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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pepe Escobar: “Guerra Longa” do Pentágono põe a OTAN contra China, Rússia e Irã

29/4/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Composição estilizada da Estátua da Liberdade, pintada no muro da ex-embaixada dos EUA em Teerã”
Por mais que o presidente Obama dos EUA tente desmentir, a venda pelos russos ao Irã, do sistema S-300 de mísseis, é fator que provoca mudança monumental no jogo. Mesmo com o gambito acrescentado, de os militares iranianos garantirem que o sistema Bavar 373 de fabricação iraniana é ainda mais eficiente que o S-300.

Isso explica por que a revista Jane’s Defense Weekly já dizia, há anos, que Israel não conseguiria penetrar no espaço aéreo iraniano ainda que conseguisse chegar lá perto. E depois do S-300s serão inevitavelmente oferecidos ao Irã os ainda mais sofisticados S-400s, que devem também ser entregues à China.

O segredo não dito que há por trás de todos esses procedimentos que alteram o jogo conhecido realmente apavora os doidos-por-guerra em Washington; tem a ver com avanços em mais uma linha de frente da integração da Eurásia, sob o formato de um escudo eurasiano de mísseis, instalado contra os planos balísticos do Pentágono/OTAN.

Uma primeira visão do que há à frente, apareceu na Conferência de Segurança Internacional de Moscou [Moscou Conference on International Security, MICS) em meados de abril/2015.

Ali se viu o Ministro de Defesa do Irã, brigadeiro-general Hussein Dehghan, dizendo abertamente que o Irã quer que os países BRICS China, Índia e Rússia unam-se na oposição à expansão descontrolada da OTAN para o oriente, e definindo o escudo de mísseis da OTAN – que nem se pode chamar de “escudo”, porque só tem objetivos ofensivos – como ameaça à segurança coletiva de todos esses países.

Viram-se também o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu e o Ministro de Defesa da China, Chang Wanquan, enfatizando que os laços militares entre eles todos são “prioridade maximamente superior”; e mais, também Teerã e Moscou reforçando que estão estrategicamente em sintonia em seu impulso adiante rumo a uma nova ordem multipolar.

Rasgando a Nova Cortina de Ferro

A aventura de Washington na Praça Maidan não levou só à cristalização de uma nova Cortina de Ferro instalada dos Bálticos ao Mar Negro. Até aí é o jogo visível da OTAN. O que não é visível é que a cortina está sendo erguida não só contra a Rússia, mas, também, contra o Irã e a China.

O campo de batalha está agora bem demarcado entre OTAN e  Rússia/China/Irã. Portanto, não surpreende que esses três estejam em processo de aproximação entre eles. O Irã participa como observador do Tratado da Organização para Segurança Coletiva, TOSC (CSTO, Collective Security Treaty Organization) e está em processo para tornar-se membro da Organização de Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization) já em 2016.

Hassan Rouhani, Presidente do Irã
A Rússia fornece sistemas S-300 ao Irã; sistemas S-400 à China (com novos mísseis, teleguiados, de mais longo alcance); e desenvolvendo para a própria Rússia os sistemas S-500, capazes de interceptar alvos supersônicos, tudo aponta para revide-contragolpe ultrahigh-tech. E a OTAN sabe disso.

Essa florescente integração militar da Eurásia é subtrama chave do Novo Grande Jogo que corre paralelo ao projeto conduzido pela China, de Nova(s) Rota(s) da Seda.

E vai acontecer, porque é contragolpe-resposta à invasão; afinal, Pequim está em oposição aos EUA que invade a China via o Pacífico Asiático; a Rússia está sendo invadida via a Europa Ocidental; e o Irã, via o Sudoeste Asiático.

Washington também poderia tentar invadir via Ásia Central se tivesse os meios (mas não tem, especialmente agora, com as Novas Rotas da Seda que riscarão a Ásia Central em várias direções).

A geopolítica eurasiana depende do que acontece agora com o Irã. Algumas seletas facções em Washington cultivam o mito de que Teerã pode “entregar os pontos” aos EUA – fazendo ruir as suas complexas relações estratégicas Rússia/China – a favor de expandir o alcance dos EUA no Cáucaso e Ásia Central.

O Supremo Líder e o presidente Rouhani já disseram, com todas as letras, que não acontecerá. Eles sabem que a tentativa de Washington para seduzir o Irã para bem longe da Rússia e convertê-lo em estado-cliente não implica que Washington venha a aceitar algum dia uma esfera expandida de influência iraniana no Sudoeste Asiático e adiante.

Nessas condições, a aliança estratégica de múltiplos vetores Rússia-China-Irã é a pedida. Porque, aconteça o que acontecer com as negociações nucleares no próximo verão, e por mais que Teerã deseje cooperação, não confrontação, o Irã está destinado a permanecer – com a Rússia – como alvo geoestratégico chave dos EUA.

Aquela estrada longa e sinuosa

E isso nos traz – inevitavelmente – à Guerra Global ao Terror (GGaT) [GWOT (Global War on Terror)].

O Pentágono e farto sortimento de neoconservadores norte-americanos permanecem profundamente mergulhados em sua estratégia de promover ativamente qualquer cisão sunitas-xiitas, tipo Dividir para Governar, com o objetivo chave de demonizar o Irã. O Iêmen aí está, como mais uma ilustração macabra e exemplo disso. 

Os tolos acreditam...
Só tolos acreditariam que os houthis no Iêmen poderiam safar-se com seu crescente jogo de poder bem diante de uma base militar dos EUA infestada de drones da CIA, em Djibouti.

Outra vez, é procedimento do manual de Dividir para Governar. Washington nada fez, absolutamente nada, para “proteger” o regime iemenita seu vassalo contra uma ofensiva dos houthis, mas imediatamente depois proveu toda a necessária “liderança pela retaguarda” suficiente para que a Casa de Saud enlouquecesse totalmente e se pusesse a matar pilhas de civis – tudo em nome de combater “a expansão iraniana”. A imprensa-empresa norte-americana, como se podia prever, adorou.

Nada de novo sob o sol. O que se vê hoje já foi exposto em 2008, no relatório Unfolding the Future of the Long War [Desdobrando o futuro da Guerra Longa] da RAND Corporation.

Sim, é a boa velha Guerra Longa do Pentágono, como se processa contra inimigos, inventados ou o que sejam, por todo o “mundo muçulmano”.

O que a RAND Corporation receitava já é hoje a nova normalidade. Washington apoia a gangue do petrodólar do Conselho de Cooperação do Golfo aconteça o que acontecer, sempre com a meta de conter “o poder e a influência do Irã”; desvia recursos humanos salafistas-jihadistas para “atacarem interesses do Irã em todo o Oriente Médio”, especialmente no Iraque e no Líbano, “reduzindo... operações antiocidente”; promove patrocinadores da al-Qaeda – e do ISIS/ISIL/Daesh – no CCG; e “empodera” islamistas antixiitas viciosos por todos os cantos, para manter a “dominação ocidental”.

A Guerra Longa foi formulada pela primeira vez na era do “eixo do mal” pelo Highlands Forum, think-tank do Pentágono, relativamente obscuro e infestado de neoconservadores. Não por acaso, a RAND Corporation é “grande parceira”.

Tudo fica ainda mais sumarento quando se pensa que notórios militantes praticantes da Guerra Longa, como o atual supremo do Pentágono, “Ash” Carter; seu vice, Robert Work; e o chefe da inteligência do Pentágono, Mike Vickers, estão hoje encarregados da estratégia militar do governo Obama, batizada pelo próprio presidente como “Não Faça Merda Coisa Estúpida”.

O que o Pentágono – tomado pela húbris de sempre – não vê é que Moscou e Teerã identificaram facilmente a jogada toda; a agenda oculta dos EUA de manipular um Irã “reabilitado” para vender muito petróleo e gás à União Europeia, e, assim, roubar mercados da Gazprom.

Estátua da Liberdade em Liberty Island (NY)
Tecnicamente, demoraria muitos anos para acontecer, supondo que algum dia acontecesse. Geopoliticamente é delírio cachimbado. Podem chamar, de fato, de delírio cachimbado duplo.

Dado que Washington jamais “securitizará” o Oriente Médio com o Irã como estado vassalo, com o que viabilizaria a transferência de ativos militares chaves dos EUA para a OTAN, capacitando-a a enfrentar a “ameaça russa”, podem todos esquecer o sonho de ver a Rússia de volta aos anos 1990s do capitalismo de desastre, quando o complexo militar industrial entrou em colapso e ocidente pôde saquear à vontade recursos naturais russos. 

Conclusão: o Pentágono ladra, e a caravana estratégica Rússia/China/Irã passa.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 27 de setembro de 2014

Iraque: Relatório de situação (SITREP): O inimigo do meu inimigo

26/9/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker


NB: Esses Relatórios de Situação que o Saker permite que postemos aqui passarão a aparecer duas vezes por semana. Eventos significativos serão postados; os recorrentes − como repetidas tentativas fracassadas para retomar uma cidade, como Tikrit, pelo exército do Iraque − serão evitados; a menos que hajam outras repercussões de um ou outro evento recorrente. Número de mortos é informação sempre deprimente para ser repetida e repetida; e outras fontes sempre distribuirão listas diárias de mais e mais mortos do Iraque.

O Saker foi muito generoso por permitir esses nossos Relatórios de Situação, desde o início. Sou muito grato aos esforços dele, ao seu comprometimento e ao seu empenho.

Como sempre, ofereço aqui compilações de matérias jornalísticas de MSM e não MSM. Todos podem questionar opinião que eu expresse, e, em alguns casos “Takfiri” extremos, podem também questionar minha fé.


Sistema de mísseis S-300 
(clique na imagem para aumentar)
30/8/2014: Os iranianos dizem que está havendo progressos no desenvolvimento de uma alternativa nativa ao S300:

17/9/2014: As práticas islâmicas do ISIS/ISIL/EI: Quatro meninas iazidi foram transferidas para o Hospital Mosul, com sangramento uterino severo. Soube-se que foram submetidas a assalto sexual repetido por “valentes” terroristas ISIS/ISIL/EI.

18/9/2014: Haja sangue. Veículos do ISIS/ISIL/EI percorrem as ruas de Mosul pedindo doações de sangue, agora que aumentam as baixas do ISIS/ISIL/EI.

20/9/2014: o ISIS/ISIL/EI libertou 49 reféns turcos, inclusive o cônsul-geral da Turquia no Iraque. Mas a Turquia recusa-se a participar da “coalizão” de ataques aéreos contra oISIS/ISIL/EI.

21/9/2014: Mais de 10 mil curdos fugiram de massacre pelo ISIS/ISIL/EI no nordeste da Síria, com a cidade curda de Kobane já sob ataque. Os refugiados tomaram o rumo norte, na direção da Turquia.

22/9/2014: Os EUA e sua “coalizão” dos dispostos/desejantes (o Conselho de Cooperação do Golfo, exceto Kuwait e Omã; e a Jordânia, não CCG, um total de 30 países) começaram a bombardear alvos do ISIS/ISIL/EI na Síria. O governo do presidente Bashar al-Assad teria sido alertado, e um deputado iraniano disse que o Irã também foi informado sobre os ataques aéreos contra o ISIS/ISIL/EI.

Aviões dos EUA também atacaram posições da Frente al-Nusra e de um grupo terrorista chamado “Corassão”.

Autoridades dos EUA informam que uma mulher estará pilotando um dos jatos dos Emirados Árabes Unidos, “nos ataques contra ISIS/ISIL/EI” [“notícia” que foi considerada tãããão importante que foi republicada no Brasil, em toooodos os ‘'jornais'’ (só rindo!) [1]].

A Bélgica e a Holanda enviam seus F16 de combate; mas a Bélgica pede aos seus soldados que não usem uniformes belgas em ação no Oriente Médio, de medo de ataques de retaliação.

Samira Salih al-Nuaimi
22/9/2014: ISIS/ISIL/EI julga e executa Samira Salih al-Nuaimi, advogada e ativista de direitos humanos, por crimes de Apostasia, porque criticou a destruição de santuários e mesquitas, pelo ISIS/ISIL/EI, em Mosul. O cadáver guardava marcas de tortura.

23/9/2014: Brigadeiro-general Ahmad Reza Bordstan, das Forças Terrestres Iranianas esclarece que o Irã lançará ataque muito mais penetrante contra posições do ISIS/ISIL/EI, em resposta a qualquer ataque contra a fronteira Irã-Iraque.

24/9/2014: ISIS/ISIL/EI executa pesado assalto contra a refinaria de Baiji. Envolve três carros-bomba e um tanque-bomba, usando um suicida-bomba. O pessoal militar que protege a refinaria tem o apoio da Força Aérea do Iraque, mas sofreu pesadas baixas. Altos comandantes militares avisam sobre repetição desse tipo de ataque, se o governo não degradar a capacidade do ISIS/ISIL/EI para atacar a refinaria.

24/9/2014: A coalizão liderada pelos EUA começa a atacar posições do ISIS/ISIL/EI nos arredores de Kobane, norte da Síria.

24/9/2014: Forças curdas alertam sobre fuga de combatentes do ISIS/ISIL/EI da Síria para o Iraque, e pedem que a coalizão comandada pelos EUA bombardeie os comboios do  ISIS/ISIL/EI que entram no Iraque.

24/9/2014: Forças de Segurança iraquianas e guerrilheiros  Peshmergas   trabalham em coordenação em Qara Tapa, nordeste de Baqouba, Diyala, para limpar vilas de qualquer presença do ISIS/ISIL/EI.

Hassan Nasrallah
24/9/2014: Hassan Nasrallah declara que se opõe à coalizão liderada pelos EUA que está atacando o ISIS/ISIL/EI. Disse que o Hezbollah já combate contra o ISIS/ISIL/EI “infiel” e continua a combatê-lo; disse que os EUA são “a mãe de todo o terrorismo”  (redecastorphoto, traduzido).

24/9/2014: Munição alemã e armas antitanques e rifles de assalto chegam ao Curdistão Iraquiano

24/9/2014: Um grupo terrorista argelino, com conexões com ISIS/ISIL/EI degola o francês Herve Gourdel, depois que o governo francês recusou-se a suspender sua participação na “coalizão dos desejantes/dispostos”.

25/9/2014: Rouhani culpa o ocidente e seus aliados (“algumas agências de inteligência”) por terem criado o ISIS/ISIL/EI; refere-se a ele como ameaça global e pede que o ocidente pare de apoiar ditadores.

25/9/2014: Dois bombardeios contra Bagdá deixam seis mortos e 18 feridos.

25/9/2014: França confirma que realizou seus primeiros ataques aéreos contra posições doISIS/ISIL/EI no Iraque. Aguarda-se que o Reino Unido também se una o mais brevemente possível, à coalizão dos desejantes/dispostos.

25/9/2014: Os Emirados Árabes Unidos vangloriam-se de que sua mulher-piloto, Mariam Al -Mansouri, tomou parte no raid contra posições do ISIS/ISIL/EI. O ISIS/ISIL/EI jura vingança.

25/9/2014: Forças curdas na Síria repelem ataque contra Kobane.

25/9/2014: Jassim Mohammed Hassan al-Attiyah do Conselho Provincial de Salah al Din, diz que são esperados mais de 13 mil soldados dos EUA na Base Militar Speicher. É o contrário do que disse Obama; é o que o primeiro-ministro Abadi pediu; e contra o que Sadr e Sistani opuseram-se claramente.

Base Militar Speicher no Iraque
(clique na imagem para aumentar)
25/9/2014: ISIS/ISIL/EI explodiram a histórica mesquita Al Arbain em Tikrit.

26/9/2014: Bombardeio das posições do ISIS/ISIL/EI no norte e no oeste de Mosul, Sinjar e Zammar, continuaram por três dias e prosseguem. A “coalizão dos dispostos/desejantes” está bombardeando o monstro que ajudou a criar.

26/9/2014: Especialistas iranianos falam do ataque pelos EUA ao ISIL/EI, como “o Plano B” dos EUA:

Noites das Arábias [orig. Arabian Nights]

(...)

Análise curta: Os houthis são ligados ao Irã?

Alguns analistas têm sugerido que o Irã absolutamente nada tem a ver com o levante dos houthis no Iêmen ou no Bahrain. Mas, embora o que jamais falte no ocidente sejam acusações de que o Irã apoiaria rebeldes no Iêmen e Bahrain, pode haver aí um grão de verdade.

O Irã foi atacado, com o pessoal de sua embaixada sequestrado e assassinado no Iêmen. O presidente hoje deposto também acusou o Irã de intromissão, acusação que o Irã negou. A Arábia Saudita também foi aliada dos Zaidis, a certa altura da história, no Iêmen, contra o sul comunista. Mais recentemente, a Arábia Saudita acusou o Irã de apoiar os houthis. Mas por que, agora, acusar o Irã de apoiá-los?

Os Houthis fizeram grandes progressos
militares após a queda de Saleh
1) Um argumento religioso

O Islã em geral e a fé xiita em particular passaram por uma transformação com os eventos de Karbala. O sacrifício do Neto do Profeta lembra os xiitas de que se devem opor à opressão e que não podem ser indulgentes com a opressão. Enquanto os sunitas sempre foram em geral mais pró-establishment ao longo da história, são os xiitas que sempre resistiram, ao longo do tempo e apesar das distâncias geográficas. Uma leitura da história xiita depois dos eventos de Karbala mostrará que em apenas poucas décadas aconteceu um levante xiita contra governo opressor.

O Irã, percebendo-se como o centro da fé xiita, apoia seus co-fiéis em, só para listar alguns locais, na Cachemira, no Paquistão, no Iraque, na Síria e na Nigéria. Apoia a resistência à opressão até contra muçulmanos em geral (sunitas) em outros locais: Sudão, Bósnia, curdos no Iraque e a Aliança do Norte no Afeganistão. A luta contra a opressão é vista aí como objetivo religioso. De fato, o estado “Islâmico” revolucionário já foi mais agressivo no passado; mas tornou-se agora muito mais pragmático, mais tenaz e mais politicamente astuto.

Assim sendo, por que o Irã não apoiaria os houthis e os xiitas do Bahrain, nesse segundo caso moralmente, se não com ajuda material (restrições físicas, geográficas contra a invasão da ilha por tropas sauditas, e uma base naval dos EUA impedem que o Irã garanta apoio mais direto; mas se o Bahrain partilhasse uma fronteira terrestre com o Irã, seria possível passar armas)? O Irã não apoiar os houthis não faz sentido algum.

2) Uma compreensão prática

Nenhum movimento guerrilheiro sobrevive por muito tempo, sem apoio externo, contra governo apoiado por potência estrangeira há muito tempo. Caso clássico, aí, é o Hezbollah. Ainda que seja movimento muito poderoso, se não a mais poderosa milícia de resistência que o mundo conhece hoje, não poderia sobreviver nem acumular todo o poder que tem, se não contasse com o apoio de Irã/Síria. Exemplo semelhante são os Talibã, que ninguém consegue derrotar enquanto o estado paquistanês continuar a apoiá-los.

Embora os houthis sejam considerável maioria no norte, como podem sustentar um conflito, sem ajuda material? Sim, todos no Iêmen vivem armados, mas onde se recompõem os estoques, para sustentar uma ofensiva? Por que a Arábia Saudita teria permitido que o deposto presidente negociasse um acordo, se não se sentisse ameaçada?

Considerem ainda a resistência tibetana contra a China, que se desfez depois que a Índia só lhes assegurou apoio “vocal”. O Vietnã do Norte teve apoio de chineses e soviéticos; os rebeldes na Síria têm o apoio dos petrodólares; a guerrilha MEK teve o apoio de EUA/Israel depois que Saddam foi derrubado. De fato, é difícil encontrar um único grupo de oposição [armada] que sobreviva sem apoio externo.

3) Coincidência: não há

A primeira coincidência é o timing do levante dos houthis. Convenientemente aconteceu depois que o ISIS/ISIL/EI já havia tomado quase todo o Iraque sunita. A segunda coincidência é o formato. Em artigo de 2010, MK Bhadrakumar menciona que os grupos armados houthis estão seguindo o modelo do Hezbollah libanês.

Finalmente, para encurtar, concordo que, sim, há remota possibilidade, completamente ilógica, de que o Irã não esteja envolvido com os houthis. É quase impossível. Mas é possível.

Para saber mais leia: 31/8/2014, South China Morning Post em: “No que tenha a ver com o Hezbollah, a inteligência dos EUA voa às cegas”.

[1] Em 26/9/2014, O Globo: “Primeira mulher piloto dos Emirados Árabes Unidos lançou bombas sobre o Estado Islâmico” e em 25/9/2014, TV Cultura: “Mulher comandou bombardeios dos Emirados Árabes na Síria”, dentre outros veículos de ‘kumunicação”. 

domingo, 13 de julho de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 11/7/2014

Importante desenvolvimento para a Resistência

11/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Além do que parece ter sido ataque devastador contra uma coluna de blindados Ukies, há vários importantes desenvolvimentos que aconteceram recentemente e que acho que têm de ser reportados aqui:



A 79ª Brigada Ukie quase destruída

1) Com o retorno de Strelkov a Donetsk, a ordem e a unidade de comando nas forças da Resistência parecem tem sido restauradas, e resolvidos os desacordos entre Strelkov e Alexander Khodakovskii (ex-comandante da unidade “Alpha” de Donetsk).

2) Em conferência conjunta de imprensa, Igor Strelkov , Alexander Borodai e Vladimir Antiufeev (encarregados respectivamente de assuntos militares, políticos e segurança do estado) anunciaram a formação de um conselho de comandantes militares que será encarregado de todos as unidades militares na Novorrússia. Na mesma conferência de imprensa, anunciaram também ampla evacuação (voluntária) de civis dos subúrbios de Donetsk. A cidade, claramente, está preparando-se para um grande ataque, seguido de sítio.

Strelkov, Borodai, Antiufeev

3) Houve disputa feroz entre Igor Strelkov e Sergei Kurginian, que acusou Strelkov de ter abandonado Slaviansk e que disse que os novorrussos estão agora recebendo mais e melhor ajuda da Rússia, que antes. Embora Borodai tenha acusado Kurginian de espalhar propaganda pró Ukie ou EUA, eu pessoalmente acredito que o papel de Kurginian é tranquilizar o público russo, de que a sociedade civil russa, sim, está fazendo todo o possível para ajudar a Resistência (ninguém jamais fala de qualquer ajuda oferecida pelo governo russo).

Sergei Kurginian
Seja qual for o caso, Alexander Borodai acertou tudo quando relatou que suas consultas e encontros em Moscou foram

(...) muito bem-sucedidas e conto muito com o amparo da Federação Russa em futuro o mais próximo possível. No momento, o povo russo já nós está dando ajuda colossal, seja em termos de voluntários seja em termos de ajuda humanitária. Espero que essa assistência continue a crescer.

 Não há dúvidas de que alguma espécie de “acordo” foi firmado entre os líderes de Novorrússia e o Kremlin, embora, claro, os detalhes vão permanecer secretos e a assistência será apresentada como vinda do “povo russo”, o que é muito diferente de vir do governo russo, apesar de haver aí a interessante questão de entender por que Borodai teria de ter longas reuniões em Moscou, para obter ajuda do povo russo [riso].

4) Aparentemente, os Ukies estiveram reforçando sua artilharia na fronteira com a Crimeia, mas o consenso é que, embora aqueles sistemas tenham alcance para atingir cidades crimeanas, a resposta russa seria de tal ordem, que qualquer ataque dos Ukies ali sempre será movimento suicida. Os russos já reforçaram rapidamente e firmemente suas capacidades na Crimeia, as quais hoje incluem total cobertura do espaço aéreo (usaram ali a versão atualizada do sistema de defesa S-300 - vídeo no fim do parágrafo - com um redeslocamento dos bombardeiros russos de combate). Até o ministro Sergei Lavrov, sempre suave e contido, disse com todas as letras, sem nenhuma suavidade, que não aconselha ninguém a atacar a Crimeia, porque a Rússia retaliará.


5) A Força Aérea Ucraniana continua a perder aeronaves regularmente. Hoje, outro Su-25 Ukie foi derrubado perto de Lugansk.

Su-25 da Ucrânia
6) Em outro interessante desenvolvimento recente, Igor Strelkov anunciou que os soldados que lutam com os militares novorrussos passarão a receber salário, em valor mais que adequado, pelas normas ucranianas. Claramente, mais um sinal de que “alguém” está agora financiando a Resistência.

Meu palpite é que Poroshenko dirá que o Grad MLRS que hoje destruiu quase toda a 79ª Brigada Ukie teria sido disparado da Rússia. A primeira razão pela qual acho que dirá isso é que, assim, terão meios, ele, mas, sobretudo, seus patrões nos EUA, para reacender a histeria russofóbica. A segunda razão é que se esses Grads tiverem saído Rússia, nesse caso as unidades Ukies que estejam em pontos distantes da fronteira russa estariam em relativa segurança; mas, se os Grads foram disparados pela Resistência, de dentro da Novorrússia, nesse caso todas as unidades Ukies na Novorrússia são agora alvos potenciais desses ataques.

Grad MLRS  com alcance de 200 km
Seja como for, temos aqui duas opções: ou os russos finalmente decidiram fazer os Ukies experimentarem um pouco do próprio remédio, nesse caso, fazendo-os pagar pelos inúmeros ataques contra postos de fronteira russos, ou a Resistência realmente pôs as mãos em Grads suficientes para um ataque desse tipo. Nesse caso é bem óbvia a origem desses Grads, embora, claro, ninguém admita coisa alguma.

A fronteira russa com a Ucrânia é porosa? Sim, claro. Mas não a ponto de comboios de MLRS andarem de um lado para o outro sem serem vistos e sem o acordo do governo russo. Strelkov e suas forças poderiam ter “nacionalizado” algum dinheiro confiscado dos bancos de Kolomoiskii. Claro que sim. Mas não o suficiente para bancar uma guerra. É possível que voluntários russos (inclusive oligarcas russos) tenham mandado dinheiro para ajudar os novorrussos? Claro que sim, mas não sem que o serviço secreto russo (FSB) soubesse e permitisse.

Portanto, o que estamos vendo é claramente o seguinte: o *governo* russo não está mandando nenhuma ajuda militar “oficial” à Novorrússia; mas a *sociedade* russa, com pleno conhecimento e as bênçãos do governo russo, está fazendo exatamente isso. Daí o sorriso de felicidade no rosto de Borodai quando falou sobre suas “consultas” em Moscou.

Fronteira Ucrânia-Rússia
 (Análise da OTAN de imagens via satélite)
Está o Kremlin expondo-se a grande risco, com essa estratégia? Não me parece que esteja. A ajuda é suficientemente pequena para ter o que a CIA chama de “negabilidade plausível”; mas, uma vez que seja contínua, pode, sim, fazer diferença crucial. Além disso, tudo que o Kremlin está *realmente* fazendo não é propriamente ajuda; apenas se pôs numa posição passiva que pode ser facilmente explicada com “tentamos”, “não é fácil”, “vocês conhecem os nossos problemas de corrupção”, etc..

Para finalizar, arrisco uma ideia. Estou sentindo que os Integracionistas Atlanticistas no Kremlin e à volta dele não estão absolutamente contentes com a ajuda que a Rússia está dando, e há boa chance de que Putin esteja usando seus antigos contatos com o serviço secreto para fazer acontecerem as coisas. Examinando as recentes ações de Strelkov, Borodai e Antiufeev, tenho a forte sensação de que essa recente “consolidação do poder” traz consigo um típico “toque KGB”. E não atrapalha, é claro, nas atuais circunstâncias.

Há uma palavra em russo, difícil de traduzir, que significa, mais ou menos, “perto/em torno dos círculos do Kremlin” (околокремлевские круги). Refere-se, basicamente, à base “silenciosa” de poder pró-Putin, que tem grande influência política, mas não é parte formal da estrutura do governo.

Esses círculos – que são o suplício dos liberais russos – têm acesso ao Kremlin e apoiam o presidente, mas não integram formalmente a administração, nem o governo nem o gabinete do presidente nem qualquer outra entidade do estado e, por isso, não podem ser controlados por ninguém, exceto, claro, o serviço secreto federal, FSB. Estou sentindo que esses círculos, que são furiosamente antinazistas e antinorte-americanos, já se organizaram informalmente para criar uma rede de assistência à Novorrússia. Que ninguém jamais subestime o poder e as capacidades desses círculos.

Por exemplo, durante o regime pró-EUA de Yeltsin, aqueles círculos não apenas organizaram assistência secreta à Transdniestria; tiveram até meios para conseguir que seus próprios aviões militares voassem para lá, sem que ninguém a bordo precisasse se identificar a nenhuma autoridade, em nenhuma escala da viagem. Sei disso, porque me ofereceram lugar num desses voos e me disseram: Damos um uniforme a você, você veste e ninguém fará perguntas. Foi em 1993. Ninguém nem imagina o que esses sujeitos podem fazer hoje, com acesso ao Kremlin...

Que tipo de gente reúne-se nesses ‘círculos’? Militares, claro, sobretudo aposentados dos serviços especiais, oficiais do FSB que não se incomodam de negar sempre, oficiais das unidades especiais GRU que negam sempre, sempre; mas também empresários, jornalistas e alguns “inovadores”, muitos deles conectados às máfias russas. É uma mistura eclética de gente, de idealistas a gente que apenas sabe que o “poder-na-sombra” [orig. “shadow power”] desses círculos também pode ser muito útil para promover seus próprios interesses.

Vladimir Putin
Para concluir, digo que enquanto tudo aqui dito, até aqui, são, sem dúvida alguma, excelentes notícias, a coisa toda está longe de estar resolvida. Os Integracionistas Atlanticistas continuam muito poderosos. Putin falou abertamente sobre uma “5ª coluna”, e eles resistirão com todas as suas forças. Quanto a Putin, está engajado num ato de equilibrismo difícil e perigoso, no qual qualquer coisa que saia errado lhe será atribuído, como culpa exclusiva e pessoal dele. Putin sabe disso e faz o que pode para mostrar-se o mais distante possível do dia-a-dia dos combates na Novorrússia. Seus adversários também veem claramente que, com essa guerra na Novorrússia, têm oportunidade perfeita para enfraquecê-lo e até desacreditá-lo, mas, dessa vez, de uma posição aparentemente “patriótica” (porque a posição pró-EUA, agora, basicamente, é fracasso garantido).

Supersimplificando muito, eu diria que essa luta envolveu “big Money x serviços secretos” e que, até aqui, os serviços secretos parecem estar no controle da situação, o que é bom para a Novorrússia. Mas tudo pode mudar muito, dependendo de como a situação evolua.


The Saker