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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Robôs, racismo e neoliberalismo mataram Detroit (e o que significa para você)

4/12/2013, Juan Cole, Informed Comment
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Juan Cole erra tudo sobre Líbia e Síria. Mas, nisso, acerta: mataram Detroit”.
5/12/2013, Pepe Escobar, Facebook
Trilha sonora sugerida: No Fun [Não é divertido, não tem graça] (Iggy and the Stooges). Ouça a seguir:

População de Detroit, de mãos dadas, reza para que não roubem suas aposentadorias e pensões
O juiz decidiu que a municipalidade de Detroit pode beneficiar-se do direito de falência e reestruturação financeira. Significa que as aposentadorias e pensões podem, pelo menos em parte, ser roubadas dos trabalhadores. (...)

A grande pergunta é se a bancarrota de Detroit e o declínio, que prossegue, são só uma rebarba, ou se nos dizem algo sobre o estado distópico em que os EUA estão-se convertendo. Parece-me que os problemas da cidade são as dificuldades do país como um todo, especialmente no que tenha a ver com desindustrialização, robotização, desemprego estrutural, crescimento territorial das propriedades totalmente gradeadas do 1% e o racismo. O prefeito convocou as famílias que ainda vivem no oeste da cidade, muito esvaziado, a se mudarem para o centro, para que possam ser atendidas. Soa-me como o pós-apocalipse. Vez ou outra, os bairros abandonados pegam fogo; em pouco tempo, 30 prédios viram fumaça em Detroit.

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No auge do sucesso, nos anos 1950s, Detroit tinha quase 2 milhões de habitantes. Quando me mudei para o sudeste de Michigan em 1984, ainda viviam 1 milhão de pessoas em Detroit. Lembro que, na época do censo de 1990, os políticos muito falavam sobre manter o status de cidade de 1 milhão de habitantes, porque havia um dinheiro federal extra para essas áreas urbanas, e eles precisavam de todos os moradores. Conseguiram, por pouco. Mas em 2000 a cidade caiu abaixo de 1 milhão. Em 2010, já eram 714 mil, por aí. Google estima que, hoje, sejam 706 mil. Nada faz crer que não continue a encolher e chegue a nada ou quase nada.

Thomas J. Sugrue
O conhecido historiador da moderna Detroit, Thomas J. Sugrue, explicou o declínio da cidade. Primeiro, Detroit cresceu de 400 mil para 1,84 milhão de habitantes, de 1910 a 1950, basicamente por causa da indústria de automóveis e demais indústrias que a alimentavam (de ferramentas, autopeças, serviços, etc.).

De 1950 até hoje, duas coisas aconteceram, de importante, que arruinaram a cidade industrial. A primeira foi a robotização.

A automação de muitos processos nas fábricas reduziu o número de trabalhadores necessários, e produziu desemprego. Foi o golpe do capitalismo industrial, contra os negros que acorreram para Detroit nos anos 1940s, para escapar de ser boia-fria na Geórgia e por todo o Sul profundo, onde, quando eles partiram, até esses empregos já começavam a desaparecer.

Então, a autoindústria começou a partir, e com ela as indústrias de apoio, para reduzir gastos com salários, para reduzir custos de produção ou para escapar a leis regulatórias.

A recusa, pela população branca, a permitir que os imigrantes negros se integrassem, gerou forte divisão racista em moradia e educação inadequada para negros norte-americanos. Ao longo dos anos finais da década dos 1950s e durante a década dos 1960s, houve fuga substancial de brancos, que deixavam a cidade, movimento do qual os tumultos raciais de 1967 foram uma continuação. As classes médias altas, os empresários e os ricos em geral levaram a riqueza com eles para os arredores da cidade; assim, feriram a base municipal da arrecadação de impostos. A queda nos impostos arrecadados veio na sequência, somada à migração das fábricas. Quanto menos a cidade arrecadava, piores os serviços públicos, e mais gente deixava Detroit. Os negros de classe média alta e ricos começaram a partir nos anos 1980s e hoje já se foram praticamente todos.

Manifestações em Detroit contra a decisão judicial
Outros observadores sugeriram outros fatores que se somaram para o declínio, como mau planejamento urbano ou a incapacidade para atrair imigrantes estrangeiros em número suficiente. Desconfio que o declínio do porto de Detroit tem algo a ver com a história (só uma das quatro velhas docas em Sault St. Marie permite hoje que navios de grande calado cheguem a parte baixa dos Grandes Lagos e portanto a Detroit. Uma nova doca grande e moderna está sendo construída para acomodar grandes embarcações, mas faltam décadas para que comece a operar). Alguns observadores lembram que Detroit bem poderia ser um grande porto de entrada no meio-oeste para navios internacionais de transporte de contêineres, se as docas fossem ampliadas e conectadas por ferrovias às cidades da região, mas desconfio que seria preciso uma nova conexão à linha SOO.

Depois de todas essas décadas de esperanças desfeitas, é difícil para mim levar a sério as conversas de que a cidade dará “a volta por cima” ou que algum projeto de renovação tenha alguma chance de sucesso. Parece-me que hoje se trata de o que fazer para fixar uma população que, se nada for feito, continuará a partir. A ideia das “hortas urbanas” parece-me especialmente falha, como hipótese de solução [tampouco bicicletas e patinetes resolverão alguma coisa!].

Parece bonito, soa bem, mas hortelãos não ganham dinheiro como operários industriais urbanos – motivo pelo qual eles sempre deixam as hortas e mudam-se para as cidades. Ninguém injeta dinheiro na vida de uma cidade economicamente moribunda, com hortas [nem, tampouco, com bicicletas e patinetes! (NTs)].

Embora outras cidades ainda consigam evitar o destino fatal de Detroit, parece-me que os EUA, como um todo, enfrentam alguns dos problemas intratáveis que essas cidades enfrentam. E acho que os EUA não temos solução para eles.

Considerem-se, por exemplo, os robôs (e falo da produção computadorizada e altamente mecanizada de mercadorias). Mais e mais trabalho automatizado, e mais e mais avanços na tecnologia de computação, podem aumentar substancialmente a produtividade. Mas o uso crescente de robôs viola o acordo que os capitalistas firmaram com os consumidores norte-americanos depois da Grande Depressão: o capitalismo ofereceria empregos bem remunerados, e os operários, em troca, comprariam as mercadorias que as fábricas produzissem – num ciclo de consumo. Se as mercadorias podem ser produzidas sem operários, e se os operários, por isso, acabam recebendo em troca só desemprego de longo prazo (como em Detroit)... quem comprará as mercadorias de consumo?

O capitalismo sobreviverá a uma Detroit. Mas e se, depois de Detroit, vierem várias Detroits?

Parece-me que, se a produção divorciou-se do trabalho humano, é preciso deixar para trás o capitalismo.

Entendo que o trabalho robotizado tenha de ser estatizado e posto a operar extensivamente a serviço do setor público; e os cidadãos receberão dividendos, uma renda mínima, gerada por financiarem a automação. Assim, se os robôs fabricarem um automóvel, os lucros não irão só para a empresa proprietária dos robôs; serão distribuídos entre todos os cidadãos. Afinal de contas, de que serviriam os robôs, a produzirem produtos para seres humanos desempregados e sem vintém para comprá-los? Talvez precisemos de uma versão “século 21” de “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. [1]

Formas mecanizadas/computadorizadas de propriedade comum também ajudariam a resolver o problema da crescente desigualdade de renda nos EUA. O 1% está hoje levando para casa 20% da renda nacional, por mês: mais de 10% a mais, em relação há algumas décadas. O 1% fez estrago considerável no sudeste de Michigan com seus mercados desregulados de derivativos e hipotecas podres; o crash de 2008 atingiu duramente a região, que já estava sendo duramente atingida.

O estado da antiga fábrica da Packard em Detroit
A área de Detroit é terrível exemplo da praga que é riqueza extrema (Bloomfield Hills, Grosse Pointe) e extrema miséria (quase toda a cidade de Detroit) co-existindo numa mesma área urbana metropolitana. Não dá certo. Os ricos não têm cidade onde se divertir, e a cidade não tem meios para impor impostos e auferir qualquer benefício da riqueza que se acumula dos arredores da cidade. Esses problemas são exacerbados de fato pelo racismo, a segregação racial: há muito mais negros desempregados em Detroit, que brancos; e nos arredores ricos vivem muito mais brancos, que negros.

A crise do capitalismo está sendo adiada por causa do crescimento da Ásia e da emergência de novos mercados consumidores em pontos nos quais a população está crescendo rapidamente. As empresas norte-americanas mudaram-se para lá em números que continuam a aumentar, porque lá encontram mão de obra barata. E deixam comunidades tradicionalmente de operários, como Detroit, ociosas e abandonadas. As empresas dos EUA fabricam mercadoria no Vietnã, para vender a consumidores chineses e indianos. Mas a população mundial parará de aumentar em 2050 e daí em diante, provavelmente, declinará. Nesse momento, o consumismo terá alcançado seus limites, porque, de ano em ano, o número de consumidores diminuirá. (E há também o problema de o consumismo clássico dos anos 1940s e 1950s não ser ambientalmente sustentável).

Com os robôs trabalhando para os humanos, energia solar e eólica, e população global diminuindo, os seres humanos pós-2050 poderão ter, universalmente, alto padrão de vida. Poderão dedicar suas energias a criar software, biotecnologia e arte – todas essas atividades sustentáveis. A renda assegurada aos humanos pelo trabalho dos robôs será renda básica para todos, mas as pessoas poderão gerar outros ganhos, pelo empreendedorismo ou pela criatividade. E, porque todos terão uma renda mínima garantida, todos poderão comprar bens extra e serviços. Esse futuro depende de alguma coisa parecida com esse comunismo do trabalho robótico, e que que se supere para sempre o racismo, para que todos os membros das comunas humanas vivam iguais e integrados em novos espaços urbanos sustentáveis.

Insistir numa política econômica de capitalismo-tubarão à moda do século 19, quando já há trabalho mecanizado inteligente e estamos em pleno declínio da indústria baseada na exploração do trabalho humano que gera Detroits. Detroit é filha do racismo e dos preconceitos. Encolher o estado, matá-lo de fome e impotência e cortar serviços, ao mesmo tempo em que se obrigam os operários a trabalhar por salários cada vez menores (ou, até, expulsando-os para sempre do mercado de trabalho) gera Detroits. Na essência, Detroit é produto natural dos princípios do Partido Republicano dominado pelo Tea Party que os EUA temos hoje. Não funciona. Isso não é o futuro.

O futuro não é o cadáver de Detroit, nem o governo estadual dos Republicanos em Lansing. É coisa diferente. A morte lenta e dolorosa de Michigan está tentando nos ensinar algo: que formas ensandecidas e doentias de globalização, racismo, robôs a serviço dos ricos são a morte das cidades governadas pelas regras dos barões ladrões. Precisamos de novas regras.




Nota dos tradutores
[1] É frase bíblica e parece entrar como tal, nesse artigo. Mas é frase conhecida, também, já ressignificada por Marx:

Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades. (MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha”, 1875, onde pode ser lido, em português)

Quer dizer: é muito bonito, no artigo, mas... Com a frase, é hoje já INDISPENSÁVEL considerar também toda a “Crítica ao Programa de Gotha”, que Marx escreveu, contra os Lassalistas.  No prefácio, em que apresenta sua edição do manuscrito de Marx, Friedrich Engels escreveu, em Londres, dia 6/1/1891:

(...) Mas o manuscrito ainda tem uma outra significação e de maior alcance. Pela primeira vez, a posição de Marx para com a orientação tomada por Lassalle desde a sua entrada na agitação é aqui clara e firmemente exposta, e isto tanto no que diz respeito aos princípios económicos como à táctica de Lassalle. A impiedosa severidade com que o projecto de programa é aqui dissecado, a inflexibilidade com que os resultados obtidos são enunciados [e] os pontos fracos do projecto são mostrados. (...) Lassallianos específicos já só existem no estrangeiro como ruínas isoladas e o programa de Gotha, em Halle, foi abandonado mesmo pelos seus criadores, como inteiramente insuficiente [negritos dos tradutores].

Pelo sim, pelo não, melhor aproveitar, desse artigo, só as informações sobre o assassinato de Detroit (como Pepe Escobar avisou pelo Facebook)


quinta-feira, 22 de março de 2012

Mensagem (um escândalo!) de Obama ao Irã, por ocasião do Ano Novo iraniano (Now-ruz)

22/3/2012, distribuída por Juan Cole (vídeo e resumo traduzido)
"Obama's Hypocritical Message to Iran"

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Juan Cole
Os EUA e o Irã estão à beira da guerra, porque vocês têm um programa nuclear civil de enriquecimento de combustível atômico, semelhante ao que muitos outros países têm. Mas os EUA amamos vocês de verdade e queremos que vocês leiam sobre nosso amor fraterno pelos iranianos, pela internet.

Para isso, estamos fornecendo gratuitamente softwares de espionagem, para podermos nos infiltrar e controlar a Internet também no Irã, ao mesmo tempo em que vamos impondo controles cada vez mais mais rígidos sobre a internet no ocidente e vamos também processando – com fúria jamais vista – os vazadores que vazaram provas das ilegalidades que nosso governo comete.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

10 ideias para que as novas democracias árabes nascentes consigam evitar os erros dos EUA (resenha)


Resumo dos comentários surgidos entre os tradutores da Vila Vudu:

O Prof. Juan Cole publicou hoje, 6/7/2011,  em seu blog “Informed Comment”, uma carta aberta aos árabes: “10 ideias para que as novas democracias árabes nascentes consigam evitar os erros dos EUA

Várias daquelas ideias não são novidades no Brasil (o voto obrigatório, por exemplo, geraria melhor democracia que o voto facultativo; marcar eleições aos domingos ou tornar feriados os dias de eleições, também (“nos EUA, os “barões ladrões” marcavam eleições em dias de trabalho, para que os trabalhadores não votassem”); separar estado e religião, idem; alistamento eleitoral obrigatório, idem; manter exércitos de defesa, mais que de ataque, idem.

Algumas são mais fáceis de dizer, que de fazer (“não permitam que os judiciários se politizem”, “cuidem de garantir todo o poder aos sindicatos de trabalhadores” e “criem leis que impeçam os monopólios”, por exemplo).

Mas uma delas – não por acaso a primeira da lista – essa, sim, é receita garantida para democracia MUITO melhor que a dos EUA e do Brasil.

Juan Cole
1. As campanhas políticas contemporâneas nos EUA dependem pesadamente de tempo comprado às redes comerciais de televisão. Na Grã-Bretanha os anúncios de candidatos por televisão são controlados; na Noruega são completamente proibidos. Considerem a possibilidade de proibi-los completamente. Mas, decidam o que decidiram, proíbam, por lei, que os canais privados de televisão sejam pagos para exibir anúncios de campanhas eleitorais. Os custos dos anúncios eleitorais por televisão correspondem a 80-90% dos custos de uma campanha presidencial nos EUA. A próxima campanha eleitoral custará, a cada candidato, 1 bilhão de dólares. 

O único modo pelo qual alguém pode aspirar a ser eleito é arrendando-se aos bilionários e às grandes empresas e corporações. O povo não tem poder algum para eleger seja quem for, vitimizado pelos ultra-ricos que, nos EUA, já capturaram toda a “mídia”, e acaba por eleger o candidato menos pior. Considerem a possibilidade de proibir anúncios pagos a redes comerciais de televisão nas campanhas eleitorais; imponham regras e sanções pesadas, porque, se a coisa ficar só na lei, os muito ricos sempre comprarão, para seu uso exclusivo, além das campanhas e candidatos, também os presidentes, deputados, senadores etc.”

E o Prof. Cole conclui:

“Se aplicarem a regra n. 1, acima, para manter o “big money” longe das campanhas eleitorais, terão boa chance de combater as práticas monopolistas, Hoje, os EUA são governados por um pequeno número de semimonopólios, e o Departamento de Justiça quase nada pode fazer contra eles, porque, de fato, os monopólios elegem, pela televisão e pelos jornais, os candidatos que devem regular os monopólios....

Para os EUA, talvez já seja tarde demais. O Estado de Segurança Nacional e o poder das corporações já são tão extensivos que até a Constituição dos EUA já está derrotada. Há nos EUA 2 milhões de norte-americanos encarcerados, como num gigantesco gulag, muitos por crimes pequenos, ou pela cor da pele. Ultimamente, não fazemos outra coisa além de guerrear em terras distantes, nossos jovens mandados para morrer (e matar) longe, por ação de um ou outro interesse econômico jamais expresso com clareza. Somos revistados nos aeroportos, onde policiais nos veem nus. Nossos telefones são grampeados. A internet é censurada. Os trabalhadores dos EUA já praticamente não têm nenhum direito democrático significativo e perderam, recentemente, até o direito ao atendimento público de saúde. A luta contra os interesses da indústria da saúde privada enfureceu os bilionários, e os levou a inventar “movimentos” apalhaçados como o “Tea Party”, que nada mais são que a fachada que se vê de gente como os irmãos *Koch. Nunca ouviram falar dos *irmãos Kock? Pois se não tomarem as medidas que sugiro, vocês logo conhecerão versões árabes daqueles dois.” 

*Sobre os irmãos Kock, verOs irmãos bilionários que comandam a guerra contra Obama”, 30/8/2010, Jane Mayer, The New Yorker (em português)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Obama: no máximo, uma pausa nas guerras de Bush

Lawrence Davidson

25/6/2011, Lawrence Davidson, Consortium News
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Em dezembro de 2009, o presidente Barack Obama envolveu os EUA numa “avançada” nos Afeganistão, e mandou mais 30 mil soldados, para lá permanecerem durante um ano e meio e cumprir metas “bem especificamente definidas”, dentre as quais “desmontar, desmantelar e derrotar a al-Qaeda e seus aliados extremistas”.

Dia 22 de junho de 2011, o presidente comunicou que essas metas teriam sido alcançadas e que “a maré da guerra está recuando”. Assim sendo, comunicou que retiraria de lá 33 mil soldados, de agora até o final de 2012.

Não por coincidência, pesquisa do Pew Center acaba de ser divulgada, informando que 56% dos norte-americanos estão cansados de ouvir falar de Guerra do Afeganistão. Claro. Mesmo com a anunciada retirada de 68 mil soldados norte-americanos permanecerão no Afeganistão, até, conforme o cronograma de Obama, o final de 2014, quando, então, a guerra do Afeganistão terá “um fim responsável”. 

As respostas dos Republicanos ao anúncio de Obama variaram. Alguns Republicanos, como o candidato presidencial Mitt Romney, que certamente também leu a pesquisa que sem dúvida serviu de estímulo à decisão de Obama, andam dizendo que prefeririam retirada mais rápida.

Mas outros, como o Republicano Mike Rogers, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara de Deputados, opõe-se ao cronograma de Obama. Dizem que Obama faz política com os soldados. Essas várias respostas significam que, aconteça o que acontecer, os Republicanos sempre poderão sair-se com “Nós bem que avisamos...”

Os comandantes militares norte-americanos no Afeganistão não estão satisfeitos com a retirada. Dizem que a retirada das tropas da “avançada” nesse momento compromete “a consolidação de conquistas frágeis” obtidas em Helmand e outras províncias nas quais os Talibã reúnem-se. 

Há alguma verdade nessa opinião, mas o problema está em que essa opinião parte da ideia de que alguma “conquista” dos EUA no Afeganistão possa ser algum dia qualquer coisa além de “frágil”. 

Por outro lado, os comandantes afegãos, como o general Mohammad Zahir Azimi do ministério da Defesa do Afeganistão, têm declarado que os exércitos afegãos “preencherão o vazio” deixado pela retirada dos norte-americanos. “Estamos preparados”, disse ele, e, nisso, é provavelmente tão simplório quanto os generais norte-americanos.

Tudo isso soa irreal para quem conheça a história moderna do Afeganistão. Essa história, adequadamente considerada, torna problemática toda a aventura dos EUA naquele país.

Em entrevista recente a Amy Goodman, em seu programa de televisão “Democracy Now!”, o professor Juan Cole, especialista em Oriente Médio, disse que “os políticos norte-americanos, em geral, nada sabem de história”. Lembrou que os britânicos, no século 19, tinham “dezenas de milhares de soldados” em regiões sensíveis do Afeganistão e nem assim conseguiram pacificá-las.

Depois, como se sabe, os russos também fracassaram em tentativa semelhante.

Quais as probabilidades, perguntou Cole, de uma força expedicionária norte-americana “relativamente temporária (...) e pequena alcançar algumas daquelas províncias e conseguir modelá-las pelos nossos critérios, para o longo prazo? Sempre penso que isso sempre seria bem pouco provável”. De fato. Sempre foi improvável e continua a ser improvável.

A seguir, alguns outros pontos a considerar:

– No que tenha a ver com a franquia da al-Qaeda que opera no Afeganistão, já deixou de ser fator de peso na guerra do Afeganistão, há muito tempo. Já em dezembro de 2009, quando o presidente Obama anunciou sua “avançada”, a inteligência dos EUA estimava em menos de 100 o número de agentes ativos da al-Qaeda no Afeganistão. Portanto, mesmo antes da morte de Osama bin Laden, a guerra do Afeganistão já tinha mais a ver com os “aliados extremistas da al-Qaeda”, do que, diretamente, com a al-Qaeda.

– E quem são esses “aliados extremistas”? Ora! Só podem ser os Talibã. Mas, como a própria expressão já sugere, “os Talibã” não são grupo unificado. São vários grupos.

Como Cole explicou a Amy Goodman, “o que os EUA chamam de “os Talibã” são quatro ou cinco diferentes grupos, e nem todos seguem o Mulá Omar”. Mulá Omar era quem mandava no Afeganistão em 2001, quando os EUA invadiram o país.

Desde o início, os líderes políticos norte-americanos tenderam a misturar tudo: “tudo” era al-Qaeda. Não há dúvidas de que, para o pessoal de Bush Filho, al-Qaeda e “os Talibã” comporiam um todo homogêneo.

Quando, depois do 11/9, o governo do Afeganistão respondeu ao pedido dos EUA para que entregasse bin Laden, com a exigência de que os EUA exibissem provas do envolvimento de bin Laden naqueles ataques, os Bushistas nem se deram ao trabalho de responder. O “pessoal lá” tinham, todos, uma mesma cara, para os Bushistas. E os Bushistas invadiram o Afeganistão.

– Hoje já não importa quem seja ou deixe de ser o Mulá Omar. Todos os diferentes grupos Talibãs são contra a intervenção dos EUA em seu país e todos fazem oposição ao presidente Hamid Karzai, aliado dos EUA. E todos sabem que, sem a presença lá de tropas de combate norte-americanas, os vários grupos que fazem oposição a Karzai terão melhores chances de derrubá-lo.

– Quanto a isso, o presidente Obama também sabe que, de hoje até 2014, os EUA não conseguirão “injetar” força ou popularidade no governo de Karzai, para que consiga sobreviver. Obama diz, simultaneamente, que a al-Qaeda está completamente derrotada; e que “nós não tentaremos fazer do Afeganistão um lugar perfeito. Não policiaremos as ruas nem patrulharemos para sempre as montanhas. Esse trabalho é responsabilidade do governo afegão”. 

Essas duas afirmativas, justapostas, são manifestação de um ainda tênue esforço para separar coisas que os norte-americanos sempre supuseram que fossem uma e a mesma coisa. Obama está dizendo que é possível derrotar a al-Qaeda e, mesmo assim, perder o Afeganistão para facções Talibã. E está dizendo isso aos norte-americanos, porque isso é o que, muito provavelmente, acontecerá.

– Mas Obama está tentando extrair da retirada tudo que possa extrair, de “aproveitável”. Não há dúvidas de que não quer outra retirada como a do Vietnã. Está fazendo o possível para que os Democratas não sejam responsabilizados pela derrota.

Assim, seja no Iraque seja no Afeganistão, sua meta é chegar a “um fim responsável”. Depois disso, será erro dos nativos, se o Iraque acabar como governo aliado ao Irã e/ou voltar à guerras civis entre sunitas, xiitas e curdos.

E, depois de 2014, a culpa será de Karzai, se Kabul for entregue a algum tipo de governo “dos Talibã” e/ou recair numa guerra civil sectária entre os pashtuns e as demais várias minorias étnicas locais. Por tudo isso, “um fim responsável” significa, de fato, retirada em ordem, sem escândalo. 

Mas o que implica um fim realmente responsável? Implica que deve levar também o presidente Obama e o Congresso a pensar detidamente sobre a política exterior dos EUA dos últimos 50 anos.

Se se dedicarem a pensar sobre isso, profundamente, objetivamente e responsavelmente, logo chegarão à conclusão óbvia de que – se os EUA são capazes de aprender alguma coisa do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão – os EUA chegamos ao ponto em que chegamos por efeito das políticas ainda vigentes. 

As políticas dos EUA, não alguma al-Qaeda, levaram os EUA para os desastres gigantes cujo “fim responsável” ainda não está garantido. É preciso pensar sobre aquelas políticas. E revogá-las.

Infortunadamente, não se vê absolutamente qualquer sinal de que os políticos norte-americanos estejam sequer próximos desse ponto da curva de aprendizagem. A precipitação, a leviandade com que o presidente Obama pulou na guerra contra a Líbia mostra que considera insistir nas políticas de guerra oportunistas de Bush Filho.

O espetáculo vergonhoso do Congresso adulando o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu há algumas semanas, diz que o Congresso dos EUA está preso num erro profundo e perigoso.

O que se vê, dessa visão vesga, é que a política externa é a política interna em formato só superficialmente alterado. É retrato da política doméstica e de atitudes ideológicas sistêmicas.

Os EUA repetidamente disparam ladeira abaixo, porque somos empurrados pela retaguarda, não puxados pela vanguarda. É o mesmo que dizer que Obama talvez consiga arrancar-se sem completo vexame do Iraque e do Afeganistão; mas de modo algum haverá “fim responsável” para essas desastrosas aventuras ‘globais’.

Os lobbies domésticos que definem os ‘interesses’ internacionais dos EUA continuarão a impor os interesses deles. 

O que será preciso para mudar fundamentalmente o modo como os EUA fazem as coisas?

Partidos políticos, burocracias, lobbies entrincheirados no poder e ideologia são pesos gigantescos, difíceis de mover. Movem-se pelo tempo e espaço ‘sempre avante’ (talvez a isso se chame ‘tradição’ ou ‘progresso’) e não mudam facilmente de direção.

De fato, é preciso que alguma poderosa força oblíqua se interponha ao “progresso”, ao “avanço”, para mudarem essas instituições e as porem em rota realmente nova. Não raras vezes, essa força oblíqua poderosa é violenta. Talvez os EUA ainda tenham de enfrentar alguma grave catástrofe.

Um país tão agarrado aos próprios vícios, tão cheio de hubris e de arrogância, que já há várias gerações sofre derrotas militares, que está praticamente falido, e nem assim considera alterar seu padrão de resposta ao que acontece no mundo. Surpresa, mesmo, é que ainda se mantenha (ou quase) de pé. 

John Davies, poeta inglês do século 17, escreveu que o povo aprende pouco, mas esquece muito.

A maioria dos norte-americanos nada aprendeu sobre o mundo. Política externa é mistério para eles e alegremente delegam essa parte da vida nacional a políticos e lobbyistas que esquecem os próprios erros, no instante em que os cometem.

Ao ritmo em que vão, os EUA não acabarão numa explosão. Acabarão num gemido.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Exército popular marcha sobre Trípoli

Juan Cole
26/2/2011, Juan Cole, Informed Comment
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A rede Al-Jazeera em árabe está noticiando que o ditador Muammar Gaddafi já perdeu o controle de boa parte da cidade de Trípoli e que só controla, de fato, a área da capital em torno de seu palácio. Parece não haver dúvida que Gadaffi já luta pela vida.

O jornal Time noticia que 10 mil soldados líbios no leste do país reuniram-se ao exército popular que se prepara para avançar sobre a capital, Tripoli em Libya’s War of the Colonels: Col. Gaddafi Meet Col. Hussein. 



O canal ABC News mostra vídeo dos protestos em Trípoli:




O jornal saudita Al-Watan Online (em árabe) noticia que o nó parece estar sendo apertado à volta no pescoço do ditador líbio. Dezenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas da capital Trípoli depois das orações da 6ª-feira.  O próprio Gaddafi fez discurso de desafio do alto de um prédio da praça Verde, no qual ameaçou abrir seus arsenais, para que seus apoiadores civis e tribais armem-se para enfrentar os manifestantes. (Parece não ter considerado a possibilidade de os dissidentes tomarem os tais arsenais.) 

Há notícias de motins nos quartéis do exército em várias cidades, com deserção em massa de soldados que aderem aos manifestantes contra Gaddafi, os soldados também horrorizados com a repressão brutal que Gadaffi ordenou contra militares rebelados. Altos funcionários do governo, inclusive embaixadores, já renunciaram e já anunciaram que se alinham aos rebeldes. Entre esses, o Procurador Geral Abd al-Rahman al-Abbar e os embaixadores na França, Rússia e Liga Árabe, e no Conselho de Direitos Humanos do Tribunal Internacional de Haia.

Na capital Trípoli, as manifestações eclodiram depois das orações da 6ª-feira nos bairros de Fashloum, Jumhuria, Ashur, Suq al-Jum`ah e Tahira, e na praça Argélia – todos exigindo o fim do regime Gaddafi. Foram atacados a tiros pelas forças de segurança e pelos ‘comitês populares’ de Qaddafi. Al-Sharq al-Awsat diz que pela primeira vez milícias dissidentes armadas enfrentaram as forças de segurança em combate aberto na capital, do qual resultaram sete mortos.

Al-Watan em: Libya might face “no-fly-zone”: Gaddafi’s hold weakens with loss of top insider diz que testemunhas relatam que haveria dúzias de feridos. Há quem diga que mais de 9.000 soldados da Brigada Khamis (a guarda pessoal da família Gaddafi, que inclui mercenários) circulam pela cidade. O regime também está usando tanques, jatos e artilharia pesada, segundo relato não confirmado de um egípcio que trabalhava em Trípoli e conseguiu chegar a al-Bayda no leste. A mesma fonte diz que, na 6ª-feira, houve muitas deserções do exército regular em Trípoli.

A Al-Jazeera informa que muitos muçulmanos abandonaram as mesquitas em Trípoli, como protesto conta o tom conservador e pró-regime dos sermões em: Gaddafi vows to crush protesters.

A Al-Jazeera também noticia que, em Mselata (80 km da capital), o clérigo conclamou a congregação de fieis a abraçar a luta contra a ditadura de Gadaffi. Cerca de 2.000 partiram imediatamente em direção de Trípoli, com armas confiscadas das forças de segurança derrotadas.  Na cidade de Tajoura, houve combate entre essas brigadas populares e grupos de mercenários de língua francesa a serviço de Gaddafi. As brigadas populares não conseguiram continuar avançando em direção a Trípoli e houve número não conhecid de baixas. Também essa informação chegou com refugiados de Tajoura que conseguiram chegar à Tunisia – como noticia a rede Al-Jazeera.

Em Benghazi, segundo al-Watan, dezenas de milhares de pessoas reuniram-se diante do prédio do Tribunal, já ocupado e convertido em centro do governo popular, para celebrar a vitória, celebração da qual participaram crianças.  Organizaram-se patrulhas de comitês de cidadãos e soldados que se reuniram à rebelião. Outros soldados do exército regular estão vendendo as armas. Fonte da segurança do governo popular estima que tenha havido 500 mortos em Benghazi, antes de o exército popular assumir o controle da cidade.

Ben Wedeman da CNN fala de Benghazi: 



[Para total espanto da Vila Vudu, o correspondente do Jornal Nacional, da rede Globo, Brasil, falava, sobre a revolta dos árabes, ontem ou anteontem, de... Telavive!]

Muita gente, nas cidades liberadas do leste, usavam tradicionais trajes líbios na 6ª-feira, segundo o jornal al-Sharq al-Awsat (em árabe), como modo de refutar as acusações de Gaddafi, de que os rebeldes seriam muçulmanos fundamentalistas radicais (que sempre usam roupas típicas, algumas vezes influenciadas pelos trajes afegãos).

Al-Watan noticia que relatos sugerem que os combates prosseguiram na 6ª-feira em Misurata (Misrata) entre a oposição e soldados de Gadaffi. Outras fontes dizem que na manhã de 6ª-feira as forças pró-Gadaffi foram completamente derrotadas e expulsas da terceira maior cidade do país, cerca de 100 quilômetros a leste da capital.

Em Zawiya, 30 milhas a oeste de Trípoli, fontes oficiais falavam de soldados assassinados por “terroristas”. Há notícias de outras fontes de pesados combates na 4ª-feira, e de que as forças de segurança de Gaddafi recuperaram o controle da cidade. Alguns refugiados da cidade dizem que Zawiya em Gaddafi vows to fight as opposition closes in  está sob controle dos rebeldes e resistiu a vários ataques pelas forças de pro-Gaddafi que tentam retomar a cidade. Se Zawiya estiver sob controle da oposição, Sirte e Trípoli são os únicos centros urbanos nos quais Gaddafi ainda tem algum mando. Mau sinal para o ditador.

A maior parte das informações sobre o que realmente se passa na Líbia vem dos refugiados, que chegam e trazem notícias em: Exclusive Interview with Libyan Refugees (Part 1). Já há centenas de milhares refugiados, líbios que deixam o país fugindo dos combates, e estrangeiros que trabalhavam no país.