segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pepe Escobar: “Guerra Longa” do Pentágono põe a OTAN contra China, Rússia e Irã

29/4/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Composição estilizada da Estátua da Liberdade, pintada no muro da ex-embaixada dos EUA em Teerã”
Por mais que o presidente Obama dos EUA tente desmentir, a venda pelos russos ao Irã, do sistema S-300 de mísseis, é fator que provoca mudança monumental no jogo. Mesmo com o gambito acrescentado, de os militares iranianos garantirem que o sistema Bavar 373 de fabricação iraniana é ainda mais eficiente que o S-300.

Isso explica por que a revista Jane’s Defense Weekly já dizia, há anos, que Israel não conseguiria penetrar no espaço aéreo iraniano ainda que conseguisse chegar lá perto. E depois do S-300s serão inevitavelmente oferecidos ao Irã os ainda mais sofisticados S-400s, que devem também ser entregues à China.

O segredo não dito que há por trás de todos esses procedimentos que alteram o jogo conhecido realmente apavora os doidos-por-guerra em Washington; tem a ver com avanços em mais uma linha de frente da integração da Eurásia, sob o formato de um escudo eurasiano de mísseis, instalado contra os planos balísticos do Pentágono/OTAN.

Uma primeira visão do que há à frente, apareceu na Conferência de Segurança Internacional de Moscou [Moscou Conference on International Security, MICS) em meados de abril/2015.

Ali se viu o Ministro de Defesa do Irã, brigadeiro-general Hussein Dehghan, dizendo abertamente que o Irã quer que os países BRICS China, Índia e Rússia unam-se na oposição à expansão descontrolada da OTAN para o oriente, e definindo o escudo de mísseis da OTAN – que nem se pode chamar de “escudo”, porque só tem objetivos ofensivos – como ameaça à segurança coletiva de todos esses países.

Viram-se também o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu e o Ministro de Defesa da China, Chang Wanquan, enfatizando que os laços militares entre eles todos são “prioridade maximamente superior”; e mais, também Teerã e Moscou reforçando que estão estrategicamente em sintonia em seu impulso adiante rumo a uma nova ordem multipolar.

Rasgando a Nova Cortina de Ferro

A aventura de Washington na Praça Maidan não levou só à cristalização de uma nova Cortina de Ferro instalada dos Bálticos ao Mar Negro. Até aí é o jogo visível da OTAN. O que não é visível é que a cortina está sendo erguida não só contra a Rússia, mas, também, contra o Irã e a China.

O campo de batalha está agora bem demarcado entre OTAN e  Rússia/China/Irã. Portanto, não surpreende que esses três estejam em processo de aproximação entre eles. O Irã participa como observador do Tratado da Organização para Segurança Coletiva, TOSC (CSTO, Collective Security Treaty Organization) e está em processo para tornar-se membro da Organização de Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization) já em 2016.

Hassan Rouhani, Presidente do Irã
A Rússia fornece sistemas S-300 ao Irã; sistemas S-400 à China (com novos mísseis, teleguiados, de mais longo alcance); e desenvolvendo para a própria Rússia os sistemas S-500, capazes de interceptar alvos supersônicos, tudo aponta para revide-contragolpe ultrahigh-tech. E a OTAN sabe disso.

Essa florescente integração militar da Eurásia é subtrama chave do Novo Grande Jogo que corre paralelo ao projeto conduzido pela China, de Nova(s) Rota(s) da Seda.

E vai acontecer, porque é contragolpe-resposta à invasão; afinal, Pequim está em oposição aos EUA que invade a China via o Pacífico Asiático; a Rússia está sendo invadida via a Europa Ocidental; e o Irã, via o Sudoeste Asiático.

Washington também poderia tentar invadir via Ásia Central se tivesse os meios (mas não tem, especialmente agora, com as Novas Rotas da Seda que riscarão a Ásia Central em várias direções).

A geopolítica eurasiana depende do que acontece agora com o Irã. Algumas seletas facções em Washington cultivam o mito de que Teerã pode “entregar os pontos” aos EUA – fazendo ruir as suas complexas relações estratégicas Rússia/China – a favor de expandir o alcance dos EUA no Cáucaso e Ásia Central.

O Supremo Líder e o presidente Rouhani já disseram, com todas as letras, que não acontecerá. Eles sabem que a tentativa de Washington para seduzir o Irã para bem longe da Rússia e convertê-lo em estado-cliente não implica que Washington venha a aceitar algum dia uma esfera expandida de influência iraniana no Sudoeste Asiático e adiante.

Nessas condições, a aliança estratégica de múltiplos vetores Rússia-China-Irã é a pedida. Porque, aconteça o que acontecer com as negociações nucleares no próximo verão, e por mais que Teerã deseje cooperação, não confrontação, o Irã está destinado a permanecer – com a Rússia – como alvo geoestratégico chave dos EUA.

Aquela estrada longa e sinuosa

E isso nos traz – inevitavelmente – à Guerra Global ao Terror (GGaT) [GWOT (Global War on Terror)].

O Pentágono e farto sortimento de neoconservadores norte-americanos permanecem profundamente mergulhados em sua estratégia de promover ativamente qualquer cisão sunitas-xiitas, tipo Dividir para Governar, com o objetivo chave de demonizar o Irã. O Iêmen aí está, como mais uma ilustração macabra e exemplo disso. 

Os tolos acreditam...
Só tolos acreditariam que os houthis no Iêmen poderiam safar-se com seu crescente jogo de poder bem diante de uma base militar dos EUA infestada de drones da CIA, em Djibouti.

Outra vez, é procedimento do manual de Dividir para Governar. Washington nada fez, absolutamente nada, para “proteger” o regime iemenita seu vassalo contra uma ofensiva dos houthis, mas imediatamente depois proveu toda a necessária “liderança pela retaguarda” suficiente para que a Casa de Saud enlouquecesse totalmente e se pusesse a matar pilhas de civis – tudo em nome de combater “a expansão iraniana”. A imprensa-empresa norte-americana, como se podia prever, adorou.

Nada de novo sob o sol. O que se vê hoje já foi exposto em 2008, no relatório Unfolding the Future of the Long War [Desdobrando o futuro da Guerra Longa] da RAND Corporation.

Sim, é a boa velha Guerra Longa do Pentágono, como se processa contra inimigos, inventados ou o que sejam, por todo o “mundo muçulmano”.

O que a RAND Corporation receitava já é hoje a nova normalidade. Washington apoia a gangue do petrodólar do Conselho de Cooperação do Golfo aconteça o que acontecer, sempre com a meta de conter “o poder e a influência do Irã”; desvia recursos humanos salafistas-jihadistas para “atacarem interesses do Irã em todo o Oriente Médio”, especialmente no Iraque e no Líbano, “reduzindo... operações antiocidente”; promove patrocinadores da al-Qaeda – e do ISIS/ISIL/Daesh – no CCG; e “empodera” islamistas antixiitas viciosos por todos os cantos, para manter a “dominação ocidental”.

A Guerra Longa foi formulada pela primeira vez na era do “eixo do mal” pelo Highlands Forum, think-tank do Pentágono, relativamente obscuro e infestado de neoconservadores. Não por acaso, a RAND Corporation é “grande parceira”.

Tudo fica ainda mais sumarento quando se pensa que notórios militantes praticantes da Guerra Longa, como o atual supremo do Pentágono, “Ash” Carter; seu vice, Robert Work; e o chefe da inteligência do Pentágono, Mike Vickers, estão hoje encarregados da estratégia militar do governo Obama, batizada pelo próprio presidente como “Não Faça Merda Coisa Estúpida”.

O que o Pentágono – tomado pela húbris de sempre – não vê é que Moscou e Teerã identificaram facilmente a jogada toda; a agenda oculta dos EUA de manipular um Irã “reabilitado” para vender muito petróleo e gás à União Europeia, e, assim, roubar mercados da Gazprom.

Estátua da Liberdade em Liberty Island (NY)
Tecnicamente, demoraria muitos anos para acontecer, supondo que algum dia acontecesse. Geopoliticamente é delírio cachimbado. Podem chamar, de fato, de delírio cachimbado duplo.

Dado que Washington jamais “securitizará” o Oriente Médio com o Irã como estado vassalo, com o que viabilizaria a transferência de ativos militares chaves dos EUA para a OTAN, capacitando-a a enfrentar a “ameaça russa”, podem todos esquecer o sonho de ver a Rússia de volta aos anos 1990s do capitalismo de desastre, quando o complexo militar industrial entrou em colapso e ocidente pôde saquear à vontade recursos naturais russos. 

Conclusão: o Pentágono ladra, e a caravana estratégica Rússia/China/Irã passa.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

Obama & o seu Tratado Trans-Pacífico (TPP) [Conclusão]: “Quem pratica o mal odeia a luz e dela não se aproxima”

25/4/2015, [*] William K. Black, Blog New Economic Perspectives (em Quito)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Leia antes:


Leia também:

Gráfico elaborado por Vidhya Nagarajan para o Investigative Fund at The Nation Institute 
(clique na imagem duas vezes para aumentar)
Os Cães Raivosos de Mankiw: os economistas que destroçaram a economia e a democracia dos EUA.

O fato de que especialistas estejam proibidos de examinar os textos do projeto do Tratado Trans-Pacífico (TTP) de Obama significa que, quando os economistas fracassados que urdiram e continuam a urdir as crises financeiras que recorrentemente e cada vez mais intensamente se abatem sobre os EUA assinam manifestos em que expressam total apoio ao TTP nos termos em que está redigido hoje – eles absolutamente não sabem do que estão falando.

N. Gregory Mankiw (tema do segundo artigo dessa série sobre o TTP de Obama) escreveu no New York Times que economistas concordam quanto à desirabilidade do TTP, e cita uma “Carta Aberta” ao Congresso, datada de 5/3/2015, que ele próprio assinou, com outros ex-presidentes do Grupo de Conselheiros Econômicos. A lista dos signatários inclui todos os nomes dos principais arquitetos da crise financeira e da Grande Recessão, como Mankiw, Alan Greenspan e Ben Bernanke. Daí que, automaticamente, a coisa toda nos encha de choque e pavor.

A presteza com que os Cães Raivosos de Mankiw oferecem apoio incondicional a um tratado redigido, na substância, por lobbyistas de altos executivos de grandes conglomerados – sem sequer terem revisado o texto do tratado – demonstra que nenhum deles insiste sequer em fingir qualquer honestidade intelectual.

TPP - países envolvidos na tramóia
A essa altura, o leitor deve estar-se perguntando por que acho correto eu criticar um tratado que nunca li, mas acho errado que os Cães Raivosos de Mankiw façam-se de animadoras de torcida a favor de um tratado que eles também nunca leram. A resposta é que não são posições comparáveis, por seis razões:

Primeiro, critico o tratado por ter sido redigido em segredo e escondido de especialistas independentes e da opinião pública.

Segundo, já vazaram vários pedaços de rascunhos do TPP e vê-se a partir deles, bem claramente, que o TTP é território perigosamente minado, cheio de Ovos de Páscoa podres lá ocultados pelos lobbyistas dos altos executivos dos grandes conglomerados.

Terceiro, a teoria econômica ensina, sem ambiguidade possível, que, se você manda lobbyistas dos altos executivos dos grandes conglomerados redigirem a base de qualquer tratado comercial, o resultado inevitável é um Tratado de Comércio Falso-livre, nunca algum Tratado de Livre Comércio. Os Cães Raivosos de Mankiw tomam por premissa para apoiarem o TTP um pressuposto – que se sabe, pela teoria, pela experiência e por trechos vazados de rascunhos do TTP, que é pressuposto falso – de que esse TPP de Obama criaria algum livre comércio.

Quarto, temos séculos de experiência que nos ensinam, sem qualquer discrepância, que, se lobbyistas de altos executivos de grandes conglomerados redigem tratados comerciais, o resultado é sempre tratado de comércio falso-livre, e, portanto, é Falso Tratado Comercial.

Quinto, até os propositores do TTP de Obama admitem que as regras pelas quais operarão os tribunais precários [1] inventados para aplicar as multas gigantescas que os lobbyistas inventaram, são regras que visam a destruir qualquer regulação efetiva. (Os Cães Raivosos de Mankiw dedicam-se incansavelmente a não dizer que há aí assalto furioso contra a soberania dos EUA e nossa capacidade para adotar regras imprescindíveis para impedirmos os chamados ‘‘crimes corporativos’’ ou ‘‘crimes de colarinho branco’’).

Sexto, os Cães Raivosos de Mankiw não podem assumir a posição de que, depois que souberem dos Ovos de Páscoa podres inseridos no rascunho do projeto pelos lobbyistas dos altos executivos dos grandes conglomerados comerciais... os Cães Raivosos de Mankiw, então, apoiarão a remoção daqueles dispositivos pró-roubo.

TPP: o sujo segredinho de Obama
A carta aberta que publicaram apoia explicitamente (embora só faça referência, eufemisticamente, a uma “autoridade para promoção do comércio”) a “tramitação em regime de urgência” para o TTP de Obama, para assim roubar do Congresso seus poderes constitucionais para introduzir emendas no projeto e, assim, excluir da lei aqueles dispositivos pró-roubo que interessam só aos altos executivos dos grandes conglomerados comerciais.
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Nota dos tradutores
[1] O autor refere-se ao mecanismo para “Arbitragem para Resolução de Disputas Investidor-Estado” (ARDIE), em inglês Investor-State Dispute Settlement, ISDS, que o Tratado Trans-Pacífico cria. Sobre isso ver “O que quer Obama com seus tratados TPP & TTIP?”, 26/4/2015, Eric Zuesse, traduzido no blog redecastorphoto.
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[*] William K. Black, JD, Ph.D. é professor associado de Direito e Economia na University of Missouri-Kansas City.Foi diretor-executivo do Institute for Fraud Prevention de 2005 até 2007. Lecionou na LBJSchool of Public Affairs na University of Texas, na Austin University em na Santa Clara University, onde ele também foi o graduado em residência de Direito em Seguross e professor visitante no Markkula Center for Applied Ethics.
Professor Black foi Diretor de Contencioso do Federal Home Loan Bank Board, Vice-Diretor do FSLIC, Vice-Presidente Sênior e Conselheiro Geral do Federal Home Loan Bank of San Francisco e Sub–Chefe Sênior do Conselho do Office of Thrift Supervision. Foi Diretor encarregado da National Commission on Financial Institution Reform, Recovery and Enforcement.
Seu livro, The Best Way to Rob a Bank is to Own One (University of Texas Press 2005) é considerado “um clássico” da literatura financeira. Black colaborou recentemente com o Banco Mundial no desenvolvimento de sistemas de combate à corrupção e prestou serviços de perícia para OFHEO em sua ação de execução contra o ex-administração da Fannie Mae.
Atualmente ensina sobre combate aos crimes de colarinho branco, finanças públicas, leis antitruste, direito, economia e desenvolvimento na América Latina..
É frequentemente convidado, como especialista, pelas mídias nacionais e internacionais (rádios, TVs e jornais).

domingo, 3 de maio de 2015

Primeiro mês de guerra no Iêmen

28/4/2015, [*] Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Iemenitas buscam sobreviventes nos escombros dos bombardeios sauditas
A guerra no Iêmen começou há um mês. O conflito muito provavelmente avançará para outros pontos no Oriente Médio. O confronto entre Arábia Saudita e Irã aprofunda-se. Apoiadores do Estado Islâmico criaram novo grupo chamado Soldados do Califado no Iêmen. O movimento de xiitas Ansarallah (que os sauditas chamam de “os houthis”) prepara-se para atacar a Arábia Saudita, em retaliação pela guerra contra o Iêmen.

Teerã compreende que os EUA puseram-se por trás da Arábia Saudita, incitando os sauditas a iniciarem a guerra. O Irã não cederá. No momento, Teerã está tomando como seu principal objetivo o fim do bloqueio do Iêmen, por mar e ar. O Ministério de Relações Exteriores do Irã convocou o chargé d’affaires saudita para oficializar o protesto de Teerã contra a interceptação de aviões iranianos, por aviões sauditas, no espaço aéreo do Iêmen, inclusive de um avião que levava ajuda humanitária a iemenitas feridos em guerra. Os diplomatas iranianos lembraram ao chargé d’affaires saudita que os voos iranianos para o Iêmen tinham todas as permissões necessárias para voar pela rota Omã-Iêmen e a ação era coordenada com as organizações humanitárias Cruz Vermelha e Crescente Vermelho.

Alto funcionário iraniano diz que o bloqueio saudita contra o Iêmen e a ação de impedir a entrega de ajuda humanitária que a República Islâmica enviava ao país devastado pela guerra não ficarão sem resposta.

Estamos considerando todas as opções para manter a ajuda ao povo do Iêmen, com entrega imediata de ajuda humanitária e transferência dos feridos, disse o Vice-Ministro iraniano de Relações Exteriores para Assuntos Árabes e Africanos, Hossein Amir-Abdollahian, dia 26/4/2015.

As observações de Amir-Abdollahian vieram depois que jatos sauditas interceptaram um avião iraniano que levava ajuda humanitária ao Iêmen e impediram que entrasse no espaço aéreo do Iêmen na 5ª-feira, dia 23/4/2015. Agora o Irã pode decidir que seus aviões de carga voarão com escoltas. E a medida pode rapidamente levar a confronto direto com os aviões sauditas.

O Irã ainda tem navios no Golfo de Aden. A 34ª flotilha (o destroier Alborz e o porta-helicópteros de combate Bushehr) substituiu a 33ª flotilha que permaneceu na região por 77 dias. O comandante da Marinha do Irã, almirante Habibollah Sayyari, disse que entre seus objetivos estão ações de combate à pirataria e para garantir a segurança de naves iranianas em alto mar.

Os navios iranianos Alborz e Bushehr navegam no Golfo de Aden em 26/4/2015
Um oficial saudita alertou os navios de guerra iranianos enviados para o Estreito de Bab El-Mandeb e o Golfo de Aden para que não entrem em águas do Iêmen.

Os navios iranianos têm direito de permanecer em águas internacionais, mas não serão autorizados a entrar em águas territoriais do Iêmen, disse o porta-voz das forças da coalizão anti-houthis liderada pelos sauditas, brigadeiro-general Ahmed Asiri, a jornalistas, em Riad.

O presidente do Irã, Hasan Rouhani criticou duramente a agressão saudita contra o Iêmen, destacando que Riad partiu para o ataque, porque não conseguiu realizar nenhum dos seus desejos para a região.

Destruir a infraestrutura de país empobrecido e matar crianças, mulheres e homens não faz sentido algum. Só demonstra que um país está totalmente desequilibrado. Não há outras interpretações possíveis – disse o presidente do Irã.

O Irã mantém navios na região desde 2008, em ação que está em perfeito acordo com a Resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A Guerra no Iêmen já provocou aumento na disseminação do extremismo na região. O movimento dos jihadistas está em ascensão. Uma nova divisão do grupo Estado Islâmico recém anunciada, autodesignada como “Brigada Verde”, atacou os houthis. Apoiadores do Estado Islâmico intensificaram atividades em outros países do Oriente Médio.

A liderança do HAMAS declarou-se preocupada com o surgimento de grupos jihadistas em Gaza. O Estado Islâmico deseja ampliar sua presença naquela região. Cairo já estendeu o estado de emergência pela Península do Sinai, onde islamistas continuam a confrontar as forças do governo. 

O Estado Islâmico aproveita-se, para expandir-se no momento em que a agressão contra o Iêmen desestabilizou gravemente todo o Oriente Médio. É informação relevante para a Arábia Saudita. A ameaça terrorista tornou-se aguda. Pela primeira vez os terroristas ameaçam diretamente a própria existência da família real. Dia 21/4/2015 o Ministro saudita do Interior informou pelo seu website que forças de segurança estavam em alerta, depois de informes sobre ameaças a instalações de petróleo e shopping malls por todo o reino. O estado de emergência já foi declarado em várias áreas no sul do país.

Sauditas informaram deter 93 terroristas do ISIS
No fim de semana passado, policiais foram mortos em ataque do Estado Islâmico. As forças de segurança sauditas impediram um ataque terrorista que estava sendo preparado por afiliados do Estado Islâmico, informou um porta-voz do Ministério do Interior. A “operação terrorista” incluiria sete carros-bombas que explodiriam em diferentes pontos do reino; e Riad também anunciou que um dos suspeitos presos confessou ter matado dois oficiais de polícia num ponto de controle na capital saudita no início do mês corrente.

Grupos islamistas na Líbia, Argélia, Egito, Uzbequistão e Nigéria (o Boko Haram) puseram-se sob o comando do Estado Islâmico. O próximo país alvo é a Arábia Saudita. O Grande Muftida Arábia Saudita, Abdul-Aziz ibn Abdullah Al Shaykh, disse que os militantes do Estado Islâmico são os inimigos do Islã. E que Riad continua a combater contra os houthis no Iêmen.

Os rebeldes xiitas houthis no Iêmen ameaçaram atacar a Arábia Saudita se não forem suspensos os bombardeios no Iêmen. O grupo zaidista fez chegar a ameaça a Riad e exigiu que o diálogo político intermediado pela ONU seja retomado no Iêmen.

Os houthis “atacarão militarmente a Arábia Saudita, se não pararem os ataques aéreos contra o Iêmen” – disse Mohammed Bahiti, membro do movimento Ansarallah, ao canal de TV Al-Mayadeen. Bahiti destacou que os rebeldes houthis “não carecem de mísseis” para fazer o que dizem que farão, referência aos depósitos militares iemenitas destruídos nos ataques aéreos. Ele também rejeitou comentários de que a Operação Tempestade Decisiva, liderada pela Arábia Saudita, conseguira destruir as capacidades militares dos rebeldes houthis.

A Arábia Saudita é vulnerável à desestabilização das áreas habitadas pelos xiitas. Teerã diz que a luta interna entre os príncipes sauditas recomeçou e escalou. A crise interna interessa, sobretudo, aos interessados em derrubar o rei Salman.

A Arábia Saudita jamais conseguirá derrotar os houthis se não tiver coturnos em solo. Os aliados dos sauditas não dão sinal de qualquer disposição para oferecer tropas de chão à guerra dos sauditas no Iêmen. Qatar, Bahrain, os Emirados Árabes Unidos não têm capacidade para sustentar guerra de solo em grande escala. Não bastariam dois, três batalhões.

Estreito de Bab El-Mandeb e o Golfo de Aden
Esse primeiro mês de guerra no Iêmen mostrou que esses estados não têm qualquer desejo de envolver-se mais profundamente no conflito iemenita sob a bandeira do Reino Saudita. Egito, Turquia e Paquistão continuam a observar a situação, que vai degenerando. Não têm pressa alguma para iniciar confronto direto com o Irã. 

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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture,Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Merkel irracional?


Para prolongar a própria sobrevivência política,
elites alemãs podem deixar desabar o euro


30/4/2015, [*] Catarina Príncipe, Jacobin Magazine
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras e Angela Merkel (março-2015)
Depois do acordo dentro do Eurogrupo em fevereiro/2015, a posição da Alemanha quanto às condições às quais a Grécia teria de se submeter pareceram relaxar.

As condições iniciais eram basicamente idênticas às acertadas com o governo grego que foi substituído nas urnas pelo governo Tsipras: arrocho nas pensões, privatizações, aumento de impostos sobre artigos de primeira necessidade e desregulação continuada do mercado de trabalho.

Mas, durante as negociações, a Alemanha parecia ter retrocedido nas exigências e aceito um acordo melhor (embora não perfeito) para a Grécia, pelo qual as aposentadorias não seriam reduzidas, o salário mínimo poderia ser aumentado, privatizações seriam reavaliadas e aparentemente não haveria aumento de impostos – ficando outras medidas (como a estrutura do mercado de trabalho) permanecendo sem alteração, consideradas questões de decisão e soberania nacionais.

Mas, agora que junho se aproxima perigosamente (em junho expira o acordo ainda vigente com o Eurogrupo e é preciso definir um novo plano de resgate), a chanceler alemã Angela Merkel mudou repentinamente de atitude [Financial Times, só para assinantes]. Os quatro pilares do acordo com o ex-governo grego terão de ser preservados, e a Alemanha não fará concessões. Esgotou-se o prazo, e acabou o dinheiro.

Sabendo perfeitamente bem que o estado grego está ficando sem dinheiro – e que a dívida, exacerbada pelo arrocho [orig. “austerity”] é impagável – a Alemanha outra vez está forçando o governo grego a escolher entre aceitar a continuação do arrocho ou a bancarrota.

A arquitetura da Eurozona favorece a Alemanha porque a posiciona – primariamente mediante a introdução do euro, que desvalorizou o marco alemão na comparação com todas as demais moedas nacionais – para exportar bens manufaturados baratos para as principais economias periféricas. Considerada sob essa luz, a intransigente posição do governo alemão em relação à Grécia, e a aparente equanimidade em relação a uma possível saída da Grécia (“Grexit”) da Eurozona, com colapso da união monetária como a conhecemos, parece bastante ilógica. Mas será realmente ilógica?

Verdade é que nada há de ilógico, de irracional, na posição da Alemanha. A posição inflexível nesse caso é a única que pode salvar as elites políticas alemãs e levar ao colapso o único governo antiarrocho [anti-“austeridade”] que teve a coragem de tentar alterar os fundamentos sobre os quais foi erigido o projeto europeu.


Desde o início da crise, a posição da Alemanha tem sido de defender o arrocho como única saída possível para a crise. Implica “sacrifícios” para todos na Europa: não só para as populações do sul da Europa que têm bombas liberais explodindo em seus quintais, mas, também para os trabalhadores alemães, que passam hoje por forte desregulação do mercado de trabalho, precarização (“flexibilização”) das relações de trabalho e perda de poder aquisitivo.

O conto ideológico vendido aos trabalhadores alemães dizia que o projeto europeu entraria em colapso se “resgatassem” os europeus do sul, cujo castigo fora autoprovocado com excesso de gastos e baixa produtividade. Mas não demorou e se tornou bem evidente que “austeridade” (é arrocho) não resolve nenhum problema econômico e financeiro – que na verdade os aprofunda muito (a proporção entre dívida e PIB cresceu em todos os países que tentaram o “remédio” do arrocho (que só banqueiros ainda chamam de “austeridade”).

Quando o Syriza chegou ao poder na Grécia, passou a haver, afinal, uma voz dentro das instituições europeias que podia provar o fracasso das políticas de arrocho e eventualmente desafiar a super-neoliberalização da Europa.

Mas para a Alemanha, aceitar as demandas do Syriza seria reconhecer que o arrocho [“austerity”] nunca foi nem poderia ter sido solução, que sempre foi um problema a mais – que a agenda política e econômica da Alemanha sempre estivera errada ao longo dos últimos sete anos, e absolutamente não gerou os resultados que prometera. Mais que isso, seria como reconhecer que os sacrifícios impostos à classe trabalhadora alemã foram de fato em vão, e só serviram para empurrar o poder para ainda mais longe do trabalho e para ainda mais perto do capital.

Implica dizer que as elites alemãs estão dispostas a deixar que o euro desapareça (ou que seja convertido em alguma outra coisa, moeda exclusiva do centro e do norte da Europa, por exemplo), em nome de garantir sobrevida política para aquelas mesmas elites.


Nada há de irracional ou ilógico tampouco no modo como estão jogando o jogo “das culpas”. Se a Alemanha empurrar a Grécia para a bancarrota (que fatalmente acontecerá, mais cedo ou mais tarde), criará um efeito dominó que desestabilizará a economia europeia por algum tempo. A culpa de tudo será então atribuída ao “intransigente” governo grego, que se recusou a negociar e a aceitar a “ajuda” que a Alemanha tanto lhe quis dar.

Além do mais, as tensões políticas estão-se polarizando na Europa. Os anos recentes têm visto o crescimento simultâneo de

(I) partidos e movimentos de extrema direita – Aurora Dourada, na Grécia; Frente Nacional na França; Pegida na Alemanha – e de

(II) formações de esquerda contra as políticas de arrocho.

Aceitar que um governo eleito de esquerda tem razão e que a “austeridade” (é arrocho) jamais foi solução abriria ainda mais espaço político para movimentos de esquerda por toda a Europa. Qualquer passo, por pequeno que seja, que signifique recuo na narrativa pró-“austeridade” enfraqueceria para sempre a posição das elites políticas alemãs que estão hoje no poder. Pode até implicar o sacrifício de tudo que aquelas elites já obtiveram.

É importante considerar, sobretudo, que a Alemanha já vinha expandindo há algum tempo suas parcerias comerciais (provavelmente se preparando para a situação política que agora começa a acontecer na Eurozona), especialmente com a China. Mesmo que a economia alemã venha a sofrer se a Grécia deixar a Zona do Euro e com o fim efetivo da união econômica e monetária, as elites alemãs já construíram as bases para sua recuperação econômica em prazo médio.

Mas há mais uma camada na intransigência do governo alemão: eles sabem que o perigo de entrar em bancarrota e a incapacidade do governo grego de esquerda para cumprir seu programa eleitoral pode derrubar o governo do Syriza, como pode destruir também quaisquer possíveis outras propostas de governos de esquerda em toda a Europa.



Obrigar o governo grego a ultrapassar as linhas vermelhas que ele mesmo impusera nas negociações (que aposentadorias, salários, impostos, privatizações e desregulação do mercado de trabalho seriam inegociáveis), para evitar o colapso econômico, engendrará profundo descontentamento e forte oposição dentro da Grécia e dentro da própria coalizão do partido Syriza. A tática da Alemanha, nesse sentido, é tentar demolir de dentro para fora, uma proposta de governo de esquerda.

Se há saída para todas essas dificuldades, só virá com muita luta popular. Nada, senão muita luta popular, capacitará o Syriza a levar adiante seu programa eleitoral e a pôr fim à crise humanitária que assola a Grécia. Qualquer caminho que o governo grego tome, terá de responder às demandas por dignidade, justiça e melhor democracia em nome das quais o povo grego o elegeu. Em defesa do futuro e dos interesses do povo grego. E em defesa dos interesses de todos nós.
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[*] Catarina Príncipe (29 anos) é estudante universitária; Coordenadora Nacional dos Jovens Estudantes (Bloco de Esquerda – Portugal); Cidadã ativista e “artivista” em várias frentes. Estudou teatro no Porto. Partiu para Lisboa, onde agora estuda Artes e Culturas Comparadas. Estudos de gênero é a sua área de interesse. Sobretudo Artes e deve concluir seus estudos em poucos meses.