Mostrando postagens com marcador Sibel Edmonds. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sibel Edmonds. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de dezembro de 2014

Putin e seu negócio-surpresa de gás atordoam Obama e “eurolíderes”

5/12/2014, [*] Mike WhitneyCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O gasoduto Nabucco deles fracassou. O de Putin ganhou. Ponto final. Chama-se “capitalismo”. O “ocidente” que aprenda: capitalismo dói.


Erdogan e Putin facham acordo de gás em 1/12/2014 em Ancara (Turquia)
Na 2ª-feira (1/12/2014), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fechou um negócio, com o Presidente Recep Tayyip Erdoğan da Turquia, que reforça os laços econômicos entre os dois países e converte a Turquia em principal eixo de distribuição do gás russo na região. Nos termos do acordo assinado, a Rússia bombeará mais gás natural para locações na Turquia central e para uma “central de distribuição na fronteira turco-grega”, que praticamente garantirá a Putin livre acesso pela porta dos fundos ao lucrativo mercado da União Europeia, com a Turquia operando como intermediário criticamente decisivo. O movimento cria uma aliança Rússia-Turquia de fato, que altera todo o equilíbrio de poder regional a favor de Moscou, erguendo mais um formidável obstáculo contra a estratégia de “pivô para a Ásia”, de Washington.

Enquanto a imprensa-empresa ocidental dedica-se a “noticiar” a mudança no projeto (“Putin abandonou o projeto de construção do gasoduto Ramo Sul que levaria gás para o sul da Europa” [1]) como se fosse “fracasso diplomático” para a Rússia, a verdade parece ser exatamente o oposto de qualquer tipo de fracasso.

Putin mais uma vez passou a perna nos EUA, tanto no front “energético” quanto no front geopolítico, acrescentando duas marcas em sua longa lista de triunfos políticos. Adiante, um breve resumo escrito por Andrew Korybko, no blog Sputnik News:

A Rússia deixou para trás o conturbado projeto Ramo Sul e passará a construir com a Turquia o gasoduto que o substituirá, noutra direção. É decisão monumental, que assinala que Ancara também decidiu rejeitar o euroatlanticismo e abraçar a integração eurasiana.

No movimento que pode ser o maior, até agora, na direção da multipolaridade, (...) a Turquia mudou de campo e deixou para trás as velhas ambições euroatlânticas. Há um ano, nada disso seria sequer imaginável. Mas o retumbante fracasso da política dos EUA para o Oriente Médio e para a energia da União Europeia tornou possível essa reversão completamente surpreendente, em menos de um ano. A Turquia já gozava de algumas relações privilegiadas com o ocidente, mas toda a natureza do relacionamento foi para sempre alterado, com o país, agora, oficialmente engajado numa multipolaridade pragmática.

O governo da Turquia completou movimento importantíssimo ao firmar esse negócio colossal com a Rússia, em ambiente político tão altamente sensível; e a velha amizade não poderá ser restaurada. (...) As reverberações disso tudo são globais, no mais pleno sentido da palavra. (“Cold Turkey [2]: Ancara dá as costas à pressão ocidental e volta-se para a Rússia”, Sputnik News)

Projetos South Stream e Nabucco - CANCELADOS
Korybko parece ser o único a perceber a magnitude do que aconteceu em Ancara na 2ª-feira (1/12/2014), embora – a julgar pelo silêncio sepulcral do governo Obama – tudo leve a crer que a gravidade do quadro começa a se tornar visível para muitos. Vlad, o Grande-Mestre, atropelou os “únicos supernegociadores indispensáveis da única superpotência idem”, deixou-os sem fala. É cenário que ninguém previra e que, se não for corretamente administrado pode vir a transformar-se em pesadelo, esse sim, excepcionalíssimo. Adiante, um pouco mais, de uma conferência de imprensa, em RT:

Putin disse que a Rússia está pronta para construir novo gasoduto para suprir a crescente demanda da Turquia por gás, que pode incluir uma central especial de redistribuição, sobre a fronteira turco-grega, para consumidores no sul da Europa.

Por hora, o suprimento de gás russo para a Turquia aumentará cerca de 3 bilhões de metros cúbicos, pelo gasoduto Ramo Azul [orig. Blue Stream] já operante (...). Moscou também garantirá desconto de 6% no preço do gás para consumidores turcos, a partir de 1/1/2015 – disse Putin.

Estamos preparados para aumentar esses descontos no preço do gás, conforme avance a implementação de nossos projetos conjuntos em larga escala – explicou o presidente da Rússia. (“Putin: Russia forced to withdraw from S. Stream project due to UE stance”, RT)

O Projeto Blue Stream deverá ser estendido
de Ancara até a fronteira da Grécia
Como foi possível? Como Putin pôde chegar valsando a Ancara, assinar o próprio nome em algumas folhas de papel e capturar um dos aliados chaves de Washington, bem ali, sob o nariz de Washington? Não havia ninguém ali suficientemente sensível para prever cenário semelhante e evitá-lo a tempo? Ou todos os seres competentes no governo do EUA foram substituídos por doidas doentiamente viciadas em guerra, como Susan Rice e Samantha Powers?

O governo Obama estava fazendo tudo que podia para controlar o fluxo de gás do oriente para o ocidente e assim minar a integração econômica russo-europeia. E, de repente, ágil como gato, Putin encontra via para evitar as sanções econômicas (Turquia rejeitara as sanções contra a Rússia), para evitar a coerção e a chantagem pelos EUA (que foram aplicadas contra a Bulgária, a Hungria e a Sérvia), e evita as infindáveis hostilidade e beligerância de Washington, e, simultaneamente, posiciona a Rússia exatamente onde a Rússia desejava estar. Mas, ora... Afinal de contas, o que se deveria esperar de Mestre de alto nível em artes marciais, como Putin?

“Não estou batendo em ninguém”, diz Vlad, a Marreta. “Você é que vai autoespancar-se”. E se bem o disse, melhor o fez. Pergunte ao embasbacado Obama que, até agora, não levou a melhor em nenhum dos vários encontros que teve com Putin.

Mas... E por que o silêncio? Por que a Casa Branca não emitiu declaração sobre o grande negócio de gás entre russos e turcos, sobre o qual todos estão falando?

Explico-lhes por quê. Porque ainda não sabem o que desabou sobre eles, de que lado veio, nem por quê. Estão completamente abobalhados pelo anúncio do acordo e não conseguiram nem perceber o que significa para as questões que, sim, são as principais da agenda de política externa deles mesmos! Como o “pivô para a Ásia”, ou as guerras na Síria e Ucrânia, ou o muito eternamente inflado gasoduto do Qatar para a União Europeia que se esperava que cruzasse o território da – adivinharam?! – Turquia. Será que aquele plano ainda é plano, ou a aliança Putin−Erdogan bateu o último prego do esquife também dele? Verdade seja dita, Putin, dessa vez, mandou o adversário para fora do ringue. A equipe de Obama está claramente sem chão, sem nem ideia do que está acontecendo. Se a Turquia vira-se na direção do leste e une-se ao crescente bloco russo, os políticos norte-americanos terão de rasurar a melhor parte de seus planos estratégicos para o próximo século e voltar ao primeiro quadrinho do jogo. Que trabalheira!

O trecho do Blue Stream, Ancara- Grécia
(a ser construído)
Na 4ª-feira (3/12/2014), o New York Times publicou artigo interessante, que expõe perfeitamente a ambivalência de Washington em relação ao Ramo Sul. Aqui, um excerto:

Moscou apresentou o projeto há muito tempo, em 2007, como projeto que fazia sentido comercial, porque criava nova rota para o gás russo chegar à Europa. Washington e Bruxelas opuseram-se, porque o projeto seria instrumento para reforçar a influência russa sobre o sul da Europa, e porque deixava de lado a Ucrânia, cujas disputas de preços com a Gazprom interromperam por duas vezes o fornecimento de gás à Europa, em anos recentes (“Decisão de Putin, de não construir o gasoduto Ramo Sul, deixa a Europa embasbacada”, New York Times).

Aquele foi o argumento do vai-e-vem: vender gás ao povo na União Europeia reforçaria, sabe-se lá como, o poderio tirânico maníaco que Putin insistiria em impor ao continente. É piada. É conversa de doidos. Você, caro leitor: está disposto a desligar o aquecimento e o fogão de cozinha, rasgar sem pagar sua conta de energia elétrica, para protestar, e deixar-se morrer congelado no escuro... só para “fazer-ver” à empresa fornecedora de gás que você jamais capitulará ante o poderio tirânico maníaco... de uma empresa de gás?!

Claro que não, porque toda essa ideia é ridícula. Assim como é ridículo pensar em bloquear o Ramo Sul também sempre foi ridícula. Putin é vendedor de gás. Não é vendedor de tirania. Não tem planos de fazer as pessoas bater queixo, bater pés e viverem arrepiados de frio, em casa e no trabalho, dia e noite, no escuro.

Toda essa conversa não passa de propaganda do pessoal da indústria do petróleo, que perdeu a disputa comercial pelo fornecimento de petróleo para a União Europeia. Reclamem o quanto queiram das uvas amargas, porque, volta e meia, as uvas amargam, sim, para um lado ou para o outro. O gasoduto (Nabucco) deles fracassou. O de Putin ganhou. Ponto final. Chama-se “capitalismo”. O “ocidente” que aprenda: capitalismo dói. 

E há mais uma coisa: os países que aquele Ramo Sul atenderia não têm fornecedor alternativo que atenda sua demanda crescente por gás. Assim sendo, aqueles países, ao acompanharem a “liderança” de Washington, o que fizeram foi, basicamente, atirar contra o próprio pé. Analistas estimam que qualquer substituição para o gás russo custará provavelmente 30% a mais que o preço que a Gazprom lhes ofereceria.

O xadrez ESTÚPIDO dos EUA

Viva os EUA! Viva a estupidez!

Os EUA estavam determinados a sabotar o Ramo Sul, desde o começo, sobretudo porque Washington quer que suas empresas e bancos controlem o fluxo de gás para o mercado da União Europeia  através de gasodutos privados na Ucrânia. Assim, podem arrancar lucros maiores para os oligarcas acionistas do governo dos EUA. Sem entrar em muitos detalhes sobre os variados métodos que os EUA usaram para torpedear o projeto, vai aqui uma história que vale a pena conhecer. Esse excerto é de Zero Hedge (trad. completo em redecastorphoto):

(...) dois meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o Primeiro-Ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com a Rússia, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da União Europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos.

Há agora um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão. Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária.

Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que: a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus. E acrescentou que, na atual situação, queriam menos envolvimento russo.

Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica nisso. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT (Zero Hedge).

John McCain e Barack Obama
Digamos logo, sem meias palavras: McCain, o Louco, chega à cidade e imediatamente se põe a mandar em todos à sua volta, dizendo que quer “menor envolvimento russo”, e basta essa bobagem para fazer o Ramo Sul brecar, queimando pneu? É isso que estou ouvindo?

É. Ou pelo menos é o que parece, com certeza parece.

Será que tudo isso afinal ajudou o leitor a ver o que está realmente acontecendo aqui? Não se trata de Putin. Trata-se de negócios de gás, e de quem vai lucrar desse gás e em que moeda esse gás será denominado. É disso que se trata. O resto da patacoada sobre “envolvimento russo” ou terrorismo ou direitos humanos ou soberania nacional é só conversa fiada. A turma que governa os EUA (gente como McCain) não dá nenhuma importância a nada daquilo. Aquela turma só pensa em dinheiro; dinheiro e poder. Só. Nada mais.

Assim sendo, o que farão agora? Como os gatos gordos no poder em Washington expressarão sua fúria contra a nova ameaça que Putin e Erdogan criaram?

Não é preciso um gênio para entender o que virá. Será exatamente o que todos já vimos acontecer, um milhão de vezes.

Vão à caça da cabeça de Erdogan com unhas e dentes. É o que sempre fazem, não é?

A única razão pela qual ainda não começaram a caçada é porque estão pondo em ordem as suas hordas de propaganda, o que em geral toma um dia ou dois. Mas tão logo os “jornalistas” e “especialistas midiáticos” estejam organizados, começará o desmantelamento do velho Recep, paulada-manchete a paulada-manchete. Erdogan será o novo Hitler e maior ameaça à humanidade que o mundo jamais viu. Podem apostar.

A CIA vinha construindo a desgraça de Erdogan...
Sibel Edmonds [3] acha que Washington já estava cozinhando a desgraça de Erdogan há muito tempo, desde o tempo de um arranca-rabo que ele teve com a CIA, há alguns anos. Seja como for, ela oferece bom prognóstico do que esperar, agora que Erdogan entrou na lista dos inimigos de Washington. Eis um recorte do que ela postou em Boiling Frogs, dia 18/1/2014:

Todos sabemos o que acontece a esses fantoches quando se desentendem com a CIA. O fantoche passa a ser visto como se seu prazo de validade estivesse vencido. Depois de o fantoche ser considerado expirado começa, sem mais nem menos, do nada, a reversão da respectiva marca, que se pode chamar de marketing reverso: todos os velhos esqueletos são desenterrados do mais fundo dos armários e “vazados” para a imprensa-empresa. Todas as violações de direitos humanos que, antes, nada haviam violado, são examinadas novamente para constatar que, sim, violaram. A carta terrorista rapidamente aparece na equação. E a lista vai longe.

(...) Todos os fantoches e palhaços e respectivos regimes que o Império pôs no poder têm de obedecer cegamente todas as ordens do Império (...). Não violarás as ordens do Império. Porque se as violares, estarás desgraçado, ferrado, exposto, derrubado do poder e pode acontecer até de morreres. Para ter certeza, basta examinar a história do último século. E ver o que acontece quanto fantoches e palhaços postos no poder ficam confiantes demais e se deixam dominar pela húbris, e ignoram um ou mais dos mandamentos. É quando qualquer fantoche ou palhaço pode ganhar reencarnação como ditador, déspota, torturador e, claro, claro: como terrorista. É quando o quintal deles é cavado incansavelmente, até acharem lá qualquer grama de armas de destruição em massa...

Não importa como se analise a questão, os dias de Erdogan estão contados... Todos os que algum dia se atreveram a fazer o que ele fez foram punidos e exibidos em praça pública, como exemplo a todos os demais fantoches−palhaços postos no poder pelos EUA−CIA. (“Primeiro-ministro turco Erdogan: A rápida transformação de um fantoche do Império”, BFP).

Então... aí está. Podem todos esperar o que virá lá pelo fim da semana, quando a imprensa já estiver “reorganizada” para fazer a demonização de Erdogan, o homem que se atreveu a desobedecer os chefões da gangue-Washington. Como todos que acompanham a política externa dos EUA nos últimos 60 anos sabem: quanto a desobedecer, a coisa é absolutamente proibida, é não e não. [4]
____________________________

Notas dos tradutores

[1] Essa era PRECISAMENTE a manchete que se lia na revista Exame, da ed. Abril e no Correio Braziliensequando suspendemos a pesquisa e decidimos que não valia a pena perder tempo com esse tipo de “demonstração-denúncia”. O “jornalismo” brasileiro, as empresas-imprensa, os jornalistas empregados e os cursos de “cumunicação” que os “formam” [só rindo] são os piores do mundo, cada um na sua área, e já sabemos disso. Agora já não se trata de explicar-denunciar; agora se trata de transformar, fazer melhor e acabáááááá cun eles.

[2] Lit. “Peru frio”; trocadilho com Turkey, “Turquia”; e com uma expressão de gíria “cold turkey” aprox. “a ferro e fogo”, “doa a quem doer”.

[3] Sibel Edmonds, ex-tradutora do FBI; demitida depois de acusar oficiais do FBI de terem ignorado toda a inteligência que já havia e que apontava para os ataques da Al-Qaeda contra os EUA. Anima um blog interessante: Boiling Frogs.

[4] Alteramos ligeiramente a tradução das linhas finais do artigo. Mais do que um Erdogan que estaria “considerando o interesse do próprio país” (como se lê no original) e que disso teria extraído coragem para desertar o campo dos EUA e juntar-se a Putin, o que nós vemos aí é um Erdogan que, já sabendo que a CIA o “marcou” (o artigo acima citado, sobre a desconstrução de Erdogan foi escrito há exatamente um ano), alia-se a Putin, para ter alguma proteção. Isso, sim, no nosso modo de ver, explica a mudança de Erdogan (supondo que tenha havido alguma), muito mais do que alguma “bondade” essencial, ou genuíno interesse pelo destino do povo turco que tivesse repentinamente brotado nele.
___________________________

[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelancenos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente emCounterpunche vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pepe Escobar: "O sonho da OTAN: guerra civil na Síria"


Pepe Escobar

14/11/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Até os grãos de areia do deserto sírio já sabem que não aparecerá em Damasco nenhuma intervenção “humanitária” posta em prática pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), para provocar “mudança de regime”. Na Síria, nenhuma guerra longa, à moda da guerra feita contra a Líbia, é exeqüível (apesar de a Casa de Saud, amantes impolutos da democracia, já se ter oferecido para pagar a conta, sem limites de gastos). 

Mas o nevoeiro de guerra iminente lá está e permanece impenetrável. O que, afinal, a OTAN está fazendo na Síria? 

Já se sabe (2/12/2011, Pepe Escobar, “Guerra de sombras na Síria que a OTAN já instalou um centro de controle e comando na província de Hatay, sul da Turquia – onde comandos britânicos e a inteligência francesa estão treinando um sinistro Exército Síria Livre [ing. Free Syria Army (FSA)]. Objetivo? Fomentar uma guerra civil que envolva o norte da Síria. 

Agora veio a confirmação, pelo blog de Sibel Edmonds [1], conhecida por denunciar práticas ilegais do FBI (USA Federal Bureau of Investigation): pode estar já em curso um movimento de pinça, envolvendo a Jordânia.  [2] 

Edmonds cita fontes locais segundo as quais “centenas de soldados que falam outras línguas além do árabe” estão-se “deslocando, ida e volta (...) entre a base aérea Rei Hussein em al-Mafraq” e “cidades jordanianas próximas da fronteira”. 

Edmonds sustenta que nada disso está sendo noticiado pela imprensa norte-americana, por efeito de proibição absoluta vinda ‘de cima’, a qual, em teoria, expirou ontem [3ª-feira, 13/12 (NTs)]. E nem adianta perguntar ao rei Abdullah da Jordânia. 

A base em al-Mafraq está virtualmente sobre a fronteira, em Dar’a. E nos últimos tempos tem havido muito movimento em Dar’a – epicentro do movimento contra o presidente Bashar al-Assad. No que tenha a ver com a agência síria de notícias Sana, soldados das forças de segurança ali têm sido rotineiramente assassinados por “gangues de terroristas”. Para os “rebeldes”, os assassinos são valentes, heróicos e patrióticos desertores que atacam linhas de suprimento do exército regular sírio. 

Partamos para o plano B 

Ao adotar esse movimento de pinça, a OTAN-na-Síria começa a modificar a estratégia adotada no Iraque-nos-anos-1990s: agora a OTAN tenta cercar a Síria, enfraquecê-la com sítio prolongado e só depois, eventualmente, partir para a matança. 

A questão é que, por mais que a OTAN peça um milagre a Alá, que mude o mundo, a Síria não é a Líbia. É menor, muito mais compacta, muito mais densamente povoada e com exército de verdade, testado em combate. Além de estarem hoje bastante separadas uma da outra pelo eurodrama em andamento, as duas ex-potências coloniais, Grã-Bretanha e França, já aprenderam que têm tudo a perder, economicamente, se se deixarem arrastar para a loucura de uma guerra convencional. 

Quanto ao baluarte da oposição síria – o Conselho Nacional Sírio [ing. Syrian National Council (SNC)] – é piada. O SNC é formado por maioria da Fraternidade Muçulmana, com pitadas de curdos. O líder, Burhan Ghalioun, é conhecido oportunista que vive exilado em Paris e goza de credibilidade-zero (na opinião dos cidadãos sírios médios); mas, em entrevista publicada recentemente no Wall Street Journal, Ghalioun já tomou o cuidado de pronunciar todas as frases certas para acalmar o lobby israelense (fim dos laços com Teerã, nada de apoiar o Hezbollah no Líbano e o Hamás em Gaza).

O Exército Síria Livre tem dito que conta com 15 mil desertores do exército regular. Mas está infectado também de mercenários e de bandos descritos como gangues armadas. O Conselho Nacional Sírio é, em tese, organização antiguerrilha. Mas guerrilha é, precisamente, o que o Exército Síria Livre está praticando ativamente, atacando soldados do exército regular sírio e comitês do partido Ba’ath. 

A tática chave do Conselho Nacional Sírio, por hora, é vender à opinião pública ocidental o perigo “potencial”, à moda da propaganda contra Gaddafi, de um massacre em Homs, que estaria prestes a acontecer. Poucos estão comprando a ‘notícia’ – além, é claro, dos suspeitos de sempre, na imprensa-empresa corporativa, barulhenta. Embora ambos tenham base em Istambul, o Conselho Nacional Sírio e o Exército Síria Livre não conseguem fazer coisa com coisa, de modo coordenado. Agem como versão letal dos Três Patetas. 

E há também a Liga Árabe, atualmente controlada pelos Oito Patetas: as seis monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo, também conhecido como Conselho Contrarrevolucionário do Golfo, GCC, plus Marrocos e Jordânia, também do CCG, como “convidados”. Os patetas são subcontratados do Grande Oriente Médio da OTAN, hiper turbinados. Mas ninguém pergunta onde estavam os patetas quando Beirute e o sul do Líbano foram destruídos em 2006, e quando Gaza foi destruída em 2008 – nos dois casos, por Israel. Os patetas não se atrevem a questionar o direito divino do eixo EUA/Israel sobre tudo e todos na região. 

Já há algum tempo, as táticas da OTAN na Síria estão absolutamente visíveis. A França, comandada pelo neonapoleônico Nicolas Sarkozy, Libertador da Líbia, concentra-se em hiper turbinar a escalada da guerra. Ao mesmo tempo, Paris tenta implantar a ideia de que o crescimento em avalanche da Fraternidade Muçulmana em todo o mundo árabe seria estratégia que interessaria ao ocidente – para reduzir a influência do Irã.

E há o bloqueio econômico em andamento – impossível sem a cooperação do Iraque (que não acontecerá); do Líbano (que não acontecerá) e da Jordânia (que talvez aconteça, mas a Jordânia mais perde que ganha, se concordar). 

Contudo, o sonho erótico da OTAN é, isso sim, forçar a Turquia a fazer o serviço mais sujo. Irrecuperavelmente falidos como estão, os países da OTAN – inclusive os EUA – simplesmente não podem inventar outra guerra no Oriente Médio, que lançará à estratosfera os preços do petróleo. 

Mas a OTAN não pode arriscar-se a ver re-explodir no Iraque uma guerra sectária entre sunitas e xiitas. Se acontecer, o único paraíso seguro seria o Kurdistão iraquiano. Mas isso fortaleceria a unidade do Kurdistão – que se estende do Iraque à Síria, da Turquia ao Irã. Se acontecer, a Turquia estará convertida em peixe posto para carbonizar na grelha, sem qualquer condição para meter-se numa guerra na Síria. 

O jogo duplo da Turquia 

Fato é que o maior imponderável nesse complexo tabuleiro é a Turquia – e o que foi feito da muito elogiada política de “zero problemas com os vizinhos”, concebida pelo ministro Ahmet Davutoglu das Relações Estrangeiras. 

Ante a impotência de Riad, e com o Cairo em torvelinho, Ancara parece ter monopolizado a bandeira da liderança sunita – guardiães da ortodoxia sunita, à frente dos hereges xiitas, a maioria dos quais são iranianos (mas também os que vivem no Iraque, os alawitas na Síria e o Hezbollah). 

Ao mesmo tempo, para agradar à OTAN e aos EUA, Ancara permite a instalação de mísseis de defesa em território turco – o que é ataque direto não só contra o Irã mas, também contra a Rússia. Para nem comentar que Ancara acalenta o desejo – proibido – de “resolver” por bem a questão curda, estabelecendo uma zona autônoma em território sírio. 

E Ancara também quer fazer dinheiro: na Líbia, os vencedores foram os interesses do petróleo britânico e francês; e italianos e turcos perderam. Mas a Turquia continua a perder, sobretudo em Hatay, província próxima da fronteira síria, dado que o acordo de livre comércio entre os dois países foi cancelado. 

Para desespero do ocidente, o regime de Assad não dá qualquer sinal de enfraquecimento. Para equilibrar os efeitos do violento pacote de sanções da Liga Árabe/Turquia, a Síria acelerou o comércio com a China – ignorando e contornando o sistema financeiro internacional. 

Não surpreende que Washington esteja adotando abordagem “de longo prazo”. [3] Já despachou para Damasco o embaixador Robert Ford – ex-assistente do sinistro ex-desestabilizador da Nicarágua John Negroponte quando embaixador em Bagdá, e hoje entusiasta da contrarrevolução da Casa de Saud. 

Ford terá tempo de sobra para trocar e-mails com uma oposição síria que mantém hoje relações carnais com a França, ex-potência colonial. Em matéria de festival dos Patetas: Ford é homem perfeitamente capacitado para conquistar verbete próprio nos anais da infâmia, no Oriente Médio. 



Notas dos tradutores
[1]  Sibel Deniz Edmonds é turco-norte-americana. Trabalhou como tradutora do FBI, até ser demitida, em 2002, por ter denunciado atividades ilegais do FBI, que vigiava ilegalmente cidadãos estrangeiros, e quebras na segurança da agência que, para ela, criavam riscos à segurança dos EUA . 
[2]  O relatório está no blog de Síbel Edmonds (Boiling Frogs) em inglês. E pode-se assistir uma entrevista com o jornalista sírio (em inglês).
[3] Orig. “long-haul” approach. A expressão surgiu durante o governo de Eisenhower (1953-1961), para designar um tipo de planejamento da segurança nacional dos EUA orientado para manter nível mais ou menos constante de prontidão, que variaria conforme variasse a economia dos EUA. Para Eisenhower, não haveria períodos mais seguros ou menos seguros nas relações com a União Soviética; e orientou os planejadores a analisar a ameaça soviética sob dois pontos de vista: econômico e militar. Em suas palavras, desejava evitar “dar peso excessivo à segurança, a ponto de gerar desastre econômico”.