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sábado, 14 de junho de 2014

Cordesman lamenta: “Russos têm visão radicalmente diferente...”

12/6/2014, [*] The Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

3a. Conferência Anual de Segurança Internacional em Moscou (23-27/5/2014)
O Ministério de Relações Exteriores da Rússia realizou conferência para especialistas militares árabes, para explicar o ponto de vista do governo russo sobre as ações de “mudança de regime” dos EUA:

Dia 23 de maio de 2014, os 42 militares árabes e especialistas em segurança de países árabes que participavam da 3ª Conferência Anual de Segurança Internacional em Moscou [orig. Moscow International Security Conference] receberam informes, de uma equipe de altos funcionários do governo russo, sobre o perigo crescente que são as “revoluções coloridas”.

A mensagem transmitida pelos vários oradores russos foi que os EUA e a OTAN adotaram nova modalidade de guerra, centrada no uso de forças bélicas não regulares, fanáticos religiosos e mercenários, combinados a uso pesado de armas de guerra informacional.

Com uma série de mapas e gráficos em Power-Point, todos em inglês, os oradores ofereceram cronologia detalhada da última década, com destaque para operações de ‘mudança de regime” na Ucrânia, Geórgia, Quirguistão, Afeganistão, Iraque, Síria, Egito, Líbia e Iêmen.

Anthony Cordesman
Anthony Cordesman, eminência parda dos analistas militares dos EUA, lá estava presente:

Agora, os militares russos estão associando o termo “revolução colorida” à crise na Ucrânia e ao que veem como uma nova abordagem da guerra, por EUA e União Europeia, que se foca em criar revoluções desestabilizantes em outros estados, como meios para promover interesses de segurança dos EUA e União Europeia, com baixo custo e número mínimo de baixas. A nova abordagem foi vista como ameaça potencial aos russos, no horizonte próximo, à China e a estados asiáticos não alinhados com os EUA, e como meio para desestabilizar estados no Oriente Médio, África, Ásia Central e Sul da Ásia.

Mas... Essa não é visão exclusivamente russa: são fatos sobre os quais muitos observadores “ocidentais” também escreveram, e já confirmados até em documentos oficiais da política dos EUA. Mas Cordesman está decidido a não tomar conhecimento de fato algum. “Revoluções coloridas” não passa(ria)m de delírios à moda dos russos; e “mudança de regime” arquitetada pelos EUA não passa(ria) de mais doideira russa!

O resultado final [da visão russa] é leitura radicalmente diferente da história moderna, da estratégia de EUA e União Europeia, de como usam a força e das metas e ações de EUA e UE, jamais vista no ocidente nem em toda a literatura russa – escreve Cordesman.

É realmente impressionante a falta de autopercepção de Cordesman (e outros) que escrevem tal amontoado de nonsense. Mas Cordesman acerta: a visão russa é radicalmente diferente! Mas só se você parte, para analisar a realidade, da propaganda “ocidental” distribuída pela imprensa-empresa.

Os EUA e "poodles" europeus promovendo "Mudança de Regime" 
Na propaganda “ocidental”, “mudança de regime” sempre aparece travestida como se fosse assunto de “liberdade” e de “democracia”.

Assim sendo, de onde os russos teriam tirado a ideia de que “revoluções coloridas” e “mudança de regime” seriam instrumentos do “ocidente”?!

Só se... Será que os russos leem o que Anthony Cordesman escreve?!

Os EUA e aliados contudo enfrentam uma segunda ameaça. O primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, tornou-se continuamente mais autoritário, corrupto e repressivo.

...

Sim, os EUA talvez sejam obrigados a ajudar, dada a total incapacidade de Maliki para governar e a desesperada necessidade do Iraque de expulsar Maliki e sua gangue do país. Mas a ajuda dos EUA terá de ser condicionada, associada ao fato de que al-Maliki é bandido autoritário. Os EUA devem também silenciosamente fazer todo o possível para extraí-lo do poder e exilá-lo.

Albert Einstein
Quer dizer: os russos leram a opinião-parecer do próprio Cordesman... para quem a solução para a crise no Iraque, consideradas as operações dos EUA para “mudança de regime”, será instigar MAIS UMA “mudança de regime” no Iraque.

É absolutamente claro – não só para os russos, mas para qualquer analista de bom senso e que conheça os fatos em campo – que, como a [primeira] guerra do Iraque, essa ação desestabilizará ainda mais a situação. Ou não?!

Os russos nada têm de doidos. Pela definição de Albert Einstein, doidos são, isso sim, Cordesman e a turma dele: “doido é quem repete e repete e repete sempre a mesma “mudança de regime”, esperando resultados diferentes”.




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song”  (também conhecida como  “Whisky Bar” ou  “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

O assassinato de Einstein em Manhattan






Fernando Soares Campos:
testemunha do crime e autor

Assaz Atroz
Albert Einstein viera a Nova Iorque com a missão de acompanhar e assessorar o Distrito de Engenharia Manhattan, o famoso Projeto Manhattan, que tinha como meta produzir a bomba atômica.

Naquela noite de 7 de dezembro de 1944, o já relativamente célebre cientista caminhava pela calçada. O rigoroso inverno nova-iorquino castigava até a sua preciosa massa encefálica. Absorto em conjecturas sobre a possibilidade de viajar no tempo e no espaço sem queimar um baseado, Einstein parou ao lado de uma lixeira. Enfiou a mão no bolso do sobretudo, sacou uma pequena lanterna, acendeu e colocou-a sobre o coletor de lixo.

Ficou por alguns minutos contemplando o tênue feixe de luz. Inclinou-se, encostou o rosto na lanterninha e mirou por cima da projeção luminosa. “Será possível?!” Ergueu-se, olhou ao redor e certificou-se de que ninguém o observava. Cruzou os braços, fechou os olhos e cerrou o cenho. Assim, concentrado, nem notou que começara a levitar.

Um gato preto, sentado na escada de incêndio de um prédio em frente, assistia àquela cena insólita. O felino arrepiou-se quando viu Einstein elevar-se lentamente, se posicionar sobre o feixe de luz da lanterna e, num átimo, sumir! Shuuupt! – “Myauauau!” [“Acho que estou sonhando!”]

No umbrático cenário apareceu um mendigo, que pegou a lanterna, examinou a peça curiosamente e a desligou. O homem nem podia imaginar que, ao clique de desligar, Einstein despencou e se esborrachou no chão. Ploft!

Estirado no meio da calçada, um tanto sonolento, abriu os olhos lentamente. No primeiro momento não percebeu que já era dia claro, mas aos poucos sua vista foi-se adaptando à claridade, e ele enxergou o mundaréu de gente que transitava no local. Ao seu lado já se acumulava umas moedas e até algumas cédulas verdinhas de baixo valor.

O venerável cientista levantou-se e pôs-se a caminhar acompanhando um dos fluxos dos transeuntes. Só aí notou que permanecia em Manhattan, na mesma calçada em que empreendera aquele esforço de concentração, na noite passada. “Noite passada?!” – Imaginou que talvez, depois da intensa pressão mental, tivesse arriado devido a um possível colapso dos sentidos.

A passos vacilantes e ainda em estado de ligeiro torpor, Einstein caminhava sem notar qualquer alteração ambiental. Ouviu uma música e parou em frente à loja da qual emanava o som, sem olhar para o estabelecimento. A canção lhe pareceu estranha, mas bastante agradável. Fechou os olhos e aguçou a audição:

Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só

A música cessou. Inspirado na poética composição ele formulou uma de suas geniais tiradas: “Imaginar é mais importante que o saber, pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação viaja ao infinito”.

Continuou a caminhar. Parou numa esquina, parecia estar apreciando a movimentação das pessoas e o trânsito de veículos nas ruas, mas na verdade ele estava alheado de tudo, por isso nem notou a aproximação de um rapaz que carregava um livro preso no sovaco.

O jovem o abordou:

– Queira me desculpar, mas o senhor não é Albert Einstein, que foi professor na Universidade de Princeton?

– Sim, mas... eu não “fui” professor em Princeton – estranhou. – Ainda faço parte do corpo docente daquela instituição.

“O velhos são assim mesmo: estão sempre perdidos no tempo e no espaço.” – pensou o rapaz. E continuou: – Eu gostaria de ter um autógrafo seu. Pode ser?

– Sim, com prazer! Tem papel?

O rapaz pegou o livro que trazia debaixo do braço e do bolso um lápis. Entregou o material à celebridade do mundo científico e acadêmico.

Einstein leu o título da obra: “O Apanhador no Campo de Centeio”. Abriu o livro na página inicial, em que pretendia escrever uma mensagem e registrar seu autógrafo. Perguntou:

– Como você se chama?

Ambos são Kaio Diego Chapman
– Chapman, Kaio Diego Chapman...

Escreveu: “Caro Kaio Diego, creio que neste mundo somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez dos homens. Mas não tenho certeza se isso é verdadeiro em relação ao primeiro. Abraços. Albert Einstein. Nova Iorque, 8 de dezembro de 1944”.

Entregou o livro e o lápis ao fã.

Kaio leu a mensagem e observou:

– Acho que o senhor se confundiu... Hoje é dia 8 de dezembro, sim, mas... de 1980!

Einstein lembrou-se da “noite passada”: a lanterninha, o feixe de luz, a esforçada “concentração”. .. Só então atentou para os trajes do jovem, o quê lhe pareceu, não sabia por que, um tanto excêntrico. E os óculos? Nunca vira igual modelo. Olhou em sua volta. Agora, tudo ao seu redor lhe causava estranheza: carros, prédios, cartazes, vitrines... Fez menção de se afastar, continuar caminhando... Ouviu Kaio Diego lhe chamar:

– Professor!

– Sim! – voltou-se para o rapaz.

Kaio Diego empunhava um trezoitão apontado contra Einstein.

– Professor, não me leve a mal, mas isso é pelo bem da humanidade... – disparou a arma até descarregá-la.

Einstein caiu fulminado. O sangue escorreu pela calçada, e sua memória iniciou processo de projeção de reminiscências... Em sua mente se sucediam imagens da infância, caçando passarinho nas caatingas de Ulm, nadando e pescando no lago von Männer; quebrado uma cadeira na cabeça do coleguinha de sala de aula; estudante na universidade; viajando mundo afora, a visita ao Brasil; a Teoria da Relatividade... Novamente aquela música de momentos atrás soava aos seus ouvidos de moribundo... Pensou: “Eu deveria ter-me dedicado à música. Talvez assim tivesse evitado um final tão trágico...”
Enola Gay

Uma mulher que assistiu a tudo da janela de um prédio em frente correu ao telefone e ligou para a polícia. Informou o endereço e concluiu desesperada: “Tá lá um corpo estendido no chão!”

Em instantes a polícia chegou ao local do crime. Os policiais avistaram Kaio Diego Chapman com o livro em uma mão e o revólver na outra, pálido, balbuciando disparates:

– Eu salvei Hiroshima e Nagasaki... Corrigi a História... O Enola Gay não partiu... Não tem mais Little Boy nem Fat Man... Podem conferir os novos registros... Agora, cientistas de todo o mundo vão pensar mil vezes antes de se dedicarem ao desenvolvimento de armas de destruição em massa...

Fat Man e Little Boy
Sem que os curiosos mortais que cercavam a cena do crime notassem, um raio precipitou-se sobre o corpo da vítima e o abduziu...

Einstein relaxou o cenho, abriu os olhos e, surpreso, viu o mendigo à sua frente, com a lanterninha ligada, focando o seu rosto.

– Não é nada do que você está pensando! – falou encabulado o cientista.

– Entendo... É que ultimamente andam servindo uísques de péssima qualidade!

O mendigo se foi, e Einstein também se pôs a caminhar noite adentro, sem reparar que o gato preto na escada de incêndio miava insistente: “Myauau! Ruuum!” [“A gente vê cada coisa!”]

Hoje Kaio Diego Chapman vive confinado num manicômio judicial cinco estrelas, em Manhattan, onde passa os dias ruminando elucubrações macabras para justificar seu tresloucado ato.

Assista ao vídeo em que dois imbecis defendem o assassinato de cientistas iranianos, no programa Manhattan Connection no canal GNT da Rede Globo (cabo).


E para refrescar a “moringa”... Imagine


Ilustração de JAM: Sociedades Alternativas (caricatura)
Demais fotos: redecastorphoto