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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Se quer seu tal “pivô”, Obama que negocie com seriedade com o Irã

13/1/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Usina nuclear iraniana em Bushehr, no sul do Irã, em foto de 21 de agosto de 2010
Em negociações recentes com o Irã, os EUA outra vez tentaram assaltar o direito do Irã, de enriquecer urânio. Foram necessárias pressões severas de Rússia e China para reverter a tentativa de assalto e tornar possível o acordo. Para o Washington Post:

Irã e seis potências mundiais deram passo significativo, mas difícil, na direção de uma reaproximação nuclear, no domingo, com o anúncio de que chegaram a um acordo que detém o disputado programa nuclear iraniano, em troca de uma modesta redução nas sanções econômicas incapacitantes.
...

As semanas de barganha para pôr em prática o acordo de novembro foram mais difíceis do que se previa, com rápido desligamento dos negociadores iranianos e rancor no bloco de nações que negociavam o acordo. Rússia e China, há muito tempo protetores do Irã na ONU, empurraram os EUA para que aceitassem concessões técnicas que deixaram ainda mais evidente que o Irã está mantendo a capacidade para enriquecer urânio, demanda chave dos iranianos, tão logo se aprove um conjunto definitivo de limitações ao seu programa.

Rússia e China ameaçaram atropelar as sanções e criar condições para que o Irã prossiga o próprio programa nuclear como bem entender, sem qualquer limitação, enquanto dá vida nova à economia. A ameaça foi lançada via matéria “exclusiva” da Agência Reuters, na 6ª-feira (10/1/2014) à tarde:

Irã e Rússia estão negociando uma troca de petróleo por produtos no valor equivalente a US $1,5 bilhão/mês, que permitirá que o Irã aumente consideravelmente as exportações de petróleo, mas mina as sanções ocidentais que ajudaram a persuadir Teerã em novembro a aceitar um acordo preliminar para suspender seu programa nuclear.

Fontes russas e iranianas próximas da mesa de negociações disseram que estão sendo discutidos detalhes finais de um acordo pelo qual Moscou passará a comprar cerca de 500 mil/barris dia de petróleo iraniano, em troca de equipamentos e outros produtos russos.

Se esse acordo acontecer, equipamento “ocidental” exportado para Rússia e China poderá chegar facilmente até o Irã. Rússia e Irã interconectam-se pelo Mar Cáspio, onde os EUA não têm meios para impor qualquer bloqueio.

Por hora, o governo Obama cedeu à pressão dos russos, mas as dificuldades só aumentarão com as negociações de um acordo permanente. Rússia e China já fixaram um conjunto de limites às escandalosas exigências que os EUA insistem em fazer. Até aliados dos EUA já pressionam pelo fim das sanções e para que se assine um acordo o mais rapidamente possível:

Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum
Falando a Jon Sopel da BBC, Sheikh Mohammed bin Rashid, vice-presidente e Primeiro-Ministro dos Emirados Árabes Unidos e governador de Dubai, referiu-se a grande número de questões políticas na região, em particular ao conflito sírio, às sanções contra o Irã e o futuro do Egito.

...

Na entrevista, Sheikh Mohammed menciona a necessidade de levantarem-se as sanções contra o Irã, para assegurar que melhor cooperação no processo de desarmamento nuclear do país.

O Irã é nosso vizinho e não queremos problemas. Levantem-se as sanções, e todos serão beneficiados – disse Sheikh Mohammed.

O governador de Dubai disse também que acredita que o Irã esteja dizendo a verdade quando diz que a tecnologia nuclear só interessa ao país para finalidades civis.

Conversei com Ahmadinejad e ele disse: “se eu disparar um foguete contra Israel, matarei quantos palestinos?! Não sou louco. Nunca tentaria esse tipo de loucura. Bomba atômica é arma do passado” – disse Sheikh Mohammed.

Obama só tem, como alternativa racional, não enlouquecida, negociar com seriedade e buscar um acordo permanente. Se não conseguir acordo agora, o próprio sistema de sanções cairá em ruínas. E fazer guerra ao Irã tampouco é alternativa viável. Atacar o Irã, que não está construindo bombas atômicas, sob algum argumento da “não proliferação”, destruirá completamente a posição político-moral dos EUA no mundo; ao mesmo tempo, ataque desse tipo não deterá e, além do mais, dará justificativa para que o Irã, sim, passe a procurar força nuclear de contenção. Uma guerra no Golfo Pérsico seria devastadora para a economia mundial. “Contenção”, sem regime de sanções que funcione, não é contenção, de modo algum; nem é alternativa séria.

Barack Obama
Obama quer que os EUA façam um movimento de “pivô” na direção da Ásia. Obter essa redução no envolvimento dos EUA no Oriente Médio é uma necessidade. Mas nem Israel nem a Arábia Saudita querem saber disso. Querem manter a atenção dos EUA concentrada nos inimigos que veem como inimigos deles. Mas os EUA não podem engajar-se na Ásia e continuar envolvidos completamente no Oriente Médio. É uma coisa, ou a outra.

Os sionistas estão pressionando o Congresso para que detone as negociações com o Irã, criando leis novas de sanções unilaterais dos EUA contra terceiros países que negociem com o Irã. A culpa é toda de Obama, que deixou crescer essa estratégia de “sanções sufocantes”. Essa estratégia está fracassando, e não será fácil para Obama livrar-se dela. Mas o Congresso não se atreverá a votar diretamente a favor de guerra contra o Irã.

Se Obama negociar de boa fé com o Irã, os EUA terão parceiro sério e confiável no Golfo, e o seu “pivô” para a Ásia será viável.

Mas pôr-se a tentar golpes e jogadas, como tentou mais uma vez semana passada – até que a Rússia interveio – deixará Obama com uma estratégia de “contenção” do Irã que os EUA não terão como implantar e que drenará seus recursos; e o “pivô para a Ásia” permanecerá como sonho inalcançável por falta de meios.




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:



sábado, 30 de março de 2013

Uma estrela (iraniana) ascendente


27/3/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Burns
The best laid schemes o’mice na’men / Os melhores planos que ratos e homens façam,
Gay aft a-gley/Alegres depois do trabalho,
Na’lea’e us nought but grief a’pain/Só trazem luto e dor
For promised pay/pelo que um prometeu ao outro, mas não cumpriu.
[Robert Burns, “To a Mouse”/Para um rato]
[Íntegra, em inglês, em Poesia Escocesa]
[Epígrafe acrescida pelos tradutores]


Ali Akbar Velayati
Há exatamente um mês, quando escrevi [1] que um candidato a ser observado nas eleições presidenciais do Irã de 12/6 próximo seria Ali Akbar Velayati, ex-ministro de Relações Exteriores, foi um tiro no escuro, mas também opinião cevada na observação atenta dos corredores da política bizantina em Teerã e em Qom, nos últimos meses.

Bloomberg Businessweek acaba de chegar à mesma conclusão. [2] BB evidentemente serve-se de fontes de alto nível em Washington e em Teerã, para instruir seus artigos, e a minha única fonte é pura, incansável paixão por observar o Irã, alimentada por velha paixão por aquele país e seu belo povo.

De fato, é também minha opinião desejante, enviesada, indiano-cêntrica. Estive várias vezes na mesma sala com Velayati em Teerã e em Delhi, quando ele ali esteve como Ministro; e não tenho dúvidas de que sua ascensão ao poder como Presidente do Irã será magnífica novidade para a Índia – desde que, é claro, Delhi procure genuinamente reconstruir seus laços estratégicos com o Irã.

Velayati teve papel chave no movimento ascendente da curva das relações entre Índia e Irã, nos dez anos a partir do fim dos anos 1980s (quando o então Primeiro-Ministro da Índia fez movimento dramático de aproximação com Teerã).

O entendimento estratégico deu excelentes frutos, quando Teerã ajudou a Índia a conter a tempestade nos países muçulmanos, depois da destruição de Babri Masjid (1992), e a liderança iraniana mostrou incansável compreensão na questão das atrocidades então em curso nas regiões da Caxemira, no início dos anos 1990s.

Depois, o Irã ajudou a Índia a conter a detonação diplomática, relacionada ao problema da Caxemira, que os sauditas promoviam na Organização de Cooperação Islâmica, com o Irã, de fato, já organizando a resistência anti-Talibã conhecida como Aliança do Norte (1997). [3]

Eram tempos em que nenhum indiano se atreveria a subestimar o Irã como fator de estabilidade, com certeza no que tivesse a ver com interesses centrais da Índia. Boa parte de tudo isso aconteceu sob a orientação de Velayati. Tinha visão clara sobre as relações Irã-Índia e via essas relações como crucialmente importantes para o Irã.

Lembro perfeitamente a conversa, em Hyderabad House, no final de 1989, quando Velayati falou pela primeira vez da ideia do corredor Norte-Sul, como acesso da Índia à rota para a Rússia e a Ásia Central – de fato, delineou ali as potencialidades do projeto de um óleogasoduto Irã-Paquistão-Índia (IPI).

Oleogasoduto Irã - Paquistão - Índia 
É homem cordial, erudito, tem nervos de aço [4] e cabeça de negociador incansável. E é muito bem-humorado, capaz de fechar com risadas um dia de negociações duríssimas – talentos que muito ajudarão o Irã a acalmar as águas do Estreito de Ormuz.

Absolutamente todos sabem que Velayati manifesta e representa os interesses mais radicalmente fundamentais do regime iraniano. Mas é pragmático, dos que sabem que a política é a arte do possível.

Estreito de Ormuz - passagem de 40% do petróleo que abastece o ocidente
Tudo isso volta a ser extraordinariamente importante, porque o próximo presidente do Irã tem papel decisivo na modelagem do “Novo Oriente Médio” e da segurança regional e internacional.

E se e quando as conversações se iniciarem entre EUA e Irã, como provavelmente começarão depois de passadas as eleições de junho no Irã, Velayati é o homem mais qualificado para melhor negociar pelo Irã: goza da confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei; tem ampla e clara compreensão da política mundial e de como opera o sistema internacional; e fala perfeito inglês (embora com sotaque norte-americano). É garantia de conversa iluminadora, caso o Presidente dos EUA, Barack Obama, algum dia apareça para conversar com ele sobre guerra e paz no Oriente Médio – e depois resolva continuar o papo numa mesa menos formal, para falarem de ratos e homens. [5] 
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Notas dos tradutores

[1] 5/2/2013, Indian Punchline, MK Bhadrakumar em: A rising star in Iranian politics [Uma estrela ascendente na política iraniana]

[2] 26/3/2013, Business Week, Ladane Nasseri, em: Velayati May Run for Iran President as Calm to Ahmadinejad Storm

[3] Aliança Afegã do Norte [orig. ing. Afghan Nothern Alliance], oficialmente, Frente Islâmica Unida para Salvação do Afeganistão (em persa Jabha-yi Muttahid-i Islami-yi Milli bara-yi Nijat-i Afghanistan), foi frente militar formada no final de 1996, depois que os Talibã (Emirado Islâmico do Afeganistão) tomaram Cabul. A Aliança do Norte foi proposta por afegãos e lutou guerra de defesa contra o governo dos Talibã – com apoio de Rússia, Irã, Índia, Tadjiquistão e outros; os Talibã era apoiados pela al-Qaeda e pelo exército do Paquistão. Depois que os EUA invadiram o Afeganistão e lá implantaram o governo Karzai, no final de 2001, a Aliança do Norte dividiu-se, dando origem a vários partidos políticos.

[4] Ali Akbar Velayati discursava na ONU, como Ministro de Relações Exteriores do Irã, quando um dissidente saltou sobre ele, arrancou-lhe das mãos o discurso que lia e rasgou-o. Um segurança tirou o homem da sala. Velayati esperou calmamente, de mãos no bolso. “Alguém, da nossa delegação tinha cópia do texto e me entregou” – conta Velayati, recordando o episódio do início dos anos 1980s, em entrevista para a televisão iraniana. – “Achei a página 10, onde lembrava que havia parado, e continuei a ler” (ver no primeiro parágrafo do “link” da Nota [2]).

[5] Orig. mice and men. A expressão, do verso de Burns que se lê na epígrafe, dá título também ao romance Ratos e Homens de John Steinbeck, de 1937, cujo enredo também é relevante para compreender a metáfora que se lê aqui.
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Obama, acordo com o Irã & “swing”


6/11/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O muito aguardado comentário dos iranianos apareceu na edição de 2ª-feira do Tehran Times  [1] – sobre como a eleição presidencial nos EUA atinge o Irã. A conclusão:

Romney e Obama discordam em questões como assistência pública à saúde, emprego, orçamento militar e impostos, mas partilham o mesmo ponto de vista no que tenha a ver com prolongar a oposição ao Irã e ao programa nuclear iraniano para finalidades pacíficas. O próximo presidente dos EUA será anunciado dentro de algumas horas; pode-se dizer que qualquer dos candidatos que seja eleito será hostil ao Irã, como todos os presidentes dos EUA que estiveram no cargo desde a vitória da Revolução Islâmica em 1979

A avaliação segue linhas previsíveis. Mas, de fato, o que importa no comentário iraniano deve ser lido nas entrelinhas. A principal entrelinha é que o comentário rebate a acusação de Mitt Romney, de que Obama seria “soft” [suave, frouxo] contra o Irã. Dito em outras palavras, o comentário não compromete as credenciais de Obama, nem suas chances eleitorais

Claro: uma vitória de Romney será golpe duro de assimilar para o Irã, e quase com certeza significará o fechamento do canal oculto de contato que parece estar em operação entre Washington e Teerã. Mês passado, o New York Times  [2] revelou que há contatos secretos entre Washington e Teerã e que conversações diretas podem começar no instante em que se concluam as eleições presidenciais.

Por falar nisso, um jornal israelense de grande circulação popular, Yedioth Ahronoth publicou matéria na 2ª-feira, em que identifica uma advogada de Chicago, nascida na cidade iraniana de Shiraz e hoje conselheira de Obama, Valerie Jarrett, como peça chave do lado norte-americano nas comunicações com os líderes iranianos em reuniões secretas no Bahrain há vários meses.

Enriquecimento de urânio a 20% é essencial para uso civil
Al-Arabiya também noticiou no domingo [3] que o Irã suspendeu o enriquecimento de urânio a 20% como gesto “de boa vontade”, ante a aproximação do início de conversações, dentro do formato P5+1, previsto para o final de novembro. E, isso, logo depois de notícias persistentes de que Ali Akbar Velayati, alto conselheiro do Líder Supremo do Irã Aiatolá Ali Khamenei, tivera reuniões com funcionários da ONU sobre a questão nuclear.

Velayati é figura chave do establishment da política externa do Irã (foi Ministro de Relações Exteriores do Irã, por dez anos) e, se o noticiário é verdadeiro, o processo já envolve os líderes iranianos de mais alto nível. É muito possível um acordo que permita ao Irã enriquecer urânio a baixos níveis e sob rigorosa inspeção.

E até Israel já entrou em cena. Há bons sinais, dado que, segundo matérias recentes, funcionários e diplomatas iranianos e israelenses já estão trabalhando em torno da mesa de negociações, [4] em atmosfera de contato entre empresários, longe de qualquer publicidade; o objeto dessas discussões é a eliminação de todas as armas nucleares em todo o Oriente Médio. Nada disso jamais aconteceria, se o governo Obama não tivesse oferecido forte encorajamento.

Um acordo com o Irã [5] poderia fazer do segundo mandato de Obama algo realmente novo e transformador, não só em termos de desarmar um ponto potencial de conflito altamente perigoso para a segurança internacional, mas, também, em termos de pôr sobre novas bases as relações entre os EUA e o Oriente Médio Muçulmano. E, se o processo levar a uma conferência internacional para que se estabeleça uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio, será passo significativo na direção de implementar a agenda de não proliferação nuclear, que Obama sempre acalentou como possível legado de seu governo.



 Notas de rodapé

[1] 5/11/2012, The Tehran Times, Kourosh Ziabari em: How U.S. presidential election will impact Iran
[2] 20/10/2012, The New York Times, Helene Cooper e Mark Landler em: U.S. Officials Say Iran Has Agreed to Nuclear Talks
[3]  4/11/2012, Al Arabiya News, (with agencies) em: Hard-hit by sanctions, Iran suspends 20-percent uranium enrichment
[4]  5/11/2012, The Guardian, Julian Borger, diplomatic editor em: Israel and Iran hold 'positive' nuclear talks in Brussels
[5]  21/10/2012, Indian Punchline, M.K. Bhadrakumar em: Who’s afraid of US-Iran talks?
MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eleições nos EUA põem em risco um acordo com o Irã


22/10/2012, Paul R. Pillar, ConsortiumNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Paul R. Pillar
Helene Cooper e Mark Landler do New York Times causaram agitação, no fim de semana, com matéria (20/10/2012, U.S. Officials Say Iran Has Agreed to Nuclear Talks) em que dizem que EUA e Irã podem já ter concordado “em princípio” sobre iniciar negociações bilaterais sobre o programa nuclear iraniano.

Negociações com o Irã sobre essa questão já foram objeto de atenção em grande escala e formato, com um dos lados, conhecido em geral como Grupo P5+1, formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU ‘'mais'’ a Alemanha.

Surgiram dúvidas sobre a matéria do NYT, geradas pelos imediatos desmentidos, pelos dois governos, dos EUA e do Irã; e praticamente nada se sabe publicamente com clareza sobre o que os dois lados podem ter já acordado.

Para aumentar, possivelmente, a confusão, há a nenhuma disposição dos iranianos para continuar a negociar com o P5+1 antes de que se decidam as eleições nos EUA e saiba-se quem comandará a política norte-americana a partir de janeiro. Surgiram também outras questões, como por que – se há base factual real para a matéria do NYT –, jamais até hoje se ouviu sequer uma palavra sobre qualquer entendimento entre Irã e EUA; e as primeiras notícias aparecem, só, na véspera das eleições.

As especulações correram por faixa amplíssima: desde que o vazamento seria tentativa de boicotar as negociações bilaterais, até que o vazamento seria parte de um esforço do governo dos EUA para preparar a opinião pública para acordo a ser alcançado naquelas conversações.

Não tenho qualquer tipo de informação ‘'interna'’ sobre alguma verdade que haja nessas especulações, mas posso dizer que nada seria mais importante ou mais útil para o futuro dos EUA do que a confirmação de que há conversações em andamento, com vistas a um acordo, mesmo que sejam negociações secretas e que os dois governos as neguem.

O formato bilateral – como suplemento, não como substituição às negociações que envolvam o P5+1 – seria útil, porque os EUA são o player mais importante do processo; por que a negociação bilateral teria a necessária flexibilidade, aumentada por não se exigir consenso multilateral sobre cada concessão; e porque sempre será mais fácil preservar o sigilo, em grupo reduzido ao mínimo.

O sigilo ajudaria, porque os dois lados são pressionados por suas respectivas posições, alas e declarações linha-dura, brotadas de todos os que, nos dois campos, tanto mais ganham quanto mais a situação se complique. Quanto à liderança iraniana, estaria negociando com o Grande Satã – terreno extremamente delicado e arriscado. Quanto à liderança norte-americana, estaria ‘sendo suave’ – como já há quem diga que já é – com inimigo pintado até agora como mortalmente perigoso, terreno também fragilíssimo.

Efraim Halevy
O ex-chefe da inteligência israelense, Efraim Halevy observou, corretamente, que os iranianos “gostariam de sair do conundrum em que estão, dado que as sanções já ferem fundo o país”, mas que “os dois governos, de Israel e dos EUA, nos amarramos, nós mesmos, nossas próprias mãos. No fim, criamos desvantagem inerente, para nós mesmos”.

O atual governo israelense, que é quem mais agita e promove a questão nuclear iraniana, e que desdenha absolutamente a ideia de qualquer negociação com o Irã, é a principal força que gera risco político para qualquer governo norte-americano que se disponha a negociar com o Irã.

No sábado, o embaixador de Israel na ONU disse que “Não acreditamos que o Irã deva ser beneficiado com conversações diretas”, invocando assim a velha falácia segundo a qual negociar seria, de algum modo, premiar um dos lados. De fato, negociar é ferramenta vitalmente importante e útil para os dois lados que negociem.

O governo de Israel, como previsível sabotador de qualquer progresso em qualquer negociação com o Irã, teria de ser mantido excluído – o que dá sentido especialíssimo ao sigilo, para proteger as negociações – e impedido, assim, de sabotá-las.

A outra fonte – não completamente desligada dessa – de risco político potencial e de possível sabotagem, contra os quais o governo dos EUA teria, em todos os casos, de se precaver, é a oposição política interna que o atual governo enfrenta.

Um “estrategista dos Republicanos”, anônimo, disse, no sábado, que “os EUA aceitarem qualquer oferecimento vindo dos iranianos, para conversações diretas, seria a realização dos sonhos dos líderes iranianos para obter mais poder e, assim, provavelmente, obter até concessões para seu programa nuclear”. Nesse caso, invocou a velha falácia (que Richard Nixon, Ronald Reagan e toda a história da URSS já deveriam ter ensinado a descartar há muito tempo), segundo a qual negociar e obter acordos com força adversária contribuiria para aumentar o poder doméstico e a longevidade política do adversário.

Deve-se observar o uso da palavra “concessões”, nessas duas falácias, como se fosse palavrão, uso que, implicitamente, descarta qualquer acordo, porque nenhum acordo será jamais possível se os dois lados nada concederem.

Há vasta demonstração histórica de que o sigilo, em negociações bilaterais – porque o sigilo garante maior flexibilidade, a qual, em negociações complexas, quanto maior, melhor; e porque o sigilo protege a negociação contra a ação dos boicotadores e dos sabotadores das partes que negociam – pode levar a bons resultados, em circunstâncias em que todos os demais mecanismos “de transparência” só criariam dificuldades extras.

Le Duc Tho e Henry Kissinger
Parte considerável dessa história não é passado distante para os EUA. As negociações secretas entre Henry Kissinger e Le Duc Tho (ambos receberam um Prêmio Nobel da Paz partilhado, pelos seus esforços) que, juntos, finalmente, encontraram meio para arrancar os EUA do pântano em que estavam atolados no Vietnã, é exemplo sempre presente. E também vem à mente a diplomacia secreta de Nixon e Kissinger, com a China.

Devemos todos esperar que estejam em andamento, nesse momento, conversações entre o Irã e os EUA. E que sejam tão absolutamente secretas que não vazaram, sequer, para os atilados jornalistas do New York Times. Talvez não haja. Mas pode-se, pelo menos, ter esperanças de que sim, de que essas conversações já estejam em andamento.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Vazamentos, debates, eleições: quem deseja que os EUA ataquem o Irã?


21/10/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Vazamentos” pelos veículos da grande imprensa-empresa nunca são ingênuos e obrigam a lembrar que onde há fumaça há fogo. Dessa vez, em mais um movimento clássico, foi o New York Times  [1] que publicou, no sábado, notícias “vazadas” de que o Irã estaria interessado em conversações diretas com os EUA.

Eleições EUA 2012 - Obama vs Romney 
O modo como a questão nuclear iraniana apareceu no New York Times, exatamente na véspera do debate dramaticamente decisivo entre os candidatos Barack Obama e Mitt Romney sobre questões de política exterior, mostra bem o peso, dentro dos mais altos escalões do establishment norte-americano, do chamado “partido da guerra” – que vota por mais guerras e opõe-se a qualquer tipo de negociação diplomática entre Washington e Teerã.

O “vazamento” pelo NYT ajuda a torpedear contatos EUA-Irã que, obviamente, já estão em andamento. Dado que só meia dúzia de pessoas, dos mais altos escalões do governo dos EUA, sabem desses contatos absolutamente não divulgados até agora, o “vazamento” é, também, ato de sabotagem contra o governo Obama, para favorecer a candidatura Romney; e só pode ter partido de peixões realmente muito grandes em Washington, interessados em guerra.

A Casa Branca tratou de desmentir o mais rapidamente possível o tal “vazamento”: repetiram que Obama não tem qualquer intenção de manter conversações diretas com o Irã. [2] A resposta visa a neutralizar o veneno que pinga da matéria publicada no NYT a qual, mesmo que não tenha sido produzida para esse fim específico, muito ajudará Romney, no debate de hoje, a repetir que Obama estaria “afrouxando” contra o Irã.

Ali Akbar Salehi
Mas, se se leem as entrelinhas, a Casa Branca também escreveu que “em princípio, sempre é favorável a conversações diplomáticas”.  [3] Ora! E qual seria o problema de haver conversações diretas EUA-Irã, se se sabe que, de fato, só conversações diretas podem pôr fim àquele impasse sem solução?

A grande questão é que um Obama que favoreça mais a via diplomática que a guerra contra o Irã não tem, hoje, a reeleição garantida nos EUA. O NYT não está longe da verdade: parece haver número significativo de cidadãos norte-americanos que, sim, estarão votando a favor de mais guerra.

O Irã também reagiu com negativa pro-forma  [4] à matéria do NYT, mas também do lado iraniano da mesa houve entrelinhas: o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi deixou entrever a informação de que os contatos estão “em pausa”, por causa das eleições presidenciais nos EUA; depois das eleições, sim, a via política será novamente ativada. Mencionou especificamente o final de novembro, como momento previsto para que se retomem as negociações.



Notas de rodapé
[1] 20/10/2012, Xinhuanet, China, em: U.S., Iran agree to one-on-one nuclear negotiations – media”.
[2] 22/10/2012, Sydney Morning Herald, Margareth Talev, em: No deal for nuclear talks with Iran after US election”.
[3] 21/10/2012, Associated Press, Mathew Daly, em: White House prepared to meet one-on-one with Iran”.


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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.