Mostrando postagens com marcador Michael Brown. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michael Brown. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de novembro de 2014

Obama: só placebo, na violência contra as liberdades civis


27/11/2014, [*] Wayne MADSENStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O policial Wilson atirou várias vezes contra Brown, inclusive um tiro mortal na testa, porque se sentiu “ameaçado” por um negro jovem desarmado. Nas palavras do próprio Wilson: “O único modo que encontro para descrever é... como um demônio, de tão furioso que aquilo parecia!”, referindo-se a Brown. Reencontrado com os tempos da escravidão, Wilson, como tantos dos seus apoiadores racistas, veem os negros como “coisas”. Por isso disse “aquilo”, falando de um homem.


Michael Brown desarmado e assassinado...
Pelo estado policial dos EUA! 
Barack Obama operou como placebo na situação de erosão continuada das liberdades civis nos EUA. O governo que chegou a ser antecipado como o “mais transparente” da história dos EUA, acabou sendo o mais opaco, com Obama processando número maior de funcionários públicos por violação da Lei Antiespionagem de 1917, que todos os seus antecessores somados. Os que estão sendo processados são pressupostos “criminosos” por terem informado jornalistas sobre os malfeitos e crimes do próprio governo de Obama.

Obama também foi propagandeado como o primeiro presidente afro-americano dos EUA ‘pós-racismo’. Em vez disso, o primeiro mandato de Obama assistiu à volta dos EUA aos tempos sinistros dos EUA de Jim Crow, quando adultos jovens e adolescentes negros correm alto risco de morrerem baleados na rua – ou de serem espancados até a morte – por policiais brancos racistas. Esses EUA apareceram à vista de todos, quando um Tribunal Federal no Condado de St. Louis, Missouri, absolveu o policial Darren Wilson, de Ferguson, que matou a tiros um jovem negro de 18 anos, Michael Brown. Wilson disse ao tribunal que Brown, que media 1,93m de altura, “parecia um demônio”, quando Wilson, que também mede 1,93m, o encontrou, numa batida policial que, como adiante se viu, nada absolutamente teve de normal.

Darren Wilson, o policial assassino
Wilson atirou várias vezes contra Brown, inclusive um tiro mortal na testa, porque se sentiu “ameaçado” por um negro jovem desarmado. Nas palavras do próprio Wilson:

O único modo que encontro para descrever é... como um demônio, de tão furioso que aquilo parecia... − referindo-se a Brown.

Reencontrado com os tempos da escravidão, Wilson, como tantos dos seus apoiadores racistas, veem os negros como ‘'coisas'’. Por isso disse “aquilo”, falando de um homem.

Não se deve esquecer que no debate presidencial em 2008 com o então candidato Obama, o senador John McCain apontou para Obama, no palco e disse “aquele ali”, referindo-se ao adversário.

Quando atirou em Brown, Wilson sabia que o “sistema” se ergueria a seu favor. Raramente oficiais de polícia são condenados por assassinato ou crime doloso. É o que se chama “paredão azul” [referência à cor dos uniformes dos policiais], de policiais, advogados, procuradores, juízes de um lado; e os cidadãos, do lado oposto. Na verdade, Wilson lucrou bastante, pessoalmente, por ter assassinado Brown. Ele leiloou a primeira entrevista depois de absolvido, entre vários “jornalistas” de uma “mídia” que salivava, e pode ter acertado na roleta, se forem verdadeiros os insistentes boatos segundo os quais a rede ABC News, que pertence aos estúdios Disney, comprou, por gorda quantia de seis dígitos, os direitos àquela primeira entrevista da “celebridade”, depois de absolvido.

Robert McCulloch, o promotor que "acusou"
o assassino...
Em vez de questionar os jurados que lá estavam no tribunal de St. Louis County, o procurador Robert McCulloch, nascido em família de policiais; cujo pai foi morto em serviço por um negro, e que tem longa história de mentir em tribunais, decidiu só apresentar “provas” que apresentavam o “acusado” sob a luz mais favorável. Fotos de supostos “ferimentos” que Wilson teria recebido foram distribuídas para os jurados, embora parecessem, de fato, microcortes autoinfligidos com navalha, pelo próprio Wilson, ao barbear-se. Nenhuma das testemunhas que assistiram aos tiros foi interrogada. Na verdade, as declarações desse procurador à mídia, ao informar os jornalistas sobre a absolvição, incluíam várias referências a testemunhas que mudaram seus depoimentos ante o juiz. McCulloch parecia culpar mais a imprensa que Wilson, pela reação que o assassinato de Brown provocou nos EUA.

Em vez de enfrentar um estado policial nos EUA, cujos procuradores de Justiça e senadores são autorizados a desqualificar os cidadãos negros e mestiços, Obama delicia-se agora antecipando a luxuosa aposentadoria de ex-presidente que o espera.

Obama nada fez para mudar o curso e restaurar os direitos constitucionais dos norte-americanos, ou para livrá-los de serem perpetuamente vigiados pela Agência de Segurança Nacional, FBITransportation Security Administration e centenas de agências e departamentos pelo país. As polícias locais e até as escolas públicas já são armadas com equipamento militar potencialmente letal, fornecido pelo Departamento de Defesa para ser usado por civis para autodefesa. São rifles de assalto, morteiros, veículos blindados e granadas de mão.

A segunda morte de Michael Brown...
Memorial incendiado!
A empresa-imprensa só fala da agitação e das depredações em Ferguson, que começaram depois da decisão do tribunal. Houve sugestões de que as polícias estadual e local saíssem de cena contra os provocadores de ações violentas. Assim o governador do Missouri, Jay Nixon, encontrou pretexto para convocar a Guarda Nacional do Missouri para restabelecer a ordem nas ruas. Os EUA de Obama, pelo menos para quem leia jornais, parecem os EUA dos anos 1970s: Nixon ordena deslocamento de mais soldados da Guarda Nacional.

Zeid Ra’ad Al Hussein
O Departamento de Estado dos EUA edita “relatório” anual da situação dos Direitos Humanos pelo mundo. O relatório cobre todos os direitos, dos direitos de gays, a questões de antissemitismo. Contudo, por mais que se procure, não se encontra no tal “relatório” nenhuma referência ao maior violador de direitos humanos no planeta – os EUA.

Depois da decisão do tribunal do Missouri que absolveu Wilson da acusação de assassinato doloso e também da acusação de assassinato sem intenção de matar, outro policial, em Cleveland, matou um menino afro-americano de 12 anos que carregava uma arma de brinquedo.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, acusou os EUA por violação sistemática dos direitos humanos de afro-americanos e de outras minorias. Disse que em muitos setores da população dos EUA, há “profunda e crescente desconfiança contra os sistemas de distribuição e de aplicação da lei e da justiça”.

Konstantin Dolgov, Comissário no Ministério de Relações Exteriores da Rússia para Direitos Humanos, Democracia e Estado de Direito, escreveu pelo Twitter: “

Konstantin Dolgov
Continuam a crescer as tensões étnicas na sociedade norte-americana. É hora de as autoridades norte-americanas darem atenção ao que se passa por lá, em vez de tanto se ocuparem com aplicar sermões ao resto do mundo, sobre direitos humanos.

O ministro de Relações Exteriores do Egito, antes, pedira que os EUA mostrassem contenção e moderação, no modo de enfrentar as manifestações de rua em Ferguson. Porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China também conclamou os EUA a melhorarem seus registros no campo dos direitos humanos. A China tem sido alvo de insistentes “protestos”, por autoridades norte-americanas, por causa de políticas chinesas para os direitos humanos.

O único fator que nunca muda nos repetidos fracassos dos EUA no campo dos direitos humanos, como se comprova com os assassinatos de civis na área de St. Louis, em Cleveland, em New York e em outras cidades, é que os EUA recusam-se sempre a reconhecer que vivem uma catástrofe humanitária no campo das liberdades civis, o que faz do país alvo de condenações, ao mesmo tempo em que as autoridades norte-americanas, ensandecidamente, só fazem apresentar os EUA como exemplo a seguir, para todo o mundo.

Enquanto Ferguson queimava e soldados da Guarda Nacional eram mandados para o condado de St. Louis, Obama decidiu mudar-se para território familiar, em Chicago, onde começou sua carreira política. O dito “organizador comunitário” e “ativista social” foi vaiado por manifestantes em sua própria cidade, quando tentava inflar sua nova política para a imigração.

Obama surdo?
Obama sempre foi seletivamente surdo para todas as reclamações de norte-americanos médios, fosse um adolescente negro em ambiente racista, como em Ferguson, Missouri ou Sanford, Florida, ou um operário que vive de salário mínimo e não pode pagar para receber a assistência médica do “Obamacare”.

Obama meteu-se em golpes para “mudança de regime” na Ucrânia, na Síria, na Líbia, no Egito, na Tunísia e em outros países, ao mesmo tempo em que só frustrou os clamores legítimos por mudança de regime ali dentro dos EUA, em Ferguson, no estado do Missouri, em Cleveland, Detroit, Oakland e em outras cidades.

Para os EUA, o slogan de campanha de Obama “Esperança e Mudança” converteu-se em piada macabra, com Obama sempre rindo para o lado de Wall Street, já antevendo a luxuosa aposentadoria que o espera, enquanto embolsa as gordas doações que lhe fazem empresas agradecidas, para os seus Museu e Biblioteca Presidenciais Barack Obama.
____________________

[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Jornalista da Fox News é xingado ao vivo!

5 razões pelas quais o vídeo é magnífico

19/8/2014, [*] Ian Blair, Salon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Ferguson − Em noite de protestos, Steve Harrigan, da Fox News, aprendeu algumas lições importantes
O vídeo é uma pérola que surgiu da cobertura jornalística dos protestos em Ferguson, Missouri, depois da morte de Michael Brown, adolescente negro assassinado a tiros por um policial de Ferguson, branco, Darren Wilson. Durante transmissão ao vivo no canal Fox News, o repórter Steve Harrigan foi confrontado por um manifestante zangado. Harrigan acabava de dizer ao microfone que a comunidade de Ferguson ali estava só fazendo “infantilidades” [porque], os “manifestantes dignos já se recolheram às suas casas antes de escurecer”. O vídeo é absolutamente magnífico. É magnífico:


Aqui, cinco razões pelas quais é magnífico:

1. O que está acontecendo em Ferguson, Missouri, não são “infantilidades”. Não são. Mas não são MESMO. Isso nem se precisa explicar. Um adolescente negro desarmado foi assassinado em plena rua. E esse jornalista dizia imbecilidades sobre pessoas que lá estavam, indignadas por ele ter sido assassinado em plena rua.

2. “Cale a boca, cara! Você é um filho da puta, cara. Pára com essa merda. Sai daí!” [“Estou na TV, man” / “Que TV?! Tô pouco ligando pressa merda.”] Você deveria saber que é um filho da puta, se se põe na rua a dizer coisas que só um filho da puta diz. Quando o manifestante confronta o jornalista, ele parece assustadíssimo ante a zanga do homem. Arregala os olhos, encolhe-se como criança que um adulto repreendeu por ter saído do cercadinho. Todo seu corpo broxa, murcha. Abaixa o microfone, afasta-o da boca, abaixa o microfone até a cintura, como se não entendesse de onde teria aparecido aquele homem, ou como se o homem estivesse falando alguma língua estrangeira. Não. Aquele homem fala inglês. Fala o inglês das ruas, forte e duro, como se a adrenalina lhe saísse também pela voz. Harrigan não entende nada. NADA. Nem reconhece as palavras. E lá fica, parado, de boca aberta, as mangas da camisa azul de colarinho enroladas, à frente, muito perto, a um passo de um homem que lhe pede que simplesmente compreenda de onde ele saiu e porque está ali.

3. “Vou-lhe dizer o que é real”. O que é real reconhece o que é real. É lei universal, científica ou sem ciência. É assim que é. Se você não me vê e não acredita em mim, é porque você não é real. Não há como explicar melhor. Olhem o rosto do homem, quando ele confronta a “imprensa”: tem o tronco tenso, como de um lutador no ringue, apenas constatando a presença intimidada de Harrigan. Ao mesmo tempo, a cabeça do homem está ligeiramente caída de lado, questionando, perguntando. “Quando alguém só mente e condena pessoas que nem conhece, em vez de mostrar o fato, contar a história, o público logo percebe a mentira”. Consumado mestre desse ofício, outro jornalista no estúdio, retoma o “pé”. Ainda ao vivo, falando do estúdio, o segundo jornalista: “Eis o que acontece quando a imprensa lança suas luzes brilhantes sobre as ruas”. PURA VERDADE. É exatamente o que acontece.

De fato, tem de continuar a acontecer. Tem de acontecer muitas vezes, outra vez, outra vez, de novo. E mais e mais.

4. Se você não vive isso, não tente fingir que sabe do que se trata. O que torna essa parte do vídeo ainda mais engraçada é a tentativa falhada da “imprensa”, de mostrar simpatia pelo calvário pelo qual passa aquele homem. “Estamos aqui. Viemos até aqui. Estamos tentando mostrar os fatos...” – diz Harrigan. Ah, é! Você faz televisão ao vivo, aí, do lado da estrada, bem longe de onde os protestos estão realmente acontecendo. Mas você acaba de chegar. No máximo, está aí há uma semana. Os moradores de Ferguson lidam com “os fatos” todos os dias. Aqui é vida real, cara.

5. A decisão e a firmeza das pessoas em Ferguson são mais fortes do que vocês pensam. Mais para o final do vídeo, um segundo manifestante segue Harrigan, que tenta ganhar novamente o controle da entrevista. No estúdio, Shep tenta parecer interessado na continuação da história. Harrigan não tem como fugir. Caminha, afastando-se do primeiro manifestante, e tenta resumir o que lhe parece que esteja acontecendo: “Deixe-me perguntar uma coisa: você está zangado porque o mandaram ficar na calçada e circular? Qual a fonte da sua zanga?” – Harrigan pergunta. A linguagem corporal do manifestante responde à pergunta. Vira-se de frente para a câmera, a camiseta-regata branca em destaque, cabeça levantada, como de um galo triunfante, para o céu, e sem parar de encarar a câmera (“Grupos diferentes? Com objetivos diferentes?!” – o manifestante pergunta, enquanto Harrigan vai falando). Mas ante a pergunta, o homem para, põe as mãos na cintura, o Meteor Man, e responde: “A fonte da minha zanga? Quer saber a fonte da minha zanga?” Pois lhe digo. “A fonte da minha zanga é ver meu povo – branco, ou preto, azul ou marron...”

E fala mesmo. O resto do vídeo não interessa. Ele bate no peito a cada sílaba, cada sílaba lhe bate no peito. Harrigan, que nada entende e não lê a linguagem corporal do homem faz-lhe mais uma pergunta: “O que você está disposto a fazer? Como consertar isso? O que você vai fazer?”

O manifestante dá um passo atrás, cruza as mãos às costas, feito Morfeu em Matrix. Endireita as costas, bem retas. E dá uma resposta que congela Harrigan: “O que vou fazer é permanecer aqui com o meu povo todas as noites [uma moça ao lado emenda: “Toda a noite”. O homem repete:] – toda a noite – sem travesseiro, sem cobertor. Com os como eu [outro homem ao lado dele, lhe aperta a mão], ou meus irmãos”.

Harrigan bate em retirada.



[*] Ian Blair é escritor e blogueiro do norte da Califórnia. Atualmente é candidato ao curso Máster na New York University's Journalism Institute na cadeira de  Cultural Reporting and Criticism na NYU.
Está no Twitter: @i2theb.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ferguson – Estão chegando os canhões

18/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guarda Nacional ataca Ferguson com bombas de gás lacrimogêneo (17/8/2014)
Então... Está começando?


O governador do Missouri disse na 2ª-feira (18/8/2014) que enviaria a Guarda Nacional para o subúrbio de Ferguson, no condado de St. Louis, para restaurar a calma, depois que autoridades dispersaram à força uma multidão que protestava contra os tiros, disparados pela Polícia, que vitimaram um adolescente desarmado.
...

No início da noite, no domingo, centenas de pessoas que protestavam em Ferguson, inclusive famílias com crianças pequenas, tiveram de correr em busca de segurança, quando policiais usando máscara contra gases e coletes à prova de balas dispararam granadas de gás lacrimogêneo para dispersar aquelas pessoas, horas antes do início do toque de recolher.

As bombas de gás foram disparadas sem qualquer provocação – disse Anthony Ellis, 45. – O protesto foi iniciado por crianças de bicicleta. E de repente, lá estavam eles, gritando “Vão para casa! Para casa!”.

A Patrulha Rodoviária do Missouri disse que os “agressores” tentaram invadir um posto de comando policial, e que só usaram veículos blindados para garantir a segurança pública.

Desculpe... Nós precisamos perguntar por Michael Brown Jr.
Segundo pesquisa de Billmon, a Guarda Nacional do Missouri tem alguns problemas de suprematismo/neonazismo. Interessante investigar o grau de diversidade desse corpo. Há ali alguns batalhões de Polícia Militar que têm vasta experiência de contato com “a negrada da areia” [orig. sandniggers] no Afeganistão e no Iraque.

A Guarda Nacional com certeza “avalia” que “o agressor” em Ferguson justifica mais essa escalada na guerra local.

Espera-se que outras cidades levantem-se e unam-se aos protestos de Ferguson, e que também protestem contra o que até conservadores  descrevem como emprego de força excessiva, militarizada e ultra-agressiva, agora também contra norte-americanos e dentro dos EUA


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

EUA: A economia do militarismo policial

15/8/2014, [*] Sarah StillmanThe New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militarização das Polícias Civis
Duas batalhas cruciais eclodiram em Ferguson, Missouri, essa semana. A primeira começou com a onda de tristeza e fúria popular, depois que um jovem de 18 anos, Michael Brown, foi morto por um policial em Canfield Court, no subúrbio de St. Louis, às 14h15, sábado passado (9/8/2014). Depois, começou a ação dos policiais nas primeiras rodadas de manifestações públicas. Os policiais saíram às ruas com uma frota de blindados, rifles de ataque, bombas de gás lacrimogêneo, o que reintroduziu na consciência coletiva a expressão “militarização da polícia civil” (como já se devia esperar; quem duvide, deve ler ou reler The Rise of the Warrior Cop [A ascensão do policial guerreiro], de Radley Balko.

Num momento, vê-se um jovem com uma marca de tiro de bala de borracha entre os olhos; momento seguinte, três policiais com armas enormes atiram contra outro homem negro, que tem as mãos erguidas.

Jelani Cobb
Na 5ª-feira (14/8/2014), Jelani Cobb publicou  potente relato  do que se via nas calçadas e lares, em Ferguson. Cobb perguntava sobre

(...) as questões econômicas e de aplicação da lei interconectadas naqueles protestos,  entre as quais, por exemplo, as custas processuais e multas que muita gente em Ferguson tem de pagar, e que com frequência começam por infrações menores até que se convertem “elas mesmas, em violações sempre crescentes.

Temos gente aqui que é procurada por causa de multas de trânsito, obrigada a viver praticamente como prisioneiro dentro da própria casaNão podem sair de casa, porque serão presos por causa daquelas dívidas. Em alguns casos, as pessoas até tinham empregos, mas decidiram que o risco de serem presos não compensava a tentativa de sair de casa para o trabalho, disse a Cobb, Malik Ahmed, presidente de uma organização chamada “Better Family Life” [Melhor Vida Familiar].

A crise das dívidas com a justiça criminal é um dos muitos afluentes que alimentaram o rio caudaloso da fúria profunda que tomou conta de Ferguson. Mas é afluente importante – tanto porque é problema que se vê em todos os cantos da região, como, também, porque é problema que facilmente desaparece de cena ante o espetáculo-gigante dos tanques e canhões giratórios. No início desse ano, passei seis meses acompanhando o crescimento do valor de custas e multas nos tribunais nos EUA, que acontece pela proliferação de taxas e multas aplicadas a quaisquer pequenas infrações – e que é parte de um movimento crescente na direção do que tenho chamado de “indústria da justiça custeada pelo infrator”. [1] Empresas privadas de cobrança são contratadas, em alguns estados, para cobrar multas não pagas. (Na maioria dos casos, é tática usada contra os mais pobres, que tenham multas de tráfego não quitadas). As reportagens que estão chegando de Ferguson levantam questões sobre como a militarização da polícia e a coerção econômica pelos órgãos da justiça, alimentaram fúria que, hoje, já é difícil de controlar.

O Missouri foi dos primeiros estados a permitir a ação de empresas privadas de cobrança, no final dos anos 1980s, e desde então seguiu a tendência nacional de permitir que custas processuais e multas cresçam muito rapidamente. Agora, em grande parte dos EUA, o que começa como simples multa por excesso de velocidade pode, se você não conseguir pagar, converter-se numa dívida impagável, que não para de crescer, aumentada, se você não comparecer ao tribunal, por taxas de busca e prisão. (Não raras vezes, o não pagamento acontece não só por falta de meios mas também porque o devedor já não vive no endereço para onde a notificação é enviada, e não a recebe).

Alec Karakatsanis
O que mais se vê nos EUA é gente empobrecida, rotineiramente mandada para a cadeia por custas, impostos, taxas ou multas que não conseguempagar – disse Alec Karakatsanis, cofundador de “Equal Justice Under Law”, organização sem finalidades lucrativas de defesa de direitos civis, que começou a denunciar essa prática em cortes municipais.

São multas que crescem como bola de neve quando as multas não pagas são entregues, para cobrança, a empresas privadas, porque essas empresas acrescentam suas próprias taxas “de supervisão”. O que acontece em muitos bairros pobres dos EUA, quando alguém atrasa seus pagamentos? Muito frequentemente, a polícia bate à porta e leva o devedor para a prisão.

Daí em diante, a bola de neve só cresce.

Ser preso tem impacto muito grave na vida de pessoas que já estão à beira da pobreza. Já perderam o emprego, já perderam a guarda dos filhos, estão atrasados no pagamento da hipoteca da própria casa. – diz Sara Zampieren, do Southern Poverty Law Center.

Tudo isso somado, o efeito é “devastador”. Enquanto permanecem na prisão, as “multas de usuários” só se acumulam. De tal modo que quando você sai da cadeia, nem por isso está livre. Recente pesquisa feita pela National Public Radio mostrou que pelo menos em 43 estados dos EUA os réus podem ser cobrados pelo trabalho do Defensor Público – um serviço ao qual todos os norte-americanos têm direito garantido pela Constituição; e em pelo menos 41 estados nos EUA, os prisioneiros podem ser cobrados por “casa e comida” durante o tempo que permaneçam em detenção e prisão.

Agora, as polícias militarizadas dos EUA têm ferramentas muito visíveis à disposição delas; várias dessas ferramentas estiveram nas manchetes essa semana: metralhadoras, óculos para visão noturna, veículos blindados e, ao que parece, quantidade ilimitada de munição.

Mas essa arma econômica da militarização policial é quase sempre muito menos visível, e a “justiça custeada pelo infrator” é parte desse subarsenal. Os medos dos quais Cobb e Ahmed falam – dívidas cobradas por tribunais e polícias, e gente que, por causa dessas dívidas tem medo de sair de dentro de casa – são ingredientes da força que se viu ativada nos protestos e tumultos das ruas do Missouri.

PRISÃO - por Casey Serin
O medo dos devedores altera toda a vida diária – será que conseguem ir à padaria ou levar uma criança à escola, sem serem presos?

Esse medo impede as pessoas que tenham problemas, de chamar a polícia, e tira da polícia a capacidade para fazer o que se espera que policiais façam – ajudar as pessoas nas comunidades a responder a emergências – disse Karakatsanis.

É situação que corrói a confiança das comunidades e mata qualquer possibilidade de cooperação entre os agentes da lei e a própria comunidade.

No Alabama, “Equal Justice Under Law” impetrou ação conjunta contra a cidade de Montgomery, em nome de pequenos infratores que foram encarcerados por dívida; a ação está suspensa, e a cidade refutou as acusações, mas, diz Karakatsanis, pelo menos 35 pessoas foram libertadas da prisão, onde estavam por dívidas, desde o início da ação. (Um juiz já emitiu sentença preliminar a favor dos devedores). Mais frequentemente porém, os devedores que levam o problema aos tribunais não obtêm qualquer tipo de resultado favorável. Muitas vezes, essas dificuldades só fazem aumentar o ressentimento dos cidadãos e a desconfiança geral em relação a qualquer autoridade “pública”.

Há muitos anos, quando estava integrada às tropas em Kandahar, Afeganistão, passei muitas horas com uma unidade cuja tarefa era aplicar um conjunto de treinamentos chamados “Commander’s Guide to Money as a Weapons System” [Diretivas do Comando sobre Dinheiro como Sistema de Armamento]. Esse treinamento instrui os soldados a usar ferramentas econômicas para promover objetivos militares, e havia um alerta impresso nas páginas iniciais de um dos manuais que eles usavam:

Soldados combatentes e seus comandos devem cuidar para que suas ações sejam defensáveis ante Comissões de Inquérito do Congresso e não gerem problemas para o Departamento de Defesa.

EUA - mais prisões que escolas
Quanto a isso, o militarismo “real” tem pelo menos uma vantagem sobre o militarismo policial doméstico, pelo menos no plano doutrinal – entre militares “reais” o princípio é investimento genuíno nas comunidades, cuja confiança os militares esperam conquistar, para influenciar. Não surpreende que seja “teoria” sempre complicada de aplicar (que muito frequentemente falhou horrivelmente), mas, pelo menos em teoria, é de longe muito melhor que policiais ou militares abrindo caminho à bala em áreas civis. Nos EUA, dentro de casa, as equipes SWAT continuam a detonar as proverbiais linhas de força.

É sinal de esperança que o novo comandante de polícia de Ferguson, Capitão Ron Johnson, da Patrulha Rodoviária Estadual do Missouri (criado em Ferguson), pareça ter imediatamente entendido essa questão, ao assumir o cargo na 5ª-feira (14/8/2014).

Todos queremos justiça. Todos queremos respostas – disse ele à Associated Press − é pessoalmente importante para mim conseguirmos romper esse ciclo de violência.

Ao considerar a militarização da polícia, o lado econômico do fenômeno deve também ser considerado. A conexão pode não ser óbvia para quem jamais teve cortado o fornecimento de gás ou de energia elétrica da própria casa. Mas essas forças operam juntas – o gás cortado e as multas não pagas; o armamento e as intimações para “pagamento imediato” – o que agride lista imensa de direitos fundamentais que parecem, como em Ferguson e em outros locais, já terem virado fumaça.


[*] Sarah Stillman é jornalista da equipe da revista The New Yorker e professora visitante no Arthur L. Carter Journalism Institute da New York University. Escreve sobre os mais diversos temas tais como: confisco civil sobre obras irregulares, uso de drones por cartéis de drogas do México, direitos trabalhistas para trabalhadores de Bangladesh.
Recebeu o National Magazine Award for Public Interest por suas reportagens no Iraque e no Afeganistão sobre abusos de trabalho e tráfico de seres humanos em bases militares dos Estados Unidos.
Recebeu também os prêmios (awards): Michael Kelly, o Overseas Press Club’s, o Laurie Dine para Direitos Humanos, Direitos de Informação e o Hillman Prize  da Magazine Journalism. Sua repotagem sobre o alto risco do uso de jovens como informantes confidenciais na guerra contra as drogas recebeu o George Polk Award e o Molly National Journalism Prize.
Antes de ingressar na The New Yorker, Stillman escreveu sobre as guerras dos EUA no exterior e os desafios enfrentados pelos soldados na volta para casa no Washington Post, The Nation, New RepublicSlate e The Atlantic. Seus trabalhos estão incluídos no The Best American Magazine Writing 2012.


Nota dos tradutores
[1] 24/6/2014, The Leonard Lopate Show (rádio) em Profiting from Offenders When They Get Out of Jail (excerto traduzido) a seguir:

Alguns comparam o sistema de hoje à “justiça custeada pelo infrator” do tempo da prisão por dívidas do século XIX. Falei com vários advogados que disseram que se o contexto fosse um pouco diferente – se fossem empresas de cartões de crédito que estivessem perseguindo os devedores – com certeza estaríamos num quadro de prisão por dívidas e absolutamente inconstitucional. Mas o que temos é que são os próprios tribunais que obram para extrair cada vez mais dinheiro dos condenados. Assim, a prática conseguiu prosperar.