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sábado, 14 de dezembro de 2013

“EUA e Irã” - Conflicts Forum, “Comentário Semanal”: 29/11-6/12/2013

13/12/2013, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Acordo Irã e P5+1 em Genebra
Três dinâmicas visíveis marcaram o recente período, desde que foi assinado o Acordo de Genebra, entre o P5+1 e o Irã.

A primeira – até agora – é furiosa ressurgência de guerra “por procuração” [orig. proxy] entre Irã e Arábia Saudita. A Arábia Saudita não respondeu aos ramos de oliveira, e continuou a escalar no Líbano (que se vai tornando perigosamente instável); no Iraque, que se aproxima dos piores níveis de conflito interno, comparáveis ao pico da guerra de 2003; e na Síria, onde Sayyed Hassan Nasrallah alertou recentemente que se devem esperar “duros confrontos” em vários fronts – nos dias que antecedem as negociações de 22/1 sobre a Síria.

Hassan Nasrallah
A mudança, de “ramo de oliveira” para conflitos abertos for marcada por cada um dos lados, à sua própria maneira: Em longa entrevista à televisão, o Secretário-Geral do Hezbollah, que raramente menciona nominalmente a Arábia Saudita, e tradicionalmente evita acusações diretas contra estados árabes, disse que o movimento libanês, de tendência pró al-Qaeda e que se declarou [“com credibilidade”] responsável pela explosão na embaixada iraniana em Beirute, é diretamente apoiado e financiado pela inteligência saudita. Nasrallah também disse que a inteligência saudita esteve por trás do crescimento da violência diária no Iraque; e acrescentou que, na Síria, a Arábia Saudita continuou a frustrar quaisquer conversações, preferindo continuar a trabalhar para alavancar o crescimento (uma quimera) da oposição militar no solo:

A Arábia Saudita está determinada a manter a luta até a última bala e a última gota de sangue [sírio], disse o Secretário-Geral.

Rei Abdullah
Assim também, o rei Abdullah teve, afinal, encontro gelado e muitas vezes adiado com o presidente do Líbano no início desse mês, e não disse mais que algumas palavras esparsas, lacônicas, a Suleiman: respondeu várias vezes com “InshAllah” [“se Deus quiser”], aos pedidos de Suleiman por apoio à sua permanência na presidência; disse “não” à qualquer formação de um governo no Líbano; e, em vez disso, só repetiu que o presidente deveria usar o exército libanês contra o Hezbollah: usar força militar do exército nacional libanês contra uma das maiores forças componentes de seu próprio povo, porque essa força apoia o governo sírio – e essa última demanda foi a essência da mensagem do rei saudita ao presidente do Líbano.

Bandar bin Sultan
Mas, ao mesmo tempo em que não se veem augúrios que sugiram desescalada, muito menos alguma reconciliação entre Arábia Saudita e Irã, pelo menos por hora, há notícias de desacordos dentro da família real saudita: vários dos principais príncipes escreveram ao chefe de gabinete do rei para reclamar das ações do príncipe Bandar, que não estaria cuidando adequadamente dos interesses sauditas. Essa carta de reclamação conecta-se, essencialmente, com a segunda de nossas três dinâmicas, a saber, o crescente isolamento da Arábia Saudita. Vários membros seniores da Casa de Saud estão inquietos com a postura da Arábia Saudita.

De fato, a diplomacia iraniana está empenhada numa campanha “de sedução”, bem preparada e altamente ativa, em toda a região, a qual está deixando a Arábia Saudita muito isolada, em termos diplomáticos – e mesmo dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). O Qatar já conversou até com o Hezbollah (a bête noir dos sauditas); os Emirados Árabes Unidos está fazendo contato com Damasco; o Bahrain convocou a presença dos iranianos na Conferência de Manama; e os Emirados Árabes e outros estados do Golfo receberam bem o Acordo de Genebra — tudo isso ao mesmo tempo em que altos diplomatas iranianos viajam pela região, para dizer aos líderes do Golfo que nada têm a temer de um Irã emergente; e que, isso sim, podem esperar muito de um “reset” do Golfo. 

Bijan Namdar
Zangeneh
Há muito tempo os estados não sauditas do Conselho de Cooperação do Golfo reclamam da “arrogância” saudita. Estão-se abrindo para os ramos de oliveira iranianos (reconhecendo que a política do CCG para a Síria já fracassou) – mesmo sem aprovação dos al-Saud.

E, como parte dessa campanha de isolamento – na abertura da reunião da OPEC na 4ª-feira – o Ministro do Petróleo do Irã, Bijan Namdar Zangeneh, desafiou diretamente a Arábia Saudita no ponto mais sensível de sua anatomia – ao avisar que o Irã tem planos de extrair o máximo de petróleo possível, quando (e se) as sanções forem levantadas, independentemente do efeito que essa ação tenha sobre os preços.

Produziremos 4 milhões, mesmo que o preço desabe para $20.

Na prática, não acontecerá queda dessa magnitude – o preço do petróleo será determinado pelo crescimento da demanda asiática e por mudanças na oferta global; mas a ameaça iraniana pode ter impacto sobre a Arábia Saudita.

Hassan Rouhani
O presidente Rouhani já iniciou significativa campanha de reformas, na esperança de levar a produção de óleo de volta ao nível pré-sanções de 4,2 milhões de barris/dia, nos próximos 18 meses. Na verdade, esses objetivos não são alcançáveis, não importa o cronograma; mas, sim, aumentos significativos são possíveis. Deve-se esperar que o Irã reviva cerca de metade de sua produção offline dentro de 12-18 meses – cerca de 500 mil/750 mil barris/dia; mas um retorno aos níveis pré-sanções deve ser considerado como meta para vários anos, não alguns meses, e o crescimento acontecerá em ritmo mais lento.

O Iraque – em íntima coordenação com o Irã – também declarou que quer voltar aos níveis de produção pré-guerra no prazo de um ano (mas há limitações logísticas, o que significa que o mais provável é que o Iraque não alcance as metas declaradas). E a Líbia (menos plausivelmente) sugeriu que aspira a voltar ao nível dos 2 milhões de barris/dia – desde que (e se) os atuais tumultos cedam.

Ninguém imagina que o Irã realmente deseje que o preço do petróleo caia ao nível do porão, mas a ideia geral é clara: qualquer queda significativa nos preços ferirá a Arábia Saudita, que precisa de que o preço do petróleo fique nos $100. O Irã está “declarando” que o jogo da Arábia Saudita na OPEP é, quase completamente, blefe: a Arábia Saudita tem hoje menos influência no CCG que antes, dado o atual colapso de suas principais políticas; e menos capacidade para usar a OPEP como ferramenta, do que antes.

O crescimento potencial da produção de Irã e Iraque pode vir a ser simplesmente grande demais para que a Arábia Saudita o absorva, dado o crescimento das demandas internas no Reino – o que põe a Arábia Saudita na posição de ter de responder aos fatos, muito mais do que de determinar resultados de mercado.

A reunião da OPEP mostrou que, no que tenha a ver com os discursos de alguns sauditas sobre o Reino “ter de responder” à “traição” de Obama, suas ameaças são, praticamente todas, vazias. Há ceticismo considerável acerca da realidade e da veracidade das declarações sobre alguma nova aliança estratégica com Israel (embora seja bem conhecida, embora jamais reconhecida, a já antiga cooperação entre ambos) – e comentaristas sauditas descartam como “impensável” a ameaça de que os sauditas estariam adquirindo uma “bomba”.  

Para demarcar ainda mais o isolamento dos sauditas, o Ministro do Irã disse a jornalistas que espera que as empresas Exxon Mobil Corp., Royal Dutch Shell Plc, BP Plc, Eni SPA e Statoil ASA investirão no Irã, e que os iranianos se reunirão com empresas internacionais em Londres, em março. A Arábia Saudita sempre preveniu essas gigantes do petróleo contra qualquer envolvimento no Irã. “O Irã ainda não se aproximou das petroleiras norte-americanas”, disse  Zanganeh, embora tenha conversado com algumas empresas (dos EUA) com sede na Europa; e que espera encontrar-se também com as norte-americanas, em março. “Acho que não gostariam que eu as citasse nominalmente” – disse o Ministro iraniano, em entrevista publicada na página do Ministério do Petróleo do Irã, Shana.

Evidentemente, nem só empresas de petróleo fazem fila para conversar com os iranianos. Por todo o mundo, já se formam filas de empresários nos consulados iranianos. Isso está provocando alarme em vários círculos.

George Shultz  (E) e Henry Kissinger (D)
Em artigo publicado no Wall Street Journal, assinado por dois ex-secretários de Estado dos EUA, Henry Kissinger e George Shultz, o duo específica e diretamente alerta (falando das preocupações de ambos em torno do acordo provisório com o Irã) que “para indivíduos, empresas e países (inclusive alguns países aliados), a perda de negócios com o Irã foi economicamente significativa. Muitos estarão menos vigilantes sobre aplicar e respeitar as sanções que são objeto de negociações; e que parecem “estar acabando”.

Esse perigo será aumentado, se se implantar a impressão de que os EUA estejam realmente decididos a reorientar sua política para o Oriente Médio na direção de uma reaproximação com o Irã [negritos de Conflicts Forum]. A tentação será de chegar primeiro, de evitar ser o último a restaurar ou iniciar laços comerciais, de investimento e políticos. Assim sendo, é quase com certeza impraticável a ideia de uma série de acordos provisórios, equilibrando “afrouxamento” e “apertamento” nas sanções. Mais uma onda [de alívio nas sanções] indicará claramente o fim do regime de sanções.

Mas os dois secretários podem ter chegado um pouco tarde demais, com seu alerta.

Grande parte do resto do mundo já está vendo que os EUA precisam baixar o nível de seus compromissos no Oriente Médio, para guardar o fôlego necessário para poder empreender esforços diplomáticos e militares na direção da Ásia. O crescimento do extremismo sunita é ameaça, tanto contra os interesses ocidentais, como contra a estabilidade na região; e o humor dos eleitores norte-americanos, cada vez mais contra novas guerras no Oriente Médio (pesquisas sugerem que os norte-americanos apoiam o Acordo Iraniano, na proporção de 2:1), tudo isso impele os EUA na direção de construir um acordo com o Irã.

Em resumo: as elites sunitas e os movimentos radicais islamistas sunitas (trabalhando para um objetivo partilhado) perderam a guerra que visava a obrigar EUA e Europa a “conter” e sitiar o Irã até conseguir que o país implodisse.

John Hannah
Mas aqui há também há a terceira dinâmica. O movimento contra o Acordo Provisório com o Irã também começa a reunir suas forças. Artigos como o assinado por John Hannah e o de Kissinger e Shultz são prova disso. Hannah assume, implicitamente, que as negociações se travam em torno do poder no Oriente Médio – e alerta contra um Irã, libertado de um pesado regime de sanções, e que poderá emergir como “potência nuclear, de facto, liderando um campo islamista, enquanto aliados tradicionais perdem a confiança na credibilidade dos compromissos norte-americanos e seguem o modelo iraniano (...)”.

No Comentário Semanal anterior, argumentamos que o modelo que as negociações vêm seguindo (foco nos detalhes nucleares técnicos, sem que se tratem as questões mais amplas – e mais cruciais – de um Irã como potência regional emergente) garantiu uma oportunidade de ouro para os opositores que não gostem das implicações políticas, e que tentarão miná-las, servindo-se das implicações técnicas.

O Grupo EU3 já mostrou como minar um processo, quando “copiaram-colaram” a estrutura de “fatiar-como-salame” das negociações do Iraque, para as negociações do Irã em 2004. Os dois secretários de Estado dos EUA dizem claramente que não gostam de um Irã cujas orientação e política os desagrada (esse é o núcleo da primeira parte do artigo, contra o ethos não ocidental do Irã); mas dizem, mais, que a questão é, realmente, o aumento da capacidade do Irã como ator [nuclear] decisivo – acrescentando um caloroso entusiasmo, nada convincente: “devemos estar abertos para a possibilidade de seguir uma agenda de cooperação de longo prazo”. Mas já na sequência, restringem essa “abertura”: Mas não antes de o Irã ter desmontado ou desmobilizado uma porção estrategicamente significativa de sua infraestrutura nuclear [negritos de Conflicts Forum].

Sabem, é claro, que o Irã jamais concordará com isso. Seria modo garantido de não fazer acordo algum; e ambos e seus aliados poderiam suspirar de alívio, e devolver os EUA a um oneroso regime de sanções. O conceito de [ter] “capacidade como ator [nuclear] decisivo” é conceito teórico, segundo o qual se alguém sabe o suficiente sobre enriquecimento, também sabe o suficiente para construir bombas atômicas. Isso, numa visão simplista, é evidentemente verdade; mas todos os estados nucleares, pelos próprios termos dessa definição, têm de ter essa capacidade de ator [nuclear] decisivo. Mas daí não se conclui que não seja possível nenhuma distinção entre uso pacífico da energia nuclear e produção de bombas atômicas.

Barack Obama (E) e Jeff Goldberg (D) (entrevista)
Na verdade, o presidente Obama, em entrevista a Jeff Goldberg, no Atlantic disse exatamente isso; o presidente disse ali que os EUA sabem que o Irã não tem programa de armas; que o país decidiu não ter programa de armas; e que, se mudassem essa decisão, os EUA teriam de saber da mudança, pelo menos um ano antes de ela gerar efeitos. Obama diz que é possível distinguir enriquecimento para fins pacíficos e para produzir armas – se os EUA tiverem esse tipo de garantia de que serão alertados de qualquer mudança na “decisão” do Irã.

Seja como for, os iranianos estão incomodados com artigos desse tipo e com as ameaças que estão vindo de senadores e deputados dos dois partidos, Democrata e Republicano, que pressionam para aprovar mais leis de sanções contra o Irã – apesar do fato de que qualquer nova sanção imediatamente cancelará o Acordo. Há ampla descrença no Irã de que o ‘sistema’ nos EUA (pressuposto oposto a Obama per se) tenha qualquer interesse em construir solução de acomodação com o Irã.

Daí a guerra psicológica [discursiva] entre, de um lado os que falam da “inevitabilidade” de um novo equilíbrio de poder no Oriente Médio, com o advento de um Irã “emergido”; e, de outro lado, os que falam da “inevitabilidade” de sanções de longo prazo, e que se dedicam a exigir que o Irã faça o impossível: que prove definitivamente, completamente e para toda a eternidade – que não fará (seja lá o que for).



[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O retorno de Bandar

22/4/2011, John Hannah, Foreign Policy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (por expressa ordem do Gato Filósofo)
John Hannah

Diz Nosso Especialista n. 1 (NE-1):
“O artigo é uma merda: põe os EUA no centro do mundo; só considera interesses dos EUA; trabalha a favor de mais guerra; e põe reis e embaixadores e presidentes como protagonistas da história”.

Diz o Gato Filósofo, sultão da Vila Vudu:
“Certíssimo. Mas o artigo é crônica exemplar da narrativa que fantasia que os EUA seriam o centro do mundo; e que reis e embaixadores – e políticos, e ‘autoridades’ e ‘especialistas’ ‘ocidentais’ e respectivas ‘declarações’ – seriam protagonistas da história. Isso não é o máximo que nós temos de entender: é o mínimo.
Pela Palestina Livre! Traduzam já!”.
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Príncipe Bandar bin Sultan
Como Simon Henderson comentou recentemente, “Bandar está de volta. Deslocado do centro do palco há alguns anos, por alguma combinação de doença e intriga palaciana, o legendário ex-embaixador da Arábia Saudita em Washington príncipe Bandar bin Sultan volta a ser presença destacada no cenário mundial. O governo Obama muito bem faria se prestasse atenção ao retorno de Bandar. Operando em harmonia com os EUA, os excepcionais talentos de Bandar sem dúvida seriam considerável reforço no trabalho de encaminhar as revoltas de 2011 no Oriente Médio em direção que sirva aos interesses dos EUA. Mas, aplicados a outros fins, os mesmos talentos podem levar a resultados que Washington talvez venha a descobrir que são, digamos, menos agradáveis. 

É fácil adivinhar o motivo pelo qual Bandar foi chamado com urgência de volta ao serviço. Se muitos, no ocidente, viram promessa de democracia e liberdade no torvelinho político que agita terras árabes, os sauditas só viram desastre. Os sauditas veem tudo por um único prisma: a luta existencial em que estão engajados contra um Irã ameaçador e que, se não for vencida, levará ao colapso toda a ordem existente no Oriente Médio, abalará a Casa de Saud e dará ao Irã controle e influência sobre os locais sagrados do Islã em Meca e Medina. O Reino só tem um parâmetro para avaliar os atuais desenvolvimentos: somam ou abatem no saldo líquido das contas da teocracia persa no Golfo, que busca afirmar a própria hegemonia em toda a região. 

Por esse parâmetro, o resultado não tem sido bom. O regime de Hosni Mubarak – há muito tempo aliado dos sauditas; pilar da estabilidade regional; feroz opositor dos mulás – foi-se. O Iêmen, na fronteira sul do reino, oscila à beira da anarquia. Mais grave que isso, a poucas milhas da costa saudita, no minúsculo Bahrain – virtual protetorado do reino e ponte para sua província sul, rica em petróleo –, a monarquia sunita al-Khalifa foi empurrada ao limite do suportável pelos manifestantes sunitas que, estimulados pelo Irã, acenaram ameaçadoramente com a ideia de mudança de regime. Desafiados abertamente a defender uma de suas mais visíveis linhas vermelhas, os sauditas responderam conforme o esperado, com intervenção militar em larga escala para conter, brutalmente, a escalada da crise.  

Em Riad, a situação foi exacerbada pela crescente queda na confiança que tivessem no poder dos EUA. Contra todos os conselhos dos sauditas, o governo Obama trabalhou ativamente na engenharia da saída de Mubarak. No Bahrain, altos funcionários do governo dos EUA pressionaram publicamente a família reinante a fazer concessões aos manifestantes – literalmente horas antes de os tanques sauditas porem-se em marcha. Mais recentemente, movimento tardio e hesitante da força militar dos EUA fracassou na tentativa de derrubar o coronel Gaddafi da Líbia, homem que, há poucos anos, contratou o assassinato do rei saudita Abdullah. Em flagrante contraste com o muito público esforço de Washington para afastar seu antigo aliado egípcio – “de ontem”, para citar Robert Gibbs –, a equipe Obama tem mantido embaraçador silêncio ante os persistentes protestos e a carnificina em andamento na sempre antiamericana Síria, regime que orgulhosamente se expõe como principal aliado do Irã no mundo árabe. 

Em situação em que a região parece estar escapando de qualquer controle, e seu mais importante parceiro dá sinais de oscilar entre a fraqueza, a incompetência e o engenho mais vacilante, a Casa de Saud pôs mãos à massa, convocou o Time A – cada um escolha a metáfora que preferir. Todas as metáforas encaminham na direção do príncipe Bandar – um dos estadistas mais criativos, dinâmicos e agressivos surgidos nos últimos 30 anos –, afinal resgatado do purgatório diplomático onde permaneceu até recentemente e convocado para ajudar a enfrentar crise que o reino saudita considera sem precedentes. Make no mistake – como costuma dizer o presidente Obama –, os sauditas sentem-se hoje plenamente em guerra contra o Irã, embora por outros meios. Do ponto de vista de Riad, disputa-se hoje nada menos que o futuro do Oriente Médio árabe e a sobrevivência da Casa de Saud. E essa força da natureza que atende pelo nome de Bandar bin Sultan já foi bem visivelmente plantada na vanguarda do plano de combate dos sauditas.  

Já perdi a conta dos muitos que, há muito tempo, perguntam “O que aconteceu com Bandar?” Agora, de repente, Bandar está em todos os lugares. No início do mês, o secretário de Defesa Gates visitou Riad para ver o rei Abdullah. Lá estava Bandar. Dias depois, o conselheiro de Segurança Nacional Tom Donilon tomou o mesmo rumo, levando mensagem do presidente Obama para Abdullah. Outra vez, lá estava Bandar em todas as fotos. Mais interessante – e sem dúvida muito preocupante –, no final de março, às vésperas da intervenção saudita no Bahrain, Bandar foi mandado ao Paquistão, à China e à Índia, em busca de apoio para a abordagem linha dura que o reino adotaria imediatamente contra os levantes populares na região. 

Os formidáveis talentos de Bandar outra vez ativados a serviço de uma Arábia Saudita que se sente cada dia mais encurralada e desconfiada da eficácia da proteção dos EUA são certeza de dificuldades – cuja gravidade aumenta, quando Paquistão e China e assemelhados são acrescentados à mistura. Ninguém esqueça que, no final da década dos 1980s, foi Bandar quem coordenou a entrega de mísseis chineses de médio alcance à Arábia Saudita – movimento que pegou Washington de surpresa e que só por um triz não gerou grave crise com Israel. Hoje, o perigo é, claro, que os sauditas sintam-se suficientemente ameaçados e sozinhos a ponto de abraçar outros movimentos desse mesmo tipo, de autoajuda. 

E se decidirem modernizar seu arsenal de mísseis? Ainda pior: e se o reino decidir comprar armas atômicas ou, no mínimo, se convidar o Paquistão a armazenar parte de seu arsenal nuclear no reino? Analistas especulam há muito tempo sobre se o dinheiro saudita não estaria financiando o programa nuclear do Paquistão, em troca da promessa de que, sendo necessário, os frutos daquele programa seriam postos à disposição de Riad. Com o Oriente Médio em convulsão e o Irã cada dia mais próximo de adquirir capacidade para construir armas nucleares, teria chegado a hora? 

Mesmo que não se realizem esses cenários extremos, há inúmeras outras possibilidades também preocupantes. Foi noticiado que, na viagem ao Paquistão, Bandar discutiu a possibilidade de o Paquistão, em determinadas circunstâncias, enviar milhares de soldados adicionais para o Bahrain e Arábia Saudita, com a explícita missão de quebrar crânios xiitas. O Irã condenou o noticiário, o que fez aumentar as tensões e o risco de que a situação degenere em guerra entre sunitas e xiitas. Além disso, ninguém pode subestimar o perigo de, encurralado contra a parede, o reino saudita inventar de outra vez acender o pavio da velha rede Jihadista e apontá-la contra o Irã xiita – deixando para nós, o resto do mundo, o problema de enfrentar as consequências não desejadas da loucura desses bem financiados takfiristas [1]. 

Para minimizar o risco de que algum desses perigos venha a confirmar-se, o governo Obama bem faz em cuidar de reparar as trincas que surgiram na confiança de Riad. As visitas de Gates e Donilon ao reino visaram claramente esse objetivo e, segundo a maioria dos relatos, foram bem sucedidas e controlaram a hemorragia que ameaçava matar o relacionamento. Mas é esforço que terá de ser sustentado. 

O governo também daria sinal de inteligência se restabelecesse forte linha de comunicação com Bandar, agora que ele volta a ter papel importante na política saudita. Bandar trabalhando sem qualquer atenção aos interesses dos EUA é motivo para preocupação. Mas Bandar operando em parceria com Washington contra o Irã como inimigo comum é importante ativo estratégico. Apoiado nos recursos e no prestígio dos sauditas, a engenhosidade de Bandar e sua tendência a favor de ações marcantes poderia ser excelentemente usada em toda a região, de modo a reforçar as políticas e a defesa dos interesses dos EUA: mediante ações econômicas e políticas que enfraqueçam os mulás iranianos; para minar o regime de Assad; em apoio a uma transição bem-sucedida no Egito; viabilizando a saída de Gaddafi; reintegrando o Iraque no mundo árabe; e encorajando uma solução negociada no Iêmen. Mesmo no Bahrain, se alguém na hierarquia saudita pode algum dia entender que é necessário buscar solução estável, que não se esgote na repressão, esse alguém, muito provavelmente, é Bandar. 

Em abril de 2002, o então príncipe coroado Abdullah da Arábia Saudita chegou ao Texas, para encontro com o presidente Bush. Era momento tenso das relações EUA-sauditas. Dizia-se que o príncipe coroado estava profundamente incomodado com a crescente violência entre israelenses e palestinos, e irritado por o presidente Bush não ter acolhido sua sugestão de que empreendesse ação agressiva para por fim àqueles conflitos. O que se dizia é que a passividade dos EUA ante a “agressão” israelense estaria fortalecendo o Irã e tornando mais insustentável, dia a dia, a aliança entre sauditas e Washington. 

Um dia antes da reunião, o New York Times publicou matéria de primeira página, sob o título “Sauditas alertam Bush sobre política israelense”. Na matéria, alto funcionário do governo saudita, não identificado, ameaçava sem meias palavras:

“Erra quem suponha que nosso povo não fará o que tiver de fazer para sobreviver. Se isso implicar ir mais à direita que bin Laden, assim será; mais à esquerda que Gaddafi, assim será; voar para Bagdá e abraçar Saddam como irmão, assim será. Nossa parte do mundo é muito solitária, e já não temos como defender, ante nosso povo, nosso relacionamento [com os EUA].”

Todos imediatamente identificaram aí a fala do embaixador saudita, príncipe Bandar. Bombástico? Sim. De enfurecer? Sem dúvida. Mas não manifestava também pelo menos parte da realidade à Hobbes que a política exterior dos EUA tinha de enfrentar, por menos agradável que fosse? Infelizmente, sim. Enquanto essa realidade não mudar, os EUA devem trabalhar o mais que puderem para impedir que a Arábia Saudita, ou o príncipe Bandar, sofram as dores da solidão. Testar a proposição do príncipe em 2002 é risco ao qual ninguém deve querer expor-se.


Nota de tradução
[1] Muçulmanos que praticam takfiri – acusar outros muçulmanos de apostasia.