Mostrando postagens com marcador The New Yorker. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The New Yorker. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

EUA: A economia do militarismo policial

15/8/2014, [*] Sarah StillmanThe New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militarização das Polícias Civis
Duas batalhas cruciais eclodiram em Ferguson, Missouri, essa semana. A primeira começou com a onda de tristeza e fúria popular, depois que um jovem de 18 anos, Michael Brown, foi morto por um policial em Canfield Court, no subúrbio de St. Louis, às 14h15, sábado passado (9/8/2014). Depois, começou a ação dos policiais nas primeiras rodadas de manifestações públicas. Os policiais saíram às ruas com uma frota de blindados, rifles de ataque, bombas de gás lacrimogêneo, o que reintroduziu na consciência coletiva a expressão “militarização da polícia civil” (como já se devia esperar; quem duvide, deve ler ou reler The Rise of the Warrior Cop [A ascensão do policial guerreiro], de Radley Balko.

Num momento, vê-se um jovem com uma marca de tiro de bala de borracha entre os olhos; momento seguinte, três policiais com armas enormes atiram contra outro homem negro, que tem as mãos erguidas.

Jelani Cobb
Na 5ª-feira (14/8/2014), Jelani Cobb publicou  potente relato  do que se via nas calçadas e lares, em Ferguson. Cobb perguntava sobre

(...) as questões econômicas e de aplicação da lei interconectadas naqueles protestos,  entre as quais, por exemplo, as custas processuais e multas que muita gente em Ferguson tem de pagar, e que com frequência começam por infrações menores até que se convertem “elas mesmas, em violações sempre crescentes.

Temos gente aqui que é procurada por causa de multas de trânsito, obrigada a viver praticamente como prisioneiro dentro da própria casaNão podem sair de casa, porque serão presos por causa daquelas dívidas. Em alguns casos, as pessoas até tinham empregos, mas decidiram que o risco de serem presos não compensava a tentativa de sair de casa para o trabalho, disse a Cobb, Malik Ahmed, presidente de uma organização chamada “Better Family Life” [Melhor Vida Familiar].

A crise das dívidas com a justiça criminal é um dos muitos afluentes que alimentaram o rio caudaloso da fúria profunda que tomou conta de Ferguson. Mas é afluente importante – tanto porque é problema que se vê em todos os cantos da região, como, também, porque é problema que facilmente desaparece de cena ante o espetáculo-gigante dos tanques e canhões giratórios. No início desse ano, passei seis meses acompanhando o crescimento do valor de custas e multas nos tribunais nos EUA, que acontece pela proliferação de taxas e multas aplicadas a quaisquer pequenas infrações – e que é parte de um movimento crescente na direção do que tenho chamado de “indústria da justiça custeada pelo infrator”. [1] Empresas privadas de cobrança são contratadas, em alguns estados, para cobrar multas não pagas. (Na maioria dos casos, é tática usada contra os mais pobres, que tenham multas de tráfego não quitadas). As reportagens que estão chegando de Ferguson levantam questões sobre como a militarização da polícia e a coerção econômica pelos órgãos da justiça, alimentaram fúria que, hoje, já é difícil de controlar.

O Missouri foi dos primeiros estados a permitir a ação de empresas privadas de cobrança, no final dos anos 1980s, e desde então seguiu a tendência nacional de permitir que custas processuais e multas cresçam muito rapidamente. Agora, em grande parte dos EUA, o que começa como simples multa por excesso de velocidade pode, se você não conseguir pagar, converter-se numa dívida impagável, que não para de crescer, aumentada, se você não comparecer ao tribunal, por taxas de busca e prisão. (Não raras vezes, o não pagamento acontece não só por falta de meios mas também porque o devedor já não vive no endereço para onde a notificação é enviada, e não a recebe).

Alec Karakatsanis
O que mais se vê nos EUA é gente empobrecida, rotineiramente mandada para a cadeia por custas, impostos, taxas ou multas que não conseguempagar – disse Alec Karakatsanis, cofundador de “Equal Justice Under Law”, organização sem finalidades lucrativas de defesa de direitos civis, que começou a denunciar essa prática em cortes municipais.

São multas que crescem como bola de neve quando as multas não pagas são entregues, para cobrança, a empresas privadas, porque essas empresas acrescentam suas próprias taxas “de supervisão”. O que acontece em muitos bairros pobres dos EUA, quando alguém atrasa seus pagamentos? Muito frequentemente, a polícia bate à porta e leva o devedor para a prisão.

Daí em diante, a bola de neve só cresce.

Ser preso tem impacto muito grave na vida de pessoas que já estão à beira da pobreza. Já perderam o emprego, já perderam a guarda dos filhos, estão atrasados no pagamento da hipoteca da própria casa. – diz Sara Zampieren, do Southern Poverty Law Center.

Tudo isso somado, o efeito é “devastador”. Enquanto permanecem na prisão, as “multas de usuários” só se acumulam. De tal modo que quando você sai da cadeia, nem por isso está livre. Recente pesquisa feita pela National Public Radio mostrou que pelo menos em 43 estados dos EUA os réus podem ser cobrados pelo trabalho do Defensor Público – um serviço ao qual todos os norte-americanos têm direito garantido pela Constituição; e em pelo menos 41 estados nos EUA, os prisioneiros podem ser cobrados por “casa e comida” durante o tempo que permaneçam em detenção e prisão.

Agora, as polícias militarizadas dos EUA têm ferramentas muito visíveis à disposição delas; várias dessas ferramentas estiveram nas manchetes essa semana: metralhadoras, óculos para visão noturna, veículos blindados e, ao que parece, quantidade ilimitada de munição.

Mas essa arma econômica da militarização policial é quase sempre muito menos visível, e a “justiça custeada pelo infrator” é parte desse subarsenal. Os medos dos quais Cobb e Ahmed falam – dívidas cobradas por tribunais e polícias, e gente que, por causa dessas dívidas tem medo de sair de dentro de casa – são ingredientes da força que se viu ativada nos protestos e tumultos das ruas do Missouri.

PRISÃO - por Casey Serin
O medo dos devedores altera toda a vida diária – será que conseguem ir à padaria ou levar uma criança à escola, sem serem presos?

Esse medo impede as pessoas que tenham problemas, de chamar a polícia, e tira da polícia a capacidade para fazer o que se espera que policiais façam – ajudar as pessoas nas comunidades a responder a emergências – disse Karakatsanis.

É situação que corrói a confiança das comunidades e mata qualquer possibilidade de cooperação entre os agentes da lei e a própria comunidade.

No Alabama, “Equal Justice Under Law” impetrou ação conjunta contra a cidade de Montgomery, em nome de pequenos infratores que foram encarcerados por dívida; a ação está suspensa, e a cidade refutou as acusações, mas, diz Karakatsanis, pelo menos 35 pessoas foram libertadas da prisão, onde estavam por dívidas, desde o início da ação. (Um juiz já emitiu sentença preliminar a favor dos devedores). Mais frequentemente porém, os devedores que levam o problema aos tribunais não obtêm qualquer tipo de resultado favorável. Muitas vezes, essas dificuldades só fazem aumentar o ressentimento dos cidadãos e a desconfiança geral em relação a qualquer autoridade “pública”.

Há muitos anos, quando estava integrada às tropas em Kandahar, Afeganistão, passei muitas horas com uma unidade cuja tarefa era aplicar um conjunto de treinamentos chamados “Commander’s Guide to Money as a Weapons System” [Diretivas do Comando sobre Dinheiro como Sistema de Armamento]. Esse treinamento instrui os soldados a usar ferramentas econômicas para promover objetivos militares, e havia um alerta impresso nas páginas iniciais de um dos manuais que eles usavam:

Soldados combatentes e seus comandos devem cuidar para que suas ações sejam defensáveis ante Comissões de Inquérito do Congresso e não gerem problemas para o Departamento de Defesa.

EUA - mais prisões que escolas
Quanto a isso, o militarismo “real” tem pelo menos uma vantagem sobre o militarismo policial doméstico, pelo menos no plano doutrinal – entre militares “reais” o princípio é investimento genuíno nas comunidades, cuja confiança os militares esperam conquistar, para influenciar. Não surpreende que seja “teoria” sempre complicada de aplicar (que muito frequentemente falhou horrivelmente), mas, pelo menos em teoria, é de longe muito melhor que policiais ou militares abrindo caminho à bala em áreas civis. Nos EUA, dentro de casa, as equipes SWAT continuam a detonar as proverbiais linhas de força.

É sinal de esperança que o novo comandante de polícia de Ferguson, Capitão Ron Johnson, da Patrulha Rodoviária Estadual do Missouri (criado em Ferguson), pareça ter imediatamente entendido essa questão, ao assumir o cargo na 5ª-feira (14/8/2014).

Todos queremos justiça. Todos queremos respostas – disse ele à Associated Press − é pessoalmente importante para mim conseguirmos romper esse ciclo de violência.

Ao considerar a militarização da polícia, o lado econômico do fenômeno deve também ser considerado. A conexão pode não ser óbvia para quem jamais teve cortado o fornecimento de gás ou de energia elétrica da própria casa. Mas essas forças operam juntas – o gás cortado e as multas não pagas; o armamento e as intimações para “pagamento imediato” – o que agride lista imensa de direitos fundamentais que parecem, como em Ferguson e em outros locais, já terem virado fumaça.


[*] Sarah Stillman é jornalista da equipe da revista The New Yorker e professora visitante no Arthur L. Carter Journalism Institute da New York University. Escreve sobre os mais diversos temas tais como: confisco civil sobre obras irregulares, uso de drones por cartéis de drogas do México, direitos trabalhistas para trabalhadores de Bangladesh.
Recebeu o National Magazine Award for Public Interest por suas reportagens no Iraque e no Afeganistão sobre abusos de trabalho e tráfico de seres humanos em bases militares dos Estados Unidos.
Recebeu também os prêmios (awards): Michael Kelly, o Overseas Press Club’s, o Laurie Dine para Direitos Humanos, Direitos de Informação e o Hillman Prize  da Magazine Journalism. Sua repotagem sobre o alto risco do uso de jovens como informantes confidenciais na guerra contra as drogas recebeu o George Polk Award e o Molly National Journalism Prize.
Antes de ingressar na The New Yorker, Stillman escreveu sobre as guerras dos EUA no exterior e os desafios enfrentados pelos soldados na volta para casa no Washington Post, The Nation, New RepublicSlate e The Atlantic. Seus trabalhos estão incluídos no The Best American Magazine Writing 2012.


Nota dos tradutores
[1] 24/6/2014, The Leonard Lopate Show (rádio) em Profiting from Offenders When They Get Out of Jail (excerto traduzido) a seguir:

Alguns comparam o sistema de hoje à “justiça custeada pelo infrator” do tempo da prisão por dívidas do século XIX. Falei com vários advogados que disseram que se o contexto fosse um pouco diferente – se fossem empresas de cartões de crédito que estivessem perseguindo os devedores – com certeza estaríamos num quadro de prisão por dívidas e absolutamente inconstitucional. Mas o que temos é que são os próprios tribunais que obram para extrair cada vez mais dinheiro dos condenados. Assim, a prática conseguiu prosperar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Petróleo e Erbil

10/8/2014, [*] Steve CollThe New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Erbil - parte nova da cidade
Defender Erbil [1]: essa foi a principal causa que levou o presidente Obama de volta à guerra no Iraque semana passada, dois anos e meio depois de cumprir promessa de campanha e retirar de lá os últimos soldados.

Depois de Mazar-i-Sharif, Nasiriyah, Kandahar, Mosul, Benghazi, e incontáveis outros pontos de intervenção militar dos EUA – cidades cujos nomes derrotariam todos os candidatos de programas de “adivinhe onde fica” antes de 2001 – chegamos agora a Erbil. Pode-se bem perdoar o isolacionista: “Chegamos... onde?!”.

Erbil tem longa história, mas, em termos de política econômica, entende-se melhor a cidade hoje como uma espécie de “Deadwood” curda, como no seriado de David Milch para a HBO, sobre uma cidade da corrida do ouro, cujo anti-herói, Al Swearengen, convence um governo local a inventar por ali um verniz de governo e normalidade, porque interessa aos negócios dele.

Erbil é cidade da corrida do petróleo, onde os poderes locais manobram similarmente seus ambíguos poderes para garantir ganhos financeiros – deles mesmos e de qualquer pioneiro selvagem esperto o bastante para conseguir investir dinheiro sem ser imediatamente roubado.

Erbil é a capital do Governo Regional Curdo & Petróleo, no norte do Iraque. Ali os EUA construíram alianças políticas e armaram milícias peshmerga curdas muito antes de o governo Bush invadir o Iraque em 2003. Desde 2003, tem sido o local mais estável de um país instável. Mas semana passada, guerrilheiros muito bem armados, leais ao Estado Islâmico no Iraque e Levante, ISIL, ameaçaram os arredores de Erbil, o que forçou a espetaculosa ação de Obama. (O presidente também ordenou operações aéreas para entregar ajuda humanitária a dezenas de milhares de yazidis e outras minorias não muçulmanas cercadas no remoto Monte Sinjar. Um Curdistão seguro garantiria santuário para esses sobreviventes).

Estado Islâmico na conquista do Iraque e Síria
“A região curda é funcional do modo como gostaríamos de ver” – Obama explicou em fascinante entrevista que deu a Thomas Friedman, publicada na 6a-feira (8/8/2014). “É tolerante com outras seitas e outras religiões, como gostaríamos de ver em outros pontos. Por isso achamos importante assegurar que esse espaço esteja protegido”. Dito assim, até parece verdade, e até certo ponto é convincente.

O Curdistão é, sim, um dos já raros aliados confiáveis dos EUA no Oriente Médio, nesses tempos. A economia conheceu um boom em anos recentes, atraindo investidores de todo o mundo, o que fez erguer-se ali um fulgurante novo aeroporto internacional com as mais modernas e também fulgurantes facilidades e serviços. Claro, comparado à, digamos, Jordânia ou Emirados Árabes Unidos, o Curdistão tem um déficit terrível, na condição de aliado dos EUA: o Curdistão não é estado. Nem tem nada a ver com fabricar a unidade nacional do Iraque, que continua a ser o principal projeto do governo Obama no Iraque. Vistas as coisas por esse ângulo, a explicação que Obama ofereceu para seu casus bellipareceu um pouco incompleta.

Conselheiros de Obama explicaram aos jornalistas que Erbil abriga um consulado dos EUA e que “milhares” de norte-americanos vivem lá. A cidade tem de ser defendida, dizem eles, contra o risco de o ISIL passar por lá, destruir tudo e ameaçar vidas de norte-americanos. Tudo muito bem, mas... O que fazem lá, em Erbil, os tais milhares de norte-americanos? Em busca de ar puro é que não estão.

ExxonMobil e Chevron estão entre as muitas empresas de petróleo e gás com contratos grandes e pequenos para perfurar no Curdistão, contratos cujos números compensam as empresas pelo risco político sempre alto. (Chevron disse, semana passada, que estava retirando alguns expatriados do Curdistão; ExxonMobil não quis comentar). Com essas gigantes do petróleo chegaram, como sempre os de sempre: empresas de serviço nos campos de petróleo, contadores, empresas de construção, de transporte e, no fundo do poço da cadeia econômica, diversos empreendedores cavando espaço.

Percorrer com os olhos a lista telefônica da Câmara de Comércio de Erbil é uma experiência poética, só dos nomes dos empreendimentos: Cozinha dos Sonhos, Sonho Vivo, Ouro Puro, Gala Eventos, Emoções Eventos e o endereço onde eu pensaria em fazer minha última refeição, se colhido no torvelinho de um massacre do ISIL, “Famous Cheeses Teak”.

Nada tem a ver com petróleo. Depois que você tiver escrito essa frase 500 vezes na lousa, até aprender, assista ao documentário Why We Did It [Porque nós fizemos aquilo] de Rachel Maddow, para conhecer visão altamente sofisticada, embora agudamente jornalística, e entender de uma vez por todas que a economia mundial do petróleo sempre lá esteve, desde o início, como parceira silenciosa do fiasco dos EUA no Iraque.

Erbil - localização geográfica
Claro que é dever do presidente Obama defender vidas e interesses dos EUA, em Erbil e onde for, com petróleo ou sem. Mas o caso é que, em vez de ordenar a imediata evacuação dos cidadãos, ele ordenou campanha de ataques aéreos que durarão meses, para defender ostatus quo do Curdistão, em campo – presumivelmente, seria essencial para um Iraque unificado capaz de isolar o ISIL. Mas o status quo no Curdistão inclui produção de petróleo por empresas internacionais, como seria honesto declarar. OK. A defesa do Curdistão que Obama ordenou deve funcionar, se a peshmerga curda puder ser novamente recolhida, reunida e fortalecida em campo, depois de uma alarmante retirada, semana passada.

Mas há buracos na lógica de Obama sobre Erbil. O presidente disse claramente, semana passada, que ainda acredita que um governo duradouro de unidade nacional – que inclua líderes sérios da maioria xiita do Iraque, curdos e sunitas que se opõem ao ISIL – possa ser formado em Bagdá, ainda que exija mais semanas, além dos três meses de dificuldades que já se passaram desde a mais recente eleição parlamentar no país.

O projeto de um governo unificado em Bagdá, forte o bastante para derrotar o ISIL com um exército nacionalista e na sequência extrair dele os seguidores dos sunitas parece cada vez mais ideia delirante; era difícil, na entrevista a Friedman, entender de que lado Obama realmente está.

Por que tem sido tão difícil construir qualquer tipo de unidade política em Bagdá e há tanto tempo? Há muitas importantes razões – a desastrosa decisão dos EUA de desmobilizar o Exército Iraquiano, em 2003, e de apoiar a furiosa des-Baathificação, que afastou os sunitas, distanciamento que ainda não foi corrigido; ódio sectário crescente entre xiitas e sunitas; o envolvimento de sunitas com a filosofia da Al-Qaeda e com o dinheiro e “soft Power” do Golfo Persa; a interferência do Irã; as dificuldades das fronteiras pós-coloniais do Iraque; o mau governo em Bagdá, particularmente sob o primeiro-ministro, Nouri al-Maliki. Mas outra razão, e de primeira ordem, é que os EUA cobiçam o petróleo dos curdos.

Vista aérea da parte mais antiga de Erbil
Durante o governo Bush, aventuras como a da empresa Hunt Oil, que tem sede em Dallas, pavimentaram o caminho para a ExxonMobil, que acertou um negócio em Erbil em 2011. Bush e seus conselheiros não conseguiram forçar empresas norte-americanas de petróleo, como a Hunt, a sair do Curdistão nem a sancionar investidores não norte-americanos. Deixaram os gatos selvagens agir como bem entendessem, sempre insistindo que os políticos de Erbil negociassem uma partilha de lucros do petróleo e a unidade política, com Bagdá. O governo de Erbil nunca entendeu exatamente a necessidade de um compromisso final com políticos xiitas de Bagdá – e com os curdos ficando cada vez mais ricos, nos seus próprios termos, eles passaram a atrair empresas de petróleo mais confiáveis e mais ricas; assim, cada vez mais se foi criando a impressão de que aquele governo governava um estado de-facto. O governo Obama nada fez para reverter essa tendência.

Assim também, em Erbil, nas semanas vindouras, pilotos norte-americanos defenderão por ar a capital cuja crescente independência e crescente riqueza já afrouxaram os laços com o Iraque, ao mesmo tempo em que, em Bagdá, diplomatas dos EUA ainda insistem quixotescamente no esforço para alinhavar juntos todos os pedaços do mesmo país, para enfrentar o ISIL.

Obama a defender Erbil defende, de fato, um estado-petróleo curdo não declarado. Sobre as fontes de sedução geopolítica desse estado – como fornecedor não russo, de longo prazo, de gás para a Europa, por exemplo – melhor não falar, se houver crianças ou gente civilizada na sala, como Al Swearengen, do seriado Deadwood, entenderia. A vida – como disse Swearengen num episódio – é quase sempre feita de “um serviço sujo depois do outro”. É como a política dos EUA no Iraque.


[*] Steve Coll é autor associado da The New Yorker e deão da Graduate School of Journalism at Columbia University; escreve sobre assuntos de Inteligência e  Segurança Nacional dos Estados Unidos e seus interesses no exterior.


Nota da redecastorphoto

[1] Erbil (em português Arbil) ou Arbil/Hewlêr (como em latim curdo; também escrito Erbil, ou Irbil) (em acadiano: Arba-ilu; árabe: اربيل Arbīl; curdo: ههولیر Hewlêr; suméria: Urbilum; siríaco-aramaico; turco: Erbil) é a quarta maior cidade do Iraque depois de Bagdá, Basra e Mosul. A cidade está localizada a 80 km a leste de Mosul, e é a capital do Curdistão iraquiano.
A vida urbana em Arbil pode ser datada para, pelo menos, 6.000 a.C., e é uma das mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo. No coração da cidade está a antiga Cidadela de Arbil. Os hurritas foram os primeiros a estabelecer Urbilum e expandir seus domínios ao restante do norte da Mesopotâmia. Depois, a cidade esteve sob o domínio de muitas potências regionais desde aquele tempo, incluindo os assírios, babilônios, persas, gregos, árabes e otomanos. O museu arqueológico da cidade abriga uma grande coleção de artefatos pré-islâmicos, e é um centro para projetos arqueológicos na área.

sábado, 20 de abril de 2013

Os suspeitos (Os culpados)


David Remnick, New Yorker, ed. 29/4/2013
Traduzido (só o que interessa) e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

David Remnick
Entreouvido na Vila Vudu: Esse artigo não é nenhuma maravilha. Longe disso. Começamos por ter de corrigir o título. E decidimos excluir as manifestações nada jornalísticas de simpatia “por Boston”, que não interessam e distorcem todas as avaliações, a começar pelo que diz o presidente Obama; não interessam a ninguém, como informação – que não são: são puro opinionismo falso-jornalístico – e ajudam a criar o clima ideológico necessário para justificar todas as práticas policiais, por mais violentas e menos democráticas que sejam.

Além disso, o artigo é carregado de “interpretações” gratuitas, sem qualquer fundamento – como a “conclusão” de que, “porque” alguém assiste a determinados vídeos ou escreve coisas pelo Twitter, estaria “provada” alguma culpa.

Mas, dado que até quando é tão ruim e manipulatório quanto qualquer jornalismo (The New Yorker é uma espécie de revista (não)Veja, mas dirigida a público menos analfabeto); o jornalismo norte-americano ainda assim é melhor que o jornalismo brasileiro – que é o pior do mundo –, decidimos traduzir.

Aproveitam-se daí, pelo menos, algumas linhas objetivas sobre os dois acusados.

Evidentemente não são, ainda, culpados de coisa alguma. E até que sejam julgados e condenados, são, evidentemente, inocentes – embora um já tenha sido morto e o outro, no hospital, só tenha, de futuro, a tortura, como todos já sabem, mas o “jornalismo” de The New Yorker não informa.

Tamerlan e Dzhokar Tsarnaev
Durante a 2ª Guerra Mundial, Joseph Stálin declarou que o povo da Chechênia  seria desleal à URSS e expulsou os chechenos de sua terra original, no norte do Cáucaso, para a Ásia Central e o fundo da Sibéria. Dezenas de milhares de chechenos, com membros de outros grupos étnicos menores do Cáucaso e da Península da Criméia, morreram durante a operação de deportação em massa ou logo depois – muitos de frio, muitos de fome.

A família Tsarnaev acabou por se instalar numa cidade chamada Tokmok, no Quirguistão, não distante da capital Bishkek. Muitos dos que sobreviveram aos 13 anos seguintes de exílio foram afinal autorizados a voltar para casa, no final dos anos 1950s, no governo de Nikita Khrushchev, e reconstituíram um senso de pertencimento e de identidade. Alguns continuaram expatriados. Os chechenos falam russo com sotaque típico; e praticamente todos mantém o próprio idioma, noxchiin mott. A região do Cáucaso é extremamente multicultural, mas a religião predominante no norte é o Islã. O espírito nacional checheno aparece sempre, invariavelmente definido como “furiosamente independente”.

Localização da Chechênia
No colapso da União Soviética em 1991, rebeldes nacionalistas lutaram duas guerras terríveis contra o Exército Russo pela independência da Chechênia. No fim, os grupos rebeldes foram ou dizimados ou passaram para o lado dos russos. Mas a rebelião persiste, na Chechênia e em regiões vizinhas – Daguestão e Inguchétia – e agora já tem caráter fundamentalista. A palavra-de-ordem é “jihad global”. As táticas são sequestros, assassinatos, bombas.

Anzor Tsarnaev, checheno por etnia, que viveu grande parte da vida no Quirguistão, emigrou há uma década para a área de Boston com a esposa, duas filhas e dois filhos. Apesar da artrite nos dedos, ganhou a vida como mecânico de automóveis. Membros da família assistiam aos serviços religiosos, apenas ocasionalmente, numa mesquita da rua Prospect em Cambridge, mas nada jamais houve de fundamentalista no modo de viver ou conviver da família.

O filho mais velho de Anzor, Tamerlan, jamais deu a impressão de ter-se conectado plenamente com a vida nos EUA. “Não tenho nenhum amigo norte-americano”, contou a um fotógrafo, Johannes Hirn, que fotografava Tamerlan num treino de boxe. “Não compreendo os norte-americanos”. Frequentou aulas no Bunker Hill Community College, na turma preparatória para Engenharia. Descreveu-se como “muito religioso”; não bebia nem fumava. 26 anos e 90 quilos, boxeava regularmente no centro Wai Kru de artes marciais. Adorou “Borat” (apesar de algumas piadas, que são “um pouco demais”). Teve uma filha, mas nenhuma família estável. Foi preso, há três anos, por agressão doméstica. (“Nos EUA, não se pode nem encostar numa mulher” – Tamerlan disse ao Times).

David Bernstein, matemático aposentado, natural de Moscou, que emigrou há 33 anos, disse que conhecia a família, porque costumava levar o carro regularmente à oficina de Anzor. Observou que Tamerlan trabalhava às vezes na oficina, mas que não parecia satisfeito. “Conversei conversas à toa com Tamerlan” – Bernstein recordou:

Perguntei-lhe se sabia o significado de seu nome, “o grande guerreiro”. Ele falava às vezes de política e religião. Disse-lhe que, em certo sentido, todo mundo é religioso; ele me disse que eu deveria me converter à religião muçulmana. Respondi que “cada um inventa a própria religião” e encerrei a discussão.

Quando Bernstein soube que seu conhecido estava sendo considerado acusado por um ato de terrorismo na linha de chegada da Maratona de Boston, ficou zonzo. “Senti-me como um Forrest Gump”, disse ele. “De repente, ele fica famoso por causa desse ato, e eu, lá, tantas vezes conversando com ele. Mas quem poderá dizer que realmente o conhecia?”.

Dzhokhar, 19 anos, concluiu o ginásio na Cambridge Rindge and Latin School, onde era localmente famoso como lutador de luta livre, descrito como ágil, rápido e um pouco tímido. Ganhou uma bolsa de estudos da cidade de Cambridge. Trabalhou durante alguns anos como salva-vidas numa das piscinas do campus, em Harvard. Outro salva-vidas, seu colega, lembra dele como rapaz “agradável”, com “bom senso de humor”. Colegas de ginásio também recordam Dzhokhar com prazer. “Era bom sujeito” – disse Ashraful Rahman. “Nunca senti nele qualquer vibração ruim. Não era estudante-gênio, mas era esperto. Nos encontramos algumas vezes na mesquita em Cambridge. Dzhokhar ia mais à mesquita que eu, mas não era devoto absoluto. Penso no que aconteceu e me pergunto se teria sido obrigado a fazer o que fez. Terá sofrido lavagem cerebral? Nada, aí, parece ter a ver com ele. Mas não se pode esquecer que “estava na erva”. Fumava muito. Marijuana. E esse pessoal é calmo, mesmo, sempre devagar”.

Essah Chisholm, colega de luta livre, disse também que “ele era bom sujeito”. Mas quando Chisholm e alguns amigos viram fotos dos irmãos Tsarnaev pela televisão, na 5ª-feira à noite, ligaram para o número criado pelo FBI para receber informações. Na mesma noite, mais tarde, começou o confronto armado – tiroteiro, caçada furiosa, bombas. “Não dá p’ra entender” – disse Chisholm na 6ª-feira à tarde. “Cada vez que vejo o nome dele na televisão, é sempre inacreditável. Ler o nome de Dzhokhar, ver fotografias. Acho que tem a ver com o irmão mais velho. A menos que ele fosse alguma espécie de agente à espera. Acho que o irmão teve forte influência. Tamerlan talvez se sentisse excluído, diferente, e pode ter feito lavagem cerebral em Dzhokhar, para convencê-lo de ideias radicais, que distorcem o que diz o Corão.” (...)

Feiz Muhammad
Mas a impressão de alheamento – “Parecia bom sujeito” – começa a desaparecer, à medida que nos aproximamos dos irmãos Tsarnaev. O canal Youtube de Tamerlan exibe vários vídeos de apoio ao fundamentalismo e à jihad violenta, dentre os quais uma fala de Feiz Muhammad, clérigo australiano e ex-boxeador que vive na Malásia; num dos vídeos, o clérigo critica o “paganismo” pervertido dos filmes de Harry Potter. Noutro, vê-se uma dramatização da profecia do Armageddon dos Bandeiras Negras de Khurasan, poderosíssima força militar islamista que se levantará na Ásia Central para derrotar os infiéis; é uma das principais profecias marciais-religiosas de que se alimenta a Al-Qaeda.

A conta de Dzhokhar na (empresa) Twitter (@J_tsar) é estranha combinação de banalidade e desesperança. (Ele parece ter continuado a tuitar mesmo depois das explosões da 2ª-feira passada). Se se lê o que escrevia, descobre-se um pouco do que pensa: suas piadas, seus ressentimentos, seus preconceitos, sua fé, os desejos.

14/3/2012: “uma década já nos EUA, quero cair fora”

16/8/2012: “A vida humana não vale nada hoje em dia É #tragic”

22/8/2012: “Sou o melhor jogador de beer pong em Cambridge. Eu sou #verdade”. Vídeo a seguir:

1/9/2012: “não sei por que tão difícil para tantos de vocês aceitar que 11/9 foi serviço interno. Quero dizer, fodam-se os fatos, vcs são mesmo #patriots #gethip [abram o olho]”

24/12/2012: “Irmãos na mesquita pensam que sou convertido, ou da Argélia ou Síria Outro dia me perguntaram como cheguei ao Islã”

15/1/2013: “Não discuto com idiotas q dizem que Islã é terrorismo e não vale nada. Idiotas, continuem idiotas”

13/3/2013: “Não tente espetar o garfo num minitomate, se estiver de camisa branca: ele explodirá”.

10/4/2013: “Ganhe conhecimento, ganhe mulheres, arranje dinheiro #livestrong” 
 
15/4/2013: “Não há amor no coração da cidade Se cuidem, pessoal”.

15/4/2013: “Tem gente que sabe a verdade mas cala & tem gente que diz a verdade mas ninguém ouve porque são a minoria”.

16/4/2013: “Sou do tipo que não estressa”. 


Gregory Shvedov
Gregory Shvedov, editor de uma página Web com base em Moscou, “Caucasian Knot” [Nó caucasiano], visita regularmente o Cáucaso e estuda o movimento jihadista, o governo russo e sua ação militar na região. Não manifestou qualquer surpresa ante a notícia de que dois chechenos étnicos, criados há longo tempo nos EUA, mas ainda profundamente ligados ao país de origem, possam ter praticado um ato “tipo bomba soft”, como o da Maratona. “Hoje há redes sociais, e as pessoas as usam para tomar decisões” – disse ele, de Moscou. “Não me surpreenderia que tivessem outra vida, nas mídias sociais. Que vídeos veem? O que leem e o que veem por YouTubes, sobre jihad?”.

Mas se Tamerlan fez o que é suspeito de ter feito, pode não ter sido educado, ou instruído, exclusivamente por meios digitais. Dia 12/2/2012, viajou de New York para Moscou, alvo regular da ira dos chechenos. Só retornou sete meses depois. (...)

Já no final do dia de ontem, era impossível não sentir alguma simpatia também pelos pais dos acusados, nenhum dos quais aceita sequer a possibilidade de que seus filhos sejam culpados. Entrevistados no apartamento onde vivem em Makhachkala, capital do Daguestão, falaram de “armação” urdida pelo FBI. A mãe, Zubeidat Tsarnaeva, disse à rede de televisão Russia Today: -Meu filho me telefonava todos os dias e perguntava “Como está, mamãe?” Os dois telefonavam. “Mamãe, amo você”. Meu filho não tinha segredos”. O pai falou de Dzhokhar como “um anjo”.

No final da 6ª-feira, já manhã de sábado no Daguestão, o destino dos dois filhos do casal mudara completamente: um estava morto; o outro, ferido, hospitalizado e preso.

A família Tsarnaev já sofreu o peso da história antes – a fúria do império, a dor do deslocamento, por exílio e emigração. O asilo numa nova terra promissora pouco ajudou. Quando o pai, Anzor, sentiu-se doente, há alguns anos, decidiu retornar ao Cáucaso: era impensável, para ele, morrer nos EUA. Atravessara meio mundo, para bem longe da terra dos antepassados, mas algo o arrastou de volta ao Cáucaso. O sonho americano não é igual para todos. Mas nunca poderia prever o destino terrível que teriam seus dois filhos, destruídos pelo terror. A era digital não garante asilo a nenhum extremismo, muito menos à combinação tóxica de fanatismo religioso e doloridas decepções de homens fortes e jovens. Uma década já nos EUA, quero cair fora.