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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Genro de Hilária & Bill Clinton provoca prejuízo gigante com investimentos na Grécia

3/2/2015, [*]Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lloyd Blankfein
Apesar de ter entre seus clientes Lloyd Blankfein, presidente do banco Goldman Sachs e de ser genro de de Hilária & “Bill” Clinton, Marc Mezvinsky (e dois ex-colegas dos tempos de Goldman Sachs, que administram juntos o fundo de investimentos Eaglevale Partners) informaram por carta a seus clientes investidores, semana passada, que “incorreram em erro” sobre a Grécia, o que gerou perdas para o fundo principal da empresa durante dois dos últimos três anos.

A expressão “incorrer em erro”, no vocabulário do marido de Chelsea Clinton, significa que o fundo Eaglevale, que se concentrara na Grécia, perdeu espantosíssimos 48% de tudo que investiu na Grécia ano passado e, como o Wall Street Journal noticia, o prejuízo está tendo impacto no retorno de todo o fundo, de cerca de US$ 400 milhões, “que passou 27 dos seus 34 meses de operação abaixo da linha d’água”.

Marc Mezvinsky em família (Clinton)

No final de 2011, Marc Mezvinsky fundou uma empresa de investimentos, Eaglevale Partners, com dois sócios, Bennett Grau e Mark Mallon, dois corretores associados do Goldman Sachs Group, que Mezvinsky conheceu quando os três trabalhavam no banco.

Mais conhecido como “marido de Chelsea Clinton”, Mezvinsky, 35, que é pós-graduado em estudos religiosos e filosofia pela Universidade Stanford, com mestrado em política, filosofia e economia pela Universidade de Oxford, trabalha desde então, incansavelmente na construção de sua carreira nas finanças. Antes de lançar sua própria corretora, o amigo de longa data da família Clinton foi sócio e gerente global da corretora 3G Capital, que tem sedes em New York – e no Rio de Janeiro, Brasil.

Mas, como noticia o The Wall Street Journal, as coisas não estão funcionando lá muuuuito bem...

O fundo de investimentos criado pelo genro de Hilária & Bill Clinton & sócios sofreu perdas ligadas a uma aposta mal cronometrada na recuperação econômica da Grécia, segundo documentos aos quais o Wall Street Journal teve acesso.

Eaglevale Partners LP, fundado por Marc Mezvinsky e dois ex-colegas de trabalho no Goldman Sachs Group Inc., disseram aos seus investidores, por carta, semana passada, que “incorreram em erro” sobre a Grécia, o que gerou perdas para o fundo principal da empresa durante dois dos últimos três anos – segundo a carta.

O fundo principal caiu 3,6% ano passado, bem distante da subida de 5,7% para fundos assemelhados rastreados pela HFR Inc.. Veio depois de o fundo Eaglevale ter crescido 2,06% em 2013 e sofrido perda de 1,96% em 2012, como mostram os documentos.
...

Um fundo Eaglevale reduzido, focado exclusivamente na Grécia, despencou 48% ano passado – disse fonte familiarizada com a situação, traído pela expectativa de que a economia grega conheceria conheceria rápida recuperação.

“Nossas recentes previsões sobre a política grega revelaram-se incorretas” – escreveram Mezvinsky e os dois outros proprietários do Fundo Eaglevale, em carta enviada aos seus investidores, depois que um partido da esquerda radical venceu as eleições na Grécia, provocando sobressalto na ordem política europeia.
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Eaglevale é player relativamente pequeno no mundo dos fundos hedge... Mas os movimentos desse específico fundo foram acompanhados de bem perto e seguidos, disseram investidores, em boa parte por causa das conexões de família de Mezvinsky. Antes de a firma ser inaugurada, Goldman Sachs promoveu sessões de grupo para prospecção de investidores, sempre com salas cheias. O banco de investimentos é um dos maiores corretores da empresa, ajudando os fundos hedge a fazer negócios e os apresenta a apoiadores potenciais.

Lloyd Blankfein, presidente executivo de Goldman investe no principal fundo da empresa Eaglevale – disseram pessoas bem familiarizadas com o assunto.

Desde a fundação, Eaglevale passou 27 dos seus 34 meses de operação abaixo “da linha d’água”, termo que demarca o ponto em que o investidor passa a operar no vermelho (ou no preto, conforme o ponto de vista).

*  *  *

Concluindo, sobre se o fundo sofrerá ou não saques em massa... cabem aqui as dez [em inglês; ou nove, em português] palavrinhas que ninguém deseja ouvir do gerente que administra seu dinheiro, não importa quem seja a sogra dele:

“We are reticent to render decisive predictions at this time”.
“Mantemo-nos reticentes no momento quanto a previsões decisivas”.

[Vídeo da série South Park: “Seu dinheiro... foi-se! Por favor, desocupe a cadeira. O próximo!”].


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Irã não pagará pelos pecados dos EUA no Iraque

17/6/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido p[elo pessoal da Vila Vudu

Irã, 1979 - Revolução Islâmica
No que tenha a ver com o Irã, há história muito, muito longa, tão longa quanto a revolução islâmica de 1979, da propaganda ocidental contra Teerã, sempre pintada em espessos tons de fantasia. Apesar do “bem-estar” que reina nas conversações do P5+1 e Irã, essa propaganda mal-intencionada prossegue sempre. O Irã dá de ombros; diz que não passa de guerra psicológica [guerra-psi], mas a influenciável opinião pública quase sempre acaba enrolada no “conto-do-vigário” da propaganda do dia.

A primeira grande história da semana passada foi que o Irã teria mandado tropas para o Iraque para combater contra militantes do Estado Islâmico do Iraque e Levante [ing. ISIL]. O Wall Street Journal liderou essa campanha de desinformação, provavelmente no esforço para empurrar o presidente Barack Obama dos EUA a “fazer alguma coisa”.

É claro que os EUA têm fontes de inteligência, humana e eletrônica, para avaliar a real situação em campo. Mas, por via das dúvidas, os iranianos desabaram como uma tonelada de pedras sobre o WSJ e desmentiram tudo.

John Kerry
Veio então a segunda onda de ataque: EUA e Irã  “cooperariam “ no Iraque. A Reuters lançou a história, citando, de início, um funcionário iraniano não identificado (que poderia ser qualquer um). Sem dúvida, notícias arrepiantes – o Grande Satã e os persas, ombro a ombro nas barricadas da Mesopotâmia, em luta contra a al-Qaeda. O mundo “midiático” saltou sobre a “coisa”, como se fosse fato. O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry correu a jogar gasolina na fogueira, encorajando a mídia de especulação a escalar os mais altos píncaros da des-notícia. A imprensa-empresa mundial parecia zonza – até na Índia.

Como sempre acontece no que tenha a ver com o Irã, porém, o que se viu foi total blecaute, em toda a imprensa-empresa ocidental, da versão iraniana sobre os mesmos ditos “fatos”.

Ora, ora! A regra básica, essencial, é que não há tango, se não houver dois. E onde estaria o tangueiro persa? Pois o fato real é que o tangueiro persa não passou nem por perto daquele palco no qual Kerry plantou-se, solitário, com ar de desamparado.

Exame atento das declarações e pronunciamentos de Teerã ao longo de toda a semana passada mostra história muito diferente da versão que Kerry tanto gostaria de nos fazer engolir. Examinemos aqui o que disseram alguns dos principais atores do governo iraniano:

Hassan Rouhani - Presidente do Irã
a) Presidente Hassan Rouhani (9/6/2014, em Ankara): “A violência e o terrorismo cresceram e tornaram-se mais complicados, por causa da interferência de potências trans-regionais”.

b) Vice-ministro de Relações Exteriores Hossein Amir Abdollahian (10/6/2014): O papel de alguns “lados estrangeiros” nos eventos de Mosul é óbvio. “Esses lados que estão apoiando takfiris devem estar gravemente preocupados com medidas antissegurança que essa corrente terrorista tome nos seus respectivos países”.  

c) Comandante dos Guardas Revolucionários do Irã (Basij), general Mohammad Reza Naqudi (11/6/2014): (i) grupos takfiri cometem crimes alinhados com os mais sórdidos objetivos das potências arrogantes e obedecem aos think-tanks ocidentais e israelenses, todos eles apoiados pelos petrodólares de alguns países árabes regionais. (ii) “A Arábia Saudita está armando terroristas na Síria com armamento leve e pesado diferenciado, violando todos os regulamentos e convenções internacionais”. (iii) Grupos takfiri e salafistas em diferentes estados da região, especialmente na Síria e no Iraque, são apoiados pelos EUA. (iv) Os EUA estão manipulando os terroristas takfiri para comprometer a imagem do Islã e dos muçulmanos.

d) Porta-voz do ministério de Relações Exteriores Marziyeh Afkham (11/6/2014): Conclamou que alguns estados pusessem fim imediatamente ao apoio que dão a grupos terroristas e exigiu que todos os países adotassem medidas coletivas de combate ao terrorismo.

e) Vice-ministro de Relações Exteriores Hossein Amir Abdollahian (11/6/2014): “Nós apoiaremos firmemente o Iraque em seu confronto contra o terrorismo”.

f) Presidente do Parlamento (Majlis) Ali Larijani (13/6/2014): “É perfeitamente óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à nossa volta são responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. (...) O terrorismo converteu-se em ferramenta que as grandes potências usam para promover seus objetivos.”

g) Presidente Rouhani (13/6/2014): (i) “Se o governo do Iraque quer ajuda, vamos estudar o pedido (...) Claro, ajuda e assistência é uma coisa, interferência e ação no campo de batalha é outra (...). A entrada de tropas iranianas [em campo de batalha no Iraque] jamais foi cogitada (...) jamais enviamos soldados para combater fora do Irã (...) Se um grupo terrorista aproxima-se de nossas fronteiras, sim, com certeza lhe daremos combate. (ii) Alertou os estados que estão dando apoio financeiro e armas ao ISIL e outros grupos terroristas, e disse que esses grupos voltariam, para incendiar também os seus ‘apoiadores’. (iii) Desmentiu e desautorizou matéria da Reuters, sobre ‘cooperação’ EUA-Irã no caso do Iraque. “Os norte-americanos talvez façam alguma coisa, mas não estou informado sobre ação alguma.” (iv) Eventos recentos no Iraque devem-se ao fato de que os terroristas estão furiosos ante os resultados das eleições no Iraque, que mantiveram os xiitas e o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki no poder, por meios e procedimentos democráticos.

h) Ala’eddin Broujerdi, presidente da Comissão de Política Externa e Segurança do Majlis (14/6/2014): “O apoio dos EUA, armas e treinamento militar [aos grupos takfiri) são a causa raiz da disseminação do terrorismo e seus crimes na região (...) A Ummah muçulmana tem de pôr um fim nas intervenções dos EUA na região”.

i) Gen. Mohammed Naqdi, comandante do Basij, (14/6/2014): Os ataques do ISIL no Iraque são novo golpe dos EUA, depois que Washington foi derrotada no confronto com grupos da resistência na região. Os EUA conheceram a derrota no confronto e nos golpes atentados contra aliados do Irã na Palestina, no Líbano e na Síria, e agora “estão começando a conhecer a mesma experiência no Iraque (...) Uma imensa força popular cresce na região e fará gorar os escandalosos golpes do inimigo.” Essas forças populares que se formaram nos estados regionais cresceram numa corrente que se estende por todo o Oriente Médio.

j) Afkham, porta-voz do Foreign Office (14/6/2014): Irã opõe-se a intervenções militares no Iraque. “O Iraque tem os potenciais necessários e a prontidão militar requerida para combater os elementos terroristas e extremistas (...) Ação que complique a situação no Iraque não se faz no interesse do Iraque ou da região”.

k) Ministro Mohammed Zarif, das Relações Exteriores, em entrevista à revista New Yorker (26/5/2014, p/ assinantes): “É do interesse de todos estabilizar o governo do Iraque. Se os EUA entenderam que esses grupos [ISIL] representam ameaça à segurança da região, e se os EUA realmente desejam combater o terrorismo e o extremismo, então há aí uma causa global comum”.

l) Contra-almirante Ali Shamkhani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (15/6/2014): Culpou Washington pela criação do ISIL. Refutou veementemente matérias que sugerem a possibilidade de cooperação EUA-Irã no caso do Iraque; essas matérias são parte da “guerra psicológica” [guerra-psi] do ocidente contra o Irã e são “completamente irreais”. Criar terror e instabilidade e incitar campanha armada e violenta contra o desejo do povo [iraquiano], já manifesto em eleições livres e justas no Iraque, são alguns dos objetivos dos EUA por trás da criação de grupos terroristas como o ISIL. Os EUA e alguns de seus aliados tem cooperação financeira, de inteligência e logística para implementar tal política. Conclamou os xiitas e os sunitas iraquianos e os curdos a permanecerem alertas, contra os golpes das potências exteriores e para defender seu país. Qualquer ajuda iraniana ao Iraque acontecerá em bases bilaterais “e nada tem a ver com algum terceiro país”.

m) Contra-almirante Ali Shamkhani (15/6/2014): Os estados ocidentais e regionais são responsáveis pela atual crise no Iraque.

Terroristas do ISIS/ISIL desfilam em Mosul com veículos tomados do Governo do Iraque
Considerados os pronunciamentos acima, todos inequívocos, feitos por altas autoridades de Teerã, ao longo da semana passada, parece altamente improvável, para dizer o mínimo, que venha a haver qualquer tipo de operação EUA-Irã, de coordenação às claras, para o Iraque. O que faz toda a diferença é que Teerã realmente está vendo uma mão dos EUA ativa direta ou indiretamente no crescimento de grupos islamistas extremistas patrocinados por sauditas, como o ISIL na Síria e Iraque.

Assim também, Teerã tampouco crê na disposição e na capacidade dos EUA para separarem-se completamente das suas políticas anteriores na Síria e no Iraque; e, ainda mais importante, para confrontarem a Arábia Saudita.

Claro que tudo mudaria completamente de figura, se o governo Obama assumisse a firme decisão de renegar completamente a trajetória passada das políticas dos EUA para Síria e Iraque; nesse caso, sim, Teerã responderá positivamente. Mas é difícil ver acontecer tal coisa, no curto prazo.

O governo de Obama está hoje tão gravemente enfraquecido no quadro da política interna dos EUA, que a Casa Branca não terá a coragem política para ‘reiniciar’ [orig. reset] tão audaciosamente as políticas dos EUA para o Oriente Médio, em direção virtualmente oposta, do dia para a noite, fazendo o gênero ‘insurgente’ em relação aos seus aliados regionais, sobretudo em relação à Arábia Saudita. O Irã compreende perfeitamente a realidade geopolítica que a aliança EUA-sauditas gera. Em resumo, Teerã sempre desconfiaria das intenções dos EUA.

Barack Obama
A cautela extrema com que Teerã se movimenta em relação aos desenvolvimentos no Iraque sugere que o país cuida para não se deixar prender na armadilha de um labirinto sectário, o que teria profundas consequências para a posição regional do Irã como um todo.

Teerã não vê convergência de interesses com os EUA, hoje, quanto à situação no Iraque. Da perspectiva de Teerã, o empoderamento dos xiitas não é negociável. Tampouco o Irã parece disposto a aceitar uma mudança de liderança em Bagdá, na atual circunstância.

A bola está agora na quadra de Obama, para convencer Teerã de que ele é capaz de controlar Arábia Saudita, Qatar e Turquia, com toda a influência em mãos dos EUA, e de realmente optar por guerra ao terror. E Obama conseguirá (na hipótese de que se decida a tentar)?

Fato é que Teerã não será rígida e se disporá a discutir o Iraque com quem apareça, para expor suas preocupações. Assim sendo, não se devem descartar contatos informais entre EUA e Irã. Obama parece sinceramente interessado em testar possibilidades. O secretário do Exterior britânico, William Hague, conversou longamente por telefone com Zarif. Os britânicos sempre estão a postos para obrar como leva-e-traz a serviço de Washington, nesses momentos difíceis.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Temos de quebrar o silêncio: contra a guerra dos EUA

“Fora EUA!” 
“Não à guerra dos EUA!”

14/5/2014, [*] John Pilger, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Harold Pinter (1930 - 2008) 
Por que toleramos a ameaça de mais uma guerra mundial, em nosso nome? Por que permitimos todas as mentiras que justificam esse risco? A escala em que somos doutrinados, escreveu Harold Pinter é:  

(...) “brilhante, inteligente, se se pode dizer, uma encenação muito bem sucedida de hipnose coletiva”, como se “os fatos jamais tivessem acontecido, mesmo que estivessem acontecendo à nossa vista”.

William Blum
Todos os anos, o historiador norte-americano William Blum publica seu “sumário atualizado dos feitos da política externa dos EUA”, que mostra que, desde 1945, os EUA já tentaram derrubar mais de 50 governos, muitos dos quais democraticamente eleitos; interferiram pesadamente em eleições em 30 países; bombardearam populações civis em 30 países; usaram armas químicas e biológicas; e tentaram assassinar líderes estrangeiros.

Em muitos casos, a Grã-Bretanha trabalhou ao lado dos EUA, como colaboradora. O grau de sofrimento humano, para nem falar da criminalidade, é apagado no Ocidente, apesar de aí estarem ativos os sistemas mais avançados de comunicações e, supostamente, o jornalismo mais “livre” do planeta. É absolutamente proibido noticiar que o maior número de vítimas de ações terroristas não são “ocidentais”, mas, sim, muçulmanos.

Esse jihadismo extremo, que levou ao 11/9, foi nutrido como arma de política anglo-norte-americana (“Operação Ciclone” no Afeganistão). Em abril, o Departamento de Estado observou que, depois da campanha da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, em 2011, “a Líbia foi convertida em paraíso seguro para terroristas”.

 Mossadeq
O nome do “nosso” inimigo mudou ao longo dos anos: de comunismo, para islamismo, mas, em geral, qualquer sociedade independente da potência ocidental, que ocupe território considerado estrategicamente relevante ou rico em recursos a saquear, é “inimigo” dos EUA e da Grã-Bretanha. Os líderes dessas nações obstrutivas são em geral varridos do mundo em ação criminosa, como os democratas Muhammad Mossadeq, no Irã e Salvador Allende, no Chile; ou são assassinados como Patrice Lumumba no Congo. E todos somos submetidos a uma campanha, conduzida mediante as estruturas do jornalismo da imprensa-empresa que conhecemos, para caricaturar e vilificar o homem da hora, seja quem for: Fidel Castro, Hugo Chavez; agora, como se vê, Vladimir Putin.

O papel de Washington na Ucrânia só é diferente nas implicações que tem para o resto do mundo. Pela primeira vez, desde os anos Reagan, os EUA estão ameaçando arrastar o mundo à guerra. Com o leste da Europa e os Bálcãs agora convertidos em entrepostos militares da OTAN, o último estado “tampão” junto às fronteiras russas está sendo detonado. Nós – o “ocidente”, tão orgulhoso de sua “civilização” e dos seus valores – estamos apoiando neonazistas, num país onde os nazistas ucranianos apoiaram Hitler.

Tendo cerebrado o golpe de fevereiro contra o governo democraticamente eleito em Kiev, Washington planejou tomar para ela a base naval russa de águas temperadas, legítima e histórica, na Crimeia. Mas o plano fracassou. Os russos defenderam-se – como sempre se defenderam contra todas as ameaças e invasões do ocidente, sempre, há quase um século. Mas o cerco militar que a OTAN tenta foi acelerado, combinado a ataques orquestrados pela CIA e pelo FBI-EUA contra russos étnicos na Ucrânia.

Vladimir Putin em 17/12/2013
Se conseguirem arrastar Putin para uma guerra provocada, em defesa daqueles russos, essa função de “estado pária” será utilizada como pretexto para desencadear uma guerra de guerrilhas que a OTAN fará crescer enquanto puder, até que respingue no próprio território russo.

Putin, contudo, pôs o partido da guerra a andar em círculos, feito peru bêbado, ao procurar acomodação e acordo com Washington e com a União Europeia; e retirou seus soldados da fronteira ucraniana, conclamando os russos étnicos no leste da Ucrânia a desistir do referendo planejado, interpretado como ação de provocação. Esses falantes de russo e bilíngues – um terço da população da Ucrânia – há muito tempo procuram organizar uma federação democrática que reflita a diversidade étnica do país e que seja, simultaneamente, autônoma e independente de Moscou. A maioria deles não são nem “separatistas” nem “rebeldes”, mas cidadãos que aspiram a viver em paz e segurança na própria terra.

Como as ruínas hoje do Iraque e do Afeganistão, a Ucrânia também foi transformada em parque temático da CIA – comandado pelo diretor John Brennan em Kiev, com “unidades especiais” de CIA e FBI montando a “estrutura de segurança” que supervisiona os ataques mais selvagens contra os que se opõem, lá, ao golpe de fevereiro.

ASSISTAM AOS VÍDEOS (legendados em inglês), leiam os relatos de primeira-mão de testemunhas do massacre em Odessa, há poucos dias.


Bandidos fascistas queimaram o prédio da sede do sindicato, matado 41 pessoas que foram presas lá dentro, enquanto o prédio era incendiado. Assistam ao que fez a Polícia, parada, assistindo ao “espetáculo”. Um médico contou que tentou desesperadamente tirar as pessoas presas no prédio, “mas fui impedido por radicais nazistas ucranianos. Um deles empurrou-me com violência, gritando que, em breve, outros judeus de Odessa teriam também o mesmo destino... Não entendo por que o mundo inteiro continua em silêncio!”

Os ucranianos falantes de russo estão lutando pela vida. Quando Putin anunciou a retirada dos soldados russos da fronteira, o secretário de “defesa” da junta neonazista de Kiev – e membro fundador do partido fascista Svoboda – pôs-se a esbravejar que os “insurgentes” não arredariam pé. Em seu típico estilo orwelliano, a propaganda ocidental inverteu tudo e “noticiou” que “Moscou tenta orquestrar novos conflitos e provocações” – foram as palavras do secretário britânico de Relações Exteriores, o lastimável William Hague. Foi cinismo só comparável às grotescas “congratulações” que Obama enviou à junta neonazista, pela “notável contenção” que manifestou... depois do massacre de Odessa!

Henry Kissinger
É junta ilegal e dominada por fascistas. Para Obama, foi “devidamente eleita”. O que conta – como Henry Kissinger disse certa vez, não é a verdade, mas o que alguém supõe que seja a verdade.

Nos veículos da imprensa-empresa norte-americana, a atrocidade de Odessa foi descrita como “triste” e “feia” e “uma tragédia” na qual “nacionalistas (de fato, são neonazistas) atacaram “separatistas” (de fato, eram pessoas que recolhiam assinaturas a favor de um referendo a favor da federalização da Ucrânia).

O Wall Street Journal de Rupert Murdoch culpou as vítimas: “Deadly Ukraine Fire Likely Sparked by Rebels, Government Says [“Fogo mortal iniciado pelos rebeldes, diz o governo” [“Coquetéis molotovs caíram acidentalmente sobre manifestantes”].

Na Alemanha, a propaganda foi pura guerra fria, com o Frankfurter Allgemeine Zeitung alertando os leitores contra “a guerra russa não declarada”. Para os alemães, é apenas ironia histórica que Putin seja o único líder em todo o planeta a condenar o ressurgimento do fascismo na Europa do século XXI.

Há quem repita que “o mundo mudou depois do 11/9”. Mas... o que mudou? Segundo o grande alertador-vazador Daniel Ellsberg, houve um golpe silencioso em Washington e, depois daquele dia, o país é governado por militarismo rampante. O Pentágono só faz comandar “operações especiais” – guerras secretas – em 124 países.

Em casa (nos EUA), o que se vê é miséria crescente e a morte da liberdade por hemorragia – duas consequências históricas de um estado em guerra perpétua. Acrescente-se o risco real de guerra nuclear, e a questão se impõe: por que nós, cidadãos do mundo, toleramos os EUA?
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[*] John Pilger - nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor-Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.