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domingo, 13 de abril de 2014

Europa: Cresce a resistência contra a política dos EUA para a Ucrânia

13/4/2014, [*] Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os EUA sempre tentaram separar a Rússia da União Europeia
Os EUA sempre fizeram de tudo para enfraquecer a Rússia. Conseguir meter uma cunha entre Rússia e União Europeia é missão prioritária. Mas a Crimeia e a Ucrânia frustraram os planos. Atada na crise ucraniana, a Europa começa a suspeitar de que não lhe interessa muito seguir as políticas dos EUA e dá os primeiros sinais de interesse em desescalar o confronto com a Rússia. “O Grande Motin”, pode-se dizer, está amadurecendo, embora a “revolta” não implique muito mais que se separar de algumas iniciativas dos EUA...

Parece que Bruxelas vai deixar partir a Ucrânia, sem escândalos. O frenesi revolucionário já passou, e a UE não dá sinais de interesse em tomar qualquer medida anti-Rússia. O Kremlin fez-se ouvir, e gradualmente a Europa começa a ouvi-lo. A Rússia assumiu a iniciativa diplomática, não dá sinais de muita preocupação com o que digam os EUA e, além disso, a Rússia assumiu posição muito mais consistente, insistindo num diálogo de todas as regiões da Ucrânia como instrumento para administrar a crise. As esperanças ocidentais, de que Moscou reconheceria, pelo menos indiretamente, o governo ilegal de Kiev vão-se frustrando. A Rússia entende que os esforços para a paz, que visam a pôr os putschistas de Kiev também na mesa de negociações, em vez do recurso a medidas coercitivas, é o objetivo a ser buscado; e em cooperação com as estruturas euro-atlânticas.

Sergey Lavrov
O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, convocou as autoridades em Kiev a tomar medidas urgentes para construir um diálogo nacional com todas as forças políticas e as regiões na Ucrânia. Para ele, todos os atores externos, inclusive Bruxelas e Washington, devem empurrar as autoridade ucranianas para que assumam a responsabilidade pela situação e iniciem um diálogo, com a participação de todas as partes interessadas na Ucrânia. Todas as regiões devem participar nas conversações.

A posição é clara. Todos sabem que os EUA temem um movimento civil no sudeste da Ucrânia. Uma milícia esfarrapada de fantoches norte-americanos se apossou do poder na Ucrânia. O objetivo de Washington é eliminar qualquer oposição ao seu projeto. A Casa Branca parece disposta a fingir que não vê metade, pelo menos, da população da Ucrânia. E já foi longe demais nessa via, ao mesmo tempo em que empurrou a Europa na direção do alto risco de envolver-se numa guerra civil, e ao lado dos golpistas.

O que se tem, é que a política de Obama para a Ucrânia resume-se a algumas manipulações toscas, com objetivos imundos, influenciada pelo confronto global com a Rússia. O campo de batalha caminhou, do Oriente Médio, para as fronteiras com a Rússia. A União Europeia e a OTAN não apoiaram a intenção de Obama de atacar a Síria. Não há dúvidas de que a razão prevalecerá em Bruxelas.

Barack Obama tenta agora acalmar os europeus, dizendo que o mundo está mais seguro quando EUA e Europa mantêm-se lado a lado. Foi o que disse no final de março, quando a Europa vivia em pleno choque, depois de tomar conhecimento da opinião de Victoria Nuland, que não deixou dúvidas de que prefere a mediação da ONU, à da União Europeia. Foi bem clara:

Acho, para ajudar a colar essa coisa toda, melhor a cola da ONU e, você sabe, a União Europeia que se foda.

Victoria Nuland
Por que, depois disso, a União Europeia continuaria a seguir a orientação do Departamento de Estado? Obama disse que a Europa é o mais próximo parceiro de Washington no cenário mundial e que a Europa é a pedra fundamental do engajamento dos norte-americanos com o mundo. Difícil saber o que pensam os EUA, então, dos seus outros parceiros menores. Os EUA têm modo bem estranho de definir parcerias “próximas”.

A Agência de Segurança Nacional dos EUA continua a manter centenas de altos políticos europeus sob vigilância ininterrupta. Só resta a Obama manifestar simpatia, compaixão. Espionagem, chantagem, ameaças e provocações – eis o padrão corriqueiro da diplomacia dos EUA na Europa. Nem surpreende que o continente não esteja dando sinais de estar muito satisfeito com a política ofensiva do parceiro transatlântico.

É tudo desarranjo e confusão em Washington, como na Ucrânia. Não raro, o Departamento de Defesa vê as coisas de um modo, e o Departamento de Estado, de outro. O Congresso cuida de remar a própria canoa. O presidente sobe no muro, ou tenta correr com os cavalos e caçar com os cães, em vez de cuidar de definir claramente suas políticas. Não é por acaso, que tantas decisões de Obama andam na direção contrária à boa lógica: é reflexo de sua extrema irritação contra o resto do mundo externo à sua bolha.

O que aguarda o Afeganistão se assinar SOFA (Status of Force Agreement)
É o Afeganistão, que teima e teima, e não assina aquele acordo colonialista. É o Irã, que passa sem tomar conhecimento delas, por todas as provocações; e avança firme e consistentemente na direção de uma solução diplomática para o problema nuclear. É o governo legal e legítimo da Síria, que não “desce” nem se deixa derrubar; e nada de “mudança de regime”, por lá. É Israel e a Arábia Saudita, que se vão afastando do domínio pelos EUA. E, agora, é a Ucrânia – país sobre o qual os políticos norte-americanos não sabem nem o b, a, ba – e onde se meteram enlouquecidamente, fazendo deles mesmos motivo de piada em todo o mundo. Nenhum desses eventos passa despercebido, na Europa. A Europa está vendo tudo isso. 

A verdade é que a Europa está dividida. Os britânicos mantêm-se fiéis às táticas de fazer alianças temporárias, uma aliança para cada problema. Mas no caso da Ucrânia, Washington aceita qualquer aliança com qualquer um que se posicione contra a Rússia. Mesmo que, em vez de grandes aliados, só encontre fantoches: por exemplo, os Estados do Báltico, ou o governo da Geórgia. As declarações anti-Rússia desses governantes são frases perdidas no passado. E, além do mais, os Estados do Báltico cuidam para não ir longe demais: sabem perfeitamente que o equilíbrio militar regional pende a favor de Moscou.

A recente resolução sobre a Ucrânia adotada pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa [orig. Parliamentary Assembly of the Council of Europa (PACE)] parece ter sido urdida por seres extraterrestres.

A resolução “declara”, por exemplo, sem qualquer prova, do nada, que a Rússia planeja agressão militar não provocada contra a Ucrânia. Na sequência, os representantes da Geórgia foram os primeiros a propor aquela Assembleia Parlamentar suspendesse a Rússia da sua condição de membro. Ora! A Rússia paga 4% do dinheiro que sustenta aquela Assembleia Parlamentar: é um dos cinco principais mantenedores do orçamento da PACE! A parte boa é que os representantes da Rússia, agora, podem ignorar a Assembleia e tudo que se diga ou discuta-se ou decida-se naquelas sessões. Seja como for, é mais que hora de a Rússia separar-se de um fórum que só tem feito distorcer as políticas russas para a Ucrânia.

A França e seu "excepcionalismo" (The Economist)

À União Europeia só restou a via de alistar-se ao lado da Rússia, se quiser equacionar e resolver a questão da Ucrânia. Moscou sabe que o “velho continente” não tem voz de líder ou presidente que fale por toda a Europa, com o qual seja possível discutir alguma coisa. Portanto, para começar, os europeus têm de aprender a falar como uma única voz. Não é fácil. A Grã-Bretanha tem visão própria sobre o próprio “excepcionalismo”. A França, idem, também tem sua própria visão sobre o próprio “excepcionalismo”. Alemanha, Polônia, sempre a repetirem que têm “papel especial” a desempenhar... Até aqui, qualquer ideia de a União Europeia participar de conversações sobre a Ucrânia é ideia absolutamente abstrata. Os europeus só querem esquecer – e já esqueceram – que foi movimento para a integração da Ucrânia na Europa que disparou toda a confusão em Kiev.

O melhor que uma delegação europeia pode fazer é fingir que acredita que todos acreditam que a União Europeia tem posição unificada sobre a Ucrânia. Mas... não é posição que interesse à Alemanha – porque a Alemanha quer superar a crise na Ucrânia, mas sem que isso arranhe suas relações com a Rússia. E quer preservar, também, seu domínio sobre o Leste da Europa (e sabe que não conseguirá isso, se não cooperar estreitamente com os norte-americanos).

É hora de os políticos europeus ainda capazes de liderar alguma coisa, começarem a agir com independência e criticarem as políticas dos EUA, sob o prisma de seus próprios interesses, caso a caso.
___________________

[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como:Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.
 

sábado, 22 de março de 2014

Pepe Escobar: “China, Crimeia e Pashtunistão”

21/3/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A área verde do mapa, ultrapassando fronteiras do Paquistão e Afeganistão, é o que Pepe Escobar chama de " Pashtunistão"
No centro do tumulto que Afeganistão e Paquistão enfrentam simultaneamente está o tabu de todos os tabus: o Pashtunistão. Como se interconectam o sonho de uma terra comum dos pashtuns e a secessão da Crimeia, que se separa da Ucrânia? E o que pensa a China, disso tudo?

Comecemos com o Paquistão. “Especialista” norte-americano da contrainsurgência, guru do general David Petraeus já caído em desgraça, David Kilcullen, insiste que o Paquistão está implodindo. Sem novidade: gente como essa gente é paga para predizer o caos.

Como sempre, a coisa aí é também muito mais nuançada. O Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, está de fato tentando impedir que o Paquistão imploda. Por isso quer um acordo com o Talibã no Paquistão, o TTP.

O partido de Sharif, o PML-N, é conservador em termos religiosos e liberal, em termos econômicos. É partido intimamente conectado com os partidos religiosos do Paquistão. Sharif sabe que tem de ser cuidadoso na região do Punjab, por causa da popularidade dos jihadistas anti-xiitas – o grupo Sipah-e-Sahaba.

Um ramo do Sipah – o temido Lashkar-e-Jhangvi – também mata rotineiramente muitos xiitas em Sind e especialmente no Baloquistão. Sharif concluiu que não pode permitir uma aliança entre o TTP (o Talibã Paquistanês, com base nas áreas tribais) e grupos jihadistas ativos no Punjab.

Sharif é também homem de negócios. Ele sabe que o único modo de pôr novamente nos trilhos (como se algum dia tivesse estado...) a economia do Paquistão é acabar com a guerra civil. Esse é o arcabouço do argumento por trás do atual “processo de paz”. É o que Sharif disse aos chineses (aliados chaves) no verão passado, quando visitou Pequim.

Até agora, ainda não foram discutidas as questões realmente espinhosas no processo de paz. O TTP quer a lei da Xaria imposta em todo o Paquistão. Nenhum governo paquistanês jamais aceitará isso.

Inimigos do estado 

Os grupos de contato, dos dois lados, são muitíssimo interessantes. No lado do governo está um general aposentado, Muhammad Amir, ex-chefe do conhecido Inter-Services Intelligence (ISI), a CIA paquistanesa. Mas lá está também o grande jornalista Rahimullah Yusufzai, que trabalha em Peshawar, provavelmente a maior autoridade mundial em tudo que tenha a ver com as áreas tribais paquistanesas.

No lado do TTP está ninguém menos que o super mulá Samiul Haq, diretor da “Harvard Talibã”, em Akhora Khattak, próximo de Peshawar, instituição que formou gerações de Talibã (exclusivo para vocês: foi graças a uma carta assinada por Haq que eu e meu fotógrafo escapamos de ser metidos na cadeia pelos Talibã em Ghazni, em 2000, quando “invadimos” uma base militar abandonada).

Soldados do Exército paquistanês (foto Mian Khursheed)
O exército paquistanês não gosta, nada, nada, desse “processo de paz”. Principalmente o ISI, que conservam conexões muito íntimas com muitos grupos jihadistas que colaboram com o ISI em questões estratégicas de Islamabad nas relações com o Afeganistão e/ou a Índia. Nem é preciso dizer que o Talibã Afegão, com Mullah Omar ainda, quase com certeza, em Quetta (e como é possível que nenhum drone de Obama jamais o encontre?) além do grupo Haqqani, no Waziristão Norte, continuam muito próximos do ISI.

E no Punjab outro ninho de terríveis jihadistas – o grupo Lashkar-e-Taiba, autor do atentado à bomba em 2008, em Bombaim – são, pode-se dizer, “protegidos” pelo exército paquistanês.

Mas o TTP é completamente outro assunto. Diferentes de todos esses outros jihadistas, eles atacaram o estado e o exército paquistaneses cara a cara. É preciso ter colhões. Não surpreende que o exército os veja como inimigos do estado – além de serem manipulados por estrangeiros (adivinhem quem).

O TTP é pântano impenetrável. São pelo menos 30 diferentes grupos, que, todos, juraram fidelidade a Baitullah Mehsud em 2007. Os drones de Obama continuam matando Mehsuds (Baitullah, em 2009; Hakimullah, em 2013), mas o TTP nunca morre. E a família Mehsud permanece no comando.

Eu definiria a família Mehsud como um grupo de guerrilheiros pashtuns com base nas áreas tribais muito próximas do Afeganistão. É guerrilha, sim, contra o estado, que eles veem como um bando de traidores porque colaboram com os norte-americanos desde o 11/9. Alternativamente, também se pode dizer que os EUA, no Paquistão, estão em guerra, na essência, contra uma família – e há mais de uma década.

Mapa legendado do Afeganistão/Paquistão o que ajuda a entender a multiplicidade de grupos étnicos na região (clique na imagem para aumentar)
Agora, as coisas mudaram um pouco. O novo líder dos TTP é Mullah Fazlullah. É original de Swat, e tem base nas áreas tribais de Mohmand e, até, em Kunar e no Nuristão, no Afeganistão (locais ultra linha-dura, ultra-ultra conservadores). Significa que a sua base principal já não está no Waziristão. É caso de perguntar se a gangue dos drones em Nevada, EUA, já sabe disso.

Tem havido muita conversa no Paquistão de que o próprio mulá Omar, em pessoa, teria intervindo, tentando unir as agora disparatadas facções do TTP, para fazer avançar o diálogo com Islamabad. Por quê? Porque, com a OTAN fora do Afeganistão no final de 2014, o que o Talibã no Afeganistão quer é reunir todos os pashtuns dos dois lados da fronteira, e, então, avançar para tomar Kabul – num replay de 1996.

Washington, previsivelmente, tem muito medo de um processo de paz Islamabad-TTP. Com isso, “Al-Qaeda”, o coringa perene, estaria de rédea solta nas áreas tribais, outra vez. Mas, seja como for, parece que ali só restaram uns poucos “Al-Qaedas”; todo mundo partiu para o Levante.

Mesmo assim, o jogo de longo prazo de Washington é continuar a inventar teorias conspiracionais sem fim no Paquistão – apostando no caos no país para, mais cedo ou mais tarde, tentar passar a mão nas armas atômicas do Paquistão, nos termos em que o ISI vê as coisas. Mas o atual processo de paz foi mais ou menos “aprovado” por Washington. E a guerra dos drones mais ou menos prossegue. Por enquanto.

Karzai ataca novamente

Mês que vem haverá eleições no Afeganistão. O esperto presidente Hamid Karzai anda ocupado promovendo “seu” candidato à presidência, Zalmay Rassoul. Indicou o ex-Ministro do Interior e presidente da Câmara Baixa do Parlamento, Younus Qanooni, candidato à vice-presidência, em substituição ao recentemente falecido Mohammad Fahim.

Hamid Karzai - Presidente do Afeganistão (foto Mohammad Ismail)
Qanooni, como Fahim, vem do vale do Panjshir e foi muito próximo do legendário Ahmad Shah Massoud, o “Leão do Panjshir”, assassinado pela Al-Qaeda dois dias antes do 11/9. Qanooni opôs-se ao bombardeio pelos EUA em 2001 e jamais baixou o tom das críticas a Karzai.

Karzai joga brilhantemente seu jogo pelo poder, porque reforça suas conexões tadjiques, ao mesmo tempo em que mina a candidatura de Abdullah Abdullah, favorito de Washington. O candidato de Karzai, Rassoul, agora, atrai o apoio de um grupo “misto”, pashtun/tadjique.

A eleição presidencial afegã será decidida no segundo turno. Então, sim, se verá quem os altos comandantes mujahideen – de Ismail Khan em Herat, a Gul Agha Sherzai em Kandahar – estão realmente apoiando. E como Karzai manobrou mais uma vez para obter o que quer.

Do ponto de vista de Washington, Rassoul pode ser aceitável, porque quer assinar o tal muito controverso Acordo sobre o Estado das Forças [orig. Status of Forces Agreement (SOFA)] que permitirá a permanência de tropas “residuais” dos EUA no Afeganistão.

Ou, pelo menos, Rassoul disse que assinará, depois de subornar todos os senhores-da-guerra relevantes. Rassoul sabe que, se isso acontecer, todos os Talibã saltarão sobre sua garganta, por mais pashtun que ele seja. O mais provável, se for pashtun esperto, é que esteja dizendo uma coisa e pensando em fazer outra.

Assim se vê que há dois processos de paz paralelos em andamento no Paquistão e no Afeganistão. O problema chave é que a “paz” que se obtenha no Paquistão pode traduzir-se em caos no Afeganistão, porque então o Talibã Afegão estará reforçado pelo Talibã Paquistanês “liberado” numa ofensiva contra o novo governo em Kabul.

Combatentes paramilitares no Paquistão (foto Aamir Qureshi)
Alguns combatentes do TTP persuadidos pelo exército paquistanês estão agora em segurança estacionados na fronteira – especialmente nas áreas supracitadas de Kunar e Nuristão. E ali estarão protegidos pelos serviços de segurança afegãos – como lastimam os paquistaneses.

Que ninguém se engane: a rivalidade Paquistão-Afeganistão permanece extremamente feroz. E nem poderia ser diferente: o Afeganistão jamais reconheceu a Linha Durand, que lhes roubou muitas de suas próprias terras pashtuns. Culpa do Império Britânico, há mais de 100 anos. Essa ainda é a chave para toda essa confusão.

Não há dúvidas de que os pashtuns dos dois lados da fronteira estão prestando imensa atenção à Crimeia. Uma secessão semelhante levaria ao resultado com que sonham a vida inteira – o Pashtunistão. O problema é que teriam de combater ao mesmo tempo contra dois governos centrais – Kabul e Islamabad. E, em termos de representação, os Talibã, dos dois lados da fronteira, com certeza não respondem pela maioria dos pashtuns.

Só queremos fazer dinheiro

A posição da China acrescenta ainda mais tempero a esse cozido. Pequim está focada como um laser na retirada de EUA e OTAN, por bem, do Afeganistão, no final do ano. Será um posto a menos do Império das Bases dos EUA – próximo demais, para o conforto da China, de suas fronteiras.

Pequim quer um Afeganistão que gere lucros. Não parece possível, no futuro que se vê. Em 2008, as empresas Chinese Metallurgical Group e Jiangxi Copper Co. compraram um arrendamento por 30 anos em Mes Aynak – a maior mina de cobre do planeta – na província de Logar, por, nus e crus, US$3 bilhões.

Drone MQ-1B utilizado pelos EUA para assassinar civis e líderes tribais no Af-Pak
(Foto Julianne Showalter)

Então, os Talibã começaram a atacar a mina. E Pequim começou a olhar para o Afeganistão mais como dor-de-cabeça de segurança, que como fonte de lucros – mesmo tendo entrado numa cooperação de segurança com o governo Karzai.

Fator altamente complicador é que Pequim identificou os atacantes Talibã como originados do Paquistão. Acrescente-se a isso que os uigures andam para lá e para cá com o Paquistão, onde recebem treinamento para “desestabilizar” Xinjiang, e tem-se um importante problema entre os aliados Pequim e Islamabad. Pequim está intrigada, porque parece que Islamabad nada faz para deter essas infiltrações.

E a coisa fica ainda mais complicada quando já se sabe na região que alguns ativistas uigures têm sido infiltrados/manipulados – por décadas – pela CIA. Assim sendo, se você estiver cruzando do norte do Paquistão para Xinjiang, paralelo à estrada Karakoram, há forte probabilidade de você ser espião norte-americano – como Pequim vê as coisas.

Mas ainda não há nada suficiente para provocar ruptura séria entre Pequim e Islamabad. Os dois lados concordam absolutamente com pôr EUA e OTAN para fora do Afeganistão. Os dois lados concordam que não se deve dar voz aos Talibã no novo Afeganistão (para a China, está fora de questão; para o Paquistão, tudo depende de o quanto os Talibã aceitem ceder).

Acima de tudo, os dois absolutamente concordam com construírem-se cada vez mais laços comerciais – com o Paquistão podendo contar com todos os lucros de um corredor comercial que vá do porto Gwadar a Xinjiang. E os dois definitivamente concordam em mais um ponto: se a Crimeia vier a inflar o sonho do Pashtunistão, será/seria um novo jogo; totalmente novo, imensamente imprevisível e “desestabilizante” novo jogo.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Alta turbulência na política afegã

27/11/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e Hamid Karzai 
Quer dizer então que agora é fim de caso, entre o presidente dos EUA e o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai? Se for, a transição será pacífica? Se não for, a que ponto chegará a violência? Perguntas terríveis brotam por todos os lados na paisagem política no Afeganistão.

Susan Rice
A visita de fim-de-semana da Conselheira de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice, a Cabul parece só ter aprofundado a ravina que separa o governo Obama e Karzai, no que tenha a ver com a assinatura do Acordo sobre o Status das Forças [orig. State of the Forces Agreement, SOFA].

Karzai assumiu posição extremamente dura em entrevista à Radio Free Europe/Radio Liberty (RFERL), financiada pelos EUA, apenas poucas horas depois de Rice deixar Kabul. Reiterou suas condições para assinar o acordo SOFA. Não apenas não suavizou nenhuma de suas posições anteriores; dessa vez, converteu a interferência dos EUA nas eleições presidenciais afegãs em tema de campanha eleitoral; praticamente ameaçou que, a menos que essa interferência acabe completamente, virá a público para contar “detalhes”.

Karzai repetiu com destaque, várias vezes, que os EUA estão cuidando de promover sua própria agenda geopolítica, ao fixar bases militares no Afeganistão. E demarcou muito claramente uma linha de separação entre os interesses nacionais afegãos e a agenda geopolítica dos EUA.

Em tom excepcionalmente duro, Karzai acrescentou:

Depende dos norte-americanos, se ficam ou se partem. Ainda que assinemos mil acordos com eles, se as coisas não interessarem a eles, eles irão embora...

Impossível dizer mais claramente. Mas a parte mais contundente é Karzai ter dito, com todas as letras, que a guerra afegã está sendo manipulada para servir “interesses de outros”.

Karzai disse que:

Não estamos bloqueando interesses dos EUA ou de outras grandes potências. Mas exigimos que eles declarem que o Afeganistão é o lugar a partir do qual eles promovem seus interesses. Para continuar a fazer o que interessa a eles, eles têm de também considerar os interesses do Afeganistão.

Abdullah Abdullah
Qual o sentido dessa espantosa entrevista? Bem... Antes de deixar Kabul na 3ª-feira, em entrevista ao canal afegão ToloTV, Rice disse que se o acordo SOFA não for assinado “prontamente”, os EUA “não terão escolha” além de começar a planejar a retirada de todos os soldados dos EUA e da OTAN hoje no Afeganistão. Karzai respondeu-lhe como se dissesse:

(...) eu sei que vocês não podem partir. Mas se dizem que estão de saída... por que não se vão?

Expôs a tolice de Rice, falou como se ela não existisse.

Contudo, é mais do que uma “reprimenda” verbal. É perfeitamente possível que diplomatas dos EUA estejam instigando a oposição a pressionar Karzai. Deputados afegãos próximos aos norte-americanos conclamaram Karzai a assinar o Acordo SOFA. Como acontece com frequência nesses casos, o candidato à presidência preferido dos EUA, Abdullah Abdullah (garoto-propaganda dos think-tanks e do establishment de Washington) disse que a posição de Karzai “gerou graves preocupações entre o povo afegão”.

Também o ex-presidente Sebghatullah Mujaddidi condenou fortemente Karzai:

Infelizmente, o presidente Karzai não vê os interesses nacionais do Afeganistão e está tentando impor sua visão e ideias pessoais erradas.


Sibghatullah Mojaddedi
Mujaddidi é velho cavalo de guerra da jihad afegã, pashtun ambiciosíssimo, muito esperto e habilidoso, e tem laços fortes com Islamabad. Aliás, foi posto no poder em Cabul na primeira maré de vitória, pelos Mujahideen afegãos em abril de 1992, por ninguém menos que o então primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, pessoalmente. Sharif levou Mujaddidi a Mecca e de lá acompanhou-o a Cabul para promovê-lo como candidato à presidência.

A história pode repetir-se? Vistos os fatos em retrospectiva, terá Karzai errado ao pôr Mujaddidi para presidir a Loya Jirga? É possível que Karzai tenha perdido o controle da Loya Jirga para Mujaddidi e/ou seus montores no exterior? É fato também que Karzai tem falado de colusão de EUA e Paquistão.

De fato, a cena política afegã tem alta fluidez e os alinhamentos mudam muito rapidamente. Tudo pode acontecer nas semanas cruciais que virão. É inconcebível que os EUA simplesmente levantem acampamento e desistam da agenda de estabelecer suas bases militares (que são parte da estratégia de “reequilibramento” na Ásia).

As apostas são muito altas e há outros eventos em curso no Pacífico Asiático, depois de a China ter anunciado, no sábado, a criação de uma zona de defesa aérea. A operação de “cercar” a China não é viável, sem que os EUA controlem o Afeganistão. Por outro lado, Karzai é conhecido como atilado observador geopolítico e não há dúvidas de que avalia corretamente a importância das bases norte-americanas em território afegão e as intenções dos EUA.

A entrevista de Karzai deixa claro que ele já avaliou as próprias opções, se as forças dos EUA deixarem completamente o Afeganistão. Talvez tenha um Plano B. Está remando. É presidente legitimamente eleito, o que torna difícil a situação dos EUA – a menos que, nas semanas cruciais à frente, os EUA encontrem algum meio para cercar e contornar Karzai.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Prossegue a farsa do Acordo “Estado das Tropas” (SOFA) no Afeganistão

13/10/2013, Moon of Alabama –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
John Kerry e Hamid Karzai em 12/10/2013
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, esteve no Afeganistão, para convencer o presidente afegão, Hamid Karzai, a assinar um Acordo “Estado das Tropas” [orig. Status of Force Agreement (SOFA)] que permita que tropas dos EUA permaneçam no país depois do fim da retirada, em 2014. Apesar de a longa reunião ter sido apresentada como um sucesso, a questão central absolutamente não está resolvida:
Essa noite alcançamos um certo tipo de acordo – disse Karzai através de um intérprete. – Os EUA não mais comandarão operações. Providenciamos uma garantia escrita da segurança do povo afegão. E obtivemos uma clara definição de invasão.
Kerry e Karzai conseguiram romper um impasse nas negociações durante dois dias de conversações intensivas na capital afegã, com o prazo final de 31/10 já se aproximando, para que os EUA consigam manter soldados em solo afegão, depois da retirada das forças de combate em 2014. (...)
A questão que se destaca é a da jurisdição – disse Kerry numa conferência de imprensa, à noite, ao lado de Karzai. Somos forçados a declarar que, se a questão da jurisdição não puder ser resolvida, infelizmente não poderá haver acordo de segurança bilateral.
Loya Jirga é uma reunião dos chefes das várias comunidades da sociedade afegã
Os EUA querem que o Afeganistão dê imunidade aos seus soldados e que quaisquer crimes de que venham a ser acusados sejam processados e julgados em tribunais norte-americanos. Karzai não pode aceitar tal exigência. Ele convocará uma assembleia, Loya Jirga, para decidir e também pedirá que o Parlamento se manifeste sobre a questão. Implica que os EUA terão de pagar muitas e caras propinas, para obter o resultado que deseja. Mas ainda que pague e o resultado das votações lhe seja favorável – o que duvido que venha a ser – nem assim se superará o problema das hostilidades contra os norte-americanos.
Mulá Omar, lider Talibã
Em sua mensagem do Eid, Mulá Omar, líder dos Talibã, alertou contra os riscos de o governo de Karzai aceitar a exigência dos EUA:
O governo de Kabul e os invasores, não satisfeitos com criar confusão no plano doméstico afegão, estão também marginalizando o país nos planos regional e global, assinando entre eles acordos coloniais e, assim, criando cada dia mais razões para que a guerra continue. Por tudo isso, os invasores e seus aliados devem compreender que o acordo estratégico terá graves consequências para eles. Por mais que produzam esses documentos carimbados por uma falsa Loya Jirga, eles jamais serão aceitáveis para os afegãos.
Ao longo da história, os reais representantes e as Loya Jirgas afegãs jamais assinaram documentos de escravização. Portanto, os que assinem esse [acordo] não podem ser considerados Loya Jirga representativa do país. Suas decisões não são aceitáveis. Os invasores devem saber que suas bases limitadoras jamais serão aceitas. A atual Jihad continuará contra eles, ainda com mais ímpeto.
Militares (Rangers) dos EUA mortos quando atacavam uma residência no Afeganistão
Essa resistência prometida ainda parece forte e, de fato, parece ainda mais forte que antes. Há uma semana, no que parece ter sido emboscada bem organizada, quatro Rangers dos EUA, considerados forças de elite, foram mortos, e 13 ficaram feridos, num raid contra uma casa:
Um regimento de Rangers, que incluía 36 soldados e uma unidade canina estava tentando capturar alvo considerado de alto valor em Panjwai no sul do Afeganistão. Quando os soldados chegaram à casa, segundo informaram oficiais militares dos EUA, a unidade apresentou-se com o chamado típico, exigindo que todos os que lá estivessem saíssem da casa.
Apareceu um homem. Notícias do local sugerem que o homem ajoelhou-se e ergueu a camisa, para mostrar aos soldados que não estava usando colete-de-explosivos.
Vários Rangers aproximaram-se do homem para começar a interrogá-lo. Nesse instante, saiu da casa uma mulher vestindo um colete de suicida e se autodetonou, matando instantaneamente vários membros da unidade, com o cachorro, e ferindo outros.
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Unidades médicas, especialistas em explosivos e outras unidades aproximaram-se para ajudar os feridos. E 13 dispositivos explosivos improvisados [ing. Improvised Explosive Devices, IEDs] foram detonados, matando e ferindo mais soldados dos EUA.
Havia ali 13 bombas de fabricação doméstica, além de uma suicida-bomba, à espera do ataque pelos Rangers norte-americanos. Houve grave falha de inteligência, ou os soldados não teriam sido apanhados naquela armadilha tão cuidadosamente montada. O que se vê mais uma vez é que o inimigo dos EUA no Afeganistão ainda consegue ter a iniciativa e continua com capacidade para infligir baixas significativas. 
Trabalhador afegão passa pela guarda do local onde se realizava a reunião Kerry-Karzai 
Qualquer vestígio de coturnos norte-americanos no solo afegão sempre estará sob ameaça constante. Mais um soldado dos EUA foi morto hoje, no 15º ataque de soldados afegãos contra soldados norte-americanos, só esse ano. 
Que importância teria o Afeganistão, para que o governo Obama tanto insista nessa continuada participação dos EUA na guerra? Depois de 12 anos inteiros, não se viu sucesso algum no Afeganistão, apesar das centenas de bilhões gastos ali. Por que continuar por mais tempo, se os custos são tão imensos?