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domingo, 12 de abril de 2015

Os 45 anos finais do Império Anglo-Saxão

9/4/2015, [*] William EngdahlFort Russ, entrevista gravada por Sergey PravosudovGazprom Magazine
Traduzido para o inglês por Kritina Rus e para português pelo pessoal da Vila Vudu



Em março desde ano, desencontrei-me, literalmente por uma semana, de William Engdahl, autor do notável A Century of War [Um século de guerra], livro e autor sobre os quais falei no meu antigo blog, antes mesmo de o livro ser lançado pela editora “Selado” em versão impressa.

Mesmo assim, embora não tenha podido encontrá-lo pessoalmente, consegui obter uma entrevista exclusiva com Engdahl para a revista Gazprom, gravada pelo editor-chefe Sergey Pravosudov.

Espero que o ponto de vista de um dos autores já clássicos do moderno jornalismo geopolítico ajude vocês a compreender os sempre repetidos “saltos” da geopolítica e da geoeconomia, e a extrair conclusões sobre essas repentinas mudanças na ordem mundial que se veem aí, diante de nossos olhos.

Para mim, a entrevista com William Engdahl é interessante, porque se trata de conhecido crítico da “Teoria do Pico do Petróleo, que pessoalmente sempre me pareceu muito razoável e influente nos processos globais.

O mais interessante é que, apesar de partir de premissas quase diametralmente opostas, Engdahl chega a conclusões semelhantes, em alguns pontos idênticas, sobre o futuro dos processos globais.

Alex Ampilogov



Frederick William Engdahl

O economista e cientista político Frederick William Engdahl respondeu nossas perguntas.

Gazprom Magazine (GM) – Mr. Engdahl, em seu livro Um século de Guerra, o senhor oferece análise interessante dos eventos do século XX. Gostei especialmente do que o senhor escreveu sobre a crise de 1973, quando o petróleo subiu muito.

Frederick William Engdahl (FWE) – Em minha opinião, é óbvio que o aumento dos preços do petróleo não foi culpa exclusiva dos xeiques do petróleo, mas de EUA e Grã-Bretanha. Mais precisamente, dos bancos anglo-saxões, das empresas de petróleo e do complexo industrial militar. À altura de 1971, as reservas de ouro mal chegavam a um quarto das dívidas oficiais dos EUA. Isso, basicamente, significava que, se todos os proprietários de dólares exigissem o correspondente ouro, Washington não teria como pagar.

Quando anunciou (em 1971) aos proprietários estrangeiros de dólares que o papel que tinham nos cofres não mais seria trocado por ouro, o presidente Nixon “desligou os aparelhos” que mantinham viva a economia global. O comércio mundial, depois de 1971, converteu-se em mais uma arena de especulação com diferentes moedas.

Os reais autores da estratégia de Nixon estavam em influentes bancos comerciais, na City de Londres. Sir Siegmund Warburg, Edmond de Rothschild, Jocelyn Hambro e outros viram uma oportunidade gigante no movimento de Nixon separar-se do padrão ouro de Bretton Woods, no verão de 1971.

Depois de agosto de 1971, quando Henry Kissinger tornou-se conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, a política norte-americana dominante passou a ser controlar, não desenvolver economias, por todo o mundo. Durante os anos 1970s, passou a ser prioridade reduzir a população de países em desenvolvimento, e não, absolutamente, fazer qualquer transferência de tecnologias e estratégicas para o crescimento industrial local.

O Ministério das Finanças dos EUA firmou um acordo secreto com a Agência da Moeda [orig.Currency Agency] da Arábia Saudita, aprovado oficialmente em fevereiro de 1975. Por esse acordo, a massiva quantidade de dinheiro que os sauditas receberiam pela venda de petróleo teria de ser aplicada, toda ou quase toda, para pagar as dívidas do governo dos EUA. Um jovem banqueiro de banco de investimentos de Wall Street, David Mulford, foi mandado viver na Arábia Saudita, e tornou-se o principal “conselheiro de investimentos” no Banco Central da Arábia Saudita, encarregado de direcionar os petrodólares para os bancos “certos”, em Londres e New York, claro.

É preciso considerar com especial atenção o modo como a crise do petróleo afetou a Alemanha Ocidental. A economia alemã desenvolveu-se muito bem, os indicadores de crescimento industrial surpreenderam o mundo. Depois de 1971, quando os EUA pararam de devolver ouro em troca de dólar-papel, muitos países começaram a preferir receber pagamento em marcos alemães. Resultado disso, o marco ficou muito fortalecido contra o dólar; nos EUA esse fator passou a ser visto como ameaça.

Além disso, em 1969 o chanceler era o social-democrata Willy Brandt, que começava a seguir uma política de reaproximação com a URSS, na esfera econômica e na esfera política. Foi Brandt quem, em 1970, assinou o famoso acordo “gás-em-troca-de-gasodutos” [orig. Gas-Pipes]. E também, durante a guerra Israel-Árabes de 1973, Willy Brandt anunciou que a Alemanha Ocidental assumiria posição de neutralidade e proibiu os norte-americanos de usarem suas bases em território alemão para fornecer armas a Israel. Os EUA ignoraram a proibição. Resultado dela, contudo, a Alemanha, como outros países ocidentais sentiram o peso da “arma-petróleo”.

Claro que os EUA nunca perdoariam tal insubordinação, principalmente do país europeu que, desde a IIª Guerra Mundial, estava sob virtual ocupação por soldados norte-americanos. Em 1974 os efeitos da crise do petróleo levaram à falência vários bancos alemães; e ao enfraquecimento do marco alemão. O custo do petróleo importado pela Alemanha aumentou, em 1974, em cerca de inacreditáveis $17 bilhões de marcos alemães. Meio milhão de alemães ficaram desempregados. O choque desse repentino aumento de 400% no preço desse recurso básico de energia teve efeito devastador sobre a indústria, o transporte e a agricultura alemães.

Em 1974, Willy Brandt foi forçado a renunciar. Foi acusado de não ter sabido prever e enfrentar a crise do petróleo. E como se não bastasse, descobriu-se, “repentinamente”, que Günter Guilliom, conselheiro do Brandt, era agente da inteligência da Alemanha Oriental.

A vasta maioria das economias menos desenvolvidas do mundo, que não têm recursos significativos de petróleo, foram repentinamente forçadas a encarar um aumento inesperado e impossível para elas, de 400%, no custo das importações de energia, para nem falar no custo de produtos químicos e fertilizantes derivados do petróleo. A Índia, em 1973, tinha saldo positivo na balança comercial e vivia como saudável economia em desenvolvimento. Em1974, a Índia tinha, como reservas totais em moeda estrangeira, US$ 629 milhões, com as quais teria de pagar a conta anual de petróleo importado, de US$ 1,2 bilhões (mais que o dobro da moeda estrangeira disponível). Sudão, Paquistão, Filipinas, Tailândia e muitos outros países na África e na América Latina enfrentaram, em 1974, déficits sempre crescentes na balança de pagamentos. [1] No total, segundo o FMI, em 1974 os países em desenvolvimento tinham um déficit total na balança de pagamentos de US$ 35 bilhões, quantia gigantesca naqueles dias. Não surpreendentemente, esse déficit era quatro vezes maior que em 1973, i.e., era proporcional ao aumento nos preços do petróleo.

Ao mesmo tempo em que o choque do petróleo teve impacto devastador no crescimento industrial mundial, resultava em lucros gigantes para alguns círculos bem conhecidos: os maiores bancos em New York e Londres e para as “Sete Irmãs” – empresas de petróleo dos EUA e Grã-Bretanha. A maior parte dos lucros em dólar dos países da OPEP foi depositada em grandes bancos em Londres e New York, que operavam com dólares, como em todo o comércio internacional de petróleo.

Diferente da Alemanha, a Grã-Bretanha lucrou com a crise do petróleo. O aumento dos preços do petróleo tornou viável o desenvolvimento do campo de petróleo no Mar do Norte, e as empresas anglo-saxônicas conseguiram fazer bom dinheiro.

GM – Por que, em meados dos anos 1980s, os preços do petróleo caíram vertiginosamente?

FWE – Durante o governo Reagan, a prosperidade econômica dos EUA alicerçada em investimentos nas mais avançadas tecnologias industriais, acabou. O aço foi declarado o “cinturão de ferrugem” da indústria, usinas fabricantes de aço foram abandonadas. Onde “havia dinheiro”, construíram-se shopping centers, novos cassinos e hotéis de luxo.

Para financiar essa orgia durante essa bolha de especulação, praticamente durante todo o mandato de Reagan o dinheiro veio de fora. Ninguém jamais pensa sobre o fato de que, ao longo desses cinco curtos anos, pela primeira vez desde 1914 os EUA passaram, da posição de maior credor do planeta, para a posição de estado devedor. O crédito era “barato” e crescia exponencialmente. Famílias alcançaram níveis recorde de endividamento, para comprar casas, carros, carros de luxo. O governo endividou-se para financiar a diminuição da arrecadação e o aumento nos gastos militares do governo Reagan. Em 1983, o déficit anual em orçamento alcançou o nível sem precedentes de US$ 200 bilhões. Com um déficit recorde, cresceu a dívida nacional, enquanto os corretores de ações de Wall Street e seus clientes recebiam dividendos recordes. Os juros a pagar sobre o total da dívida do governo dos EUA, em seis anos, subiram de US$ 52 bilhões em 1980, quando Reagan chegou à presidência, para mais de US$ 142 bilhões em 1986 (1/5 de tudo que o estado arrecadava). Mas, apesar desses sinais tão preocupantes, o dinheiro continuava a sair da Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Japão, todos ansiosos para pôr a mão nos lucros de especulação no mercado imobiliário e no mercado financeiro. Em 1980, a soma da dívida pública e privada dos EUA chegou a US$ 3,9 trilhões. Ao final da década, chegou a US$ 10 trilhões.

Para qualquer pessoa com senso de história ou boa memória, tudo isso é bem familiar. Já acontecera nos “loucos anos 1920s” até 1929, quando o crash do mercado fez a roleta parar de repente. Quando, em 1985, nuvens de tempestade começaram a acumular-se no horizonte da economia dos EUA, ameaçando as ambições presidenciais do então vice-presidente George H. W. Bush, o petróleo, mais uma vez, lá estava, para fazer o papel de “salvador da pátria”. Apenas que, dessa vez, de modo muito diferente do que se vira nos choques do petróleo anglo-norte-americanos dos anos 1970s.

Obviamente, Washington raciocinou assim: “Se podemos fazer subir o preço, porque não poderíamos fazê-lo despencar, se é o que mais interessa aos nossos objetivos?”

A Arábia Saudita foi persuadida a entrar em modo de “choque de petróleo reverso” e a afogar, com seu petróleo, o deprimido mercado mundial. Na primavera de 1986, o preço OPEP do petróleo caiu como pedra, até abaixo de US$ 10 por barril, a partir de um preço médio de quase US$ 26 por barril apenas uns poucos meses antes. Em março de 1986, quando queda ainda maior nos preços do petróleo ameaçava já desestabilizar os interesses vitais, não só dos concorrentes independentes pequenos, mas das maiores empresas britânicas e norte-americanas de petróleo, George Bush Pai fez uma viagem secreta a Riad onde, como o comprovam inúmeras testemunhas, e disse ao rei Fahd que fizesse parar a queda do preço do petróleo. O Ministro do Petróleo de Arábia Saudita, Zaki Yamani, serviu com o bode expiatório conveniente para políticas inventadas em Washington, e os preços do petróleo estabilizaram-se num nível relativamente baixo, de US$ 14-US$ 16 por barril.

O Texas e outros estados produtores nos EUA entraram em depressão, mas a especulação imobiliária em outros estados subiu à estratosfera, e o mercado de ações entrou novamente em ascensão subindo a alturas estonteantes.

A queda nos preços do petróleo em 1986 deu origem a uma bolha especulativa, comparável à situação em 1927-1929 nos EUA. As taxas de juros caíram ainda mais, com o dinheiro sempre voando rumo à Bolsa de Valores em busca de grandes lucros. Nasceu então, e logo virou moda em Wall Street, uma nova perversão financeira – a compra de dívidas.

Em 1979, quando em plena segunda crise do petróleo Paul Volcker começou seu choque monetário, o governo contou 24 milhões de norte-americanos vivendo abaixo da linha de pobreza, definida essa linha em 6 mil dólares anuais. Em 1988, o número já crescera mais de 30% , para 32 milhões de pessoas.

Como nunca antes na história dos EUA a política tributária dos Reagan-Bush concentrara a riqueza do país em mãos de uma pequena elite. A partir de 1980, conforme estudo feito pela Comissão de Orçamento da Câmara de Deputados do Congresso dos EUA, a renda real dos 20% mais ricos dos EUA crescera 32%.

Apelo direto de Washington ao governo japonês do Primeiro-Ministro Nakasone, dizia que presidente do Partido Democrata, fosse quem fosse, agrediria o comércio nipo-norte-americano. Funcionou. Nakasone pressionou o Banco do Japão e o Ministério da Finança, para “amaciá-los”, torná-los mais flexíveis. As taxas de juro japonesas desde outubro de 1987 continuaram caindo, o que fazia com que ações e títulos dos EUA, bem como a propriedade imobiliária, aparecessem como investimentos relativamente “baratos”. Bilhões de dólares viajaram de Tóquio para os EUA. Durante o ano de 1988, o dólar permaneceu forte e Bush deu jeito de vencer as eleições contra o candidato do Partido Democrata, Dukakis. Para assegurar o apoio do Japão, Bush deu aos mais altos funcionários japoneses garantias privadas de que sua presidência faria melhorar as relações Japão-EUA.

GM – Qual o objetivo dos dois ataques dos EUA contra o Iraque?

FWE  Em 1990, o Iraque tinha enorme dívida externa e o governo dos EUA fizeram saber a Saddam Hussein que os EUA não se incomodariam se ele assaltasse o Kuwait. Mas, quando o Iraque invadiu o Kuwait, os EUA declararam guerra contra o Iraque. Importante a considerar, porque é traço característico: essa guerra foi financiada pelos aliados: Alemanha, Japão, Arábia Saudita e Kuwait, que pagaram US$ 54,5 bilhões aos norte-americanos. Como resultado, os EUA completaram a operação “Tempestade no Deserto” com lucro líquido de US$ 19 bilhões de dólares. Foi guerra necessária para que os EUA fortalecessem sua posição no Oriente Médio, e para ameaçar os aliados dos EUA na Europa e na Ásia. As causas da guerra de 2003 foram semelhantes.

GM – Por que os EUA permitiram declínio tão acentuado nos preços do petróleo no final do ano passado, se levou a uma drástica redução do investimento na produção do petróleo de xisto? Não poderiam, em vez disso, usar as conexões que têm com os terroristas, para organizar ataques aos campos de petróleo no Iraque, Nigéria, Angola, Argélia e outros países?

FWE  Sobre a questão do petróleo: a estratégia do Departamento de Estado dos EUA e daCIA é que a Arábia Saudita derrube os preços do petróleo, em primeiro lugar para pressionar Rússia, Irã e Venezuela. Não acho que tenham considerado qualquer efeito sobre o petróleo de xisto nos EUA, pelo menos inicialmente. Nunca subestime a estupidez das figuras chaves em Washington, tampouco a superestime. Acho que, nesse caso, o mais provável é que tenha avaliado que ExxonMobil, Chevron e British Petroleum conseguiriam sobreviver a seis meses de preços reduzidos. A indústria do petróleo de xisto, nos EUA são empresas médias e pequenas. O Big Oil nos EUA foi empurrado para o fundo do palco. Ano passado, a Shell definiu o investimento em petróleo de xisto como o maior erro da empresa, e saiu, antes de os preços caírem.

É possível que logo recomecem os ataques terroristas à infraestrutura e à capacidade de produção do petróleo. A estratégia de Washington é quebrar a Rússia. Essa é a missão da facção do complexo militar–industrial, Lockheed-Martin, Boeing, Raytheon, General Dynamics, etc. e bancos de Wall Street que querem destruir a Rússia por motivos geopolíticos.

Em termos geopolíticos, com a volta de Vladimir Putin à presidência, a Rússia passou a recusar-se a ajoelhar e rezar como vassalo do “ocidente”. A Rússia recusa-se a envolver-se em qualquer questão que afete a segurança do país, como mísseis de defesa e ataque nuclear preventivo aos EUA.

A cooperação econômica, política e militar entre a Rússia e os BRICS e entre a Rússia e a China representa ameaça à hegemonia da elite política dos EUA: uma Eurásia única economicamente e financeiramente, e militarmente independente (principalmente graças às capacidades militares da Rússia).

Há 20 anos, Washington eliminou todas as defesas de qualquer União Europeia independente que houvesse, com a assinatura do Tratado de Maastricht. Agora, a União Europeia está voltando a falar de constituir exército seu, independente da OTAN. Washington deu risada. Além do mais, a Rússia está cada vez mais atraente para a indústria alemã.

Segundo o diretor da empresa privada de inteligência norte-americana “Stratfor”, George Friedman, nos últimos cem anos a estratégia dos EUA foi impedir qualquer aproximação entre Rússia e Alemanha. Essa aproximação agora, em minha opinião, é a razão pela qual Washington convocou a Arábia Saudita para que encenasse o colapso nos preços do petróleo. Nada tem a ver com empresas de petróleo à beira da falência. Só tem a ver com as elites arruinadas do Império norte-americano: a Síria não trabalha para elas, o Egito não funciona a favor delas, a Turquia não funciona a favor delas, os países BRICS estão criando um novo banco de infraestrutura fora de qualquer controle pelo FMI e o Banco Mundial.

O que há é um bando de oligarcas norte-americanos tentando desesperadamente remendar os buracos no casco do “Titanic” deles. Mas nada poderá ajudá-los. O povo já ficou esperto demais.
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[1] Para ter ideia pálida do que foi o ano de 1974 no Brasil, ver: 16/3/1974 Folha de São Paulo em: Toma posse o general Geisel: Esse é o ano da esperança.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Rússia e China prestes a anunciar o fim da era do dólar americano?

Semana que vem, o mundo talvez já seja TOTALMENTE OUTRO!

18/5/2014, [*] Jeffrey Berwick, The Daily Bell
Tradução mberublue

A queda do poder de compra (inflação) do US$ (dólar americano) ao longo do tempo
Por todo o mundo estão acontecendo reuniões de países, com uma meta comum que tem muito a ver com você, seja você ou não cidadão dos EUA: abandonar o dólar americano. Desde o início da crise da Ucrânia, o fim do dólar americano está cada vez mais perto. Movimento após movimento, Rússia e China estreitaram relações e tornaram-se aliadas mais próximas. Exemplos abundam. Para encurtar, aí vão dois exemplos recentes que chamam a atenção.

A Gazprom (maior empresa russa, décima maior do mundo e a maior exportadora mundial de gás natural – controlada pelo Estado, embora tenha ações no mercado [NT]) acaba de lançar títulos na moeda chinesa, o Yuan. Rússia e China assinaram um acordo para a venda de gás. 40 bancos centrais começam a apostar que no futuro, a moeda de reserva será o Yuan.

Yuan chinês deverá ser a próxima moeda de reserva
Até o início de 2014, as histórias sobre o colapso do dólar soavam ainda como maluquices conspiratórias, e pouco efeito tinham sobre a geopolítica. Este ano, tudo mudou. Parece que as nações-estados pelo mundo afora estão se movendo na direção de um mundo pós-dólar americano. Já não é uma questão de “se”, mas de “quando”. E se você não é capaz de entender o passo-a-passo do que virá, há alto risco de acabar chocado e... assombrado.

Já não cabe dúvida de que, tão logo a Rússia, juntamente com seus numerosos aliados, faça o movimento fatal, será seguida por muitas outras nações (várias delas já estão, mesmo, tentando). Por quê?

Porque os EUA são a força mais destrutiva do planeta; e seu calcanhar de Aquiles é o “privilégio exorbitante”, que a maioria conhece como “dólar americano”; e que o Federal Reserve Note [1] chama de só contaram p’rá mim”.

O significado será hiperinflação, caos social, guerra civil, dentre outras desarticulações. Parece-lhes que exagero? Pois, não, não há exagero algum. Para que se tenha ideia de o quanto tudo isso pode ser ruim, péssimo, pense no que já se vê acontecendo em qualquer república socialista “de bananas”; em seguida imagine que piore muito, muito! Por que pioraria “muito-muito”? Porque essas repúblicas “de bananas” não emitem a moeda usada como moeda planetária de reserva.

Os Estados Unidos nada produzem, a não ser o dólar americano – coisa facílima, aliás, de produzir, como se comprovou no Canadá, com o suor de um único canadense. Operação muito, muito simples: o tal canadense emitiu milhões de dólares americanos e os colocou em circulação. Mais: o Canadá preferiu não extraditá-lo; o sujeito vive lá, como homem livre.

Agora, grandes nações-estados pretendem sair juntas do sistema do dólar americano. Um mundo “desdolarizado” – como a Rússia já diz com frequência – pode vir a afetar a vida de milhões de norte americanos.

A Ascensão da Rússia & China

De acordo com A Voz da Rússia, o Ministro russo das Finanças pretende um aumento significativo do papel do rublo russo nas operações de exportação, reduzindo dessa forma as transações fechadas em dólar, no comércio exterior da Rússia. Acredita-se na Rússia que o setor bancário do país está “pronto para lidar com um maior número de transações assinadas em rublo”.

A agência Prime News relata que em abril de 2014 o governo realizou uma reunião que foi integralmente dedicada a encontrar soluções para tirar o dólar das operações russas de exportação. Especialistas de ponta de bancos, governo e setor energético elaboraram nestas reuniões uma série de propostas, perfeitamente efetivas, para responder às tais sanções aplicadas pelos Estados Unidos contra a Rússia.

Igor Shuvalov
A reunião de “desdolarização” foi presidida pelo Vice-Primeiro-Ministro da Federação Russa, Igor Shuvalov: é sinal de que o movimento russo para descartar o dólar é, sim senhor, coisa séria. Depois houve outra reunião, quando se discutiram procedimentos para elevar o número de operações recebíveis em rublo, dessa vez presidida pelo Vice-Ministro das Finanças, Alexey Moiseev. Segundo Moiseev, nenhum dos especialistas e representantes de bancos viu qualquer problema nos planos governamentais para incrementar o comércio com pagamento em rublos. Afinal... o dólar já vem em queda livre desde a invocação do Federal Reserve e a lei relativa ao imposto sobre a renda, em 1913.

Agora, parece que até o pouco que ainda sobra já está por um fio.

A Rússia não está só.

Se não tivesse apoio, a Rússia não estaria tão audaciosa. Outras nações pelo mundo também têm interesse em aderir a um movimento de desdolarização. China e Irã, por exemplo, têm manifestado crescente interesse em levar avante esse plano. Líderes de outros países também já se manifestaram nesse sentido; em todos os casos, bateram de cara contra as conhecidas sanções-“mísseis” dos EUA.

Hoje, a especulação que corre o planeta fala da próxima visita de Putin à China, amanhã, dia 20/5: serão assinados contratos gigantes de petróleo e gás... e talvez sejam assinados com pagamentos previstos em Rublos e Yuans, não mais em dólares americanos. Implica dizer que dentro de uma semana, talvez já estejamos vivendo em mundo muito, muito, muito diferente do que temos hoje [mesmo que o “jornalismo”, os “jornais” e os “jornalistas” OCIDENTAIS absolutamente naaaaaaaaada noticiem dessas notícias radicalmente importantes (NTs)].

Com russófobos controlando a políticaexterna dos Estados Unidos, o ocidente está sem qualquer controle, andando a passos largos em direção ao buraco. Consequência disso é que os EUA prosseguirão, hostilizando cada vez mais a Rússia e outras nações. Com mais hostilidade, mais se fortalecerá a tendência de Rússia, China e inúmeros outros países, pelo mundo, a se separarem do dólar.

O mundo já trabalha hoje para criar uma nova infraestrutura econômica e financeira a qual, simplesmente, ignorará os Estados Unidos.

Cesta de moedas poderá substituir o US$ (dólar americano) nas transações internacionais
E, em reação e resposta, o que fazem os EUA? Bombardeiam mais civis. Matam mais gente. Provocam mais guerras.

Verdade é que já não tenho muita certeza de que os EUA consigam manter esse “padrão” hoje, com o mesmo “sucesso” com que o mantiveram há, apenas, uma década.

Bem ou mal, a humanidade começa a despertar para esse estado de coisas. Já aconteceu até de a opinião pública no mundo conseguir impedir que os EUA fizessem mais uma guerra – e a Síria foi salva. A oposição popular certamente impedirá que os EUA façam mais guerras.

Há evidência que todos já veem com clareza e que comprometem hoje terrivelmente as posições que os EUA têm adotado: Rússia e a China jogam xadrez e pensam no bem do mundo. Obama joga damas, bolinha de gude, sabe-se lá o que joga; e não pensa no bem do mundo.

A China já queria nova moeda de reserva, desde 2013

Japão e Índia já têm um acordo para moeda de reserva própria, desde 2011.
No Golfo Pérsico os árabes, junto com China, Japão, Rússia e França, já planejam pôr fim aos negócios de petróleo feitos pelo dólar americano; e trabalham para pôr no lugar desse dólar uma cesta de moedas que pode incluir o Iene japonês, o Yuan chinês, ouro, Euros e uma nova moeda unificada especialmente pensada para uso das nações do Conselho de Cooperação do Golfo (o que incluiria nessa negociação/nova cesta de moedas, também Arábia Saudita, Abu Dhabi, Kuwait e Qatar).

O fim do sistema monetário como o conhecemos

Estamos na iminência de uma mudança massiva nos parâmetros do sistema monetário mundial... todos os especialistas sabem disso (é absolutamente claro que sabem!), mas o “noticiário” prossegue como se nada estivesse já acontecendo. Empresários norte-americanos ou gastam ou mentem que gastam como se os EUA estivéssemos em plena recuperação econômica. Cidadãos dos Estados Unidos continuam gastando dinheiro ou mentindo que gastam e em todos os casos continuam poupando pouco, talvez com a mesma expectativa que os empresários. Os investidores continuam a investir ou a mentir que continuam a investir como se tudo estivesse às mil maravilhas.

Os EUA devem tanto, mas tanto que já não há mais meios de salvar o US $ (dólar americano)
Parece que todos esses atores têm dificuldade para contextualizar e apreender a verdade sobre a economia dos EUA. E essa verdade é a seguinte: os EUA devem tanto, tanto, tanto, que a mente humana não tem meios para compreender a sua real extensão desse endividamento. E a imprensa-empresa comercial, que existe para desinformar, desinforma o mais que pode e completa o serviço de ensinar a des-compreender (seja o que for).

O capital exposto ao risco de ser queimado, virar fumaça, é da ordem de trilhões de dólares. O mundo ocidental corre o risco de entrar numa era sombria, que o futuro conhecerá, durante séculos, como o “Grande Colapso”. Bem contados, não chega a 1% dos cidadãos o número dos norte-americanos e norte-americanas que se pode acreditar que saibam disso e compreendam com clareza o movimento.

Essa minoria, sim, entende o que está acontecendo; mas tem ativos em bens tangíveis e internacionalizados [metais preciosos fora do sistema financeiro] e terão boa chance de sobreviver bem às mudanças que certamente virão.

Nunca foi mais importante, necessário, prioritário, vitalmente decisivo, desligar a televisão e não tomar conhecimento do que a imprensa-empresa comercial “informe” ou “noticie”. Cada um terá de fazer as próprias contas e assumir o controle da própria situação financeira.

ATENÇÃO: Desligue a TV. Não leia jornais. Demita todos os jornalistas que você ajuda a sustentar cada vez que paga para ler material produzido pela imprensa-empresa comercial, seja pelo rádio, seja impressa, seja pela internet ou pela televisão. E NÃO ESQUEÇA: AQUI VOCÊ TERÁ COBERTURA DESJORNALÍSTICA, EM TEMPO REAL!

[*] Jeffrey Berwick define-se como anarcocapitalista libertarista. Lutador [de luta-livre] contra o que considera dois dos maiores inimigos da humanidade: o Estado e os Bancos Centrais. Atualmente é Editorialista do The Dayly Bell, Fundador do site The Dollar Vigilante, CEO da TDV Mídia e Serviços.




Nota dos tradutores

[1] Em explicação muito resumida: o dinheiro (divisa) americano não é emitido pelo governo americano, mas pelo Federal Reserve Note (que o empresta ao governo dos EUA) e que na realidade é um banco PRIVADO, propriedade de um poderosíssimo grupo de banqueiros internacionais que o manejam conforme seus interesses. Para entender melhor acesse: Já é matematicamente impossível liquidar a dívida nacional dos EUA