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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para o Hamás, a primavera começou mais cedo

 Khaled Amayreh

7-13/4/2011, Khaled Amayreh [da Cisjordânia], Al-Ahram, Cairo, n, 1.042 
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu
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NOTA DOS TRADUTORES: O artigo abaixo não tem novidades. Mas é interessante, porque aí se ouvem vozes que estão totalmente varridas da ridícula imprensa brasileira. A ridícula imprensa brasileira tenta fazer-crer que o destino do mundo se jogaria exclusivamente em Washington ou no Pentágono (os quais, se se acredita no que se lê/vê na ridícula imprensa brasileira, dariam alto crédito às opiniões dos ridículos O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo e Rede Globo). Como se só importasse ao Brasil o que pensam que pensam as tristes Donas Danuzas, Doras, Elianes, saias-justas, papos-calcinha, Jabores, ou os hiperridículos Mervais Pereiras, Datenas, Waacks, BBBs, Magnollis, pânico-na-TV, Lampreias e que-tais). 
O artigo abaixo, hoje publicado no Cairo, mostra, pelo menos, com clareza de algum bom jornalismo, que o mundo se vai rearranjando, apesar do que “declarem” as Clintons, os Obamas, as OTANs e coisa-e-tal, divulgados pelas grandes agências de notícias, religiosamente papagaiadas aqui pelos “noticiários” e “analistas” (só rindo!) ainda tucanos (mas... tucanos?! Como assim?! Que tucanos?! Cadê os tucanos?! O DEM?! Mas... mas... Cadê o DEM?! Que DEM, sô?! [risos, risos]).
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Apesar das muitas afirmativas na direção contrária, os mais recentes esforços para restaurar a unidade nacional dos palestinos, entre Fatah e Hamas, parecem não estar trazendo resultados estimulantes. Fatah e Hamas têm trocado acusações sobre as respectivas sinceridades no trabalho de por fim aos três anos de disputas.

O Hamás ainda não anunciou data definitiva para a hoje já duvidosa visita que consta que  Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, estaria planejando fazer à Faixa de Gaza. Alguns dos líderes do Hamás acusaram Abbas e a liderança do [partido] Fatah na Cisjordânia de planejar “visita de relações públicas”, para deixar a sempre referida ‘bola do jogo’ no ‘campo’ do Hamás.

O Hamás, que não tem posição unânime sobre essa visita, exigiu que a visita não seja anunciada antes de que se possam tomar medidas necessárias para que a visita tenha sucesso. Entre essas medidas, é preciso algum acordo sobre pontos políticos controversos, o fim das prisões políticas, a libertação dos presos políticos e fim à atmosfera ditatorial, de estado policial, na Cisjordânia.

Para o Hamas, a recusa do Fatah, que não aceita negociar seriamente essas exigências, implica que o Fatah não tem intenção séria de reconciliar-se com o Hamas.

“Já várias vezes solicitamos que Abbas envie delegação precursora a Gaza, ou a outro lugar que escolham, para que se possa planejar a visita. Parte desse planejamento implica acertar posições sobre pontos não consensuais, de modo que a visita possa ser, de fato, o coroamento de um acordo entre as duas partes [Fatah e Hamas]. Mas Abbas parece desejar fazer mera visita protocolar e formal, sem associá-la à reconciliação. A posição do Hamás é: primeiro o acordo, depois a reconciliação oficial.” 

Como seria de prever, o Fatah reagiu em fúria. Disse que o Hamás opõe-se à reconciliação, porque teme o resultado de eleições livres e democráticas na Palestina, quando o eleitor dirá a última palavra. “As objeções do Hamás implicam rejeição tácita do gesto de generosidade do presidente Abbas, que quer ir a Gaza e firmar o acordo, para virar definitivamente essa página de nossa história”, disse o deputado Azzam Al-Ahmed.

Mahmoud Al-Zahar, do Hamas desqualificou os comentários do Fatah; disse que “não estão alinhados nem com a verdade nem com a realidade”. “Podemos facilmente firmar um acordo, desde que não se discutam as questões importantes. E o acordo não durará cinco minutos. O Hamás está decidido a não repetir os velhos erros.” 

De fato, parece que os dois lados estão à espera de que o Egito reinicie as conversações de reconciliação, que chegaram a ser iniciadas há algum tempo, coordenadas pelo ex-chefe de segurança do Egito general Omar Suleiman. O Alto Conselho das Forças Armadas [ing. Higher Council of the Armed Forces (HCAF)] que governa atualmente o Egito, recebeu recentemente líderes do Fatah e do Hamas, entre os quais Al-Ahmed e Al-Zahar.

Al-Zahar, que esteve no Cairo essa semana, disse que o Egito não parece inclinado a participar do diálogo entre Fatah e Hamas. “Os irmãos egípcios preferem a posição de observadores. Querem que os palestinos construam o acordo eles mesmos, sem qualquer interferência ou pressa externa. Pedem apenas que a declaração final e a cerimônia de reconciliação sejam feitas no Cairo.”

O Hamas já convidou o Fatah e outros grupos palestinos para “um importante encontro” em Gaza, para discutir os esforços de reconcliliação. Durante esse encontro, que aconteceu na 3ª.-feira, 5/4, Ismail Radwan, do Hamás, disse que o governo egípcio prometeu levantar o sítio de Gaza e permitir o trânsito de bens e pessoas pela passagem de Rafah.

Outro líder islâmico, Ismail Al-Ashkar, revelou que teve dois outros encontros, dois dias antes, no Cairo: um foi coordenado pelo presidente da Liga Árabe Amr Moussa; o outro, com vários líderes do atual governo egípcio. O governo do Egito também convidou  Abbas a visitar o Cairo, provavelmente dia 6/4, 4ª-feira, para revisão dos esforços de reconciliação.

Segundo fontes palestinas, os esforços em curso visam a reestruturar a OLP (Organização de Libertação da Palestina), de modo a garantir representação justa para todos os grupos palestinos, incluindo o Hamás e a Jihad Islâmica.

O Hamas sempre relutou em assinar qualquer documento preparado pelo regime deposto de Hosni Mubarak. Mas o Hamas tem poucas ou nenhuma reserva em relação ao novo governo do Egito, considerado isento de qualquer ranço anti-islâmico, característico do governo deposto de Mubarak.

Quanto ao governo do Egito, tem dito que não favorece nenhuma das organizações palestinas e visa, exclusivamente, a restaurar a unidade dos palestinos.

Os palestinos, de modo geral, investem grandes esperanças nas mudanças revolucionárias em curso no mundo árabe, sobretudo no Egito, que veem como benéficas à causa palestina e militam contra a hegemonia militarista de Israel, na região. Israel sempre considerou o governo de Mubarak como aliado estratégico crucialmente importante do estado judeu.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ALTO COMANDO MILITAR EGÍPCIO TEM SEDE EM WASHINGTON

Laerte Braga

O marechal Mohamed Hussein Tantawi, presidente do Supremo Conselho Militar do Egito e sucessor de Hosni Mubarak é parte da brutal ditadura contra a qual os egípcios se levantaram e obedece a Washington.

O ex-ditador não renunciou à “presidência da república”. Nem ele e nem o general Omar Suleiman, o “vice-presidente”. Na quinta-feira Mubarak discursou em rede nacional de televisão dizendo que permaneceria no poder até as eleições de setembro e na sexta, surpreendendo aos próprios revoltosos deixou o poder.

Entre quinta e sexta-feira o marechal Tantawi conversou cinco vezes por telefone com o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. A última conversa foi após o pronunciamento de Mubarak e Gates disse ao marechal Tantawi que para manter a “ordem” e evitar o “caos” era necessário que Mubarak e Suleiman saíssem.
 Sulei
Quando se extrai um tumor maligno, ou a cirurgia remove o tumor e seu entorno, ou o tumor permanece vivo. Nada muda, apenas a sensação de mudança. É o que está acontecendo no Egito.

O governo provisório (pelo menos por enquanto, pode virar definitivo) vai afrouxar aqui e ali, mas só nos adereços, e as mudanças pretendidas pelos egípcios vai depender das ruas e da oficialidade jovem das forças armadas, fator decisivo na decisão dos EUA que determinaram ao marechal Tantawi o afastamento de Mubarak e Suleiman.

O alto comando militar egípcio tem sede em Washington e os velhos generais e marechais que comandam as forças armadas não diferem em nada de Hosni Mubarak, ele próprio, um marechal.

De uma certa forma o que vai acontecer é uma incógnita. Os próximos dias serão decisivos para a luta popular e a oficialidade jovem (muitos aderiram aos rebeldes na Praça da Libertação e isso foi vital para a decisão dos norte-americanos, o temor de uma rebelião dentro das forças armadas, o medo de perder o controle).

E transcendem ao Egito. Manifestações contra o governo ditatorial da Argélia estão sendo reprimidas de maneira violenta pela ditadura naquele país. No Iêmen o povo se levanta contra o governo e há indícios claros de insatisfação na Jordânia.

Chegam até a Israel, onde parte da população começa a perceber que os governos que sucederam a Rabin (assassinado por um fanático judeu logo após o acordo de paz assinado com Yasser Arafat) têm um caráter ditatorial e colocam em risco a segurança do país. Em Tel Aviv já acontecem manifestações pela paz com os palestinos, tanto quanto, líderes de movimentos de direitos humanos e pela paz são presos e condenados. Silenciados.

Se você acerta um lobo com um golpe não fatal o lobo se torna muito mais perigoso e apavorante que antes do golpe. É o caso dos EUA e toda a sua extensa rede de terror espalhada pelo mundo.

Imerso numa crise na qual se percebe o declínio do império, escora-se num arsenal bélico capaz de destruir o mundo quantas vezes for preciso para manter a democracia cristã e ocidental do deus mercado.

Não é uma nação, apenas um conglomerado terrorista EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A. E cada vez mais os norte-americanos vão se revelando um povo doente e fanático em sua imensa maioria.

Em Bruxelas, Bélgica, discute-se um sistema antimísseis que cria um escudo protetor em toda a Europa e pretendem obter a concordância da Rússia, vale dizer, sua capitulação à OTAN – ORGANIZAÇÃO DO TRATADO ATLÂNTICO NORTE – braço terrorista do conglomerado na Europa.

A ressurreição do nazismo foi anunciada pelo primeiro-ministro da principal colônia do conglomerado no velho mundo, David Cameron. Falou em fim do multiculturalismo. A existência, coexistência e convivência entre diferentes. Pacífica e harmoniosa.

O que se viu na Praça da Libertação foi um povo sem preconceitos, cristãos e muçulmanos lutando e rezando em comum pelo fim da barbárie.

E a barbárie está em Washington, em Tel Aviv, em países árabes governados por ditadores, na Europa colonizada e cercada de bases militares do conglomerado terrorista por todos os lados.

Neste sábado, em Roma e várias cidades italianas, milhares de cidadãos vão às ruas para mostrar sua indignação com o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, uma reedição esfarrapada do Duce. A grande chacota do mundo, mas que cumpre à risca o papel que lhe cabe nesse espetáculo determinado pelos EUA. Não por outra razão é um dos donos de um império midiático.

Quem pensa que GLOBO, FOLHA, VEJA, etc. existem só no Brasil se engana. Os terroristas do conglomerado, desde a derrota militar no Vietnã aperfeiçoaram e aumentaram o controle da mídia em quase todos os países do mundo. É o arsenal da mentira repetida à exaustão até que vire “verdade”.

Em Argel o ditador colocou nas ruas policiais (via de regra recrutados entre assassinos como fazia Mubarak) e militares (que em quase todo o mundo, Brasil inclusive, se atribuem o monopólio do patriotismo na versão de Samuel Jackson, “o último refúgio dos canalhas.”  

O Comitê de Segurança Nacional da Câmara de Deputados do conglomerado EUA/ISAREL TERRORISMO S/A, numa audiência na quarta-feira, nove de fevereiro, deu seu aval à ordem do presidente branco – disfarçado de negro – Barack Obama, para que o imã Anwar al-Awlaki, seja assassinado pelos “serviços secretos”. É acusado de pertencer a Al Qaeda e ser “mais perigoso que Osama bin Laden.

O imã nasceu no Novo México, nos EUA, é filho do atual ministro da Agricultura do Iêmen e acusado de vários “crimes de terrrorismo”. O espírito democrático, cristão e ocidental de Obama entende que deva ser assassinado em nome da liberdade e outras coisas mais, no fundo, para não atrapalhar os “negócios”.

O deus mercado exige sacrifício de mortais comuns que se oponham ao uso de tênis de marca, ao consumo de sanduíches Mcdonalds, se recusem a assistir as tevês do grande irmão, ou ouvir a suas rádios e ler seus jornais e revistas. A aceitar a ordem suprema e despirem-se da condição de humanos. Mortos vivos.
O que egípcios – cristãos e muçulmanos – mostraram ao mundo é que é possível sair da escuridão e enxergar o sol. É claro que a luta não termina na saída de Mubarak, é mais ampla e estende-se às nações de todo o mundo.

No terceiro dia do julgamento do pedido de extradição de Julian Assange feito pela antiga Suécia – importante base do conglomerado na Europa – o juiz Howard Ridlle pediu mais tempo para decidir se aceita ou não o pedido.

A falta de provas dos crimes imputados a Assange, responsável por revelar através do WIKILEAKS toda a podridão e terror do conglomerado EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A, deve ter sido o motivo. Vão tentar encontrar formas de entregar Assange a Suécia para que no curso normal de uma ação criminosa ele possa ser levado aos EUA e julgado. Corre o risco da pena de morte. De qualquer forma, para extraditá-lo vão precisar de muitos coelhos e muitas cartolas.

O último ministro das Relações Exteriores do Brasil (o atual é funcionário do Departamento de Estado do conglomerado), Celso Amorim, em entrevista telefônica a CARTA MAIOR – mídia limpa, sadia – afirmou que “as revoluções populares que o mundo assiste agora especialmente na Tunísia e no Egito, acontecem em países considerados amigos do Ocidente que não eram alvo de nenhum tipo de sanção por parte da comunidade internacional”. E fulminou – “isso mostra que a posição daqueles que defendem sanções contra o Irã é equivocada”.

Mohamed Hussein Tantawi, o marechal egípcio que assumiu o governo daquele país é só um nome. Poderia ser David Cameron, Sílvio Berlusconi, o primeiro-ministro sueco, Antônio Patriota, poderia ser José Sarney, por exemplo, que guarda com Hosni Mubarak e Omar Suleiman os mesmos cabelos pintados, provavelmente com tintura importada/doada pelo conglomerado (percepção do deputado Chico Alencar).

É por aí que o Egito e os egípcios transcendem a si próprios e se estendem por todo o mundo.

A luta pela sobrevivência do ser humano não será ganha em shoppings e nem diante da telinha inebriado com o BBB. Mas nas praças e ainda não terminou para os egípcios e nem começou para muitos povos.

É de sobrevivência. A suástica está em marcha, viva e feroz, no conglomerado terrorista EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A, no discurso de David Cameron, um dos porta-vozes da barbárie. 

Por trás daquele discurso vazio e sem sentido de Obama na sexta-feira após a saída de Mubarak, o que existe de fato é o cinismo da estupidez e da violência do conglomerado. Palavras ocas para fora e ordens de assassinato para dentro.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Egito: A Batalha do Nilo

A tremenda batalha campal enfrentada pela população egípcia. Que ninguém pense que foi uma festa da  democracia. Foi uma verdadeira batalha campal contra os esbirros de Mubarak e Suleiman. A luta ainda não terminou... Ainda terão que lutar contra os MILICANALHAS de lá...


Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

VELHOS E CORRUPTOS GENERAIS

Laerte Braga

É uma ilusão vendida pela mídia privada em quase todo o mundo a neutralidade do exército egípcio na crise que vai levando de roldão a ditadura do general Hosni Mubarak. Os velhos generais que controlam as forças armadas são ligados ao ditador, aliados de Israel e corrompidos pelos trinta anos de poder e privilégios.

Se ainda não houve um massacre de revoltosos civis e desarmados é porque buscam uma alternativa a Mubarak que não mude coisa alguma. E porque não querem chocar o mundo com um banho de sangue. É resultado da ação dos Estados Unidos e suas colônias européias e dos interesses do governo nazi/sionista de Israel. É necessário não deixar rastros da barbárie.

A mídia independente em países europeus, mesmo privada, já noticia que aviões israelenses desembarcaram no Cairo com armas especiais para dispersar protestos, manifestações, enfim, por fim à rebelião.

Em dois de setembro de 1945 Ho Chi Min proclamou a independência da República Democrática do Vietnã. Na derrota militar francesa em Dien Bien Phu, a partilha do Vietnã ficou consolidada até a expulsão dos norte-americanos, no início da década de 70 do século passado.

Os norte-americanos ao perceberem a iminência da derrota dos franceses ofereceram duas bombas atômicas emprestadas para que Paris pudesse fim à guerra. Os franceses tiveram o bom senso de não aceitá-las.

Na década de 80 do século XX Israel colocou à disposição do presidente branco da África do Sul, Frederik Willem de Klerk, uma bomba atômica para acabar com a luta do povo negro e garantir a hegemonia da população branca, minoritária.

Era tarde. A mesma bomba foi oferecida a Pieter Willem Botha. Em 1994, após anos na prisão, Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul e terminava o regime do apartheid.

São Tomás de Aquino entendia que a guerra pode ser justa desde que preencha condições como ser declarada por uma autoridade legítima, ser por uma causa justa e ser conduzida sem ódio e excluindo a mentira (Suma Teológica, II, 40.).

João XXIII na encíclica MATER ET MAGISTRA considera válidos os recursos da luta armada quando esgotados todos os demais. Essa posição não foi revista pelo papa Paulo VI e nem no breve período de João Paulo I, o cardeal Albino Luciani. Os dois “papas” seguintes, João Paulo II e o atual Bento XVI tiveram e têm o caráter fascista da igreja absolutista e medieval. Bárbara. São criminosos.

Os egípcios vivem um dilema. Não querem a ditadura militar de Mubarak e seus generais. Não toleram Omar Suleiman, o vice-presidente, ligado aos EUA e a Israel (responsável pelo massacre de milhares de palestinos que fugiam do genocídio do estado nazi/sionista, pela fronteira entre os dois países, Egito e Israel) e não acreditam que os velhos e corrompidos generais sejam capazes de restaurar a dignidade nacional e os direitos elementares do povo.

A neutralidade dos militares é apenas a impossibilidade de massacrar o povo, o temor de um conflito que se espalhe por todo o Oriente Médio e ponha em risco os interesses dos norte-americanos e de Israel.

Quando os EUA ofereceram à França duas bombas atômicas para por fim à guerra da antiga Indochina nem por um instante se preocuparam com os milhares de mortos caso o governo de Paris tivesse aceito a oferta.

Não tiveram essa preocupação nem em Hiroshima e nem em Nagazaki quando a guerra já estava ganha e as duas bombas foram manifestações estúpidas de força e terrorismo.

Nem Israel se preocupou com os negros africanos quando ofereceu uma bomba nuclear ao governo racista da África do Sul.

O que importava ali, nas duas ocasiões, como o que importa hoje, são os “negócios”.

A Europa Ocidental é uma região do mundo colonizada pelos Estados Unidos. Países como a Grã Bretanha, Suécia, Itália, Alemanha não têm autonomia alguma diante de Washington.

Os povos africanos, asiáticos, latino-americanos e o povo muçulmano são os alvos do conglomerado EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A.

Na década de 60 assumiram o controle das forças armadas dos países latino-americanos (a exceção de Cuba) e impuseram ditaduras cruéis e um poder militar sem entranhas. No Brasil inclusive.

Despejam na Somália lixo atômico e consideram os somalis piratas por se revoltarem contra essa violação clara de sua soberania.

Controlam a mídia privada em boa parte do mundo e se sustentam tanto no espetáculo como no terror dos seqüestros, assassinatos seletivos, campos de concentração, guerras contínuas onde a vitória não importa, importam os negócios.

Os velhos generais egípcios e toda a sua arrogância – Mubarak é um deles –foram derrotados em todas as ações militares que tentaram empreender contra Israel e acabaram aceitando a tutela norte-americana (e o dinheiro lógico). São podres, estão carcomidos pela incompetência, pela corrupção e pela absoluta ausência de compromisso com o Egito.

Não são diferentes da maioria esmagadora das forças armadas em todo o mundo, inclusive a nossa (não aceita a história real da ditadura, prefere manter oculta toda a barbárie do período).

O indicativo de todo esse preconceito veio no discurso do primeiro-ministro britânico, David Cameron, moleque de recados dos EUA, ao anunciar que o multiculturalismo fracassou. Não é bem assim. Não interessa aos “donos” que o multiculturalismo seja uma realidade à medida que atrapalha os negócios e tanto a guerra como o terrorismo são grandes negócios.

A revolução egípcia não se resume à queda de Hosni Mubarak, um velho corrupto general/ditador. Omar Suleiman é inaceitável para o povo.

Reformas constitucionais não vão garantir aos egípcios que suas vontades e aspirações se materializem. A constituição é autoritária, resulta de um regime ilegítimo.

Estamos assistindo ao começo do fim de um grande império, o norte-americano. O presidente que cava mais fundo a cova desse império é um branco engraxado com graxa preta.

Esse tempo é o tempo da história, não é o tempo cronológico que quase sempre temos como referência.

A revolução egípcia, como antes a revolução islâmica no Irã, transcendem ao Egito, estão para além das fronteiras do Irã e não diz respeito apenas aos muçulmanos.

Mas a todos os africanos, a todos os asiáticos, a todos os latino-americanos. Aos povos do leste europeu onde as hordas de bárbaros dos EUA tentam chegar das mais variadas formas.

É mais ou menos como disse um cidadão comum da Ucrânia. “Estamos ficando cansados de ver nossas mulheres prostituídas pelo Ocidente e os nossos povos escravizados pelo imperialismo dos americanos”.

É bem mais amplo o espectro da revolta de egípcios.

Querem nos fazer crer, através da mídia privada e podre, que muçulmanos são bárbaros, são cruéis, atrasados, para que aceitemos a realidade de assassinos que matam professores e colegas em escolas por conta de uma nota baixa. Querem nos tornar obesos em todos os sentidos com os sanduíches Mcdonalds e toda a parafernália hollywoodiana que exportam.

O império está em declínio e a sociedade norte-americana está doente.

EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A, a despeito dos discursos de paz e democracia, neste momento, se tornam bem mais perigosos, pois estão começando a perceber que não basta dar os anéis, terão que dar os dedos também.

E não há ódio no coração dos egípcios. Maomé não revelou o ódio. A misericórdia sim. Mas a passividade diante dos inumanos não. Norte-americanos e nazi/sionistas não são humanos e o próprio povo de Israel começa a perceber essa realidade.

O mundo não se encerra em minúsculas doenças Faustão ou BBB, mas na grandeza do ser humano como tal.

É o que começa a ser mostrado no Egito, uma nação que traz consigo o germe de uma cultura extraordinária e uma história que não comporta nem gente como os velhos e corruptos generais Mubarak, muito menos Suleiman.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Egito: Pão, dignidade e mentiras

Pepe Escobar

11/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


E então, o “Sheik al-Tortura” Suleiman avisou que é ou “diálogo com a oposição” ou “um golpe”. O doce homem de ponta da CIA-EUA, responsável pelos prisioneiros especiais entregues ao Egito para serem interrogados e hoje condutor da “transição ordeira” com que sonha Washington, é provavelmente mais versado em eletrochoques que em onanismo; não fosse, teria percebido que ditadura militar que se autoderrube nem por isso deixa de ser ditadura militar. 

Pois parece que foi exatamente o que Suleiman disse. Disse que os protestos são “muito perigosos” – referindo-se, sem qualquer sutileza, à interferência da agenda oculta dos jornalistas estrangeiros; à coalizão subversiva de EUA, Israel, Hamás, Hezbollah, Irã e al-Jazeera; à Fraternidade Muçulmana; e a todos os acima listados (e já devidamente evocados pelo regime). 

Osama Saraya, editor-chefe do jornal governista al-Ahram, que lá estava quando Suleiman vociferou suas ameaças sinistras, tem certeza de que Suleiman não falou só de golpe militar: falou também de golpe islamista. 

A reação da rua foi rápida. O sit-in diante do Parlamento – um segundo front, ao lado da Praça Tahrir – agora é permanente; milhares de manifestantes já forçaram o membro da junta militar convertido em primeiro-ministro Ahmed Shafiq a transferir o ministério da Aviação Civil para outra ponta da cidade do Cairo. Recapitulando: a junta militar que está hoje no poder é composta de Suleiman, Shafiq, marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi (ministro da Defesa há, já, 20 anos) e o tenente-general Sami Annan (comandante do exército). 

E quanto aos milhares de trabalhadores que se reuniram diante do ministério do Petróleo? O blogueiro Hossam El-Hamalawy acertou na mosca: a “classe operária entrou oficialmente na batalha”. 

A Fraternidade Muçulmana, por sua vez, deu o prazo de “uma semana” para que o regime atenda as demandas populares. O Movimento da Juventude 6 de Abril, em e-mail para todos os membros de sua página Facebook, lembrou que não haverá conversações com o regime até que o presidente Hosni Mubarak se vá. Só então aparece o xis da questão: reformas constitucionais sobre direitos civis, liberdade política e independência do Judiciário; e novas políticas econômicas, chaves para combater a miséria, o desemprego, a injustiça social e a monstruosa corrupção. 

Quanto ao “diálogo” entre o Sheik al-Tortura e a oposição, a rua e uma oposição mais institucionalizada já o viram como é: miragem. Não surpreende que as greves se alastrem como fogo em mato seco; empregados da imprensa estatal começam a abandonar o navio; nomeados pelo novo gabinete renunciam. O regime está tentando todos os truques do manual – de processar ex-ministros a oferecer aumento de 15% nos salários. E os protestos de rua crescem e crescem. 

Diaa Rashwan, membro do autodesignado Conselho de Sábios, diz que as negociações estão mortas: “A estratégia visava a ganhar tempo e paralisar o movimento (...). Não queriam conversar nada com ninguém. No início dessa semana estavam convencidos de que os protestos logo se esvaziariam.” 

Enquanto isso, às margens do Potomac... 

Eis o que se ganha, quando se aposta em pangaré viciado em tortura. Os atores do poder em Washington, seus dedicados cortesãos imperiais, as hordas de sicofantas na imprensa, todos estão absolutamente atônitos. 

Poucos, praticamente nenhum, em toda essa acolhedora pátria, rica, high-tech, vasta terra de apparatchiks, jamais sequer imaginaram que algum dia enfrentariam revolução não-violenta, não-sectária, não-islamista, não-ideológica, não-hierárquica, sem-liderança, de rua, conduzida por cidadãos comuns, decentes, a boa gente de – Santo Corão! – um estado árabe cliente. 

Não há exército (decadente) para combater – nem para armar com ele algum negócio sujo (sim, o “Sheik al-Tortura” e suas coortes militares sempre podem ser comprados. Mas não são o inimigo: esses, agora, são os “nossos” pangarés). Onde se metem os Ho Chi Minh, Che Guevara, Ruhollah Khomeini, Saddam Hussein, Osama bin Laden, quando se precisa deles?! 

Ninguém, sequer, a ser demonizado, ninguém a quem dizer “ou estão conosco ou estão contra nós”, nenhum território a bombardear com choque e horror. A menos que se considerem “o inimigo” os grupos de jovens (não “sábios”) que estão à frente da revolução, que, no domingo, formaram uma coalizão chamada “Liderança Unificada dos Jovens da Revolução da Fúria” [orig. Unified Leadership of the Youth of the Rage Revolution]. “Uau! Parece coisa de comunista!” – como se entreouviu, murmurado em Langley. 

O “inimigo” são jovens egípcios – os rapazes e moças do Movimento de Juventude 6 de Abril, o Grupo Justiça e Liberdade, a Campanha Popular de Apoio a [Mohamed] ElBaradei, o Partido da Frente Democrática e – alerta antiterroristas! – a Fraternidade Muçulmana. Isso, sob a liderança combinada de 14 jovens, entre 25 e 35 anos aproximadamente. Num mundo ideal de “nós contra eles”, bastaria uma equipe especial de ataque-detonação – ou, para melhor relação custo-benefício, um avião-robô armado Reaper – para enfiar um pouco de realpolitik naqueles cérebros. 

Como derrubar Mubarak, se os 325 mil bandidos/informantes da segurança central e os 60 mil soldados da Guarda Nacional obedecem ordens do ministro do Interior de Mubarak? E como derrubar Mubarak, sem derrubar a ditadura – a mesma ditadura que enriqueceu obscenamente sob o mubarakismo? Como conseguir que façam algumas concessões eleitorais superficiais que aplaquem e desmobilizem a revolução da rua? E como tornar críveis essas concessões, agora que a classe trabalhadora entrou na luta, sem que a massa de soldados arregimentados entre os pobres do Egito rural comecem a ter ideias revolucionárias? (E ainda nem falamos do Egito rural, onde vivem 57% dos egípcios, 40% dos quais têm de sobreviver com menos de 2 dólares por dia). 

Claro que Washington está com medo: não se aplica ao Egito nenhum manual de “surge” de aviões-robôs armados operados à distância. 

Simultaneamente, outras ditaduras-pilares da “estabilidade” no Oriente Médio – descritas rotineiramente pelos sicofantas imperiais como “moderadas” – estão ainda mais apavorados. O rei Abdullah da Jordânia pressiona por uma “transição calma e pacífica” – como se o Sheik al-Tortura e sua gangue fossem figurinhas de filme Disney. A Casa de Saud, aquele bastião da inteligência ilustrada, pelo menos, já cuida de alertar Washington sobre o que virá: qualquer expulsão apressada de Mubarak “comprometerá interesses dos EUA” e “depois dele, seremos nós”. 

Pão e tortura 

Durante os trinta anos de Mubarak, o Egito foi mantido pobre – 116º lugar na lista dos maiores PIB per capita. É justo dizer que nos últimos tempos foram tornados cada vez ainda mais pobres, também, por Wall Street. 

O milho subiu 92% num ano; o trigo, 80% – com os efeitos conhecidos sobre o preço do pão, da carne e dos laticínios. A Organização da ONU para Alimentação e Agricultura [ing. The United Nations' Food and Agriculture Organization] mostrou que os preços globais dos alimentos sofreram alta recorde, acima dos preços da crise de alimentos de 2007/2008. A inflação do preço dos alimentos manda hoje em todo o mundo, não só no Egito (onde os alimentos consomem mais da metade de uma renda média: a inflação no preço dos alimentos atinge no Egito assustadores 17% ao ano). 

Mas o ponto absolutamente crucial em tudo isso não é a demanda crescente nos gigantes Índia e China; nem os cortes nos subsídios para alimentos; nem o estado usar mais biocombustíveis; nem as inundações e baixas colheitas na Rússia, Austrália, Argentina ou as próximas, na China. Esses são fatores. É bobagem pedir aos manifestantes que rezem para fazer chover na China. 

O ponto absolutamente crucial na carestia da comida é a especulação de cassino, pelos bancos de investimento, nas bolsas de alimentos “futuros”. 

Somando tudo: a bolha das hipotecas fez inchar exponencialmente a riqueza dos banqueiros globais (e empurrou milhões para dormirem ao relento); agora, é a bolha dos alimentos, que funciona do mesmo modo (e empurra dezenas de milhões em direção da fome), sem que se veja qualquer luz em futuro próximo. 

É consequência direta da desregulação introduzida pelo Commodity Futures Modernization Act de 2000, lei aprovada no governo de Bill Clinton, e o advento de mercados “negros” futuros desregulados, como o Intercontinental Exchange em London – inventado por Wall Street, pelos bancos de investimento europeus e por setores do “Big Oil”. 

Robert Alvarez, especialista sênior do Institute for Policy Studies, lembra o que Michael McMasters, gerente de um fundo “hedge”, disse num painel no Senado dos EUA em 2008: “cria-se uma espécie de manada eletrônica, que amplia muito o efeito inflacionário do mercado. Literalmente [aquela lei] significa fome para milhões no mundo pobre”. 

McMasters estimou que, nas bolsas dos EUA, 64% de todos os contratos de trigo são exclusivamente especulativos. Hoje, já deve ser mais. É o que George Soros descreveu como “acumular secretamente direitos sobre a comida em época de fome, para auferir lucros dos preços crescentes”. 

E há também o Goldman Sachs e seu “commodity index fund” – mais o “choque de demanda” artificialmente criado, que implica, em essência, inventar demanda artificial para comprar trigo, e, em seguida, colher os lucros do preço explodido. Quem se preocupa com os famintos nos países do Norte da África, se deles se podem extrair bilhões de dólares? E a bolha continuará a crescer. E o Egito continuará a sofrer efeitos da bolha. 

Por falar em sofrimento. Credores, na “comunidade internacional” já estão à espera, feito bando de urubus. O Egito deve 17,6 bilhões de euros (US$24 bilhões) à França; 10,7 bilhões ao Reino Unido; 6,3 bilhões à Itália; 5,35 bilhões aos EUA; e 2,4 bilhões à Alemanha. O FMI, urubu-em-chefe, está preparando mais ajustes estruturais. 

A mesma “comunidade internacional” já cuida de desviar para outros destinos africanos o fluxo de turismo que buscava o Egito (fonte de 55% das divisas externas com que o país contava) – e o capital externo vai, vai, vai, seguindo orientação da oligarquia ligada a Mubarak, que inclui o magnata das telecomunicações Naguib Sawiris e o magnata do aço Ahmed Ezz. 

As elites do poder ocidental exigem “estabilidade” política no Egito e preservação do status quo. O que implica total segurança para Israel, isolamento draconiano de Gaza e alinhamento total do Egito ao lado da Arábia Saudita e da Jordânia, todos vassalos confiáveis dos EUA. 

Não é, não, de modo algum, o que a revolução da rua quer ver – depois de concluída a fase 1. A “Liderança Unificada dos Jovens da Revolução da Fúria” [orig. Unified Leadership of the Youth of the Rage Revolution], pelo porta-voz, advogado Ziad al-Olaimai, 32, já apresentou suas sete demandas-chave – por hora. São as seguintes: renúncia de Mubarak; fim imediato das leis de emergência; libertação de todos os prisioneiros políticos; dissolução das duas câmaras, alta e baixa, do Parlamento; formação de um governo de unidade nacional para gerir o período de transição; investigação, pelo Judiciário, dos abusos das forças de segurança durante a revolução; e o exército nas ruas, para proteger os manifestantes. 

E é só o começo; governo egípcio verdadeiramente soberano não se comportará como fantoche subserviente dos EUA. E não há volta. A rua sabe que não pode simplesmente enrolar o cobertor e voltar para casa – como o regime tanto quer ver acontecer. 

 A rua sabe que, na calada da noite, Suleiman pode mandar seus imensos esquadrões “secretos” de bandidos recolher centenas de milhares de manifestantes para as câmaras de tortura que ele comanda a serviço da CIA, para a prisão de Abu Zaabal, ou para Scorpion, masmorra de segurança máxima, onde os prisioneiros são afogados em tonéis, eletrocutados de cabeça para baixo, forçados a mentir em camas de metal eletrificado, ou apanham com porretes eletrificados de empurrar gado, ou são estuprados por cães especialmente adestrados, ou terão a coluna dorsal esticada até romper-se, ou passarão dias na assustadora cela conhecida como “caixãozinho”, ou serão deixados ao sol para apodrecer vivos, enrolados em fita adesiva dos pés à cabeça, como múmia. 

E Suleiman ali estará para supervisionar. Tudo em segredo, claro, para não perturbar a “comunidade internacional” que só deseja “estabilidade”. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Egito: “Sheik al-Tortura” Suleiman, o democrata!

Pepe Escobar

9/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A revolução egípcia está sendo dissolvida, à vista do mundo, por uma ilusão de ótica. 

Os manifestantes há duas semanas exigem, nas ruas, o fim do governo de Hosni Mubarak. Já. Agora. Mas o presidente dos EUA Barack Obama continua em modo "não muito depressa", feliz por constatar que “o Egito está fazendo progressos”. Obama ainda não pronunciou, nem uma vez, as palavras cruciais “eleições livres”. 

O mapa do caminho da “transição ordeira” de Washington – integralmente apoiado por Telavive e capitais europeias – é farsa. Já não se fala de derrubar Mubarak; o sucessor já indicado, nomeado vice-presidente, é Omar Suleiman, ex-chefe do Mukhabarat [serviço de polícia secreta], que os manifestantes chamam de “Sheik al-Tortura”. 

O Sheik al-Tortura  já age como presidente – o atual presidente ainda habita o palácio presidencial, mas como assombração. O regime, uma ditadura militar brutal, mantém-se lá, como assunto inafastável – apesar de denunciada pelos manifestantes como ilegítima de A a Z, do Executivo ao Legislativo. A questão é que Suleiman é o presidente de fato e é o regime. Se o filósofo francês Jean Baudrillard estivesse vivo, diria que essa revolução nunca aconteceu – exceto nas telas de televisão do mundo. 

Alguns, na oposição fragmentada, querem que o presidente da corte constitucional seja indicado presidente interino, para organizar e conduzir a eleição de uma assembleia constituinte. Outros – inclusive o movimento de jovens – querem que um comitê nacional supervisione a “transição ordeira” sancionada por Washington. 

Gilbert Achcar, professor de relações internacionais na School of Oriental and African Studies em Londres, vai direto ao ponto: “Para impor mudança tão ampla, o movimento de massas teria de quebrar ou desestabilizar a espinha dorsal do regime, o exército egípcio” (“Whither Egypt? The Military is Backing Mubarak”, Gilbert Achcar entrevistado por Farooq Sulehria, Global Research, 7/2/2011, em inglês). 

Conheçam o novo chefe...

O Egito é ditadura linha dura. O exército, essencialmente mantido com dinheiro dos contribuintes norte-americanos, não é “parceiro confiável”. A repressão do regime Mubarak contra os manifestantes não foi ainda mais violenta porque os soldados nesse exército de recrutas com certeza se recusariam a atirar contra o próprio povo; assim, foi posto em prática o plano B, os mercenários do regime e a baltagia, a odiada polícia política – pagos pelo Estado e sempre à paisana – entraram em ação semana passada. 

Seja como for, o centro do regime não foi atingido – porque o exército continua a postos e no comando. Exemplo visual: o jornal estatal al-Gomhuria circulou na 2ª-feira com “Nova Era” em manchete garrafal, acima de uma foto de Suleiman em reunião com parte da oposição; na parede, por trás de Suleiman, um gigantesco retrato de Mubarak. 

Os manifestantes insistem que querem o fim do estado de emergência – vigente nos últimos 25 anos. O regime diz que tudo dependerá das “condições de segurança”; podem continuar a repetir a mesma frase, por meses a fio, ad nauseam. O regime não aceitará a dissolução do Parlamento e recusa-se a realizar eleições realmente livres e limpas para substituir o atual Parlamento pró-Mubarak. 

O modus operandi do regime é “dividir para governar” – e está conseguindo maravilhas. As táticas são previsíveis: concessões mínimas; acusar os manifestantes de se deixar manipular por “forças estrangeiras”; e acusá-los de por em perigo a “estabilidade” do Egito. 

Crucial: a conversa das “forças estrangeiras” falaram pela boca do leão (Suleiman) na 3ª-feira passada, em longa entrevista à televisão estatal – exatamente no mesmo dia em que jornalistas estrangeiros eram caçados, espancados, presos ou humilhados por toda a cidade do Cairo. Suleiman explicitamente culpou “certas nações amigas donas de canais de televisão, que não são amigas do Egito, que empurraram os jovens contra a nação e o Estado”. Que tal essas credenciais democráticas?! 

Alguns já decifraram o quadro. A ala esquerda dos nasseristas (três assentos, ganhos nas eleições de 2000), que insistem que a revolução manifesta o desejo de todos os egípcios, recusa-se a reunir-se novamente com Suleiman, a menos que Mubarak parta. Suleiman já disse claramente que Mubarak – fantasma, assombração, ilusão de ótica ou tudo isso – fica. 

Em coluna publicada no jornal Ahram Online, Nabil Shawkat diz que “o espírito do governo Mubarak, a essência de seu regime e os métodos da era Mubarak estão longe de acabar”. Observa também que “na primeira entrevista pela televisão, [Suleiman] deu a impressão de que governa o país, de que – se quisesse – poderia mandar Mubarak para o Gabinete e ficar lá.” É a assombração na sala. 

Mesmo com uma assombração monstro no armário da sala, os alvos do regime permanecem claros. Manifestantes, como o cineasta independente Samir Eshra e o blogueiro Abdel-Karim Nabil Suleiman, continuam a ser presos. Daniel Williams, da ONG Human Rights Watch, foi mantido preso pelo exército por nada menos que 36 horas. É fácil, para uma bem azeitada máquina de repressão, intimidar as massas nas ruas, a maior parte das quais não tem qualquer filiação política. 

Não há sindicatos independentes. O Movimento 6 de Abril, de jovens, e o Movimento Kefaya (“Basta!”) são militantes e campanhistas, não são partidos políticos organizados. O legendário economista egípcio Samir Amin, professor das universidades de Paris e do Cairo, insiste que as coisas podem mudar se os movimentos de trabalhadores e de camponeses começarem a agir como atores de fato – as classes médias e os jovens urbanos, educados e desempregados. Que esses deveriam expor as contradições do regime, com ação organizada. 

... igual ao velho chefe

Washington dar-se-ia por satisfeita com um Egito igual a um novo Paquistão: mistura pré-fabricada de elites compradoras instáveis; pitadas de islã político (com a Fraternidade Muçulmana), inteligência militar e, por que não, mais um general ditador. Não é exatamente “democracia”. 

A mera ideia de que os manifestantes de todas as esquinas da vida, de estudantes a advogados, para não falar dos ativistas de Direitos Humanos, aceitariam alegremente qualquer diálogo com um Sheik al-Tortura travestido de democrata diz templos e templos de Luxor sobre o quanto Washington, de fato, despreza e subestima todos os movimentos populares e nacionalistas. 

Antes de ser ungido pelo Faraó e virar vice-presidente semana passada, Omar Suleiman, vulgo “Sheik al-Tortura” (todos, no Egito, sabem que comandou a entrega de prisioneiros da CIA ao Egito para serem interrogados e a tortura de todos os acusados de pertencerem à al-Qaeda), nascido dia 2/7/1936 em Qena, no sul do Egito, foi ministro sem pasta e diretor da Direção Geral da Inteligência Egípcia – agência nacional de segurança –, de 1993 a 2011. 

Nos anos 1980s, foi treinado na Escola Especial e Centro de Treinamento de Guerra John F Kennedy em Fort Bragg, Carolina do Norte. A revista Foreign Policy classificou-o como o mais poderoso chefe de inteligência do Oriente Médio em 2009, acima até do chefe do Mossad israelense à época, Meir Dagan. 

Pouco importa que a rua egípcia o odeie; para os altos escalões do exército é o novo rais. Al-Jazeera apresenta-o como “homem de ponta” das relações secretas entre Egito e Israel. O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu é apaixonado por ele. O ex-contrabandista e atual ministro de Negócios Exteriores de Israel Avigdor Lieberman manifestou “respeito e admiração pelo papel de destaque do Egito na Região, além de seu respeito pessoal pelo presidente Hosni Mubarak e o ministro Suleiman do Egito”. 

Segundo telegrama diplomático de 2006 publicado por WikiLeaks, a CIA – e quem mais seria? – também é apaixonada por Suleiman: “Nossa colaboração de inteligência com Oman Soliman [sic] é agora provavelmente o elemento mais bem sucedido do nosso relacionamento” com o Egito [WikiLeaks, 07CAIRO1417, PRESIDENTIAL SUCCESSION IN EGYPT, em inglês]. Suleiman sempre negociou diretamente com os altos comandantes da CIA. 

Na outra ponta do espectro, a ONG Human Rights Watch destaca que “Os egípcios (...) veem Suleiman como Mubarak II, especialmente depois da longa entrevista que deu à televisão estatal egípcia dia 3 de fevereiro, na qual acusou os manifestantes da Praça Tahrir de trabalharem a favor de agendas estrangeiras. Nem tentou disfarçar as ameaças de retaliação contra os manifestantes.” A Human Rights Watch estima que pelo menos 75 ativistas e manifestantes egípcios e cerca de 30 jornalistas estrangeiros foram presos desde o início das manifestações, e que já há pelo menos 297 mortos. 

A rua não se ilude. A rua sabe que o exército – o mais poderoso ator na equação política no Egito – poderá partir para um massacre, se se sentir ameaçado. A faísca pode ser qualquer uma: de uma ameaça imaginária que viria de “potências estrangeiras”, à sensação de que não estão preparados para ceder o poder a civis pela primeira vez desde 1956. 

O ministro da Defesa, marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi, por exemplo, é absolutamente contra “qualquer mudança econômica ou política, se entender que virá a comprometer o poder do governo central” – como se lê em telegrama publicado por WikiLeaks [1]. Mas, por hora, o exército sente-se confortável, com o Sheik al-Tortura no comando do show. Exatamente como sentem-se hoje os democratas de Washington. 



Nota
[1] O telegrama WikiLeaks pode ser lido, em português, em SECRET CAIRO 002091