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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pepe Escobar − Rússia e Turquia: pivô dentro da Eurásia

4/12/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online [recebido p/e-mail, ainda não publicado, mas pode ser lido no The Vineyard of the Saker francês]
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu


O mais recente espetacular gambito no Oleogasodutostão – “Sai o Ramo Sul, entra o Ramo Turco” – continuará ainda por algum tempo a disparar massivas ondas geopolíticas de choque por toda a Eurásia. Disso, precisamente, trata o Novo Grande Jogo na Eurásia.


Em resumo: há alguns anos a Rússia concebeu um gasoduto Ramo Norte [orig. North Stream] – completamente operacional – e um gasoduto Ramo Sul – ainda em projeto – para contornar a Ucrânia considerada pouco confiável como país-de-trânsito para o gás. Agora, a Rússia concebe um novo bom negócio com a Turquia, para contornar a abordagem “não construtiva” (palavras de Putin) da Comissão Europeia (CE).

Para entender o jogo em curso, o contexto é indispensável. Acompanho em detalhe, já há cinco anos, a opera-das-óperas do Oleogasodutostão – a Guerra entre os gasodutos rivais Ramo Sul e Nabucco. Nabucco foi atropelado e abandonado no acostamento. O Ramo Sul pode até ressuscitar, mas só se a CE recuperar a razão (e não aposte nisso).

O gasoduto Ramo Sul com 3.600 km deveria estar construído em 2016, abraçando da Áustria aos Bálcãs/Itália. A Gazprom é proprietária de 50% (além da ENI italiana, 20%; da EDF francesa, 15%; e da Wintershall alemã, subsidiária da BASF, dona de 15%. No pé em que estão as coisas, nenhuma dessas gigantes europeias da energia está exatamente nadando em dinheiro – para dizer o mínimo. Durante meses, a Gazprom e a Comissão Europeia procuraram alguma solução. No fim, Bruxelas sucumbiu, previsivelmente, à própria mediocridade – e à incansável pressão dos EUA sobre o elo mais fraco: a Bulgária.

Gasodutos e Oleodutos em serviço e previstos para a Região
A Rússia continuará a construir um gasoduto sob o Mar Negro – mas agora redirecionado para a Turquia e, crucialmente importante, bombeando para lá a mesma quantidade de gás que o Ramo Sul bombearia. Para nem dizer que a Rússia terá uma nova central para distribuição de Gás Natural Liquefeito (GNL) no Mediterrâneo. A Gazprom portanto não gastou em vão os seus US$5 bilhões (financiamentos, custos de engenharia). O redirecionamento faz perfeito sentido comercial. A Turquia é a segunda maior cliente da Gazprom, depois da Alemanha, muito maior que Bulgária, Hungria e Áustria somadas.

A Rússia avança também numa rede unificada de distribuição de gás capaz de entregar gás natural extraído de qualquer ponto da Rússia, a qualquer central de distribuição em qualquer ponto das fronteiras russas.

E, como se fosse necessário, a Rússia exibe mais uma prova cabal, definitiva, de que o seu mercado consumidor em real crescimento para o futuro é a Ásia, sobretudo a China – não uma União Europeia acovardada, estagnada, devastada por políticas de “austeridade” e politicamente paralisada. A parceria China−Rússia que não para de crescer implica a Rússia como complementar da China, campeã dos grandes projetos de infraestrutura, da construção de barragens à implantação de oleodutos e gasodutos. É business trans-Eurásia, de vasto alcance geopolítico – não submetido a políticos afogados de ideologia.

“Derrota” dos russos? É mesmo? Onde?!

A Turquia também marcou um ponto. E não é só o negócio com a estatal russa Gazprom; Moscou construirá nada menos que toda a indústria nuclear da Turquia, além de aumentar a interação dos poderes soft (mais comércio e mais turismo). Além disso tudo, a Turquia está agora a poucos passos de converter-se em membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); Moscou faz ativo lobby para ajudar os turcos. Implica a Turquia ascendendo a uma posição privilegiada, como principal eixo de distribuição simultaneamente no Cinturão Econômico Eurasiano e, claro, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda(s) chinesa(s). A União Europeia bloqueia a Turquia? A Turquia vira-se para o leste. É a integração eurasiana em andamento.

Putin e Erdogan promovem a UNIÃO EURASIANA
Washington tenta furiosamente criar um novo Muro de Berlin, dos Bálticos ao Mar Negro, para “isolar” a Rússia. Pois nem assim a equipe que trabalha pela doutrina do “Não façam merda coisa estúpida” em Washington conseguiu antecipar mais um contra-ataque de Putin, jogada de judô/xadrez/go. E aplicada precisamente através do Mar Negro.

ATol noticia há anos o quanto é imperativo estratégico chave indispensável para a Turquia configurar-se como entroncamento de condução de energia do Oriente para o Ocidente – fazendo transitar qualquer coisa, do petróleo iraquiano ao gás do Mar Cáspio. O petróleo do Azerbaijão já atravessa a Turquia via o oleoduto BTC (Baku-Tblisi-Ceyhan), alavancado por Bill Clinton/Zbig Brzezinski. A Turquia também estaria no entroncamento se algum óleo/gasoduto Trans-Caspiano vier a ser construído (as chances são poucas, considerada a atual situação), para bombear gás natural do Turcomenistão para o Azerbaijão, dali transportado para a Turquia e afinal, para a Europa.

Assim sendo, o contragolpe de judô/xadrez/GO que Putin aplicou num único movimento implica forçar as estúpidas sanções que a UE aplicou à Rússia a ferirem, mais uma vez, a UE. A economia alemã já está padecendo amargamente a perda de negócios com a Rússia.

A brilhante “estratégia” da CE (EU) baila em torno do chamado Terceiro Pacote de Energia da União Europeia, que exige que os dutos e o gás natural que flui por eles pertençam a empresas diferentes. O alvo desse pacote sempre foi a empresa Gazprom – proprietária de gasodutos em muitos países da Europa Central e da Europa Oriental. E o alvo dos alvos sempre foi o gasoduto Ramo Sul.

Modelo da Central Nuclear da Turquia que deverá ser construída pela empresa russa ROSATOM na província de Mersin com entrada em serviço prevista para 2016
Agora, cabe a Bulgária e Hungria – países que, vale anotar, sempre se opuseram à “estratégia” da CE – explicar o fiasco às suas respectivas populações, e continuar a pressionar Bruxelas; afinal de contas, todos por ali estão condenados a perder fortunas, para nem falar que logo estarão sem gás, com o Ramo Sul fora de jogo.

O resumo da história é, pois, o seguinte: a Rússia vende ainda mais gás – à Turquia; a Turquia obtém seu muito necessário gás, com belo desconto; e a União Europeia, pressionado pelo Império do Caos, fica reduzido a dançar, dançar, dançar, feito galinhas degoladas, pelos escuros corredores de Bruxelas, sem entender o que desabou sobre elas. E enquanto os atlanticistas voltam ao modo-padrão, o único que conhecem – de cozinhar mais e mais sanções – a Rússia só faz comprar mais e mais ouro.

Cuidado com aquelas espadas

Não é o fim do jogo – longe disse. No futuro próximo, muitas variáveis entrecruzam-se.

O jogo de Ancara pode mudar – mas nada assegura que mude. O presidente Erdogan – o sultão de Constantinopla – com certeza identificou um califa desafiante, afamado no ISIS/ISIL/Daesh, que tenta roubar seu poder de feitiço. Assim sendo, o sultão pode flertar com a ideia de suavizar seus sonhos neo-otomanos, e conduzir a Turquia de volta à sua doutrina anterior de “zero problemas com os vizinhos”.

Sim, mas, devagar. O jogo de Erdogan, até aqui foi o mesmo que da Casa de Saud e da Casa de Thani: livrar-se de Assad, para possibilitar um oleoduto desde a Arábia Saudita, e um gasoduto desde os megacampos de Pars Sul/Dome Norte, no Qatar. Esse oleogasoduto seria Qatar-Iraque-Síria-Turquia, rivalizando com o já proposto Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões. Consumidores finais: União Europeia, claro, desesperada em sua ofensiva de “fuja da Gazprom”.

-- Caro vizinho, como vão seus extremistas?
Assim sendo... o que acontecerá? Será que Erdogan abandonará sua obsessão de “Assad tem de sair”? Ainda é cedo para saber. O ministro turco de Relações Exteriores anda espalhando que Washington e Ancara estão próximas de definir uma zona aérea de exclusão ao longo da fronteira turco-síria – embora a Casa Branca, no início da semana, tenha insistido em que a ideia fora abandonada.

A Casa de Saud está como camelo perdido no Ártico. O jogo letal da Casa de Saud sempre se resumiu na mudança de regime para que pudesse ser construído o oleoduto patrocinado pelos sauditas da Síria até a Turquia. Agora os sauditas veem a Rússia a um passo de fornecer toda a energia de que a Turquia precisa – além de já estar posicionada para vender mais gás à União Europeia, em futuro próximo. E a coisa de “Assad tem de sair” não sai.

Mas são os neoconservadores nos EUA quem afiam, com fúria, as respectivas espadas envenenadas. Já nos primeiros dias de 2015 estará em votação na Câmara de Representantes uma “Lei de Liberdade para a Ucrânia” [orig. Ukrainian Freedom Act]. Tradução: a Ucrânia convertida em “principal aliado não-OTAN dos EUA”, o que, na prática, significa virtual anexação da Ucrânia pela OTAN. Passo seguinte: mais provocações turbinadas, pelos neoconservadores, contra a Rússia.

Um cenário possível é estados fantoches/vassalos como Romênia ou Bulgária – pressionados por Washington – decidir permitir pleno acesso aos navios de guerra da OTAN dentro do Mar Negro. Quem liga se o movimento viola os tratados atualmente vigente para o Mar Negro, que afetam ambas, Rússia e Turquia?  

E há ainda um perigoso “não sabido sabido” rumsfeldiano: como se sentirão os frágeis Bálcãs, subordinados aos desejos de Ancara. Assim como Bruxelas mantém Grécia, Bulgária e Sérvia num colete apertado, em termos de energia eles começarão a depender da boa vontade da Turquia.

Por hora, apreciemos a magnitude das ondas geopolíticas de choque, depois da jogada combode judô/xadrez/go. E nos preparemos para mais um capítulo do “pivô cruzando a Eurásia”, da Rússia. Semana que vem Putin visitará Delhi. Preparem-se para mais notícias-bomba geopolíticas.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Putin e seu negócio-surpresa de gás atordoam Obama e “eurolíderes”

5/12/2014, [*] Mike WhitneyCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O gasoduto Nabucco deles fracassou. O de Putin ganhou. Ponto final. Chama-se “capitalismo”. O “ocidente” que aprenda: capitalismo dói.


Erdogan e Putin facham acordo de gás em 1/12/2014 em Ancara (Turquia)
Na 2ª-feira (1/12/2014), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fechou um negócio, com o Presidente Recep Tayyip Erdoğan da Turquia, que reforça os laços econômicos entre os dois países e converte a Turquia em principal eixo de distribuição do gás russo na região. Nos termos do acordo assinado, a Rússia bombeará mais gás natural para locações na Turquia central e para uma “central de distribuição na fronteira turco-grega”, que praticamente garantirá a Putin livre acesso pela porta dos fundos ao lucrativo mercado da União Europeia, com a Turquia operando como intermediário criticamente decisivo. O movimento cria uma aliança Rússia-Turquia de fato, que altera todo o equilíbrio de poder regional a favor de Moscou, erguendo mais um formidável obstáculo contra a estratégia de “pivô para a Ásia”, de Washington.

Enquanto a imprensa-empresa ocidental dedica-se a “noticiar” a mudança no projeto (“Putin abandonou o projeto de construção do gasoduto Ramo Sul que levaria gás para o sul da Europa” [1]) como se fosse “fracasso diplomático” para a Rússia, a verdade parece ser exatamente o oposto de qualquer tipo de fracasso.

Putin mais uma vez passou a perna nos EUA, tanto no front “energético” quanto no front geopolítico, acrescentando duas marcas em sua longa lista de triunfos políticos. Adiante, um breve resumo escrito por Andrew Korybko, no blog Sputnik News:

A Rússia deixou para trás o conturbado projeto Ramo Sul e passará a construir com a Turquia o gasoduto que o substituirá, noutra direção. É decisão monumental, que assinala que Ancara também decidiu rejeitar o euroatlanticismo e abraçar a integração eurasiana.

No movimento que pode ser o maior, até agora, na direção da multipolaridade, (...) a Turquia mudou de campo e deixou para trás as velhas ambições euroatlânticas. Há um ano, nada disso seria sequer imaginável. Mas o retumbante fracasso da política dos EUA para o Oriente Médio e para a energia da União Europeia tornou possível essa reversão completamente surpreendente, em menos de um ano. A Turquia já gozava de algumas relações privilegiadas com o ocidente, mas toda a natureza do relacionamento foi para sempre alterado, com o país, agora, oficialmente engajado numa multipolaridade pragmática.

O governo da Turquia completou movimento importantíssimo ao firmar esse negócio colossal com a Rússia, em ambiente político tão altamente sensível; e a velha amizade não poderá ser restaurada. (...) As reverberações disso tudo são globais, no mais pleno sentido da palavra. (“Cold Turkey [2]: Ancara dá as costas à pressão ocidental e volta-se para a Rússia”, Sputnik News)

Projetos South Stream e Nabucco - CANCELADOS
Korybko parece ser o único a perceber a magnitude do que aconteceu em Ancara na 2ª-feira (1/12/2014), embora – a julgar pelo silêncio sepulcral do governo Obama – tudo leve a crer que a gravidade do quadro começa a se tornar visível para muitos. Vlad, o Grande-Mestre, atropelou os “únicos supernegociadores indispensáveis da única superpotência idem”, deixou-os sem fala. É cenário que ninguém previra e que, se não for corretamente administrado pode vir a transformar-se em pesadelo, esse sim, excepcionalíssimo. Adiante, um pouco mais, de uma conferência de imprensa, em RT:

Putin disse que a Rússia está pronta para construir novo gasoduto para suprir a crescente demanda da Turquia por gás, que pode incluir uma central especial de redistribuição, sobre a fronteira turco-grega, para consumidores no sul da Europa.

Por hora, o suprimento de gás russo para a Turquia aumentará cerca de 3 bilhões de metros cúbicos, pelo gasoduto Ramo Azul [orig. Blue Stream] já operante (...). Moscou também garantirá desconto de 6% no preço do gás para consumidores turcos, a partir de 1/1/2015 – disse Putin.

Estamos preparados para aumentar esses descontos no preço do gás, conforme avance a implementação de nossos projetos conjuntos em larga escala – explicou o presidente da Rússia. (“Putin: Russia forced to withdraw from S. Stream project due to UE stance”, RT)

O Projeto Blue Stream deverá ser estendido
de Ancara até a fronteira da Grécia
Como foi possível? Como Putin pôde chegar valsando a Ancara, assinar o próprio nome em algumas folhas de papel e capturar um dos aliados chaves de Washington, bem ali, sob o nariz de Washington? Não havia ninguém ali suficientemente sensível para prever cenário semelhante e evitá-lo a tempo? Ou todos os seres competentes no governo do EUA foram substituídos por doidas doentiamente viciadas em guerra, como Susan Rice e Samantha Powers?

O governo Obama estava fazendo tudo que podia para controlar o fluxo de gás do oriente para o ocidente e assim minar a integração econômica russo-europeia. E, de repente, ágil como gato, Putin encontra via para evitar as sanções econômicas (Turquia rejeitara as sanções contra a Rússia), para evitar a coerção e a chantagem pelos EUA (que foram aplicadas contra a Bulgária, a Hungria e a Sérvia), e evita as infindáveis hostilidade e beligerância de Washington, e, simultaneamente, posiciona a Rússia exatamente onde a Rússia desejava estar. Mas, ora... Afinal de contas, o que se deveria esperar de Mestre de alto nível em artes marciais, como Putin?

“Não estou batendo em ninguém”, diz Vlad, a Marreta. “Você é que vai autoespancar-se”. E se bem o disse, melhor o fez. Pergunte ao embasbacado Obama que, até agora, não levou a melhor em nenhum dos vários encontros que teve com Putin.

Mas... E por que o silêncio? Por que a Casa Branca não emitiu declaração sobre o grande negócio de gás entre russos e turcos, sobre o qual todos estão falando?

Explico-lhes por quê. Porque ainda não sabem o que desabou sobre eles, de que lado veio, nem por quê. Estão completamente abobalhados pelo anúncio do acordo e não conseguiram nem perceber o que significa para as questões que, sim, são as principais da agenda de política externa deles mesmos! Como o “pivô para a Ásia”, ou as guerras na Síria e Ucrânia, ou o muito eternamente inflado gasoduto do Qatar para a União Europeia que se esperava que cruzasse o território da – adivinharam?! – Turquia. Será que aquele plano ainda é plano, ou a aliança Putin−Erdogan bateu o último prego do esquife também dele? Verdade seja dita, Putin, dessa vez, mandou o adversário para fora do ringue. A equipe de Obama está claramente sem chão, sem nem ideia do que está acontecendo. Se a Turquia vira-se na direção do leste e une-se ao crescente bloco russo, os políticos norte-americanos terão de rasurar a melhor parte de seus planos estratégicos para o próximo século e voltar ao primeiro quadrinho do jogo. Que trabalheira!

O trecho do Blue Stream, Ancara- Grécia
(a ser construído)
Na 4ª-feira (3/12/2014), o New York Times publicou artigo interessante, que expõe perfeitamente a ambivalência de Washington em relação ao Ramo Sul. Aqui, um excerto:

Moscou apresentou o projeto há muito tempo, em 2007, como projeto que fazia sentido comercial, porque criava nova rota para o gás russo chegar à Europa. Washington e Bruxelas opuseram-se, porque o projeto seria instrumento para reforçar a influência russa sobre o sul da Europa, e porque deixava de lado a Ucrânia, cujas disputas de preços com a Gazprom interromperam por duas vezes o fornecimento de gás à Europa, em anos recentes (“Decisão de Putin, de não construir o gasoduto Ramo Sul, deixa a Europa embasbacada”, New York Times).

Aquele foi o argumento do vai-e-vem: vender gás ao povo na União Europeia reforçaria, sabe-se lá como, o poderio tirânico maníaco que Putin insistiria em impor ao continente. É piada. É conversa de doidos. Você, caro leitor: está disposto a desligar o aquecimento e o fogão de cozinha, rasgar sem pagar sua conta de energia elétrica, para protestar, e deixar-se morrer congelado no escuro... só para “fazer-ver” à empresa fornecedora de gás que você jamais capitulará ante o poderio tirânico maníaco... de uma empresa de gás?!

Claro que não, porque toda essa ideia é ridícula. Assim como é ridículo pensar em bloquear o Ramo Sul também sempre foi ridícula. Putin é vendedor de gás. Não é vendedor de tirania. Não tem planos de fazer as pessoas bater queixo, bater pés e viverem arrepiados de frio, em casa e no trabalho, dia e noite, no escuro.

Toda essa conversa não passa de propaganda do pessoal da indústria do petróleo, que perdeu a disputa comercial pelo fornecimento de petróleo para a União Europeia. Reclamem o quanto queiram das uvas amargas, porque, volta e meia, as uvas amargam, sim, para um lado ou para o outro. O gasoduto (Nabucco) deles fracassou. O de Putin ganhou. Ponto final. Chama-se “capitalismo”. O “ocidente” que aprenda: capitalismo dói. 

E há mais uma coisa: os países que aquele Ramo Sul atenderia não têm fornecedor alternativo que atenda sua demanda crescente por gás. Assim sendo, aqueles países, ao acompanharem a “liderança” de Washington, o que fizeram foi, basicamente, atirar contra o próprio pé. Analistas estimam que qualquer substituição para o gás russo custará provavelmente 30% a mais que o preço que a Gazprom lhes ofereceria.

O xadrez ESTÚPIDO dos EUA

Viva os EUA! Viva a estupidez!

Os EUA estavam determinados a sabotar o Ramo Sul, desde o começo, sobretudo porque Washington quer que suas empresas e bancos controlem o fluxo de gás para o mercado da União Europeia  através de gasodutos privados na Ucrânia. Assim, podem arrancar lucros maiores para os oligarcas acionistas do governo dos EUA. Sem entrar em muitos detalhes sobre os variados métodos que os EUA usaram para torpedear o projeto, vai aqui uma história que vale a pena conhecer. Esse excerto é de Zero Hedge (trad. completo em redecastorphoto):

(...) dois meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o Primeiro-Ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com a Rússia, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da União Europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos.

Há agora um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão. Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária.

Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que: a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus. E acrescentou que, na atual situação, queriam menos envolvimento russo.

Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica nisso. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT (Zero Hedge).

John McCain e Barack Obama
Digamos logo, sem meias palavras: McCain, o Louco, chega à cidade e imediatamente se põe a mandar em todos à sua volta, dizendo que quer “menor envolvimento russo”, e basta essa bobagem para fazer o Ramo Sul brecar, queimando pneu? É isso que estou ouvindo?

É. Ou pelo menos é o que parece, com certeza parece.

Será que tudo isso afinal ajudou o leitor a ver o que está realmente acontecendo aqui? Não se trata de Putin. Trata-se de negócios de gás, e de quem vai lucrar desse gás e em que moeda esse gás será denominado. É disso que se trata. O resto da patacoada sobre “envolvimento russo” ou terrorismo ou direitos humanos ou soberania nacional é só conversa fiada. A turma que governa os EUA (gente como McCain) não dá nenhuma importância a nada daquilo. Aquela turma só pensa em dinheiro; dinheiro e poder. Só. Nada mais.

Assim sendo, o que farão agora? Como os gatos gordos no poder em Washington expressarão sua fúria contra a nova ameaça que Putin e Erdogan criaram?

Não é preciso um gênio para entender o que virá. Será exatamente o que todos já vimos acontecer, um milhão de vezes.

Vão à caça da cabeça de Erdogan com unhas e dentes. É o que sempre fazem, não é?

A única razão pela qual ainda não começaram a caçada é porque estão pondo em ordem as suas hordas de propaganda, o que em geral toma um dia ou dois. Mas tão logo os “jornalistas” e “especialistas midiáticos” estejam organizados, começará o desmantelamento do velho Recep, paulada-manchete a paulada-manchete. Erdogan será o novo Hitler e maior ameaça à humanidade que o mundo jamais viu. Podem apostar.

A CIA vinha construindo a desgraça de Erdogan...
Sibel Edmonds [3] acha que Washington já estava cozinhando a desgraça de Erdogan há muito tempo, desde o tempo de um arranca-rabo que ele teve com a CIA, há alguns anos. Seja como for, ela oferece bom prognóstico do que esperar, agora que Erdogan entrou na lista dos inimigos de Washington. Eis um recorte do que ela postou em Boiling Frogs, dia 18/1/2014:

Todos sabemos o que acontece a esses fantoches quando se desentendem com a CIA. O fantoche passa a ser visto como se seu prazo de validade estivesse vencido. Depois de o fantoche ser considerado expirado começa, sem mais nem menos, do nada, a reversão da respectiva marca, que se pode chamar de marketing reverso: todos os velhos esqueletos são desenterrados do mais fundo dos armários e “vazados” para a imprensa-empresa. Todas as violações de direitos humanos que, antes, nada haviam violado, são examinadas novamente para constatar que, sim, violaram. A carta terrorista rapidamente aparece na equação. E a lista vai longe.

(...) Todos os fantoches e palhaços e respectivos regimes que o Império pôs no poder têm de obedecer cegamente todas as ordens do Império (...). Não violarás as ordens do Império. Porque se as violares, estarás desgraçado, ferrado, exposto, derrubado do poder e pode acontecer até de morreres. Para ter certeza, basta examinar a história do último século. E ver o que acontece quanto fantoches e palhaços postos no poder ficam confiantes demais e se deixam dominar pela húbris, e ignoram um ou mais dos mandamentos. É quando qualquer fantoche ou palhaço pode ganhar reencarnação como ditador, déspota, torturador e, claro, claro: como terrorista. É quando o quintal deles é cavado incansavelmente, até acharem lá qualquer grama de armas de destruição em massa...

Não importa como se analise a questão, os dias de Erdogan estão contados... Todos os que algum dia se atreveram a fazer o que ele fez foram punidos e exibidos em praça pública, como exemplo a todos os demais fantoches−palhaços postos no poder pelos EUA−CIA. (“Primeiro-ministro turco Erdogan: A rápida transformação de um fantoche do Império”, BFP).

Então... aí está. Podem todos esperar o que virá lá pelo fim da semana, quando a imprensa já estiver “reorganizada” para fazer a demonização de Erdogan, o homem que se atreveu a desobedecer os chefões da gangue-Washington. Como todos que acompanham a política externa dos EUA nos últimos 60 anos sabem: quanto a desobedecer, a coisa é absolutamente proibida, é não e não. [4]
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Notas dos tradutores

[1] Essa era PRECISAMENTE a manchete que se lia na revista Exame, da ed. Abril e no Correio Braziliensequando suspendemos a pesquisa e decidimos que não valia a pena perder tempo com esse tipo de “demonstração-denúncia”. O “jornalismo” brasileiro, as empresas-imprensa, os jornalistas empregados e os cursos de “cumunicação” que os “formam” [só rindo] são os piores do mundo, cada um na sua área, e já sabemos disso. Agora já não se trata de explicar-denunciar; agora se trata de transformar, fazer melhor e acabáááááá cun eles.

[2] Lit. “Peru frio”; trocadilho com Turkey, “Turquia”; e com uma expressão de gíria “cold turkey” aprox. “a ferro e fogo”, “doa a quem doer”.

[3] Sibel Edmonds, ex-tradutora do FBI; demitida depois de acusar oficiais do FBI de terem ignorado toda a inteligência que já havia e que apontava para os ataques da Al-Qaeda contra os EUA. Anima um blog interessante: Boiling Frogs.

[4] Alteramos ligeiramente a tradução das linhas finais do artigo. Mais do que um Erdogan que estaria “considerando o interesse do próprio país” (como se lê no original) e que disso teria extraído coragem para desertar o campo dos EUA e juntar-se a Putin, o que nós vemos aí é um Erdogan que, já sabendo que a CIA o “marcou” (o artigo acima citado, sobre a desconstrução de Erdogan foi escrito há exatamente um ano), alia-se a Putin, para ter alguma proteção. Isso, sim, no nosso modo de ver, explica a mudança de Erdogan (supondo que tenha havido alguma), muito mais do que alguma “bondade” essencial, ou genuíno interesse pelo destino do povo turco que tivesse repentinamente brotado nele.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelancenos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente emCounterpunche vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A verdadeira causa do cancelamento do gasoduto Ramo Sul

Da série: Toda a privataria do mundo é a mesma Privataria Tucana do FHC [1], o clintoniano-fascinoroso


3/12/2014, [*] Alexander Mercouris, Russia Insider
4/12/2014, The Vineyard of the Saker,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Fato é que, ao cancelar a construção do gasoduto Ramo Sul, a Rússia impôs à Europa a mais efetiva de todas as sanções que vimos esse ano.


Gasoduto Ramo Sul (CANCELADO)
(clique na imagem para aumentar)
A reação ao cancelamento do projeto do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] foi total surpresa e tem de ser explicada com muito cuidado.

Para compreender o que aconteceu, é preciso voltar atrás, ao modo como se desenvolviam as relações Rússia-Europa nos anos 1990s.

Resumidamente: naquela época, dava-se por certo que a Rússia seria a maior fornecedora de energia e de matérias primas para a Europa. Foi o período da grande “corrida para o gás” na Europa, com os europeus de olhos postos na infinita, ilimitada oferta russa. Foi o crescimento do gás russo, na composição do mix europeu de energia, que permitiu que a Europa cortasse em sua indústria de carvão, que reduzisse suas emissões de carbono e se pusesse a aplicar sermões no resto do mundo sobre o assunto.

Mas os europeus não supunham que a Rússia viesse a fornecer só para eles aquela energia. Em vez disse, sempre anteviram que aquela energia seria extraída para eles e na/da Rússia, mas por empresas de energia ocidentais. A isso a União Europeia chama de “segurança energética” – eufemismo para pôr suas próprias empresas a extrair energia em outros países sob exclusivo controle da própria União Europeia.

No que tivesse a ver com a Rússia, as coisas jamais aconteceram desse modo. Embora a indústria russa de petróleo tenha sido privatizada, a maior parte permaneceu sob controle de capitais russos. Quando Putin subiu ao poder em 2000, a “tendência” à privatização da indústria do petróleo perdeu fôlego e foi revertida. Uma das principais razões pelas quais o ocidente enfureceu-se tanto com a prisão de Khodorkovsky e o fechamento da petroleira Yukos, com transferência do patrimônio da empresa para a estatal russa Rosneft, foi, precisamente, porque esses movimentos marcaram a reversão da privataria generalizada da indústria russa do petróleo.

Mikhail Khodorkovski
Na indústria do gás, a privataria nem chegou a começar. A exportação de gás continuou a ser controlada pela Gazprom, que manteve o monopólio estatal da exportação de gás russo. A partir do início do governo de Putin, a posição da Gazprom como empresa estatal monopolista foi reforçada e tornada praticamente inabalável.

Grande parte da fúria que hoje acomete o ocidente contra Putin pode ser explicada pelo ressentimento europeu e ocidental por o presidente – e todo o governo russo – terem-se recusado a quebrar os monopólios estatais no campo da energia, e por não terem “aberto” (a expressão eufemística é “abertura”) a indústria russa de energia ao ataque das empresas privadas ocidentais.

Muitas das acusações de corrupção que rotineiramente se repetem contra o presidente Putin visam a insinuar que ele se oporia à tal “abertura” da indústria russa de energia e à privatização das estatais Gazprom e Rosneft, porque seria acionista dessas empresas (no caso da Gazprom, repete-se sempre que Putin seria proprietário da empresa). Se se examinam as específicas acusações de corrupção que se fazem contra Putin (como fiz, com máxima atenção), o golpe logo se torna evidente.

A agenda dos acusadores, que não desistem de tentar forçar a Rússia à privatização e a quebrar todos os monopólios estatais de energia, jamais foi descartada. Por isso a empresa Gazprom, apesar do serviço vitalmente importante e plenamente confiável que sempre prestou aos seus clientes europeus, é sempre alvo de tantas críticas. Quando os europeus reclamam de a Europa depender da energia russa, manifestam a própria fúria por terem de comprar gás de uma única empresa estatal (e russa), a Gazprom, em vez de poderem comprar gás de empresas ocidentais que extraíssem petróleo russo para vender a europeus.

É fúria e ressentimento que coabitam com uma crença, muito profundamente entrincheirada na Europa, segundo a qual a Rússia de algum modo dependeria da Europa para ter gás, financiamento e tecnologia.

Essa mistura de ressentimento, ira e excesso de autoconfiança arrogante está por trás das repetidas tentativas da União Europeia para legislar sobre questões de energia, mas de modo tal que sempre visa a forçar a Rússia àquela “abertura”, para entregar à “Europa” o controle de toda sua indústria de energia.

A primeira tentativa foi a chamada “Carta da Energia” [Energy Charter], que a Rússia subscreveu, mas depois se recusou a ratificar. A mais recente tentativa é o chamado “Terceiro Pacote de Energia” [Third Energy Package], da União Europeia.

Third Energy Package (NÃO RATIFICADO!)
Todos esses movimentos são apresentados como desenvolvimentos de uma lei europeia antimonopólios e a favor da livre concorrência dentro da Europa. Na realidade, como todos sabem, é movimento de ataque direto à Gazprom, que é monopólio, mas russo, não europeu.

Esse é o contexto no qual se trava o conflito em torno do Gasoduto Ramo Sul. As autoridades da União Europeia insistiram que o Gasoduto Ramo Sul deveria enquadrar-se no que determina o Terceiro Pacote de Energia – apesar de o Terceiro Pacote de Energia só ter vindo à luz DEPOIS de os acordos para construção do Ramo Sul já estarem assinados e oficializados.

Adaptar-se ao que dispõe o Terceiro Pacote de Energia significaria que a Gazprom poderia continuar a fornecer o gás, mas não poderia nem ser proprietária nem controlar o gasoduto pelo qual viajasse o gás fornecido.

Para a Gazprom, aceitar essa norma implicaria reconhecer a autoridade da União Europeia sobre suas operações empresariais. Se reconhecesse essa autoridade, imediatamente viriam mais e mais exigências, de mais e mais mudanças em seus métodos operacionais. Logo começariam, então, as exigências para que se fizessem mudanças na própria estrutura da indústria russa de energia.

O que aconteceu agora é que os russos disseram não. Em vez de manter em andamento o projeto, submetendo-se às “exigências” da União Europeia, como os europeus esperavam, os russos, para grande espanto de todos, simplesmente cancelaram todo o projeto de construção do gasoduto. Todo o projeto.

É decisão completamente inesperada. Agora, enquanto escrevo, vejo o ar carregado de furiosas reclamações que chegam do sul da Europa, de que não foram consultados nem informados com antecedência sobre a decisão dos russos. Inúmeros políticos do sudeste da Europa (especialmente na Bulgária) recorrem em desespero à ideia de que o projeto ainda possa ser salvo. Verdade é que, porque os europeus agarram-se sempre à crença segundo a qual a Rússia não teria outros clientes e dependeria existencialmente dos europeus, eles não conseguiram antecipar o que poderia vir; agora, não conseguem entender nem explicar a decisão dos russos.

Nesse ponto, é importante explicar por que o gasoduto Ramo Sul é importante para os países do sudeste da Europa e para a economia europeia como um todo.

Todas as economias do sul da Europa estão em tristes condições. Para esses países, o Ramo Sul era investimento e projeto vitais de infraestrutura, que lhes garantia futuro energético. Além das taxas de trânsito do gás a serem cobradas, que seriam fonte importante de reservas em moedas estrangeiras.

Economia no sul da Europa
Para a União Europeia, o fato indiscutível é que ela depende do gás russo. Houve quantidades imensas de conversas na Europa sobre buscar fontes alternativas de oferta de gás, mas progressos praticamente zero. É que não existem fornecedores alternativos capazes de suprir a quantidade de gás russo que a Europa consome.

Houve muito diz-que-diz sobre os EUA abastecerem a Europa com seu Gás Natural Liquefeito (GNL), que substituiria o gás do gasoduto russo. Primeiro, que esse gás norte-americano é consideravelmente mais caro que o gás do gasoduto russo, o que atingiria duramente os consumidores europeus e abalaria a competitividade da indústria europeia. Como se não bastasse isso, é também praticamente garantido que os EUA não têm nem jamais terão para vender a quantidade necessária de GNL.

Além dos prováveis efeitos calamitosos da atual baixa forçada nos preços de petróleo sobre a indústria do petróleo de xisto dos EUA, os EUA sempre tiveram currículo de consumidor voraz de energia; e consumirão a maior parte ou toda a energia que consigam extrair do próprio xisto. Os EUA não estarão em posição de exportar grandes quantidades para a Europa. De qualquer modo, nem as instalações existem hoje, para fazer tal coisa, e nada sugere que algum dia venham a existir.

Outras possíveis fontes de gás para a Europa são problemáticas, para dizer o menos. A produção de gás no Mar do Norte está caindo. Importações de gás do norte da África e do Golfo Árabe dificilmente serão disponíveis na quantidade necessária – nem perto disso. O gás do Irã não é acessível, por razões políticas. Embora, sim, isso possa eventualmente mudar, a probabilidade é que, quando mudar, os iranianos (como agora os russos) decidirão orientar o fluxo de sua energia para o leste, rumo Índia e China, não em direção à Europa.

Por óbvias razões de geografia, a Rússia é a fonte mais lógica e mais econômica de gás para a Europa. Todas as alternativas das quais se pode cogitar têm custos econômicos e políticos que, no final, as tornam pouco, ou nada, atraentes.

Projetos Ramo Sul e Nabucco (comparação)
As dificuldades da União Europeia para encontrar fontes alternativas de gás foram cruelmente expostas no fracasso do chamado outro projeto de gasoduto, Nabucco, que levaria gás do Cáucaso e da Ásia Central para a Europa. Embora discutido e comentado durante anos, jamais saiu do papel, porque jamais fez sentido, em termos econômicos.

Enquanto isso, ao mesmo tempo em que a Europa tanto fala em diversificar os fornecedores, é a Rússia quem, de fato, constrói os negócios.

A Rússia já fechou um negócio−chave com o Irã de troca de petróleo iraniano por bens russos manufaturados. A Rússia também se comprometeu a investir pesadamente na indústria nuclear iraniana. Se e quando as sanções que pesam sobre o Irã forem levantadas, os europeus perceberão, afinal que os russos já lá estão. A Rússia também acaba de fechar negócio gigante de fornecimento de gás com a Turquia (adiante voltaremos a falar disso). E maiores que esses são os dois acordos gigantes que a Rússia já assinou, para fornecer gás à China.

As fontes de energia da Rússia são enormes, mas não são infinitas. O segundo negócio firmado com a China e o outro, firmado com a Turquia redirecionam para esses dois países o gás que, antes, viajava para a Europa. Os volumes de gás envolvidos no negócio com a Turquia correspondem, quase exatamente, aos volumes antes previstos para o gasoduto Ramo Sul. O negócio com os turcos já substituiu o Ramo Sul.

Esses grandes negócios mostram que a Rússia tomou esse ano uma decisão estratégica, de redirecionar para bem longe da Europa, o fluxo de energia que sai da Rússia. Embora ainda demore para que se vejam os totais efeitos desse movimento, as consequências dele para a Europa são sombrias. A Europa tem diante dela período de grave demanda não atendida de energia, que ela só conseguirá superar se comprar energia a preço muito mais alto.

Esses negócios que a Rússia firmou com China e Turquia foram criticados ou até ridicularizados, porque a Rússia estaria recebendo menos, pelo seu gás, do que a Europa pagaria.

Putin (Rússia) e Erdogan (Turquia) fecham negócio bilionário de gás em 1/12/2014
A diferença real entre os preços não é tanta quanto alguns pretendem. E, de qualquer modo, essa crítica finge que não sabe que o preço é só uma parte, num relacionamento negocial.

Ao redirecionar seu gás para a China, a Rússia cimenta laços econômicos com o país que, agora, ela considera seu aliado estratégico e que tem (ou em pouco tempo terá) a maior economia do mundo e em mais rápido crescimento. Ao redirecionar seu gás para a Turquia, a Rússia consolida uma promissora relação com a Turquia, da qual a Rússia é agora o maior parceiro comercial.

A Turquia é um potencial aliado chave para a Rússia, consolidando a posição da Rússia no Cáucaso e no Mar Negro. E é país de 76 milhões de habitantes, com economia de US$ 1,5 trilhões e crescendo rapidamente, que, ao longo das últimas duas décadas tornou-se cada vez mais alienada e distanciada da União Europeia e do ocidente.

Ao redirecionar seu gás para longe da Europa, a Rússia, isso sim, deixa para trás um mercado economicamente estagnado e que lhe é (como os eventos desse ano já mostraram) irremediavelmente hostil. Não há por que alguém se surpreender por a Rússia ter abandonado um relacionamento que, nos últimos tempos, só lhe rendeu fieira interminável de ameaças e abusos – sem falar dos discursos-sermões moralistas, intromissão indevida nos assuntos russos e, agora, sanções. Nenhum tipo de relacionamento, comercial, negocial ou qualquer outro, pode funcionar desse modo; o relacionamento entre Europa e Rússia não é exceção.

Nada disse sobre a Ucrânia, porque, pela minha avaliação, a Ucrânia nada tem a ver com o assunto aqui discutido. O gasoduto Ramo Sul foi concebido por causa dos frequentes abusos que a Ucrânia cometia, por sua posição de estado-de-passagem, posição que provavelmente será mantida. É importante dizer que esse é fato reconhecido na Europa, tanto quanto na Rússia. Foi precisamente por causa dos perenes abusos que a Ucrânia cometia, por causa da posição “de passagem”, que o projeto do Ramo Sul rapidamente recebeu endosso formal, embora “de cara feia”, da União Europeia. Basicamente, a União Europeia precisava contornar a Ucrânia, para garantir a segurança da energia que importava, tanto quanto a Rússia desejava caminho que evitasse a Ucrânia, para exportar o mesmo gás.

Os amigos da Ucrânia em Washington e Bruxelas jamais se sentiram muito felizes com tudo isso e constantemente mobilizaram seus lobbies contra o Ramo Sul.

Mas o caso é que foi a Rússia quem puxou da tomada o fio do Ramo Sul, quando teria a opção de mantê-lo vivo se aceitasse as condições que a Europa propunha. Em outras palavras, os russos consideram o problema da Ucrânia, estado-de-passagem, como mal menor que as condições que a União Europeia vinha conectando ao Ramo Sul.

O Ramo Sul demoraria anos para ser construído, e o cancelamento não tem qualquer efeito sobre a atual crise ucraniana. Se os russos decidiram que podem cancelar o projeto é porque já decidiram que o futuro da Rússia está mais em vender energia à China, à Turquia e a outros estados na Ásia (há negócios de gás em andamento também com a Coreia e o Japão e, possivelmente, também com Paquistão e Índia), que em vender energia à Europa. Sendo assim, o Ramo Sul, para a Rússia perdeu completamente qualquer serventia.

Por isso é que, diretos como sempre são, os russos, em vez de aceitar as condições europeias, desligaram, da tomada, a União Europeia. Ao fazê-lo, os russos denunciaram o blefe europeu. Até agora, por supor que a Rússia seria dependente da Europa como única compradora para seu gás, a Europa só fez antagonizar – agora, ao que parece, já irreparavelmente – seu principal fornecedor de energia e parceiro econômico.

Antes de concluir, quero dizer algumas palavras sobre os que saíram mais sujos de todo esse affair. Falo dos incompetentes e corruptos pigmeus políticos que fingem que governam a Bulgária. Tivesse aquele gente uma gota de dignidade e autorrespeito, teriam dito à Comissão da União Europeia, quando ela apareceu por lá com o Terceiro Pacote de Energia, que a Europa só fazia caminhar para saltar de cabeça no abismo. Se a Bulgária tivesse deixado clara sua intenção de pressionar a favor do projeto do Ramo Sul, não tenho dúvidas de que o gasoduto teria sido mantido. Haveria, claro, terrível alarido dentro da União Europeia, se a Bulgária desafiasse abertamente o Terceiro Pacote de Energia, mas a Bulgária estaria agindo na defesa de seus interesses nacionais – e não lhe faltariam amigos dentro da União Europeia. Se a Bulgária tivesse se levantado contra a UE, toda a Europa sairia ganhando.

Em vez disso, pressionados por gente como o senador John McCain, os governantes búlgaros agiram como os políticos paroquianos que são, e tentaram apostar ao mesmo tempo tanto na lebre europeia quanto nas raposas russas. Resultado dessa política imbecil é que ofenderam a Rússia – tradicional aliada histórica da Bulgária – ao mesmo tempo em que empurraram o gás que teria transformado a Bulgária em país desenvolvido, na direção da Turquia, inimiga histórica da Bulgária.

Bulgária
Os búlgaros não são os únicos que agiram desse modo estúpido. Todos os países europeus, mesmo os que têm laços históricos tradicionais que os ligam à Rússia, apoiaram os vários pacotes de sanções que a UE aplica contra a Rússia, apesar da muitas dúvidas que vários deles manifestaram sobre toda a política das sanções. Ano passado, a Grécia, outro país que tem laços históricos importantes com a Rússia, saltou fora de um bom negócio para vender a empresa estatal grega de gás natural à Gazprom, porque a UE desaprovou o negócio, apesar de a Gazprom ter oferecido o melhor preço.

Esse ponto sugere uma antimoralidade mais ampla. Sempre que os russos agem como agiram, os europeus respondem com ira e arrogância – sentimentos nos quais a Europa afoga-se nesse momento. Os políticos da União Europeia que tomam as decisões que geram as reações russas parecem convencidos de que a UE estaria em posição que lhe permitiria fazer o que bem entendesse, sancionar a Rússia o quanto quisesse, que a Rússia jamais sancionaria nenhum país da União Europeia.

Agora, depois de a Rússia já ter agido, o que se vê é a surpresa mais tola, acompanhada dos comentários mais mendazes sobre o comportamento “agressivo” dos russos ou “contrários aos interesses do povo russo” ou que a Rússia teria “sofrido dura derrota”. Nada disso é verdade. Fosse isso verdade, os corredores da União Europeia não ecoariam ondas e ondas de ira e de recriminações de uns contra os outros (sobre as quais estou muito bem informado).

Em julho, a União Europeia tentou incapacitar a indústria de petróleo russa, impondo sanções à exportação de tecnologia russa de perfuração. O atentado com certeza fracassará, porque a Rússia e os países com os quais a Rússia negocia (inclusive China e Coreia do Sul) são, com certeza, capazes de produzir eles mesmos a tecnologia de que precisam.

Por sua vez, com os negócios que construiu com China, Turquia e Irã, a Rússia acertou golpe demolidor no plexo do futuro energético da União Europeia. Dentro de apenas uns poucos anos, os europeus descobrirão que tantos sermões moralistas e tantos blefes arrogantes sempre cobram seu preço.

Fato é que, ao cancelar a construção do gasoduto Ramo Sul, a Rússia impôs à Europa a mais efetiva de todas as sanções que vimos esse ano.


[*] Alexander Mercouris é especialista em: Direito Internacional e Relações Internacionais. Autor de vários ensaios e artigos sobre esses assuntos com interesse especial na Rússia e na lei. Tem escrito extensivamente sobre os aspectos legais de espionagem da NSA (National Security Agency) e eventos na Ucrânia, em termos de direitos humanos, a constitucionalidade e do direito internacional. Trabalhou como advogado por 12 anos na Royal Courts of Justice, em Londres, especializado em direitos humanos e direito constitucional.


Nota dos tradutores
[1] “Privataria” (“privatização” + “pirataria”) é neologia que aparece no título de importante coleção de documentos sobre o processo das privatizações neoliberais no Brasil dos governos do PSDB coletados, editados e comentados pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior: A privataria tucana. A mesmo neologia foi usada por Palmério Dória em seu livro O Príncipe da Privataria numa referência direta ao ex-presidente FHC. Ilustração a seguir, clique na imagem para aumentar: