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domingo, 3 de julho de 2011

Tribunal Especial da ONU para o Líbano: Mais sectarismo e nenhum esclarecimento

Hicham Safieddine

1/7/2011, Hicham Safieddine, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo de tradutores da Vila Vudu

Hicham Safieddine é jornalista em Beirute, especialista em questões do Oriente Médio.
Escreve regularmente para os jornais Toronto Star (Canadá), al-Ahram Weekly (Egito) e al-Akhbar (Líbano).

O Tribunal Especial da ONU para o Líbano [ing. UN Special Tribunal on Lebanon (STL)] conta com o apoio internacional, mas não tem competência para implantar suas decisões e é visto por muitos libaneses como instrumento de forças estrangeiras,

A acusação formalizada pelo Procurador do Tribunal Especial da ONU para o Líbano Saeed Merza é o mais recente desenvolvimento dessa operação da justiça internacional, tão divulgado quanto controverso.

O parecer do Procurador da ONU, que acusa formalmente quatro membros do partido Hezbollah libanês pelo assassinato, em 2005, do ex-primeiro ministro do Líbano Rafik Hariri, gerará nova fase de confrontação entre o Hezbollah, por um lado; e todos os seus inimigos locais, regionais e internacionais, por outro. 
O Tribunal Especial da ONU sobre o Líbano(STL sigla em inglês)) tem apoio internacional, mas não tem poder para implantar suas decisões e é visto como joguete de potências estrangeira pela quase totalidade dos libaneses

No plano interno, as tensões subirão dramaticamente. As forças pró-Hariri do Movimento 14 de Março receberam a acusação formal com festas e bravatas políticas. Ninguém duvida que o Hezbollah responderá. Há discurso já anunciado do secretário-geral do Hezbollah Hasan Nasrallah sobre o tema, que será transmitido por televisão no sábado 2/7.

Mas a acusação formal não levará à prisão de nenhum acusado nem alterará nem o  equilíbrio de poder interno, nem o isolamento do país no quadro dos desenvolvimentos regionais. Desde a criação, como comissão de investigação, logo depois do assassinato de Hariri dia 14/2/2005, o déficit de credibilidade do Tribunal só aumentou, sob acusações de interferências políticas e especulação desenfreada pelos jornais. O Tribunal sempre recebeu irrestrito apoio das potências ocidentais e o selo da autoridade formal da lei internacional, mas jamais teve nem as competências necessárias para executar suas decisões nem a indispensável isenção moral. 

Na opinião de muitos libaneses, o Tribunal da ONU para o Líbano atua como mais um agente de violência.

O impacto da mais recente decisão do Tribunal pode ser mais bem avaliado no contexto do que fez no passado e no quadro legal do estado libanês – com a recente ascensão do Hezbollah e seus aliados ao governo; e se se consideram as profundas transformações pelas quais passa todo o Oriente Médio com as Revoltas Árabes, com especial atenção aos conflitos na Síria, cuja influência política no Líbano não pode ser subestimada.

Um conflito de narrativas 

O Tribunal Especial da ONU para o Líbano é palco no qual muitos culpados têm voz e ninguém tem poder para decidir. A cobertura jornalística no ocidente nada faz além de papagaiar a narrativa oficial do próprio Tribunal, ou ‘vazada’ deliberadamente pelos juízes e magistrados, ou repetida pelas partes. 

Mas quem se dedique a analisar a mídia local no Líbano percebe que a narrativa dominante no cenário internacional pouco tem a ver – e muitas vezes conflita abertamente – com o que se diz no front doméstico. São narrativas em que se digladiam ‘em rede’ as mais diversas fontes e cenários, nunca esclarecidos.

No plano internacional, as duas principais investigações feitas por jornalistas sobre o caso são a publicada pela revista alemã Der Spiegel, em maio de 2009, e a publicada pela rede CBC do Canadá em novembro de 2010. As duas matérias sugerem fortemente que o Hezbollah estaria por trás do assassinato de Hariri. 

Segundo fontes do Tribunal da ONU citadas nas duas matérias, a investigação feita em 2007 por unidade especial das forças de segurança do Líbano teria descoberto uma rede de telefones celulares que teria sido ativada, operada e desmontada em sincronia com a cronologia e os locais do assassinato. 

Nenhuma das duas matérias, contudo, faz qualquer referência ao fato de que a credibilidade dessas provas é extremamente fraca, dadas as muitas evidências de que a rede de telecomunicações comercial no Líbano sempre foi infiltrada por espiões israelenses.

Em julho do ano passado, a mídia libanesa informou que Charbil Qazzi e Tarek al-Rabaa, dois altos funcionários da cúpula da principal rede de telecomunicações comerciais que opera no Líbano, Alpha, foram presos e acusados de crime de espionagem a favor de Israel. O Movimento 8 de Março, liderado pelo Hezbollah, imediatamente argumentou que a prisão dos dois comprovaria que toda a rede de telecomunicações comerciais no Líbano estaria sendo controlada por Israel. 

Em agosto, Nasrallah falou – manifestação que foi como um depoimento público – e acusou diretamente Israel pelo assassinato de Hariri. Além de expor a infiltração da rede de telefonia comercial, Nasrallah citou mais um suposto espião israelense e ex-oficial do exército libanês, de nome Ghassan al-Jidd, e provou que ele estivera na cena do crime pouco antes da explosão que matou Hariri. Nasrallah também exibiu um vídeo, que apresentou como material filmado pelo serviço de vigilância aérea de Israel, no qual se via um comboio no qual Hariri viajava, anos antes. Nasrallah solicitou formalmente que o Tribunal incorporasse aquelas provas circunstancias ao inquérito – o que o Tribunal, pelo que se sabe, não fez.

A contraofensiva comandada por Nasrallah não foi a primeira vez que o Tribunal enfrentou grave crise de credibilidade. Se agora a sentença foi proferida baseada em provas do serviço libanês de telecomunicações comerciais, antes de o Tribunal ser constituído, quando ainda era comissão de inquérito, a comissão trabalhou com testemunhos presenciais e provas oculares. Mas, daquela vez, o alvo da comissão era um aliado do Hezbollah: a Síria.

Testemunhas que implicaram oficiais de segurança da Síria e do Líbano levaram à prisão, por três anos, quatro generais dos serviços de segurança do Líbano. Várias testemunhas, depois, desmentiram os próprios depoimentos. Gravações de reuniões entre aquelas testemunhas chaves e Saad Hariri, filho de Hafik Hariri, que vazaram, acabaram por destruir o vestígio de credibilidade que ainda tivessem aquelas investigações e respectivas sentenças. O escândalo “das falsas testemunhas” não acabou sequer quando, pouco depois, os quatro generais libaneses foram libertados. Um desses generais está processando todos os que o acusaram e condenaram e encarceraram.

Jamil Sayyid, ex-suspeito e chefe das forças de segurança nacionais do Líbano também não tem dado descanso à Procuradora Danielle Bellemare, do Tribunal Especial da ONU, exigindo que lhes sejam entregues todos os arquivos que Bellamare usou como fonte da acusação que construiu contra ele, Sayyid, e que o levou à prisão depois revogada. 

Esse emaranhado de procedimentos legais, em que o Tribunal da ONU sempre aparece como suspeito de má conduta, só tem feito minar cada dia mais a credibilidade do próprio Tribunal e oferecido munição para os que, agora, enfrentam nova acusação, pelo mesmo Tribunal e, dessa vez, baseada e provas ainda mais controvertidas que antes.

Documento vazado por Wikileaks e publicado pelo jornal libanês al-Akhbar lançou ainda mais suspeitas sobre a integridade de Bellemare e sobre sua posição não isenta. 

Até agora, ainda não há sentença. O que há é acusação afinal formalizada, que o Tribunal da ONU ainda terá de julgar. Mas seja como for, ainda que o Tribunal consiga safar-se de todas as ações judiciais impetradas contra ele, e livre-se das acusações por erros judiciários, nem assim conseguirá superar as dificuldades da falta de meios para aplicar suas sentenças.  

Tribunal “sem dentes” e arma política 

Criado sob as regras do Capítulo 7 da Carta da ONU, e regido por um Memorando assinado pelo governo do Líbano, o Tribunal da ONU tem autoridade legal muito mais ampla que o próprio governo libanês. Mas não tem braço executivo para fazer cumprir decisões e depende integralmente de autoridades libanesas para a execução de suas sentenças. As autoridades libanesas, por sua vez, estão, elas mesmas, divididas entre lealdades conflitantes. 

As forças internas de segurança, que descobriram a alegada rede de telefones celulares, são patrocinadas pelo Movimento 14 de Março de Hariri Filho, adversário do Hezbollah. E os serviços de inteligência do exército líbio, que descobriram a alegada rede de espiões israelenses, por seu lado, são intimamente associadas ao Hezbollah e seus aliados.

O Tribunal, portanto, se condenar os membros do Hezbollah agora já formalmente acusados, passará as sentenças para o Procurador Merza, que terá um prazo de 30 dias para prender os condenados. O Procurador ficará responsável também pela segurança e transporte do acusado, a partir do momento em que seja preso. Mas se, esgotado o prazo de 30 dias para que a sentença seja executada, os condenados não forem presos, a única medida que o Tribunal poderá tomar será divulgar o nome dos condenados, declará-los condenados revéis (ou fugitivos) e convertê-los em párias internacionais.

Do ponto de vista do Hezbollah, que já está classificado como “organização terrorista” por uma “comunidade internacional” muito mais poderosa que a ONU (Israel e os EUA), a ameaça de ter membros condenados por assassinato pouco altera a situação vigente. Em outras palavras: o principal acusado, hoje, pelo assassinato de Hariri, no Tribunal da ONU, é Mustafa Badr al-Din, que se acredita que seja o principal comandante militar do Hezbollah, posto que ocuparia em substituição a seu cunhado, Imad Mughnieh, assassinado em Damasco, na Síria, em 2008. Badr al-Din já é (e assim continuará, mesmo que venha a ser absolvido pelo Tribunal da ONU) um dos homens mais procurados em todo o mundo e vive sob a mais restrita clandestinidade.

A vulnerabilidade do Hezbollah ante essa nova acusação formal não é essa, é outra. O Hezbollah, que é movimento de resistência armada, pouco se incomoda com o que diga a lei internacional ou a ONU ou a ‘comunidade internacional’. Mas precisa muito, isso sim, de legitimidade interna, no quadro político libanês. Os líderes do Hezbollah consideram a lei libanesa sua principal frente de defesa contra os esforços de Israel e EUA, sempre empenhados em declará-los terroristas e párias, na comunidade mundial.  Por isso, em maio de 2008, o partido lançou campanha militar contra as forças de Saad Hariri, quando esse, então primeiro-ministro, fez aprovar lei que tornava ilegal toda a rede subterrânea de telecomunicações do Hezbollah [1].

Em janeiro de 2011, a colaboração entre o governo de Hariri Filho e o Tribunal levou à queda do governo de Hariri – importante vitória política do Hezbollah. 

A constituição, dia 13/6/2011, de um novo gabinete de coalizão, em que se reúnem o Hezbollah, os partidos seus aliados e Najib Miqati, visa, precisamente, a impedir que o governo do Líbano influencie decisões do Tribunal da ONU para o Líbano, como a acusação que acaba de ser formalizada. Ainda não se sabe exatamente como isso será feito, sem agredir os compromissos que o governo libanês assumiu com o Tribunal da ONU.

No discurso de amanhã, o mais provável é que Nasrallah reafirme as suspeitas do Hezbollah quanto à integridade do Tribunal; que defenda os membros do Hezbollah acusados e que rejeite a acusação, como acusação geral a todo o partido. Muito provavelmente, alertará contra os riscos de o estado libanês acatar as decisões do Tribunal. Com seus aliados no poder, o Hezbollah está a salvo de qualquer ação imediata do estado contra ele. 

Mas as potências ocidentais e seus aliados locais não deixarão de condicionar o reconhecimento do novo governo à exigência de que obedeça e faça cumprir as decisões do Tribunal da ONU [2]. Continuarão a trabalhar para que o isolamento que impõem ao Hezbollah estenda-se a todo o novo governo. Continuarão a incitar ao divisionismo sectário, continuando a apresentar o Hezbollah, que é partido de xiitas, como inimigo da comunidade libanesa sunita.

A retórica do Hezbollah, de apoio ao governo sírio, apesar da dura repressão contra manifestações populares, também tem contribuído para isolar o movimento entre o público árabe mais amplo. 

Todos esses fatores contribuem para converter uma decisão inócua de um Tribunal sem dentes, em decisão que pode ter importante efeito político – usada como arma para aumentar o sectarismo e a polarização sectária no Líbano, que podem levar a confronto militar, no instante em que os conflitos se tornem mais agudos. 

Enquanto isso, a verdade por trás do assassinato de Rafik Hariri continua tão inalcançável quanto antes de o Tribunal Especial da ONU para o Líbano ser criado, como se supunha, para desvendá-la.



Notas de tradução

[1] Em 7/5/2008, depois de crise política que se arrastava há mais de um ano, o governo Hariri Filho tentou neutralizar toda a rede de telecomunicações do Hezbollah e demitiu o chefe da segurança do aeroporto de Beirute, Wafic Shkeir, acusado de ligações com o Hezbollah. O líder do Hezbollah Hassan Nasrallah disse que a decisão do governo era “declaração de guerra” e exigiu que o governo revogasse a lei. Militantes armados do Hezbollah ocuparam toda a área do aeroporto e de subúrbios de Beirute e houve combates com milícias que apoiavam Hariri, que deixaram 11 mortos e 30 feridos. Os militantes do Hezbollah entregaram o controle das áreas ocupadas ao Exército do Líbano, que forçou o governo Hariri a voltar atrás, a devolver o controle do aeroporto ao chefe demitido e a devolver ao Hezbollah o controle de sua rede de telecomunicações (com informações em: 2008 conflict in Lebanon).

[2] Já está acontecendo. Ver, por exemplo, notícia do jornal Haaretz de Israel, sobre o novo governo: “Mikati anunciou a formação do novo governo e disse que continuarão a trabalhar para “libertar as terras que continuam sob ocupação do inimigo israelense” (com informação da imprensa, em Haaretz, 13/6/2011, em: Labanon PM: New government to liberate land under occupation of “israeli enemy)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Hezbollah e o novo governo no Líbano. E agora?

Franklin Lamb

28/1/2011, Franklin Lamb, Al-ManarTV, Beirute
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Esse jornalista observador corta o cabelo aproximadamente a cada quatro meses, precise ou não. Mas hoje ganhei mais que umas tesouradas nas melenas, do meu amigo barbeiro e soldado do Hezbollah, de nome Abass ibn Ali, irmão de Hussein, nomes de dois mártires e heróis de uma batalha épica, em 680 a.C., entre muçulmanos, a Batalha de Karbala, cidade que, hoje, está em território do Iraque. A Batalha de Karbala simboliza, para os seguidores do Hezbollah e muçulmanos xiitas em geral, a vitória do bem sobre o mal e a disposição para sacrificar a própria vida na luta por justiça e pelo maior bem da família, da comunidade, da Ummah. O motivo pelo qual falo disso, é que meu barbeiro estava hoje em estado de graça, em êxtase. Disse que seu partido estava vivendo um “momento Karbala”!

Respondi que a frase podia ser interpretada de vários modos. Afinal, muitos combatentes da resistência morreram em Karbala. Abass insistiu:

“Quero dizer é que nós, o Hezbollah, somos conhecidos por espantar sionistas para bem longe do Líbano, mas o partido parece que está aprendendo também a operar na política do Líbano e da Região. É bom para nosso povo que nós criemos programas sociais e governo honesto, sem corrupção, pela primeira vez na história do Líbano. Você concorda? Não acha que estamos começando a fazer bem feitas as coisas, também no jogo político no Líbano?” Concordo. Concordo. 

Entrevista ao Al Manar
Em movimento político cuja velocidade surpreendeu muitos no Líbano e com visão para superar as barreiras sectárias, o Hezbollah e seus partidos aliados derrubaram o governo Hariri, sem golpe, por medidas absolutamente previstas e autorizadas pela Constituição, e impuseram o início de consultas parlamentares para formar novo governo. Não foi golpe. O Hezbollah fez funcionar os mecanismos previstos pela Constituição e conseguiu converter sua minoria constitucional em maioria constitucional, e vice-versa. 

O Hezbollah é reconhecido por dar extrema atenção aos temas políticos, que são atentamente analisados dentro do partido; é reconhecido também pela agilidade e pela flexibilidade, quando o ritmo dos eventos exige. 

Há duas semanas, quando o Partido da Resistência retirou seus 11 representantes no governo Hariri apoiado pelos EUA, o plano era indicar Omar Karami para substituir Hariri. 

Karami foi duas vezes primeiro-ministro, é fortemente pró-Síria, apoia a Resistência e defende o direito de o Hezbollah conservar suas armas. Também jamais viu qualquer possibilidade de o Tribunal Especial para o Líbano conduzir investigações sérias, isentas de influências políticas; e também não aceita que aquele tribunal indicie, sem provas e com depoimentos de testemunhas reconhecidamente falsas, quatro, talvez mais, altos membros do Hezbollah, acusando-os de terem participado no atentado que matou Hariri-pai, então primeiro-ministro.  Já próximo dos 80 anos, Karami é ativo e teria assumido o posto, se indicado formalmente. De fato, chegou a pensar que já estava lá, mas na rápida sequência de eventos, o Hezbollah optou por outro nome, Nigib Mikati, sunita, bilionário, educado nos EUA, que enriqueceu nos negócios de telecomunicações e mais ainda quando vendeu sua empresa a um megaempreendedor da África do Sul. Mikati não é próximo do Hezbollah e com certeza jamais esteve entre seus aliados. De fato, o Hezbollah, os sauditas e cada vez mais os EUA apoiam Mikati porque é tecnocrata do Banco Mundial, mais ou menos como o ex-primeiro ministro do Líbano Fuad Siniora ou Salam Fayyad na Palestina, e todos esperam que trabalhem, não para ignorar, mas ajudar a limpar a impressionante e sempre crescente corrupção dentro dos seus respectivos governos. Makati, indicado pelo Hezbollah, é conhecido como homem de posições pró-ocidente, mas moderado, eleito deputado em 2009, na lista eleitoral de Hariri, apoiado pelos EUA. Os EUA o apoiariam declarada e abertamente, se não tivesse sido indicado, antes, pelo Hezbollah, com apoio de sírios e sauditas.  

Alguns dos que se sentiram ou vencedores ou derrotados nas primeiras 48 horas depois do que o Movimento 14 de Março e o Departamento de Estado dos EUA ainda insistem em chamar de “o golpe”:

Saad Hariri e seu “Movimento Futuro” apoiado pelos EUA: São dois dos atores políticos mais claramente derrotados hoje, mas Saad Hariri ainda tem algumas alternativas importantes. Ao longo dos últimos quase dois anos, Saad Hariri ouviu da Embaixada dos EUA, que Washington desejava que “se mantivesse firme” e não criticasse o Tribunal Especial para o Líbano. 

Os EUA conceberam e construíram o Tribunal Especial dentro do Conselho de Segurança da ONU, para manter a Síria fora do Líbano e Bashar Assad fora de Damasco depois do assassinato, no Valentine Day de 2005, do primeiro-ministro Rafik Hariri e 22 outros mortos no mesmo atentado. Saad fez o que o mandaram fazer e isso, agora, custou-lhe o cargo de primeiro-ministro. 

O Hezbollah advertiu-o várias vezes de que não seria mantido como primeiro-ministro, se não se manifestasse sobre o Tribunal Especial o qual, do ponto de vista do Hezbollah. Jamais passou de embuste criado por EUA-Israel, para destruir a resistência no Líbano.

Quando a oposição parlamentar liderada pelo Hezbollah decidiu [estritamente como a Constituição ordena que se faça a troca de gabinetes] a favor do fim do Gabinete Hariri, dia 12/1/2011, Saad sabia que teria de lutar para conservar o emprego. “Mas foi traído pelos EUA e pelos sauditas que o apoiavam, além de alguns de seus amigos mais próximos e aliados políticos que também o traíram” – segundo fonte do Movimento Futuro.

Ambos, a Arábia Saudita e o governo Obama perceberam que Saad não receberia os 65 votos parlamentares necessários para manter-se como primeiro-ministro (e acertaram: Saad Hariri só teve 60 votos), e decidiram aceitar o nome indicado pela Síria, Nigab Maliki, amigo pessoal do presidente Bashar Assad. Omar Karami, embora escolhido como primeira opção, teve de ser trocado, porque também não obteria os 65 votos necessários à eleição e seu passado inclui contatos íntimos com o Irã. Os EUA e a Arábia Saudita decidiram que melhor ter a Síria outra vez com capacidade de influir no gabinete libanês, do que correr o risco de entregar todo o controle do governo diretamente ao Irã.

Saad Hariri sente-se, pois, traído pelo próprio Makati, membro de sua aliança de governo, eleito ao Parlamento em 2009 na lista eleitoral do próprio Saad Hariri. O encontro entre os dois ontem durou apenas 11 minutos e foi frio, gelado como pedra. Quando um jornalista perguntou a Hariri se trabalharia com o novo governo de Makati, Hariri respondeu: “E de que me servirá participar do novo governo?” Horas mais tarde, o Movimento 14 de Março informou Makati de que não participaria de seu governo. Mas é possível que Hariri e o 14 de Março mudem de ideia.

Os sauditas continuam insistindo com Saad Hariri, incitando-o a engolir o orgulho ferido e a cooperar com o próximo governo. Os EUA farão aproximadamente a mesma coisa, depois de superarem o susto e engolirem a pílula amarga: Jeffrey Feltman estará reunido com líderes europeus, da França inclusive, nesse final de semana.

Hoje pela manhã, tudo faz crer que Saad Hariri continue inconsolável, depois de reunião privada, ontem à tarde, com a maternal embaixadora dos EUA, Maury Connelly, E repetiu hoje que não participará de governo “indicado pelo Hezbollah.” Mas seu grupo, o Movimento 14 de Março, tenta obter alguma vantagem da desistência de Hariri e tenta forçar o primeiro-ministro designado Makati a assinar compromisso escrito de que seu governo, sob nenhuma circunstância aceitará a condição da “Resposta dos três Não” que o Hezbollah está impondo [o Hezbollah exige, como compromisso do novo governo, que o governo libanês (1) NÃO continue e financiar o Tribunal Especial; (2) NÃO forneça juízes para o Tribunal Especial; e (3) NÃO continue a cooperar com o Tribunal Especial, cancelando o Memorando de Entendimento assinado entre a ONU e o Líbano, segundo o qual poderão ser presos e extraditados os indiciados pelo Tribunal Especial. 

O grupo de Saad Hariri ainda insiste que o preço para que participem do novo governo é que o governo apoie o Tribunal Especial e passe a controlar as armas do Hezbollah. Já se sabe que nada conseguirão, porque em nenhum caso o Hezbollah aceitará essas exigências.

Se Saad Hariri ficar fora do governo de Maliki, tentará converter-se em paladino do Tribunal Especial, mas perderá apoio dentro do próprio Movimento 14 de Março, a cujos membros muito interessa assumir o controle de alguns dos bons empregos no Gabinete. O Movimento 14 de Março, via Fuad Siniora, líder do bloco no Parlamento, fala muito contra as armas do Hezbollah, mas está evidentemente tentando uma barganha da qual, no momento certo, espera obter bons postos no Gabinete e no governo.

O Movimento 14 de Março joga pesado, pela batura de Jeffrey Feltman, diplomata norte-americano, um dos arquitetos da “Revolução do Cedro”, em 2005, que faz essa semana sua 62ª visita à Região, para que todos sejam informados de que “o governo dos EUA respeita a soberania, a liberdade e a independência do Líbano”, embora ninguém saiba o que significariam essas palavras, se se analisa a atuação dos EUA na Região. 

Ontem, em Paris, Feltman repetiu que “EUA e França persistem gravemente preocupados com o golpe que derrubou o governo Hariri, com ameaças e intimidação”. E insistiu em que os EUA e aliados devem pressionar para a imediata implementação das resoluções n. 1.701 do Conselho de Segurança (desarmar o Hezbollah) e 1.757 (indiciar e condenar o Hezbollah).

Jeff até poderia ser perdoado por sentir-se meio como Saeb Erekat quando, dia 21/10/2009, o hoje em breve ex-negociador “da paz”, da Autoridade Palestina, lamentou, em reunião com George Mitchell, que “A Região está escapando como grãos de areia entre nossos dedos”. Feltman, e não é a primeira vez, está sob forte pressão de Washington e Telavive para “fazer alguma coisa!”

Há muitos boatos, entre os quais que a Embaixada dos EUA seria fechada se, como se espera, os EUA e Israel lançarem campanha planetária de difamação contra o Líbano e o Hezbollah, para abrir caminho para que o Tribunal Especial divulgue os indiciamentos que Washington tem certeza de que incluirão altos comandantes do Hezbollah.

O Hezbollah tem controle pleno e direto sobre o governo libanês, inclusive no Parlamento, nos cerca de 30 votos no Gabinete e na burocracia. Ao contrário do que dizem EUA e Israel, o partido não está ‘excitado’ com a possibilidade de chegar ao governo. O Hezbollah vê-se como movimento de resistência, primeiramente, essencialmente e sempre; e muitos no partido não querem que esse “mandato limpo” seja contaminado pelas práticas nem sempre éticas e nem sempre limpas de um governo difícil como o do Líbano.

O Hezbollah trabalhará agora para implementar sua agenda de governo limpo e anticorrupção e dar àquela agenda a forma de leis, mas o partido prefere deixar a outros o trabalho sempre difícil de acomodar um vasto conjunto de seitas autocentradas e autorreferentes e seus líderes políticos. Em vasta medida, o Partido da Resistência operará através de deputados aliados, que não são membros do próprio Hezbollah. Há planos de começar a trabalhar imediatamente para aprofundar soluções para ‘as quatro grandes questões’ que todos os libaneses querem ver imediatamente equacionadas e resolvidas: água, eletricidade, poluição e tráfico, além de outras, como criar empregos e educar para a preservação do meio ambiente.

O Hezbollah quer ser visto como partido que também trabalha pelos pobres, ao mesmo tempo em que constrói o movimento de resistência. Prepara-se para abrir sua agenda legislativa doméstica, que incluirá quase todas as dez iniciativas “do bom governo” que Nabib Berri, presidente do Parlamento e aliado do Partido da Resistência entregou ontem a Makati.

O bloco de 12 membros do Hezbollah disse ao novo primeiro-ministro que favorece um governo de “parceria nacional”, nas palavras do deputado Mohammad Raad, que alertou a mídia: “O Hezbollah não impôs pré-condições [ao governo Mikati] e não aceitaremos qualquer imposição que se assemelhe a chantagem. Não pedimos cargos nem ministérios especiais e esperamos que transcorra normalmente o processo normal de formar novo governo.”

O Irã obteve os maiores ganhos políticos até aqui, porque continua a ganhar espaço para movimentar-se pela Região, sempre com olhos na Palestina.

Os EUA continuam a perder espaço e prestígio na Região, vistos cada vez mais, sobretudo depois da divulgação dos “Documentos da Palestina”, como inimigos de árabes e muçulmanos. São vistos, cada vez mais, como estado pária, porque Washington ainda não parou de promover, financiar e armar os terroristas sionistas que ocupam ainda a Palestina.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Líbano: Os indiciados no caso Hariri

18/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

A poster in Sidon, depicting Rafiq Hariri and his son, Saad Hariri
Saad Hariri e Rafiq Hariri - filho e pai - num poster em Sidon
Uma gravação terrivelmente embaraçosa, na qual se ouve Saad Hariri, o primeiro-ministro que acaba de perder o posto no Líbano, acusando os sírios de serem responsáveis pelo assassinato de seu pai; uma ameaça, por aliados do Hezbollah, de acusar Hariri por prática de corrupção; e o medo – que todos, todos, sentem no Líbano – de que o Tribunal do Conselho de Segurança da ONU para o Líbano tenha indiciado membros do Hezbollah por participação no atentado que resultou no assassinato de Rafiq Hariri em 2005 converteu em pesadelo a atual crise política. 

Mas estamos no Líbano, e sempre há elementos da mais pura farsa, a sugerir que as televisões locais, praticamente todos os políticos libaneses, iranianos, norte-americanos, israelenses e sírios – além de parte significativa da mídia mundial – nada fizeram além de mentir descaradamente, para conseguir afogar o país num banho de sangue.

Já há meses, jornalistas estrangeiros e políticos libaneses só fazem avisar que o Tribunal da ONU estaria “na iminência” de acusar vários membros do Hezbollah pelo assassinado de Hariri sênior, também primeiro-ministro.

De fato, o procurador do Tribunal da ONU já encaminhou a peça acusatória, para a revisão legal antes de encaminhá-la oficialmente, ao pré-juiz Daniel Franson. Mas o pré-juiz pode discordar dos argumentos que ler, pode adiar o encaminhamento e pode até – parece que sim – aceitar a peça construída pela acusação, sem ter de revelar os nomes dos acusados.

O conteúdo daquela peça acusatória foi “revelado” primeiro pela revista Der Spiege  – conhecida por receber matérias de fontes israelenses (23/5/2009, em New Evidence Points to Hezbollah in Hariri Murder), e depois foi divulgado também peloWall Street Journal – que também, não raras vezes, recebe material de fontes israelenses – antes de um jornal israelense citar o nome de um dos acusados, que seria parente do também assassinado comandante da inteligência do Hezbollah pró-Irã Imad Mughniyeh (Wall Street Journal, 8/10/2010: [o nome que apareceria na peça acusatória seria o de“Mustafa Badreddine, alto comandante militar do Hezbollah e cunhado de Imad Mughniyeh”, em U.N. Indictments Near in Lebanon Killing. O Hezbollah não gostou. Diz que a prisão de vários funcionários de uma empresa de telefones celulares no Líbano prova que Israel grampeava vários telefones no dia em que Rafiq Hariri foi assassinado – Dia dos Namorados de 2005 – e que aquelas quatro “falsas testemunhas” que cometeram perjúrio ante a ONU, elas sim, deveriam já estar presas.

Informações dadas por aquelas quatro falsas testemunhas foram usadas para prender quatro generais da segurança do Líbano, mantidos presos por quatro anos sem qualquer acusação formal – até que a ONU, terrivelmente embaraçada, foi obrigada a mandar libertá-los. – E agora a rede de televisão libanesa New TV apareceu com uma fita gravada, em que se ouve Saad Hariri, em conversa com Muhamed Zuhair Siddiq, uma daquelas “falsas testemunhas”, e um funcionário da ONU. Naquela fita, ouve-se a voz de Hariri, que diz que “estamos todos convencidos de que os assassinos [de Rafiq Hariri] são os sírios”, ao que Siddiq responde “Se vocês querem insistir nisso, devem começar por responder aos que contaram essas mentiras, especialmente entre os estados árabes...” 

Numa resposta confusa, Hariri, que ainda permanece oficialmente como primeiro-ministro do Líbano, explicou que a frase foi extraída do contexto, que a fita deve envolver serviços de segurança, e que falou “há muitos anos, em circunstâncias políticas que todos conhecem”.

A fita foi gravada em 2005, e Hariri depois expressou “desculpas pessoais a todos os amigos mencionados naquelas conversações”. Deve-se presumir que aí esteja incluído o alto governo sírio, cujas relações pessoais com Hariri estão perfeitamente recompostas. Para piorar, o ex-general Michel Aoun, um estranho apoiador cristão de Hassan Nasrallah secretário-geral do Hezbollah, disse que Hariri mereceria perder “seus direitos civis” por prática de “corrupção massiva” – em outras palavras, que deveria ser preso, bem como os deputados do “Movimento 14 de Março” da maioria, se continuassem associados a Hariri.

Ninguém precisa entender todas as nuanças desse autêntico teatro libanês – muitos libaneses também não entendem –, para perceber que muita gente está dizendo quantidades imensas de sandices, como, dentre outros, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, que continua a repetir que o Tribunal da ONU tem de “ser respeitado”, mesmo agora, que a maioria dos libaneses só deseja fugir para o mais longe possível daquele tribunal. Mas o Hezbollah derrubou o governo Hariri ao retirar-se do Gabinete, e Nasrallah está compreensivelmente preocupado – não estivesse, não estaria chamando de “traidores” todos os que cooperem com a ONU; e muitas “falsas testemunhas” estão muito mais preocupadas que ele.

A ONU, claro, está fazendo papel de idiota. Parece que alguém já sabe quem matou Rafiq Hariri. Multidões de libaneses prendem a respiração, querendo nunca saber.