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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Nos EUA, guerra contra a realidade


16/1/2013, Robert Parry, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
A verdadeira luta que se trava nos EUA não põe em confronto a Direita e a Esquerda em qualquer sentido tradicional, mas os que acreditam na realidade e os que foram sequestrados pela irrealidade. É batalha em que se testa a determinação, de um lado, dos que pensam baseados em fatos; de outro, dos que operam num universo sem fatos e defendem as próprias fantasias.

Essas linhas de combate mantêm alguma relação com a divisão Esquerda/Direita, porque a Direita norte-americana, hoje, abraçou como se fosse fato e verdade o que não passa de ideologia e propaganda, e abraçou as próprias crenças mais completamente e mais agressivamente que a Esquerda. Não implica dizer que a Esquerda e o Centro sejam completamente imunes à prática de ignorar os fatos, em busca de encaminhamento eficaz de alguma agit-prop.

Mas os elementos chaves da Direita norte-americana estão muito firmemente fixados no mundo de faz-de-conta, o que torna quase impossível qualquer abordagem racional, de senso comum, que considere o mundo real, no mundo político. Os delirantes de Direita também são imbuídos da paixão dos verdadeiros crentes, como um culto que se vai tornando mais feroz, quanto mais se questionam suas crenças.

Assim sendo, não importa os milhões de provas de que o aquecimento global é fenômeno real e verificado; os negadores nunca se cansarão de repetir que não passam de novas mentiras e conspirações do governo para impor sua “tirania”. Não importa quantas criancinhas de jardim de infância sejam mortas a tiros de rifles semiautomáticos de assalto – nem qual seja a verdadeira história da Segunda Emenda. (...)

Barack Obama
Em questões menores, não importa que o presidente Obama tenha exibido sua Certidão de Nascimento: alguma coisa deve ter sido falsificada no estado do Havaí, para ocultar o nascimento no Quênia. Ah, sim, e Obama é “vagabundo”, por mais que observadores muito próximos e objetivos falem dele como "workaholic capaz de fazer bem várias tarefas ao mesmo tempo”.

O distanciamento entre a Direita americana coletivamente considerada e a realidade começou há décadas, mas foi fortemente acelerado quando o ex-ator Ronald Reagan entrou em cena no palco nacional. Até seus admiradores reconhecem que Reagan mantinha conturbadas relações com os fatos; sempre preferiu ilustrar seus argumentos com historietas e citações apócrifas, quase sempre distorcidas.

Ronald Reagan
O abismo que, em Reagan, separava fatos e realidade ia da política externa à economia. Seu concorrente na disputa pela indicação dos Republicanos à presidência em 1980, George H.W. Bush, chamou as políticas de Regan que visavam a fortalecer a oferta – cortes massivos de impostos para os mais ricos, o que, por hipótese, faria aumentar os salários – de “economia vudu”.

Mas Bush adiante reconsiderou e rendeu-se ao feitiço de Reagan, quando aceitou o lugar de vice-presidente em sua chapa. Bush-pai tornar-se-ia assim modelo que outros seguiriam dentro do Establishment, todos pragmaticamente rendidos ao descaso e à desconsideração que Reagan dedicava aos fatos e ao mundo real.

Gestão das percepções

O governo Reagan também erigiu em torno do presidente uma infraestrutura de propaganda que sistematicamente castigava políticos, cidadãos, jornalistas, qualquer um que se atravesse a desmentir as fantasias presidenciais. Essa estreita rede de colaboração público-privada – pela qual se coordenavam as ações da imprensa-empresa de direita com os especialistas governamentais em desinformação – trouxe para dentro de casa, nos EUA, a estratégia da CIA conhecida como “gestão das percepções”, normalmente orientada para manobras entre populações hostis.

Mediante operações de “gestão de percepções”, os Contra da Nicarágua, que na realidade jamais deixaram de ser terroristas com conexões com o tráfico de drogas e que varriam o interior da Nicarágua, assassinando, torturando e estuprando, foram convertidos em “equivalente moral” dos Pais Fundadores dos EUA. Discordar ou criticar ou desmascarar a “conversão” estigmatizava qualquer um como perigoso agitador que tinha de ser “controversializado” [orig.“controversialized”] e marginalizado.

O notável sucesso da propaganda reaganista foi lição bem aprendida por uma jovem geração de operadores Republicanos e de neoconservadores que começavam a surgir e que, então, estavam empregados nos postos-chave da política para a América Central e em operações de “diplomacia pública” de Reagan (como, dentre outros assemelhados, Elliott Abrams e Robert Kagan). A devoção dos neoconservadores ao imperialismo global serviu bem como motivo-pretexto para agir contra a realidade no plano interno. Nenhum fato interessa; só resultados contam [Ver Lost History, Robert Parry]  
Mas essa estratégia jamais teria funcionado sem a contribuição de legiões de direitistas manipuláveis que foram manipulados por séries infindáveis de falsas narrativas. Os politicamente pró-Republicanos manipularam o ressentimento racista dos neo-Confederados, o fervor religioso de cristãos fundamentalistas e o culto heróico do livre mercado dos apóstolos e fiéis que seguem Ayn Rand.

Que essas técnicas de “gestão de percepções” tenham sido tão bem-sucedidas num sistema político que garantia a liberdade de manifestação e de imprensa não foi prova, apenas, da competência dos operadores da propaganda dos Republicanos, gente como Lee Atwater e Karl Rove. Foi e ainda é prova, também, de que o Centro, nos EUA é tímido e assustadiço. E de que a Esquerda é inútil, como operadora, dentro da realidade. Dito em termos simples, a Direita combateu com mais fervor e mais empenho na defesa de suas fantasias e crenças, do que o resto dos EUA combatemos na defesa do mundo real.

Propaganda pró-contras! 
Houve vários pontos de virada nessa “infoguerra”. Por exemplo, o relacionamento secreto entre Reagan e os mulás iranianos, que foi parcialmente revelado no escândalo “Irã-Contras”. Mas as origens, visíveis na atividade dos Republicanos durante a campanha de 1980 – os quais fizeram contato com o Irã, pelas costas do presidente Jimmy Carter – foram varridas para baixo do tapete por Democratas hegemônicos e pela corporação “de mídia” de Washington.

Assim também, provas de que os Contra faziam tráfico de drogas – e, inclusive, declarações em que a CIA admite ter trabalhado para acobertar aqueles crimes – desapareceram das páginas dos grandes jornais, entre os quais o Washington Post e o New York Times. Assim também, o trabalho das comissões da verdade em quase toda a América Central, que expuseram as violações massivas de direitos humanos que Reagan aprovou e ajudou a cometer.

O medo de atacar fortemente e com determinação a máquina de propaganda de Reagan era tão grande que praticamente todos optaram por só considerar ou o futuro das próprias carreiras ou os próprios prazeres pessoais. Um lado orientou-se para a guerra política; o outro, não raras vezes, concentraram-se em viagens aos paraísos vinícolas.

Descrer de jornais e jornalistas da imprensa-empresa dominante [1]  

À medida que o fantasismo, o irrealismo e o apagamento dos fatos foram-se aprofundando ao longo das décadas, as camadas mais lúcidas e letradas do povo dos EUA passou a descrer, até descrer completamente, de jornais e jornalistas da imprensa-empresa dominante.

As próprias expressões “mídia dominante” ou “imprensa-empresa dominante” converteram-se em expressões de desprezo e de desqualificação – bem merecidos, dado que a tal imprensa-empresa dominante nada fazia para encontrar e distribuir informação verdadeira [trabalho sem o qual a imprensa-empresa nada é além de empresa como qualquer outra, sem direito a nenhum privilégio e, sim, bem merecedora de rédeas e freios (NTs)].

Os Democratas nacionais tampouco manifestaram grande interesse por estabelecer e divulgar fatos verdadeiros, nem pela correspondente luta pela verdade. Quando havia provas disponíveis de crimes cometidos por Republicanos – como nas investigações, no início dos anos 1990s, no caso Irã-Contras, no caso Iraque-gate e no caso Surpresa de Outubro – os Democratas trataram logo de acomodar as coisas. Democratas acomodatícios, como o deputado Lee Hamilton e o senador David Boren preferiram olhar para o outro lado.

Al Gore
Os Democratas submeteram-se, de vez, quando a Direita e os Republicanos roubaram as eleições de 2000, quando os eleitores votaram para um lado, e a Suprema Corte votou para outro e elegeu George W. Bush na Flórida, o que lhe deu a Casa Branca, roubada de Al Gore.

Ao longo das décadas depois da guerra do Vietnã, a Esquerda norte-americana também andou célere rumo à irrelevância. De fato, ouve-se até em alguns círculos da Esquerda que “os EUA não têm Esquerda”. Mas o que sobrou da Esquerda não raras vezes agiu como fanáticos escabelados, no processo de exigir aos berros “purezas” imaculadas, sobreumanas, jogando num mesmo saco de degola tanto os bandidos que faziam coisas terríveis como os quase-bons que fizessem o quase-impossível, o melhor possível, sob condições de fato impossíveis.

Esses EUA pós-modernos parecem ter atingido o fundo do poço na presidência de George W. Bush. Em 2002-03, circularam notícias sobre armas de destruição em massa que haveria no Iraque. Eram notícias que logo se comprovaram falsas. Mas já praticamente não havia ninguém, pessoa ou grupo, em posição de poder para, ou com coragem suficiente para declarar mentiras as mentiras. Enganada, fraudada por Bush e os neoconservadores – com a ajuda dos centristas e dos jornalistas-editores do Washington Post – a nação atirou-se numa furiosa guerra de agressão.

George W. Bush
Vez ou outra, a Direita manifesta abertamente o desprezo que sente pelos fatos da realidade. Quando o escritor Ron Suskind entrevistou membros do governo Bush em 2004, recolheu inúmeros depoimentos carregados do mais profundo desprezo por quem se recusasse a ajustar-se ao neomundo dos neocrentes da neofé.

Citando fonte não identificada, alto assessor de George W. Bush, Suskind escreveu:

“O assessor disse que gente como eu não passa do que “nós chamamos de comunidade dos dependentes da realidade”, que o entrevistado definiu como “gente que crê que as soluções brotem de estudo atento da realidade circundante”. E o tal assessor continuou: “O mundo já não funciona assim. Os EUA agora somos um império. Quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – e estude muito atentamente, se quiser –, agiremos novamente criando novas realidades, que você também pode estudar o quanto quiser. E as coisas serão assim, daqui por diante. Somos atores da história (...). Você, todos vocês, ficarão para trás, para estudar o que fazemos”.

A realidade volta e morde

Apesar dessa imperial arrogância, a realidade, aos poucos, volta e mostra seus poderes, seja no pântano de sangue sem solução à vista em que está convertido o Iraque, seja nas crises econômicas que as políticas antirregulação e de baixos impostos geraram nos EUA contra os próprios norte-americanos. Nas eleições de 2008, o povo americano estava acordando com terrível ressaca, de uma farra-orgia antirrealidade que durara 30 anos.

Nesse sentido, a eleição de Barack Obama foi, potencialmente, um ponto de virada. Mas a Direita furiosa que Ronald Reagan construíra – com efeitos debilitantes, paralisantes também no Centro e na Esquerda – teimou em não desaparecer.

A Direita contra-atacou ferozmente, contra o primeiro presidente negro dos EUA, ameaçando revolução violenta se Obama agisse logo no primeiro mandato eleitoral; Obama várias vezes agiu como um daqueles Democratas acomodatícios (por exemplo, quando não demitiu grande parte da equipe de segurança nacional de Bush); a imprensa-empresa dominante manteve-se oportunista-carreirista; e a Esquerda pôs-se a exigir perfeições perfeitíssimas nas situações de mais extrema dificuldade política.

Tea Party no Capitólio
Essa combinação de grupos disfuncionais contribuiu para o crescimento do Tea Party e para as vitórias dos Republicanos no Congresso em 2010. Mas a eleição de 2012, com Obama reeleito e rejeição ampla, geral e irrestrita ao fanatismo do Tea Party, criou a oportunidade para que os que pensam nos EUA se recompusessem.

Afinal, os EUA continuam a ver as consequências de três décadas de fantasias direitistas – alto desemprego; déficits massivos; crises financeiras autoinfligidas; classe média degradada; nada de saúde pública, nem qualquer assistência pública à saúde para milhões de cidadãos; infraestrutura em ruínas; planeta em franco aquecimento; guerras cada vez mais caras em terras cada vez mais distantes; o orçamento do Pentágono manchado de sangue; e crianças assassinadas por um adolescente perturbado, que nada e ninguém impediu que pusesse as mãos em rifles semiautomáticos de assalto carregados.

Mas, se se espera que soluções racionais e pragmáticas sejam algum dia aplicadas aos nossos problemas, não bastará que se exija apenas mais espinha dorsal do presidente Obama. O país precisa de que os norte-americanos que ainda habitem o mundo real levantem-se e lutem, no mínimo com a mesma determinação com que lutam os doidos que habitam o mundo do faz-de-conta.

Claro que será luta feia e desagradável. Exigirá recursos, paciência, firmeza. Mas não há outra resposta possível. Temos de recuperar e preservar a realidade – se ainda queremos salvar o planeta e as crianças dos jardins de infância dos EUA.


Nota dos tradutores
[1]  No orig. Distrusting the MSM (mainstream media)  

domingo, 23 de setembro de 2012

Direita “pit-bull”: as raízes de “Occupy Wall Street”


20/9/2012, Maureen Tkacik, OpEdNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“La extensión universal del scenario em que habrá de desarrollarse la revolución y la intensidad de sus efectos, harán que les entre por la cabeza la dialéctica hasta a essos mimados advenedizos del Sacro Imperio prusiano-alemán”.
MARX, K. El Capital, Crítica de la Economía Política, México, Ed. Fondo de Cultura Económica, 1978, 2ª edição, 13ª reimpressão (trad. de Wenceslao Roces), vol.1, Posfácio. [1]

Maureen Tkacik
Se há traço que une os movimentos Occupy Wall Street e Tea Party, desde o primeiro instante, é a furiosa aversão a qualquer identificação entre eles.

Os partidários do Tea Party começaram a afiar as facas antes até de a Ocupação começar. Duas semanas antes do lançamento de Occupy, ano passado, o blogueiro Bob Ellis, do Tea Party, publicou um postado intitulado “Socialistas planejam ataque raivoso à Liberdade, no Dia da Constituição” – em que denuncia preventivamente planos “infantilóides” de “crianças mimadas”, para “fazer barulho” e “zombar do American way of life” e do bem-amado movimento que “brotou há apenas pouco mais de dois anos, bem debaixo do nariz de um presidente marxista e de um Congresso marxista”.

Na realidade, é claro, movimento algum brota “do nada”. E é interessante constatar que, nesse caso, os dois movimentos podem ter brotado, isso sim, de um mesmo homem.

55 anos daquele outono, ancestrais diretos do movimento Tea Party reuniram-se em Indianapolis, para lançar as primeiras ideias sobre reunir cidadãos contra o “dedicado, consciente agente da conspiração comunista” que, então, ocupava a Casa Branca: Dwight Eisenhower. Mas quando seu bem amado líder anticomunista Barry Goldwater foi enterrado nas eleições presidenciais de 1964, o Partido Republicano, discretamente, renunciou às “organizações extremistas” que tanto haviam desgastado sua imagem pública.

Karl Hess
Na mesma época, o até então mais extremista dos extremistas de direita e muito prestigiado autor dos discursos de Goldwater, Karl Hess, passou a viver num barco, abandonou completamente a política e passou a dedicar a própria vida a protestar pacificamente contra a concentração de poder econômico e político nas mãos de uma nova aristocracia – que chamou de “os 1%”.

Isso mesmo. O primeiro sujeito que convocou às armas o exército dos 99% é o mesmo homem que pouco antes escrevera discurso em que se ouviu que “não há crime em extremismo que defenda a liberdade”. Goldwater referiu-se então a Hess, carinhosamente, como “meu Shakespeare”.

Hess também trabalhara como agitador anti-sindical profissional e foi informante de Joe McCarthy e J. Edgar Hoover; escrevia regularmente para Counterattack jornal de direita extremista com sede em Wall Street; e foi o contrabandista de armas amador que contrabandeou napalm para uns golpistas, patrocinados pela empresa Bacardi, que tentaram depor Fulgencio Batista e assumir o governo em Cuba. Hess também foi editor-fundador da National Review e redator-fantasma em tempo integral a serviço de H.L. Hunt, conhecido oligarca texano do petróleo e financiador da John Birch Society [2].

Mas, de repente, alguma coisa mudou. Hess já não conseguia conciliar a retórica individualista dura da extrema direita norte-americana e o que ele via, cada vez mais claramente, como a realidade subalterna da mesma extrema direita. Então, desistiu da retórica. Comprou, primeiro, uma motocicleta. Depois, uma casa-barco. Parou de pagar impostos; matriculou-se numa escola de comércio, para aprender a barganhar na negociação de compra de comida, roupas e maconha; escreveu para jornais alternativos e para as revistas Playboy  [3] e Ramparts, essa, conhecida campeã das lutas anticorrupção e pró-ética da New Left; fundou uma comunidade agrícola naturista de semiautossuficiência em Washington, D.C., e, finalmente, refinou e sofisticou a desconfiança que sempre houvera nele contra estados-grandes e governos-grandes, convertendo-a em oposição mais teórico-argumentada contra qualquer tipo de granditude, em geral.

Instituições-grandes são inerentemente inimigas da democracia, Hess explicou em seu manifesto-agenda de 1975, Dear America, porque foram criadas por e para as pequenas elites minoritárias, as quais já são acionistas majoritárias do poder e já detêm o controle de facto sobre o chamado “poder econômico e político da nação”:

1,6% da população adulta é dona de 82% das ações com direito a voto; portanto, aqueles poucos são donos, de fato, de todo o comércio e indústria nos EUA. Em sentido muito real, aquele 1% da população dispõe os restantes 99% do outro lado de um muro de interesses só seus e muito reais. Esse minúsculo 1% acumula riqueza sempre, cada vez mais, nunca menos, com o passar do tempo. A chave para essa acumulação é assegurar que sempre haja restrições à capacidade dos restantes 99% para acumularem poder e privilégios.

Não há como saber se Dear America converteu alguém dos 99%, por mais que essa fosse sua intenção não declarada. Mais que qualquer outra peça que Hess tenha produzido depois de sua conversão ideológica, Dear America, que é dedicado “aos americanos de bom-senso normal”, falava diretamente ao seu antigo público das reuniões da John Birch Society e outros furiosos anticomunistas linha-dura, mas sempre mais furiosos, sobretudo, isso sim, contra o invencível poder dos Rockefellers e do Grupo Bilderberg e dos sionistas e do Federal Reserve.

Ao redefinir os neossubversivos e neoinimigos, concentrando-os naquele “minúsculo 1% que, com o passar do tempo acumula sempre mais riqueza, nunca menos”, Hess converteu as teorias de conspiração em fenômeno matemático.

Verdade é que o prognóstico que se lê em Dear America acertou em cheio. Em 1975, quando o livro foi escrito, o 1% mais rico da população abocanhava meros 8,5% de toda a riqueza anual dos EUA; de lá até hoje, já abocanha três vezes isso. E o 1% estava, então, há três décadas de distância do ponto a que chegou hoje, em termos de manipulação retórica. Aí está, sem dúvida, parte do motivo pelo qual centenas de revistas e jornais dedicaram muitas páginas, páginas e páginas, de atenção a Hess e seu emergente ramo de anarquismo – veículos que vão do New York Times Magazine a Mother Earth News – durante todos esses anos, virtualmente sem uma única referência à crítica à crescente concentração de riqueza, que fizera de Hess o mais perfeito proscrito, marginal irrecuperável perfeito, da política eleitoral dita “grande”, nos EUA.

Mas Hess, mais que “homem à frente do seu tempo”, era também, claramente, “homem do seu tempo”. Talvez Hess tenha encarnado, mais que qualquer outro norte-americano, o espírito dos “99%”. Não há notícia de outro que, tendo sido quem Hess foi, passasse, depois de deixar de ser quem fora, e para pagar as contas, a aceitar qualquer trabalho – assistente de xerife de cidade do interior, editor de revista de pesca, correspondente da [revista] Newsweek.

Foi homem indiscutivelmente indiferente à riqueza pessoal. De fato, apesar de ter parado de pagar impostos e de o Fisco norte-americano ter passado a confiscar 100% do que ele recebia pela venda de seu “trabalho-conhecimento” no final dos anos 60s, Hess escreveu Dear America exclusivamente – como disse ao Washington Post em entrevista, naquela época, “porque sou respondão”.

Fez tal quantidade de serviços sujos, enquanto viveu “a serviço dos super-ricos”, que a denúncia que faz contra o (mesmo) sistema provoca abalos excepcionais, apesar de Hess jamais ter revelado os detalhes mais terrivelmente escabrosos nem os nomes dos envolvidos. (Com raras exceções. Uma dessas exceções é um parágrafo em que descreveu a vida da direita norte-americana como “infindável repetição” de festa da redação de National Review, na qual uma das “recém-contratadas secretárias cara-nova, apanhada de olhos postos em Bill Buckley por mais tempo do que se recomenda, diz afinal, em voz inebriada: “Bill, você tem o perfil de um jovem Cesar”.”).

Inicia um capítulo sobre Marx, com desculpas por ter, antes, escrito um livro em que condenava Marx “baseado em releases que o FBI me passava, com frases que eles me diziam que Marx dissera, não por conhecimento ou leitura diretos”.

O que Hess escreve perturba também quando defende sindicatos organizados, causa contra a qual ele muito aplicou suas muitas e variadas competências – como agitador pago para infiltrar-se em sindicatos, provocador profissional, propagandista, boicotador, etc. – e passa a extrair inspiração da simples evidência de que os sindicatos sobrevivem:

Trabalho e criatividade, portanto, parecem ser as coisas que realmente constroem e são atributos, não dos ricos reinantes, mas de toda a população em geral, dos trabalhadores, muito mais que dos proprietários. Você sabe que é verdade. Os sentidos lhe dizem que é assim. Mesmo assim, propagandistas pagos pelos ricos aparecem, como eu fiz e outros ainda fazem, e dizem e repetem e repetem que sem os ricos você morre de fome; que sem os ricos as fábricas fecham; que sem os ricos as fazendas não produzem; que sem os ricos seríamos forçados a voltar a uma existência animal e primitiva. É possível imaginar os EUA sem seus trabalhadores inacreditavelmente criativos e habilidosos, sem as máquinas que eles desenham, constroem e operam, sem a rica história que os operários têm de independência defendida; é possível supor que essa terra retrocederia, só porque os Rockefellers, os DuPonts, os Morgans e os Mellons fossem expropriados de sua imensa riqueza?

Na minha experiência, é muito raro encontrar homens na posição de Hess que admitam ter sido “propagandistas mentirosos a favor dos ricos” ainda que só para si mesmos; que o admitam para o grande público, é muito mais raro. Mas, talvez porque jamais tenha delatado nomes de seus companheiros propagandistas mentirosos pagos e nunca tenha lavado roupa suja em público, Hess jamais enfrentou a violência do revide que cabe esperar, no caso de apostasia equivalente, hoje.

De todas suas incursões para fora da reserva de praxe, foi entre os experts no bem trajar que Hess gerou os maiores incômodos, segundo Jerome Tuccille, seu velho amigo, cujas divertidas memórias das aventuras de guerra, de quando Hess estava construindo sua grande frente de coalizão entre anarquistas e capitalistas, It Usually Begins With Ayn Rand [Em geral, a coisa começa com Ayn Rand], estão recheadas com vívidas descrições de Hess em trajes de “Marechal de Campo da Revolução”:

Lá estava ele, o revolucionário de ar mais “operário-pobre” dos 50 estados: guarda-roupa recém saído das araras de Abercrombie & Fitch [a “Autêntica Roupa dos Americanos desde 1892”, como diz a publicidade]. Botas de combate atadas até a canela com cadarços grossos; calças jeans presas à cintura com a maior, mais monumental, mais reluzente fivela de cinto que o mundo jamais vira; camisa jeans com três botões abertos, para deixar ver os pelos do peito; jaqueta forrada com pele de ovelha, para resguardar-se do gélido inverno de outubro; e, la piece de resistance, um surrado boné de campanha à moda Fidel Castro, com um botton anarquista, vermelho e preto, espetado na aba. Roupa proletária equivalente a uma semana de salário proletário.

“Era difícil não gostar dele” – relembra Tuccille. – “Havia nele uma sinceridade, uma doçura; e jamais foi nem amargo nem ressentido contra a direita. A direita só lhe inspirava pena.” Permaneceu sempre amigo próximo de Barry Goldwater e de grandes nomes da direita extremista, como James Kilpatrick; e, num dos períodos mais feios da história política dos EUA, parece ter conseguido não fazer inimigos poderosos (além do Fisco dos EUA).

“Direitistas em geral, quando são muito fortemente ideológicos, e os liberais [à moda dos liberais brasileiros do Instituto Milênio (NTs)] quase sempre reprimem alguma parte fundamental da própria humanidade. Hess apenas deixou de reprimi-la. Imediatamente se sentiu muito mais feliz. Posso garantir que nosso relacionamento melhorou muito depois da conversão” – relembra o filho, Karl Hess Jr. – “Não há dúvida alguma de que a capacidade para ser humano, do meu pai, aumentou consideravelmente depois que se mudou para a esquerda”.

Mas quanto mais redescobria a própria humanidade, mais Hess desconfiava de governos e da política corrupcionista que detém o controle dos governos. “Ouvi praticamente todos os políticos do planeta admitirem que, no final das contas, a única função de um partido político nos EUA é ganhar o poder” – Hess escreveu em Dear America. “O nome do jogo, dizem eles, é vencer eleições. Só vencer. Vencer ou vencer”.

Hess com certeza não se supreenderia ao ouvir o filho da velha bête noir de seus tempos de pré-conversão, George Romney, contra cuja facção os Goldwateristas “progressivistas” combateram justas amargas ao longo dos anos 50s e 60s, apresentar-se, hoje, estupidamente, como impiedoso super-homem Randiano [4], no esforço para ordenhar mais milhões, dos doadores ricos.

Hess perdeu qualquer desejo por essas coisas. Convertido ao institucional estritamente local, passou o resto da vida dedicado a experimentos de modalidades de sobrevivencialismo sustentável. Construiu uma casa totalmente alimentada com energia solar em West Virginia com a segunda esposa, Therese; escreveu um livro para crianças e falou em convenções do Partido Libertarista [orig. Libertarian Party  [5]] e em colégios secundários locais. Até pouco antes de problemas cardíacos lhe imporem limitações graves, trabalhou na campanha eleitoral de Ron Paul, em 1988, com a plataforma dos Libertaristas.

“Creio que se Karl estivesse vivo, teria grande respeito pelo movimento Occupy” – disse Tuccille, que trabalha com finanças e não tem dúvidas de que seu velho amigo também teria grande respeito pelo movimento Tea Party. Tucille lembrou que Ron Paul – diferente nisso da maioria dos Republicanos – andou fazendo comentários simpáticos aos Occupy, em entrevista recente a Brian Williams:

Defendo o mercado. Mas concordo que o 1% é rico porque recebem os lucros do sistema inflacional, do sistema dos contratos do Estado, do sistema de gastos militares, do sistema do resgate a bancos quebrados. Identifico-me com eles [do movimento Occupy]... Por isso não gosto de lembrar que Cain [sócio de Mitt Romney] disse que aquele pessoal devia sair da praça e procurar emprego. Por que culpar as vítimas?

Ayn Rand
Só porque a consciência política de um homem começa em Ayn Rand, em outras palavras, não significa que tenha de ficar nisso.

Karl Hess morreu em 1994, antes de que a primeira Revolução Republicana catapultasse os think tanks libertaristas para a “liga principal” da elite de Washington. Seu filho, Karl Jr., então bolsista do Cato Institute, acabou por organizar uma biografia do pai – Mostly on the Edge [Quase sempre no fio da navalha], reunindo anotações, rascunhos, esboços que encontrou nos arquivos do pai, acrescentando entrevistas que o filho fez e lembranças pessoais. Os dois prefácios foram escritos pelo fundador do Institute for Policy Studies (IPS), Marcus Raskin, e Charles Murray, autor de The Bell Curve, e os dois prefaciadores tratam da fé absoluta que havia em Hess quanto à própria irrelevância histórica. Relembrando um conferencista do IPS que, dizendo falar pelas “forças da história”, ofendera Hess, Raskin elogia seu velho amigo por sempre lembrar que “os que tentaram fazer história com esquemas grandiosos sempre o fizeram montados às costas de outros.” Murray não fez diferente:

Karl Hess mudou a cabeça de muita gente que faz política nos EUA. Mas Karl, ele mesmo, seria o primeiro a dizer que não faz diferença alguma se influenciou ou não outros pensadores e autores. A história tomará o rumo que tomar por razões que nada jamais terão a ver com figuras históricas ou grandes filósofos políticos, nem, muito menos, com jornalistas e editorialistas que vivem de inventar editoriais, colunas ou jornais políticos.

O livro Dear America está há muito tempo esgotado. Ainda se consegue uma cópia da brochura, de folhas enroladas, em sebos, por $40 dólares. Mas a lista de agradecimentos (mais de 100), nas páginas iniciais da biografia de Hess escrita por seu filho, em que a família agradece as contribuições para pagar as contas de hospital e médicos de Hess, daria a qualquer leitor bem informado a ideia de que o biografado foi mais um desses bem-relacionados direitistas profissionais e alto conspirador da Guerra Fria. Lá estão Barry Goldwater, Charles Koch, Ed Crane e Tom Palmer do Cato Institute; o ex-diretor da CIA, Bill Casey; a Editora Paladin de The Hit Man [6], e Victor Niederhoffer, gerente de fundo de investimentos e veterano Objetivista tão fanático, que deu à filha o nome “Galt” – homenagem ao personagem John Galt, do livro A Revolta de Atlas, de Ayn Rand  [7].” Muitos desses nomes aparecem também na lista de grandes doadores do Tea Party ou de think tanks associados. E, sim, nos anos 90, o filho de Hess foi bolsista-Cato.

O caro leitor não sabe – ou, pelo menos, Hess-pai não esperaria que o caro leitor soubesse – o quanto Hess-pai tentou e tentou, sem jamais conseguir, alertar os EUA contra o perigo de deixar aumentar e aumentar a concentração da riqueza; contra o perigo que são os que trabalham na propaganda a favor do 1% e de seu discurso político; e contra a absoluta insustentabilidade desses excessos, considerada a lógica, a intuição ou a regra histórica. Mas Hess acreditava suficientemente na humanidade para crer que muita gente pode chegar a entender as coisas pela própria cabeça, com independência. Quanto aos demais, como Raskin escreveu:

Acho que, na maior parte das vezes, Hess cruzava os dedos, com esperança, porque conheceu a perversidade e as distorções, de quando, no século 20, sonhos traídos e ideologias de exploração, andaram por esse mundo.

Cruzemos os dedos, pois, pelos 99%.




Notas dos tradutores

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] Todas as publicações citadas e a John Birch Society são conhecidas organizações da extrema direita norte-americana.

[3] Pode-se ler o que Hess escreveu para a Playboy, em março de 1969 em: The Death of Politics, em inglês.

[4] Sobre Ayn Rand e seu “super homem”, ver na redecastorphoto A Nascente [Romney, Ryan e o Instituto Milênio], 28/8/2012, Uri Avnery, em português. 

[5] Libertarian Party. Não há tradução possível para o português do Brasil; tentamos esse “libertarista”, à espera de melhor solução. O Partido “Libertarian” é o 3º maior partido dos EUA e o que mais tem crescido. Defende mercados minimamente regulados, estado mínimo, fortes liberdades civis (com apoio a casamentos de pessoas de mesmo sexo e outros direitos de LGBT), a legalização da maconha, a separação entre estado e igreja, fim de qualquer limite à imigração, relações diplomáticas sem qualquer tipo de intervencionismo e total neutralidade, liberdade de comércio e viagem para todos os países e democracia direta. O Partido Libertarista prega a saída dos EUA de organizações como OMC, ONU e OTAN. Para muitos, é partido “mais à direita” que o Partido Democrata e “mais à esquerda” que o Partido Republicano. Os Libertarian são furiosamente anticomunistas. Em 2012, o candidato do Partido Libertarista à presidência dos EUA é Gary Johnson. 

[6] Hit Man: A Technical Manual for Independent Contractors [Disfarce perigoso: Manual Técnico para Agentes Mercenários e Assassinos de Aluguel] é livro escrito por Rex Feral [pseudônimo] e publicado pela empresa editora Paladin Press em 1983. O editor, Peder Lund, disse, em entrevista pela televisão, que o livro nasceu como romance policial escrito por uma dona de casa na Flórida, depois editado para adaptar-se ao leitor-padrão dos livros de sua editora. É um manual que ensina os passos iniciais para fazer carreira como assassino de aluguel. Todas as cópias foram confiscadas na editora e destruídas, depois que investigação policial comprovou que o livro fora usado no planejamento de um triplo assassinato, em 1993; mas o livro permanece à venda online e é encontrado em sebos.

[7] Sobre isso ver (também como na nota 4) na redecastorphoto A Nascente [Romney, Ryan e o Instituto Milênio], 28/8/2012, Uri Avnery, em português. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

“A Nascente” [Romney, Ryan e o Instituto Milênio]


25/8/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Uri Avnery
O nome do homem que será indicado candidato a vice-presidente dos EUA na chapa do Partido Republicano absolutamente não me interessava, até que surgiu, associado a ele, o nome de Ayn Rand.

O que se diz é que Ayn Rand é uma das fontes inspiracionais que anima o específico pensamento filosófico de Paul Ryan, candidato a vice-presidente dos EUA.

E, dado que o mesmo Paul Ryan está sendo apresentado não como político mequetrefe padrão, como Mitt Romney, mas como profundo pensador de política e economia, a tal fonte inspiracional merece algum exame.

Como no caso de muita gente em Israel, Ayn Rand entrou na minha vida como autora de The Fountainhead [1] [A nascente], romance lançado quatro anos antes do nascimento do Estado de Israel e que rapidamente se tornou bestseller [2]. O filme baseado no romance, com Gary Cooper no papel principal (no Brasil e em Portugal, Vontade Indômita, 1949 [3]) tornou-se ainda mais popular.

É a história de um arquiteto de gênio (semelhante, nos traços gerais, a Frank Lloyd Wright) que segue o próprio estilo individual e desdenha as preferências das massas. Quando seu projeto arquitetônico para uma casa é modificado pelos construtores, o arquiteto destrói os prédios e, em seguida, defende os próprios atos nos tribunais, num apaixonado discurso a favor do individualismo.

(Honestamente: Muitas vezes tive ímpetos de fazer o mesmo que ele a alguns prédios em Telavive, sobretudo aos hotéis de luxo erguidos entre minha janela e o mar.)

Comecei a ler o segundo bestseller da mesma autora, Atlas Shrugged [1957 (2008), A revolta de Atlas, SP: ed. Ed. Sextante e Instituto Milênio [4]], no qual expõe detalhadamente a própria filosofia. Nesse caso, tenho de confessar que, para minha eterna vergonha, não consegui avançar e jamais concluí a leitura.

Um dia, em 1974, meu amigo Dan Ben-Amotz telefonou-me para pedir que eu recebesse um jovem que ele acabava de conhecer, Dr. Moshe Kroy. “Um gênio!”, disse ele.

Ben-Amotz já era, só ele, personagem notável. Tinha mais ou menos a minha idade e, em 1974, era conhecido humorista e ícone da geração que fez a guerra de 1948 e criou a nova cultura hebraica. Ben-Amotz, como muitos de nós, era self-made man; mais propriamente dito, era autoinventado e fez-se conhecido como exemplo consumado do sabra [israelense nativo] perfeito. Um dia, muitos anos depois, transpirou que teria nascido na Polônia e chegara menino à Palestina, onde adotara o nome de amplas sonoridades hebraicas pelo qual se tornou conhecido, em substituição ao nome que trazia da Polônia, Moshe Tehilimzeigger (em ídiche, “recitador de salmos”).

Ben-Amotz trouxe Kroy à minha casa. Tinha 24 anos e era impressionantemente erudito, já professor na Universidade de Telavive, com óculos grossos e conversa muito altamente filosófica. Fiquei impressionadíssimo.

A Nascente, o filme
Logo ficou bem claro que era Crente Fiel dos ensinamentos de Ayn Rand, apresentados pela autora como “objetivismo”. O objetivismo ensinava (e pelo visto, como fazem o tal candidato Republicano à vice-presidência dos EUA e a rede Fox, ainda ensina) que o principal e básico dever de todos os seres humanos é o egoísmo. Qualquer tipo de envolvimento ou compromisso social é pecado contra a natureza. Só quando luta pelos próprios interesses pessoais, limpando-se de qualquer traço de altruísmo, o ser humano realiza o destino para o qual veio ao mundo. A sociedade só progride quando constituída de e baseada em indivíduos assim furiosamente egoístas, cada um lutando para promover só os próprios interesses pessoais.

É filosofia que pode ser irresistivelmente atraente para certo tipo de gente. Garante a esse tipo de gente a justificativa filosófica de que precisam para ser furiosamente egoístas, vivendo sem dar a mínima a quem que seja, além deles mesmos.

Kroy, e também é claro, Ben-Amotz, eram religiosamente devotados àquele novo credo, militantes do egoísmo. (Há aí evidente oximoro, porque a própria Ayn Rand era absolutamente não crente, condenando todas as religiões, inclusive a religião dos judeus de sua família.) Em certo momento, apanhei Ben-Amotz com a boca na botija, fazendo algo que, sim, bem poderia implicar benefício a outras pessoas. Ele deu-se muito trabalho para explicar que, naquele ato, de fato, no longo prazo, visava exclusivamente a obter vantagens só para ele mesmo.

Kroy, como já então era bem visível, era pessoa bastante perturbada. Matou-se, aos 41 anos. Nunca consegui definir se Ayn Rand perturbou-o além do suportável, ou se foi atraído para ela porque já era suficientemente perturbado antes de conhecer o objetivismo. 


AYN RAND foi pseudônimo de Alisa Zinovyevna Rosenbaum, nascida em São Petersburgo, que depois foi Petrogrado, que depois foi Leningrado. Tinha 12 anos quando eclodiu naquela cidade a Revolução Bolchevique. A farmácia de seus pais foi tomada pelo regime, e a família burguesa fugiu para a Crimeia, então defendida pelas forças dos Russos Brancos. Adiante retornaram à cidade natal, onde Alisa estudou filosofia e até publicou um livro em russo. Em 1926, ela chegou, sozinha, aos EUA.

Adotou o nome “Ayn” (que rima com “swine” [suíno(a)], como ela mesma explicava). Provavelmente recolheu a palavra do hebraico, em que significa “olho”. O sobrenome Rand pode ser contração do sobrenome original judeu-alemão da família.

Sua história inicial, em certa medida, explica o ódio imorredouro que o Comunismo sempre lhe inspirou, como todas as modalidades de coletivismo, inclusive a social-democracia, além do ódio a todas as formas de religião ou estatismo. Para ela, o Estado é o inimigo do indivíduo idealmente totalmente livre. Esse ideário levou-a naturalmente a abraçar um capitalismo de laissez-faire absolutamente desatinado (que Shimon Peres chamou de “capitalismo swinish [lit. “suíno”] e a rejeitar toda e qualquer forma de estado de bem-estar e rede de proteção social.

Tudo isso aparecia bem estruturado na filosofia dela, que foi adotada por crentes adoradores em todo o mundo. Certa vez, ela se autoapresentou como “o(a) mais criativo(a) pensador(a) vivo.” Noutra ocasião, disse que em todos os anais da filosofia há só três grandes pensadores, todos na letra A: Aristóteles, Santo Tomás de Aquino e Ayn Rand.

Com toda a probabilidade, foi também racista do tipo furioso: durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, disse que “homens civilizados enfrentavam selvagens” e comparou os israelenses aos brancos, nos EUA, enfrentando bárbaros peles vermelhas. 

Paul Ryan

Não surpreende que, no post-mortem, Ayn Rand tenha-se tornado leitura preferencial dos fanáticos do Tea Party, que hoje dominam o Partido Republicano. Não surpreende tampouco que o candidato à vice-presidência Paul Ryan refira-se a ela, orgulhosamente, como um de seus mais importantes mentores intelectuais. (Ayn Rand morreu em 1982, com 77 anos. Ao funeral compareceram vários crentes devotos, entre os quais Alan Greenspan, um dos coveiros da economia dos EUA. [E é cultuada até hoje, no Brasil, pelo Instituto Liberal e pelo Instituto Milênio, que co-editam seus livros, os quais podem ser lidos gratuitamente na página Internet do IM (NTs)].

Há algo nos ensinamentos dessa pregadora fundamentalista judeu-russa branca do egoísmo total, que os torna sedutores aos olhos dos que cultivam os mitos norte-americanos primitivos e o individualismo absoluto; dos que cultivam a autoconfiança enlouquecida dos “mocinhos” sempre armados na luta contra o Oeste Selvagem; dos que padecem de desconfiança mórbida contra o Estado arrecadador (mitos que chegam ao Rei Eduardo III). Mas, Santo Deus! O mundo já ultrapassou o século 18!

Nunca estudei filosofia, mas ao longo da vida, aqui e ali, li alguma coisa. E as teorias de Ayn Rand sempre me pareceram, digamos, infanto-juvenis.

Há uma lembrança que sempre me acompanha. O falecido Ministro israelense Pinchas, contando como, ainda adolescente, escalou uma escada do kibbutz, encontrou numa das prateleiras mais altas um livro de Nietzsche e lá ficou, a metros do chão, horas a fio, sem conseguir parar de ler. Se bem me lembro, foi Assim falou Zarathustra, livro perigoso para jovens. Pois esse livro também teve poderoso impacto sobre Ayn Rand na adolescência.

Friedrich Wilhelm Nietzsche
Nietzsche deblatera contra a “moral da piedade judaica”, que infectava as adoráveis “bestas louras”. Compaixão pelos fracos é pecado, porque mina as capacidades dos fortes em vias de tornarem-se super-homens. Ayn Rand, no caso, sentiu rugir dentro dela as potências da super-mulher. (...)

Na minha juventude, também fui capturado por Nietzsche. Mas a “moral da piedade judaica” venceu. Por isso eu, como muitos israelenses, absolutamente não conseguimos entender muitas das atitudes sociais dos norte-americanos, algumas das quais se veem bem ilustradas na atual campanha eleitoral.

Para mim, é autoevidente que o Estado tem o dever de amparar os doentes, os velhos, as crianças, os incapazes e os mais pobres. Um velho dito ensina que “cada judeu é responsável por todos os judeus”. Pouco tempo depois de criado o Estado de Israel, já havia constituído aqui um sólido sistema de assistência pública à saúde e serviços sociais. A necessidade da segurança social, instituída na Alemanha por Otto von Bismarck, político de direita, no tempo de Nietzsche, é autoevidente para os israelenses, ainda hoje.

Benyamin Netanyahu é direitista à moda dos Republicanos dos EUA, empenhado apoiador de Mitt Romney. Provocou dano incalculável à rede de amparo social em Israel, primeiro como Ministro das Finanças, depois como Primeiro-Ministro. Pois nem “Bibi” atreveu-se a apresentar-se como discípulo de Ayn Rand.

Mas “Bibi” partilha pelo menos um traço com Paul Ryan, crente fundamentalista da igreja de Ayn Rand: Netanyahu e Ryan são, ambos, promovidos e financiados por Sheldon Adelson.

Acho que não pode haver personificação mais pura da visão de Ayn Rand, que esse bilionário à moda Casino (o filme). Ayn o teria adorado! Sheldon Adelson é o egoísta perfeito. Super enriqueceu explorando os vícios dos seres humanos mais fracos. Suas práticas negociais são mais que suspeitas. Sim, mas... Mesmo assim, é preciso perguntar se Adelson gastaria centenas de milhões em gente como Romney, Ryan e Netanyahu em nome, exclusivamente, de promover os seus próprios interesses comerciais. Pouco provável. O mais provável é que haja nele um traço de altruísmo, uma crença sincera, um desejo sincero de, através dessa gente, promover alguma ideia social que lhe seja sinceramente cara, por pouco decente que nos pareça ser ou que seja.

Ayn Rand era ateia e odiava tudo que não fosse doentiamente racional. Mas o Tea Party é movimento religioso (não interessa a religião). Ayn Rand era apaixonada defensora do aborto... mas Ryan é antiabortista fundamentalista fanático. Farejo problemas.

De fato, não acredito nem na imagem de intelectual nem na imagem de político “ético” que Ryan anda divulgando. Há algo de falso, no homem. Acho que nem Ayn Rand confiaria nele. Se, pelo menos, aparecesse um Gary Cooper, para a vice-presidência...



Notas dos tradutores
[1] Sobre Ayn Rand, há longo verbete em português, na página (e onde mais seria?!) do Instituto Liberal, primo irmão do facinoroso Instituto Milênio.
[2] Não por coincidência, é claro, o livro A nascente é acessível, em .pdf, em tradução recente para o português [2008, SP: Ed. Landscape, trad. Andrea Neves Holcberg e David Holcberg], na página do portal O Globo.
[3] Ver sobre o filme The Fountainhead(dir. King Vidor, 1949).
[4] A edição em português de A revolta de Atlastambém foi feita em parceria entre a Ed. Sextante, de SP, e o Instituto Milênio. Pode ser baixado em .pdf.