – como fazem todos os estrangeiros aqui – de receber confirmação de encontro solicitado com autoridades ou quem for. A líder da delegação, uma senhora de Nazaré na Palestina Ocupada, convenceu a OTAN a autorizar que estrangeiros usassem os assentos vagos no avião da ONU – motivo pelo qual o hotel ficou deserto de hóspedes. 

Não há sinal algum do coronel Gaddafi. Espalha-se sobre Trípoli uma estranha calma.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Trípoli, Líbia: os estudantes perguntam

Franklin Lamb

22/24/7/2011, Franklin Lamb (na Universidade Nasser, em Trípoli), Counterpunch, EUA

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Conversei durante cinco horas com estudantes da Universidade Nasser, em Trípoli. O tema escolhido para o que foi previsto para ser uma palestra professoral, mas convertemos logo em conversa entre iguais, foi “Mas... o quê, diabos, estão fazendo da Líbia, e por quê?”      

Um ponto em relação ao qual a maiorias dos estrangeiros e da população concorda, no oeste da Líbia é que não havia praticamente sinal algum, no início de fevereiro, de que o leste da Líbia estaria a ponto de levantar-se contra o governo; esse processo ainda é obscuro para muitos, que não sabem por quê e como aconteceu o que aconteceu. Por isso, quando meia dúzia de líbios brilhantes, enérgicos e nacionalistas, alunos de graduação e pós-graduados, concordaram em organizar discussão franca sobre essas e outras questões, tratei logo de juntar-me a eles.

Não se pode dizer que as questões específicas propostas pelos estudantes líbios em Trípoli e subúrbios sejam manifestação do leste da Líbia, onde um terço do país continua, em boa parte, sob controle dos rebeldes. Isso, apesar de muitos estudantes de Al Fatah dizerem que a maioria de seus amigos, famílias e tribos de Benghazi e no leste, mesmo que nessas regiões se venerem os salafistas e os bolsões de jihadistas, concordariam, em boa parte, com as opiniões que ouvimos frequentemente em Trípoli.      

O leste da Líbia tem longa história de antipatia contra o governo de Trípoli desde os dias (1951) quando o já decadente Império Britânico instalou Idris Senussi como rei, com assentimento da Itália, para ali defender seus interesses. O rei da Líbia, Idris I, foi derrubado pela Revolução Fatah, comandada pelo coronel Gaddafi, em 1969. Hoje, um dos objetivos dos grupos que formam o “Conselho Nacional de Transição” é restaurar a monarquia, projeto estimulado pela tribo Senussi. 

Os estudantes, em Trípoli, dizem que alguns de seus parentes e amigos na tribo Senussi que vivem em Benghazi sabem que a Al-Qaeda jamais admitirá qualquer monarquia, mesmo que, hoje, esteja calada, cumprindo o roteiro traçado pela CIA, que fala de democracia e direitos humanos para todos, inclusive para as mulheres.      

O Fórum – que decidimos batizar de “Libyan Forum 101 – pediu que os alunos líbios formulassem e encaminhassem à organização perguntas cujas respostas, na avaliação deles, ajudariam a compreender e a resolver o que, por aqui, se chama “nossa crise”.      

As perguntas logo começaram a aparecer e são manifestação de sentimentos muito presentes no oeste da Líbia, tenham ou não ecos em Benghazi e arredores.

Meu jovem amigo Hassan, aluno de literatura inglesa logo ofereceu três perguntas para que fossem discutidas, depois de pedir desculpas pelo atraso, devido, como explicou, aos bloqueios da segurança em Trípoli, depois de denúncias de que haveria rebeldes infiltrados e sabotadores, de que Gadaffi falara pela televisão na noite anterior. Hassan repetiu o que ouvimos de outros, de que teria havido tiros no centro da cidade; e a rede Al-Jazeera falou de uma explosão no hotel Sheraton Four Points, que está em construção.        

Ismail, aluno da escola de comércio, riu quando se falou da Al-Jazeera, a qual, como a BBC e a CNN, são vistas como fonte de noticiário distorcido e de declarada propaganda pró-rebeldes. A página da BBC está novamente bloqueada pelo governo aqui em Trípoli, e a sucursal acaba de receber um produtor substituto, Daniel Fisher, sujeito simpático, que apareceu hoje cedo e apresentou-se, e que parece ter-me confundido com Jack Nicholson. A chegada de Daniel acontece depois de o governo líbio ter protestado, porque o jornalista que trabalhava aqui além de não ter noticiado a manifestação pró-Gaddafi na Praça Verde dia 11/9/2011, escreveu, no dia seguinte, que vira multidões “fugindo de Trípoli” e que o quartel-general de Gaddafi estaria na iminência de “ser implodido a qualquer instante”. 

Essa matéria da BBC foi total nonsense. As famílias que, para os jornalistas da BBC e da CNN estariam “fugindo”, estavam simplesmente retornando aos subúrbios de Trípoli, onde vivem, depois das manifestações da noite anterior e depois de terem pernoitado na cidade.      

Hassan encaminhou as seguintes perguntas à mesa: “Quem indicou o Grupo de Contato da Líbia, para que se imiscuísse em nosso país? E que legitimidade poderiam receber da OTAN, para que o secretário geral da ONU (dia 17/7/2011) impusesse condições para resolver a crise sem que nem Trípoli nem os grupos de Benghazi fossem ouvidos?

A OTAN, agora que criou o Grupo de Contato da Líbia, teria o direito de afastar do processo o Conselho de Segurança da ONU e a secretaria-geral e toda sua equipes?

Amani, que acaba de conseguir emprego na Libyan Sports TV, encaminhou várias perguntas à discussão de todos:

“Como podem EUA e OTAN repetir que estariam respeitando a lei internacional, se a OTAN já matou mais de 1.000 civis líbios, sob a falsa alegação de que estariam protegidos pelas Resoluções no. 1.970 & 1.973, as quais a OTAN interpreta como autorização para todas as suas operações militares que têm objetivos políticos? As Resoluções da ONU relativas ao nosso país limitam o envolvimento da OTAN exclusivamente a estabelecer uma “zona aérea de exclusão” – o que foi feito em dois dias. Depois disso, a ONU teria talvez autorizado os quatro meses seguintes de bombardeios ou a expansão da missão original, para que incluísse inúmeras tentativas de assassinato  e destruição massiva da infraestrutura do nosso país?”      

Amani acrescentou: “Além disso, por que ninguém se dedicou a enviar ao nosso país uma comissão de investigação da ONU, para realmente investigar o que está sendo feito na Líbia, as notícias falsas que a imprensa está distribuindo, todas vindas dos rebeldes, apesar de inúmeras solicitações feitas pela Líbia e por outros países africanos e árabes, para que uma comissão oficial de investigação estabelecesse a verdade dos fatos?”      

Sanaa, estudante de enfermagem, perguntou: “Por que a Líbia? Sempre tivemos boas relações com EUA e Europa desde 2003. É sabido que a CIA e a Líbia tinham operações conjuntas até bem recentemente, em 2009-2010. Será que os EUA só atacam quando o país tem petróleo? O governo do Zimbabwe tratou seu povo com terrível crueldade, mas nem por isso os EUA invadiram o país. Por quê, então, invadiram a Líbia? E quanto ao Bahrain, Iêmen e Síria? E os muitos civis ameaçados nesses países, que tanto precisam da intervenção humanitária de Obama?”

Nadia, aluna de Medicina, propôs a seguinte pergunta: “É possível acreditar que todas as informações distorcidas que se divulgam sobre nosso país, desde o início da terceira semana de fevereiro, sejam divulgadas por acaso, ou por mera incompetência dos jornalistas?  Por exemplo, aquelas histórias sobre distribuição de Viagra e bebidas alcoólicas para estimular estupros; ou “notícias” sobre massacres de civis líbios por nosso governo. Ou sobre a cidade de Trípoli, que estaria armada para derrubar nosso governo. Ou as ‘declarações’ de que o coronel Gaddafi não teria legitimidade nem apoio popular, que há caos nas ruas de Trípoli, que a população estaria petrificada de medo, ou que o coronel Gaddafi teria sido ferido ou fugira para a Venezuela e tantas outras mentiras. Quem criou essas falsas notícias jornalísticas e por quê foram e continuam a ser criadas e distribuídas?”

Imad, estudante de engenharia, perguntou: “Por que a OTAN bombardeou a torre de controle (civil) de tráfego aéreo no final de semana, ferindo (outros) tantos civis? Até o diretor de nosso aeroporto disse que o sistema de controle do tráfego aéreo é feito por civis, pessoal 100% civil. Funcionários da IATA e até norte-americanos disseram o mesmo. Por que a torre de controle de tráfego aéreo foi atacada pela OTAN?”      

Hind, estudante de Tecnologias da Informação e voluntária num grupo de mulheres, perguntou: “Será que EUA e OTAN esperam que alguma Líbia pós-Gaddafi os receberá bem, se conseguirem derrubar o coronel Gaddafi? Será que fazem, pelo menos, alguma ideia de o quanto a invasão estrangeira enfureceu e enfurece o povo líbio? São os invasores quem, hoje, estão tornando o coronel Gaddafi ainda mais popular, não só na Líbia e na África, mas entre muitos que se opõem às guerras dos EUA como tentativa para implantar seu controle imperial sobre nosso país. Será que EUA e OTAN algum dia pensaram em promover a reconciliação, a paz? Quem assegura que algum novo governo seja melhor que o atual governo líbio?” 

As perguntas dos estudantes ainda não foram respondidas. E são questões que se vão tornando mais frequentes e mais insistentes.

Os estudantes da Universidade Al Nasser e seus concidadãos exigem respostas que nunca vêm, nem da Casa Branca, nem da OTAN. E que não vêm, tampouco, de jornalistas ocidentais já completamente desacreditados, hospedados – pode-se dizer “escondidos” no Rexis Hotel, em Trípoli. Até agora, nenhum desses atores foi capaz de oferecer respostas coerentes àquelas perguntas.