sábado, 4 de agosto de 2012

O lançamento de uma “guerra humanitária” contra a Síria

Michel Chossudovsky

por Michel Chossudovsky

A administração Obama, em ligação com Londres, Paris, Tel Aviv e o quartel-general da OTAN em Bruxelas, está contemplando  várias "opções de intervenções" militares contra a Síria, incluindo a realização de operações navais e aéreas em apoio às forças rebeldes de “oposição” sobre o terreno.

Os EUA e o seu impassível aliado britânico estão num “pé de guerra humanitário”. 

Forças aliadas, incluindo operativos de inteligências e forças especiais, reforçaram a sua presença no terreno em apoio ao “Exército Livre da Síria” (ELS). Fui informado que o Ministério da Defesa britânico está “formulando planos de contingência para o caso de o Reino Unido decidir instalar tropas nesta região volátil”.

Posicionamentos de forças navais e aéreas já foram anunciados pelo Ministério da Defesa britânico. Segundo notícias de tablóides de Londres, citando fontes militares “confiáveis”, “... a escalada da guerra civil [na Síria] torna cada vez mais provável que o Ocidente seja forçado a intervir”. ( Daily Mail, Julho 24, 2012). 

Uma campanha de bombardeio no estilo “pavor e choque” do Iraque não está, por razões práticas, sendo contemplada: “analistas da defesa advertiram que uma força de pelo menos 300 mil soldados seria necessária para executar uma intervenção em plena escala [na Síria]. Mesmo assim, esta enfrentaria resistência feroz. ...” (ibid).

Ao invés de executar uma operação relâmpago total, a aliança militar EUA-OTAN-Israel optou por intervir sob o diabólico enquadramento do R2P, da “guerra humanitária”. Modelado na Líbia, as seguintes grandes etapas estão a ser encaradas:

1- Uma rebelião apoiada pelos EUA-OTAN, integrada por esquadrões da morte, é lançada sob o disfarce de "movimento de protesto (meados de Março de 2011 em Daraa) 

2- Forças especiais britânicas, francesas, qataris e turcas estão sobre o terreno na Síria, aconselhando e treinando os rebeldes bem como supervisionando operações especiais. Mercenários contratados por companhias de segurança privada também são envolvidos no apoio às forças rebeldes. 

3- As matanças de civis inocentes pelo Exército Livre Sírio (ELS) são deliberadamente executadas como parte de uma operação encoberta de inteligência (Ver: SYRIA: Killing Innocent Civilians as part of a US Covert Op. Mobilizing Public Support for a R2P War against Syria, Global Research, May 2012) 

4- O governo sírio é então culpabilizado pelas atrocidades resultantes. A desinformação da imprensa-empresa internacional articulada para a demonização do governo sírio. A opinião pública é levada a endossar uma intervenção militar com fundamentos humanitários. 

5- Respondendo à indignação pública, os EUA-OTAN são então "forçados a intervir" sob o mandato humanitário da “Responsibility to Protect” (R2P). A propaganda da imprensa-empresa internacional entra então em alta velocidade. “A Comunidade Internacional vem para o resgate do povo sírio”. 

6- Navios de guerra e caças de combate são então posicionados no Mediterrâneo Oriental. Estas ações são coordenadas com o apoio logístico aos rebeldes e das forças especiais no terreno. 

7- O objetivo final é “mudança de regime” que leve à “ruptura do país” de acordo com linhas sectárias e/ou a instalação de um “regime dominado ou influenciado por islamistas” modelado no Qatar e na Arábia Saudita.

8- Os planos de guerra para a Síria são integrados com aqueles referentes ao Irã. A estrada para Teerã passa por Damasco. As implicações mais vastas da intervenção EUA-OTAN são escalada militar e o possível desencadeamento de uma guerra regional estendendo-se desde o Mediterrâneo Oriental até a Ásia Central, na qual a China e a Rússia poderiam ser direta ou indiretamente envolvidas.

As etapas de 1 até 4 já foram implementadas. 

A etapa 5 foi anunciada. 

A etapa 6, envolvendo o posicionamento de navios de guerra britânicos e francesas no Mediterrâneo Oriental está destinada a ser lançada, segundo o Ministério da Defesa britânico, “ainda neste Verão”. (Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline? Global Research, July 26, 2012. 

A fase 7, nomeadamente a “mudança de regime” – a qual constitui o fim do jogo da guerra humanitária – foi anunciada por Washington em numerosas ocasiões. Nas palavras do Secretário da Defesa, Leon Panetta, referindo-se ao presidente Bashar Al Assad: “Já não é mais uma questão de se ele está chegar ao fim, é de quando”.

O fim do jogo: Desestabilizar o estado laico, instalar o “Islã político”  
O Royal United Services Institute for Defence and Security (RUSI), um think-tank instalado em Londres, com laços estreitos tanto com o Ministério da Defesa britânico como com o Pentágono, sugeriu que “alguma espécie de intervenção [militar] ocidental na Síria está parecendo cada vez mais provável...”. O que o RUSI tem em mente no seu Resumo sobre a crise síria intitulado, A Collision Course for Intervention, é o que pode ser descrito como “Uma invasão suave”, levando ou a uma “ruptura do país” de acordo com linhas sectárias e/ou a instalação de um “regime dominado ou influenciado por islamistas” modelado no Qatar e na Arábia Saudita. 

Vários “cenários” envolvendo operações de inteligência “clandestina” são avançados. O objetivo não mencionado destas opções militares e de inteligência é desestabilizar o Estado leigo e implementar, através de meios militares, a transição rumo a um “regime pós-Assad dominado ou influenciando pelo Islã” modelado no Qatar e na Arábia Saudita.

Mapa da Síria com suas fronteiras
“É necessária uma melhor observação das atividades e relacionamento da Al-Qaeda e os outros jihadistas salafistas internacionais que estão, agora, entrando no país em números crescentes. É provável que as comportas se abram ainda mais, pois jihadistas internacionais são fortalecidos por sinais de progresso significativo da oposição contra o regime. Tais elementos têm o apoio da Arábia Saudita e do Qatar e teriam sem dúvida um papel na Síria a seguir ao colapso de Assad. O âmbito do seu envolvimento precisaria ser considerado no planejamento da intervenção”. (Ibid, p. 9, negrito acrescentado)

Se bem que reconhecendo que os combatentes rebeldes são rematados terroristas envolvidos na matança de civis, o Resumo RUSI, mencionando considerações tácticas e de inteligência, sugere que as forças aliadas no entanto deveriam apoiar os terroristas (isto é, as brigadas terroristas foram apoiadas pela coligação dirigida pelos EUA desde o início da rebelião em meados de Março de 2011. Forças Especiais integraram a rebelião):

“Que desafios militares, políticos e de segurança apresentariam eles [os jihadistas] ao país, à região e ao Ocidente? Questões que incluem a possibilidade de um regime dominado ou influenciado por islamistas herdando armamento refinado, incluindo sistemas de mísseis anti-aviões e anti-navios e armas químicas e biológicas que podiam ser transferidas para as mãos de terroristas internacionais. Ao nível táctico, seria necessária inteligência para identificar os grupos mais eficazes e como melhor apoiá-los. Também seria essencial saber como eles operam e se o apoio pode ajudá-los a massacrar rivais ou a executar ataques indiscriminados contra civis, algo que já testemunhámos entre grupos da oposição síria". ( RUSI - SYRIA CRISIS BRIEFING: A Collision Course for Intervention, London, July 2012, ênfase acrescentada, p. 9 )

O reconhecimento acima confirma a resolução dos EUA-OTAN de utilizar o “Islã político” – incluindo o posicionamento grupos terroristas filiados à Al Qaeda apoiados pela CIA e o MI6 – para realizar suas ambições hegemônicas na Síria.

Operações encobertas da inteligência ocidental em apoio a entidades terroristas da “oposição” são lançadas para enfraquecer o estado laico, fomentar violência sectária e criar divisões sociais. Recordaremos que na Líbia, os rebeldes “pró democracia” foram conduzidos por brigadas paramilitares filiadas à Al Qaeda sob a supervisão de Forças Especiais da OTAN. A muito apregoada “Libertação" de Trípoli foi executada por antigos membros do Libya Islamic Fighting Group (LIFG).

Opções e ações militares. Rumo a uma “invasão suave”?  

Várias opções militares concretas – as quais em grande medida refletem o pensamento em curso do Pentágono-OTAN sobre a matéria – são contempladas no RUSI Syria Crisis Briefing. Todas estas opções são baseadas num cenário de “mudança de regime” exigindo a intervenção de forças aliadas em território sírio. O que é contemplado como uma “invasão suave” modeladas na Líbia sob um mandato humanitário R2P ao invés de uma blitzkrieg total estilo “pavor e choque”. 

O Resumo RUSI, contudo, confirma que apoio continuado e eficaz aos rebeldes do Exército Livre Sírio exigirá finalmente a utilização de “poder aéreo na forma de caças a jato e sistema de mísseis lançados do mar, da terra e do ar” combinado com a entrada de Forças Especiais e a aterragem de “infantaria anfíbia aerotransportada” (Ibid, p 16.).

Esta transição rumo ao apoio naval e aéreo concreto ao rebeldes é sem dúvida motivada também pelas derrotas da insurgência (incluindo substanciais perdas rebeldes) que se seguiram à reação adversa das forças do governo na esteira do ataque terrorista de 18 de Julho contra a sede da Segurança Nacional em Damasco, o qual levou à morte do Ministro da Defesa, general Daoud Rajha e de outros altos membros da equipe defesa nacional do país. 

Várias ações militares entrecruzadas são encaradas, a serem executadas sequencialmente tanto antes como na esteira da proposta “mudança de regime”.

“A opção avançada, destruição das forças armadas sírias através de uma invasão “pavor e choque” estilo Iraque, poderia sem dúvida ser cumprida por uma coligação dirigida pelos EUA. Como com todas as outras formas de intervenção, contudo, manusear os resultados seria muito menos previsível e poderia arrastar as forças da coligação a um pântano duradouro e sangrento. Atualmente essa opção pode ser excluída como possibilidade realista. ... Não há dúvida de que a neutralização substancial da infraestrutura de defesa aérea da Síria poderia ser alcançada por uma operação aérea dirigida pelos EUA. Mas isto exigiria uma campanha grande, sustentada e extremamente custosa incluindo Forças Especiais posicionadas no terreno para apontar alvos. 

As opções de intervenção que restam caem, grosso modo, em três categorias que por vezes se sobrepõem. ... A primeira categoria é ação de imposição militar para reduzir ou acabar a violência na Síria, ... impedir forças de Assad de atacarem população civil por ação [militar] direta. [O RUSI ignora o fato de que as matanças são cometidas pelo ESL e não por forças do governo, M.C.]. 

A segunda é tentar provocar mudança de regime por uma combinação de apoio a forças de oposição e ação militar direta. A segunda categoria pode ser aplicada na sequência do colapso do regime. O objetivo seria apoiar um governo pós Assad ajudando a estabilizar o país e proteger a população contra violência inter-facções e represálias. ... Uma força de estabilização seria posicionada a pedido do novo governo. Em qualquer cenário de intervenção pode ser necessário ou destruir ou proteger armas químicas da Síria, se elas estiverem prestes a serem utilizadas, transferidas ou de outras formas tornadas inseguras. Isto exigiria forças de combate especializadas e potencialmente tão substanciais que provavelmente seria uma missão que só os EUA poderiam executar. [Recordando as ADM do Iraque, o pretexto das armas químicas da Síria está sendo utilizado para justificar uma intervenção militar mais musculada, M.C.

A terceira categoria é socorro humanitário – trazer abastecimento e ajuda médica para populações assediadas. ... Esta forma de intervenção, a qual mais provavelmente seria conduzida sob os auspícios da ONU, exigiria agências de ajuda tais como o Crescente Vermelho Internacional bem como forças militares armadas incluindo poder aéreo, mais uma vez baseado numa coligação OTAN. O socorro humanitário pode ser necessário antes ou após uma mudança de regime. (Ver RUSI - SYRIA CRISIS BRIEFING: A Collision Course for Intervention , London Julho2012, emphasis added, p.9-10 )

O “socorro humanitário” é muitas vezes utilizado como pretexto para o envio de unidades de combate. Forças especiais e operativos de inteligência são frequentemente despachados sob cobertura de ONGs.  

Ações militares concretas EUA-OTAN  

Será que o Resumo RUSI reflete a perspectiva atual do planejamento militar EUA-OTAN em relação à Síria

Que ações militares e de inteligência concretas foram tomadas pela aliança militar ocidental na sequência dos vetos chinês e russo no Conselho de Segurança das Nações Unidas? 

O posicionamento de uma poderosa armada de navios de guerra franceses e britânicos já é encarada numa data não especificada “ainda neste Verão”. (Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline?, Global Research, Julho 26, 2012) .

O Ministério da Defesa britânico, contudo, sugeriu que os deslocamentos da Royal Navy para o Oriente Médio só podiam ser ativados “após” os jogos olímpicos de Londres. Dois dos maiores navios de guerra britânicos, o HMS Bullwark e o HMS Illustrious foram designados, a um tremendo custo para os contribuintes britânicos, para “garantir a segurança” dos Jogos Olímpicos. O HMS Bulwark está atracado em Weymouth Bay durante os jogos. O HMS Illustrious está “atualmente ancorado no Tâmisa no centro de Londres”. (Ibid)

Estas planejadas operações navais são cuidadosamente coordenadas com avançado apoio aliado ao “Exército Livre da Síria”, integrado por jihadistas mercenários estrangeiros treinados no Qatar, Iraque, Turquia e Arábia Saudita por conta da aliança militar ocidental. 

Será que os EUA-OTAN lançarão uma operação aérea total? 

As capacidades de defesa aérea da Síria, segundo informações, baseiam-se no avançado sistema S-300 da Rússia? (Informações não confirmadas apontam para o cancelamento da entrega pela Rússia, a seguir à pressão de Israel, do avançado sistema míssil S300 terra-ar à Síria) (Ver Israel convinces Russia to cancel Syrian S-300 missile deal: official, Xinhua , Junho 28, 2012) Outras informações também sugerem a instalação de um avançado sistema russo de radar (Ver Report: Russia Sent Syria Advanced S-300 Missiles , Israel National News, Novembro 24, 2011).  

O papel das Forças Especiais

Nos próximos meses, forças aliadas não terão dúvida em concentrar-se na desativação das capacidades militares do país incluindo sua defesa aérea, sistemas de comunicações, através de uma combinação de ações encobertas, guerra cibernética e ataques terroristas do ESL patrocinado pelos EUA-OTAN.

Os rebeldes do “Exército Sírio Livre” são a infantaria da OTAN. Comandantes do ESFL, muitos dos quais são parte de entidades filiadas à Al Qaeda, estão em ligação permanente com Forças Especiais britânicas e francesas dentro da Síria. O relatório RUSI recomenda que os rebeldes deveriam ser apoiados através do “posicionamento dentro do país de conselheiros das Forças Especiais com apoio aéreo a pedido:

“Conselheiros trabalhando ao lado de comandantes rebeldes, acompanhados talvez por pequenas unidades de tropas das Forças Especiais, podiam ser táctica e estrategicamente decisivo, como se provou tanto no Afeganistão em 2001 como na Líbia em 2011.” (RUSI, op cit, p. 10)

Forças Especiais têm estado no terreno na Síria desde o princípio da insurgência. Relatórios também confirmam o papel de companhia de segurança privadas, incluindo antigos mercenários Blackwater, no treino dos rebeldes do ESL. No que é descrito como “Guerra da América debaixo da mesa”, Forças Especiais no terreno estão em ligação permanente com os militares e a inteligência aliada.  

O influxo de combatentes jihadistas mercenários  

Desde o impasse no Conselho de Segurança da ONU, uma aceleração no recrutamento e treino de combatentes jihadistas mercenários está se verificando. 

Segundo uma fonte do exército britânico, British Special Forces (SAS) estão agora treinando “rebeldes” sírios no Iraque “em tácticas militares, manuseamento de armas e sistemas de comunicações”. A informação também confirma que treino militar de comandos está sendo realizado na Arábia Saudita por conta da aliança militar ocidental:

“Forças Especiais britânicas e francesas têm estado a treinar activamente mercenários do ESL, a partir de uma base na Turquia. Algumas informações indicam que o treino está a ter lugar também em locais na Líbia e no Norte do Líbano. Operativos britânicos do MI6 e pessoal do UKSF (SAS/SBS) tem confirmadamente estado a treinar os rebeldes em guerra urbana bem como a fornecer-lhes armas e equipamento. Acredita-se que operativos estado-unidenses da CIA e forças especiais providenciam assistência em comunicações aos rebeldes”. (Elite Forces UK , Janeiro 5, 2012) 

“Mais de 300 [rebeldes sírios] passaram por uma base dentro do Iraque próxima à fronteira, enquanto um curso de comandos está a ser dado na Arábia Saudita. Grupos de 50 rebeldes de cada vez estão a ser treinados por duas firmas de segurança privada que empregam antigo pessoal de Forças Especiais. Nosso papel é puramente de instrutores ensinando tácticas, técnicas e procedimentos”, disse um antigo membro da SAS”. 
“Se podemos ensinar-lhes como encobrir-se, atirar e evitar serem localizados por snipers será uma ajuda esperançosa”. ( Daily Mail, Julho 22, 2012)

O papel da Turquia e de Israel  

O alto comando militar da Turquia tem estado em ligação com a sede da OTAN desde Agosto de 2011 relativamente ao recrutamento ativo de milhares de "combatentes da liberdade" islamistas, o que recorda o alistamento de mujahideen pra travar a jihad (guerra sagrada) da CIA no auge da guerra soviético-afegã.

“Também discutido em Bruxelas e Ancara, relatam nossas fontes, está uma campanha para alistar milhares de voluntários muçulmanos em países do Médio Oriente e do mundo muçulmano para combater junto aos rebeldes sírios. O exército turco abrigaria estes voluntários, treinaria e asseguraria a sua passagem para dentro da Síria. ( DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank weapons, Agosto 14, 2011, negrito acrescentado)

O recente influxo de combatentes estrangeiros numa escala significativa sugere que este diabólico programa de recrutamento mujahiden, desenvolvido há mais de um ano atrás, tem frutificado. 

A Turquia também está apoiando combatentes da Fraternidade Muçulmana no Norte da Síria. Como parte do seu apoio aos rebeldes do ESL, “a Turquia estabeleceu uma base secreta com aliados da Arábia Saudita e do Qatar para dirigir ajuda militar e de comunicações para rebeldes da Síria a partir de uma cidade próxima à fronteira” Exclusive: Secret Turkish nerve center leads aid to Syria rebels | Reuters, Julho 27, 2012). 

O papel de Israel no apoio aos rebeldes, em grande medida caracterizado por operações encobertas de inteligência, tem sido “discreto” mas significativo. Desde o início, o Mossad apoiou grupos terroristas salafistas, os quais se tornaram ativos no Sul da Síria no início do movimento de protesto em Daraa em meados de Março. Informações sugerem que o financiamento para a insurgência salafista está vindo da Arábia Saudita. (Ver Syrian army closes in on Damascus suburbs , The Irish Times, Maio 10, 2011). 

Enquanto canaliza apoio encoberto ao ELS, Israel também está apoiando separatistas curdos no Norte da Síria. O grupo de oposição curda (KNC) tem ligações estreitas com o Governo Regional Curto de Massoud Barzani no Norte do Iraque, o qual é diretamente apoiado por Israel. 

A agenda separatista curda se destina a ser utilizada por Washington e Tel Aviv para procurar a ruptura da Síria de acordo com linhas étnicas e religiosas – em várias entidades políticas separadas e “independentes”. Convém notar que Washington também facilitou o despacho de “militantes da oposição” curda síria para o Kosovo em maio último para participar de sessões de treinamento utilizando a “perícia terrorista” do Kosovo Liberation Army (KLA). (Ver Michel Chossudovsky, Hidden US-Israeli Military Agenda: “Break Syria into Pieces, Global Research, Junho 2012). 

A não tão oculta agenda militar estadunidense-israelense é “Romper a Síria em pedaços", tendo em vista apoiar o expansionismo de Israel. ( The Jerusalem Post, May 16, 2012).

Confronto com a Russia  

O que se pode esperar nos próximos meses:  

1) Um posicionamento naval no Mediterrâneo Oriental, cujo objetivo militar não foi claramente definido pelas forças aliadas.

2) Um maior influxo de combatentes estrangeiros e esquadrões da morte para dentro da Síria e a execução de ataques terroristas cuidadosamente visados em coordenação com os EUA-OTAN.

3) Uma escalada no posicionamento de forças especiais aliadas, incluindo mercenários de companhias de segurança privadas contratadas pela inteligência ocidental. 
O objetivo, sob a operação “Vulcão Damasco e Terremoto Sírio”, em última análise consistir em estender os ataques terroristas do ESL à capital da Síria, sob a supervisão de Forças Especiais ocidentais e de operativos de inteligência no terreno. (Ver Thierry Meyssan, The battle of Damascus has begun, Voltaire Net, Julho 19, 2012). Esta opção de alvejar Damasco fracassou. Os rebeldes também foram empurrados para trás em combates intensos na segunda maior cidade da Síria, Alepo.

4) O enfraquecimento do papel da Rússia na Síria – incluindo suas funções sob o acordo de cooperação militar bilateral com Damasco – também é parte da agenda militar e de inteligência dos EUA-OTAN. Isto podia resultar em ataques terroristas contra nacionais russos a viverem na Síria.

Um ataque terrorista contra a base naval da Rússia em Tartus foi anunciado menos de duas semanas após o confronto directo no Conselho de Segurança, sem dúvida por ordem dos EUA-OTAN tendo em vista ameaçar a Rússia. 

A seguir à chegada da flotilha naval russa de dez navios estacionados ao largo da costa síria, um porta-voz do ESL confirmou (26 de Julho) a sua intenção de atacar a base naval da Rússia em Tartus:

“Temos uma advertência às forças russas: se enviarem mais quaisquer armas que matem nossas famílias e o povo sírio nós os atingiremos duramente dentro da Síria”, disse Louay al-Mokdad, coordenador logístico do Exército Livre da Síria (ELS).
Informantes dentro do regime contam-nos que há grandes carregamentos de armas a chegarem a Tartus nas próximas duas semanas. Não queremos atacar o porto, não somos terroristas, mas se eles continuarem a atuar dessa forma não teremos opção. 
O ELS formou uma “Brigada naval”, composta de desertores da Marinha síria, a qual opera próximo de Tartus. “Muitos dos nossos homens costumavam trabalhar no porto de Tartus e conhecem-no bem”, disse o capitão Walid, um antigo oficial da Marinha Síria. “Estamos observando muito atentamente os movimentos dos russos”.
“Podemos facilmente destruir o porto. Se atingirmos os armazéns de armas com mísseis anti-tanque ou outra arma isso dispararia uma explosão devastadora”, disse um representante do ELS. “Ou podemos atacar os navios diretamente”. ( Syrian rebels threaten to attack Russian naval base - World - DNA, Julho 26, 2012)

Se a base naval da Rússia viesse a ser atacada, isto, com toda probabilidade, seria empreendido sob a supervisão de forças especiais e operativos de inteligência aliados. 

Se bem que a Rússia tenha as capacidades militares necessárias para defender eficazmente sua base naval de Tartus, um ataque à base naval da Rússia constituiria um ato de provocação, o qual podia preparar o cenário para um envolvimento mais visível de forças russas dentro da Síria. Um rumo assim também podia potencialmente levar a uma confrontação direta entre forças russas e forças especiais ocidentais e mercenários a operarem dentro das fileiras rebeldes. 

Segundo o RUSI Syria Crisis Briefing citado acima: “Antecipar a ação e contra-ação russa teria de ser um fator importante em qualquer plano de intervenção [militar] do Ocidente [na Síria]. Os russos certamente são capazes de movimentos arrojados e inesperados...” (RUSI, op cit, p. 5).


O mundo numa encruzilhada perigosa  

Uma “guerra humanitária” total contra a Síria está em cima da mesa do Pentágono, a qual, se executada, podia levar o mundo a uma guerra regional estendendo-se desde o Mediterrâneo Oriental ao coração da Ásia Central. 

Um programa de propaganda refinado e super abrangente apoia a guerra em nome da paz mundial e da segurança global.

O cenário subjacente de conflito mundial vai muito além da concepção diabólica do 1984 de Orwell. 

O Ministério da Verdade sustenta a guerra como um empreendimento para fazer a paz invertendo realidades. 

Por sua vez, as mentiras e fabricações dos “jornalistas de referência” são apresentadas com variadas insinuações numa complexa teia de enganos. 

Numa deturpação cínica, atrocidades documentadas contra civis sírios cometidas pela “oposição” do Ocidente estão agora sendo reconhecidas (ao invés de culpabilizar forças governamentais) como “inevitáveis” na penosa transição rumo à “democracia”. 

As consequências mais vastas da “Grande Mentira” são obscurecidas. 

A “guerra humanitária” global torna-se um consenso ao qual ninguém pode desafiar.

A guerra à Síria é parte de uma agenda militar integrada à escala mundial. A estrada para Teerã passa por Damasco. O Irã, a Rússia, a China e a Coreia do Norte também estão sendo ameaçados.

Com o posicionamento da armada naval franco-britânica ainda este Verão, navios de guerra ocidentais no Mediterrâneo Oriental estariam contíguos àqueles posicionados pela Rússia, a qual está a conduzir os seus próprios jogos de guerra, levando a uma potencial “confrontação estilo Guerra fria” entre forças navais russas e ocidentais. Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline? , Global Research, Julho 26, 2012).

Uma guerra à Síria, a qual inevitavelmente envolveria Israel e Turquia, podia constituir a fagulha rumo à guerra regional dirigida contra o Irã, na qual a Rússia e a China podiam ser (direta ou indiretamente) envolvidas.

É crucial difundir estas palavras e romper os canais de desinformação da imprensa-empresa internacional.

Um entendimento crítico e não enviesado do que está acontecendo na Síria é de importância crucial na reversão da maré da escalada militar.

Difunda este artigo o mais amplamente possível.

Ver também:
Obama faz Syriana, 03/Ago/2012 redecastorphoto, (o título é alusão ao filme Syriana )  

Esta tradução foi extraída de Resistir e ligeiramente adaptada pela redecastorphoto.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pepe Escobar: Obama faz “Syriana”


3/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A Agência Reuters demorou a receber autorização para noticiar que o presidente Barack Obama dos EUA aprovou documento de inteligência [1] liberando a CIA para soltar a mão no apoio que dá aos “rebeldes” armados que lutam pela mudança de regime na Síria. 

Agora, qualquer pescador em Fiji já sabe sobre esse “segredo” (para nem falar que todos e mais os vizinhos, na América Latina, também descobriram umas coisinhas sobre as aventuras de mudança de regime da CIA). A Reuters, cautelosamente, apresenta o apoio como “circunscrito”. É palavra-código para “comando por trás dos panos”. 

Sempre que a CIA quer vazar alguma coisa, usa escriba de confiança, como David Ignatius do Washington Post. Já desde 18/7 Ignatius reproduzia seu briefing, [2] segundo o qual “a CIA está trabalhando com a oposição síria há várias semanas, sob orientação não letal (...) Legiões de agentes da inteligência de Israel também operam ao longo da fronteira da Síria, embora guardando máxima discrição”.

Que lindo. Quanto de “máxima discrição” alguém consegue manter ao longo das fronteiras da Síria? Instagram de um bando de caminhoneiros sorridentes?

E sobre “máxima discrição” em matéria de Mossad, dizem os especialistas em Telavive que Israel consegue “controlar” o enxame de jihadistas wahhabistas e salafistas linha duríssima que infestam a Síria. Apesar da evidente total piração, um ponto altamente sumarento aparece aí bem claro: Israel já se amancebou e anda metida nos panos com islamistas de estilo al-Qaeda.

Isso significa que o Exército-Nada-Livre-Sírio, infestado de Irmãos da Fraternidade “Duro de Matar” Muçulmana e infiltrado por jihadistas salafistas, segue agora não apenas a agenda de seus financiadores e vendedores/doadores de armas – a Casa de Saud e o Qatar – mas, também, a agenda de Telavive, mancomunada com Washington e seus poodles marca-registrada Londres & Paris. Quer dizer: já não se trata de guerra por procuração: agora se trata de guerra por procuração múltipla e concêntrica.

Conheçam o triângulo da morte

A agenda de Telavive é clara: governo sírio enfraquecido; exército desorganizado tipo entra-quem-quer; ódio sectário distribuído a mancheias; e incontido deslizamento rumo à balcanização. A meta geral final: além de libanização, também a somalização da Síria e arredores.

Centro de Controle em Iskenderun
A agenda da Turquia permanece inacreditavelmente obscura – exceto pelo delírio desejante de ver a Síria pós-Assad converter-se em versão civilizada edulcorada (o que nunca acontecerá) do reinado do partido AKP em Ankara.

Como esse Asia Times Online tem noticiado há meses, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) até há pouco tempo dirigia um centro de controle e comando em Iskenderun, na província de Hathay. Recentemente, vazou afinal para a Reuters a notícia de que há uma base “secreta” conjunta turco-qatari-saudita em Adana, a 100 quilômetros da fronteira síria. Adana é onde vive o monstro Incirlik – imensa base da OTAN. Fonte local de nosso Asia Times Online tem informado sobre frenético movimento de cargas em Incirlik.

Base de  Incirlik na Turquia
Foi o próprio Vice-Ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita Abdulaziz bin Abdullah al-Saud quem exigiu, pessoalmente, que a base fosse instalada ali, para delícia de Ankara.

Ankara-Riad-Doha – aí está o triângulo da morte. Mas vem do Qatar, mais uma vez, a conversa que mais decisivamente está “comandando por baixo dos panos”. A Turquia carrega o piano militar: a CIA mantém-se em posição de “não estamos aqui”; e o Qatar só faz tirar fotos de paisagens, como turista inocente (ao mesmo tempo em que comanda operações usando os próprios serviços militares de inteligência). Quem sua a camisa, mesmo, são “intermediários” não identificados.

Obama não autorizou – ainda – a guerra de drones; e a CIA talvez não esteja armando os “rebeldes”; é o negócio do “triângulo da morte”. Inflação de granadas lançadas de foguetes russos compradas no mercado negro é a causa de recentes mega ataques dos “rebeldes” em Damasco e Aleppo. Agora, já se espera inflação de mísseis portáteis antitanque (o atirador apoia a arma no ombro e dispara o míssil). A NBC News já noticiou um “presente” que chegou ao Exército Sírio (Nada) Livre, de quase duas dúzias de mísseis terra-ar, entregues lá por especial obséquio da – e de quem mais seria? – Turquia.

O Qatar e a Arábia Saudita não estão interessados em fazer prisioneiros. Ninguém em Washington parece dar qualquer atenção às lições do Afeganistão pós-Jihad, antes de tomar decisões. Por falar nisso, sim, aí está a Jihad afegã dos anos 1980s, tudo outra vez – com Arábia Saudita e Qatar fazendo o papel do Paquistão; o Exército Sírio Livre, no papel dos gloriosos mujahideen (“combatentes da liberdade”); e Obama no papel de Ronald Reagan. Só falta Obama aprovar “memorando de notificação” que autorize Washington a armar os combatentes da liberdade e, em seguida, mandar para lá um enxame de drones.

Aí está receita perfeita para Hollywood criar mais um filme arrasa-quarteirão, para 2013.

Riad, por sua vez, está forçando o rei-de-Playstation da Jordânia a implantar uma zona neutra em seu território para abrigar as mais de 100 gangues de que é composto o ESL – como revelou o jornal al-Quds al-Arabi mantido pelos sauditas. E adivinhem quem era o lacaio que obrava para forçar o negócio? Ninguém menos que o evanescido chefe da inteligência saudita príncipe Bandar – que não se sabe se morreu ou não morreu em atentado à bomba há duas semanas (Where is Prince Bandar?”, Asia Times Online, 2/8/2012).

A Ceifadora Sinistra** vence

Vale a pena repetir até que a Ceifadora Sinistra apareça para recolher os restos: vê-se ao largo, chegando, um espetacular tiro gigante pela culatra.

O prolongado sítio de Aleppo, aí, chegando. A “base secreta” do CCGOTAN (Conselho de Cooperação do Golfo/Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Turquia, armamento pesado, a mancheias para jovens sunitas sírios desempregados, semianalfabetos, nascidos e criados sectários do tipo que vive de matar desertores do exército, criminosos de várias cepas e jihadistas salafistas multinacionais. O vídeo que se vê em [3] mostra tudo que é preciso saber sobre o que é e faz o Exército Sírio Livre. E outro vídeo, que se vê em [4] mostra o tipo de “democracia” que querem ter por lá.

Os wahhabistas sauditas querem uma Síria islamista sunita linha duríssima – preenchida com cristãos, alawitas, drusos e curdos na figuração, como cidadãos de terceira classe (ou candidatos privilegiados à degola). Os qataris querem ali um protetorado da Fraternidade Muçulmana.

Os políticos e “especialistas” que constroem as políticas externas do governo Obama devem estar cheirados ou fumados, cheios de crack barato. Só porque se meteram em guerra sem fim nem limites contra, não só o Irã, mas todos os xiitas que vivem por lá... O quê?! O que mais?! Resolveram também apostar tudo numa somalização da Síria, que inflará a intolerância wahhabista? A Ceifadora Sinistra espera, dentes à mostra, nas coxias. 

Notas de rodapé
2. 19/7/2012, Washington Post em: “Looking for a Syrian endgame”. 
3. Assista a seguir:


Notas dos tradutores
*Sobre Syriana, filme de 2005. 
**Orig. “Grim Reaper”: é também nome de uma banda de heavy rock, inglesa, criada em 1979. Pode-se vê-los/ouvi-los em “See you in hell” a seguir:

Irã inaugura agência de notícias dos Não Alinhados


31/7/2012, PressTV, Teerã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Foto de arquivo mostra a 15 ª reunião dos ministros do Movimento Não-Alinhados estrangeiros na capital iraniana, Teerã, em julho de 2008.
Foto de arquivo mostra a 15 ª reunião de Ministros de Relações Exteriores do Movimento dos Não-Alinhados na capital iraniana, Teerã, em julho de 2008.
O Irã apresentou nesta quarta-feira (1º/7/2012) oficialmente a agência internacional de notícias do Movimento dos Países Não Alinhados (MPNA) [esp. Movimiento de Países No Alineados (MNOAL)/ing. Non-Aligned Movement (NAM)], enquanto avançam em Teerã os preparativos para realizar a 16ª cúpula da organização, em fins de agosto.

“O Irã assume pelos próximos três anos a presidência do Movimento dos Países Não Alinhados (MPNA). Nosso principal objetivo nesse período é organizar e implantar a nova agência de notícias, objetivo para o qual começamos a trabalhar imediatamente” – disse Mohammad Sheikhan, vice-presidente de Comunicações e Relações Públicas da conferência, em reunião no gabinete do presidente Ahmadinejad.

Sheikhan destacou o papel que os meios de comunicação em massa desempenham no mundo moderno e expressou confiança de que a agência sirva para contrabalançar a hegemonia das grandes corporações.

Em relação ao tema, Sheikhan deplorou que numerosas empresas econômicas, sistemas hegemônicos e potências mundiais procurem manter sob jugo seus meios, “para impor suas ideias e pensamentos corporativistas à comunidade internacional”.

Em contraste, surgiram certos meios de comunicação graças ao despertar das nações ansiosas pela prosperidade e aperfeiçoamento da sociedade humana”, afirmou.

Sheikhan também manifestou a esperança de que a recém criada agência contribua para preparar o terreno para um “movimento informativo” e para promover o lema da 14ª Conferência Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do Movimento.

Sob o título: “Paz sustentável sobre a base de um gerenciamento global conjunto”, a conferência será aberta em Teerã em 26 de agosto, para especialistas, e será concluída no dia 31 do mesmo mês, após encerrar as reuniões dos Ministros de Relações Exteriores e Chefes de Estado.

Os organizadores da conferência lembram que o objetivo da reunião dos países do Terceiro Mundo, como indicou a declaração de Havana durante a 6ª Cúpula em 1979, é assegurar “a independência nacional, a integridade territorial e a segurança dos países não alinhados”.

A República Islâmica receberá a presidência dos Não Alinhados das mãos do Egito, tornando o recém eleito presidente Mohamed Mursi, islamista moderado, um dos visitantes mais aguardados da reunião.

Escapar da Teoria Econômica


por Paul Craig Roberts [*]
Resenha do livro“The Bubble and Beyond” de Michael Hudson

Alguns leitores por vezes pedem-me para recomendar um livro no qual possam aprender teoria econômica (economics).

O problema em ler um livro para aprender a teoria económica que é ensinada nas universidades e praticada em Washington é que a mesma é agora um assunto altamente formalizado baseado em modelos e suposições abstratas e que foram matematizadas.

Não é que seja totalmente inútil sem qualquer aplicabilidade a problemas do mundo real. O problema, antes, é que a disciplina tanto se retarda perante um mundo sempre em mudança como entende algumas coisas erradamente desde o princípio.

Consequentemente, aprender teoria econômica coloca uma pessoa dentro de uma caixa onde algumas das ferramentas e o entendimento proporcionado estão ultrapassados e incorretos. 

Por exemplo: Todo manual desenhará um quadro da agricultura como o exemplo perfeito de mercados competitivos nos quais “nenhuma quantidade produzida por produtores é suficientemente grande para afetar o preço”. Isto fazia sentido quando um terço da força de trabalho dos EUA estava em quintas familiares. Hoje, a agricultura americana é dominada por corporações e agrobusiness. Além disso, parte da desastrosa desregulamentação financeira pressionada por economistas que não pensam e interesses especiais foi a remoção de limites de posição sobre os especuladores. Antigamente, os especuladores suavizavam a agricultura e os mercados de commodities pela compra e venda a fim de estabilizar preços nos períodos em que a oferta e a procura estavam desequilibradas. Agora os especuladores podem dominar os mercados e manipular preços em benefício dos seus lucros. 

Há muitos exemplos assim em que a teoria econômica já não corresponde ao mundo real.
Dois outros bastarão:

A maior parte das pessoas inteligentes está consciente que os recursos naturais são finitos, incluindo a capacidade do ambiente de absorver os resíduos ou a poluição resultante de atividades produtivas (ver por exemplo, Jared Diamond, Colapso , 2005). Mas poucos economistas têm a percepção disso, por assumirem que o capital feito pelo homem é um substituto perfeito para o capital da natureza. Esta suposição implica que não há limites ambientais finitos para um crescimento econômico infinito. Perdidos em tal mundo imaginário, economistas ignoraram o custo pleno da produção e não podem dizer se o valor dos aumentos no PIB é maior ou menor do que o custo pleno para produzi-lo. 

Economistas quase universalmente têm confundido a deslocalização (offshoring) de empregos com o livre comércio. Economistas conseguiram mesmo produzir “estudos” destinados a mostrar que uma economia interna é beneficiada por ser transformada no PIB de algum outro país. 

Economistas conseguiram fazer esta declaração mesmo quando o seu absurdo é óbvio para aquilo que resta da força de trabalho da indústria manufatureira, industrial e de trabalho qualificado (engenheiros de software, por exemplo) e para as cidades e estados cujas bases fiscais foram devastadas pelo movimento de exportação de empregos estadunidenses.

Os poucos economistas que têm a inteligência de reconhecer que a exportação de empregos é a antítese do livre comércio são despedidos como "protecionistas". Economistas são tão dogmáticos acerca do livre comércio que construíram mesmo o mito folclórico de que a ascensão da economia dos EUA foi baseada no livre comércio. Como provou Michael Hudson, um economista capaz de pensar fora da caixa, não há a mínima evidência que corrobore este mito folclórico (ver America's Protectionist Takeoff 1815-1914 ). 

O meu conselho aos leitores que pretendem desenvolver a sua compreensão econômica é começar com os economistas fora da caixa que estão a tratar das questões reais. Exemplo: For the Common Good , de Herman E. Daly e John B. Cobb é acessível a leitores comuns que se disponham a fazer o esforço de pesquisar no Google as definições de termos não familiares. Entretanto, o mais importante desenvolvimento na teoria do comércio não está ali. Global Trade and Conflicting National Interests , de Ralph E. Gomory e William J. Baumol (MIT Press, 2000) aparentemente está muito acima das cabeças de economistas profissionais, que preferem antes tagarelar de forma ignorante acerca dos “benefícios do livre comércio” do que aprender aquilo que devem saber. No entanto, os leitores deveriam entender que a defesa do livre comércio nunca mais será a mesma após a sua dissecação por Gomory e Baumol. 

Michael Hudson
Com esta introdução, volto-me agora para o assunto principal: o economista Michael Hudson. 

Hudson está totalmente fora da matriz na qual economistas se aprisionam a si próprios. Hudson não vive na realidade artificial de economistas ou de sócios apostadores para corporações e a Wall Street

Pode-se aprender um bocado com Hudson. O seu livro Trade, Development and Foreign Debt  (2009) explica como o comércio exterior e o desenvolvimento econômico tem sido utilizados para concentrar poder econômico nas mãos dos países dominantes. O que está realmente a acontecer é [habitualmente] encoberto com verborreia e modelos formais. Na realidade, o comércio e o desenvolvimento são meios de colonizar países que pensam serem independentes. (Outro bom livro sobre este assunto é The Globalization of Poverty, de Michel Chossudovsky).

Talvez o melhor livro para começar seja o mais recente de Hudson, The Bubble and Beyond, que estará disponível dentro em breve. 

Neste livro Hudson trata tanto da crise na economia como da crise na disciplina da ciência económica. A partir do mesmo poderá entender não só a crise mas também porque economistas a diagnosticaram mal e estão a aplicar remédios incorretos. 

Hudson mostra que um dos problemas centrais é o fato de a teoria econômica ignorar o papel da dívida na economia. A teoria econômica também pretende que a política econômica, como a política monetária do Federal Reserve, serve o interesse do público ao invés dos interesses dos privados poderosos. 

Tal como Lenine e outros previram, o capitalismo industrial transformou-se em capitalismo financeiro. O capitalismo financeiro não financia ou cria novos investimentos reais tais como instalações manufatureiras. Ao invés disso, o capitalismo financeiro funciona como um rentista (rentier). Ele alavanca dívida e extrai pagamentos de juros (e hoje salvamentos dos contribuintes pelas suas apostas super-alavancadas).

O capitalismo financeiro floresce ao converter cada vez mais recursos da sociedade em pagamentos para si próprio. 

Um resultado disso é que os mercados cessam de expandir-se e as economias cessam de crescer quando a austeridade é imposta ao serviço da acumulação de dívida. A austeridade deprime as economias pois o consumo e o investimento são reduzidos a fim de servir a dívida. Hudson conclui que o resultado é que banqueiros agora recebem as rendas (uma forma de rendimento não merecido) que outrora afluíam para a aristocracia fundiária. Ao contrário da aristocracia, que foi desapossada das suas rendas, os banqueiros não o foram.

Hudson conhece a história do pensamento econômico e história econômica. A leitura de The Bubble and Beyond permite aos leitores verem como as ideias econômicas desenvolveram-se por caminhos que deixam economistas incapazes de perceberem o caráter real dos problemas que os desafiam. Aprisionados no molde que construíram para si próprios, economistas são incapazes de criar soluções. 

Hudson escreve que as economias ocidentais estão num ponto de viragem. O crescimento do PIB consiste cada vez mais de acumulação de encargos financeiros. Os ganhos de riqueza são ganhos de papel, não ganhos de instalações e equipamentos reais, e estão cada vez mais concentrados nas mãos do um por cento. Os ganhos financeiros são extraídos dos ganhos de capital tangível e do trabalho. Matt Taibbi detectou o ponto essencial com a sua imagem da Goldman Sachs como “um grande polvo vampiro envolvendo a humanidade, a sugar implacavelmente o seu sangue canalizando qualquer coisa que cheire a dinheiro”. 

A minha sugestão é que leia Hudson juntamente com Griftopia, de Taibbi; It Takes A Pillage, de Nomi Prin; Reckless Endangerment, de Gretchen Morgenson e Joshua Rosner; e For the Common Good, de Daly e Cobb. A seguir, se estudar teoria econômica, estará protegido e não ficará preso à matriz que produz economistas para serem sócios apostadores do capitalismo financeiro, ou para a destruição ambiental e a deslocalização da economia.

Toda a gente quer sempre uma solução. Hudson apresenta sugestões de como reconstruir a economia a fim de que ela sirva às necessidades dos 99% ao invés de servir apenas os 1%.  

Comece a trabalhar. Ler estes livros fará para si muito maior bem do que brincar com jogos vídeo, ver TV ou frequentar bares. Nosso país precisa de uma geração mais jovem e mais bem informada para substituir a menos bem informada geração mais velha.

31/Julho/2012

[*]  Antigo secretário assistente do Tesouro dos EUA e editor associado do Wall Street Journal. Seu último livro, Wirtschaft am Abgrund (Economias em colapso) , acaba de ser publicado.

O artigo original, em inglês, encontra-se em: “Michael Hudson's "The Bubble and Beyond" - Escape From Economics

Esta tradução foi extraída do sítio Resistir e ligeiramente adaptada pela redecastorphoto 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A casa do Gordo


 

Publicado em 02/08/2012 por Urariano Motta

Recife (PE) - Nos escuros, angustiantes anos de 1970, do Recife a Olinda nada havia melhor do que ir aos domingos à casa do Gordo. Era uma casa sem piscina, sem sala de recepção para as visitas, às vezes até sem cadeiras, sem banheiro decente, sem conforto.... só nos falta mesmo dizer se era uma casa. Era. A casa era o Gordo. Era ele que fazia e dava alma e vida e graça e civilização àqueles dois quartos com cozinha, com uma pequena área livre à frente, que chamávamos de terraço. Ali nos recebia. Sentávamo-nos no chão, com muito prazer.

Chegávamos. Para não melindrar nem ferir ninguém, falarei de nós como se falasse de um bloco, sem aprofundar individualidades. Chegávamos, um dos mais originais e desesperados grupos de amigos daqueles anos.

Chegávamos loucos por e para beber, como se já loucos não fôssemos o suficiente naquelas loucas condições. Aprendíamos ali, sentados pelo chão de cimento, que o melhor da espera do almoço prometido era a espera. Isso porque enquanto não vinha a grande hora ouvíamos frevos de Capiba, de Nelson Ferreira, de Edgard Moraes, de João Santiago, e bebíamos cachaça, e cerveja, e cachaça, que explodia, para os desatentos, nesta alegria:     

“Eu quero entrar na folia, meu bem
Você sabe lá o que é isso?
Batutas de São José, isto é
Parece que tem feitiço
Batutas tem atrações que
Ninguém pode resistir
Um frevo desses que faz
Demais a gente se distinguir.

Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber se você vai brincar
Ah, meu bem, sem você não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar”

Quem nos visse a gritar a última estrofe mal podia adivinhar que gritávamos “vamos cair no passo e a vida gozar”, porque tudo que menos possuíamos na vida era o gozo. E era de matar de emoção cinco seis homens solitários roucos e desentoados num “Eu quero entrar na folia, meu bem...”. Que bem, que bem?  E por isso bebíamos, com sede e com volúpia, porque mais adiante vinha mais crueldade:

“Se eu pudesse lhe daria
o céu, a terra e o mar
Mandaria pratear toda a avenida
pra ver você passar...”.

Ah se fôssemos árabes do gênero dos pobres sheiks, o que não faríamos? De que paraísos não tomaríamos posse? Água Fria, capital do mundo! Mulheres desejadas na infância arrancadas das tumbas! Burguesas bonitas transformadas em gentis cadelas! Nelson Ferreira mais amado e ouvido que Cole Porter! Poesia para todos, para os miseráveis de tudo principalmente... Naquela hora, no entanto,  reuníamos todos os nossos haveres, a riqueza da nossa leitura mal digerida, que não tínhamos outra. 

Por isso o Gordo nos convidava. Existia coisa melhor que uma solidão compartilhada, uma “solidão socializada”, como poderíamos então dizer?  Por isso o Gordo nos convidava, não para que nos abrigássemos de nossas feridas, pois não poucas vezes nos roçamos e nos sangramos mutuamente. Não para isso nos convidava. Ele nos chamava para algo mais solar, dominical, feliz.

- Domingo, lá em casa, bobó de camarão. Feito por mim!

Ficávamos a olhar a promessa maravilhados. De que não era capaz o nosso Balzac? Bobó de camarão é um prato baiano, e o Gordo, um genuíno pernambucano, ia nos dar mais uma prova da sua versatilidade. Bobó de camarão feito pelo leitor de Kazantzakis, servido pelo extraordinário conhecedor de frevos, pela autoridade na arte de rir do próprio sofrer! Por isso, como se fosse por isso, chegávamos e chegamos. Na sala, tocava Luiz de França. Aguardente no terraço, para todos. Menos para o Gordo, que se demorava a vir.

- Cadê o Gordo?

Está na cozinha, a sua mãe nos responde. Então um de nós se levanta, para ver com os próprios olhos a oitava maravilha dos nossos domingos, o Gordo em ação. E vê, e vê, diante de um imenso caldeirão, o nosso amigo com uma colher de pau em uma das mãos e na outra um livro de receitas. Que decepção: tudo no Gordo era conhecimento maduro, solidificado. Isto não batia: com um livro a copiar a comida baiana, logo ele, o Gordo, que era a anticitação livresca. E por isso, com raiva, o amigo lhe faz a censura:

- Gordo, cozinhando com um livro, Gordo?!

Ao que ele responde no ato:

- Sim... Mas o autor é marxista!

E a raiva se desfez. E a gargalhada, no terraço, estrondou. Esse era o Gordo, essa era mais uma do Gordo.

Bêbados e sem matar a infelicidade à noite regressávamos. Alguns de nós sem saber para onde ir. Mas o saldo era bom, Gordo, eterno Gordo. Saibas, graças a ti, aqueles domingos nos davam a resistência para mais uma semana.


Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). 

Enviado por Direto da Redação