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domingo, 3 de julho de 2011

Sayyed Nasrallah rejeita acusação do Tribunal da ONU

“Não há nem haverá divisão sectária no Líbano”

Sayyed Nasrallah
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
Tribunal Especial da ONU para o Líbano: Mais sectarismo e nenhum esclarecimento - 1/7/2011, Hicham Safieddine, Al-Jazeera, Qatar
Sayyed Nasrallah fala à TV Al-Manar” - 16/1/2011, Al-Manar TV, Beirute –Mohamad Shmaysani - Excerto
Sayyed Nasrallah: “Tudo depende de nossos elementos de poder” - 24/08/2010, Mohamad Shmaysani, Al-ManarTV, Beirute e no Islam Times

O secretário-geral do Hezbollah Sayyed Hasan Nasrallah rejeitou no sábado a chamada “acusação formal” divulgada pelo Tribunal Especial da ONU para o Líbano, no caso do assassinato do ex-primeiro ministro Rafiq Hariri. Sua Eminência desqualificou a acusação como sem qualquer fundamento, e tentativa gorada de minar o novo governo do Líbano.

No primeiro comentário desde que a acusação formal foi entregue ao Procurador na 3ª-feira, Sayyed Nasrallah confirmou que os quatro homens injustamente acusados pelo Tribunal da ONU são membros do Hezbollah e disse que os quatro têm honrada história de resistência contra a ocupação por Israel. Disse que, mesmo que o chamado Movimento 14 de Março estivesse no poder, nenhum deles seria jamais preso. E que é possível que sejam julgados à revelia.

Sua Eminência reiterou que a corte internacional é projeto manobrado por EUA e Israel, para várias finalidades, a mais importante das quais é estimular a divisão sectária no Líbano entre grupos muçulmanos. Disse que não há e jamais haverá divisão entre libaneses sunitas e xiitas – mas reconheceu que alguns cristãos do Movimento 14 de Março ainda sonham com o Líbano dividido.

Israel jamais foi investigada

O secretário-geral do Hezbollah iniciou sua fala com detalhada reconstituição das diferentes fases da suposta investigação. Primeiro, acusaram a Síria. Depois, os quatro generais que foram presos e agora libertados. Agora, acusam o Hezbollah. Sua Eminência observou que o inimigo israelense nunca foi considerado suspeito por esse tribunal, apesar das muitas provas reunidas, de seus crimes de espionagem.

“Várias vezes falamos da possibilidade de haver espiões de Israel envolvidos no assassinato, e o fato comprovado de que, na véspera, havia agentes israelenses no local do crime. Mas o Tribunal da ONU sequer os convocou para interrogá-los. Isso é normal, por quê? Porque o Tribunal da ONU, desde a constituição, só trabalha para um único objetivo e são todos proibidos de interrogar israelenses. Em vez de investigar os israelenses, o Tribunal da ONU trabalha a partir de informação fornecida por espiões israelenses.” 

Sayyed Nasrallah exibiu documentos, para mostrar que, quando o Tribunal da ONU transferia equipamento do Líbano para a base da Corte Internacional na Holanda, enviou um carregamento de 97 computadores via Israel, em vez de embarcá-los diretamente de Beirute. Até que se entenda o por quê desse procedimento, todas as suspeitas são legítimas.

Bellemare, Procurador do Tribunal, trabalha com agentes da CIA

O secretário-geral do Hezbollah passou então a questionar a credibilidade do Procurador do Tribunal da ONU, Daniel Bellemare e de sua equipe de investigadores, os quais, todos, têm ligações com a inteligência ocidental e já trabalharam antes contra a Resistência. 

“Se Bellemare fosse justo, teria contratado especialistas e conselheiros que, no mínimo, não fossem pessoas conhecidas por seu trabalho contra qualquer das partes envolvidas no julgamento” – disse Sayyed Nasrallah. Acrescentou que pelo menos um dos consultores que trabalham para Bellemare é agente da Agência Central de Inteligência dos EUA, CIA.

“Um dos principais consultores que trabalha para Bellemare's é agente de alto escalão da CIA, que nós já acusamos de trabalhar há 15 anos contra a Resistência, de seguir Hajj Imad Mughniyeh e de estar envolvido no massacre, pela CIA, em Beer Hasan, no Líbano, onde seu alvo foi o falecido Grande Aiatolá Sayyed Mohamad Hussein Fadlallah, e onde houve dúzias de mortos” – disse Sua Eminência.

O discurso foi entremeado com filmes em que se viam provas de que vários dos membros do Tribunal Especial da ONU para o Líbano têm relações com agências ocidentais de espionagem, inclusive um australiano, um britânico (especialista em combater o que chama de “terrorismo islâmico”), um ex-militar norte-americano, um consultor especialista em legislação libanesa, franco-libanês, que trabalhou contra a Resistência, e Robert Baer, agente da CIA.

Tribunal comprovadamente corrupto

Sobre a corrupção de vários funcionários do Tribunal Especial, Sayyed Nasrallah destacou o caso de Gerhard Lehman, ex-presidente da Comissão de Investigação do assassinato de Hariri. “Temos provas de que Lehman vendeu declarações e confissões, em troca de dinheiro” – e Sua Eminência exibiu um vídeo, em que se vê Lehman recebendo dinheiro e entregando documentos relacionados à investigação.

Sayyed Nasrallah também falou sobre outras falsas testemunhas, e revelou que o próprio Bellemare empenhou-se pessoalmente e acompanhou todo o processo de cancelamento do mandato de prisão (da INTERPOL) contra Mohammad Zuheir al-Siddiq, a chamada “testemunha-chave” do caso, que contribuiu para que, desde o início, a investigação tomasse rumo predefinido.

Sua Eminência também comentou os motivos suspeitos que há por trás dos repetidos vazamentos de informações do Tribunal, diretamente para os jornais. A investigação, de fato, jamais foi secreta; tudo sempre foi vazado para os jornais, mesmo não havendo qualquer prova. 

“Que credibilidade teria um tribunal que, antes de investigar, divulga nomes de ‘culpados’?” “O vazamento mais escandaloso aconteceu há poucos dias, quando uma delegação de investigadores reuniu-se com o Advogado Geral do Líbano, Saeed Mirza, para entregar-lhe o documento formal da acusação e, antes do fim da reunião, os nomes dos acusados já estavam sendo divulgados nos noticiários” – disse Sua Eminência.

Naasrallah disse que todos os vazamentos foram planejados e intencionais, orientados para enlamear a imagem pública do Partido da Resistência. O timing da divulgação dos nomes dos acusados, vazados para a mídia, foi mecanismo que visou a fragilizar o novo Gabinete recém formado pelo novo primeiro-ministro Najib Miqati.

O presidente do Tribunal da ONU é grande amigo de Israel 

Sayyed Nasrallah lembrou também que o presidente do Tribunal da ONU para o Líbano, Antonio Cassesse, é conhecido grande amigo de Israel. “O presidente do Tribunal tem ligações antigas com Israel e todos os preconceitos contra a Resistência libanesa” – disse Sua Eminência.

“Por que teríamos de nos submeter a um juiz que defende Israel? Que justiça esse juiz poderia administrar, se é do grupo que define como “terroristas”, os movimentos da Resistência?” Disse: “Esse juiz chama a Resistência de “organização terrorista”. Como poderia nos fazer justiça, se supõe que sejamos terroristas?” 

“Aos olhos de Cassesse, Israel seria o único estado de direito, respeitador dos direitos humanos, em toda a Região. E o que faz Israel na Palestina há mais de 60 anos? E os 11 mil prisioneiros políticos nas prisões israelenses? E os massacres israelenses no Líbano, que todos vimos acontecer? Para Cassesse, Israel, que é estado terrorista, combateria o terrorismo. Que justiça se poderia esperar de quem pensa assim?” – perguntou Sayyed Nasrallah.

Não há nem haverá divisão sectária no Líbano

Falando ao povo libanês, Sayyed Nasrallah reiterou que não há nem haverá divisão sectária entre os libaneses sunitas e xiitas. “Já lhes disse há mais de um ano, que um dos objetivos do Tribunal da ONU é semear a cizânia entre os libaneses. Não há nem haverá divisão sectária. Reafirmo aqui que, mesmo depois dessa chamada “acusação formal”, não haverá nem divisão nem guerra civil no Líbano”. E continuou: “Tenham certeza de que nada aconteceu nem acontecerá entre xiitas e sunitas libaneses, a menos que alguma força externa, um terceiro, interfira, com ânimo de semear a discórdia e vocês se deixem levar.” 

Sua Eminência falou para tranqüilizar e por fim aos boatos que falam de agitações e divisão na sociedade libanesa: “O Tribunal da ONU visa a semear a discórdia entre nós. Mas não haverá discórdia entre xiitas e sunitas, nem haverá outra guerra civil” – disse ele.

Nenhum governo poderia cumprir os mandatos de prisão

Sayyed Nasrallah, em seguida, falou ao bloco 14 de Março, que se tem apresentado como nova oposição no Líbano. Sua Eminência disse que não tentem culpar o Gabinete do primeiro-ministro Najib Miqati por algo que nem eles, se estivessem no poder, conseguiriam fazer.

“Não culpem o novo governo, por algo que, se estivessem no poder, vocês tampouco conseguiriam fazer. Os mandatos de prisão emitidos pelo Procurador do Tribunal da ONU não podem ser executados por nenhum governo libanês, nem em 30 dias, nem em 30 anos, nem em 300 anos.” 

Sayyed Nasrallah também exigiu que a coalizão conhecida como 14 de Março também não cobre do primeiro-ministro Miqati o que o ex-primeiro ministro Saad Hariri estava pronto para ceder, em troca de permanecer no poder.

Sua Eminência revelou que recebeu documentos, enviados pelo primeiro-ministro do Qatar e pelo ministro das Relações Exteriores da Turquia, que provam que Hariri havia concordado em fazer várias concessões, em troca de manter o cargo de primeiro-ministro. Sayyed Nasrallah disse que, sendo necessário, adiante, poderá divulgar esses documentos, mas que é documentação muito sensível, porque comprova que o ‘acordo’ já fora aprovado pelos sauditas, franceses, britânicos e norte-americanos.

Trata-se de golpe contra a Resistência

Na conclusão, Sayyed Nasrallah reiterou que o Hezbollah rejeita a acusação, como rejeitará cada uma e todas as acusações do Tribunal da ONU para o Líbano: “Rejeitamos o Tribunal Especial e todas e quaisquer acusações que façam, as quais, para nós, são equivalentes a ataques diretos ao Hezbollah” – disse. Observou que a acusação agora ‘formalizada’, é apenas mais um passo, no rumo dos objetivos desse tribunal de exceção, manobrado pelos EUA por Israel. 

“Nada há hoje, além de agressão contra nós. A Resistência jamais permitirá que esse Tribunal arraste o Líbano para a tragédia das lutas sectárias ou das divisões internas. A única vítima em todo esse caso é o mártir Rafiq Hariri, ex-primeiro ministro assassinado.” 

“Os que apóiam a Resistência não têm por que se preocupar. Trata-se de mais um movimento da mesma luta que enfrentamos desde que a entidade sionista foi criada, e iniciou sua agressão à terra dos palestinos.” 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Hezbollah e o novo governo no Líbano. E agora?

Franklin Lamb

28/1/2011, Franklin Lamb, Al-ManarTV, Beirute
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Esse jornalista observador corta o cabelo aproximadamente a cada quatro meses, precise ou não. Mas hoje ganhei mais que umas tesouradas nas melenas, do meu amigo barbeiro e soldado do Hezbollah, de nome Abass ibn Ali, irmão de Hussein, nomes de dois mártires e heróis de uma batalha épica, em 680 a.C., entre muçulmanos, a Batalha de Karbala, cidade que, hoje, está em território do Iraque. A Batalha de Karbala simboliza, para os seguidores do Hezbollah e muçulmanos xiitas em geral, a vitória do bem sobre o mal e a disposição para sacrificar a própria vida na luta por justiça e pelo maior bem da família, da comunidade, da Ummah. O motivo pelo qual falo disso, é que meu barbeiro estava hoje em estado de graça, em êxtase. Disse que seu partido estava vivendo um “momento Karbala”!

Respondi que a frase podia ser interpretada de vários modos. Afinal, muitos combatentes da resistência morreram em Karbala. Abass insistiu:

“Quero dizer é que nós, o Hezbollah, somos conhecidos por espantar sionistas para bem longe do Líbano, mas o partido parece que está aprendendo também a operar na política do Líbano e da Região. É bom para nosso povo que nós criemos programas sociais e governo honesto, sem corrupção, pela primeira vez na história do Líbano. Você concorda? Não acha que estamos começando a fazer bem feitas as coisas, também no jogo político no Líbano?” Concordo. Concordo. 

Entrevista ao Al Manar
Em movimento político cuja velocidade surpreendeu muitos no Líbano e com visão para superar as barreiras sectárias, o Hezbollah e seus partidos aliados derrubaram o governo Hariri, sem golpe, por medidas absolutamente previstas e autorizadas pela Constituição, e impuseram o início de consultas parlamentares para formar novo governo. Não foi golpe. O Hezbollah fez funcionar os mecanismos previstos pela Constituição e conseguiu converter sua minoria constitucional em maioria constitucional, e vice-versa. 

O Hezbollah é reconhecido por dar extrema atenção aos temas políticos, que são atentamente analisados dentro do partido; é reconhecido também pela agilidade e pela flexibilidade, quando o ritmo dos eventos exige. 

Há duas semanas, quando o Partido da Resistência retirou seus 11 representantes no governo Hariri apoiado pelos EUA, o plano era indicar Omar Karami para substituir Hariri. 

Karami foi duas vezes primeiro-ministro, é fortemente pró-Síria, apoia a Resistência e defende o direito de o Hezbollah conservar suas armas. Também jamais viu qualquer possibilidade de o Tribunal Especial para o Líbano conduzir investigações sérias, isentas de influências políticas; e também não aceita que aquele tribunal indicie, sem provas e com depoimentos de testemunhas reconhecidamente falsas, quatro, talvez mais, altos membros do Hezbollah, acusando-os de terem participado no atentado que matou Hariri-pai, então primeiro-ministro.  Já próximo dos 80 anos, Karami é ativo e teria assumido o posto, se indicado formalmente. De fato, chegou a pensar que já estava lá, mas na rápida sequência de eventos, o Hezbollah optou por outro nome, Nigib Mikati, sunita, bilionário, educado nos EUA, que enriqueceu nos negócios de telecomunicações e mais ainda quando vendeu sua empresa a um megaempreendedor da África do Sul. Mikati não é próximo do Hezbollah e com certeza jamais esteve entre seus aliados. De fato, o Hezbollah, os sauditas e cada vez mais os EUA apoiam Mikati porque é tecnocrata do Banco Mundial, mais ou menos como o ex-primeiro ministro do Líbano Fuad Siniora ou Salam Fayyad na Palestina, e todos esperam que trabalhem, não para ignorar, mas ajudar a limpar a impressionante e sempre crescente corrupção dentro dos seus respectivos governos. Makati, indicado pelo Hezbollah, é conhecido como homem de posições pró-ocidente, mas moderado, eleito deputado em 2009, na lista eleitoral de Hariri, apoiado pelos EUA. Os EUA o apoiariam declarada e abertamente, se não tivesse sido indicado, antes, pelo Hezbollah, com apoio de sírios e sauditas.  

Alguns dos que se sentiram ou vencedores ou derrotados nas primeiras 48 horas depois do que o Movimento 14 de Março e o Departamento de Estado dos EUA ainda insistem em chamar de “o golpe”:

Saad Hariri e seu “Movimento Futuro” apoiado pelos EUA: São dois dos atores políticos mais claramente derrotados hoje, mas Saad Hariri ainda tem algumas alternativas importantes. Ao longo dos últimos quase dois anos, Saad Hariri ouviu da Embaixada dos EUA, que Washington desejava que “se mantivesse firme” e não criticasse o Tribunal Especial para o Líbano. 

Os EUA conceberam e construíram o Tribunal Especial dentro do Conselho de Segurança da ONU, para manter a Síria fora do Líbano e Bashar Assad fora de Damasco depois do assassinato, no Valentine Day de 2005, do primeiro-ministro Rafik Hariri e 22 outros mortos no mesmo atentado. Saad fez o que o mandaram fazer e isso, agora, custou-lhe o cargo de primeiro-ministro. 

O Hezbollah advertiu-o várias vezes de que não seria mantido como primeiro-ministro, se não se manifestasse sobre o Tribunal Especial o qual, do ponto de vista do Hezbollah. Jamais passou de embuste criado por EUA-Israel, para destruir a resistência no Líbano.

Quando a oposição parlamentar liderada pelo Hezbollah decidiu [estritamente como a Constituição ordena que se faça a troca de gabinetes] a favor do fim do Gabinete Hariri, dia 12/1/2011, Saad sabia que teria de lutar para conservar o emprego. “Mas foi traído pelos EUA e pelos sauditas que o apoiavam, além de alguns de seus amigos mais próximos e aliados políticos que também o traíram” – segundo fonte do Movimento Futuro.

Ambos, a Arábia Saudita e o governo Obama perceberam que Saad não receberia os 65 votos parlamentares necessários para manter-se como primeiro-ministro (e acertaram: Saad Hariri só teve 60 votos), e decidiram aceitar o nome indicado pela Síria, Nigab Maliki, amigo pessoal do presidente Bashar Assad. Omar Karami, embora escolhido como primeira opção, teve de ser trocado, porque também não obteria os 65 votos necessários à eleição e seu passado inclui contatos íntimos com o Irã. Os EUA e a Arábia Saudita decidiram que melhor ter a Síria outra vez com capacidade de influir no gabinete libanês, do que correr o risco de entregar todo o controle do governo diretamente ao Irã.

Saad Hariri sente-se, pois, traído pelo próprio Makati, membro de sua aliança de governo, eleito ao Parlamento em 2009 na lista eleitoral do próprio Saad Hariri. O encontro entre os dois ontem durou apenas 11 minutos e foi frio, gelado como pedra. Quando um jornalista perguntou a Hariri se trabalharia com o novo governo de Makati, Hariri respondeu: “E de que me servirá participar do novo governo?” Horas mais tarde, o Movimento 14 de Março informou Makati de que não participaria de seu governo. Mas é possível que Hariri e o 14 de Março mudem de ideia.

Os sauditas continuam insistindo com Saad Hariri, incitando-o a engolir o orgulho ferido e a cooperar com o próximo governo. Os EUA farão aproximadamente a mesma coisa, depois de superarem o susto e engolirem a pílula amarga: Jeffrey Feltman estará reunido com líderes europeus, da França inclusive, nesse final de semana.

Hoje pela manhã, tudo faz crer que Saad Hariri continue inconsolável, depois de reunião privada, ontem à tarde, com a maternal embaixadora dos EUA, Maury Connelly, E repetiu hoje que não participará de governo “indicado pelo Hezbollah.” Mas seu grupo, o Movimento 14 de Março, tenta obter alguma vantagem da desistência de Hariri e tenta forçar o primeiro-ministro designado Makati a assinar compromisso escrito de que seu governo, sob nenhuma circunstância aceitará a condição da “Resposta dos três Não” que o Hezbollah está impondo [o Hezbollah exige, como compromisso do novo governo, que o governo libanês (1) NÃO continue e financiar o Tribunal Especial; (2) NÃO forneça juízes para o Tribunal Especial; e (3) NÃO continue a cooperar com o Tribunal Especial, cancelando o Memorando de Entendimento assinado entre a ONU e o Líbano, segundo o qual poderão ser presos e extraditados os indiciados pelo Tribunal Especial. 

O grupo de Saad Hariri ainda insiste que o preço para que participem do novo governo é que o governo apoie o Tribunal Especial e passe a controlar as armas do Hezbollah. Já se sabe que nada conseguirão, porque em nenhum caso o Hezbollah aceitará essas exigências.

Se Saad Hariri ficar fora do governo de Maliki, tentará converter-se em paladino do Tribunal Especial, mas perderá apoio dentro do próprio Movimento 14 de Março, a cujos membros muito interessa assumir o controle de alguns dos bons empregos no Gabinete. O Movimento 14 de Março, via Fuad Siniora, líder do bloco no Parlamento, fala muito contra as armas do Hezbollah, mas está evidentemente tentando uma barganha da qual, no momento certo, espera obter bons postos no Gabinete e no governo.

O Movimento 14 de Março joga pesado, pela batura de Jeffrey Feltman, diplomata norte-americano, um dos arquitetos da “Revolução do Cedro”, em 2005, que faz essa semana sua 62ª visita à Região, para que todos sejam informados de que “o governo dos EUA respeita a soberania, a liberdade e a independência do Líbano”, embora ninguém saiba o que significariam essas palavras, se se analisa a atuação dos EUA na Região. 

Ontem, em Paris, Feltman repetiu que “EUA e França persistem gravemente preocupados com o golpe que derrubou o governo Hariri, com ameaças e intimidação”. E insistiu em que os EUA e aliados devem pressionar para a imediata implementação das resoluções n. 1.701 do Conselho de Segurança (desarmar o Hezbollah) e 1.757 (indiciar e condenar o Hezbollah).

Jeff até poderia ser perdoado por sentir-se meio como Saeb Erekat quando, dia 21/10/2009, o hoje em breve ex-negociador “da paz”, da Autoridade Palestina, lamentou, em reunião com George Mitchell, que “A Região está escapando como grãos de areia entre nossos dedos”. Feltman, e não é a primeira vez, está sob forte pressão de Washington e Telavive para “fazer alguma coisa!”

Há muitos boatos, entre os quais que a Embaixada dos EUA seria fechada se, como se espera, os EUA e Israel lançarem campanha planetária de difamação contra o Líbano e o Hezbollah, para abrir caminho para que o Tribunal Especial divulgue os indiciamentos que Washington tem certeza de que incluirão altos comandantes do Hezbollah.

O Hezbollah tem controle pleno e direto sobre o governo libanês, inclusive no Parlamento, nos cerca de 30 votos no Gabinete e na burocracia. Ao contrário do que dizem EUA e Israel, o partido não está ‘excitado’ com a possibilidade de chegar ao governo. O Hezbollah vê-se como movimento de resistência, primeiramente, essencialmente e sempre; e muitos no partido não querem que esse “mandato limpo” seja contaminado pelas práticas nem sempre éticas e nem sempre limpas de um governo difícil como o do Líbano.

O Hezbollah trabalhará agora para implementar sua agenda de governo limpo e anticorrupção e dar àquela agenda a forma de leis, mas o partido prefere deixar a outros o trabalho sempre difícil de acomodar um vasto conjunto de seitas autocentradas e autorreferentes e seus líderes políticos. Em vasta medida, o Partido da Resistência operará através de deputados aliados, que não são membros do próprio Hezbollah. Há planos de começar a trabalhar imediatamente para aprofundar soluções para ‘as quatro grandes questões’ que todos os libaneses querem ver imediatamente equacionadas e resolvidas: água, eletricidade, poluição e tráfico, além de outras, como criar empregos e educar para a preservação do meio ambiente.

O Hezbollah quer ser visto como partido que também trabalha pelos pobres, ao mesmo tempo em que constrói o movimento de resistência. Prepara-se para abrir sua agenda legislativa doméstica, que incluirá quase todas as dez iniciativas “do bom governo” que Nabib Berri, presidente do Parlamento e aliado do Partido da Resistência entregou ontem a Makati.

O bloco de 12 membros do Hezbollah disse ao novo primeiro-ministro que favorece um governo de “parceria nacional”, nas palavras do deputado Mohammad Raad, que alertou a mídia: “O Hezbollah não impôs pré-condições [ao governo Mikati] e não aceitaremos qualquer imposição que se assemelhe a chantagem. Não pedimos cargos nem ministérios especiais e esperamos que transcorra normalmente o processo normal de formar novo governo.”

O Irã obteve os maiores ganhos políticos até aqui, porque continua a ganhar espaço para movimentar-se pela Região, sempre com olhos na Palestina.

Os EUA continuam a perder espaço e prestígio na Região, vistos cada vez mais, sobretudo depois da divulgação dos “Documentos da Palestina”, como inimigos de árabes e muçulmanos. São vistos, cada vez mais, como estado pária, porque Washington ainda não parou de promover, financiar e armar os terroristas sionistas que ocupam ainda a Palestina.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Líbano: vazam vergonhas sobre o esquife de Hariri

Sami Moubayed

21/1/2011, Sami Moubayed, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

DAMASCO – O ano começou com graves problemas para o primeiro-ministro do Líbano Saad al-Hariri. Primeiro, 11 ministros renunciaram e deixaram seu governo, ao mesmo tempo em que lhe criaram o embaraço extra de derrubar seu Gabinete, no momento em que, na Casa Branca, Hariri estava reunido com o presidente Barack Obama. 

Hariri pisou no Salão Oval como primeiro-ministro; saiu de lá como ex-ministro em desgraça. A queda coincidiu com o colapso da iniciativa Síria-sauditas para o Líbano, que há meses tentava superar o impasse entre Hariri e a oposição liderada pelo Hezbollah. 

Então aconteceram os “Hakika-Leaks” ou “vazamentos-verdade” pela televisão, quando a rede NewTV do Líbano divulgou encontros privados e supostamente confidenciais entre Hariri e os procuradores do Tribunal da ONU sobre o assassinato, em 2005, de Rafik al-Hariri. O escândalo “Hakika-Leaks” – como tem sido chamado, nome derivado de WikiLeaks – ressoou fortemente no Líbano, comprometendo gravemente a credibilidade de Hariri, seja entre seus eleitores seja para o grande público libanês e árabe em geral. 

As gravações foram feitas no verão de 2007, mais de dois anos antes de Hariri tornar-se primeiro-ministro. Aparece lá como figura tímida, tenso, vacilante e extremamente rude. Numa das gravações, Hariri conversa com Mohammad Zuhair al-Siddiq, cidadão sírio, criminoso condenado em tribunais sírios e libaneses, que cometeu crime de perjúrio na audiência em que foi ouvido como testemunha pelo Tribunal da ONU para o Líbano. 

Mohammad Zuhair al-Siddiq
Siddiq, uma das várias falsas testemunhas ouvidas no caso Hariri, forneceu informação falsa e tentou envolver membros do Hezbollah e altos funcionários da Síria no crime de 2005. Apesar de, antes, Hariri ter dito que não conhecia o homem, as gravações provam o contrário: havia longo relacionamento entre os dois; e relacionamento que, além de existir comprovadamente, não era relacionamento social ou formal. 

Siddiq literalmente grita com Hariri em vários pontos da gravação. Reclama que lhe telefonou e enviou-lhe mensagens por SMS, e Hariri não lhe deu qualquer resposta. A relação entre os dois, portanto, era suficientemente próxima a ponto de Siddiq usar o número do celular pessoal de Hariri. Participavam da mesma reunião o principal assessor de segurança de Hariri, coronel Wissam al-Hasan, que Siddiq trata com intimidade, pelo primeiro nome, “Wissam”. 

Hasan foi o primeiro acusado pela morte de Hariri-pai, porque, principal encarregado da segurança pessoal de Hariri-pai, não se apresentou para trabalhar no dia do atentado fatal, em fevereiro de 2005. Alegou que fora chamado para um exame na universidade, no mesmo dia e hora, o que explicaria que seu celular estivesse desligado no momento em que Hariri era morto em violenta explosão na avenida que acompanha a praia, em Beirute. Os juízes do Tribunal da ONU consideraram fraco o álibi do guarda-costas de Hariri-pai e recomendaram que ele fosse interrogado e tratado como “principal suspeito”. Essas orientações, adiante, foram deixadas de lado pelos investigadores da ONU, depois que Hassan assumiu o posto de chefe da segurança de Hariri-filho. 

Wisam Al-Hassan
Na segunda fita divulgada no escândalo dos “Hakika-Leaks”, ouve-se a voz de Hariri-filho, que fala com o juiz investigador da ONU sobre as circunstâncias que levaram ao assassinato de seu pai. Falando em tom leviano, superficial, que os libaneses identificam facilmente como tom “de filhinho-de-papai”, Hariri acusa várias figuras públicas, que, segundo ele, viveriam à volta de seu pai tentando arrancar-lhe dinheiro, entre os quais estaria o respeitado jornalista libanês Talal Salman, editor de as-Safir, jornal diário de grande circulação. 

Diz também que, em 1999, seu pai teria custeado o tratamento hospitalar do então ministro de Relações Exteriores da Síria, Farouk al-Shara, no American University Hospital em Beirute. A Síria protestou imediatamente, e provou que os custos daquele tratamento hospitalar foram pagos pelo governo sírio, não por Hariri-pai. 

O jovem primeiro-ministro também lançou dúvidas quanto à lealdade de um dos principais assessores de seu pai, Nihad Mashnouq, e disparou uma saraivada de insultos contra outro jornalista libanês Charles Ayyoub. O então presidente Emile Lahhoud e Jamil al-Sayyed, chefe da segurança, disse ele, eram os culpados por a relação entre Hariri-pai e o presidente Bashar al-Assad da Síria ter-se deteriorado. 

“Eles odiavam meu pai” – diz Hariri-filho na gravação divulgada –, “e o Hezbollah e Nabih Berri [presidente do Parlamento] queriam por fim àquele relacionamento [entre Hariri-pai e a Síria].” Insultou também o ex-primeiro ministro Najib Mikati – hoje um dos nomes cogitados para o posto de primeiro-ministro –, do qual disse: “Eu o fiz primeiro-ministro [em 2005] e ele apunhalou-me pelas costas”. 

Hariri tampouco poupou o bilionário saudita príncipe Alwaleed Bin Talal, o qual, para Hariri-filho, ambicionaria ser primeiro-ministro do Líbano, cargo ao qual faria jus por ser neto de Riad al-Sulh, um dos patriarcas da independência do Líbano. 

Rafiq e Saad al Hariri
Exposto e sem poder negar que tivesse dito o que todos ouviram, não restou outra saída a Hariri-filho, além de apresentar-se como vítima de uma “conspiração dos serviços de inteligência” patrocinada pela rede de televisão New TV, que teria relações com a oposição liderada pelo Hezbollah. Embaraçado, Hariri desculpou-se, em nota distribuída por seus assessores de comunicações, a todos os que insultou na gravação de 2007, que teria sido evento acontecido em tempos muito difíceis, em tudo diferente do que transpirou depois de ter-se tornado primeiro-ministro em 2009. 

As gravações confirmam, além de qualquer sombra de dúvida, vários fatos que provavelmente comprometerão o futuro político do primeiro-ministro. 

Primeiro, que é homem de duas palavras – diz uma coisa no privado e outra em público. Segundo, que conhecia a saga das “falsas testemunhas”, cuja existência a oposição denuncia já há dois anos. 

A gravação de conversas entre Hariri e Siddiq – uma das falsas testemunhas, como já o reconhecem todos, inclusive os juízes do Tribunal da ONU – confirma a versão circulante segundo a qual o próprio Hariri-filho arquitetou a ação das falsas testemunhas e, depois, as manteve sob sua proteção pessoal por mais de cinco anos. 

Isso provavelmente explica por que o Hezbollah tanto insiste em que a ação das falsas testemunhas e seus depoimentos ao Tribunal da ONU sejam investigados, antes que se possa cogitar construir qualquer acordo entre a oposição e Hariri. Os vazamentos também confirmam que, apesar de ainda se recusar a abandonar o cargo de primeiro-ministro do Gabinete deposto, são novamente muito baixas as chances de que Hariri volte a ser primeiro-ministro de algum futuro Gabinete. 

Hezbollah
Há vozes no Líbano que dizem que, se Hariri for derrotado e afastado do poder – e, como estão as coisas hoje, cercado de escândalo e em desgraça – pelo Hezbollah, é provável que seja convertido em herói nacional dos libaneses sunitas. Para os que raciocinam nessa direção, a queda de Hariri nesse momento e sob as atuais circunstâncias não interessa à oposição. Se for obrigado pelo Hezbollah a deixar o governo, o resultado só favorecerá Hariri. Será como um segundo presente, capaz de impulsionar sua carreira política, só comparável, para o mesmo efeito, com o assassinato de seu pai em 2005. 

Via mais produtiva para desacreditar Hariri seria deixá-lo ser primeiro-ministro e dar tempo ao tempo, até que ele próprio consuma toda a própria base de prestígio e votos com que conta em Beirute. 

Se for empurrado para a oposição, Hariri estará protegido. Na oposição, os erros jamais são graves e jamais custam caro. Sem erros, reunirá à sua volta as massas que sempre tendem a cercar políticos sem responsabilidade de governar, que podem prometer o que as massas queiram ouvir, e jamais são acusados pelos erros e fracassos de quem esteja no governo. Vale também para a história de Hariri-pai, cuja popularidade sempre foi baixa enquanto esteve no poder (1992-1998), mas alcançou patamares jamais sonhados ao tempo em que esteve na oposição, em 1998-2000. 

Além disso, muitos, na oposição, preocupam-se com a evidência de que, por mais que queiram ver no Líbano um primeiro-ministro pró-ocidente, os EUA preferirão ter lá, em vez de Hariri, alguém pró-ocidente à maneira de Omar Karameh – que ativamente impedirá qualquer investigação que o Tribunal da ONU tente, e que será mais facilmente pressionável, isolável e chantageável, contra o Líbano e os libaneses. 

Hassan Nasrallah - Hezbollah
Todas essas variáveis consideradas, o que está em jogo sempre, nos três possíveis cenários, é o futuro político de Hariri, à espera do que resulte do encontro Síria-Turquia-Qatar sobre o Líbano. Pelo que já se sabe, os turcos entendem que Hariri deve ser mantido como primeiro-ministro. 

Várias ideias circulam em Beirute sobre como “salvar” Hariri: ele poderia voltar, se se separasse oficialmente do Tribunal da ONU, se declarasse que se trata de corte politizada, não neutra, e se aceitasse que um comitê conjunto de juízes turcos e do Qatar avaliasse a peça final da acusação e as sentenças do Tribunal da ONU, antes de que sejam divulgadas oficialmente. 

Essa e outras que se discutem são tentativas para salvar, sendo ainda possível, não Hariri, mas o Líbano

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Líbano: Os indiciados no caso Hariri

18/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

A poster in Sidon, depicting Rafiq Hariri and his son, Saad Hariri
Saad Hariri e Rafiq Hariri - filho e pai - num poster em Sidon
Uma gravação terrivelmente embaraçosa, na qual se ouve Saad Hariri, o primeiro-ministro que acaba de perder o posto no Líbano, acusando os sírios de serem responsáveis pelo assassinato de seu pai; uma ameaça, por aliados do Hezbollah, de acusar Hariri por prática de corrupção; e o medo – que todos, todos, sentem no Líbano – de que o Tribunal do Conselho de Segurança da ONU para o Líbano tenha indiciado membros do Hezbollah por participação no atentado que resultou no assassinato de Rafiq Hariri em 2005 converteu em pesadelo a atual crise política. 

Mas estamos no Líbano, e sempre há elementos da mais pura farsa, a sugerir que as televisões locais, praticamente todos os políticos libaneses, iranianos, norte-americanos, israelenses e sírios – além de parte significativa da mídia mundial – nada fizeram além de mentir descaradamente, para conseguir afogar o país num banho de sangue.

Já há meses, jornalistas estrangeiros e políticos libaneses só fazem avisar que o Tribunal da ONU estaria “na iminência” de acusar vários membros do Hezbollah pelo assassinado de Hariri sênior, também primeiro-ministro.

De fato, o procurador do Tribunal da ONU já encaminhou a peça acusatória, para a revisão legal antes de encaminhá-la oficialmente, ao pré-juiz Daniel Franson. Mas o pré-juiz pode discordar dos argumentos que ler, pode adiar o encaminhamento e pode até – parece que sim – aceitar a peça construída pela acusação, sem ter de revelar os nomes dos acusados.

O conteúdo daquela peça acusatória foi “revelado” primeiro pela revista Der Spiege  – conhecida por receber matérias de fontes israelenses (23/5/2009, em New Evidence Points to Hezbollah in Hariri Murder), e depois foi divulgado também peloWall Street Journal – que também, não raras vezes, recebe material de fontes israelenses – antes de um jornal israelense citar o nome de um dos acusados, que seria parente do também assassinado comandante da inteligência do Hezbollah pró-Irã Imad Mughniyeh (Wall Street Journal, 8/10/2010: [o nome que apareceria na peça acusatória seria o de“Mustafa Badreddine, alto comandante militar do Hezbollah e cunhado de Imad Mughniyeh”, em U.N. Indictments Near in Lebanon Killing. O Hezbollah não gostou. Diz que a prisão de vários funcionários de uma empresa de telefones celulares no Líbano prova que Israel grampeava vários telefones no dia em que Rafiq Hariri foi assassinado – Dia dos Namorados de 2005 – e que aquelas quatro “falsas testemunhas” que cometeram perjúrio ante a ONU, elas sim, deveriam já estar presas.

Informações dadas por aquelas quatro falsas testemunhas foram usadas para prender quatro generais da segurança do Líbano, mantidos presos por quatro anos sem qualquer acusação formal – até que a ONU, terrivelmente embaraçada, foi obrigada a mandar libertá-los. – E agora a rede de televisão libanesa New TV apareceu com uma fita gravada, em que se ouve Saad Hariri, em conversa com Muhamed Zuhair Siddiq, uma daquelas “falsas testemunhas”, e um funcionário da ONU. Naquela fita, ouve-se a voz de Hariri, que diz que “estamos todos convencidos de que os assassinos [de Rafiq Hariri] são os sírios”, ao que Siddiq responde “Se vocês querem insistir nisso, devem começar por responder aos que contaram essas mentiras, especialmente entre os estados árabes...” 

Numa resposta confusa, Hariri, que ainda permanece oficialmente como primeiro-ministro do Líbano, explicou que a frase foi extraída do contexto, que a fita deve envolver serviços de segurança, e que falou “há muitos anos, em circunstâncias políticas que todos conhecem”.

A fita foi gravada em 2005, e Hariri depois expressou “desculpas pessoais a todos os amigos mencionados naquelas conversações”. Deve-se presumir que aí esteja incluído o alto governo sírio, cujas relações pessoais com Hariri estão perfeitamente recompostas. Para piorar, o ex-general Michel Aoun, um estranho apoiador cristão de Hassan Nasrallah secretário-geral do Hezbollah, disse que Hariri mereceria perder “seus direitos civis” por prática de “corrupção massiva” – em outras palavras, que deveria ser preso, bem como os deputados do “Movimento 14 de Março” da maioria, se continuassem associados a Hariri.

Ninguém precisa entender todas as nuanças desse autêntico teatro libanês – muitos libaneses também não entendem –, para perceber que muita gente está dizendo quantidades imensas de sandices, como, dentre outros, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, que continua a repetir que o Tribunal da ONU tem de “ser respeitado”, mesmo agora, que a maioria dos libaneses só deseja fugir para o mais longe possível daquele tribunal. Mas o Hezbollah derrubou o governo Hariri ao retirar-se do Gabinete, e Nasrallah está compreensivelmente preocupado – não estivesse, não estaria chamando de “traidores” todos os que cooperem com a ONU; e muitas “falsas testemunhas” estão muito mais preocupadas que ele.

A ONU, claro, está fazendo papel de idiota. Parece que alguém já sabe quem matou Rafiq Hariri. Multidões de libaneses prendem a respiração, querendo nunca saber.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O plano de EUA e Israel para destruir o Hezbollah

20/11/2010, Franklin Lamb, Al-Manar, Beirute
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

   
“Empurramos esses [apagado] para onde queremos que fiquem, Maura! Agora, assista, enquanto fatiamos o Hezbollah em mil pedaços. Quem pensam que são? Usaremos a [Resolução do Conselho de Segurança da ONU n.] 1.757 e, dessa vez, acabaremos o serviço. Disse a Israel para ficar longe do Líbano, porque o exército de Israel não pode derrotar o Hezbollah e incendiariam toda a região. Vou cuidar disso. Será meu presente de Natal ao Líbano” – disse Jeffrey Feltman em conversa com sua ex-assessora e hoje embaixadora dos EUA no Líbano Maura Connelly, em visita dia 17/10/2010 ao deputado Walid Jumblatt em sua casa.

Dia 12/12/2008, Naharnet.com noticiou que “o ex-embaixador Jeffrey Feltman dos EUA entregou ao primeiro-ministro Fuad Siniora o que o diplomata norte-americano descreveu como seu presente pessoal de Natal ao Líbano. Mr. Feltman garantiu ao primeiro-ministro Siniora que forçará Israel a retirar-se da vila de Ghajar antes do final de 2008.”  

De fato, nem o primeiro-ministro Fuad Siniora nem o Líbano jamais receberam o prometido presente para o Natal de 2008, e as tropas e tanques de Israel continuam na cidade libanesa de Ghajar, apesar da crescente pressão para por fim à ocupação do norte de Ghajar, que, em clara violação do que dispõe a Resolução UNSCR 1.701, Israel invadiu em julho de 2006 e de onde, desde então, recusa-se a sair.

Em 2010, nesse final de ano, Jeff volta ao tema do Papai Noel. Outra vez está garantindo aos seus aliados libaneses que o bom velhinho lhes trará de presente a cabeça do Hezbollah, para adornar a árvore de Natal. O motivo de tanto otimismo é que EUA e Israel estão convencidos de que conseguirão, com a Resolução n. 1.757, o que tentaram, mas não conseguiram com a Resolução n. 1.559 – que visava a tirar da Resistência Libanesa as suas armas de defesa. Dia 11/11, o vice-premier e ministro do Desenvolvimento Regional de Israel Silvan Shalom previu que “depois de condenado pelo Tribunal Especial da ONU para o Líbano, o Hezbollah será obrigado a cumprir o que determina a Resolução n. 1.559. Desarmado o Hezbollah, assistiremos ao colapso da aliança Síria-Líbano-Irã-Turquia”.

O grande troféu seria Hasan Nasrallah

Pelo que já se sabe, o novo projeto de EUA-Israel foi elaborado a partir de modelos estratégicos que, dentre outros pressupostos, assumem que vários membros do Hezbollah, inclusive provavelmente também o secretário-geral Hassan Nasrallah, serão indiciados, julgados e condenados, in absentia é claro, por envolvimento no assassinado, dia 14/2/2005, do primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri.

O gabinete do Conselheiro Jurídico do Departamento de Estado dos EUA tem repetido vaidosamente, na Casa Branca, que essas novas possibilidades são produto da insistência daquele departamento, em 2005, para que se instituísse um Tribunal Especial para o Líbano nos termos do Cap. 7º da Carta da ONU. Esse Cap. 7º autoriza uso de força armada internacional ilimitada para fazer cumprir sentenças de Tribunais Especiais, no caso, do Tribunal Especial para o Líbano.

Israel, violador serial de leis internacionais – inclusive de mais de 60 Resoluções da ONU – também não tem perdido ocasião de proclamar seu apoio integral às decisões do Tribunal. Já declarou que as mais conceituadas bancas de advogados do mundo podem ser mobilizadas a qualquer momento para assessorar o trabalho da acusação no Tribunal Especial para o Líbano comandada por Daniel Bellemare do Canadá.

Poucas horas depois de Israel ter dado instruções à secretária de Estado Clinton, no sentido de que ninguém teria o que temer, porque não haveria meios para deter o Tribunal ou evitar que a sentença condenasse o Hezbollah, bastando para tanto que os EUA garantissem meios financeiros para o funcionamento do Tribunal, a Casa Branca anunciou dotação extra de 10 milhões de dólares e conseguiu que a Grã-Bretanha acrescentasse mais 1,8 milhão. Ainda se espera a contribuição da França. Hoje, o Tribunal Especial do Líbano está bem suprido de dinheiro e assim continuará até a conclusão dos trabalhos.

Conforme declarações obtidas em entrevistas com dois altos funcionários do Gabinete da Procuradoria do Tribunal Especial do Líbano, confirmadas por declarações oficiais de funcionários do governo norte-americano, há boas razões para acreditar que Jeffrey Feltman e Silvan Shalom farão o que for preciso para “acabar o serviço”. Os dois governos têm repetido que o Tribunal Especial do Líbano é legítimo nos termos da legislação internacional, uma vez que foi instituído por Resolução do Conselho de Segurança, fundamentada no disposto no Cap. 7º da Carta da ONU e nos princípios constitucionais do Líbano, ao contrário de tudo que o Hezbollah e os inimigos do Tribunal têm declarado.

Segundo um dos advogados do Departamento de Estado dos EUA, “Se o Tribunal Especial para o Líbano indiciar e condenar um único membro do Hezbollah, nós ganhamos. Um motorista, um menino de recados, não faz diferença. Isso feito, o Conselho de Segurança tem vários meios para paralisar o Hezbollah. Por exemplo: se aplicarem sanções econômicas ao estilo das que se aplicaram contra o Irã, mas contra o Líbano, para perdurarem até que o Hezbollah entregue os condenados? Os libaneses só pensam em dinheiro. Com essas várias seitas matando-se umas às outras, em pouco tempo o país estará dividido; o passo seguinte será a guerra civil. Se, além disso, racionarmos a comida deles e forem obrigados fazer dieta... E se se aplicarem sanções contra a Síria? Restará a EUA e Israel só o trabalho de varrer os cacos e fazer o que já deveríamos ter feito há meio século: instalar por aqui governos que realmente entendam as realidades regionais e internacionais.”

Telavive e Washington consideram fúteis os esforços de Hezbollah e Síria para impedir que prossigam os trabalhos do Tribunal Especial para o Líbano, porque entendem que a opinião do Líbano sobre o TEL não seria relevante. O Tribunal foi instituído pelo Conselho de Segurança da ONU e nada que o Parlamento, o Gabinete ou o povo libanês tenham a dizer terá qualquer efeito. O Líbano só continuaria a aparecer na fotografia como a cena do crime. E porque alguns dos suspeitos vivem no Líbano. Exceto por isso, o Líbano é considerado completamente irrelevante no trabalho do TEL.

Assessor do Congresso dos EUA já disse que “usaremos todas as ferramentas e meios, intimidação e outros meios com que a comunidade internacional conta para destruir o Hezbollah. Na próxima etapa, nem se verá grande envolvimento dos EUA e de Israel. Apenas assistiremos ao jogo das arquibancadas. Caberá à ONU tomar e fazer valer todas as decisões legais e políticas para prender todos os que sejam julgados e condenados. Aí está o xis da questão, e motivo pelo qual o Hezbollah está muito, muito preocupado. Se não está, deveria estar.”

Outro assessor do mesmo gabinete acrescentou, em mensagem por e-mail: “Está bem claro: o TEL é o instrumento legal internacional perfeito para destruir o Hezbollah, derrubar o governo na Síria, criar conflitos insolúveis entre sunitas e xiitas por toda a Região, provocar uma guerra civil no Líbano e derrubar os Mulás no Irã. Será como se Cheney continuasse no comando.”

Depois das condenações pelo TEL, dado por garantido que incluirão membros do Hezbollah, fontes em Washington contam com que Israel lance a mais massiva e cara campanha de propaganda pela mídia internacional, de difamação do Hezbollah, da Síria e do Irã, campanha à qual se unirá o governo dos EUA e de alguns de seus aliados europeus, além da sempre aproveitável Micronésia.

O objetivo da campanha será unir a opinião pública mundial contra os supostos assassinos xiitas de um primeiro-ministro sunita. Mais de uma dúzia de projetos conjuntos de EUA-Israel que fracassaram no Líbano na última década, desde a base aérea em Kleiat a tumultos de rua para encobrir ações de sabotagem dos cabos de fibra ótica das telecomunicações, poderão voltar a ser tentados, depois que receberem o sinal verde da lei internacional e o aval de plena legitimidade do Conselho de Segurança da ONU.

O projeto inclui reforçar as ameaças públicas de que Israel está pronto para atacar o Líbano, apesar de o Pentágono saber que Israel não tem condições de enfrentar o Hezbollah libanês e dificilmente voltará a tê-las, dentre outros fatores porque a opinião pública regional e internacional já se manifesta contra qualquer nova agressão que parta de Israel.

Segundo o Deputado Kamel al-Rifai, do Bloco Parlamentar Lealdade à Resistência, o vice-secretário de Estado dos EUA para Assuntos do Oriente Próximo Jeffrey Feltman, o ministro das Relações Exteriores da França Bernard Kouchner, e o senador John Kerry dos EUA informaram o governo do Líbano, em recente visita a Beirute, que há risco real e iminente de Israel atacar o Líbano. Al-Rifai disse ao jornal Asharq al-Awsat, dia 15/11/2010, que o Hezbollah já tem informações de que o governo dos EUA liberou Israel para agir como melhor lhe parecer em relação ao Líbano. O Deputado al-Rifai disse também que a mesma mensagem foi passada também ao governo da Síria.

Por todas essas razões, o Tribunal Especial para o Líbano está sendo considerado como oportunidade extraordinariamente favorável para que EUA e Israel retomem o controle na Região. Na campanha de propaganda pela mídia, os ataques serão centrados contra Sayed Nasrallah – que EUA e Israel temem, porque vêem nele, simultaneamente, um líder político de prestígio e estatura semelhantes aos de Nasser e, ao mesmo tempo, um líder muçulmano que inspira respeito em todo o globo.

Sayed Nasrallah é visto como líder político com potencial para unificar as muitas cisões entre xiitas e sunitas – por isso, precisamente, Washington e Telavive consideram-no extremamente perigoso.

O que pensa o Hezbollah

Dia 11/11/2010, o secretário-geral do Hezbollah, Sayed Hassan Nasrallah falou sobre o Tribunal Especial para o Líbano, em cerimônia do Dia dos Mártires, realizada na área sul de Beirute. Falou sobre o projeto EUA-Israel e explicou aos que se reuniram para ouvi-lo a estratégia de EUA-Israel, que o Hezbollah já analisou detalhadamente: 

“O Tribunal Especial para o Líbano foi criado para acusar xiitas pelo assassinato do mais importante líder sunita da Região; em seguida, o TEL deve condená-los e expedir mandato de prisão. Pedirão então ao governo do Líbano, que tem acordos firmados com os EUA para esses casos, que prendam os condenados. Para prendê-los, o exército libanês terá de enviar soldados e forças de segurança contra a Resistência. Assim, nossos inimigos contam com provocar uma guerra civil no Líbano.”

E Nasrallah continuou:

“Em linhas gerais, o plano é esse. Nem os EUA, nem a entidade sionista e os financiadores do TEL têm qualquer preocupação com o que aconteça ou possa acontecer ao Líbano. O Líbano em si não é importante. De fato, nem o mártir Hariri, nem os sunitas, nem os xiitas, nem muçulmanos, nem cristãos, nem o Movimento Futuro, nem o Bloco 14 de Março, nem o Bloco 8 de Março, nada disso tem qualquer importância para os EUA. A única coisa que importa aos EUA é “Israel”. E Israel tem muito interessem em ferir a Resistência, em nos eliminar, isolar, enfraquecer. Israel tem interesse, sobretudo, em separar a Resistência de suas legítimas bases populares – por isso, precisa distorcer a imagem da Resistência. As crenças, os princípios morais e o desejo da Resistência têm de ser destruídos. Por isso construíram esse plano: pensando em forçar a Resistência a render-se.”

Pouco depois, outro deputado do Hezbollah no Parlamento libanês, Nawaf Mousawi, falou diretamente à mídia:

“O Partido da Resistência está preparado para todos os cenários. Nada que façam ou tentem surpreenderá o Hezbollah. Estamos preparados para vários tipos de respostas. A cada alternativa, corresponde um cenário. Se as coisas tomarem o rumo que nos interessa, estamos preparados. Mas se as coisas tomarem rumo que não nos interessa, e falharem todos os nossos esforços para superar a crise criada pelo inimigo, também estamos preparados. Tentem o que tentarem, sempre encontrarão a Resistência preparada e a postos”, disse Mousawi.