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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O assassinato de Einstein em Manhattan






Fernando Soares Campos:
testemunha do crime e autor

Assaz Atroz
Albert Einstein viera a Nova Iorque com a missão de acompanhar e assessorar o Distrito de Engenharia Manhattan, o famoso Projeto Manhattan, que tinha como meta produzir a bomba atômica.

Naquela noite de 7 de dezembro de 1944, o já relativamente célebre cientista caminhava pela calçada. O rigoroso inverno nova-iorquino castigava até a sua preciosa massa encefálica. Absorto em conjecturas sobre a possibilidade de viajar no tempo e no espaço sem queimar um baseado, Einstein parou ao lado de uma lixeira. Enfiou a mão no bolso do sobretudo, sacou uma pequena lanterna, acendeu e colocou-a sobre o coletor de lixo.

Ficou por alguns minutos contemplando o tênue feixe de luz. Inclinou-se, encostou o rosto na lanterninha e mirou por cima da projeção luminosa. “Será possível?!” Ergueu-se, olhou ao redor e certificou-se de que ninguém o observava. Cruzou os braços, fechou os olhos e cerrou o cenho. Assim, concentrado, nem notou que começara a levitar.

Um gato preto, sentado na escada de incêndio de um prédio em frente, assistia àquela cena insólita. O felino arrepiou-se quando viu Einstein elevar-se lentamente, se posicionar sobre o feixe de luz da lanterna e, num átimo, sumir! Shuuupt! – “Myauauau!” [“Acho que estou sonhando!”]

No umbrático cenário apareceu um mendigo, que pegou a lanterna, examinou a peça curiosamente e a desligou. O homem nem podia imaginar que, ao clique de desligar, Einstein despencou e se esborrachou no chão. Ploft!

Estirado no meio da calçada, um tanto sonolento, abriu os olhos lentamente. No primeiro momento não percebeu que já era dia claro, mas aos poucos sua vista foi-se adaptando à claridade, e ele enxergou o mundaréu de gente que transitava no local. Ao seu lado já se acumulava umas moedas e até algumas cédulas verdinhas de baixo valor.

O venerável cientista levantou-se e pôs-se a caminhar acompanhando um dos fluxos dos transeuntes. Só aí notou que permanecia em Manhattan, na mesma calçada em que empreendera aquele esforço de concentração, na noite passada. “Noite passada?!” – Imaginou que talvez, depois da intensa pressão mental, tivesse arriado devido a um possível colapso dos sentidos.

A passos vacilantes e ainda em estado de ligeiro torpor, Einstein caminhava sem notar qualquer alteração ambiental. Ouviu uma música e parou em frente à loja da qual emanava o som, sem olhar para o estabelecimento. A canção lhe pareceu estranha, mas bastante agradável. Fechou os olhos e aguçou a audição:

Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só

A música cessou. Inspirado na poética composição ele formulou uma de suas geniais tiradas: “Imaginar é mais importante que o saber, pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação viaja ao infinito”.

Continuou a caminhar. Parou numa esquina, parecia estar apreciando a movimentação das pessoas e o trânsito de veículos nas ruas, mas na verdade ele estava alheado de tudo, por isso nem notou a aproximação de um rapaz que carregava um livro preso no sovaco.

O jovem o abordou:

– Queira me desculpar, mas o senhor não é Albert Einstein, que foi professor na Universidade de Princeton?

– Sim, mas... eu não “fui” professor em Princeton – estranhou. – Ainda faço parte do corpo docente daquela instituição.

“O velhos são assim mesmo: estão sempre perdidos no tempo e no espaço.” – pensou o rapaz. E continuou: – Eu gostaria de ter um autógrafo seu. Pode ser?

– Sim, com prazer! Tem papel?

O rapaz pegou o livro que trazia debaixo do braço e do bolso um lápis. Entregou o material à celebridade do mundo científico e acadêmico.

Einstein leu o título da obra: “O Apanhador no Campo de Centeio”. Abriu o livro na página inicial, em que pretendia escrever uma mensagem e registrar seu autógrafo. Perguntou:

– Como você se chama?

Ambos são Kaio Diego Chapman
– Chapman, Kaio Diego Chapman...

Escreveu: “Caro Kaio Diego, creio que neste mundo somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez dos homens. Mas não tenho certeza se isso é verdadeiro em relação ao primeiro. Abraços. Albert Einstein. Nova Iorque, 8 de dezembro de 1944”.

Entregou o livro e o lápis ao fã.

Kaio leu a mensagem e observou:

– Acho que o senhor se confundiu... Hoje é dia 8 de dezembro, sim, mas... de 1980!

Einstein lembrou-se da “noite passada”: a lanterninha, o feixe de luz, a esforçada “concentração”. .. Só então atentou para os trajes do jovem, o quê lhe pareceu, não sabia por que, um tanto excêntrico. E os óculos? Nunca vira igual modelo. Olhou em sua volta. Agora, tudo ao seu redor lhe causava estranheza: carros, prédios, cartazes, vitrines... Fez menção de se afastar, continuar caminhando... Ouviu Kaio Diego lhe chamar:

– Professor!

– Sim! – voltou-se para o rapaz.

Kaio Diego empunhava um trezoitão apontado contra Einstein.

– Professor, não me leve a mal, mas isso é pelo bem da humanidade... – disparou a arma até descarregá-la.

Einstein caiu fulminado. O sangue escorreu pela calçada, e sua memória iniciou processo de projeção de reminiscências... Em sua mente se sucediam imagens da infância, caçando passarinho nas caatingas de Ulm, nadando e pescando no lago von Männer; quebrado uma cadeira na cabeça do coleguinha de sala de aula; estudante na universidade; viajando mundo afora, a visita ao Brasil; a Teoria da Relatividade... Novamente aquela música de momentos atrás soava aos seus ouvidos de moribundo... Pensou: “Eu deveria ter-me dedicado à música. Talvez assim tivesse evitado um final tão trágico...”
Enola Gay

Uma mulher que assistiu a tudo da janela de um prédio em frente correu ao telefone e ligou para a polícia. Informou o endereço e concluiu desesperada: “Tá lá um corpo estendido no chão!”

Em instantes a polícia chegou ao local do crime. Os policiais avistaram Kaio Diego Chapman com o livro em uma mão e o revólver na outra, pálido, balbuciando disparates:

– Eu salvei Hiroshima e Nagasaki... Corrigi a História... O Enola Gay não partiu... Não tem mais Little Boy nem Fat Man... Podem conferir os novos registros... Agora, cientistas de todo o mundo vão pensar mil vezes antes de se dedicarem ao desenvolvimento de armas de destruição em massa...

Fat Man e Little Boy
Sem que os curiosos mortais que cercavam a cena do crime notassem, um raio precipitou-se sobre o corpo da vítima e o abduziu...

Einstein relaxou o cenho, abriu os olhos e, surpreso, viu o mendigo à sua frente, com a lanterninha ligada, focando o seu rosto.

– Não é nada do que você está pensando! – falou encabulado o cientista.

– Entendo... É que ultimamente andam servindo uísques de péssima qualidade!

O mendigo se foi, e Einstein também se pôs a caminhar noite adentro, sem reparar que o gato preto na escada de incêndio miava insistente: “Myauau! Ruuum!” [“A gente vê cada coisa!”]

Hoje Kaio Diego Chapman vive confinado num manicômio judicial cinco estrelas, em Manhattan, onde passa os dias ruminando elucubrações macabras para justificar seu tresloucado ato.

Assista ao vídeo em que dois imbecis defendem o assassinato de cientistas iranianos, no programa Manhattan Connection no canal GNT da Rede Globo (cabo).


E para refrescar a “moringa”... Imagine


Ilustração de JAM: Sociedades Alternativas (caricatura)
Demais fotos: redecastorphoto

sábado, 28 de janeiro de 2012

As razões do senador suicida


Fernando Soares Campos

O senador assinou a carta de despedida, pegou o revólver na gaveta da escrivaninha, engatilhou a arma e apontou para o próprio peito. Aguardou um instante. Lembrou-se da sua última posse, do discurso na tribuna, das promessas de que trabalharia em defesa do povo, da democracia, do seu Estado, do país...

Entretanto, como pano de fundo de suas memórias, apareciam centenas de cadáveres humanos, pessoas mortas devido à falta de assistência médica, inanição ou cirrose hepática provocada pelo consumo de uma péssima aguardente de cana.

Eram imagens de um pesadelo que já passará a atormentá-lo mesmo em estado de vigília. À medida que sua conta bancária crescia, a multidão de fantasmas aumentava. O senador até já havia observado que a proporcionalidade estava se aproximando da razão de um por mil: a cada um milhão de reais depositados em sua conta, mil novos espectros somavam-se à fantasmagórica multidão que o obsedava.

O telefone chamou. No sexto toque, resolveu atender:

- Alô!
- Excelência!
- Sim.
- Aqui é o Santiago.
- Santiago?!
- Santiago Arruda.
- Do Planalto Diário?
- Ele mesmo, excelência.
- Em que posso servi-lo?
- Gostaria de marcar uma entrevista com vossa excelência.
- Entrevista?
- Sim, excelência.
- Pra quando?
- Amanhã à tarde está bom para o senhor?
- Impossível.
- Então, na sexta pela manhã.
- Não vai dar.
- Nesse caso, o senhor mesmo pode marcar dia e hora mais adequados à sua agenda.
- Hoje.
- Hoje?!
- Agora.
- Agora?!
- Sim, agora! Já! Onde você está?
- Na redação.
- Então, não leva mais que quinze minutos pra chegar aqui - desligou.

O senador notou que, todo o tempo em que falou ao telefone, mantivera a arma apontando contra o peito. Guardou o revólver na gaveta. Resolveu reler a carta de despedida. Deteve-se num trecho:

“É comum que, devido aos seus fracassados empreendimentos, muita gente ponha fim à própria vida; no meu caso, porém, decidi encerrar a minha bem-sucedida existência em razão do fracasso alheio”.

Alguma coisa parecia errada. Releu o período, mas continuou em dúvida. Deixou a folha sobre a mesa, foi até o computador, abriu o documento “carta de despedida” e continuou relendo o primeiro período. Trocou “É comum que” por “É natural que”, em seguida por “É normal que”.

Nada, nenhuma das modificações pareceu alterar o sentido da frase. Experimentou “Via de regra”. Achou que assim ficaria melhor. Antes de imprimir, corrigiu o verbo “pôr”, agora flexionado no presente do indicativo: “põe”. Imprimiu a página e voltou para a mesa de trabalho. Releu mais uma vez:

“Via de regra, devido aos seus fracassados empreendimentos, muita gente põe fim à própria vida; no meu caso, porém, decidi encerrar a minha bem-sucedida existência em razão do fracasso alheio”.

Ainda não estava convencido de que as modificações expressariam com maior clareza o motivo que o levaria a cometer o suicídio.

Bateram na porta...

- Entre!

Era a governanta conduzindo Santiago Arruda. Guardou a carta de despedida na gaveta, cumprimentou o jornalista e lhe indicou uma poltrona. Depois do cafezinho, Santiago iniciou a entrevista.

- Excelência, estamos fazendo uma matéria para o nosso caderno semanal de literatura, gostaríamos de saber o que os senadores lêem. No momento, o que o senhor está lendo?

O senador teve uma idéia: aproveitaria a ocasião para esclarecer sua dúvida sobre a frase de abertura da carta de despedida. Mentiu:

- Estou lendo “As razões”, um romance de Carlos Miguel...
- Não conheço.
- Nem poderia, trata-se de um autor desconhecido, lá de minha terra, um jovem escritor que me mandou sua primeira obra. Eu contribuí para a publicação.
- Posso ver? Se o senhor quiser, podemos divulgar no caderno literário do Planalto Diário.
- Não está aqui, está no meu gabinete, no Senado. Mas, já que estamos falando do romance “As razões”, eu queria consultá-lo sobre uma passagem dessa obra.
- Se eu puder ajudar...
- Bom, é a respeito da carta de um suicida. Um banqueiro resolve suicidar-se e escreve uma carta de despedida.
- É comum os suicidas escreverem cartas de despedida. Mas o que há de errado na carta do banqueiro?
- Não sei se há alguma coisa errada. Mas eu me lembro bem da frase, anote aí.
- Pode ditar.
-“Via de regra, devido aos seus fracassados empreendimentos, muita gente põe fim à própria vida; no meu caso, porém, decidi encerrar a minha bem-sucedida existência em razão do fracasso alheio”.

Santiago anotou e leu a frase em voz alta. Concluiu:

- Aparentemente, não há nada errado. Um paradoxo, alguém se suicidar devido ao fracasso alheio, mas não seria nem tão contraditório se o fracassado fosse alguém de sua família ou mesmo do seu relacionamento afetivo.
- Nem do ponto de vista sintático?
- Deixe-me ver - Santiago releu todo o período. - Não, não estou identificando qualquer erro sintático.
- Tudo bem, esqueça, nem sei por que cismei com isso...

Ao final da entrevista, o senador acompanhou Santiago até a saída e prometeu lhe mandar o livro do seu afilhado escritor.

No carro, Santiago abriu o bloco de anotações e releu a frase:

“Via de regra, devido aos seus fracassados empreendimentos, muita gente põe fim à própria vida; no meu caso, porém, decidi encerrar a minha bem-sucedida existência em razão do fracasso alheio”.

Pensou: “... Bem sucedida existência em razão do fracasso alheio”. Não, não falta nenhuma vírgula. Pelo visto, o rapaz conhece bem os banqueiros.

Deu partida no carro. Nem escutou o tiro que estourou o coração do senador bem-sucedido... Em razão do fracasso alheio.

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Deus e o Universo Holográfico

Aos ateus, agnósticos, religiosos e deístas: a renovação permanente do conceito de Deus é preciso

Fernando Soares Campos
por Fernando Soares Campos
 
Uma coisa é a gente acreditar em um fato, outra coisa é acreditar que acredita. Ou ainda: uma coisa é acreditar na realidade que somos obrigados a acreditar, outra coisa é acreditar que acredita nessa realidade.
 
Ainda continuo acreditando que um dos principais motivos para que alguém assuma seu ateísmo é a diversidade de interpretações que as religiões dão para conceitos de céu, inferno e, principalmente, de Deus. Apesar de os ateus em geral garantirem que suas posições ateístas estão baseadas apenas no fato de que não se pode (ou não se consegue) provar a existência de Deus, a meu ver, ateus contestam a existência de Deus não pela aparente impossibilidade de se provar a existência de um criador de todas as coisas visíveis, tangíveis ou imagináveis. A maior parte dos ateus simplesmente se nega, com fundamentada razão, a fazer parte de um “rebanho”, que viria a ser um conjunto de pessoas alienadas, os fanáticos de qualquer ordem.
 
As provas da existência de Deus, que ateus e deístas exigem, precisariam, naturalmente, estar corroboradas pela Ciência. Somente aos fanáticos de qualquer orientação doutrinária, aqueles que se acomodam a uma ditadura dogmática, creem naquilo que não se deve contestar a sua existência, nem mesmo através de uma proposta de representação imaginária. O problema é que a Ciência nem sempre comprova a existência do que ela própria diz existir (ou ter existido). Daí que muitos homens de ciência também se tornam dogmáticos, ou impõem dogmas. E isso ocorre, provavelmente, por mero orgulho próprio.
 
Vejamos, por exemplo, o caso da Teoria do Big Bang, que, por sinal, se desdobra em duas matrizes: a do Big Bang quente e a do frio – ambas permeadas de adendos que tentam corrigir ou complementar as idéias iniciais sobre a origem do universo e a evolução deste.
 
Se a Teoria do Big Bang, naquilo que diz respeito à origem do universo – não, à simples evolução – fosse um fato realmente comprovado, não teria mais um caráter especulativo, não seria mais simples teoria hipotética; mas, sim, um tratado científico incontestável, verdade absoluta que ninguém poderia chamar de absurda. Trata-se, porém, ao focar a origem do universo, de uma teoria probabilística; isso olhada e analisada com muita imaginação, para não dizer “boa vontade”; porque, analisando o conjunto dessa teoria, podemos observar que ela aborda com relativa precisão apenas os aspectos da evolução do universo, mas não encontra resposta plausível para as questões referentes à origem desse universo observável. O capítulo dedicado a explicar a origem do universo é curto e essencialmente metafísico, não é propriamente científico. E não poderia ser de outra forma.
 
Analisando-se essa parte inicial da Teoria do Big Bang, na qual se pretende explicar a origem do universo, podemos perceber que os “métodos científicos” supostamente utilizados não se enquadram nas determinações de uma “metodologia científica”, mas são simplesmente explicáveis por “terminologias científicas”. Porém, nem mesmo a terminologia empregada pode ser considerada eminentemente científica, pois começam falando de um “ponto” (Matemática, geometria), no “nada” (que não pode ser explicado por ciência ou disciplina alguma), ou no “espaço-atemporal” (um possível absurdo geométrico-metafísico, ou mera representação artística); enchem o “ponto no nada” ou no “espaço-atemporal” de partículas subatômicas que teriam vindo do “nada” e explicam suas reações (sem explicar a ação inicial) e combinações aleatórias; sempre usando apenas uma suposta terminologia científica.
 
Pelo visto, estando nós na bifurcação entre criacionismo e evolucionismo, para tomar um desses caminhos, precisamos inevitavelmente criar, metafisicamente, o “elemento” que originou o processo evolutivo. E acredite nele quem tiver imaginação. Creio que foi por isso que Einstein falou: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Claro que um não prescinde do outro. É compreensível que quanto mais conhecimento, mais possibilidades de imaginação lógica, racional.
 
Acontece que o universo conhecido não é único nem existe em número limitado. Os universos são infinitos... Multiuniverso, ao infinito. Isso é o que imagino (o universo holográfico de que falaremos mais adiante). O problema é que nós, seres humanos, apesar de desejarmos ou acreditarmos na sobrevivência da alma por toda a eternidade, não gostamos muito das ideias de infinito e eternidade... Pensar em infinito e eternidade nos leva, em consequência, a pensar no “nada”. E pensar no “nada” pode nos induzir o pensamento de que nem nós mesmos existimos.
 
Se a gente pensa em espaço infinito, pensa a partir do nosso Eu-objeto, ou seja, sempre concebendo um começo-sem-fim, de nós para o infinito, de forma unidirecional ou mesmo multidirecional.
 
Partindo de nós, tendemos a pensar sob uma visão de macroinfinito, sem conseguirmos assimilar, simultaneamente, a posição simétrica do segmento que parte de nós para o microinfinito (o infinitesimal), pois tudo parte de Nós para o universo conhecido, visível e tangível. Colocamo-nos, por assim dizer, como sendo o centro do universo. E – por que não dizer? – na condição de um deus, ou mesmo, de Deus, o que não é de todo errado (na parte conclusiva deste texto, abordaremos essa questão).
 
Imaginemos, por exemplo, uma estrela (ponto de luz) irradiando em todas as direções. Seus raios percorrendo o espaço, a partir dela para o macroinfinito (macrouniverso). Tentemos imaginar o movimento oposto desses raios, em sentido ao microinfinito (microuniverso, o infinitesimal). Provavelmente, ao imaginar esse movimento retrocedente, a gente para no ponto de luz (a estrela). Eu não estou falando simplesmente de raios simétricos e externos em relação ao ponto de luz, no caso, a estrela. Refiro-me ao sentido interno do ponto de luz, quero dizer que precisamos projetar mentalmente (ou graficamente, talvez numericamente) o sentido do raio indo ao infinito pela via macroinfinita e sua volta ao microinfinito. Ou seja: imaginar que a luz da lâmpada que desligamos “nunca se apagaria”, em nenhum sentido: nem do ponto de iluminação para o macrouniverso, nem desse mesmo ponto para o microuniverso (o infinitesimal). Os raios simétricos levam a luz de sua fonte geradora para o infinito externo, mas aí temos o ponto de partida, o começo, portanto ainda não estamos falando propriamente de infinito (infinito não tem começo nem fim). Estaríamos tratando de um ponto num segmento de reta em direção ao macroinfinito, com suas partes simétricas no mesmo sentido. O que estou querendo é imaginar, por exemplo, a matéria (o universo material) expandindo-se eternamente, ao macroinfinito (macrouniverso), e comprimindo-se eternamente ao microinfinito (microuniverso). Em nenhuma dessas duas hipóteses ela alcançaria o tamanho máximo nem mínimo, ao ponto de se tornar o “tudo” ou o “nada”. Disso podemos deduzir que o “tudo” e o “nada” venham a ser equivalentes; se não, iguais; visto que a representação mental de um ou do outro implica conceituar o infinito.
 
A meu ver, o maior engano do pensamento metafísico dos cientistas que tentam explicar a origem do universo através da Teoria do Big Bang consiste em falar de um suposto “espaço sem tempo”, “espaço-atemporal” equivalente ao “nada”. Creio que o “espaço sem o tempo” só pode ser concebido matematicamente, em geometria, considerando-o apenas uma especulação puramente artística, que não caberia dentro de si a presença, nem ao menos, de um ser imaginário.
 
Quando a gente identifica que a Teoria do Big Bang considera o “espaço sem o tempo” antes da explosão do “átomo primordial”, e somente a partir desse fenômeno teria sido iniciado ao espaço-temporal, e ela solicita do leitor-estudante que tente colocar-se do lado de fora do universo para observar, através da imaginação, o momento da “explosão” e expansão do universo, solicita aí uma posição praticamente impossível até de se imaginar. Porque o “espaço sem tempo” e o “nada” têm, basicamente, a mesma “não-essência”, deles não se encontra qualquer parâmetro possível a uma lógica mesmo que imaginária, exceto a possibilidade de uma visão artística, planificada, como concebemos a imediata tridimensionalidade (altura, largura e profundidade) a que estamos acostumados a “tangenciar” com a alma. Porém, esse “tangenciar” é indissociável de uma intuição mais completa, pois implica sentir, o mais profundamente possível, a quadrimensionalidade einsteiniana.
 
Podemos nos colocar em posição de observador dos aspectos interiores do universo conhecido. A observação exterior desse universo só seria possível através da imaginação caso se considere o espaço e o consequente tempo. (Precisa-se de muita imaginação para colocar-se no “nada”, simplesmente porque não podemos conceber o “nada”.)
 
Como não temos como conceber, de forma ao menos metafísica, o infinito espacial e a eternidade em separados, não podemos assim estabelecer a origem do universo, a partir de qualquer teoria, fazendo malabarismos mentais para idealizar um “espaço sem tempo”, coisa impossível, pois todo espaço pressupõe o desenvolvimento de suas dimensões e consequente tempo para percorrê-las. Mesmo um segmento de reta (espaço unidimensional) evoca o tempo que se necessita para percorrê-la. Daí, podemos ter uma noção conceitual de infinito: Infinito é o espaço que necessita da Eternidade para ser totalmente percorrido. E Eternidade é o tempo necessário para se percorrer o Infinito. São inseparáveis.
 
Se é infinito, qualquer ponto-espacial do Infinito é o seu começo e o seu fim ao mesmo tempo. Se é eterno, qualquer ponto-temporal (ou fração de segundo) da Eternidade é o seu começo e fim simultaneamente. Por isso conseguimos falar em perpetuidade como sendo aquilo que tem começo mas não tem fim, simplesmente porque estabelecemos um começo da infinitude, que é ao mesmo tempo começo e fim. (Perpétuo é aquilo que foi eternizado.) Portanto, se dividirmos o infinito-eterno ao meio, teremos dois infinitos-eternos, visto que, se imaginarmos um ponto, uma reta ou um plano e colocarmos qualquer um deles como representação da imaginária fronteira (espaço-cisão) do infinito-eterno, seria ele começo e fim concomitantemente. Basta que recapitulemos a questão dos raios simétricos que vão simultaneamente em direção ao macroinfinito (ou macrouniverso) e ao microinfinito (ou microuniverso), tendo como ponto de partida essa fronteira imaginária.
 
(Talvez possamos, assim, sentir ou intuir, com maior profundeza, a dimensão espaço-temporal, de acordo com a quadrimensionalidade einsteiniana, mas sem qualquer implicação relativista submetida a conceitos da Mecânica clássica ou probabilística quântica. Apenas captando esta visão e sentimento imediatos de tridimensionalidade (altura, largura e profundidade) indissociada da transcursão do tempo.)
 
O Universo Holográfico
 
Dizem que cientistas do mundo inteiro andam pasmados com a idéia de que viveríamos num universo holográfico – o universo seria um infinito holograma –. Isso realmente tem fundamento.
 
Diante do exemplo da imaginária divisão do infinito-eterno, teorizando que, ao dividir o infinito-eterno, obtemos dois infinitos-eternos, podemos verificar que, se continuarmos dividindo esses infinitos-eternos, em progressão geométrica, obteremos um infinito número de infinitos-eternos. Esta é a característica fundamental do holograma: cada parte contém o todo. O mistério persiste apenas em determinar a fronteira imaginária entre as partes. O que foi feito neste texto: “Portanto, se dividirmos o infinito-eterno ao meio, teremos dois infinitos-eternos, visto que, se imaginarmos um ponto, uma reta ou um plano e colocarmos qualquer um deles como representação da imaginária fronteira (espaço-cisão) do infinito-eterno, seria ele começo e fim concomitantemente. Basta que recapitulemos a questão dos raios simétricos que vão simultaneamente em direção ao macroinfinito (ou macrouniverso) e ao microinfinito (ou microuniverso), tendo como ponto de partida essa fronteira imaginária.” [16º parágrafo]
 
Agora, ao analisarmos a representação gráfica de um holograma, precisamos pensar nele com o sentimento, intuição, de um espaço quadrimensional (sentimento espacial-temporal). Quero dizer: imaginando o movimento a partir de uma das infinitas partes para outra de forma quadrimensional.
 
Temos, então, como imaginar a passagem de uma dimensão cósmica para outra.
 
(Até aqui, minhas explanações e conceitos só se enquadrariam numa visão e sentimento de cunho artístico-geométrico, entretanto os formulei com o propósito que estou de teologar daqui em diante.)
 
O homem à semelhança de Deus
 
Deus não é apenas essencialmente bom, ou o Bem, conforme entendemos essas palavras, ou de acordo com os significados que lhes atribuímos a nosso bel-prazer. Deus está acima do Bem e do Mal. Acontece que, entre nós, quando dizemos que alguém está acima do bem e do mal, queremos dizer que esse alguém é a personificação da arbitrariedade, com as inevitáveis associações ao que é violentamente despótico, atendente a interesses de caprichos pessoais. Porém, em se referindo a Deus como um ser acima do Bem e do Mal, quero dizer que Deus é perfeitamente justo, que a Justiça Divina não se limita a conceitos de bem ou mal, bom ou mau, certo ou errado, de acordo com os nossos interesses imediatos. Deus – não personificado – é a essência da própria Justiça Divina, e esta responde por todas as demais qualificações de Deus: onipresença, onisciência e onipotência. A nossa própria consciência é, por natureza, o repositório da Justiça Divina, entretanto ela é apenas uma entre todas as faculdades humanas em fase evolutiva, tanto que a Psicanálise identifica subsistemas, ou departamentos, da nossa consciência. Porém, mesmo embotada por falsos juízos alicerçados em preconceitos – estes, por sua vez, frutos do nosso desejo individual, coisa muito natural –, essa consciência em evolução pode assimilar que aquilo que para a nossa individualidade é bom ou mau, é o bem ou o mal, o certo ou o errado, pode apresentar-se com sentidos invertidos em outros indivíduos, ou seja, em outras consciências. Isso me parece tão evidente que acredito ser desnecessário expressar qualquer tipo de exemplo.
 
Somos a semelhança de Deus; não, iguais a Ele; apenas semelhantes porque caminhamos para a perfeição. E, graças à perfeição da Justiça Divina, nunca chegaremos lá, jamais seremos iguais a Deus. Ser igual a Deus seria descortinar o infinito (impossível), tendo, por assim dizer, vencido a eternidade (igualmente impossível). Seria o fim, seria a inércia total do processo evolutivo. Ponto final. A morte, no seu mais amplo sentido. Precisamos compreender que o melhor da luta não é a vitória, o melhor de qualquer luta que empreendemos é ela própria, a luta em si. Vida é luta constante, ininterrupta. A vitória representa apenas a dilatação momentânea do prazer, um prêmio fugaz, um orgasmo. Os passos de uma caminhada deveriam ser moderada e continuamente prazerosos. Inclusive os passos aparentemente dados à ré; aparente porque, em todos os sentidos, o movimento nos conduz ao infinito. Se pararmos com intenção de “meditar”, não estaremos propriamente estacionados, o ponto de parada, nesse caso, representa uma caminhada em direção ao microinfinito, ao infinitesimal. Paramos de contemplar o mundo exterior e nos voltamos para dentro de nós mesmos. Mas acho que não devemos, ainda muito jovem, nos enclausurar num mosteiro, numa caverna, ou reclusos no deserto ou no meio da mata, com o propósito de nos tornar ermitões, achando que assim seremos capazes de nos transformar em “sábios” gurus; mesmo que o faça com um computador interligado à internet e mantendo-se em interação ideológica com toda a Humanidade.
 
Já disseram que o homem inteligente aprende com os próprios erros, e o sábio aprende com os erros dos outros. Acontece que ninguém nasce sapiente, mas apenas inteligente, com a inteligência, a faculdade de conhecer, compreender e aprender. Portanto a verdadeira sapiência só pode vir com a vivência, a experiência própria do indivíduo. Sábio, entendo aí um indivíduo com a postura de mero observador, seria apenas aquele que não repete, ou repete o mínimo de vezes, seus próprios erros e, com a consciência de tê-los cometido, consegue identificar, através de processo analógico, os erros que os outros cometeram em áreas distintas às de suas experiências diretas, pessoais; e assim evitá-los, se necessário e possível for.
 
Deus personificado e Deus impessoal
 
O Pai, aquele de quem Jesus falou, é Deus personificado, um ser que já encarnou sob todas as condições em que nós existimos – mesmo que tenha isso ocorrido em outro universo, que não seja este que conhecemos pelas vias dos básicos sentidos humanos –. O Pai e o próprio Jesus têm origem determinada, início, são perpétuos, eternizados. Vivem nos “universos holográficos” de acordo com os seus graus de evolução: a parte do holograma universal em que o Pai se encontra abrange a parte holográfica do Filho, o universo deste envolve os hologramas dos “santos”, dos espíritos relativamente muito evoluídos, até o holograma em que vivemos sob envoltório material denso. O encaixe dos “hologramas universais” é infinito, assim como os deuses personificados também o são; por isso mesmo (por ser infinita), essa personificação de Deus faz de cada parte o Todo, pois o Todo está unificado pelo Deus Impessoal: Causa primária de todas as coisas (realmente infinito e eterno),  que emana da fronteira imaginária das infinitas partes holográficas e habita em toda a parte sob o conceito de Espírito Santo.
Quando Jesus disse “Vós sois deuses”, não estava usando figura de linguagem, fazia referência ao grau de evolução de cada um de nós (hologramas autoconscientes).
 
 Transcrevo a seguir trecho do artigo de minha autoria intitulado “Deus crê em Deus que crê em Deus que crê em Deus...”:
 
“Também o Pai a quem Jesus tantas vezes se referiu não é ‘a causa primária de todas as coisas’, mas, sim, a personificação de Deus, uma entidade em altíssimo grau de evolução, da qual Jesus é assessor direto para as questões referentes à humanidade terrena. ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim.’  João, 14 - 6.
 
Quando Jesus afirmou ‘Eu e o Pai somos Um’, ele fazia referência à união entre as criaturas através do Espírito Santo (‘inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’), o Deus eterno e infinito [a Justiça Divina], aquilo de que jamais desvendaremos o mistério de sua natureza íntima em toda extensão; do contrário, não seria eterno, infinito.”
 
Onipresença, Onisciência e Onipotência dos deuses em evolução
 
A chave da onisciência e da onipotência está na consciência da nossa relativa onipresença. Relativa inclusive para o Deus personificado Pai, para Deus-Jesus, para todos os deuses-“santos”, deuses-espíritos relativamente bem evoluídos, etc. Os supra-humanos, vivendo sob roupagem de matéria quintessenciada.
 
Ser onipresente, na condição de ser humano, não é poder estar de corpo presente em todos os lugares, também não é a simples ação do fenômeno da ubiqüidade (isso também vale para um deus personificado, em qualquer grau evolutivo, até mesmo o Pai). Ser onipresente, para nós aqui na Terra, é respeitar o nosso semelhante (ou igual), é ter consciência de que não somos apenas indivíduos, mas que fazemos parte da Humanidade. Ser onipresente é ter consciência de que aquilo que faço aqui e agora repercute em todo lugar, sem limite preestabelecido, em todo o universo. É, por assim dizer, o “efeito borboleta” que não pode ser facilmente detectado, mas somente intuído. E as nossas ações, quando praticadas sob essa consciência de onipresença, podem nos imbuir de uma sensação de o quanto somos, igualmente de forma relativa, oniscientes, e, daí, aflorar a sensação de onipotência. Basta agora nos impregnar do sentimento de humildade, concluindo que nossa onipresença, tanto quanto a onisciência e onipotência, é relativa ao estado evolutivo de nossa consciência.
 
Conscientes de onipresença são os africanos, que dizem: “Eu existo porque nós existimos”. E os “civilizados” foram lá ensinar religião a eles. E a nossa filosofia científica também foi lhes dizer: “Penso, logo existo”. Ora, as pedras não pensam, mas elas também existem. Talvez fosse mais racional pensar e dizer: “Penso, logo sei formular conceito de tudo que existe”, mesmo duvidando desses conceitos, ou, de preferência, sempre duvidando mesmo!
 
Penso, logo sei formular conceito de tudo que existe ou provavelmente deve existir, inclusive sobre a existência de Deus.
 
Já foi dito que se a Teoria do Big Bang, naquilo que diz respeito à origem do universo – não, à simples evolução – fosse um fato realmente comprovado, não teria mais um caráter especulativo, não seria mais simples teoria hipotética; mas, sim, um tratado científico incontestável, verdade absoluta que ninguém poderia chamar de absurda. Entretanto, com a “verdade absoluta”, estaríamos hoje trabalhando mecanicamente, apenas para observar os efeitos do Big Bang e preparar a “lavoura” contra ou a favor de tais efeitos. Não precisaríamos de cosmólogos estudando a origem (causa) do universo, mas apenas preocupados com a evolução, os efeitos. Seria um trabalho mecânico, tanto quanto trabalhar como operário numa linha de montagem industrial.
 
Por que o homem de ciência precisa ter fé na Ciência? Porque aquilo que a Ciência ainda não revelou é o que faz ela própria se mover. Não é o que temos cientificamente provado que move a ciência. Os louros das vitórias vão ficando pra trás, e os cheques de Prêmio Nobel muitas vezes são empregados para dar continuidade à luta. Aquilo que a Ciência ainda não conseguiu provar ou alcançar é o que realmente a estimula.
 
Por que precisamos ter fé na existência de Deus? Porque a verdade absoluta (a certeza: conhecimento perfeito e indiscutível) sobre a sua origem e existência faria de nós “deuses perfeitos”, completos, seria o fim, A fé, portanto, não impõe dogmas; pelo contrário, a fé nos conduz à busca da compreensão do que seja Deus, e isso se traduz apenas em atividade intelectual, não em heresia ou ateísmo. E só temos como assimilar, de forma um pouco mais evidente, aquilo que venha a ser Deus Personificado, que se manifesta na nossa consciência em evolução. E devemos simplesmente referenciá-lo com devido respeito, sem necessidade de adoração fanática, respeito que devemos ter uns com os outros, imbuídos da consciência de que “Eu existo porque nós existimos”, Essa é a mesma reverência que devemos a Deus Impessoal, a Justiça Divina, Inteligência Suprema, Causa primária de todas as coisas (Átomo Primordial), o Infinito e o Eterno (infinito-eterno), pois Este também não exige de nós qualquer postura de adoração, mas tão-somente de compreensão intuitiva de sua existêcia, para que nos sintamos, cada vez mais, à sua semelhança.
 
***
 
PS: O filme Matrix só me surpreendeu com uma frase. Foi quando um personagem, observando outro em outra dimensão, falou preocupado: “Ele está começando a acreditar” (mais ou menos isso). Quase caí da cadeira!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os publicitários e suas angústias existenciais

“IDIOTIZADOS” & “IDIOTIZADORES”

Fernando Soares Campos
Por Fernando Soares Campos

O Observatório da Imprensa publicou artigo de minha autoria intitulado “Os tiros pela culatra da propaganda comercial, [Publicado originalmente no blog redecastorphoto sob o título:A propaganda comercial anda dando tiros pela culatra] abordando questões referentes às mensagens publicitárias e tendo como alvo principal de minhas críticas o comportamento das agências de propaganda diante de suas empresas-cliente e os procedimentos por elas adotados para, em muitos casos, convencer o consumidor a comprar algodão por veludo.

O artigo recebeu os comentários do experiente publicitário Fabio Rebouças, que assim se manifestou:

Fábio Rebouças em
mensagem subliminar
“Sr. Fernando Soares Campos, gostaria que o senhor, do alto de seus conhecimentos e suas experiências em publicidade, elucidasse, afinal, qual rumo devemos tomar para reverter esta situação.
Suas conclusões, seguramente baseadas em pesquisas e estudos sérios sobre a atuação e o método de diversas agências, e não apenas em constatações rasas e opinião obtida na poltrona da sala de estar, servem como alerta aos “idiotizados”. Mas e quanto a nós, “idiotizadores”? Como posso mudar os meus hábitos? Como resistir à tentação de aplicar toda a sorte de ferramentas ardilosas que aprendemos nos calabouços de instituições de ensino de fachada e as traquitanas elaboradas no trabalho do dia-a-dia para ludibriar e hipnotizar inocentes? Eu também estou farto de assistir e criar ideias falaciosas e infundadas. Penso, noite após noite, nos milhões dos clientes que costumo brincar (guardo boa parte no cofre para os processos, como bem lembrou um comentarista) e o quanto engano as pessoas, alvos de meu grande poder persuasivo. Há uma saída? Há uma opção louvável? Eu poderia ter sido médico, mas temia não conseguir cumprir o juramento hipocrático ao obedecer às regras exclusivas dos planos de saúde; poderia ter sido advogado, mas temia ter de defender um criminoso em nome da imparcialidade; poderia ter sido jornalista, mas temia escrever artigos tendenciosos, preconceituosos e com nenhuma outra pretensão sem ser a de exaltar e escarrar na face dos meus leitores, indiscriminadamente, todas as minhas frustrações e forma simplista e genérica de ver o mundo à minha volta. Ainda não sei o que devo fazer a partir de agora. Acho que vou até o posto Ipiranga, tomar uma Pepsi. Pode ser?”

Exposição pública

Ainda no início da leitura dos comentários do Fabio, senti o sutil caráter de ironia com o qual ele tenta desqualificar minhas conclusões a respeito das atuações e métodos utilizados pelas agências de propaganda, que têm o propósito de convencer empresas-cliente a comprarem suas ideias mirabolantes, ao mesmo tempo em que pretendem persuadir consumidores a adquirir produtos. A sutileza de Fabio, a meu ver, se fundamenta no fato de que o texto lhe pareceu calcado em supostas pesquisas e não seria fruto de “constatações rasas e opinião obtida na poltrona da sala de estar”.

Apesar de afirmar que não acredita nessa hipótese, torna-se evidente que o publicitário tentou apenas se esquivar da aplicação direta de um argumento ad hominem, desqualificando a validade da argumentação de um suposto Homer Simpson, um “da poltrona”. Ou, no mínimo, de um cara fora do métier. Realmente não sou do ramo; sou, como tantos milhões de pessoas em todo o mundo, tão-somente vítima dos experts da área. Entretanto, publicitário, no seu estrito âmbito de atuação, não é médico, advogado nem jornalista, mesmo assim Fábio garante que não optou por nenhuma dessas profissões porque “temia” agir como esses profissionais por ele generalizados como classes desonestas. Contudo, ele assume a conduta de um publicitário enganador. Quer dizer, preferiu transportar para a publicidade o comportamento ignominioso que tentou evitar na prática de outras profissões. Nesse caso, Fábio não “temia” coisa nenhuma, apenas optou por aquilo que, talvez, tenha lhe parecido mais rendoso e que faria de si um profissional o mais incógnito possível; afinal, um publicitário não é figura tão exposta ao público quanto um médico, advogado ou jornalista.

Código de ética

“Há uma saída? Há uma opção louvável?” Eu diria que, do que ele precisa, não é bem de uma “saída”, mas, pelo contrário, de uma “entrada”. A saída ocorreu quando se decidiu por uma opção repulsiva porque, aparentemente, “o mundo é dos nets”, quero dizer, dos mais espertos. O problema é que malandro demais se atrapalha, pois esse acredita que a resto da humanidade é trouxa. Freud falou de ego, superego, id, inconsciente, mecanismos de defesa, intuição e tantos outros atributos da mente humana que foram posteriormente alvos de pesquisas, estudos e conclusões complementares às suas elucubrações. Há, porém, quem acredite que esse engenhoso sistema mental funciona apenas de forma passiva, sujeitando-se à aplicação de psicologismos acadêmicos. O problema da maioria dos publicitários é acreditar que “na poltrona” só há passivos nets, quando felizmente existe um considerável número de nerds que se incomodam sem saber muito bem o porquê de suas inquietações, mas não deixam passar batido, buscam se informar, meditam e tiraram suas próprias conclusões.

“Mas e quanto a nós, “idiotizadores”? Como posso mudar os meus hábitos? Como resistir à tentação de aplicar toda a sorte de ferramentas ardilosas que aprendemos nos calabouços de instituições de ensino de fachada e as traquitanas elaboradas no trabalho do dia-a-dia para ludibriar e hipnotizar inocentes? Eu também estou farto de assistir e criar ideias falaciosas e infundadas.”

Na verdade, o comentador já não está falando de simples “hábitos”, mas, sim, de arraigadas viciações. Afora o seu entrelinhado propósito de ironizar, provavelmente identifica-se como “vítima” de cruel dependência. Nem todo jornalista (ou escritor) pretende “exaltar e escarrar na face dos meus [seus, deles] leitores, indiscriminadamente, todas as minhas [suas, deles] frustrações e forma simplista e genérica de ver o mundo”. Talvez algo o impeça de ver que muitos desses profissionais se pautam por um código de ética; melhor, por uma consciência iluminada, e certamente não acredita que eles existam em maioria (o advento da internet já revelou alguma coisa nesse sentido).

Insights de genialidade

O poder é privilégio, e privilégio é mimo para minorias. À maioria resta a frustração e consequente mudança de atividade profissional ou adaptação dessa a funções nem sempre congêneres. Isso invariavelmente ocorre em vista da exacerbada concentração de poder e da repressão. Mas frustração não autoriza atitude desvairada. Se eu sou um “publicitário frustrado”, isso não me dá o direito de exaltar e escarrar minhas frustrações na cara de leitores, mas escarro, sim, na cara da elite privilegiada de publicitários igualmente frustrados por terem que agir de acordo com a ditadura do deus mercado.

Eu não escrevi aquele texto para esclarecer “idiotizados”, como Fábio insinua, pois os instrumentos e espaços que uso na internet não são bem as praias de idiotas, pois idiota é apenas “seguidor”, não é propriamente leitor. Quanto aos “idiotizadores”, os muito espertos, esses não costumam perder tempo com grunhidos. Grunhidos tuiteiros, por exemplo, só servem para emprenhar seus egos prostituídos. Na minha condição de “publicitário frustrado”, eu teria, sim, consideráveis dicas para a produção de propaganda comercial que atendesse aos princípios éticos com criatividade e poder de persuasão. Certamente, isso não é objeto tão raro; a gente identifica peças publicitárias elaboradas sob certo grau de inteligência. Raros são os insights de genialidade; mas aí seria exigir demais daqueles que se encontram em crises existenciais provocadas pelo dilema de ser ou não ser... Optando finalmente pelo “Sou, mas quem não é?”


texto enviado pelo autor

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A propaganda comercial anda dando tiros pela culatra

Fernando Soares Campos

Propaganda comercial enganosa é aquela que tenta passar gato por lebre, quando a publicidade induz o consumidor a comprar um produto ou adquirir um serviço com certas vantagens e benefícios que, na verdade, a coisa não os possui.

Bom, até aí morreu Neves.

As técnicas para elaborar mensagens persuasivas e gerar eficientes peças publicitárias são, em geral e por si mesmas, enganosas.

Os métodos empregados na criação das mensagens se fundamentam em falácias, acreditando-se que estas não serão devidamente decodificadas pelo público-alvo; portanto, os publicitários geralmente apostam na ignorância do público e não buscam modificar comportamentos, idéias ou sentimentos, como muita gente acredita que seja esse o objetivo das propagandas. Tentam simplesmente consolidá-los.

A mudança comportamental diz respeito tão-somente à escolha de determinado produto ou serviço, quando o consumidor é estimulado a decidir entre coisas aparentemente similares, optando pelo produto supostamente mais vantajoso ou benéfico aos seus propósitos ou ao seu bolso.

Quando se define um público-alvo, provavelmente já se leva em conta as características das pessoas visadas, portanto, falar em mudança de comportamento delas seria pretender que a propaganda comercial que tiver como objetivo alcançar pessoas idiotizadas (a ação mais comum nas propagandas) tenha também o propósito de transformá-las em gente mais esperta, fazendo com que suas idéias pouco desenvolvidas se ampliem e que seus sentimentos passem a ser mais influenciados pela razão.

Ora, idiotas são idiotas, e, no caso de serem visados como potenciais consumidores, nenhum publicitário vai querer mudar seus comportamentos, idéias e sentimentos; querem mesmo é que reajam exatamente como são: idiotas.

As mudanças de comportamento (sem mexer em nada que represente desenvolvimento de idéias ou reavaliação dos sentimentos) são mais amplas que as verificadas em restrito público-alvo de publicidades. Elas dizem respeito a toda a sociedade, alcançam todos os cidadãos e consumidores e são de responsabilidade dos fabricantes dos produtos; não, de seus instrumentos de divulgação: as agências de propaganda.

A mudança comportamental mais acentuada que se pode verificar no mercado consumidor da atualidade está relacionada com a dinâmica dos avanços tecnológicos, praticamente obrigando (não simplesmente persuadindo) o consumidor a mudar de hábitos.

Para melhor entender essa questão, leia a crônica de Eduardo Galeano intitulada “Caí no mundo e não sei como voltar” (basta colocar esse título num site de busca). É uma das mais interessantes abordando o tema.

Tempos atrás, a propaganda comercial destacava-se por um acentuado interesse em promover o consumidor a um status bem mais elevado do que a verdadeira condição em que ele vivia.

A veiculação de imagens, encenação de atitudes e o emprego de sentenças formavam um conjunto que tinha como objetivo inflar o ego do consumidor, fazendo o incauto crer que aquilo lá seria o retrato perfeito de sua posição social, ou, pelo menos, criando a ilusão de que, com o uso do produto que lhe estão mostrando, se enquadraria entre os eleitos. O objetivo, nesse caso, é fazer o mais estúpido dos consumidores acreditarem que usando aquele produto poderia ser considerado, por exemplo, um líder, ou um pai exemplar, ou um profissional competente, coisas assim. Certamente isso ainda é bastante empregado, com razoável habilidade na conjunção de imagens, falas e interpretação dos atores. Mas não é esse o método que atualmente tem predominado nas propagandas comerciais.

Muitas vezes apresentam uma mulher tratando o marido como se ele fosse um babaca qualquer, sem vontade própria. Confundem emancipação feminina, que ainda é uma coisa bastante discutível, com o domínio da mulher sobre o homem, condição esporádica, identificável em reduzido número de lares. Não raro jogam um de encontro ao outro, ao invés de uni-los em torno do produto. Devem achar tudo isso muito engraçado. E às vezes o é, não questiono. A questão é saber se aquilo realmente incrementa as vendas ou se funciona como um tiro pela culatra, inibindo a comercialização do produto.

Eu, por exemplo, não me conformo em ver que muitas empresas aceitam que as agências de propaganda relacionem o consumidor-direto de seus produtos à imagem de um idiota qualquer.

Vejamos o caso dessa última campanha dos postos Ipiranga.

Um sujeito, com cara e jeito de babaca, chega em casa e encontra a mulher na cama, nua, explicitamente nervosa devido à inesperada chegada do marido. O espanto da mulher indica que ela imaginava que o companheiro ia demorar a voltar pra casa. Tem homem escondido por tudo o quanto é canto da casa: nos armários, no banheiro, embaixo da cama, até no teto. Haja Ricardão! O babacão do marido não percebe nada e justifica sua volta repentina dizendo que foi “ali no posto Ipiranga” e lá fez tudo que tinha de fazer: operação bancária, lanche, comprou cigarros e até abasteceu o carro, coisas assim. Enquanto isso, os marmanjos que desfrutaram da beldade saem em disparada pela porta da frente, todos seminus.

Agora imagine alguém no ambiente de trabalho elogiando os serviços dos postos Ipiranga:

– Os postos Ipiranga são uma mão na roda! Lá eu tenho de tudo, não perco tempo andando por aí de loja em loja.

Um gaiato qualquer pergunta:

– Quando você vai a um posto Ipiranga, avisa à sua mulher?

– Hein?! O que você quer dizer com isso?!

A mensagem da propaganda certamente tem outro objetivo, mas, a meu ver, ela diz que clientes dos postos Ipiranga são idiotas, cornos ingênuos.

Mas tem coisa pior na tela. É o caso da campanha da Pepsi.

De cara, na abertura da peça publicitária, a gente já entende que o freguês pediu uma coca-cola, pois ela começa com o garçom dizendo: “Só tem Pepsi, pode ser?” A frase também pode ser entendida assim: “Acabou-se a coca-cola, sobrou essa coisa aí, que quase ninguém toma. Compro isso porque a cota de coca a que tenho direito não atende à demanda. Vai esse xarope brabo?!”

Fazer o quê? Tudo bem, “pode até ser bom”, quem sabe?

Ora, isso é lá maneira de se oferecer um produto?! O perfil do consumidor é do cara que aceita qualquer sobra, aquilo que ninguém mais quer, o cara que se conforma com o que os outros rejeitaram. E vira cobaia: “Pode ser bom”. Também pode ser ruim, péssimo!

O consumidor é cliente do fabricante ou comerciante do produto; não, da agência de propaganda. Desta, ele é apenas vítima. A agência precisa enganar o público-alvo com suas mensagens falaciosas e igualmente engambelar a empresa-cliente, tentando provar que suas criações são realmente originais, inovadoras e capazes de alavancar as vendas.

Ao apresentar sugestões (de roteiro, arte-final, leiaute, mensagem...) a fim de que o cliente aprove seu projeto de peça publicitária, a agência deve estar preparada para refutar ou aceitar questionamentos. Mas o que acontece se alguém demonstrar descontentamento ao identificar que a imagem do consumidor de seu produto retrata o perfil de um idiota? Talvez o representante da agência tente convencê-lo de que, hoje, quanto mais idiota, melhor. Estaria ele fundamentado em quase tudo que há muito tempo é veiculado na televisão brasileira: filmes, novelas, telejornais e os próprios comerciais.

Ao encerrar uma campanha publicitária, a empresa certamente deve fazer avaliação dos seus resultados. E quando esses resultados não correspondem às expectativas, as agências, de alguma maneira, saem pela tangente: culpam os veículos de comunicação, os horários e número de inserções, crise de mercado, ou seja lá o que for. Dificilmente reconhecem seus próprios erros, como a inversão das inversões de valores em que embarcaram nos últimos tempos.

Com esse gênero de propaganda, do tipo em que o consumidor em potencial é apresentado como o infeliz idiota da piada, as agências estão apostando mesmo é na ignorância de seus próprios clientes

Se alguém se aproximar de você tentando cooptá-lo para se juntar a ele num empreendimento ardiloso contra terceiros, acredite que o primeiro a quem ele está tentando enganar é a você mesmo. As empresas que se tornam clientes das agências de propaganda deveriam atentar para esse suposto princípio.