Mostrando postagens com marcador Comissão da Verdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Comissão da Verdade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de maio de 2013

Hora de se conhecer a verdade



Publicado em 07/05/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

Depois de quase 36 anos e meio da morte do Presidente João Goulart (6 de dezembro de 1976), a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul decidiram, finalmente, exumar o corpo do herdeiro político de Getúlio Vargas. Muitos devem estar dizendo, antes tarde do que nunca.

Mas não se pode esquecer que logo após a morte de Jango, as autoridades brasileiras e argentinas se recusaram a fazer a autopsia. Por que será?  

Há fortes indícios de que Jango foi mesmo assassinado com a troca de remédios. Embora deva ser considerado louvável a inicativa da Comissão Nacional da Verdade, não se pode garantir que depois de tanto tempo a exumação seja considerada conclusiva.

Como se sabe, há testemunhas, como a do ex-agente da repressão uruguaia, Mario Barreiro, que conta com detalhes como ocorreu a troca de remédios que teria provocado a morte do Presidente.

Vale ainda lembrar que recentemente a Justiça argentina – Jango morreu em Las Mercedes, na Argentina – tinha solicitado às autoridades brasileiras que fosse feita a exumação. O pedido não foi respondido, o que só agora acontecerá graças a Comissão da Verdade.

É preciso também que a Comissão procure esclarecer com precisão o que poucas semanas antes da morte de Jango foi fazer no Uruguai (Jango ainda estava lá) o famigerado delegado Sérgio Fleury, que recebeu grandes elogios por parte do então deputado estadual pela Arena de São Paulo, José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) .

Da mesma forma que Jango, ainda falta esclarecer, em definitivo, a morte de Juscelino Kubitschek em acidente de carro na Rio-São Paulo em que o motorista, segundo denúncias, teria sido baleado, fato não investigado como deveria.

O terceiro participante da Frente Ampla, Carlos Lacerda, segundo denúncias, ingressou em um hospital para cuidar do agravamento de uma gripe e acabou morrendo.

Os três naquele momento de 1976, em função da carência de lideranças civis de envergadura nacional, poderiam, em caso de uma abertura, ser eleitos por voto popular, algo que os generais de plantão não conseguiam. Sempre foram biônicos.

Eleger Jango, JK ou mesmo Lacerda naquele momento era tudo que o general de plantão da ocasião (Ernesto Geisel) e seu “mago”, o Coronel Golbery do Couto e Silva, não queriam. Temiam perder o controle da propalada abertura lenta e gradual, que nunca passou de uma peça de marketing do sistema que agonizava.

A extrema direita, a das bombas e atentados praticados, muitas vezes com o objetivo de incriminar a esquerda, tentava também à sua maneira manter o regime ditatorial.

Para conhecer tudo o que aconteceu naquele período é preciso também lembrar fatos e contextualizá-los. É preciso não esquecer da política econômica praticada pelos governos ditatoriais, responsáveis em grande medida pela redução do poder aquisitivo dos assalariados, resultando na perda de qualidade de vida de amplas parcelas da população.

Tudo isso faz parte de um todo que derivou na dura repressão praticada por agentes do Estado brasileiro, que obedeciam ordens superiores, mas agiam de forma mais realista do que o rei, como acontece em regimes do tipo implantado a partir de 1964.

A Comissão Nacional da Verdade tem a missão histórica de mostrar aos brasileiros tudo isso com detalhes.

Audiência pública - Na audiência pública com militares perseguidos pelo regime ditatorial, realizada na ABI no sábado (4/5/2013), muitas histórias sobre o setor apareceram, uma delas, por exemplo, a de oficiais que se recusaram a participar de uma ação para derrubar o avião de Jango, a chamada Operação Mosquito, em 1961. Acabaram cassados e presos depois do golpe de 64 . Foi uma das primeiras vinganças contra militares legalistas praticadas pelos militares golpistas cooptados pelo Departamento de Estado norte-americano que se apossaram do poder.

Na mesma audiência, Luis Claudio Monteiro da Silva contou que foi preso, torturado e expulso dos quadros do Exército porque foi pego no alojamento lendo um artigo elogioso a Darcy Ribeiro. E, pasmem, isso aconteceu na década de 80. Além de ter sido interrompido o seu sonho de se tornar militar, Luis Claudio até hoje guarda sequelas das torturas.

Quem assistiu a histórica sessão da Comissão da Verdade foi informado também que cerca de 7.500 militares foram punidos pelos golpistas de 64.

A perseguição chegou a tal ponto que até hoje muitos militares de escalões inferiores, como cabos e sargentos, continuam sem ser anistiados. Tanto eles como oficiais, legalistas e nacionalistas, que defendiam a legalidade, seguem sendo tratados como parias quando vão a alguma repartição militar.

A história desses militares precisa ser conhecida pelos brasileiros em todos detalhes. Espera-se que Comissão da Verdade cumpra com a missão histórica. O primeiro passo nesse sentido foi dado com a Audiência Pública.
_________________

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Manchas obscuras na história do Brasil




 Publicado em 30/10/2012 por *Mário Augusto Jakobskind

Quando os meios de comunicação se referem aos torturadores e assassinos do período da ditadura argentina esquecem, deliberadamente ou não, em apontar os vínculos com outras ditaduras, inclusive a do Brasil. Alguns espaços midiáticos eletrônicos, entre os quais a TV Brasil, têm apresentado matérias sobre a Operação Condor que ajudam os brasileiros a lembrar ou conhecer o que representaram para o país e a região os regimes de exceção.

A propósito, continua sem solução, no sentido de apontar culpados, o desaparecimento no aeroporto internacional do Rio de Janeiro do jornalista argentino Norberto Habegger. Militante peronista, Habegger vinha do México e ao desembarcar no Rio foi preso e nunca mais se soube dele. Na época, a Associação Brasileira de Imprensa pediu esclarecimentos à Polícia Federal, que confirmou a entrada do jornalista, mas não registrou a sua saída.

Agora, 34 anos depois, graças, sobretudo, aos esforços do lutador social gaúcho Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, o tema está voltando à tona.

É vergonhoso para o Brasil ser responsável pelo desaparecimento de um jornalista, vitimado por ação conjunta de facínoras brasileiros e argentinos. Estes últimos, por sinal, estão sendo punidos exemplarmente, entre eles o ex-presidente Rafael Videla, depois que o então presidente Nestor Kirchner mandou para o lixo da história a legislação que concedia anistia a responsáveis por crimes contra a humanidade.

Ao baixar no então Galeão em 30 de julho de 1978, o que foi confirmado, Habegger usava passaporte em nome de Héctor Esteban Cuello. Tinha encontro marcado com outros argentinos que não aceitavam o regime de terror implantado pelos militares. Foi dedurado, e aí então repressores brasileiros e argentinos armaram a armadilha que o levou a morte e ao desaparecimento do seu corpo. Segundo Krischke ele foi preso em um hotel do Rio de Janeiro por agentes que também falavam espanhol.

Crimes desta natureza precisam ser esclarecidos de uma vez por todas. Se forem encontrados os responsáveis pela ocorrência devem ser submetidos a julgamento e cumprirem pena pela responsabilidade nos atos. Terão até direito de defesa, o que não acontecia quando estavam no poder. 

A Operação Condor é relatada em pormenores em um importante livro da jornalista e escritora argentina Stella Calloni (Operação Condor – Pacto Criminoso), que poderia ajudar a Comissão da Verdade a aprofundar o tema com novos documentos ainda não revelados.

Para ainda maior vergonha dos brasileiros, não só desapareceu no Galeão o jornalista Habbegger. Stella informa que pelo menos quatro argentinos também tiveram o mesmo fim quando faziam escala no Rio de Janeiro entre março e junho de 1980. Foram eles Monica Susana Pinus e Horacio Campiglia. Da lista consta também os desaparecimentos de Enrique Ruggia (1974) e Jorge Oscar Adur (1980).

Em Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina desapareceu Lorenzo Ismael Viñas. Foram vítimas da Operação Condor, cujos documentos em Assunção foram descobertos pelo advogado Martin Almada, um incansável lutador contra a ditadura de Alfredo Stroessner, ditador que teve bom relacionamento com figuras de destaque da ditadura brasileira, inclusive o General João Batista Figueiredo, que antes de ser nomeado Presidente chefiou o famigerado Serviço Nacional de Informações e já tinha sido adido militar brasileiro em Assunção.

Aliás, em matéria de adidos militares no exterior, o Brasil, já no governo de José Sarney, tinha como representante em Montevidéu nada mais nada menos do que um acusado de torturador, o coronel Carlos Alberto Ustra, comandante do DOI-CODI de São Paulo no período mais duro da ditadura, início dos anos 70. Ele foi reconhecido como torturador pela então deputada Beth Mendes que integrava uma delegação brasileira em Montevidéu.

Por sinal, o Tribunal de Justiça de São Paulo acabou de aceitar outra denúncia contra Ustra, acusado neste caso de juntamente com os delegados Alcides Singillo e Carlos Alberto Augusto, ambos da Polícia Civil, de sequestrar e torturar o corretor de valores Edgar de Aquino Duarte, em junho de 1971. Prevaleceu a lógica de que crimes continuados seguem vigentes.

Da mesma forma que argentinos desapareceram no Brasil com a ajuda de repressores destas bandas, na Argentina vários brasileiros também foram vítimas da Operação Condor. Muitos criminosos de lá que ajudaram os criminosos daqui estão sendo ou já foram julgados pelos crimes contra a humanidade praticados. Aqui seguem impunes acobertados por uma lei de anistia promulgada ainda durante a ditadura.

Por estas e muitas horas, os acontecimentos na Argentina em matéria de julgamentos de violadores dos direitos humanos devem ser acompanhados em todos os detalhes pelos brasileiros. Afinal de contas, como comprovam os documentos implacáveis, as duas ditaduras atuavam conjuntamente. A condenação à prisão perpétua de Videla, Massera e outros do gênero diz respeito não só aos argentinos como todos os povos que foram atingidos pela repressão que atuava em conjunto.

Cabe agora à Comissão da Verdade investigar tudo isso, inclusive exigir que se autorize a exumação dos restos de João Goulart, para esclarecer de uma vez por todas se o Presidente deposto foi ou não vítima de troca de remédios que resultou em sua morte em uma fazenda de sua propriedade em Las Mercedes, Argentina.

Da mesma forma é necessário que a Comissão conclua um parecer sobre as circunstâncias do acidente automobilístico que resultou na morte do Presidente Juscelino Kubitshek, já que há também denuncias segundo as quais o motorista do veículo teria sido atingido por uma bala na cabeça, fato que pode ter sido escondido pelas autoridades em agosto de 1976.

Com a palavra a Comissão da Verdade.
____________________

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Recado para a Comissão da Verdade




Publicado em 09/10/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

Dossiê Jango, documentário de Paulo Henrique Fontenelle, que concorre a prêmio no Festival de Cinema do Rio deste ano deveria ser visto pelos integrantes da Comissão da Verdade. A película mostra que quase 36 anos depois da morte do Presidente João Goulart ainda pairam dúvidas se ele foi ou não assassinado com a troca de remédios para o coração por uma substância contendo veneno.

É lamentável que depois de tanto tempo nenhum dos governos brasileiros se dispôs a seguir adiante com a investigação que tem por objetivo acabar de uma vez por todas com a dúvida.

A Justiça argentina, para vergonha do Brasil, solicitou a exumação do corpo de Jango, que está enterrado em São Borja. Desta forma se poderia verificar se procede ou não a hipótese. Há indícios fortes no sentido de que Jango foi mesmo assassinado.

Por coincidência ou não, num espaço de poucos meses, além de Jango, dois outros políticos brasileiros morreram em circunstâncias no mínimo duvidosas. A morte de Juscelino Kubitschek na estrada Rio- São Paulo, na altura do município de Resende, voltará a ser investigada pela Comissão da Verdade. Há denúncia de que o motorista de JK teria sido baleado.

Logo após o acidente desapareceu o diário que JK escrevia e falou-se que o empresário Guilherme Romano, muito ligado ao Coronel Golbery do Couto e Silva e também amigo do ex-presidente, teria se apossado do material que poderia sinalizar muitos fatos importantes.

Uma semana antes da morte, quando JK estava em seu sítio em Luiziânia, no Estado de Goiás, cerca de 60 quilômetros de Brasília, correu o boato segundo o qual o ex-presidente teria morrido em um acidente da automóvel ao se dirigir à capital federal. Os repórteres foram acionados e encontraram Juscelino no seu sítio. Realmente é muito estranho que depois dessa falsa informação tenha ocorrido o acidente em Resende.

Já Carlos Lacerda, o terceiro participante da Frente Ampla (uma tentativa política institucional, em 1968, para acabar com a ditadura) estava gripado e preventivamente foi a um hospital se tratar onde morreu, o que é também muito estranho. Lacerda, como Jango e JK era uma das lideranças em condições de numa abertura política voltar a atuar politicamente com destaque, o que desagradava a setores do regime ditatorial.

Tais lembranças de um período que antecedeu a abertura lenta e gradual desenvolvida a partir do governo do general de plantão Ernesto Geisel, com o apoio de Golbery, encontram-se no documentário Dossiê Jango, que merece ser visto por todos os brasileiros interessados em consolidar o processo democrático. E para que isso aconteça é necessário esclarecer de uma vez por todas os fatos nebulosos do passado. Está aí a Comissão da Verdade, que se espera cumpra o papel histórico nesse sentido.

No caso de Jango é absolutamente necessário convocar o agente da CIA, área de Montevidéu, em 1976, Frederick Latrash, que mais tarde tornou-se assessor do então candidato republicano, em 2008, John McCain. Latrash teria informações a prestar já que, segundo informam várias testemunhas, teve participação ativa no esquema que culminou com a morte (assassinato?) de Jango.

Em 2002, portanto há 10 anos, o ex-agente da inteligência uruguaia, Mario Neira Barreiro fez uma série de denúncias sobre as circunstâncias da morte de Jango em Las Mercedes, na Argentina. Barreiro acusa agentes da CIA de serem os responsáveis pela montagem de “uma farsa para ocultar um infame assassinato político instigado e patrocinado pelos Estados Unidos”. Ele conta em detalhes fatos relacionados com João Goulart que só quem teve acesso direto a ele poderia conhecer. Mesmo sendo um marginal, como sempre foi e posteriormente envolvido em estelionato, o depoimento de Barreiro pode servir de roteiro inicial para a própria Comissão da Verdade. Ele seria ouvido pelo que fez quando era agente da inteligência uruguaia.

O jornalista uruguaio Roger Rodriguez investigou a fundo as denúncias e concluiu que há indícios claros sobre o assassinato de Jango. Rodriguez garante que tudo o que foi informado por Barreiro se confirmou em suas investigações. Poderia também ajudar a Comissão da Verdade a esclarecer os fatos.

Lamentável em toda esta história, conforme mostra o documentário Dossiê Jango, é que a Justiça brasileira tem criado obstáculos para se investigar a morte do único Presidente do País que morreu no exílio. E agora chegou ao ponto de a Justiça argentina, que investiga a denúncia de que Jango foi assassinado com a troca de remédios, pedir que se faça a exumação.

Diante de fatos ocorridos durante o período da ditadura no Brasil que estão sendo conhecidos, se for comprovado mesmo o assassinato de Jango, o acontecimento se somará a uma série de outros protagonizados pelos generais de plantão que conduziram o país durante 21 anos.

Não se trata de ação isolada de psicopatas, como alguns preferem que seja, exatamente para não culpar o sistema surgido depois de 64, mas sim pela política de Estado, que optou pelo terrorismo institucional, capitaneado por generais nomeados.

Figuras como Brilhante Ustra, major Curió, entre outros, são peças dessa engrenagem hedionda e responsáveis por comprovadas violações dos direitos humanos que estão aí mesmo para serem julgados com todo o direito de defesa. Exatamente ao contrário do que faziam com os presos políticos da época da ditadura quando comandavam corporações militares.

----------------------------------------------------------------

Presidente Hugo Chávez Frias
A direita venezuelana e latino-americana tentou de tudo para derrotar o Presidente Hugo Chávez. A mídia de mercado e os analistas de sempre chegaram a fazer previsões indicando a vitória de Capriles Radonski. Mas na hora da verdade ao serem conhecidos os resultados, não restou dúvida com a diferença de cerca de um milhão e 300 mil votos em favor do líder bolivariano.

Uma tarefa interessante para professores e estudantes de comunicação é analisar a cobertura dos principais telejornais, jornais e revistas brasileiras sobre o pleito na Venezuela e mesmo depois do pleito.

Se fizerem um bom trabalho vão ver quanta barbaridade desinformativa vem à tona com “analistas” chegando a afirmar que a diferença foi só de 10 pontos percentuais, mas sem informar o número de votos que corresponde o percentual.

Inacreditável, na TV Globo uma repórter disse que o resultado espelhava o descontentamento do povo contra Chávez em função da votação do candidato derrotado.

___________________________

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Exército fraudou a notícia do massacre


Ex-major da Polícia Militar de Pernambuco José Ferreira dos Anjos
Publicado em 27/09/2012 por Urariano Motta*

Recife (PE) - Em plena democracia, nós lemos os jornais e continuamos desinformados, pois as autênticas notícias desaparecem do conhecimento público. O leitor faça um teste, que mais de uma vez sem pretensão de analista, pratiquei. Vá, esteja presente a um grande acontecimento político. Depois compare o que você viu, o mais importante e escandaloso fato que você presenciou, com a notícia que aparecerá nos jornais e na televisão. Verá um absurdo de versões, e de tamanha diferença, que você vai se falar o maior absurdo: se os jornais falam a verdade, então eu nunca estive onde pensei estar.

Na última semana, a manchete que os jornais não deram e se dirá mais adiante, vem deste magnífico momento do depoimento do ex-major Ferreira à Comissão Estadual da Verdade. Depois de um breve histórico, em que os repórteres situariam os antecedentes criminais do ex-major da Polícia Militar de Pernambuco José Ferreira dos Anjos, famoso anticomunista, suspeito de envolvimento nos assassinatos do Padre Henrique e do procurador Pedro Jorge, os jornalistas registrariam esta ótimo diálogo entre o cientista político Manoel Moraes , da Comissão Estadual da Verdade, e o ex-major. Que houve e se revela agora nesta coluna:

Ex-major Ferreira – Na ditadura, o Exército brasileiro forjou aquela cena dos mortos da granja São Bento. As pessoas foram presas em locais diferentes e mortas. Juntaram os corpos na Granja pra justificar a ação, pra simular um confronto.

Manoel Moraes – Por quê, senhor Ferreira?

Ex-major – Pra não dizerem que foram eliminados individualmente. Juntando todos, forjaram o confronto. Aí virou troca de tiros em uma célula terrorista.

Manoel Moraes – Mas por que o Exército forjou isso?

Ex-major – Com medo da opinião pública.

Manoel Moraes – Mas por que o Exército, tão forte, ia ter medo da opinião pública?

Ex-major – Quem não tem, doutor? 

Na literatura, essa farsa da granja eu já havia antecipado em “Soledad no Recife”. Um dia fui questionado, de onde eu havia tirado que os assassinatos não se haviam dado na Granja de São Bento? Na ocasião, respondi com argumentos lógicos e de pesquisa, mas não poderia dizer que a intuição era a maior força para revelar que a granja era só cenário. Nas páginas do livro “Soledad no Recife” escrevi:

As notícias dos jornais disseram e continuarão a dizer, pois a cumplicidade com um crime é permanente, que Soledad e companheiros foram mortos em 8 de janeiro de 1973. Mas em uma ditadura nem as datas dos jornais são verdadeiras. Por exemplo, Soledad morreu em 7 de janeiro.

A vida de Soledad ganhou mais um dia apenas nos tipos impressos das folhas. As indicações são de que repressão e imprensa fizeram um acordo entre as datas dos seis assassinatos de socialistas no Recife, da primeira à última execução em 8 de janeiro.

É claro, nada houve como nas manchetes dos jornais de todo o Brasil, “seis terroristas mortos em tiroteio”.

O horror que vem da verdade é tamanho, que a mentira se acomodou fácil na mais confortável versão.

Foram seis homicídios, todos unidos e simplificados em um aparelho da Chácara São Bento, um sítio na região metropolitana do Recife.

Todos, pelo anúncio dos jornais, perigosos terroristas, que resistiram à bala ao cerco das forças da ordem. Mas só depois de mortos se fez a maquiagem nos jovens socialistas: com tiros, para melhor coerência do suplício com o papel dos jornais. Pauline Reichstul, José Manuel, Soledad Barret, Evaldo Ferreira, Jarbas Pereira, Eudaldo Gomes.

O diabo é que, em plena democracia, o mais importante continua a não ser notícia. Se não ocultam mais os crimes como antes, desta vez a ignorância histórica dá as mãos à ideologia do dono do veículo. A manchete, que não veio, porque o diálogo acima não virou notícia, teria sido:

“Exército fraudou provas do massacre da granja São Bento”.

Em compensação, esta semana, entrevistado na Rádio Jornal do Recife, o ex-major se transformou em analista político da Comissão da Verdade:

A Comissão da Verdade de Pernambuco é cópia de outras que existem por aí. É cópia de Brasília e repete o mesmo erro. Deviam ouvir os dois lados. Olhem a diferença. O amaldiçoado padre Alípio, da bomba de Guararapes, recebeu quase dois milhões de reais de indenização, enquanto nós....

O ex-major, atirador de elite, não foi sequer perguntado se nunca atirara em gente. Comenta-se que ele fazia piada ao contar que em cercos a aparelhos de “terroristas”, os jovens saíam rolando pelo chão “imitando filme de caubói”. Era engraçado. Ele nunca errou um tiro.  
____________________

Urariano Mottaé natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife  (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Terrorismo de Estado e a “verdade” fardada


Zoroastro Sant’Anna - Jornalista e cineasta
Nosso Homem nº 18

Sou filho de militar, cassado em 64, mas militar. Fui criado na Vila Militar do Galeão, Ilha do Governador. Cursei o internato do Colégio Militar do Rio de Janeiro, Esquadrão de Cavalaria, 4ª Companhia, de onde saí em 1965 pressionado pelos oficiais da administração embora querido pelos generais professores de quem eu era um bom aluno. Além de ser o Orador Oficial do Colégio, em concurso presidido pelo apresentador de TV Flávio Cavalcanti, eu representava o então comandante general Newton O’Relly em cerimônias oficiais do  Alto Comando Militar e em seu nome discursava.

O mundo dos botões dourados e dos galões, das continências e das armas me é muito familiar, eu só não podia prever que o encontraria novamente em circunstâncias muito adversas.

Conheço o sentimento militar de nacionalismo e o conceito de dever de defesa da pátria. Convivi com a disciplina e o respeito pela hierarquia, pela lei e pela ordem, ou seja, sei na pele os bons princípios que nortearam a vida militar, como também sei na pele os maus tratos impostos por quem desonrou a farda que vestia.

A criação e nomeação da Comissão da Verdade pela presidenta Dilma inquietou a caserna, instigada pelos velhinhos de pijama, viúvos da ditadura militar que em seus delírios macartistas ainda enxergam fantasmas comunistas nas esquinas de bairros e nas quadras de Brasília.

Que diriam esses zumbis do obscurantismo se a sociedade voltasse a chamá-los de gorilas como eram conhecidos na América Latina durante várias décadas? Do que adiantaria agora satanizar todos os militares em função de uns poucos decrépitos que insistem em negar atrocidades que eles mesmo cometeram e portanto sabem ser verdadeiras?

Os generais zumbis criaram em cerimônia no Clube Naval a Comissão da Verdade 2, um pastiche da comissão nomeada pela Presidenta, com o objetivo de “investigar” 119 alegados atos terroristas cometidos pela esquerda.

Esses zumbis tem nome, endereço e residência fixa: ex-general Renato Cesar Tibau da Costa, ex-tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista  e ex-vice-almirante Ricardo Antonio da Veiga Cabral.

Quem tiver critério e respeito pela verdade, sabe que nunca nenhum partido da esquerda brasileira optou pelo terrorismo como forma de luta contra a ditadura militar, ao contrário do IRA na Irlanda, do ETA na Espanha, do Baader-Meihonff na Alemanha, da Fatah na Palestina e vários outros.

A luta armada começou no Brasil como ato de autodefesa dos grupos perseguidos e torturados.

Quem implantou a violência foi o Estado, tendo o Exército como seu braço armado no comando das outras forças militares e civis.

O Estado implantou o terrorismo como forma de esmagamento e intimidação da resistência ao regime e colou nas costas da oposição a placa de “terroristas”. E não estamos aqui falando de briga na escola quando a professora pergunta “quem começou primeiro”. Estamos falando de prisões, torturas e assassinatos.

O Estado começou primeiro. Não havia um único ato de violência da esquerda até 1965, um ano depois do golpe.

Agora, o confesso torturador e ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra revela que queimou dez corpos de presos políticos no forno da Usina Cambahyba, no Rio

Assista aseguir a confissão dele entre eles o corpo do meu amigo e ex-companheiro de lutas Eduardo Collier Filho.


A mim, enquanto cidadão, a ditadura deve ainda o corpo de Sérgio Landulfo Furtado, outro companheiro nunca encontrado. Os agentes da repressão do Estado devem ao país 146 corpos. E vão ter que devolver. Essa é a verdade que se busca.

E não existem duas verdades, uma civil e outra fardada.

Que houve prisões em massa e indiscriminadas durante a ditadura, houve. Que houve tortura e assassinato, houve. Que houve desaparecimento de cadáveres, houve. Todo mundo sabe. Sabemos até quem foram os responsáveis.

A Presidenta Dilma sabe perfeitamente quem a prendeu e quem a torturou e nem por isso está pedindo punição para ninguém.

O medo que os zumbis do obscurantismo tem é que o desdobramento da Comissão da Verdade leve a uma revisão da Anistia e que os assassinos e torturadores sejam excluídos do perdão. Pode acontecer, mas o objetivo da Comissão não é este e sim resgatar a triste memória do regime militar para que isso não volte a acontecer num país pretensamente civilizado além do que as famílias tem o legítimo direito de saber onde estão os corpos de seus entes queridos.

Os zumbis de pijama alegam que era “uma guerra” e que, portanto, guerra é guerra, onde se supõe que vale tudo.

Primeiro, a versão da existência de uma “guerra” é a versão dos vencedores. Segundo,  toda e qualquer guerra está sujeita à Convenção de Genebra que proíbe, entre outras coisas, torturas e execuções. Seja qual for a versão, o Estado, sob gerência militar, cometeu crimes hediondos condenados por todas as sociedades do mundo. Não se pode queimar corpos em fornos como Hitler fazia.

A Comissão da Verdade tem dois anos para nos contar tudo o que aconteceu, tim-tim por tim-tim. Doa a quem doer. De 1946 (fim da era Vargas) a 1988 (nova Constituição brasileira). A sociedade brasileira não pode mais conviver com o ensurdecedor silêncio dos mortos.

Abram-se os arquivos, contem-se a verdade, tirem-se os cadáveres dos armários do poder.

  • Doação – R$ 20 mil é a indenização que a Presidenta Dilma Rousseff vai receber em junho do Governo do Rio de Janeiro por ter sido presa e torturada no Estado em 1970. O Secretário Estadual de Assistência Social, Rodrigo Neves, revelou que a Presidenta vai doar a indenização pois a questão “foi moral” para obrigar o Estado a reconhecer seus atos.
  • Desculpas - O Estado do Rio vai pedir desculpas oficiais do governo às vítimas da ditadura no dia 4 de junho, às 16hs, na cerimônia pública no Estádio Caio Martins, em Niterói.
  • Casadas – Aqui no Estado ao lado, no Espírito Santo, a 1ª Câmara Cívil do Tribunal de Justiça deu ganho de causa a uma mulher que vivia em união estável com uma escrivã da Polícia Civil que morreu em 2003. A briga na Justiça  capixaba levou nove anos e agora a viúva  passará a receber a pensão deixada pela companheira.
  • Abandono – O Prefeito do Rio, Eduardo Paes, baixou dois decretos que autorizam particulares a assumirem por 50 anos a propriedade de imóveis abandonados na cidade, desde que os imóveis estejam com mais de três anos de atraso no IPTU. A licitação para 39 prédios da Prefeitura abandonados por ela mesma começa na próxima semana.
  • Carusos – Assisti, feliz da vida, o espetáculo “Homenagem a Trois”,  com Miéle, Chico Caruso e Rogéria no teatro do Bar do Tom, no Leblon. Um besteirol da melhor qualidade, bom humor com boa música e boa interpretação. Já os gêmeos Paulo e Chico Caruso, cartunistas e humoristas, vão se apresentar juntos em “Caricaturas Musicais”, no Teatro dos Quatro, na Gávea, nos dias 21, 22, 28 e 29 de junho. Anote aí.
  • Sinfônica – A Orquestra Sinfônica Brasileira inicia no Rio, dia 26 de maio, às 16hs no Teatro Municipal, uma série de apresentações que começa com a sinfonia em si menor de Franz Schubert e termina em 19 de outubro com A Ilha dos Mortos, Opus 35, de Sergei Rachmaninov.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Comissão da Verdade e os ofendidos




Publicado em 17/05/2012

Recife (PE) - A vontade que se tem é a de escrever: por baixo de ondas de infâmia e sangue, a presidenta Dilma instalou a Comissão da Verdade. E temos essa vontade porque a vemos em um mar que se abre, pronto a tragá-la e a envolver também os brasileiros mutilados, perseguidos e assassinados sob a ditadura de 1964. Mas esse mar, essa conjuração de elementos, que outra coisa não é a não ser a secular opressão sobre o povo, nos acode também pela memória da tragédia humana ocorrida a partir do golpe.

Não há espaço nesta coluna, não há espaço em mil colunas para falar de Ivanovitch, de Eremias Delizoicov, de Soledad Barrett, de Jarbas Marques, de jovens mortos, de jovens enlouquecidos, de jovens heróicos, de dramas de consciência que sobrevivem em peles que são uma fantasia de macabro carnaval. Não há nem mesmo espaço para cantar, como um poeta magnífico faria, a coragem de dona Elzita, mãe de Fernando Santa Cruz, nesta carta de 1975 para Armando Falcão, mais conhecido pelo codinome de Ministro da Justiça:

“Que clandestinidade seria esta que, repentinamente, transformaria um filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que desprezaria a dor de sua velha mãe, a aflição de sua jovem esposa e o carinho de seu filho muito amado?...Espero que não se dê por esgotado este episódio, mas que seja esclarecido o que realmente aconteceu ao meu filho para que possamos sair deste imenso sofrimento que nos encontramos. Nada peço ao Sr. para meu filho a não ser os esclarecimentos, que tenho direito, sobre o seu paradeiro, e justiça!”.

O leitor desculpe o tom solene desta coluna. É que a solenidade vem do entre aspas desses destinos. Mas num esforço, se descermos o nível do assalto da altura dessa história oculta, se descermos aos dados objetivos e técnicos da informação, devemos dizer que as estatísticas oficiais muito se enganam, quando contabilizam entre 400 e 500 militantes mortos pelos militares, ou, num esforço cínico, desaparecidos. As estatísticas nada falam dos homens e mulheres sem cidadania, mas que a buscavam até para comer, como os camponeses do Nordeste. Em Pernambuco, por exemplo, houve um quase genocídio de homens do campo, e deles quase nada se diz. Assim como eles, todos os trabalhadores, que não estavam filiados a partidos clandestinos, estão sem registro de suas execuções.

As estatísticas nada falam tampouco, e dessa omissão se valem os militares, quando ironizam a quantidade de anistiados em comparação com os livros sobre vítimas da ditadura, as estatísticas silenciam sobre o clima de terror e perseguição que fez brasileiros interromperem seus cursos, empregos e pesquisa. Se os registros dessa caça aos democratas contarem, aparecerão mais que centenas, milhares. E se se contabiliza o dano a toda uma geração, pela queda vertical da qualidade do ensino, do avanço do pensamento social, que em 1964 virou coisa de comunista, como se os comunistas não fossem uma instância legítima de ser, então os atingidos são milhões na ditadura.

Na presidenta que ontem instalou a Comissão da Verdade reside o conflito do sonho socialista da juventude e o presente possível, de acordos políticos no limite do suportável, de uma democracia conservadora. Dilma bem sabe o que é mais insuportável, como nesta entrevista a Luiz Maklouf em 2003:

“Tinha um menino da ALN que chamava “Mister X”. Eu o vi completamente destruído. Não sei o que foi feito dele. Nunca vou esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu não queria que meus companheiros estivessem numa situação daquelas. Segundo, eu tinha medo que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia, mesmo, que nem menstruação. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Exército. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: “Pula um pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar”... Os militares nos cercaram, desmantelaram, e uma parte mataram. Foi isso que eles fizeram conosco. Eles isolaram a gente e mataram”.

Os jornais hoje dizem que a presidenta ontem chorou. E informam essa emoção em nova forma de dizer sem nada dizer, porque nada falam do terror, do poder absoluto sobre vidas e pensamento de pessoas em um tempo que não está morto.

Lá em cima, escrevi que a presidenta Dilma estava sob as ondas de um mar aberto. Mas na verdade, devemos dizer: ela está no furacão. Ainda que em fenômeno diverso, ela está na tempestade. E desta vez, com um apoio mais amplo que naquele tempo, maldito tempo, do sofrimento em silêncio. Aquele que a fazia escolher entre voltar à tortura ou pular para ser mais volumosa a sua hemorragia.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contosem Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação