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sábado, 18 de abril de 2015

Pepe Escobar – Rússia, China, Irã: sincronia

16/4/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today - RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


MRE do Irã, Javad Zarif e o MRE da Rússia, Sergey Lavrov em Moscou
O mito pré-fabricado de uma “bomba iraniana” impalpável jamais foi, ao longo de décadas, o problema real entre EUA e Irã; o problema aí sempre foi como submeter – ou “isolar” – uma nação poderosa e independente que se recusou a curvar-se ao mando excepcionalista.

Mas nem agora, quando a “reabilitação” do Irã – pelo menos para alguns excepcionalistas e seus criados – pode estar iminente, dependendo só de um acordo nuclear a ser sacramentado em junho, nem agora as várias facções em Washington conseguem agir coordenadamente.

O Pentágono só faz admitir que o sonho molhado perene de neoconservadores e da empresa-mídia continua sobre a mesa: a opção militar.

O Congresso dos EUA não poupa armas nem golpes para tentar fazer gorar o acordo. A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou por unanimidade um projeto de lei que pode dar ao Congresso o direito de intervir em qualquer coisa relacionada ao fim das sanções.

O Ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif enfrenta batalha ainda mais feroz, agora que a “lista de temas a serem discutidos publicamente” [orig. “fact sheet”] que o governo Obama insistiu que teria de ser distribuída, para promover o acordo em Washington... tumultua completamente a aceitação do acordo no Irã. Para piorar, a tal “lista de temas a serem discutidos publicamente” de Obama não ajudou em nada, a promover o acordo em Washington.

E agora os suspeitos de sempre – do Departamento de Estado ao Congresso e o lobby de Israel – também já estão completamente enlouquecidos por causa de uma narrativa alucinada circulante, segundo a qual “Putin está vendendo mísseis aos aiatolás”.

Got “S”, will sell [Tenho “S”, vou vender”] [1]

O que o presidente Vladimir Putin da Rússia acaba de fazer é, simplesmente, voltar aos negócios, como sempre: já antes de as sanções serem levantadas, Putin assinou um decreto que põe fim à autoproibição, que Moscou impusera a ela mesma, e que impedia a entrega a Teerã do sistema terra-ar S-300, de mísseis antimísseis, depois de um contrato de US$ 800 milhões assinado em 2010 não poder ser cumprido, por causa de obsessiva pressão dos EUA. Teerã espera receber o sistema S-300 até o final do ano.

S-300, sistema antiaéreo de mísseis para o Irã
(clique na imagem para aumentar)
A linha oficial de Moscou sempre foi que o embargo de armas contra o Irã teria de ser levantado tão logo se chegasse a um acordo nuclear final. O governo Obama insiste em que as sanções sejam removidas gradualmente. Teerã, do Supremo Líder Aiatolá Khamenei para baixo, não arreda pé da ideia de que as sanções têm de ter fim “no dia do acordo”, palavras do próprio Aiatolá Khamenei.

Mas o Supremo Líder acrescentou uma nota conciliatória, comentando que “se o outro lado evitar ambiguidades nas conversações [nucleares], será experiência interessante mostrar que é possível negociar com eles sobre outras questões”.Ainda é um “se” de proporções galácticas.

Entrementes, e em sincronia, Anatoly Isaykin, Diretor-Geral da maior empresa russa exportadora de armas, a Rosoborobexport, confirmou que a China acaba de comprar, da Rússia, sistemas de mísseis de defesa antimísseis tipo S-400. Pequim é a primeira, numa longa lista de espera, de compradores estrangeiros – porque a indústria russa de defesa é obrigada a garantir prioridade, na entrega dos S-400s, ao Ministério da Defesa da Rússia.

Cada S-400 é capaz de lançar simultaneamente até 72 mísseis contra 36 alvos, e blinda o território contra ataques aéreos, mísseis estratégicos, cruzadores, táticos e que operem mísseis balísticos táticos, e contra mísseis balísticos de médio alcance. O S-400 já é operacional desde 2007, substituindo os sistemas S-300 agora vendidos ao Irã.  

S-400, sistema antiaéreo de mísseis
(clique na imagem para aumentar) 
A questão crucial é que os S-300s tornarão as defesas aéreas do Irã virtualmente invioláveis, contra virtualmente qualquer coisa que o Pentágono use contra elas, exceto os bombardeiros de 5ª geração de tecnologia stealth [“invisíveis”]. E os dois sistemas – o S-300 e o S-400 – nem são o estado-da-arte na Rússia. Estado-da-arte será o sistema S-500, sobre o qual já escrevi, capaz de blindar definitivamente o território russo – e qualquer outro! – contra qualquer coisa que o Pentágono use.

Sistema de mísseis s-500 (protótipo)
Estrategicamente em sincronia

A venda simultânea dos sistemas S-300s e S-400s ao Irã e à China é mais uma mostra muito clara da parceria estratégica que reúne as três nações da Eurásia que ativamente contestam a hegemonia da hiperpotência. Não há dúvida de que estão em sincronia.

Paralelamente, discretamente, Moscou já começou, na prática, um negócio de troca de petróleo por produtos, de US$ 20 bilhões, com Teerã. Trocará grãos, equipamentos e materiais para construção, por 500 mil barris do cru iraniano por dia. Segundo o Vice-Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov:

(...) o atual regime de sanções não proíbe esse tipo de negócio.

Ryabkov só fez reafirmar o óbvio:

Para dançar o tango, tem de haver dois. Estamos prontos para fornecer nossos serviços e tenho certeza de que serão muito vantajosos, na comparação com outros países (...). Jamais abandonamos o Irã, em situação difícil...

Teerã respondeu em sincronia, pelo presidente da Comissão de Política Exterior e Segurança Nacional da Assembleia Consultiva Islâmica do Irã, Alaeddin Boroujerdi:

(...) o Irã está pronto a expandir a cooperação com a Rússia em todas as esferas no mais alto nível.

E completou, importante:

(...) essa é também a opinião de nosso Supremo Líder religioso, o Aiatolá Ali Khamenei, sobre o desenvolvimento das relações com a Rússia.

Os suspeitos de sempre, como sempre, têm-se agarrado a qualquer argumento que “prove” que a cooperação Rússia-Irã dará em nada. Por exemplo, que o Irã “reabilitado” destruirá a indústria russa de energia, por causa do “sério impacto” sobre o mercado de petróleo, do excesso de oferta do Irã e da concorrência com a exportadora russa Gazprom.

Ryabkov foi direto ao ponto em questão:

Acho que o lado iraniano ainda não está preparado para fornecer gás natural de seus grandes campos, rapidamente e em grandes quantidades, à Europa. Para isso é preciso infraestrutura difícil de construir.

Essa atualização da infraestrutura é cara e exigirá anos; pode acontecer, mas com a ajuda – mais uma vez, de russos e chineses. A Rússia estará de volta ao setor de energia iraniano, com toda a força, pela Gazprom Neft, braço do petróleo russo, e a Lukoil teve de suspender vários projetos por causa das sanções. E a Rosatom, por sua vez, ainda assinará outros contratos na usina nuclear de Bushehr.

Oleogasoduto TANAP será ligado ao TAP
A União Europeia – e especialmente os EUA – está apostando na “reabilitação” do Irã, como numa bonança econômica/política; a primeira vantagem real seria Teerã tornar-se fornecedora de mais outro difícil gambito no Oleogasodutostão, a saber o gasoduto Trans-Anatolian (TANAP), que talvez esteja, ou talvez não esteja, pronto em 2018. O gasoduto TAP(Trans Adriatic) levará gás até a Europa cruzando a Turquia, mas ainda não há certeza sobre quanto gás os fornecedores potenciais – Azerbaijão ou Irã – poderão disponibilizar.

O gasoduto TAP/TANAP em operação, não significa que as exportações da Gazprom para a União Europeia tenham de ser diminuídas. De fato, o que funcionários russos e iranianos vêm discutindo já há algum tempo é o quão lucrativo pode vir a ser para os dois países exportar para a União Europeia. Além do mais, a Rússia ainda tem, para jogar, mais uma carta chave no Oleogasodutostão – o Ramo Turco [orig. Turk Stream], que canalizará gás russo para Turquia e Grécia.

Oleogasoduto Ramo Turco (Turk Stream)
E, sim, a Gazprom apronta-se para ser fornecedora chave, ao mesmo tempo, de dois mercados essenciais. Eis o que disse ao canal Rossiya-24, o presidente da Gazprom, Alexei Miller:

O recurso base da Sibéria Ocidental é recurso usado para exportar gás para a Europa. Em outras palavras, nesse momento estamos no momento perfeito, quando começará verdadeira concorrência, pelos nossos recursos entre dois megamercados: o mercado asiático e o mercado europeu.

Negócios rápidos-SWIFT

Pequim, enquanto isso, está também na ofensiva. Como grande fornecedor de energia – de petróleo e de gás – o Irã é questão de segurança nacional para a China. Assim sendo, mesmo com sanções sobre sanções, o governo dos EUA sempre foi forçado a renovar autorizações e mais autorizações para a China, com Pequim sempre importando energia à vontade, do Irã.

Negócios e comércio sem uso do US$
O Irã é nó absolutamente chave da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda comandada pelos chineses – seja como parte da rota por terra, seja como parte da Rota Marítima da Seda, que tocará o porto de Chabahar. E a parceria China-Irã não se expande só em laços mais estreitos na energia e no comércio/trocas: ela também inclui avançada tecnologia de defesa chinesa, e a contribuição dos chineses no programa de mísseis balísticos do Irã.

A China criou um sistema paralelo ao da já existente Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais [ing. SWIFT], para pagar pela energia que compra do Irã; depois do acordo nuclear, Teerã terá livre acesso àqueles fundos, em Yuan. Executivos iranianos da energia já estiveram em Pequim para discutir os investimentos chineses na indústria iraniana de energia. As chinesas Sinopec e CNPC serão importantes para desenvolver projetos nos campos de gás de Pars Sul – o maior do planeta – e nos campos-gigantes de Yadavaran e Azadegan Norte, de petróleo.

Para o Irã, tudo isso acontecerá paralelamente, enquanto as gigantes europeias de energia investem no desenvolvimento e na tecnologia de gás natural liquefeito [ing. liquefied natural gás (LNG).

Investindo em várias frentes, a China também contribuirá para finalmente ajudar a completar o muito complicado oleogasoduto Irã-Paquistão (IP), que no futuro poderá incluir até uma extensão até Xinjiang.

Xi faz Teerã

A cobertura desse imenso bolo de energia é o quanto ambas, Rússia e China estão profundamente dedicadas a integrar o Irã em sua visão eurasiana. O Irã pode finalmente ser admitido como membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], já na próxima assembleia de verão, na Rússia. Implica ampla e crescente parceria política/ comercial/ de segurança reunindo Rússia, China, Irã e a maioria dos “-stões” da Ásia Central.

Países da Organização de Cooperação da Xangai
O Irã já é membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)]; significa financiamento para muitos projetos relacionados à(s) Nova(s) Rota(s) da Seda que certamente beneficiarão a economia iraniana. Os fundos que o BAII proverá com certeza se fundirão com empréstimos e outras contribuições para o desenvolvimento da infraestrutura relacionadas ao Fundo Rota da Seda, criado pelos chineses.

E por fim, mas não menos importante, a parceria estratégica China-Irã será discutida detalhadamente durante a visita que o presidente Xi Jinping da China fará a Teerã, no próximo mês de maio/2015.

É fácil recordar o quanto o Irã foi menosprezado, tratado como “isolado” pela camarilha excepcionalista há bem poucos meses. A verdade é que o Irã jamais esteve isolado; todo o tempo trabalhou empenhada, incansavelmente, construindo blocos para a integração da Eurásia.

Empresas europeias, é claro, estão ansiosíssimas para deslanchar uma avalanche de investimentos no mercado iraniano pós-sanções, e a maioria das gigantes de energia sonham com reduzir a dependência da UE à Gazprom. Mas enfrentarão concorrência formidável, porque já há muito tempo Moscou e Pequim identificaram de que lado soprava ao vento: a favor da inevitável (re)emergência do Irã como potência eurasiana crucialmente decisiva.

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Nota dos tradutores

[1] A tradução é tentativa. Impossível saber com certeza, mas a expressão parece ser um reaproveitamento metafórico de “Have Gun. Will Travel” [aproximadamente, talvez, “Tenho arma. Vou viajar”], título de um seriado norte-americano (1957-1963), do gênero western.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Petróleo e Erbil

10/8/2014, [*] Steve Coll, The New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Erbil - parte nova da cidade
Defender Erbil [1]: essa foi a principal causa que levou o presidente Obama de volta à guerra no Iraque semana passada, dois anos e meio depois de cumprir promessa de campanha e retirar de lá os últimos soldados.

Depois de Mazar-i-Sharif, Nasiriyah, Kandahar, Mosul, Benghazi, e incontáveis outros pontos de intervenção militar dos EUA – cidades cujos nomes derrotariam todos os candidatos de programas de “adivinhe onde fica” antes de 2001 – chegamos agora a Erbil. Pode-se bem perdoar o isolacionista: “Chegamos... onde?!”.

Erbil tem longa história, mas, em termos de política econômica, entende-se melhor a cidade hoje como uma espécie de “Deadwood” curda, como no seriado de David Milch para a HBO, sobre uma cidade da corrida do ouro, cujo anti-herói, Al Swearengen, convence um governo local a inventar por ali um verniz de governo e normalidade, porque interessa aos negócios dele.

Erbil é cidade da corrida do petróleo, onde os poderes locais manobram similarmente seus ambíguos poderes para garantir ganhos financeiros – deles mesmos e de qualquer pioneiro selvagem esperto o bastante para conseguir investir dinheiro sem ser imediatamente roubado.

Erbil é a capital do Governo Regional Curdo & Petróleo, no norte do Iraque. Ali os EUA construíram alianças políticas e armaram milícias peshmerga curdas muito antes de o governo Bush invadir o Iraque em 2003. Desde 2003, tem sido o local mais estável de um país instável. Mas semana passada, guerrilheiros muito bem armados, leais ao Estado Islâmico no Iraque e Levante, ISIL, ameaçaram os arredores de Erbil, o que forçou a espetaculosa ação de Obama. (O presidente também ordenou operações aéreas para entregar ajuda humanitária a dezenas de milhares de yazidis e outras minorias não muçulmanas cercadas no remoto Monte Sinjar. Um Curdistão seguro garantiria santuário para esses sobreviventes).

Estado Islâmico na conquista do Iraque e Síria
“A região curda é funcional do modo como gostaríamos de ver” – Obama explicou em fascinante entrevista que deu a Thomas Friedman, publicada na 6a-feira (8/8/2014). “É tolerante com outras seitas e outras religiões, como gostaríamos de ver em outros pontos. Por isso achamos importante assegurar que esse espaço esteja protegido”. Dito assim, até parece verdade, e até certo ponto é convincente.

O Curdistão é, sim, um dos já raros aliados confiáveis dos EUA no Oriente Médio, nesses tempos. A economia conheceu um boom em anos recentes, atraindo investidores de todo o mundo, o que fez erguer-se ali um fulgurante novo aeroporto internacional com as mais modernas e também fulgurantes facilidades e serviços. Claro, comparado à, digamos, Jordânia ou Emirados Árabes Unidos, o Curdistão tem um déficit terrível, na condição de aliado dos EUA: o Curdistão não é estado. Nem tem nada a ver com fabricar a unidade nacional do Iraque, que continua a ser o principal projeto do governo Obama no Iraque. Vistas as coisas por esse ângulo, a explicação que Obama ofereceu para seu casus bellipareceu um pouco incompleta.

Conselheiros de Obama explicaram aos jornalistas que Erbil abriga um consulado dos EUA e que “milhares” de norte-americanos vivem lá. A cidade tem de ser defendida, dizem eles, contra o risco de o ISIL passar por lá, destruir tudo e ameaçar vidas de norte-americanos. Tudo muito bem, mas... O que fazem lá, em Erbil, os tais milhares de norte-americanos? Em busca de ar puro é que não estão.

ExxonMobil e Chevron estão entre as muitas empresas de petróleo e gás com contratos grandes e pequenos para perfurar no Curdistão, contratos cujos números compensam as empresas pelo risco político sempre alto. (Chevron disse, semana passada, que estava retirando alguns expatriados do Curdistão; ExxonMobil não quis comentar). Com essas gigantes do petróleo chegaram, como sempre os de sempre: empresas de serviço nos campos de petróleo, contadores, empresas de construção, de transporte e, no fundo do poço da cadeia econômica, diversos empreendedores cavando espaço.

Percorrer com os olhos a lista telefônica da Câmara de Comércio de Erbil é uma experiência poética, só dos nomes dos empreendimentos: Cozinha dos Sonhos, Sonho Vivo, Ouro Puro, Gala Eventos, Emoções Eventos e o endereço onde eu pensaria em fazer minha última refeição, se colhido no torvelinho de um massacre do ISIL, “Famous Cheeses Teak”.

Nada tem a ver com petróleo. Depois que você tiver escrito essa frase 500 vezes na lousa, até aprender, assista ao documentário “Why We Did It” [Porque nós fizemos aquilo] de Rachel Maddow, para conhecer visão altamente sofisticada, embora agudamente jornalística, e entender de uma vez por todas que a economia mundial do petróleo sempre lá esteve, desde o início, como parceira silenciosa do fiasco dos EUA no Iraque.

Erbil - localização geográfica
Claro que é dever do presidente Obama defender vidas e interesses dos EUA, em Erbil e onde for, com petróleo ou sem. Mas o caso é que, em vez de ordenar a imediata evacuação dos cidadãos, ele ordenou campanha de ataques aéreos que durarão meses, para defender ostatus quo do Curdistão, em campo – presumivelmente, seria essencial para um Iraque unificado capaz de isolar o ISIL. Mas o status quo no Curdistão inclui produção de petróleo por empresas internacionais, como seria honesto declarar. OK. A defesa do Curdistão que Obama ordenou deve funcionar, se a peshmerga curda puder ser novamente recolhida, reunida e fortalecida em campo, depois de uma alarmante retirada, semana passada.

Mas há buracos na lógica de Obama sobre Erbil. O presidente disse claramente, semana passada, que ainda acredita que um governo duradouro de unidade nacional – que inclua líderes sérios da maioria xiita do Iraque, curdos e sunitas que se opõem ao ISIL – possa ser formado em Bagdá, ainda que exija mais semanas, além dos três meses de dificuldades que já se passaram desde a mais recente eleição parlamentar no país.

O projeto de um governo unificado em Bagdá, forte o bastante para derrotar o ISIL com um exército nacionalista e na sequência extrair dele os seguidores dos sunitas parece cada vez mais ideia delirante; era difícil, na entrevista a Friedman, entender de que lado Obama realmente está.

Por que tem sido tão difícil construir qualquer tipo de unidade política em Bagdá e há tanto tempo? Há muitas importantes razões – a desastrosa decisão dos EUA de desmobilizar o Exército Iraquiano, em 2003, e de apoiar a furiosa des-Baathificação, que afastou os sunitas, distanciamento que ainda não foi corrigido; ódio sectário crescente entre xiitas e sunitas; o envolvimento de sunitas com a filosofia da Al-Qaeda e com o dinheiro e “soft Power” do Golfo Persa; a interferência do Irã; as dificuldades das fronteiras pós-coloniais do Iraque; o mau governo em Bagdá, particularmente sob o primeiro-ministro, Nouri al-Maliki. Mas outra razão, e de primeira ordem, é que os EUA cobiçam o petróleo dos curdos.

Vista aérea da parte mais antiga de Erbil
Durante o governo Bush, aventuras como a da empresa Hunt Oil, que tem sede em Dallas, pavimentaram o caminho para a ExxonMobil, que acertou um negócio em Erbil em 2011. Bush e seus conselheiros não conseguiram forçar empresas norte-americanas de petróleo, como a Hunt, a sair do Curdistão nem a sancionar investidores não norte-americanos. Deixaram os gatos selvagens agir como bem entendessem, sempre insistindo que os políticos de Erbil negociassem uma partilha de lucros do petróleo e a unidade política, com Bagdá. O governo de Erbil nunca entendeu exatamente a necessidade de um compromisso final com políticos xiitas de Bagdá – e com os curdos ficando cada vez mais ricos, nos seus próprios termos, eles passaram a atrair empresas de petróleo mais confiáveis e mais ricas; assim, cada vez mais se foi criando a impressão de que aquele governo governava um estado de-facto. O governo Obama nada fez para reverter essa tendência.

Assim também, em Erbil, nas semanas vindouras, pilotos norte-americanos defenderão por ar a capital cuja crescente independência e crescente riqueza já afrouxaram os laços com o Iraque, ao mesmo tempo em que, em Bagdá, diplomatas dos EUA ainda insistem quixotescamente no esforço para alinhavar juntos todos os pedaços do mesmo país, para enfrentar o ISIL.

Obama a defender Erbil defende, de fato, um estado-petróleo curdo não declarado. Sobre as fontes de sedução geopolítica desse estado – como fornecedor não russo, de longo prazo, de gás para a Europa, por exemplo – melhor não falar, se houver crianças ou gente civilizada na sala, como Al Swearengen, do seriado Deadwood, entenderia. A vida – como disse Swearengen num episódio – é quase sempre feita de “um serviço sujo depois do outro”. É como a política dos EUA no Iraque.


[*] Steve Coll é autor associado da The New Yorker e deão da Graduate School of Journalism at Columbia University; escreve sobre assuntos de Inteligência e  Segurança Nacional dos Estados Unidos e seus interesses no exterior.


Nota da redecastorphoto

[1] Erbil (em português Arbil) ou Arbil/Hewlêr (como em latim curdo; também escrito Erbil, ou Irbil) (em acadiano: Arba-ilu; árabe: اربيل Arbīl; curdo: ههولیر Hewlêr; suméria: Urbilum; siríaco-aramaico; turco: Erbil) é a quarta maior cidade do Iraque depois de Bagdá, Basra e Mosul. A cidade está localizada a 80 km a leste de Mosul, e é a capital do Curdistão iraquiano.
A vida urbana em Arbil pode ser datada para, pelo menos, 6.000 a.C., e é uma das mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo. No coração da cidade está a antiga Cidadela de Arbil. Os hurritas foram os primeiros a estabelecer Urbilum e expandir seus domínios ao restante do norte da Mesopotâmia. Depois, a cidade esteve sob o domínio de muitas potências regionais desde aquele tempo, incluindo os assírios, babilônios, persas, gregos, árabes e otomanos. O museu arqueológico da cidade abriga uma grande coleção de artefatos pré-islâmicos, e é um centro para projetos arqueológicos na área.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pepe Escobar: “Pivô” na Eurásia

21/5/2014, [*] Pepe Escobar, Facebook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar no canal Griboedov em São Petersburgo (não dá pra ver, mas ele tá lá)
Escrevo de São Petersburgo, cidade na qual, nas próximas horas e dias, haverá diversão da boa, garantida.

O timing para firmar o negócio de gás acordo Rússia-China de US$400 bilhões em Xangai, não poderia ser mais ESPETACULAR. É coisa IMENSAMENTE estratégica. Primeira coisa que fiz hoje cedo, mal cheguei ao aeroporto Schiphol, desembarcado em São Petersburgo, foi procurar jornais. A primeira página do Wall Street Journal, noticiava, pode-se dizer que com algum júbilo, “Negócio Rússia-China de gás emperrou”. Dois telefonemas depois da manchete precipitada, estava tudo resolvido, selado, assinado e confirmado.

Significa, dentre muitas outras coisas, que as sanções de EUA/UE contra Moscou já têm de ser analisadas pelo que realmente são: piada.

Analisem a declaração conjunta Rússia-China sobre a Ucrânia; é crise “doméstica”. “É indispensável que se encontrem ou se criem meios pacíficos, políticos, para resolver problemas que surjam”.

Entrementes, o Primeiro-Ministro Medvedev disse à TV Bloomberg que sim “estamos andando lenta, mas com certeza na direção de uma segunda Guerra Fria”. Subtexto: é o que Washington deseja.

Analisem então o que Xi disse a Putin:

O desenvolvimento posterior de uma parceria ainda mais ampla entre Rússia e China, com cooperação estratégica baseada nos interesses mútuos e ditada pela necessidade de promover justiça e igualdade no mundo, manter a paz no planeta, e pela necessidade de alcançar a prosperidade conjunta da China e da Rússia, é escolha inevitável que brota do próprio processo de formação de um mundo multipolar.

E analisem o que disse Putin, sobre o progressivo ultrapassamento do petrodólar:

Estamos trabalhando para aumentar a quantidade de pagamentos que serão feitos em moedas nacionais, e planejamos considerar novos instrumentos financeiros.

É coisa grande, MUITO, MUITO GRANDE, mais do que se pode ver já. Quase nem se acredita! Moscou completou o mais elegante e perfeito pivô estratégico na direção da Ásia e a China bailou junto, em perfeita harmonia.

Parabéns, governo Obama: vocês são excepcionais no basquetebol.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.   
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

A Farsa Total: Biden JUNIOR ganha cargo na principal empresa de gás da Ucrânia!

13/5/2014, [*] Tyler Durden (enviado sem comentários), ZeroHedge −
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hunter Biden e Joe Biden em 24/9/2009 
A empresa é Burisma Holdings – a maior produtora privada de gás da Ucrânia; o novo funcionário é Hunter Biden (“Biden Jr.”), filho do vice-presidente Joe Biden dos EUA.

Biden Jr dirigirá o setor de advogados e dará apoio logístico à empresa em organizações internacionais. O novo diretor comentou sobre o novo emprego:

O portfólio da Burisma é vasto no campo da inovação e na liderança da indústria no campo do gás natural – por isso temos certeza de que será ator poderoso para reforçar a economia ucraniana. Como novo membro do Board, tenho certeza de que muito poderei acrescentar no campo da consultoria, em questões sensíveis de transparência, governança e responsabilidade corporativa, expansão no mercado internacional e outras prioridades, para contribuir para a economia e em benefício do povo da Ucrânia.

Alan Apter
O presidente da Burisma Holdings, Mr. Alan Apter, observou que:

A estratégia da empresa visa a reunir a maior concentração possível de profissionais qualificados, para introduzirmos as melhores práticas corporativas. Estamos felicíssimos que Mr. Biden Jr. Tenha aceito nosso convite, para colaborar conosco para que alcancemos essas metas de nossa empresa.

O currículo do homem é impressionante: vai de advogado do escritório Boies, Schiller & Flexner LLP, que mantém escritórios em New York, USA, e que trabalhou em casos como “Bush vs. Gore” e “EUA vs. Microsoft”, até professor adjunto do Programa Masters da Georgetown University, na Escola de Serviço Exterior, passando por presidências de ONGs que distribuem comida a criancinhas e pela coordenação de campanhas eleitorais na eleição de 2008, em que concorreram Obama e Biden Sênior.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de  Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta)