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terça-feira, 4 de março de 2014

Como avaliar Nietzsche?

 A.P.Santos
 
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Começo com uma reflexão: livro é bom, televisão é ruim. Se num programa de televisão sobre Nietzsche uma fala, um pensamento, me chama a atenção, eu não posso me deter em considerações sobre o que foi dito porque a história continua se passando na tela e eu tenho que acompanhá-la. É claro que, em se tratando de um vídeo, eu posso interromper a exibição e continuar vendo depois. Mas nem sempre isso é possível. O fato é que a televisão não respeita os nossos ritmos. Numa palestra a que eu esteja presente, posso pedir ao palestrante que explique melhor um determinado ponto. Num programa de televisão jamais.

Relia eu hoje “O AntiCristo”, de Nietzsche, porque não o entendi direito na primeira leitura. De repente, me dei conta de algo que eu não havia percebido antes. Parei a leitura e fiquei imaginando que tanto Freud quanto Marx devem ter lido Nietzsche. Obviamente que Marx, que morreu em 1883 (tinha o Nietzsche então 39 anos), não poderia ter lido o livro, que é de 1888, mas a impressão que eu tenho é que o ateísmo de Nietzsche influenciou tanto Marx quanto Freud.

Freud tinha 32 anos de idade quando “O AntiCristo” foi lançado. O que ele teria achado desse trecho?

Que ninguém se deixe induzir em erro: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético. A força, a liberdade que vem da força e sobreforça do espírito prova-se pela skepsis. Homens de convicção, em tudo o que é fundamental quanto a valor e desvalor, nem entram em consideração. Convicções são prisões. É algo que não vê longe o bastante, que não vê abaixo de si: mas para poder tornar a palavra sobre valor e desvalor, é preciso ver quinhentas convicções abaixo de si - atrás de si... Um espírito que quer algo grande, que quer também os meios para isso, é necessariamente cético. A liberdade diante de toda espécie de convicções pertence à força, o poder-olhar-livremente ... 

A grande paixão, fundamento e potência de seu ser, ainda mais esclarecida, ainda mais despótica do que ele mesmo, torna seu intelecto inteiro a seu serviço; torna-o inescrupuloso; encoraja-o até mesmo a meios sacrílegos; concede-lhe, em certas circunstâncias, convicções. A convicção como meio: muito só se alcança por meio de uma convicção. A grande paixão usa, consome convicções, não se submete a elas − sabe-se soberana − ao inverso, a necessidade de crença, de um incondicionado de sim e não, de carlylismo, se me permitem essa palavra, é uma necessidade da fraqueza. O homem da crença, o “crente” de toda espécie, é necessariamente um homem dependente - um homem que não é capaz de se propor como fim, que em geral não é capaz de propor fins a partir de si.

O “crente” não se pertence, só pode ser meio, tem de ser consumido, necessita de quem o consuma. Seu instinto dá a mais alta honra a uma moral da privação de si: a esta o persuade tudo, sua esperteza, sua experiência, sua vaidade. Toda espécie de crença é em si mesma uma expressão de privação de si, de estranhamento de si...

Sigmund Freud
por Carlín
Que se pondere quão necessário é, para a maioria, um regulativo que a ligue e firme de fora, o quanto a coação ou, em um sentido superior, a escravidão, é a única e última condição, sob a qual o ser humano fraco de vontade, sobretudo a mulher, prospera: assim se entende também a convicção, a “crença”.

O homem da convicção tem nela sua espinha dorsal. Muitas coisas não ver, em nenhum ponto ser imparcial, ser partidário de ponta a ponta, ter uma ótica rigorosa e necessária em todos os valores − somente isso condiciona que uma tal espécie de homem subsista em geral. Mas com isso ela é o oposto, o antagonista do verídico − da verdade ...

O crente não está livre para ter em geral uma consciência para a questão “verdadeiro” e “não-verdadeiro”: ser honesto nesse ponto seria desde logo sua ruína.

O condicionamento patológico de sua ótica faz do convicto o fanático − Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon − o tipo oposto ao espírito forte, tornado livre. Mas a grande atitude desses espíritos doentes, desses epiléticos do conceito, faz efeito sobre a grande massa − os fanáticos são pitorescos, a humanidade prefere ver gestos do que ouvir razões ...

De fato, faz uma grande diferença, com que finalidade se mente: se com isso se conserva ou destrói. Pode-se estabelecer entre cristão e anarquista uma perfeita equação: sua finalidade, seu instinto, visa somente à destruição. A prova desta proposição, basta lê-Ia na história: esta a contém com assustadora clareza.

Se acabamos de travar conhecimento com uma legislação religiosa cuja finalidade era “eternizar” a suprema condição para que a vida prospere, uma grande organização da sociedade − o cristianismo encontrou sua missão em dar fim a uma tal organização, justamente porque nela a vida prospera. Ali, o rendimento em razão de longos anos de experimento e de insegurança deveria ser aplicado em utilidades mais distantes, e ser tão grande a colheita, tão rica, tão completa quanto possível: aqui, ao contrário, da noite para o dia, a colheita foi envenenada ... Aquilo que se erguia aere perennius, o imperium Romanum, a mais grandiosa forma de organização sob condições difíceis que até agora foi alcançada, em comparação à qual todo o antes, todo o depois, é fragmento, remendo, diletantismo - aqueles santos anarquistas se fizeram uma “devoção”, de destruir “o mundo”, isto é, o Imperium Romanum, até que não restasse pedra sobre pedra − até que mesmo os germanos e outros rústicos puderam tornar-se senhores sobre ele ...

O cristão e o anarquista: ambos décadents, ambos ineptos a atuar de outro modo, a não ser dissolvendo, envenenando, enfezando, sugando sangue, ambos o instinto do ódio mortal contra tudo o que está em pé, tem estatura, tem duração, promete futuro à vida ...

O cristianismo foi o vampiro do Imperium Romanum − o descomunal feito dos romanos, conquistar o chão para uma grande civilização, que tem tempo, ele o desfez da noite para o dia − ainda não se entende isso? O Imperium Romanum que conhecemos, que a história da província romana nos ensina a conhecer cada vez melhor, essa admirável obra de arte do grande estilo, foi um início, seu edifício estava calculado para se comprovar com os milênios − até hoje nunca se edificou assim, nunca sequer se sonhou edificar em tal medida sub specie aeterni!  

Essa organização era firme o bastante para suportar maus césares: o acaso das pessoas não pode fazer nada em tais coisas − primeiro princípio de toda grande arquitetura. Mas não era firme o bastante contra a mais corrupta espécie de corrupção, contra o cristão ...

Esse verme secreto que à noite, na neblina e na ambiguidade, se aproximava sorrateiro de todos os indivíduos e sugava de cada indivíduo a seriedade para coisas verdadeiras e, em geral, o instinto para realidades, esse bando covarde, feminino e açucarado, passo a passo afastou as “almas” desse descomunal edifício − aquelas valiosas, aquelas virilmente nobres naturezas, que sentiam na causa de Roma sua própria causa, sua própria seriedade, seu próprio orgulho.

A tortuosidade de carolas, a clandestinidade de conventículos, conceitos sombrios como inferno, como sacrifício dos inocentes, como unio mystica no beber sangue, antes de tudo o fogo lentamente atiçado da vingança de chandala − isso se tornou senhor sobre Roma, a mesma espécie de religião a cuja forma preexistente já Epicuro havia feito guerra. Leia-se Lucrécio para compreender o que Epicuro combateu, não o paganismo, mas “o cristianismo”, quer dizer, a corrupção das almas pelo conceito de culpa, pelo conceito de castigo e de imortalidade.

Combateu os cultos subterrâneos, o escorregadio cristianismo latente e negar a imortalidade era, já naquele tempo, uma efetiva redenção − e Epicuro teria vencido, todo espírito respeitável no império romano era epicurista: então apareceu Paulo ...

Paulo, o ódio-de-chandala feito carne, feito gênio, contra Roma, contra “o mundo”, o judeu, o judeu eterno par excellence... O que ele adivinhou, foi como, com o auxílio do pequeno e sectário movimento cristão, à margem do judaísmo, se pode acender um “incêndio do mundo”, como, com o símbolo “Deus na cruz”, se pode somar tudo o que está por baixo, tudo o que é secretamente sedicioso, a inteira herança de agitações anarquistas dentro do império, em uma potência descomunal. “A salvação vem dos judeus”.

Karl Marx
O cristianismo como fórmula para suplantar os cultos subterrâneos de toda espécie − o de Osíris, da Grande Mãe, de Mithra, por exemplo − e somá-los: nessa intuição consiste o gênio de Paulo. Seu instinto estava tão seguro nisso, que as representações, com as quais aquelas religiões de chandala fascinavam, ele as pôs, com impiedosa violência contra a verdade, na boca daquele “salvador”, de sua invenção − e não somente na boca − que; deste, ele fez algo que também um padre de Mithra podia entender ...

Esse foi seu instante de Damasco: ele compreendeu que tinha necessidade da crença na imortalidade para desvalorar “o mundo”, que o conceito “inferno” ainda se tornaria senhor sobre Roma − que com o “além” se mata a vida ...

Nihilist und Christ, niilista e cristão: isso rima, isso não rima apenas ...

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Eu não sei o que Freud pensou do “O AntiCristo”, mas eu pensei que se o cristianismo destruiu um império como o romano é bem capaz de estar destruindo o império de hoje, que é o “Império Estadunidense”. Desde o lançamento, pelos soviéticos, do Sputnik I, que os norte-americanos estão desconfiados de que existe algo errado com o sistema educacional deles.

Nos anos 1990s o Bill Clinton pediu à comunidade científica que estudasse o assunto de forma mais aprofundada, o que era um sinal claro, de que o problema continuava. E quando ouço falar no avanço das igrejas pentecostais nos Estados Unidos, com pastores eletrônicos ganhando fortunas e com imensas audiências, ao mesmo tempo em que vejo professor norte-americano escrevendo livro dizendo que “nunca viu geração tão idiota quanto a dos Estados Unidos de hoje”, eu começo a pensar que o Nietzsche descobriu a fórmula infalível para a destruição de impérios.

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Quanto ao “Como Avaliar Nietzsche”, tendo em vista que todos devemos ter um consultor ou um conselheiro para nos orientar, embora nem sempre compreendamos o que eles dizem (o Roosevelt, depois de conversar com Keynes, disse para um assessor, que queria saber o que o presidente tinha achado do famoso economista: “Ele é, certamente, um grande homem, mas eu não entendi nada do que ele falou”.

Bertrand Russel
O Roosevelt é a prova cabal de que um presidente não precisa entender das coisas, desde que saiba ouvir as pessoas certas), eu recorri ao meu “consultor filosófico”, o Bertrand Russell.

Mas o Nietzsche é uma figura complexa demais para que eu possa resumir, em poucas palavras o que o Russell disse dele.

Limitar-me-ei a dizer que, segundo Russell, “a crítica nietzschiana das religiões e da filosofia é dominada inteiramente por motivos éticos” e que “A moral de Nietzsche não é de indulgência consigo mesmo em nenhum sentido comum: acredita na disciplina espartana e na capacidade de suportar a dor, como também de infligi-la, para fins importantes. Admira acima de tudo a força de vontade”.

Isso é muito pouco mas eu espero que possa motivar algumas pessoas a estudar a obra desse importante filósofo.
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[*] Alfredo Pereira dos Santos (7 de abril de 1943). Nascido e criado no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Foi Salva-Vidas durante algum tempo e formou-se em Engenharia, Estatística e Matemática, mas  fixou-se na Informática, que se tornou sua profissão. Criança e adolescente, jamais assistiu TV. Lia muito. Tem um casal de filhos formados (ele, História, ela, pedagogia). Deixou de escrever poesia depois de receber demolidora crítica do silêncio de dois poetas, um consagrado e o outro nem tanto. Enxadrista e colunista de Xadrez tendo escrito um livro sobre o assunto: Cartilha de Xadrez.


terça-feira, 12 de março de 2013

Teatro do absurdo II






Alfredo Pereira dos Santos



Sobe o pano

Cenário: um pesquisador observa, diante do computador, as mensagens enviadas pelos alunos de um curso de matemática à distância, oferecido por uma universidade pública federal.

Recorrentes nas mensagens são as reclamações sobre a falta de atenção dos professores em relação às dúvidas dos alunos. O pesquisador sabe que este é um aspecto importante que, certamente, irá merecer a atenção da universidade, mas o que lhe chama a atenção naquele momento é a maneira de escrever  dos alunos, que revela uma grande falta de conhecimento da norma culta da língua. Desse modo vai registrando os erros que encontra, fazendo observações.

Uma aluna escreve “xego no final”. Coisa estranha, comenta o pesquisador com os seus botões, como essa moça terminou o ensino médio e chegou à universidade sem conhecer o verbo CHEGAR.

De um aluno ele anota “É só mim falar o dia e hora que eu vou” e admite que o erro tem toda razão de ser num país onde até os professores dizem coisas como “pra mim fazer”, de modo que não é de se estranhar que os alunos os saiam imitando.

Pasquale Cipro Neto
Outra aluna escreve “para estar nos ajudando” e o pesquisador anota: “Até aqui a praga do gerundismo, tão denunciada pelo professor Pasquale Cipro Neto, já chegou”.

A próxima observação, de outra aluna, “Concerteza a internet nos oferece muitos vídeos bons” deixa o pesquisador sem ter o que dizer, tal a sua perplexidade. Ele passa para a mensagem de outra aluna e anota: “acho que deviam aver correção ou pelo menos o envio das resoluções para agente compreender melhor a matéria”. A estupefação do pesquisador vai aumentando, junto com a sua tristeza de começar a suspeitar de que o seu amado Brasil vai levar muitos anos para ensinar aos alunos a escrever razoavelmente bem.

O registro seguinte foi tirado da resposta de uma professora a um aluno em dúvida: “Um intervalo é um SEGUIMENTO de reta que pode incluir ou não seus extremos”. Nesse ponto o pesquisador teve ímpetos de se atirar pela janela, pois teve a confirmação do descalabro total. Uma professora que confunde SEGMENTO com SEGUIMENTO é a prova viva de que a recomendação de um ilustre gramático de que toda aula, de qualquer matéria, deve ser também uma aula de vernáculo está muito longe de ser seguida em nosso país. E o pesquisador pensa que seria de bom alvitre que as apostilas de português dadas aos estudantes novatos, contendo ensinamentos sobre verbos, substantivos e adjetivos, fossem também dadas a alguns professores. Curioso, pensa o pesquisador, eu imaginava que essas coisas de verbos e substantivos fossem aprendidas no ensino fundamental.

Luís Vaz de Camões
O próximo registro feito pelo pesquisador “A universidade deveriam ter suas próprias apostilas ou mudar para outras, pois estas oferecidas aos alunos não resolve quase nada porque os professores não seguem elas” o fez pensar no seguinte: “Precisamos tirar Camões do ostracismo”. E o fez pensar também no seguinte: “com tanto livro bom traduzido no Brasil, sem falar nos escritos por bons professores brasileiros, porque a universidade tem que ficar distribuindo apostilas aos alunos? Para que reinventar a roda? Por que não prestigiar os bons autores?”

O pesquisador até achou interessante a mensagem seguinte “SERIA INTERESANTE SE OS POLOS DE APOIO PRESENCIAL FICASSE ABERTOS NO PERIODO NOTURNO, LEVANDO EM CONTA, A DIFICULDADE DE QUEM TRABALHA DURANTE O DIA, SENDO ASSIM UM NÚMERO MOIR DE ALUNOS PODERIAM USUFLUIR DOS RECURSOS QUE O POLO TEM A OFERECER”, pois lhe ocorreu que USUFLUIR poderia ser um neologismo: USUFRUIR FLUINDO.

Outra aluna também reclama “Eu sugiro que tenha mais tutores nas disciplinas de matemática, cálculo e pré- cálculo, para nos dar respostas mais rápida. Porque precisei de ajuda dias antes da avaliação em uma questão de matemática e não obtive respostas. E justamente ela caiu na prova, e infeslimente não conseguir resovê-la”. Como resolver uma situação dessas?

Outra aluna protesta “Estou achando os prazos muito curtos, para realização dos trabalhos de informatica. Mau terminamos um já tem outro...Precisamos de um intervalo maior” e o pesquisador não pôde deixar de reconhecer que isso é MAU.

Outra aluna diz que “Sei que são vários polos mas estou anciosa pra ver as notas das provas” e o pesquisador começa a ficar ansioso, querendo dar a pesquisa por encerrada.

O pesquisador, contudo, é obstinado, anota “pessoas que sairam da escola a bastante tempo” e fica se perguntando porque as escolas não explicam aos alunos a diferença entre o artigo A (ou adjetivo, ou pronome, etc.) e o verbo HAVER?.

Outra aluna protesta contra aulas marcadas e desmarcadas “Boa...disse tudo ! Aqui no polo toda aula da materia de matematica e pre calculo é desmarcada. E isso ja vem desde outubro do ano passado. Tivemos prova sem se quer ter 1 aula da materia, e as materias de matemática sao dificeis, igual vc disse, tem coisa que o ensino médio não ensina. Ai não tem aula, eles postam um tanto de coisa no moodle que logico que vc não vai aprender sozinho...e agente fica desse geito impurrando as coisas com a barriga. O pessoal que mora aqui ta pagando um professor particular de matematica, ou seja, agente tem faculdade e tem que pagar alguem de fora para ensinar pois so tem 1 aula a cada 1 ou 2 meses, e mesmo assim muitas sao desmarcadas. So que igual agente que não mora aqui, fica complicado,muitos moram muito longe. Ta tudo tocado essa facul a distancia!”.

Finalmente, a última reclamação desse lote da pesquisa “Por favor professor como fazer os testes se as nossas dúvidas não forem respondidas? Pra falar a verdade não consegui aprender nada de função trigonométrica. Me socorre...”.

O pesquisador encerra, deprimido, a sua pesquisa e conclui que não se pode vituperar os alunos quando a própria universidade lhes recomenda a leitura de coisas como “Segundo os autores PALLOFF & PRATT, (2004) os cursos e programas on-line não foram feitos para todo mundo” que, para ele é uma tremenda bobagem, pois não existe nada que seja feito para todo mundo.

Nelson Rodrigues
Cai o pano.

A platéia se levanta em silêncio, alguns permanecem sentados, boquiabertos diante do que acabaram de ver. Alguns derramam “lágrimas de esguicho”, expressão que vem bem a calhar, pois bem poderíamos estar diante de uma daquelas peças do Nelson Rodrigues, no estilo de “Bonitinha, mas ordinária”, “Perdoa-me por me traíres” ou “Toda nudez será castigada”.

E choram por saber que o que acabaram de ver não se trata de ficção, mas a mais pura das realidades.

Alguns, que foram sós ao teatro, caminham cabisbaixos para as suas casas. Casais fazem comentários baixinhos. Grupinhos discorrem sobre o tema da peça. Alguns falam que o grande problema é a falta de leitura. Alguém diz que “o Brasil entrou na decadência sem ter atingido o apogeu, o que é coisa inédita na história da humanidade”. Um militar reformado, que estudou no Colégio Militar diz que “a culpa é dos malditos PEIDAGOGOS de hoje”. Um outro protesta, dizendo que “milico não tem moral para falar, pois fuderam com a educação nesse país”.

Alguém lembra uma frase do Nelson Rodrigues “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. O que explicaria tudo.

Como não podia deixar de ser, aparece alguém para botar a culpa na televisão, lembrando o pedido do presidente Obama, dos Estados Unidos, feito no Congresso daquele pais, para que os pais reduzissem o tempo que os filhos ficavam em frente ao aparelho de televisão.

Vai ficando tarde, o cansaço e o sono vão chegando, uns pensam “que se foda o mundo que eu não me chamo Raimundo”. Outros já estão com a vida ganha, já saíram da escola há muito tempo, os filhos estão criados, o problema não lhes diz respeito. Um outro se lembra que no dia seguinte vai ter que arranjar dinheiro para pagar a conta de luz, que está atrasada. Alguém pensa no encontro marcado para o dia seguinte. Ademais, há que se pegar cedo no batente, no outro dia.

Boa noite, até amanha, durmam bem.

E assim caminha a humanidade.


domingo, 10 de março de 2013

Teatro do absurdo


Alfredo Pereira dos Santos

Cenário: laboratório de informática de um pólo de ensino a distância de uma universidade federal. Dia de prova de matemática.

A prova versará sobre temas como equações exponenciais, logaritmos e trigonometria, coisas que antigamente eram aprendidas no ensino fundamental e médio mas que hoje a universidade precisa ensinar, pois os alunos conseguem passar no vestibular sem as ter aprendido.

Teorema de Pitágoras
Uma aluna diz a um colega que está completamente por fora da matéria e pede ajuda. Em todos os demais ramos da matemática do ensino médio essa aluna apresenta as mesmas dificuldades. 

No meio da explicação aparece o “Teorema de Pitágoras”. A aluna em dúvida não conhece o teorema e diz que vai anotar o seu enunciado numa folha de papel. Ao se aproximar o fim da anotação ela pergunta:

-- Hipotenusa se escreve com I ou com H?

Desce rápido o pano. A platéia chora. Chora principalmente porque sabe que não se trata de ficção, mas de uma história real.

Pitágoras de Samos
Os espectadores saem e alguns, em grupos, se põem a falar sobre o futuro da personagem. Conseguirá ela superar as suas dificuldades e levar o curso a bom termo? Uns dizem:

-- Deus queira que ela consiga.

Pessimistas dizem:

-- Impossível, será muito difícil para ela recuperar o tempo perdido. Eu acho que ela vai desistir.

Um outro concorda e pergunta:

-- De fato, se ela tem dificuldades agora o que não dizer de quando chegar a hora de aprender Limites, Derivadas e Integrais?.

Um terceiro aventa a hipótese da universidade “baixar o nível”, facilitando a vida dessa aluna. Nada de novo sob o Sol, pois não dizem que até o Instituto Rio Branco e o Instituto Militar de Engenharia “baixaram o nível”, gerando o protesto de alguns? Um outro diz:

-- Eu já vi esse filme antes, com o aluno chegando ao terceiro período mas devendo matérias de períodos anteriores em que não consegue ser aprovado. De reprovação em reprovação ele acaba desistindo.

Alguém diz que: “

-- É um absurdo que uma universidade federal permita o ingresso de uma pessoa sem condições, para massacrá-la, gerando frustração e sofrimento.

As comparações surgem, inevitavelmente. Um espectador, que já esteve em Cuba quatro vezes e duas na China, fala sobre o sistema educacional daqueles países. Diz que:

-- O sistema educacional da China é o melhor do mundo e na média, os médicos cubanos são melhores do que os brasileiros, pois o ensino médio de lá é muito melhor do que o daqui, de modo que os alunos chegam à escola de medicina com muito mais base em química, física, biologia e matemática.

Ressalta que:

-- Cuba forma médicos aos borbotões e que é dessa quantidade que surge a qualidade.

Alguém pergunta:

-- Porque as nossas autoridades educacionais não vão ver o que está acontecendo em matéria educacional em Cuba e na China?

Um outro responde:

-- São realidades diferentes!

Procuram-se culpados e responsáveis. A ditadura militar de 1964 aparece como ré, por diversas ações e omissões. Alguém exclama:

-- São os famigerados acordos MEC-USAID!

A classe política é também arrolada no processo.

Um coronel diz que:

-- O Brasil não tem jeito, pois esse é o nosso KARMA.

Um professor universitário aposentado diz que:

-- O Brasil não deu certo e não vai dar .

Não falta quem diga que:

-- Os culpados são os alunos, que não querem nada com os livros.

Pais também são culpados:

...pois deixam os filhos muito tempo vendo televisão.

As opiniões se sucedem, as horas passam, o cansaço sobrevém e cada um vai para sua casa dormir. O tempo está bom e amanhã vai dar praia. Pela tarde tem jogo no Maracanã e à noite tem o FANTÁSTICO. Depois é dormir que segunda-feira é dia de batente.

E La Nave Va - Catherine Burg


domingo, 5 de agosto de 2012

O Cabaré das Crianças

Reflexões de um sociólogo mineiro

Alfredo Pereira dos Santos

Assim como quem quer fazer uma casa, e não entende de arquitetura ou engenharia, precisa consultar quem entenda do assunto, para entender esse nosso Brasil temos que consultar também quem entenda. Nesse caso nada melhor do que o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, cuja obra eu conheço de longa data, tendo na minha biblioteca todos os livros que ele escreveu e que consegui achar. O Cabaré das Crianças é um livro escrito em 1998 mas eu retornei a ele pelo fato de continuar atualíssimo. O Gilberto nos fala do “Brasil Crianção”, usando esta expressão para tratar de tema que tem sido objeto das minhas elucubrações recentes: o povo brasileiro é um povo infantilizado.

Gilberto Felisberto Vasconcellos
Essa não deve ser uma característica exclusivamente brasileira, uma vez que o doutor Freud, que morreu em 1939, já “tinha cantado a pedra” ao dizer que “o homem precisa deixar de ser uma eterna criança e aprender a enfrentar o mundo hostil”. Só que no Brasil os adultos abusam do direito de ser criança. A socióloga Bárbara Freitag chegou a dizer que setenta por cento da população brasileira adulta está na faixa mental de crianças de seis ou sete anos.

Feita a constatação resta-nos saber por que chegamos a este ponto. E ai eu digo: CONFESSO QUE ENTENDI.

Na quarta capa do livro o leitor já pode ter uma amostra do que o espera. Vejamos.

Nesta sociologia do cabaré infantil o leitor encontrará as conexões entre a menstruação prematura das crianças, o futuro seqüestro orgasmático na mulher adulta, a língua presa dos cantores, o infanticídio em massa, a prostituição infantil, a matança de pivetes, o sadomasoquismo dos programas de auditório e a humilhação do aposentado e da dona-de-casa.

O Cabaré das Crianças é o espelho perverso do mundo adulto e de suas relações sociais. Até hoje ninguém ainda contestou a seguinte verdade: a criança é o pai do homem!

Este livro traz uma reflexão profunda sobre a videopatologia da vida cotidiana brasileira a partir da década de 80.

A mulher e a criança do Terceiro Mundo são as vítimas mais sacrificadas dos atuais modelos energéticos, econômicos e midiáticos.

Nas orelhas do livro mais dicas, com alguns destaques feitos por mim:

Neste livro muito bem escrito - um ensaio literário que se filia à tradição de Montaigne - o tema da pedofilia é abordado através da psicanálise, da sociologia, do folclore e da crítica da cultura. Eis o ponto de partida, a cena primária do infans brasileiro: o coito danado entre a Casa Grande e a Senzala.

O autor não deixa de tecer considerações sobre o encontro do útero ameraba com o membrum virile português, do qual nasce o brasileiro, no amanhecer do século XVI. De 1500 à recente mutação antropológica, representada pela televisão, agrava-se sobremaneira a condição ágrafa da sociedade brasileira.

A escola foi substituída pela telenovela e pelos programas de auditório. Resulta daí a emergência deseducadora do cabaré para as crianças e famílias: a novela familiar contemporânea é pai, mãe, filho e programa de auditório.

De todos os lados se impõe a interpretação da carência do pai na cultura brasileira. Somos o país da imago paterna renegada: Tiradentes, Zumbi, Antonio Conselheiro, Getúlio Vargas.

Ao perguntar qual é o lugar da criança, logo nos damos conta de que o país todo está infantilizado. É inegável o traço sexual perverso na cultura. A criança torna-se comedora voraz: oral, anal e genital precoce. Está compelida a comer imagens e, através destas, come os detritos dos programas de auditório.

As relações pessoais acompanham a pobreza existencial das telenovelas e dos programas. É a acústica do curso tatibitati , ensurdecedora, sem silêncio e, portanto, sem conversa. E aí entra a questão da voz, objeto primordial para Freud, Lacan e Heidegger.

O idiotismo é a norma televisiva e radiofônica.

Brasil crianção. A ânsia dos órfãos é a característica psicológica fundamental d’O Cabaré das Crianças.

Isso ai foi só o hors d’oeuvre. O prato principal fica para depois. Até lá.
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segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Imprensa, o Direito e os “Justiceiros com as próprias mãos”


Alfredo Pereira dos Santos
Alfredo Pereira dos Santos

A Cleo vê televisão, coisa que eu faço raramente. Mas “pego uma casquinha” no que ela vê e anoto algumas coisas. Há pouco anotei algo que disse o jornalista e escritor Alberto Dines. O México já tinha imprensa no século XVI e o Brasil só veio a tê-la no século XIX. O Brasil foi o décimo segundo pais das Américas a ter imprensa. E disse mais o Dines: que os jornalistas publicavam o que os donos dos jornais queriam, que não havia essa liberdade que se apregoava, que a imprensa é isso e aquilo. Alguém que participava do programa perguntou se essa situação tinha mudado, ao que o Dines respondeu: MUITO POUCO.


Essas coisas para mim não constituem novidade, pois há décadas venho anotando coisas que confirmam essas misérias da imprensa. Jornais e redes de TV são empresas e, como tais, buscam o lucro e defendem os seus interesses. Se uma empresa que anuncia num jornal degrada o meio ambiente o jornal não vai fazer campanha contra. Empresas querem sobreviver e não vão se suicidar. Isso a gente entende. Mas justamente por entender isso é que eu TENHO QUE LER O JORNAL NAS ENTRELINHAS. Mas isso exige um certo background cultural e político, caso contrário e leitor sairá por ai repetindo, como papagaio, alguns disparates que os jornais publicam.

Agora mesmo, nesse momento histórico em que vivemos, alguns órgãos da nossa imprensa estão querendo fazer o papel de acusadores, juízes e decretadores de condenações de algumas figuras da nossa vida política. Mas quem disse que é esse o papel da imprensa? Quem lhes outorgou tal prerrogativa?

O discurso da moralidade e da indignação causa impacto nos espíritos menos esclarecidos (que constituem a grande maioria dos que lêem jornais e vêem programas de televisão) mas em geral não vai ao âmago das questões.

A ditadura militar de 1964 cassou mandatos de governadores e afastou secretários-de-estado e queria que eles fossem julgados por tribunais militares, ignorando que os acusados tinham direito a foro especial, ASSEGURADO PELA CONSTITUIÇÃO, em virtude da natureza elevada dos seus cargos. Naturalmente que, tanto os depostos quanto os afastados, entraram, através dos seus advogados, com pedidos de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF), obtendo acolhida a seus pedidos.

Aquela decisão do STF criou um sério impasse na harmonia e independência dos três poderes da República. Fato insólito, porque a ditadura fez questão de manter o modelo clássico de Montesquieu da trilogia do funcionamento harmônico e independente dos três poderes, que, não obstante, não quis respeitar, chegando ao ponto de interferir na estrutura e funcionamento do STF. Não vou entrar em detalhes para que este texto não fique muito longo. Quem quiser se instruir a respeito pode consultar o livro “O Supremo Tribunal Federal e a Ordem Político-Institucional”, de Osvaldo Trigueiro do Vale, do qual extrai o seguinte trecho:

“A ótica de um Ministro do Supremo deverá ser, todavia, não apenas jurídica, o que seria uma atrofia, mas também político-social, e nunca dentro dos INTERESSES RESTRITOS (o destaque é meu, Alfredo) de casuísticas partidárias, nem nos esporádicos casos individuais, jamais no colegiado como instituição”.

Ocorre que em época de arbítrio até o guarda da esquina quer ditar regras. Eu penso que o povo brasileiro, por alguma razão que os sociólogos haverão de explicar, internalizou a mentalidade dos antigos senhores de escravos, que não estavam sujeitos à lei. Eu me recordo que no final da década de 60 me associei ao Clube de Xadrez Guanabara, cujo presidente era o general Benedito Hamilton Pianchão de Carvalho, com quem tive excelente relacionamento.

Ambos morávamos no bairro do Leblon e sempre que saíamos juntos do clube ele me dava carona. Ocorre que um médico amigo nosso, também associado do clube, matou a tiros um cunhado, o que levou o general, indignado, a imediatamente excluí-lo do quadro social do clube. A decisão gerou protestos de alguns sócios, entre os quais havia advogados, procuradores e até um desembargador, embora o mais veemente protesto tivesse vindo de um químico. Este alegava que a atitude do general tinha sido arbitrária, uma vez que o assassino não tinha sido julgado nem condenado. No final da história o médico foi absolvido.

O episódio mostra esse aspecto do caráter brasileiro, que “quer fazer justiça com as próprias mãos”, esquecendo-se de que existe um sistema judiciário a quem compete tratar de questões que lhe foram legalmente atribuídas.

Devo dizer que por respeito e consideração ao general, abstive-me de tomar partido na questão, até por ele ser um homem idoso, já no fim da vida (veio a morrer pouco tempo depois) e eu um jovem de 25 anos de idade, embora, intimamente, reprovasse a sua atitude de excluir o médico. Tantos reprovaram, explicitamente, a sua atitude, não vi razão para eu ser mais um.

Eu noto que há, entre nós, alguns candidatos a “linchadores de praças públicas” que já estão antecipando decisões dos tribunais, dizendo que A ou B serão absolvidos, como se tudo fosse um jogo de cartas marcadas. Esses “inconformados” me fazem lembrar os generais dos tempos da ditadura.

A estes eu diria: MODUS IN REBUS.

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