quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Não chore por mim, Suleiman

Pepe Escobar

10/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Filme de combate. A sinistra visão de mundo da ditadura militar egípcia, comparada ao valente poder popular. 


Tomada 1: Mensagem à revolução, do vice-presidente “Sheik al-Tortura”. Prestem atenção especial ao final da entrevista.


Contexto: Esse é o pangaré em que Washington resolveu apostar, como condutor da “transição ordeira”, gerenciamento militar mubarakista de raiz, com maquiagem leve. Suleiman, em palavras dele mesmo, acha que “o Egito não está preparado para a democracia”. 

Curiosamente, o Departamento de Estado dos EUA agora insiste que “elementos” dos militares egípcios tiveram parte ativa no ataque ultra linha dura contra ativistas e jornalistas semana passada (grupos de direitos humanos dizem que mais de 10 mil pessoas podem ter sido agredidas/detidas/presas desde 25 de janeiro). Pois são os mesmos militares tantas vezes amplamente elogiados pela neutralidade e moderação, pelo presidente Barack Obama dos EUA, semana passada, e pelo “El Supremo” do Pentágono Robert Gates na 3ª-feira. 

E fica ainda pior. Segundo a agência estatal egípcia de notícias MENA, o “Sheik al-Tortura” disse a “diretores da emissora” na 3ª-feira, que “temos condições de acabar com os protestos na Praça Tahrir; o presidente Hosni Mubarak não renunciará; e não acontecerá “qualquer fim do regime”. O diálogo com as forças da oposição já foi revelado como o que é: o regime continua com as mesmas mentiras. 

Tomada B: O gerente de marketing da Google no Cairo Wael Ghonim – um dos líderes do movimento 25 de janeiro, em sua primeira entrevista ao canal egípcio Dream TV, depois de ter passado 12 dias preso, de olhos vendados, pelas forças de segurança de Mubarak. Prestem especial atenção à parte 5, quando Ghonim vê imagens dos mortos pelos bandidos da policia política de Mubarak.
[ http://egypt.alive.in/, em árabe, com legendas em inglês].

A entrevista de Ghonim foi catalisador poderoso. Até a agência Reuters foi obrigada a dizer ao mundo que “as lágrimas do ativista podem mudar o jogo no Egito” [mas a Globo News não disse nada disso. Mostrou as lágrimas de Ghonim como se fosse “um jornalista que acaba de ser libertado no Cairo”, em lágrimas, imediatamente depois das lágrimas de alguém cuja casa foi destruída nas enchentes e antes das lágrimas de uma mãe cuja filhinha sofre de câncer, os canalhas (NTs)]. Não por acaso, nessa 3ª-feira – exatamente duas semanas de luta – a Praça Tahrir estava absolutamente lotada, com mais gente do que podia conter, com multidões espalhando-se pelas ruas laterais. 

Cidadãos bem vestidos, gente de classe média com câmeras, apareceram na praça pela primeira vez – inclusive banqueiros e ex-ministros. Várias faculdades da Universidade do Cairo também lá estavam. Um grupo de professores e diretores de faculdades ocupou a rua em frente ao Parlamento. Alguém escalou a grade e pendurou um cartaz (que depois foi retirado) em que se lia “Fechado até o fim do governo Mubarak”. 

Blogueiros egípcios e todos os que estão na praça concordam. Cerca de 5% dos manifestantes pertencem a partidos nacionalistas ou progressistas. Não mais de 15% são filiados à Fraternidade Muçulmana. E não menos de 80% não são filiados a qualquer partido político ou são apolíticos. Vive-se momentum revolucionário – ainda contra as muitas estratégias de cooptação adotadas pelo regime. 

Ghonim também foi à praça. Recusa o papel de herói ou líder que alguns, na imprensa estrangeira lhe querem impingir. Disse a centenas de milhares de pessoas que “vocês são os heróis”. “Vocês” não são só os que estavam na Praça Tahir – falava dos 2/3 dos 350 milhões no mundo árabe que têm menos de 35 anos. Mas Ghonim aceitou ser incluído numa coalizão de dez representantes de grupos de jovens que estão coordenando os protestos e divulgando suas exigências. 

A classe trabalhadora também está em movimento. Há notícias de que mais de 6 mil trabalhadores de empresas da Companhia Canal de Suez, em Suez, Port Said e Ismaília iniciaram paralisações, em protestos contra os salários miseráveis e as péssimas condições de trabalho. Os empregados da Telecom Egypt ameaçam fazer o mesmo; querem aumento de 10% e a demissão do diretor-gerente. 

Não há qualquer possibilidade de diálogo entre o “Sheik al-Tortura” apoiado por Washington e os manifestantes, que estão do lado certo da história. O levante de rua no Egito prova que o velho conceito da “exceção árabe” – segundo o qual ditaduras e repressão violenta são intrínsecas ao mundo árabe – sempre foi conceito falso, inventado por Washington, seus fantoches europeus e os próprios ditadores interessados. 

Os jovens egípcios querem democracia à moda ocidental, eleições livres e limpas, imprensa livre e, sobretudo, governo representativo e soberano. Isso não implica permanecer escravo da política exterior dos EUA. Ao mesmo tempo, tampouco implica que o Egito deseja para ele uma réplica de governo sunita comandado por líder supremo, como no Irã. 

Como a América Latina revolucionária aprendeu e ensinou “la lucha continúa”. Se Obama, pelo menos, inequivocamente conseguisse por os EUA do lado certo da história! 

Deixo-os com uma possível trilha sonora para os dias e semanas por vir, na voz do rapper sírio-norte-americano Omar Offendum e outros, em:

Ouvi-os dizer que a revolução não será televisionada. Al-Jazeera mostrou que erraram. O Twitter paralisou seus inimigos.

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