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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

FARC-EP: “Há rumores... Será a paz, à vista?”


FARC-EP: Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia/Exército Popular,

28/8/2012, José Antonio Gutiérrez D., La Pluma.net, França
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

José Antonio Gutiérrez D.
Volta-se a cogitar de conversações de paz, com o beneplácito de boa parte do establishment, na agenda política Colômbia na. Uma trapalhada de Uribe [Alvaro Uribe, ex-presidente], que revelou movimento do governo, de aproximação às FARC-EP, em Cuba, quando tentava canalizar apoio para seu projeto ultradireitista [1], bastou para gerar corrente de opinião favorável à aproximação. E o tiro saiu-lhe pela culatra.

Santos [Juan Manuel Santos, presidente] frente à questão, mostrou-se hermético, mas a rede TELESUR, hoje, deu a notícia de um milhão de dólares: as FARC-EP assinaram o início de um acordo de paz com o governo da Colômbia [2]. Há grandes expectativas, dado que há apenas poucos dias, Gabino [Nicolás Rodríguez Bautista], principal comandante do Exército de Libertação Nacional (ELN), declarara-se disposto a unir-se numa iniciativa de diálogo da qual participassem as FARC-EP [3]. Pronunciamento de alta importância, uma vez que, dentre outras lições do passado, já se sabe que não é possível negociar em paralelo com as diferentes expressões do movimento guerrilheiro colombiano. No momento em que escrevo essas notas, estamos à espera do pronunciamento oficial de Juan Manuel Santos sobre a mesma questão.

Juan Manuel Santos
A aproximação não acontece gratuitamente, nem é efeito da boa vontade do presidente da Colômbia: é óbvio que a tese do “fim do fim” não se sustenta e que o Plano Colômbia já faz água. A guerrilha respondeu ao desafio imposto pelo avanço do militarismo e um novo ciclo de lutas sociais ameaça fazer deteriorar a situação política no médio prazo, a ponto que a oligarquia encontrará dificuldades para controlá-la. O cenário político mostra-se às vezes perigosamente volátil. Por outro lado, também nada há de surpreendente na disposição dos guerrilheiros para aproximar-se da mesa de negociações: em primeiro lugar, porque a guerrilha nunca deixou de propor, já há 30 anos, em todos os tons possíveis, a solução política do conflito social e armado; e em segundo lugar, porque a guerrilha, nos últimos anos, melhorou notavelmente sua posição de força, não só militar, mas, sobretudo, no plano político.

Atenção às falsas ilusões

Embora a assinatura desse acordo seja desenvolvimento positivo, não podemos ser excessivamente otimistas, nem, e menos ainda, triunfalistas, pensando que a “paz”, por si só, representaria alguma espécie de triunfo para os setores populares e suas demandas históricas, que, há mais de meio século, o Estado bloqueia a sangue e fogo. É preciso ter plena consciência de que o caminho até eventual processo de negociações é eivado de obstáculos, e que há diferenças substanciais, de fundo, sobre o que esperar dessas negociações e sobre o que se entende por “paz”, palavra que anda em tantas bocas. É preciso ter plena consciência de que a oligarquia com a qual se está negociando é a mais sanguinária do continente e que não pensa em negociar movida por alguma súbita mudança de espírito.

Enquanto o conjunto das organizações sociais dizem que a paz é muito mais que o cessar-fogo, e que tem de implicar a resolução coletiva de problemas estruturais que originam a violência, para o estado continua a tratar-se de desmobilização, reinserção e discussão de formalidades jurídicas relacionadas [4]. Santos quer uma “paz Express”, sumária, mecânica. Quer paz clandestina, sem a presença da multidão, sem sociedade civil, sem organizações populares. Quer paz sem reformas, sem qualquer mudança, de tipo algum, na sociedade nacional. Para ele, basta o marco legal recentemente aprovado e talvez as regulamentações que, com dificuldade, venham a ser aprovadas por um Senado hostil que rapidamente se encolhe, ante o iminente processo eleitoral [5].

Colômbia: ex Presidente Álvaro Uribe Vélez (E) e o Presidente Juan Manuel Santos(D)
Santos sempre teve posição ambígua sobre a paz: por um lado, diz ter as chaves da paz que, se forem perdidas, dia seguinte aparecem trancadas num cofre; por outro lado, aprofunda a guerra suja, mediante o fortalecimento da militarização das comunidades rurais (os chamados “Planos de Consolidação Territorial”); mediante golpes cada vez mais fortes contra os comandos intermediários da guerrilha e uma estratégia de judicialização das “redes de apoio” do movimento guerrilheiro, mediante a qual as necessidades do projeto guerrilheiro são julgadas por tribunais (essência do “Plano Espada de Honra”); e, ainda, mediante impunidade cada vez mais ampla a encobrir as ações do Exército, seguindo uma estratégia sistemática de terrorismo de Estado (a ressurreição do chamado “Foro Militar”, criado por acordo recentemente firmado entre Santos e Uribe).

Do ponto de vista de Santos, paz ou guerra não passam de estratégias para impor um insustentável projeto econômico-social neoliberal, baseado no Plano de (sub)Desenvolvimento Nacional do santismo, cujos pilares são a agroindústria, com mega mineradoras. Conseguir converter essa oportunidade para iniciar negociações num espaço a partir do qual seja possível fazer avançar as transformações sociais que o povo colombiano exige dependerá da capacidade de pressão e mobilização do próprio povo. E isso acontecerá apesar do Estado, não graças a ele.

Paz? Que paz?

Há algo que o bloco dominante nunca perde de vista. É que a negociação com a guerrilha já não é idêntica à negociação de 1990-1994. Aqui já não há organizações cujo espectro ideológico seja um liberalismo radicalizado; não estamos frente a grupos reformistas armados, cuja direção esteja recheada de socialbacanería (A); nem as demandas políticas dessas organizações guerrilheiras serão satisfeitas com promessas de reformas constitucionais cosméticas ou garantias generosas para a desmobilização; tampouco aceitarão alguma “agenda restrita”.

Militantes (soldados) das FARC-EP
Estamos ante movimentos revolucionários que expressam os mais pobres dos mais pobres. Estamos ante movimentos guerrilheiros que manifestam as aspirações históricas desse campesinato que sempre esteve fora e abaixo de todas as iniciativas de “paz”. Estamos ante guerrilheiros cujos pés confundem-se com a terra que pisam. São os que nunca tiveram coisa alguma e tudo merecem.

E não se trata de grupos militarmente derrotados, como os que se desmobilizaram em 1990-1994, mas de organizações fortemente arraigadas em amplas áreas do país, com capacidade operativa em quase todo o território nacional colombiano, com renovada capacidade de atacar as forças armadas do Estado; em amplas regiões do país, a guerrilha é realidade política inescapável, duplo poder autêntico, legitimado em outras comunidades pisoteadas pela consolidação territorial do Exército e o flagelo paramilitar. Por mais que alguns comentaristas queiram convencer-se do contrário [6], se a guerrilha negocia hoje é porque pode negociar, porque tem força e capacidade para negociar. Eles sabem bem, na Casa de Nariño [sede do governo da República da Colômbia], que a desmobilização e a rendição com que o uribismo sonha não são possibilidades políticas reais.

É o que se vê reconhecido, em coluna de 25 de agosto, de o Espectador:

É claro que as FARC não são interlocutor fácil. Querem reforma agrária, seja baseada na Lei de Terras ou na Lei de Vítimas; querem que se debatam novos contratos de trabalho com as multinacionais do petróleo e da extração de minérios; querem espaços políticos para avançar para contexto mais democrático; e creem que, hoje, a paz passa pelo melhor manejo do meio ambiente. O que resta são detalhes formais, como a exigência absoluta de que qualquer acordo a que se chegue seja assinado em território colombiano. [7]

Vê-se claramente que o discurso que apresenta as FARC-EP como organização “terrorista”, “bandoleirizada”, “convertida em cartel do narcotráfico”, “lumpenizada”, já não se sustenta, não passa de propaganda, mesmo que as FARC-EP talvez se sirvam de alguns métodos que podem ser questionados. Ninguém, em perfeito juízo, negará que tudo o que a guerrilha exige (terras, atenção aos recursos naturais, democracia, atenção ao meio ambiente, educação, saúde, seguridade social etc.) são temas de importância crucial, pontos em que as políticas do governo fazem água e para cujo encaminhamento é indispensável à participação do conjunto da sociedade. Que a guerrilha tome esses temas e converta-os em elementos indissociáveis com vistas a qualquer procedimento para superar o conflito social e armado de raiz, é perfeito pesadelo para os setores mais recalcitrantes da oligarquia.

O que aterroriza a oligarquia não é alguma suposta “bandoleirização” da guerrilha, sobre a qual tanto insistem os veículos da imprensa governamental, mas seu caráter político e revolucionário, tanto quanto a capacidade da guerrilha para articular as demandas de diferentes setores sociais.

Por isso, o bloco dominante sabe que a grande luta que se prepara no futuro é luta no campo político, muito mais que no campo militar. Porta-vozes do empresariado pronunciaram-se a favor de uma agenda limitada de negociação, à maneira da negociação com o M-19, quer dizer, negociação, sem mudanças estruturais [8]. Esperam sair das negociações com o menor número possível de concessões e reformas, e sabem que isso os põe em oposição não só à guerrilha, mas também a um setor importante do povo organizado. Por isso temos de estar atentos ao recrudescimento da guerra suja e dos ataques contra organizações populares que lutam por mudança social – ações que, tradicionalmente, sempre acompanharam os processos de diálogo na Colômbia.

A estratégia dos militares está em momento de esgotamento

Mas, embora essa oligarquia tenha muito receio de abrir as porta às negociações que, com certeza, levarão a um debate nacional sobre projetos antagônicos de país, ela também sabe que persistir no rumo guerreirista é atar a corda ao próprio pescoço; a guerrilha se está fortalecendo e vê-se hoje uma escalada do conflito social, com maior mobilização popular em todo o país, a qual se persistir, pode vir a ameaçar seriamente o comando do bloco dominante. O país está à beira de um novo ciclo de violência precipitado pelo deslocamento forçado, pelo despejo violento de camponeses e comunidades inteiras, pela penetração das mega mineradoras e da agroindústria por todo o país. A violência com que se vem sendo imposto o sacrossanto modelo, mediante o “Plano de (sub)Desenvolvimento Nacional” de Santos, gera, necessariamente, resistência. E a resistência, num país como a Colômbia , dá-se de múltiplas formas, e é o caldo do qual se pode nutrir uma situação potencialmente explosiva.

Negociar com a guerrilha pode ser útil para a oligarquia em suas projeções mais otimistas, para alcançar a paz neoliberal que permita fazer avançar o projeto neoliberal agro-extrativista, com redução dos níveis da resistência, pelo menos, dos projetos de guerrilha. Recente pesquisa entre empresários, feita pela Fundación Ideas para la Paz, concluiu que “A grande maioria deixou claro que descarta qualquer agenda de negociações que inclua reformas estruturais e com atores múltiplos, como aconteceu em Caguán  [B]. Preferem agenda limitada ao desarmamento dos guerrilheiros, com desmobilização e reintegração, na qual o estado possa ser ‘generoso’.” [9]. Quer dizer: paz para facilitar a exploração das massas e do meio ambiente colombiano.

Nas projeções menos otimistas da oligarquia, as negociações serviriam ao menos para ganhar tempo e preparar-se para enfrentar, de maneia mais letal e eficiente, o próximo ciclo que violência que já começa a surgir no horizonte. Tal foi a intenção real do governo de Pastrana ao enfrentar o processo de negociações de San Vicente do Caguán. O próprio Pastrana, que falava de paz, enquanto negociava o Plano Colômbia e dava rédea solta ao aparelho paramilitar do Estado, reconheceu isso, cinicamente, em artigo para marcar os dez anos do fim dos diálogos do Cagúan:

O Plano Colômbia (…) [nos] permitiu sentarmos à mesa de diálogo em desvantagem, praticamente desarmados, mas com a certeza de que, bem-sucedido ou fracassado, aquele diálogo terminaria com um Estado armado até os dentes e preparado, como nunca antes, para a paz e para a guerra. [10]

Em ambos casos, se a oligarquia buscar a pacificação do país sem mudanças substanciais, ou se buscar ganhar tempo para prosseguir no negócio da guerra, qualquer paz que se consiga será efêmera, não será mais que a calmaria que antecederá a violenta tempestade que armará a mão dos excluídos, dos despossuídos, dos violentados, dos oprimidos. E são eles que têm de se mobilizar para impor a necessária vontade de mudanças estruturais e de fundo: o vento sopra a seu favor de momento, pois a mobilização popular aumenta e há uma saudável tendência à unidade dos que lutam. Estes dois elementos favorecem as possibilidades de que o bloco popular converta-se em fator de peso nas negociações, sobretudo quando o bloco dominante apresenta contradições internas que, sem serem antagônicas, são bastante agudas e geram uma crise de hegemonia.

Os “inimigos esmagados” (mas não muito): Santoyo e as contradições entre os burgueses

Andrés Pastrana Arango
A hegemonia do bloco dominante, consolidada durante quase uma década de Plano Colômbia e a mal chamada “Seguridade Democrática” (da qual Santos foi continuador), vê-se afetada não só pela crescente mobilização e pelo descontentamento popular, mas também pela erosão da unidade do bloco dominante. São cada vez mais frequentes os choques entre o uribismo entrincheirado entre elementos linha-dura das forças militares, dos ruralistas e criadores de gado, da narcoburguesia e do gamonalismo  [C], que veem na guerra seu grande negócio; e o santismo, que representa os interesses supremos dos mais ricos e do capital transnacional, que buscam a “paz” para abrir passagem aos seus negócios e investimentos na área agro-extrativista. Embora esses últimos também tenham recorrido ao paramilitarismo para assegurar a “confiança dos investidores” e à violência para enriquecer, prefeririam um modo menos caro de garantir os próprios lucros, o que os põe em posição diferente em relação aos setores da burguesia que dependem, estruturalmente, do saqueio violento para acumularem capital.

El colunista Alfredo Molano, há alguns meses, analisava esta contradição no bloco dominante e o impacto que teria sobre um eventual processo de negociação:

... é mais fácil para o presidente negociar com a guerrilha que com os militares, os empresários e os caciques [orig.los gamonales], para não acabar derrotado em outro Caguán. Esse foi o verdadeiro obstáculo da negociação entre Pastrana e Marulanda. O erro do ex-presidente não foi a distância de 30 mil quilômetros; foi não ter negociado antes com o establishment e com os militares o preço que essas duas forças poderosas estavam dispostas a pagar [11]

Enquanto se aprofunda a crise de hegemonia do bloco no poder, e enquanto avançam as lutas populares, como a guerrilha, seria insensato para Santos não reagir à agitação que o uribismo continua a promover nos quartéis e seu trabalho de polarização no interior do establishment. Nem Santos (nem os ricos que ele representa, nem o imperialismo que o apoia) aceitarão que Uribe passe a ser fator de desestabilização. Todos eles apoiaram Uribe enquanto lhes foi útil e os ajudou a recompor a hegemonia de uma oligarquia decadente. Mas nem o imperialismo nem a oligarquia têm amigos: só têm interesses. No momento em que deixa de cumprir esse papel, Uribe passa a ser “descartável”.

Nesse sentido, deve-se interpretar o encurralamento geral que a justiça está impondo ao círculo íntimo do uribismo, com a condenação de Rito Alejo, os crescentes indiciamentos de paramilitares como Mancuso, por seus laços com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) [principal grupo paramilitar terrorista de direita, espécie de esquadrões da morte], as brigas entre os parentes narcos do ex-presidente e a deportação do general Santoyo.

Não que só agora nos estejamos apercebendo do que há de podre à volta de Uribe: sabe-se disso há muito tempo; mas agora o contexto é outro.

Mauricio Santoyo
O caso Santoyo, principalmente, parece ser instrumento importante contra Uribe: se alguém pode comprometê-lo com o narcotráfico e o paramilitarismo, é ele. Já começou a falar de alguns generais, inclusive do braço direito de Uribe, Mario Montoya; e ameaçou “cantar” sobre políticos [12]. Será Santoyo a carta do santismo para tentar por Uribe sob controle? Será preciso ver a reação de Uribe às notícias sobre a paz, o que provavelmente se conhecerá pelo Twitter. Mas se decidir continuar tentando a desestabilização, sua queda, muito provavelmente, é questão de tempo.

Introduzir povo na negociação

Por mais que devamos ver sem ingenuidade as negociações, e com muito realismo, é indubitável que o momento atual abre enorme potencial para superar as condições estruturais que levaram ao conflito social e armado na Colômbia, e que alimentaram esse modelo de capitalismo mafioso, cuja acumulação se faz pela expropriação violenta.

Tanto Santos como os empresários rejeitam, ou resistem a aceitar, a participação de “múltiplos atores” no processo de paz. Quer dizer, buscam excluir o povo da resolução de um conflito que o afeta diretamente, deixando assim intactas as condições para que novas violências eclodam, como as que eclodem cronicamente nas sociedades do pós-conflito centro-americano.

Timoleón Jiménez
Apesar de o movimento guerrilheiro na Colômbia ser parte de um importante acúmulo de lutas populares, e embora tenha importante nível de legitimidade em muitas regiões do país, claro está que nem a guerrilha nem nenhuma expressão do movimento popular colombiano pode assumir a exclusiva representação do movimento popular.

A própria guerrilha manifestou-se em várias ocasiões o seu acordo com essa posição, que eles veem como consistente com seus postulados históricos. Em sua resposta, ao professor Medófilo Medina, o comandante máximo das FARC-EP, Timoleón Jiménez, explica o sentido da luta política, “por poder para o povo”, dessa guerrilha comunista:

Nem no Programa Agrário, nem em qualquer documento posterior das FARC até hoje, jamais se propôs que, como organização político militar, nossa meta seja tomar o poder depois de derrotar, em guerra de posições, o Exército colombiano, como costumam repetir sempre os que insistem em nos mostrar que esse seria objetivo impossível. Desde nosso nascimento, as FARC sempre concebemos o acesso ao poder como questão de multidões em agitação e movimento. [13]

Nessa linha, o citado artigo de El Espectador expõe claramente, como problema para a negociação, que:

De antemão sabe-se que outro aspecto difícil é a agenda das FARC. Quanto a isso, está claro que, em princípio, a pretensão da guerrilha é meter a sociedade civil na questão. Quer dizer, que os movimentos sociais, a academia ou as minorias políticas tenham o mesmo direito de voz que as associações econômicas; por isso o chamado movimento da Marcha Patriótica pode aspirar ao protagonismo. Trata-se de criar espaços políticos nos quais a discussão não fique limitada à quebra de braço entre o Governo e a guerrilha. (…) Sobre a questão do Cauca, as FARC têm pensamento claro: se se chegar a um processo de paz com o Governo, os indígenas desse Departamento têm de ter voz especial na mesa de diálogo. [14]

É necessário que o povo reclame e exija seu direito de participar desse processo e o converta em diálogo nacional, no qual se discutam os projetos de país que estão em confronto e num conflito que não só é armado: é, sobretudo, social. Sobre a solução política, lê-se na mesma resposta do comandante Timoleón Jiménez que:

... não se pode entender qualquer solução política se não como reposicionamento da ordem existente. Não se trata de guerrilheiros arrependidos e completamente desacreditados previamente que entreguem armas, submetam-se ao escárnio jornalístico e jurídico, para em seguida, com a espada pendente por um fio sobre suas cabeças, tentarem entrar no mercado da política de partidos, para fazer coro às mentiras oficiais.

Trata-se, isso sim, de reconstruir as regras da democracia, para que se debatam ideias e programas em igualdade de oportunidades. Sem o risco de ser assassinado ao chegar em casa. Ou desaparecidos e torturados por uma misteriosa mão negra que já se noticia que existe, como as forças ocultas que exterminaram a União Patriótica sob o olhar impassível da classe política colombiana. É justo que se abra um debate público e livre sobre estes assuntos, que se possa falar desses temas, sem sermos arrolhados imediatamente pelos monopólios jornalísticos mancomunados.

É preciso meter povo nessas negociações, embora moleste a oligarquia ver tantos pés sujos tomando parte no debate político, terreno reservado por dois longos séculos de vida republicana a uma elite dourada, a estirpes moribundas e decadentes cujos sobrenomes repetem-se sempre nos cargos de poder.

Trata-se de ocupar esse espaço, de levar o debate político sobre a paz e a guerra, sobre o modelo político e econômico a todas as praças públicas da Colômbia , a todas as faculdades e escolas, a todos os locais de trabalho, às minas e as veredas rurais.

Trata-se de utilizar este debate para impulsionar um projeto de país que recolha e harmonize as demandas mais sentidas de todos os setores populares que hoje lutam contra o modelo econômico de morte e saque imposto pelos de cima.

O anúncio do início desse novo caminho de busca de solução política, não deve significar que se tenha de desmobilizar o povo. Ao contrário, indica que é hora de que o povo comece a lutar ainda com mais determinação, que se aprofunde a mobilização social e que se fortaleçam os espaços de unidade do povo em luta.

Hoje, mais que nunca, devemos evitar expressões como Marcha Patriótica, para evitar novo genocídio e proteger os espaços a partir dos quais o povo mobilizado faz ouvir sua voz e sua aposta por uma nova sociedade.

Devemos apoiar as lutas dos camponeses, dos trabalhadores, dos presos políticos, que estão em ações de desobediência e greves em todo o país.

Devemos exigir que cessem a estigmatização, a perseguição e o encarceramento dos lutadores sociais. É preciso exigir o fim do rótulo de “organizações terroristas” aplicado a guerrilheiros – só assim se garantirão condições ótimas para o diálogo franco e livre.

Devemos exigir que desse acordo inicial se avance para um cessar-fogo bilateral e para o desmonte do paramilitarismo, como modo de proteger a vida e a integridade desse povo que, agora, se deve converter em ator protagonista do processo.

Só a mobilização popular garantirá que este processo de paz que se vislumbra no horizonte leve às transformações estruturais que amplos setores reclamam na Colômbia. E, à luz dos enormes desafios que se veem postos à frente do poder, a luta pela paz será luta abertamente revolucionária. 

É hora de falar claramente sobre a natureza revolucionária dessa luta, que implica o confronto entre um modelo baseado na exploração, saqueio, morte e exclusão, e um modelo que cresce no coração do povo, baseado na inclusão, no respeito às comunidades e ao meio ambiente, de caráter sustentável, para que proteja a vida, a dignidade e a autodeterminação das pessoas.

O que está em jogo é, nada mais nada menos, o tipo de Colômbia que se quer construir.
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Notas de rodapé:

[1] 19/8/2012, ELESPECTADOR.COM - EFE, em: Uribe dice que Santos está negociando con las FARC en Cuba
[3] 27/8/2012 Semana.com em: ELN dispuesto a un proceso conjunto con las FARC”.
[4] Para um artigo que mostra as atitudes predominantes no Estado sobre os objetivos limitados que esperam obter de uma eventual negociação, ver: 26/8/1012, ELESPECTADOR.COM em: La paz de Santos”. 
[5] 27/8/2012, Rebelión, Horacio Duque Giraldo em: La pax santista, sin reformas y sin pueblo”.
[6] Ver, por exemplo, a última coluna de Humberto de la Calle, no ELESPECTADOR.COM, Paz de 26/8/2012.  Ou o artigo de 26/8/2012, La paz de SantosVer, em resposta a essa tese, nosso artigo anterior, de 14/2/2012, Hablemos del conflicto social y armado colombiano.
[7] 25/8/2012, ELESPECTADOR.COM em: Hora de decisiones de paz”.
[8] 27/8/2012, VERDADABIERTA.COM em: Empresarios apoyan una negociación con las Farc”.
[9] 27/8/2012, VERDADABIERTA.COM em: Empresarios apoyan una negociación con las Farc”.
[11] 17/6/2012, ELESPECTADOR.COM, Alfredo Molano Bravo em: La gran partida”.
[12] 25/8/2012, ELESPECTADOR.COM, María del Rosario Arrázola em: Santoyo hablaría de políticos”.
[13] 13/1/2012, Agencia Prensa Rural, Timoleón Jiménez em: Diálogo epistolar - Carta a Medófilo Medina de Timoleón Jiménez”.
[14] 25/8/2012, ELESPECTADOR.COM, María do Rosário Arrázola em: Hora de decisiones de paz”.
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Notas dos tradutores

*José Antonio Gutiérrez D. é militante libertário, residente na Irlanda, onde participa nos movimentos de solidariedade com a América Latina e Colômbia, colaborador das revistas CEPA (Colômbia) e El Ciudadano (Chile), e da página internet ANARKISMO . É autor de Problemas e Possibilidades do Anarquismo (São Paulo: Faísca, 2011, em português) e coordenador do livro “Orígenes Libertarios do Primero de Mayo en América Latina” (Quimantú, 2010). Colaborador de La Pluma.

[A] Ver socialbacaneria, onde se lê: “o termo socialbacaneria, que o presidente Álvaro Uribe usa desde a universidade para qualificar alguns setores que tomam as determinações de modo frívolo para apoiar o terrorismo” (El Espectador, 29/8/2012. Bogotá).

[B] Dia 8/10/1998, o então candidato à presidência Andrés Pastrana firmou acordo com comandantes das FARC pelo qual se criou uma zona desmilitarizada na região do vale do (rio) Caguán, chamada de El Caguán DMZ  (abrev. ing. DesMilitarized Zone), região de selva no centro-sul da Colômbia, no Departamento de Caquetá, para ali negociar um possível processo de paz. 

[C] Orig. gamonalismo. Vários especialistas consultados, mas nenhum especialista em espanhol peruano e/ou colombiano, sugeriram, para o mesmo conceito, em português do Brasil, o termo “caciquismo”, que aí usamos (à espera de melhor informação). A redecastorphoto sugere “coronelismo”.


Errata das “Notas dos tradutores”

[A] Socialbacanería é termo utilizado nos anos 80s, para descrever os “guerrilheiros de botequim”, gente de classe média, sem qualquer vínculo real com o campesinato, nem com os movimentos populares. Na Colômbia, aplicou-se, em particular, à direção do M19.

[C] Gamonales são os grandes proprietários de terra; no português do Brasil do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), “latifundiários”. A nota (ver abaixo em Nota en español) acrescenta informações que aproximam “gamonal” dos termo “cacique” (sempre político), de onde “gamonalismo” => “caciquismo”, em uso, no Brasil. Outras traduções são possíveis. Como sempre, na tradução de falares locais específicos; mais importante é sempre a quantidade de informações que se reúnem e que ajudam no processo de cada um/cada idioma aproximar-se o mais que possa do significado na língua de origem do termo traduzido.

La Pluma é publicação virtual, cuja “base” operacional está na França, não na Espanha, como se lê na tradução que distribuímos.

Nota en español: El gamonalismo es un término que empezó a acuñarse y usarse a mediados del siglo XIX en el sur andino peruano para designar a hacendados advenedizos, sin casta de cuño colonial y sin mayor refinamiento, que expandieron sus tierras y su poder socio-político (rendatario y clientelista) a costa de expropiar por medios ilícitos y violentos a los comuneros de los ayllus indígenas. Deborah Poole sostiene que el término deriva del nombre de "una planta perenne, virtualmente indestructible, de la familia de las liliáceas, el GAMÓN, [que] crece inclusive en los terrenos más duros y a veces es clasificada como una planta parásita, cuyo crecimiento y propagación se da en detrimento de sus vecinas menos agresivas" [Poole 1988: 372].

En décadas recientes, el término "gamonal" ha desbordado este marco socio-histórico hacia una termonología sociológica aplicable a la realidad actual de algunos países de América latina. En este marco, el concepto se emplea para aludir al "...potentado de uma región, comarca o municipio, que detenta el poder económico y político en un entramado de relaciones de dominación, que parten de la concentración de la propiedad de la tierra, el control de la intermediación comercial y las relaciones privilegiadas con las empresas externas que operan localmente, y que se proyectan hacia el control político y el dominio sobre los procesos electorales. El funcionario gubernamental que se propone hacer cumplir la ley, puede ser abandonado y sacrificado por el poder central, cerca del cual son siempre omnipotentes las influencias del gamonalismo, que actúan directamente o a través del parlamento, por una y otra vía con la misma eficacia.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

EUA suplicam que os Talibã negociem


20/12/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A matéria “exclusiva” da Agência Reuters [1] sobre contatos secretos entre os EUA e os Talibã é, sem dúvida, sensacional. Raras vezes o tabuleiro afegão foi tão claramente “desmitificado”. Serão os EUA, agora, “transparentes”? Uma nova abordagem? Porque tampouco os EUA jamais antes “revelaram” tanto de sua própria política regional, de modo tão explícito. Jamais tampouco se viram intenções de “processo de paz”, depois de guerra tão brutal, manifestas com tal sinceridade de intenções, com tantos bons propósitos, com tal generosidade em relação ao “inimigo”. 

Que chances há de alguma coisa do que a Reuters publica hoje “com exclusividade” ser verdade? 

Pergunto sobre as intenções que haja por trás de tantas declarações proferidas por militares norte-americanos identificáveis, falando todos, em fila, um depois do outro, em momento crucial de definição da guerra do Afeganistão. E escolhem logo, para divulgar toda aquela sinceridade e transparência, uma agência de notícias que tem leitores em todo o planeta, fazendo-a porta-voz daquelas “revelações”. 

O que pode ter empurrado, para tamanha exposição, aqueles “militares norte-americanos de alto escalão”? 

Comecemos pela “revelação” – que tem de simples o que pode ter de falsa: os EUA estariam trabalhando num “processo de paz” com os Talibã, com as conversações já bem adiantadas. E esses esforços alcançaram um ponto crítico, com boas chances de progressos consistentes; embora também tudo possa vir abaixo num segundo. 

Quanto aos motivos: os funcionários dos EUA falam ali para vários públicos. Há o público doméstico no país – os norte-americanos cansados daquela guerra e que já não vêem sentido algum em continuar no Afeganistão. Esses lêem, em matéria publicada pela Reuters, que o governo Obama empenha-se muito em pôr fim à guerra e avança palmo a palmo, com denodo, rumo ao fim do túnel. 

Assim sendo, que ninguém culpe o governo Obama se, apesar do esforço, a tentativa der em nada, por causa da intransigência dos Talibã. O mais importante de tudo: se, por acaso, a guerra prosseguir, e os EUA chegarem ainda em guerra ao ano da crucial (re)eleição presidencial de 2012, não terá sido por decisão do presidente-candidato Obama, mas por imperiosa necessidade. 

Obviamente, a lei sobre Guantánamo torna urgente alguma definição sobre o estatuto daqueles prisioneiros, antes que Obama sancione lei. Aqueles prisioneiros são lixo. Por que não se livrar deles e, de quebra, ainda extrair do lixo algum lucro político? 

Muito espertos. Sobretudo se a transferência dos prisioneiros para a custódia de Karzai puder ser apresentada como “movimento de cortesia” dirigido aos Talibã. 

A mensagem visa também os afegãos, especialmente o presidente Hamid Karzai, para que saiba que o nível de exasperação em Washington está alto; que, com ou sem o aval de Kabul, os EUA estão fazendo avançar sua própria agenda; e que já acumularam massa crítica.

Claro que é também mensagem para o Paquistão e para toda a região, os quais, depois dessa “notícia”, terão de começar a pensar sobre as intenções dos EUA no pós-2014.

O momento das “revelações” também é interessante:

a) Obama tem de dar respostas políticas “em casa”;
b) Washington está irritada com Karzai;
c) os EUA estão inseguros quanto às intenções dos Talibã;
d) o Paquistão entrou em modo de “desafio estratégico”; e
e) há oposição regional às bases militares dos EUA no Afeganistão.

A parte intrigante é que governos só “divulgam” sua diplomacia mais top secret quando, de fato, a confidencialidade deixou de ser interessante. Os funcionários do governo dos EUA que fizeram “revelações” à Agência Reuters admitiram publicamente que Washington desistiu de quaisquer “pré-condições” no relacionamento com os Talibã (que desistiu de todas, fossem quais fossem: que tenham de obedecer à Constituição afegã, que tenham de separar-se da al-Qaeda etc.); e admitiram que os Haqqanis também são muito bem-vindos ao grupo.

A grande pergunta é se as “revelações” sugerem que estaria aparecendo pensamento novo, com vistas ao cenário do pós-2014. Pelo que se pode ver, os EUA começam a considerar uma era pós-Karzai. Querem mostrar que aprenderão a conviver com um Afeganistão comandado pelos Talibã. Mas... e por quê os Talibã engoliriam tudo isso?

Como se poderia adivinhar que fariam, os Talibã imediatamente desmentiram tudo [2] e deram as costas à abertura proposta pelos EUA.

Pode não ser a última palavra dos Talibã.



Notas dos tradutores
[1] 19/12/2011, “Exclusive: Secret U.S., Taliban talks reach turning point”, Reuters, (em inglês).
[2] 19/12/2011, “No secret talks with U.S.: senior Taliban commander”, Reuters, (em inglês). 

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


domingo, 18 de julho de 2010

Washington não ajudará os palestinos

18/7/2010, Nicola Nasser, Middle East Online - Traduzido por Caia Fittipaldi

Nicola Nasser é veterano jornalista. Trabalha em Bir Zeit, Cisjordânia, Território Palestino Ocupado. Versão desse artigo, traduzido do árabe, foi publicado em Al-Ahram Weekly, Cairo, 15/7/2010.

Funcionários da OLP no governo de Mohamed Abbas sempre reclamam que consomem mais tempo em negociações com os EUA do que com os isrealenses.

Nos últimos tempos, isso parece ser mais verdade do que nunca. Desde o ataque de Israel contra Gaza, há quase um ano e meio, o governo de Abbas suspendeu todas as conversações com Israel e não faz outra coisa além de conversar com norte-americanos. O enviado especial do presidente Obama George Mitchell tem estado quase permanentemente na Região desde maio 2010, esforço que não dá sinais de qualquer resultado proveitoso.

Os palestinos não tiveram melhor sorte com os EUA, que com os israelenses. Não passa dia sem que alguém ‘solicite’ que os palestinos aceitem os termos da paz proposta por EUA-Israel, termos que não preveem qualquer outra via além de rendição e desastre. Além de exaurir os palestinos e empurrá-los para posições de desespero, de onde EUA-Israel esperam obter concessões, nada de mais substancioso brotou até agora das conversações, seja com os EUA seja com Israel.

Os EUA venderam falsas esperanças aos palestinos e deram tempo a Israel para ocupar mais terras e acomodar a demografia conforme seus projetos. Agora, já nem a folha de parreira das boas intenções esconde a verdade.

No encontro entre Barack Obama e Binyamin Netanyahu, na 3ª-feira passada, afinal, aconteceu o tiro de misericórdia, para por fim a qualquer fantasia que algum palestino ainda acalentasse, de que os EUA pudessem ajudar.

Os negociadores palestinos só fazem repetir que não lhes resta outra alternativa além de negociar com os EUA. Não é verdade. O povo palestino não quer que as negociações prossigam, e nosso espírito de luta continua vivo e forte. Se todas as demais vias fracassarem, sempre aí estará o povo e as soluções que o povo palestino encontrará, mais uma vez. Sempre aconteceu assim em toda a história do mundo: povos sob ocupação sempre resistiram. Os palestinos não somos exceção.

O presidente Abbas tem dito aos palestinos que a bola está no campo de Israel. Mais uma vez, a Casa Branca diz claramente que a bola, o campo, o árbitro e todos os jogadores têm de fazer o que os EUA mandem. Agora, então, Obama devolveu a bola ao campo palestino.

O processo de paz tem sido, no máximo, exercício de propaganda de EUA-Israel. No mínimo, é artifício político que visa a dar tempo aos sionistas e a enfraquecer os árabes. O processo de paz visa, exclusivamente, a criar uma 5ª Coluna entre os palestinos. O processo de paz jamais visou a construir paz alguma. A equação jamais tendeu ao equilíbrio.

É hora de os árabes, sobretudo os árabes palestinos, declararem que basta. É hora de ver que o processo de paz levou a nada, que não há paz, nem segurança nem desenvolvimento nessa Região.

Obama festejou Netanyahu, como George Bush festejava Ariel Sharon. As palavras que os dois presidentes usaram para os chefes israelenses foram praticamente as mesmas. Sharon foi apresentado como “homem da paz”. Agora, Netanyahu herdou o título, como se ninguém soubesse que, apenas alguns dias antes, ele ordenara o massacre dos ativistas da Flotilha da Paz; como se ninguém soubesse que, no mesmo dia em que Obama festejava Netanyahu, o grupo israelense B'Tselem distribuía relatório obsceno sobre a expansão das colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia.

Obama só teve elogios para o primeiro ministro de Israel. Não há diferenças entre Israel e os EUA, disse Obama, para quem as conversas com Netanyahu teriam sido “excelentes” e os laços que unem os EUA e Israel seriam “extraordinários”. Washington continua tão comprometida com a segurança de Israel como sempre esteve, e os “laços especiais” continuam firmes como sempre, como disse Obama a jornalistas.

Por sua vez, Netanyahu disse aos jornalistas que notícias sobre algum abalo nas relações EUA-Israel não passaram de boatos.

Para recompensar Netanyahu pelo que lhe parece ser “progresso” rumo à paz, Obama aceitou convite para visitar Israel.

Algum desses eventos surpreendeu o presidente Mahmoud Abbas?

Obama foi só gentilezas com Netanyahu. Palavras mais duras, ele as reservou sempre contra os palestinos. Aconselhou que parássemos de provocar e criar dificuldades para os israelenses. Os palestinos, que paremos logo de inventar “pretextos” para atrasar o processo de paz, que sentemos imediatamente à mesa para negociar com os israelenses. Todas as condições que Obama apresentara antes, para gerar melhores condições de negociações para os dois lados, parecem ter sido esquecidas. A posição atual dos EUA é que os palestinos ‘temos de’ aceitar negociações, imediatamente e sem condições.

Não era o que o presidente Abbas mais gostaria de ouvir. Em vez de estimulados, os palestinos recebemos ordens sobre como nos comportar adequadamente.

Funcionário próximo do presidente Abbas disse ao jornal Al-Quds Al-Arabi que “tudo sugere que o governo Obama forçará a Autoridade Palestina a aceitar negociações diretas” sem qualquer garantia e sem precondições. É exatamente o que Mitchell tenta conseguir nas muitas visitas recentes que tem feito à Região.

Agora, cabe a Abbas decidir. Se cede aos EUA, que é o que tem feito sem parar desde Annapolis em 2007, ou se enfrenta os norte-americanos. No primeiro caso, perderá a pouca credibilidade que lhe resta. No segundo, terá de sair do governo. Abbas já apostou todas as suas cartas nas negociações. E não resta qualquer esperança de que alguma negociação dê algum fruto.

Aos palestinos só resta a opção de resistir e resistir. É caminho, mais que longo e dificílimo, que exige união nacional. A OLP só chegou ao governo por ação da resistência e efeito da unidade nacional. Agora, a falta de resistência e de unidade nacional ameaça banir a OLP para sempre do cenário, ou a converterá em lacaios das forças de ocupação.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: No Help from Washington