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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O tal de “mundo mais seguro”...

26/11/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


1a. Bomba Nuclear subaquática detonada no mundo (Atol Bikini - 1946)
Quer dizer, então, que “a diplomacia abriu um novo caminho rumo a um mundo mais seguro – um futuro no qual se possa confirmar que o programa nuclear iraniano é pacífico e que o Irã não poderá produzir bombas atômicas”.

A boa nova foi anunciada um mês antes do Natal, pelo laureado do Prêmio Nobel, presidente Barack Obama: ele acabava de fazer um mundo mais seguro – assim sendo, poderia continuar a aumentar os arsenais de bombas atômicas que os EUA mantêm na Europa: as B61-11 foram transformadas em B61-12, que também podem ser usadas como bombas rebenta-bunker no caso de um primeiro ataque nuclear.

É parte do “mapa do caminho” do governo Obama para manter a supremacia nuclear dos EUA.

Os EUA mantêm cerca de 2.150 ogivas nucleares armadas, quer dizer, em prontidão, prontas para serem lançadas por mísseis e bombardeiros; além de outras 2.500 ogivas em arsenais, mas que podem ser rapidamente ativadas e outras 3.000 adicionais que foram descartadas mas não desmanteladas e que podem ser reativadas: no total são cerca de 8.000 ogivas nucleares.

Arsenal nuclear da OTAN (EUA) depositado na Turquia

O arsenal russo é comparável, mas são menos ogivas prontas para lançamento, só cerca de 1.800. O novo Tratado START entre os EUA e a Rússia não limita o número de ogivas nucleares operacionais nos respectivos arsenais, mas só as ogivas em estado de prontidão para serem lançadas de transportadores estratégicos com alcance superior a 5.500 km (3.418 milhas): o teto foi fixado em 1.550 ogivas para cada lado, mas já foi ultrapassado, porque cada bombardeiro é contado como uma ogiva, apesar de carregar 20 ou mais bombas. O Tratado deixa aberta a possibilidade de melhoria na qualidade das forças nucleares.

Para tanto, os EUA estão instalando um “escudo” antimísseis na Europa, ostensivamente para neutralizar um ataque iraniano (hoje, impossível), mas, de fato, para obter uma vantagem estratégica sobre a Rússia, a qual está tomando contramedidas.

Além das ogivas norte-americanas, a OTAN tem mais 300 ogivas francesas e mais 225 ogivas britânicas, nucleares, é claro, praticamente todas em posição para lançamento a qualquer momento.

Israel – que é a única potência nuclear em todo o Oriente Médio e, diferente do Irã, não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear – tem algo entre 100 e 300 ogivas, com vetores de transporte e disparo; e produz plutônio suficiente para fabricar 10-15 novas ogivas nucleares por ano, semelhantes à que os EUA usaram em Nagasaki; Israel também produz trítio, gás radiativo usado para fabricar ogivas de neutrons, que causam menor contaminação radiativa, mas são mais letais.

Em 1986 Mordechai Vanunu, revelou ao mundo a existência do arsenal  nuclear de Israel

Ao mesmo tempo, a confrontação nuclear está se desenvolvendo na região Ásia/Pacífico, onde os EUA estão promovendo uma escalada militar. A China tem arsenal nuclear, estimado em cerca de 250 ogivas, e cerca de 60 mísseis balísticos intercontinentais. A Índia tem cerca de 110 ogivas nucleares. O Paquistão, 120. E a Coréia do Norte, como se sabe, também tem as suas.

Além desses nove países que possuem armas atômicas, há pelo menos mais 40 outros em posição de comprá-las. De fato, não há nenhuma separação entre o uso civil e o uso militar da energia nucelar, e se pode obter urânio e plutônio enriquecido o bastante para fabricar bombas atômicas, de praticamente qualquer reator. Estima-se que o mundo já acumulou quantidade suficiente desses materiais para produzir mais de 100 mil bombas atômicas; e continua a produzi-los em quantidades crescentes: há mais de 130 reatores nucleares “civis”, que produzem urânio altamente enriquecido, pronto para produzir armas atômicas. 

Aí está! Eis o tal o mundo “tornado mais seguro”... “porque” as cinco maiores potências nucleares plus a Alemanha (que vendeu a Israel submarinos nucleares de ataque) assinaram um acordo pelo qual “o programa nuclear do Irã será exclusivamente pacífico”. [Pano rápido].
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

França bloqueia “pivô” dos EUA rumo à Pérsia

Mas há uma deriva histórica inevitável

10/11/2013, Blog Moon of Alabama  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Conversações P5+1 (França, Reino Unido, EUA, Russia , China  + Alemanha) e Irã
A França foi e é um dos maiores proliferadores nucleares no Oriente Médio. Ao mesmo tempo em que trabalhou e continua a trabalhar para que vários países construam bombas atômicas, trabalha também para negar todas e quaisquer capacidades nucleares civis a outros países. As razões básicas são ganância e certa nostalgia da passada grandeur que hoje já não dispõe dos necessários meios econômicos e militares.


Evolução do estoque de bombas nucleares por Israel
Dia 3/10/1957, França e Israel assinaram acordo revisto pelo qual a França compromete-se a construir um reator de 24 MWt (cujos sistemas de resfriamento e disposição de resíduos estão previstos com capacidade para três vezes essa potência) e, por protocolos não formalizados em acordo escrito, uma usina de reprocessamento químico. Esse complexo foi construído em segredo, sem qualquer inspeção pelo sistema da Agência Internacional de Energia Atômica, por técnicos franceses e israelenses em Dimona, no deserto de Negev sob o comando do coronel Manes Pratt do Ordinance Corps do Exército de Israel.


Foto da reunião França Sauditas em 2/10/2013 sobre o programa
nuclear da Arábia Saudita
Em entrevista à  Saudi Gazette, o embaixador francês ao Reino Saudita disse que: “o objetivo dessa reunião é muito claro. A França foi o primeiro país a assinar acordo governo-a-governo para energia nuclear, porque nós optamos por levar a sério o gigantesco programa que o governo saudita quer implantar no campo nuclear, e a França tem muito a oferecer em termos da melhor tecnologia nuclear que há no mundo”.


Hollande e Netanyahu - Paris 31/10/2013
Um dia depois que Benjamin Netanyahu pediu à França que endurecesse contra o Irã, o presidente francês François Hollande falou com o primeiro-ministro de Israel por telefone e prometeu o apoio francês.


Laurent Fabius, Ministro de RE da França, bloqueou o que chamou de "acordo tolo"
Três dias intensos de diplomacia de alto nível e altas apostas terminaram em Genebra sem acordo sobre o programa nuclear iraniano, depois que a França bloqueou um acordo conciliatório que visava a diluir as tensões e a ganhar mais tempo para mais negociações.
(...)
Os diplomatas reunidos para as conversações mostraram-se indignados com o que fez o ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, o qual acusam de ter rompido o pacto dos negociadores e ter revelado detalhes das negociações já ao chegar a Genebra no sábado pela manhã; Fabius outra vez quebrou o protocolo ao anunciar resultados à imprensa, antes que Ashton e Zarif tivessem chegado à conferência de imprensa final.

Um acordo temporário em Genebra teria sido um primeiro passo para acordo nuclear mais amplo que teria resgatado o Irã, “do frio”. Teria sido o início de um movimento de “Pivô para a Pérsia”, depois do qual os EUA poderiam contrabalançar suas difíceis relações com Israel e Arábia Saudita, com relações mais harmoniosas com o Irã. Sem esse realinhamento no Oriente Médio, os EUA ficarão militarmente e financeiramente incapazes de executar seus planos de movimento de “pivô para a Ásia”.

A França fez gorar o acordo histórico e, apesar de a França já ter dados sinais prévios, os demais países “ocidentais” envolvidos não estavam preparados para o golpe, nem seus ministros de Relações Exteriores encontraram meios para enfrentar a intransigência dos franceses. Essa divisão dentro do grupo P5+1 de negociações com o Irã compromete o futuro de quaisquer negociações: com quem o Irã negociará, se não há unidade na oposição?

Esse rompimento que se enfrenta hoje dá ao Congresso dos EUA e aos lacaios de Netanyahu uma chance para introduzir mais sanções contra o Irã, incluindo-as nas próximas semanas na Lei de Autorização da Defesa Nacional [orig. National Defense Authorization Act].

Mas a desunião interna no P5+1 é, pelo menos no curto prazo, positiva para o Irã. Já ninguém pode acusar a República Islâmica de não querer negociar e de não estar buscando ativamente algum tipo de composição.

As sanções que o Congresso dos EUA está para aprovar são sanções contra terceiros, pelas quais serão “punidos” outros países que negociem com o Irã. Dado que obviamente não se trata apenas do interesse do Irã em negociar com outros países, mas de outros países negociarem com o Irã, nada assegura que esses terceiros países disponham-se a obedecer a algum diktat do Congresso dos EUA.

Não há dúvidas de que o regime de sanções está ruindo. De início, está ruindo em ritmo lento; mas adiante ruirá cada vez mais rapidamente.

É muito improvável que França, Arábia Saudita e Israel consigam bloquear por mais de um ano, um ano e pouco, um acordo para o Irã.

Mas há uma lógica histórica em os EUA e, em geral, o “ocidente” mudarem de rumo na direção da Pérsia, porque esse movimento “de pivô”, em nova direção, os livra dos “aliados” muito caprichosos aos quais estão ligados atualmente no Oriente Médio.

A reação hostil da opinião pública dos EUA contra a ideia de o país fazer guerra à Síria foi sinal de que várias mudanças (históricas) nas atuais alianças já são inevitáveis.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

As armas químicas “secretas” de Israel

24/9/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bomba de fósforo branco (arma química) utilizada por Israel contra a Palestina ocupada
(Gaza) em 11/1/2009
Os inspetores da ONU, que controlam as armas químicas da Síria teriam muito mais trabalho se fossem mandados controlar as armas nucleares, biológicas e químicas (NBQ) de Israel. Mas, pelas regras do “direito internacional”, não podem controlar nenhuma arma israelense. Israel não assinou o Tratado de Não Proliferação, nem a Convenção que proíbe armas biológicas; assinou, mas não ratificou o tratado que proíbe armas químicas.

Segundo o blog Jane’s Defense Weekly, Israel – a única potência nuclear em todo o Oriente Médio – tem de 100 a 300 ogivas nucleares e os respectivos vetores (mísseis balísticos e de cruzeiro e caças-bombardeiros). Segundo estimativas do Centro Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo [Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI)], Israel produziu entre 690 e 950 kg de plutônio e continua a produzir plutônio suficiente para montar, por ano, de 10 a 15 bombas do tipo usado em Nagasaki. Israel também produz trítio, um gás radiativo com o qual se produzem ogivas neurotrônicas, que causam contaminação radiativa menor, mas de mais alta letalidade.

Centro Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI)
Segundo vários relatórios internacionais, citados também pelo jornal israelense Ha’aretz, as armas biológicas e químicas são desenvolvidas no Instituto para Pesquisa Biológica, situado em Ness-Ziona, próximo a Telavive. Oficialmente, ali trabalham 160 cientistas e 170 técnicos, e o Instituto trabalha há mais de 50 anos em pesquisas em biologia, bioquímica, biotecnologia, farmacologia, física e outras especialidades. O Instituto é, com o Centro Nuclear de Dimona, “uma das instituições mais secretas de Israel”, sob jurisdição direta do primeiro-ministro.

O maior sigilo cerca a pesquisa de armas biológicas: bactérias e vírus que, lançados contra o inimigo, podem gerar epidemias. Dentre eles, a bactéria da peste bubônica (a “peste negra” da Idade Média) e o vírus Ebola, contagioso e letal, contra o qual ainda não há terapia disponível. A biotecnologia é instrumento para criar novos tipos de agente patogênicos contra os quais as populações-alvo não têm resistências, nem há vacina. Há também informação confiável sobre pesquisas, em Ness-Ziona, para desenvolver armas biológicas suficientemente potentes para neutralizar todo o sistema imunológico humano.

Oficialmente, o Instituto israelense em Ness-Ziona pesquisa vacinas contra bactérias e vírus, como sobre o antrax financiadas pelo Pentágono. Mas é evidente que o mesmo tipo de pesquisa permite desenvolver novos agentes patogênicos a serem usados como arma de guerra. O mesmo tipo de trabalho é feito também nos EUA e em outros países, para escapar às leis, acordos e convenções que proíbem o uso de armas biológicas e químicas.

Em 1999, a carapaça de sigilo que protege as pesquisas de armas nucleares, biológicas e químicas em Israel foi quebrada em parte pela investigação, realizada com a colaboração de cientistas, do jornalista holandês Karel Knip, editor sênior de ciências do diário holandês NRC - Handelsblad, e publicada sob o título de “Biologia em Ness Ziona”. [1] Ali ficou afinal comprovado que as substâncias tóxicas desenvolvidas pelo Instituto são utilizadas pelo Mossad para assassinar dirigentes palestinos. [2]

Depoimentos de médicos indicam que em Gaza e no Líbano, as forças israelenses utilizaram armas de concepção recente: deixam intactos os cadáveres, vistos externamente, mas agem por dentro, carbonizando o fígado e os ossos e fazendo coagular o sangue. É perfeitamente possível, com recursos de nanotecnologia. A Itália também colabora no desenvolvimento dessas armas, ligada a Israel por um acordo de cooperação militar e principal parceiro dos israelenses na pesquisa & desenvolvimento de armas biológicas. O orçamento italiano prevê dotação anual de 3 milhões de euros para esses projetos de pesquisa conjunta ítalo-israelenses. Exemplo dessa colaboração aparece no mais recente pedido de verbas para pesquisa do Ministério de Relações Exteriores italiano, que pede verbas para “novas abordagens para o combate de agentes patogênicos resistentes aos tratamentos”. Com essas verbas, o Instituto israelense para pesquisa biológica poderá tornar os agentes patogênicos ainda mais resistentes.
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.


Notas dos tradutores

[1] O centro IIBR já desenvolvia armas químicas e biológicas em segredo, até que, dia 4/10/1992, um avião, que fazia o voo n. 1862 da empresa El Al, caiu sobre um prédio de apartamentos em Bijlmer, bairro de Amsterdã, Holanda, a caminho de Telavive, levando a bordo três tripulantes, um passageiro e 114 toneladas de carga. Foi o pior desastre aéreo da história holandesa, que deixou 47 mortos em solo e arruinou a saúde de 3.000 moradores da área.
Começaram a surgir doenças misteriosas, irrupções cutâneas, dificuldades respiratórias, doenças neurológicas e muitos casos de câncer, concentrados naquela específica área.  
 IIBR (Israel Institute for Biological Research)
Depois de vários anos de investigações detalhadas e profundas, o jornalista holandês Karel Knip, publicou, em novembro de 1999, a reportagem mais detalhada e mais repleta de fatos sobre o trabalho do IIBR israelense, narrada a partir do acidente aéreo em Bijlmer.
Knip conseguiu provar que o avião levava uma carga da empresa Sokatronic Chemicals, de Morrisville, Pennsylvania, para o Instituto IIBR, em Israel, o que configura clara violação da Convenção para Armas Químicas.
O carregamento incluía 50 galões de DMMP, quantidade suficiente para produzir 250kg de gás sarin, de efeito neurológico, 20 vezes mais letal que o cianureto. Knip descobriu que pelo menos 140 cientistas especializados em armas biológicas do Instituto IIBR tinham laços próximos com o Walter Reed Army Institute, a Uniformed Services University, o American Chemical and Biological Weapons Center em Edgewood e a Universidade de Utah. 
Descobriu também a estreita cooperação que há entre o IIBR israelense e o programa de armas biológicas britânico-norte-americano e, também, o extenso programa de pesquisa de armas biológicas que há entre Alemanha e Holanda – o que explica que, até hoje, o governo holandês mantenha o mais absoluto silêncio sobre o avião que caiu em Amsterdam. (Global Research, 29/9/2013 em: “Israel’s History of Chemical Weapons Use”).

[2] Um caso muito bem comprovado de uso de arma química por Israel, em atentado do Mossad contra Khaled Meshall, do Hamás palestino, em Amã, Jordânia, em 1997, está narrado em detalhes fartamente documentados no livro Kill Khalid. The Failed Mossad assassination of Khalid Meshall and the Rise of Hamas, do jornalista australiano Paul McGeough (EUA: The New Press, 1999). 

Meshall foi atacado num aparente simples esbarrão na rua, quando agentes do Mossad disfarçados como turistas injetaram uma substância desconhecida dentro de seu ouvido. 
Os atacantes foram perseguidos por guardas da segurança de Meshall e, para não serem apanhados, entraram no prédio da embaixada de Israel em Amã. 
Meshall só foi salvo por interferência direta do rei da Jordânia, indignado com a ação de terroristas israelenses em território da Jordânia, que denunciou a ação terrorista ao presidente Clinton, dos EUA, o qual ordenou que Israel enviasse imediatamente o antídoto para salvar a vida de Meshall. Israel obedeceu, pressionado também pelo rei da Jordânia que já cercara a embaixada e ameaçava explodir o prédio, o que criaria um incidente internacional que todos os envolvidos tinham interesse em evitar a qualquer custo, gerado, de fato, pela incompetência dos agentes israelenses.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Irã: Obama carece de um salto de fé

31/7/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Trabalhador iraniano dá toques finais num mural do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, do Irã na praça Enghelab, em Teerã. Fotógrafo: Majid Said 
Mesmo para quem observa compulsivamente há anos a “questão iraniana”, é uma festa para a inteligência: nunca antes, em três décadas, a luta dentro do establishment norte-americano foi tão feroz. “Engajar” ou não “engajar” o Irã: eis a questão. Em matéria fascinante, o New York Times toma a pulso dos EUA. 
Hassan Rouhani
Claro, uma mão invisível impulsiona os políticos do Capitólio a pôr freios no presidente Barack Obama, apesar de já estar em clara ascensão, na opinião pública nos EUA, a ideia de que não resta saída além de engajar o Irã; sobretudo agora que a eleição de Hassan Rouhani abre janela sem precedentes de novas oportunidades, depois de trinta anos de impasse.

Não se trata de pôr algemas na prerrogativa presidencial, de Obama, de comandar a política exterior: é situação de vida-ou-morte para o lobby israelense.

O pesadelo israelense é que, se o engajamento EUA-Irã ganhar tração, haverá mudança tectônica na geopolítica do Oriente Médio; e a posição pivô das estratégicas dos EUA na região pode sofrer erosão.

Israel está em pânico, de que projetos divulgados, como a estrada de ferro financiada pelos EUA, conectando o Afeganistão a portos iranianos no Mar da Arábia, venham a mudar dramaticamente o jogo.

O último relatório de 175 páginas, divulgado na 3ª-feira (30/7/2013) ao Congresso dos EUA, pelo Inspetor Geral norte-americano para a Reconstrução Afegã, diz que “o Irã é a destinação preferencial de exportações de minérios [do Afeganistão] porque a estrada é mais eficiente e a infraestrutura ferroviária do Irã está em melhores condições que a do Paquistão”.

Inacreditável, não é mesmo?! Os militares norte-americanos querem retomar e implementar o mesmo projeto sobre o qual burocratas indianos letárgicos, vãos, covardes, e seus senhores políticos, nada fizeram, além de muito discursar e falar em vão, durante vinte anos? Vide páginas 164-166 do Relatório. 
 
Como se não bastasse, Obama fez das tripas coração para aumentar o nível de conforto dos israelenses: o mais recente movimento foi nomear Martin Indyk para comandar as conversações para o Oriente Médio que se reiniciam. Indyk não é apenas “velho servidor de Israel”: ele é a própria “mão israelense” encarnada.   

Barack Obama
Obama fez o que fez com o único objetivo de inspirar confiança a Telavive, de que é e sempre será um anjo guardião dos melhores interesses de Israel. Pois nem assim Israel deixou-se convencer.

Israel absolutamente não quer, de modo algum, a integração do Irã como potência regional; não quer normalização de laços entre Irã e o ocidente; não quer ver o Irã aberto como a mais recente fronteira de energia – Israel absolutamente não quer nada disso.

E não quer porque essas medidas implicarão que Israel será forçado a contentar-se com ser estado normal de 6 milhões de habitantes. Se desaparecer o fantasma iraniano, Israel será fatalmente empurrada a ter de resolver o problema palestino.

Até hoje, a questão nuclear iraniana serviu como útil distração, ao longo de décadas, tempo durante o qual Telavive desencaminhou a chamada “comunidade internacional”.

E então, de repente, começa essa nova campanha a favor do programa nuclear iraniano. O mais recente relatório de “think-tank” dos EUA  diz que o Irã

(...) em meados de 2014 terá capacidade crítica para processar material de urânio baixo-enriquecido e fabricar material a ser usado numa arma atômica, sem que os inspetores internacionais tomem conhecimento.

Eureka! Descobriram a pólvora!

A mensagem ocultada é:  

Não é hora de o presidente dos EUA inventar de “engajar” em negociações o Irã, país de traidores.

Para os velhos observadores do Irã, a coisa volta, como uma sensação de déjà vu.

A grande pergunta é se Obama terá a coragem política necessária para desafiar o lobby israelense e dar o salto de fé  necessário para engajar o Irã.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 13 de março de 2012

Meir Dagan chegou ao horário nobre, na televisão nos EUA


Apesar de “Bibi”, há muito Israel contra Israel atacar o Irã

12/3/2012, Brian M Downing, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: O que esse artigo nos sugeriu -- como pauta q aqui oferecemos à discussão geral -- é o seguinte:

De fato, o que está hoje MUITO RUIM, em todo o mundo -- e muito MAIS RUIM, até, que as esquerdas -- é, de fato, A DIREITA!
Nunca antes, nos últimos 50-70 anos, a direita esteve PIOR! Há 50 anos, POR EXEMPLO, na direita dos EUA havia Kissinger. Era ruim, mas... Panneta é MUITO PIOR! No Brasil, há 50 anos, a direita tinha Franco Montoro. Era ruim, mas... Alckmin é MUITO PIOR! Havia no Brasil a UDN. Da UDN, por exemplo, conheci um deputado paraibano, Osmar de Aquino, pai de uma amiga minha, que era MUITO udenista... e, simultaneamente, era grande amigo, amigo íntimo, pessoal, do Velho Prestes, que confiava cegamente no Dr. Osmar e que, aliás, conheci na cada do Dr. Osmar, aqui em SP. Era oooooooutra coisa! Hoje, na UDN, há do ex-FHC ao ex-senador Virgílio; há Cesar Maia; há o senador Aloysio; há Cerra; há Alckmin, Kassab, Marina Silva...

SANTO DEUS! Tudo isso é INFINITAMENTE PIOR que a direita daqueles anos! D. Danuza hoje tem coluna de jornalista!

Nunca antes na história desse país alguma Danuza teve coluna de jornalista! Quando, algum dia, o jornalismo paulista foi pior que ISSO?!

Há  em todos esses movimentos um importante e claro avanço DAS ESQUERDAS, que as esquerdas não estão conseguindo ver, por absoluta falta de formação política leninista, por excesso de cultura “ético-moralista” metida a inteligentíssima (que sempre foi, no Brasil, marca registrada das elites brancas e ricas e uspeano-letradas); por excesso de sociologias & economias neoliberais fanadas; por excesso de partidarismo tribalista eco-ético-moralista petista; e, também, por absoluta falta de vivência e de visão políticas, desses carinhas que não sabem o que seja a luta política REAL, sob as terríveis condições que os pobres sempre enfrentaram em todas as lutas políticas nesse Brasil da “ideologia de segunda mão”. 

Mas achamos, mesmo-mesmo, que nossas “elites” brancas e ricas e uspeano-letradas são o horror que são hoje, mais que tudo, por excesso de contato-confiança-conluio com o jornalismo brasileiro -- que é o pior do mundo; que não ajuda a esclarecer ninguém ; e que, provavelmente, é responsável hoje, sobretudo, pela péssima qualidade, também, da direita DELES [risos, risos, risos].

\o/ \o/ \o/ \o/ Essa é a melhor ideia que nos ocorreu, em muitos anos!

O Gato Filósofo foi às lágrimas. Depois, semirrecomposto, pôs-se a enunciar frases desconexas: “Bom... a luta é longa, mas...” - “É nóis na fita!” – “Te cuida, UDN!” – “Se Bibi tá enquadrado na CBS... no domingo à noite, na televisão, nos EUA, em ano eleitoral, então... 

NO PASARÁN! NO PASARÁN! NO PASSARÁN!”
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Brian M. Downing
Washington vive horas de suspense, ante novos desdobramentos no caso do programa nuclear iraniano e correspondentes gritos de guerra. Primeiro, foi o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu que chegou à cidade para, em reuniões com o presidente Barack Obama e com grupos norte-americanos pró-Israel, insistir em sua tese de ‘guerra já’. 

Dificilmente terá voltado muito satisfeito para casa. Obama deixou-o falar, mas ao final, insistiu em mais diplomacia. O assunto poderia ter ficado nesse pé mais diplomático, se o debate não continuasse inflado na imprensa e na campanha eleitoral presidencial. Netanyahu mobiliza todos os seus seguidores para forçar os EUA a atacarem o Irã ou, não sendo isso possível, para que, no mínimo, apóiem algum ataque israelense. E isso, diz ele, tem de ser feito imediatamente, antes que o Irã esconda em sítios subterrâneos, nas montanhas, as suas instalações para enriquecimento de urânio – que assim ficariam invulneráveis a qualquer ataque.

Netanyahu tampouco deve estar muito contente por o ex-chefe do Mossad (“equivalente israelense da CIA”, como se ouve na entrevista, adiante) Meir Dagan andar também falando muito à imprensa nos EUA – e dizendo coisas mais próximas da posição de Obama, que da posição de ‘Bibi’. Dagan é analista escolado da geopolítica da região. Não há dúvidas de que será ouvido atentamente.

Rápidos minutinhos com um chefe do Mossad

No domingo, Meir Dagan foi entrevistado no programa 60 Minutes programa muito popular nos EUA. A entrevista pode ser vista-ouvida a seguir:


... para manifestar-se, embora obliquamente, em direção diferente do que as direitas andam dizendo nos EUA e em Israel. A matéria veio cheia de fotos e subtemas, para fixar as altas credenciais militares e de segurança do entrevistado e as muitas vezes que seu nome apareceu associado a assassinatos no Oriente Médio. Não faltaram trechos de outra entrevista, do ano passado, em que Dagan disse que Israel atacar o Irã é “a ideia mais estúpida que jamais ouvi”.

O ex-diretor do Mossad reconheceu [para sincera ou fingida, e nos dois casos ridícula surpresa, com ares de indignação, da jornalista que o entrevistava] que, com algumas fracas restrições, a liderança iraniana é “racional”.

Dagan não apareceu naquele programa para pregar sermões de filosofia cartesiana ou ensinar teoria dos jogos. Ele lá esteve para separar-se ativamente de israelenses e norte-americanos que dizem – e talvez creiam sinceramente no que dizem – que o Irã seria governado por clérigos ensandecidos que esperam ansiosamente pelo fim do mundo e que nada e ninguém conseguiria impedir de fabricar e usar bombas atômicas. Para Dagan, o Oriente Médio pode chegar a uma situação de mútua contenção. Foi exatamente o que EUA e União Soviética construíram e preservaram ao longo de muitas décadas, até o colapso do regime comunista soviético.

Dagan acompanhou durante décadas as relações com o Irã. Sabe que Israel tiveram laços profundos com o Irã do Xá e também com o Irã dos mulás, depois que chegaram ao poder em 1979, e que Israel ajudou na longa guerra contra o Iraque (1980-88). A quebra das relações não é consequência de ideologia ou das políticas de Teerã; é efeito de uma mudança política em Jerusalém: depois de verem o Irã destruir o exército de Saddam na 1ª Guerra do Golfo, os israelenses passaram a ver o Irã como potência árabe sem qualquer opositor local à altura e, por isso, como força que poderia ameaçar Israel. E assim, rapidamente, Israel converteu o Irã em seu principal inimigo regional.

O ex-chefe do Mossad não descarta alguma eventual necessidade de atacar o Irã, mas entende que o Irã está ainda distante (“talvez três anos”) de ter armas nucleares. Dagan parece preferir a situação em que os EUA demarquem uma “linha vermelha” no atual momento da produção de armas, que impeça que o Irã passe ao estágio seguinte nas instalações de enriquecimento de urânio; isso, além do mais, daria ao Irã uma saída honrosa para desistir de qualquer ataque. Por hora, em todos os casos, Dagan prefere que se mantenham as atuais sanções e as tentativas diplomáticas com vistas a estimular uma “mudança de regime” no Irã.

É difícil subestimar a extraordinária importância da entrevista de Dagan no domingo à noite, nos EUA. Foi como se, no início de 2003, (a) um respeitado ex-diretor da CIA ou general e comandante militar norte-americano tivesse ido à televisão para falar a grandes audiências contra o país invadir o Iraque; e (b) tivesse encontrado grande rede comercial de televisão que lhe desse espaço e voz.

É possível que Dagan tenha considerado tudo isso. Recentemente, disse que uma guerra contra o Irã geraria ataques devastadores de retaliação contra cidades israelenses e guerra regional cujos “desafios de segurança tornar-se-iam insuportáveis.”

O Likud e Israel

O público norte-americano foi adestrado para receber declarações sobre a segurança nacional de Israel, feitas por ministros israelenses ou grupos influentes nos EUA, como o AIPAC, como se fossem declarações “técnicas” ou informação “isenta”, e, sobretudo, como se fossem informações estabelecidas que não se poderiam questionar. As palavras de Dagan enfraquecerão bastante essas crenças tão difundidas na opinião pública; e os discursos de Netanyahu, que não se cansa de exigir guerra, também passarão a ser vistos sob outra perspectiva.

Avaliações sobre segurança nacional são estimativas, aproximações e, não raras vezes, incluem alguma dose de puro palpite; baseiam-se tanto em evidências reunidas em campo como em crenças já existentes. Essa área escura numa imagem de satélite será um processador de fertilizante, ou um silo de míssil nuclear? As interpretações variam como variem as personalidades e as instituições.

O pensamento dos israelenses foi, é claro, modelado pelo Holocausto, que tem paralelos óbvios, embora superestimados, com as preocupações de hoje. O Likud de Netanyahu e outros partidos conservadores em sua coalizão também foram modelados pelo efeito da miraculosa vitória de Israel contra os grandes exércitos árabes de na Guerra dos Seis Dias, de 1967.

Com certeza, muitos terão pensado, foi sinal da divina providência que guia as ações de Israel – conceito paroquial que se encontra ativo em outros países e em outras religiões. O fundamentalismo religioso somou-se ali às razões de estado – dois campos dogmáticos, cada qual a seu modo –, o que reduziu o espaço de influência de políticos mais influenciados pela moralidade talmúdica e por raciocínio mais nuançado.

A posição extremamente dura e conservadora de Netanyahu não corresponde a qualquer consenso da opinião pública israelense. Pesquisa recente constatou que só 19% dos israelenses são favoráveis a um ataque unilateral de Israel contra o Irã. Considerada a atual posição de Obama, Netanyahu, se insistir em exigir guerra total contra o Irã, estará claramente falando sozinho.

Nem, deve-se observar no debate sobre o Irã, seu partido e seus parceiros de coalizão tem a exibir currículo muito recomendável de sucessos em política externa. Nos 35 anos, desde que Menachem Begin formou o primeiro governo do Likud, o partido já várias vezes errou e fracassou gravemente.

Os ataques de Israel contra o Líbano e militantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) levaram ao surgimento de uma forte oposição xiita e ao crescimento do Hezbollah. Esforços de Israel para enfraquecer o Fatah fortaleceram o Hamás. Respostas desproporcionais a ataques palestinos enfraqueceram muito o poder de Hosni Mubarak no Egito, tão importante para Israel. A insistência em instalar colônias em territórios palestinos que Israel ocupa na Cisjordânia gerou indignação e animosidade contra Israel em todo o mundo, e fez crescer o apoio universal ao boicote contra Israel. É provável que a decisão de romper com o Irã em meados dos aos 90s (invenção conjunta dos partidos Labor e Likud) tenha tido papel considerável na geração da atual crise.

Tambores de guerra e o público, nos EUA

As declarações de Dagan na televisão dos EUA vêm em momento auspicioso. Em muitos espaços, serão calorosamente acolhidas e repetidas, como até hoje se repetem suas palavras, de 2011, sobre a estupidez de um ataque ao Irã. Desde a 2ª Guerra Mundial, o público norte-americano foi rápido ao apoiar muitas ações militares; mas, hoje, as questões centrais são a economia e a dívida. Porque aprenderam da dura experiência recente, os norte-americanos não creem mais em cenários televisivos que exibam ataques “cirúrgicos” e consequências subavaliadas.

O Irã tornou-se questão partidária: políticos, jornalistas e jornais conservadores não param de fazer soar tambores de guerra – e de clamar por, precisamente, mais ataques cirúrgicos e mais consequências subavaliadas. Obama já expôs o que pensa sobre mais diplomacia e sanções; e as pesquisas o favorecem. Pesquisa de fevereiro sobre a questão iraniana mostrou que 60% dos entrevistados preferem diplomacia & sanções: 20% preferem nenhuma ação contra o Irã; e 17% preferem ação militar.

A posição de Obama será fortalecida também por aspectos aparentemente sem correlação, como alguma melhoria nas condições econômicas e a muito evidente falta de atrativos nos candidatos conservadores, cujos discursos e clamores patéticos a favor de guerra e sangue não têm qualquer eco fora das fileiras mais conservadoras dos conservadores. Insistir em pressionar a favor de mais guerra, de hoje até as eleições de novembro, só fará chamar cada vez mais atenção para o caráter partidarizado e pouco exequível da agenda de Netanyahu – seja nos EUA seja em Israel.

Meier Dagan parece que saiu do frio e, em conjunção com uma rede comercial de televisão norte-americana, pôde falar diretamente aos eleitores dos EUA, num debate em torno de uma guerra que ameaça todos. Suas palavras reverberarão pelos think tanks e gabinetes da segurança; chegarão provavelmente até o AIPAC. Resta esperar que as palavras de Dagan tenham mais credibilidade que as de “Bibi”.