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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nova Análise: Eleições antecipadas no Egito “podem aliviar pressão estrangeira”

27/1/2014, [*] Mahmoud Fouly, Xinhuanet, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Karl Marx explica, no seu celebrado 18 brumário de Luis Bonaparte [1], que as experiências de 1848-51 comprovaram-se muito valiosas para a bem-sucedida revolução de trabalhadores de 1871. E o Egito? Terá interlúdio de 20 anos, antes que volte a revolução real? Ou pode acontecer muito antes? Perguntem à Esfinge (...). Quando se trata de anatomia de revoluções, ninguém provavelmente sabe mais que Moscou e Pequim. E ambas estão apoiando robustamente a antecipação de eleições presidenciais no Egito (o que implica que estão, hoje, com o general Sisi e o que ele representa). (MK Bhadrakumar, Arab Spring speaks through graffiti -9/1/2014, Indian Punchline)

Adly Mansour
CAIRO, 26/1/2014 (Xinhua) – A decisão do presidente interino do Egito, Adly Mansour, anunciada domingo, de realizar eleições presidenciais antes das eleições parlamentares, “pode aliviar pressões estrangeiras” contra o Egito relacionadas ao mapa do caminho do atual governo apoiado pelos militares, dizem alguns especialistas em segurança.

Dr. Gamal Salama
Nações estrangeiras estão encarando o Egito como estado “acéfalo”, porque tem presidente provisório e governo de transição; nesse contexto, a decisão sobre antecipar eleições dará ao Egito mais peso e mais credibilidade nas relações com a comunidade internacional - disse Gamal Salama, diretor do Departamento de Ciência Política na Universidade de Suez.

Salama observou que a decisão aliviará pressões de estrangeiros sobre o Egito, na implementação de seu mapa do caminho para o futuro, depois da derrubada do presidente islamista, Mohamed Mursi, por golpe militar, em julho de 2013.

O presidente interino assinou também no domingo um decreto presidencial, baseado na Constituição recentemente aprovada, no qual ordena que a comissão eleitoral comece, no prazo de 90 dias, os procedimentos para a eleição.

Eleições presidenciais antes das eleições parlamentares podem acelerar o processo de cristalizar uma personalidade egípcia, no relacionamento com outros países – disse Salama em entrevista à rede Xinhua.

Imagem aérea mostra vista geral da manifestação pelo terceiro aniversário da revolta que derrubou o autocrata Hosni Mubarak na praça Tahrir, no Cairo comício pró-militar. 49 pessoas foram mortas, 247 feridos, 1.079 presos em 25 de janeiro 2014 (Foto: AP)
A decisão também teve efeito interno positivo, segundo o especialista; para ele

(...) a mentalidade egípcia tende a acreditar no poder do presidente, mais que em qualquer outra autoridade.

A decisão de antecipar as eleições presidenciais e o decreto foram noticiados um dia depois que egípcios pró-militares organizaram manifestações de massa para comemorar o 3º aniversário do levante popular que derrubou o governo do ex-presidente Hosni Mubarak.

Durante as celebrações do sábado (25/1/2014), houve confrontos em todo o país, entre manifestantes antigoverno, tanto islamistas como secularistas, e forças de segurança, que dispersaram várias passeatas e tentativas de organizar bloqueios à passagem de pessoas e veículos [orig. sit-ins], deixando 49 mortos e cerca de 250 feridos. No sábado, a polícia também prendeu mais de 1.000 suspeitos de apoiar Mursi e manifestantes de grupos de esquerda acusados de incitar tumultos e violência.

Um enorme buraco em frente à sede da polícia egípcia depois que uma bomba explodiu - Cairo, 24 de janeiro de 2014. Uma série de quatro explosões atingiu Grande Cairo, no mesmo dia, matando pelo menos seis pessoas e ferindo dezenas de outras pessoas (Foto: Mai Shaheen)
Na 6ª-feira (24/1/2014) e no domingo (26/1/2014), houve atentados terroristas contra prédios e pessoal da polícia, inclusive várias explosões, na capital, Cairo, em Suez e no Sinai, que mataram pelo menos 20 pessoas e feriram cerca de 120.

Yousri al-Azabawi, pesquisador do Al-Ahram Center for Political and Strategic Studies, concorda com Salama, e também entende que modificações no mapa do caminho no que se refere à ordem das eleições podem, sim, “aliviar as pressões estrangeiras sobre o Egito”.

A decisão também pode reduzir o tamanho do financiamento para a Fraternidade Muçulmana de Mursi, já declarada organização terrorista - disse Azabawi em entrevista à rede Xinhua.

Enfrentamento entre partidários do Governo e da Fraternidade Muçulmana em 22/1/2014
Para Azabawi, a realização de eleições livres e justas para eleger um presidente dará ao eleito e às forças de segurança “chance real no enfrentamento contra o terrorismo e para adotar procedimentos mais efetivos apoiados pela população egípcia”.

Mas Azabawi entende que fazer eleições presidenciais antes das eleições parlamentares “dificilmente afetará a Fraternidade Muçulmana ou fará diminuir os protestos antigoverno que organizam regularmente”. Para ele, “muitos ainda acreditam na possibilidade de reconduzir Mursi à presidência”.

Abdel-Fattah al-Sisi
Eleger um novo presidente enviará mensagem forte à comunidade internacional, de que o Egito está, sim, implementando seu mapa do caminho pós-Mursi, com vistas a construir um estado forte, civil e democrático – disse à rede Xinhua o general Mohamed Okasha, especialista em segurança.

Sobre a popularidade entre os egípcios do chefe militar e Ministro da Defesa, general Abdel-Fattah al-Sisi, e rumores de que se candidará à eleição presidencial, Okasha disse que “as urnas terão a palavra final”.

Sobre isso, ver também:
O Egito realizará eleições presidenciais antes das eleições parlamentares – disse o presidente interino do Egito, Adly Mansour, em discurso transmitido pela televisão, no domingo [26/1/2014, Xinhua.net, China, em inglês]



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl [1851-1852]. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Prefácio: Friedrich Engels. São Paulo: Boitempo, 2011, 176 pp. Trad. Nélio Schneider, ISBN: 978-85-7559-171-0. Ou online na Edições Avante (2ª Edição – Abril de 1984) Trad. de José Barata-Moura e Eduardo Chitas.
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[*] Mahmoud Fouly é correspondente do Xinhuanet no Egito 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Egito: reviravolta bem próxima de golpe militar

7/7/2013, Dmitry MININ, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bashar al-Assad
Que má sorte está perseguindo os inimigos do presidente Bashar Assad da Síria! Perderam Al-Qusayr. O Qatar e a Turquia às voltas com ondas de instabilidade interna. Homs, cidade estrategicamente importante, está para cair a qualquer momento, atacada por tropas do governo. No Egito, o presidente Mursi foi deposto. Pergunto-me o que acontecerá depois de Aleppo ser libertada. O rei da Arábia Saudita abdicará? Ou algum dos países ocidentais que apoiam inimigos de Assad serão desmoralizados, de uma vez por todas? A desgraça parece rondar os arrogantes e criminosos que tanto insistem em fazer sofrer a ancestral terra síria, cujas raízes chegam aos tempos bíblicos...

Nenhum desses eventos foi causado por questões internas. Mas haverá algum elo entre a crescente onda de contrarreforma no Oriente Médio e os eventos na Síria? Sem dúvida, há. É o enorme vácuo que se percebe, entre as proclamadas ideias da Primavera Árabe e a política que cada um dos países acima mencionados pratica em relação à Síria. Sob os slogans de liberdade, esses países têm apoiado a barbárie e a selvageria, aliados aos EUA e a Israel, países que absolutamente não se contam entre os admiradores do Islã. É difícil enganar o povo. O povo entende muito bem o que se passa e não sente nenhum desejo de apoiar estados bandidos.

É uma ocasião rara, na história do mundo, quando há diferença tão grande entre a opinião pública, contrária à intervenção na Síria, e a política intervencionista das potências dominantes. A diferença é irreconciliável e clara; e vale tanto para o oriente quanto para o ocidente.

Abdel-Fattah El-Sisi
O ministro da Defesa e comandante-em-chefe das forças armadas do Egito, general Abdel-Fattah El-Sisi agiu de forma muito semelhante ao que fez o general Pinochet no Chile, quando o presidente Allende foi derrubado (o mesmo plano e as mesmas táticas, tudo concebido pela CIA). El-Sisi foi indicado por Mursi, que confiava nele, como Allende confiara em Pinochet. Sisi fez tudo que podia para construir uma reputação de que seria íntimo da Fraternidade Muçulmana. Muitos, no campo de Mursi descuidaram-se da vigilância, porque o presidente teria controle sobre os militares, depois de ter deposto todos os principais comandantes adversários. Mas os interesses corporativos dos militares prevaleceram sobre a lealdade declarada. Especialistas do GIGA Institute of Middle East Studies, com sede em Hamburg, entendem que a razão de as lideranças militares estarem descontentes com Mursi é o fato de que ele imiscuiu-se nos interesses comerciais dos próprios militares, que alcançam ¼ da economia do Egito. Os militares egípcios têm interesses comerciais no campo do turismo, da construção civil, da construção de estradas e outros projetos de infraestrutura. E os militares recebem ajuda dos EUA, que alcança 1,3 bilhão de dólares.

Manifestações anti-EUA durante os protestos no Cairo
Os eventos no Egito trazem à lembrança o que aconteceu na Argélia, em 1991. Houve eleições parlamentares dia 26/12/1991, as primeiras eleições com vários partidos, desde a independência. O resultado das urnas foi cancelado por golpe militar logo depois do primeiro turno, o que levou à guerra civil, depois de os militares terem concluído que havia risco de a Frente de Salvação Islâmica, que quase com certeza conquistaria mais de 2/3 dos assentos à Assembleia necessários para modificar a Constituição, vir a constituir, por via democrática, um estado islâmico. O presidente Chadli Bendjedid foi forçado a sair. A Frente foi banida. 100 mil morreram na guerra civil que se seguiu ao golpe militar de 1991 na Argélia. Até hoje ainda há repercussões.

Mohamed Mursi
O Egito repetirá o quadro argelino? Essa possibilidade ainda não está totalmente descartada. Mas há a possibilidade, embora pequena, de que os militares egípcios decidam assumir plenamente o controle dos destinos do país. Mas, diferente de seus companheiros de farda na Argélia, no Egito os militares não têm, nem petróleo, nem gás. O ocidente pode não se interessar por apoiar diretamente uma ditadura militar absoluta. Embora aliado dos Irmãos Muçulmanos, o Qatar, principal apoiador árabe do país, pode não querer ajudar o novo regime. Surpreendentemente, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aliaram-se à conspiração – motivo pelo qual os militares egípcios obtiveram o apoio dos salafistas. Mas não se comparam a Doha, em termos da quantidade de ajuda que podem oferecer. Ações terroristas e baionetas absolutamente não combinam com turismo, a principal fonte de recursos da economia do Egito. A única fonte de renda relativamente estável, embora não suficiente, do Egito, é o Canal de Suez.

É difícil impedir que o país caia na anarquia. É possível que os militares não consigam controlar tudo, ainda que o desejassem. Por isso, Adly Mansour, juiz civil, foi posto na presidência do país, com o compromisso de organizar eleições e adotar nova Constituição (ainda sem data marcada).

Adly Mansour
Mas a oposição “sob ditadura” nunca é oposição a priori fraca. A ditadura é desafiada pelos que ousam enfrentar abertamente o poder e podem “agitar” o regime, mantê-lo instável. Tudo leva a crer que o Egito enfrentará longo período de instabilidade e de desafios ao poder. Os ventos inaugurados pelo discurso do presidente Obama no Cairo não morrerão, nem facilmente, nem rapidamente. Stratfor, dos EUA, crê que a coalizão “Tamarod” de grupos políticos foi constituída com o objetivo de derrubar Mursi. Mas, colcha de retalhos – que aproxima liberais e fundamentalistas – o grupo inevitavelmente rachará. Os problemas do Egito praticamente não se alteram, não importa quem esteja no poder.

Nessas circunstâncias, não é fácil escolher novo líder.

O presidente da corte constitucional e presidente interino, Adly Mansour, nada sabe do ofício de governar. Não por acaso, o ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) El-Baradei apoiou plenamente a mudança, mas recusou-se a presidir o governo de transição, sabendo que não conseguiria mudar rapidamente a situação no país. O outro nome cogitado e candidato, Farouk El Okdah, ex-presidente do Banco Central do Egito, não passa de coadjuvante político e não tem a suficiente autoridade.

Mohamed El-Baradei
Entre os Irmãos, a principal preocupação é que todos os seus líderes estão presos. Os membros da organização não estão ameaçando qualquer tipo de resistência armada e prometem moderação. Como se não quisessem provocar os militares nem levá-los a excluí-los da lista de candidatáveis, para que nem possam concorrer a eleições que muito provavelmente vencerão outra vez (embora ninguém saiba o que fazer para retomar a vida econômica e todos saibam que, sem medidas nesse campo, as ruas logo voltarão a encher-se).

Por hora, limitam sua atividade aos protestos de massa e ataques aos novos poderes, com o quê mantêm-se psicologicamente ativos e presentes na opinião pública. Por exemplo, a Fraternidade Muçulmana já espalha informação segundo a qual o presidente interino Adly Mansour seria membro de uma seita judaica chamada Adventistas do Sétimo Dia. O boato foi insistentemente repetido por blogueiros árabes, até suas páginas serem deletadas pela empresa Facebook.

Criaram a União Nacional de Partidos pelo Poder Legítimo [orig. National Union of Parties for Legitimate Power] – novo movimento que une todas as organizações islamistas do Egito. A nova União já está convocando manifestações de rua em todo o país, embora recomende que não se façam manifestações violentas e evitem-se confrontos com o exército.

Para o jornal britânico The Guardian, a junta egípcia é apoiada por fundamentalistas como a frente Jamaat al-Islamiyya e o Partido al-Nour, dos salafistas. Mursi errou gravemente ao excluí-los do poder. Resultado disso, tornaram-se agora os mais vociferantes dos manifestantes nas ruas do país. Além disso, os jihadistas acusaram os adversários políticos de terem traído a fé e de se renderem ao ocidente. Equivale a dizer que a aliança da Fraternidade Muçulmana com os EUA não trouxe qualquer benefício aos Irmãos. E Washington também nada tem a comemorar. De fato, os EUA abandonaram os Irmãos à própria sorte, como, antes, também abandonaram Mubarak. E a bandeira islamista acabou nas mãos dos salafistas – os islamistas mais radicais e mais figadais inimigos do ocidente.

Manifestação do Movimento "Tamarod"em 29/6/2013

O principal traço do “Verão Egípcio” e sua mudança de regime é o fato de que os militares apenas depuseram o governo eleito, sem assumirem eles mesmos o poder.

Em certo sentido, tem ares de “golpe incompleto”. EUA e União Europeia já declararam que não veem os eventos como golpe militar – posição que os livra de ter de impor sanções ao Egito. Anders Fog Rasmussen, secretário-geral da OTAN, disse que não faz diferença se foi golpe ou não. Para ele, só interessa fortalecer a democracia no país. Em termos simples, é lógica de Jesuíta.

Barack Obama
Por seu lado, Barack Obama limitou-se a declaração confusa, em que disse que os EUA abstêm-se de apoiar políticos ou partidos e creem na supremacia do processo democrático e da lei. Conclamou os militares egípcios a devolver o país a governo civil o mais depressa possível. Disse, de fato, que os rituais democráticos não interessam e que Washington aprova a mudança de regime no Egito, mesmo que ignore todas as normas democráticas.

Mas os aliados dos EUA não estão gostando. A agência estatal turca, Anadolu, disse que nada justifica o que houve no Egito. O primeiro-ministro Erdogan convocou uma reunião de emergência do gabinete. O ministro das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, disse que a destituição do poder só pode acontecer mediante processo eleitoral, respeitada a vontade popular. É inaceitável derrubar por meios ilegais um governo democraticamente eleito, sobretudo se derrubado por golpe militar

É claro que a Turquia tem muito com o que se preocupar. A mudança de poder no Egito é exemplo eloquente da facilidade com que os EUA desertam e traem os aliados de ontem.

Israel ainda não se manifestou. Evidentemente apoia o golpe, percebendo-o como uma espécie de retorno dos apoiadores de Mubarak com os quais Telavive sempre se entendeu muito bem. A principal preocupação é com a possibilidade de os EUA suspenderem a ajuda militar, caso em que os acordos de Camp David podem ser ameaçados.

De todos os chefes de Estado, Bashar Assad foi quem ofereceu o comentário mais detalhado, ao jornal sírio Al-thawra. Segundo ele, o que está acontecendo no Egito é prova de que são fúteis todas as tentativas para politizar o Islã. Pensava, aí, no sistema que a Fraternidade Muçulmana tentou impor. O presidente disse que é erro usar o Islã para obter vantagens políticas, porque religião e políticas devem ser capôs separados: “Quem quer que use a religião para alcançar objetivos político partidários perderá sempre, onde quer que o faça – no Egito ou em qualquer outro país do mundo”.

O colapso do Islã usado como sistema político de governo explica-se pelo fato de que o “Islã político” é uma ideologia: o projeto político da Fraternidade Muçulmana levou a uma cisão no mundo árabe. Os Irmãos provaram isso aos egípcios. O povo entendeu que fora enganado desde os primeiros dias da revolução egípcia.

Quando perguntado por correspondentes se confirmava a informação que a Agência Reuters recebera de fontes militares egípcias, de que uma das motivações para o golpe seria a decisão de Mursi de romper relações com a Síria, o presidente Assad respondeu que não podia falar em nome do povo egípcio, mas confirmou que houve contatos entre o governo sírio e fontes no Egito, que diziam que a decisão fora um erro.

A grande lição a extrair, que beneficiará políticos em todo o mundo, é simples: deixem em paz a Síria!

A Síria tem potência, até, para encerrar carreiras de presidentes eleitos!



sábado, 6 de julho de 2013

Golpe no Egito agita a política regional (2ª Parte)

5/7/2013, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia antes:
5/7/2013, redecastorphoto, MK Bhadrakumar, em: Egito: Fraternidade Muçulmana não capitulará (1ª Parte)

Abdul Fattah al-Sisi (E) e Mohamed Mursi
Na sequência de eventos, o que se viu foi que uma série de concessões que Mohamed Mursi fez, na reunião de quatro horas no palácio presidencial com o general Abdul Fattah al-Sisi, comandante do Exército Egípcio, não foi suficiente. Mursi ofereceu, como concessões políticas, segundo o jornal The Guardian:

  • Formar um governo nacional com representação de todos os partidos;
  • Formar uma comissão neutra, para alterar a Constituição;
  • Convocar um Conselho Constitucional para apressar a legislação sobre eleições parlamentares; e
  • Um novo Procurador Geral (que já partiu).
Além disso, Mursi deixou fortemente sugerido que, se lhe apresentassem um plano para realizar um referendum sobre sua presidência, seria aceito. Pois nada disso impressionou Sisi. O xis da questão é que Sisi já tomara todas as decisões, depois de receber sinal verde de Washington para prosseguir com um golpe “suave” [orig. “soft”].

Chuck Hagel
Sabe-se agora que ninguém menos que o Secretário de Defesa dos EUA Chuck Hagel, esteve em contato com Sisi, de Washington. O Pentágono foi forçado a admitir que Hagel telefonou a Sisi semana passada, mas recusa-se a divulgar detalhes da conversação. Perguntado por que o Pentágono mantém segredo sobre essa conversa, o porta-voz do Pentágono, George Little, respondeu aos jornalistas que: 

Acho que vocês entendem que a questão é muito sensível. É isso. Tomamos a decisão de divulgar que houve o telefonema. E ponto final.

Significa que o famoso ultimatum dado pelo Exército Egípcio a Mursi na 2ª-feira aconteceu, sim, depois de conversa entre Hagel e Sisi. A explicação de Sisi é que o Exército rejeitara a oferta feita por Mursi, de um governo de unidade e reconciliação nacional, porque sentia que o povo estava pedindo ajuda.

William Hague
Simultaneamente, houve outros sinais eloquentes. Os britânicos recusaram-se a condenar o golpe no Egito. William Hague, secretário de Relações Exteriores disse que 
A chance de um futuro democrático foi duramente conquistada pelo povo egípcio há dois anos e meio. Mas, com olhos no futuro, conclamamos todos os partidos a mostrar capacidade de visão e de liderança para renovar a transição democrática no Egito.

O presidente Barack Obama evitou cuidadosamente a palavra “golpe”, ao comentar os eventos no Egito. Pela lei dos EUA, se se tratasse de “golpe”, toda a ajuda norte-americana ao Egito teria de ser suspensa. A declaração da Casa Branca exibiu tom defensivo, extremamente cauteloso, evitando qualquer condenação aos militares egípcios e, na direção oposta, conclamando a Junta a agir com bom-senso e completar a transição até um governo democraticamente eleito.

Estranhos parceiros de cama

Adly Mansour
Os EUA planejam aumentar a ajuda aos militares egípcios, para influenciar as políticas da Junta. A declaração da Casa Branca reconhece explicitamente que, em última análise, as políticas dos EUA baseiam-se em “valores e interesses partilhados”.

O golpe de estado no Egito provocou diferentes reações na Região. Poucas horas depois da fala de Sisi à nação, na 4ª-feira, na qual anunciou que o presidente da Suprema Corte Constitucional do Egito, Adly Mansour, assumia o posto de presidente interino, chegava ao Cairo um telegrama do rei Abdullah da Arábia Saudita, felicitando o novo presidente e congratulando-se com os militares.

Ao falar, pela televisão, Sisi apareceu ladeado, dentre outros, pelo presidente do Partido Nour (salafista), que claramente apoiou o golpe. O Partido Nour é financiado pela Arábia Saudita, como contrapeso à Fraternidade Muçulmana. Ao lado de Sisi via-se também o xeique da mesquita Al-Azhar no Cairo, que mantém laços muito próximos com o establishment saudita.

Ahmed Davutoglu
Um dos primeiros atos da Junta militar foi invadir a redação da sucursal da rede al-Jazeera no Cairo e prender seus jornalistas. Essa empresa de mídia é ligada ao regime qatari, e Doha sempre foi dos mais empenhados apoiadores – e financiadores – do governo de Mursi.

Mas a Turquia, diferente os sauditas que festejam, criticou o golpe no Egito. O ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ahmed Davutoglu, segundo os jornais, teria dito que:

Só eleições podem dispensar do dever de governar, vale dizer, o desejo do povo. É inaceitável que um governo, chegado ao poder mediante eleições democráticas, seja derrubado por meios ilícitos e, ainda pior, por um golpe militar.

O Partido Liberdade e Justiça, no governo da Turquia, foi aliado íntimo da Fraternidade Muçulmana no campo ideológico e tem apoiado o braço sírio da mesma Fraternidade.

O presidente sírio Bashar al-Assad, como seria de esperar, não escondeu a satisfação ante o fim do governo de Morsi.  
Bashar al-Assad
De fato, o golpe gerou estranhos companheiros de cama. Foi recebido com compreensão, apoio ou aquiescência, por EUA e Grã-Bretanha, seus aliados no Golfo, sobretudo a Arábia Saudita, e na Jordânia. É interessante também para a Síria, que vê a Fraternidade expulsa do poder num país árabe chave. Teerã não ganha nem perde, mas a mídia iraniana deu destaque à reação síria e criticou Mursi.

Quem ganha e quem perde

Há um complexo conjunto de razões a analisar nesse estranho realinhamento regional. Evidentemente, os EUA têm parceiro importante no exército egípcio, mas jamais confiaram plenamente na agenda e nas intenções da Fraternidade, indutora do Islã político no novo Oriente Médio. Sisi é figura bem conhecida em Washington e seu toque islamista “suave” ajuda as políticas dos EUA no cenário regional dominante.

Do ponto de vista dos EUA, o fator crucialmente decisivo é que os militares egípcios sem dúvida alguma trabalharão em íntimo contato com Israel; sem dúvida manterão o tratado de paz de 1979; e sem dúvida manterão o Hamás (ramo brotado no tronco da Fraternidade Muçulmana) sob rédea curta.

O governo provisório é uma coalizão que inclui o timoneiro da era Hosni Mubarak e muitos políticos liberais conhecidos pela adesão ao Consenso de Washington. O FMI, muito provavelmente, controlará a economia do Egito. Por outro lado, os militares cooptaram o Partido Nour (islamista salafista) que vive sob influência da Arábia Saudita – o que aumenta ainda mais o limiar de conforto de EUA-Israel, garantindo que o incipiente aquecimento de relações entre Egito e Irã volte a esfriar completamente. Feitas as contas, o governo Obama pode ter esperança de que um novo arranjo no Cairo não criará dificuldades à agenda geopolítica dos EUA na Região.

A antipatia dos sauditas e de seus parceiros do CCG – sobretudo dos Emirados Árabes Unidos – assim como da Jordânia, contra a Fraternidade Muçulmana não é difícil de entender, posto que os Irmãos procuraram ativamente fazer “mudança de regime” nesses países e a ascendência da Fraternidade no Egito é mau exemplo para a rua árabe. A volta das elites da era Mubarak ao poder no Cairo muito agradará aos sauditas.

Ao contrário, Qatar e Turquia, que acalentam ambições regionais e consideram a Fraternidade Muçulmana como parceiros úteis, têm de voltar às mesas de planejamento. Para o regime sírio, a Fraternidade Muçulmana tem sido anátema, porque o eixo turco-qatari projeta seu braço sírio como oposição dominante.

Recep Erdogan
A rivalidade saudita-qatari pode lançar sombras sobre o conflito sírio e pode também se alastrar para o Líbano. Mais uma vez, o governo de Recep Erdogan terá muito com que se preocupar com a possibilidade de o golpe militar no Egito impor um mau precedente para a Turquia, onde, também, um cisma agudo apareceu contra a agenda de “islamização” do partido governante. Os militares turcos são parecidos com os militares egípcios no ethos secular, e tem longa tradição como agenciadores do poder. Enquanto isso, a parceria entre Erdogan e o governo Obama perdeu o brilho e é cada vez mais incômodo para Washington “equilibrar” o islamismo e a antipatia de Erdogan contra Israel.

Bem feitas as contas finais, contudo, Israel é a potência regional mais afetada pelas mudanças no Egito. A volta da liderança militar no Cairo trabalha a favor dos interesses de segurança de Israel. O estado egípcio olhará mais para dentro, no futuro próximo, buscando uma nova identidade, empreitada eivada de todos os tipos de incertezas. Dito em outros termos, o alinhamento regional nascente Egito-Qatar-Turquia, do qual a liderança do Hamás começou a ocupar-se ultimamente, desintegrou-se do dia para a noite; e isso deixa o grupo militante vulnerável à pressão dos israelenses...

Quanto, afinal, ao governo Obama, teve de voltar atrás no flerte com os Irmãos egípcios (e com o islamismo), que Israel e seus apoiadores nos EUA buscavam insistentemente. Em resumo: Israel é o grande vencedor individual.




*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Egito muda o rumo da chamada “Primavera Árabe”

4 DE JULHO DE 2013 - 14H39
Artigo enviado pelo autor e publicado no Vermelho

O mundo assistiu, desde domingo, àquilo que a BBC de Londres chamou de “a maior manifestação de massas da história da humanidade ocorrida em um só dia em um país”. Pura verdade. O Egito assistiu no domingo, 30 de junho, a 17 milhões de pessoas nas ruas. E nesta quarta, 3 de julho, foram 30 milhões. E esse que é o maior país árabe, possui 82 milhões de habitantes. Grosso modo, podemos dizer que 36% de sua população saíram às ruas para pedir o fim do governo de Mohamed Mursi.

Por Lejeune Mirhan [*]

Entrada da Praça Tahrir na noite de 3/7/2013
Seria como imaginarmos que 72 milhões de brasileiros saíssem às ruas para protestar. Inimaginável. E olha que a Globo, em seu Fantástico domingo noticiava assim: “milhares de pessoas vão ás ruas no Egito” (sic). Se falasse centenas de milhares estaria mentindo.

Em função do peso político e estratégico para todo o mundo árabe e mesmo o Oriente Médio que tem o Egito, vale a pena refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias. Até porque a grande imprensa (TVs e jornais burgueses), procurou dar um enfoque completamente distinto da realidade. Como essas empresas não fazem jornalismo e sim propaganda, servem a interesses de classe e de partidos conservadores, os que estão em outro campo precisam se posicionar.

Que erros Mursi cometeu?

As eleições de maio de 2012, de fato, foram as primeiras em 60 anos. Aos que não conhecem bem a história do Egito, desde que Gamal Abdel Nasser destituiu a monarquia do rei Farouk em 1952, em 60 anos apenas ele e mais dois generais egípcios governaram o país. Foi Anuar El Sadat, de 1970 até 1979, quando foi assassinado, e Hosni Mubarak, de 1979 até 2011, quando foi destituído e o Exército assumiu o comando do país por um ano e meio.

O que a mídia chamou de “primavera árabe”, nada teve de primavera. Os árabes mais conscientes, para refutar essa terminologia a chamam de “inverno árabe”. O que ela trouxe na essência não foram mudanças substanciais, rupturas, melhorias para o povo árabe. Trouxe o tal “gigante adormecido” de que a mídia tupiniquim tanto fala para enaltecer certos setores de uma direita reacionária, antidemocrática e despótica que não preza a democracia.

No caso do Egito e da Tunísia, os primeiros países árabes que tiveram eleições, venceram os partidos islâmicos conservadores. Em alguns aspectos da vida social e política acabaram por piorar as coisas para o povo. No caso específico do Egito, o governo dito “democrático” de Mursi governou única e exclusivamente para o seu partido, que é religioso e se chama Partido da Justiça e da Liberdade, braço política da Irmandade Muçulmana. Essa gente defende o Estado islâmico, a volta do Califado Islâmico. Eles têm saudades dos sultões otomanos que governaram o império islâmico por mais de 400 anos.

Mohamed Mursi
O Egito de Mursi não rompeu os acordos com o FMI. Ao contrário, se submeteu a eles. O grupo palestino que posa de revolucionário para a mídia, chamada Hamas, que é um partido islâmico e não integra a OLP, a resistência palestina que é laica, adora o Mursi. Até porque a Faixa de Gaza faz fronteira com o Egito e o grande sonho dos palestinos que vivem nessa área que é considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, era de que a fronteira na cidade de Rafah fosse imediatamente aberta para o livre trânsito de pessoas e mercadorias. Que nada. Mursi a manteve fechada, obedecendo às ordens dos Estados Unidos e de Israel. Em certa medida até piorou a situação.

Para piorar as coisas, Mursi governou apenas para a sua Irmandade. Não era o presidente de todos os egípcios. É bem verdade que ele não era o candidato original da Irmandade. O nome que eles trabalhavam foi impugnado pela comissão eleitoral simplesmente porque tinha nacionalidade estadunidense. Mursi surgiu de última hora, sem preparo algum. Um completo incapaz.

Como disse, o Egito não tem tradição alguma de eleição e de democracia. E quando fez a primeira, a própria esquerda e setores nacionalistas e patrióticos, socialistas e comunistas acabaram dividindo-se em três grandes candidaturas. Estas ficaram em 3º, 5º e 6º lugar e não foram ao segundo turno. A soma deles, garantiria uma vaga no 2º turno. O principal deles, Hamdeen Sabahi, um homem de esquerda, ficou em 3º lugar e era apoiado pelo PC Egípcio entre outras forças. Hoje, Hamdeen é um dos líderes da chamada Frente de Salvação Nacional, que assumiu o comando ao país com a queda de Mursi.

Outro grave erro de Mursi foi a modificação da Constituição do país, que sempre foi laica. Nas mudanças operadas por ele em dezembro passado na calada da noite, introduziu mudanças que retrocederam em relação à laicidade do país. Começam as exigências do uso do véu pelas mulheres e proibições de venda de bebidas alcoólicas. Tal qual seu amigo e irmão da Irmandade, o pretenso sultão otomano da atualidade, Tayip Erdogan da Turquia, vem fazendo.

No entanto, houve uma gota d’água que irritou profundamente o povo árabe do Egito. Que Mursi apoiava e ajudava a financiar os terroristas jihadistas, salafistas, wahhabitas e da Irmandade no ataque que a Síria vem sofrendo há mais de dois anos todo mundo sabia. Mas, há um mês ele rompeu relações diplomáticas com a Síria, o mais antigo país árabe e dos mais antigos da humanidade. Seguiu claras orientações do imperialismo estadunidense, de Israel, mas principalmente da União Europeia que odeia Bashar Al Assad.

A Frente de Salvação Nacional

Os patriotas, nasseristas, comunistas e socialistas egípcios parecem ter aprendido lições da experiência da dispersão eleitoral do ano passado. Após a derrota eleitoral, agora se agruparam em uma frente ampla. Criaram a FSN que agrupa em torno de 30 partidos políticos de um espectro ideológico amplo. O Partido Comunista Egípcio não a integra formalmente, mas a apoia.

A Frente de Salvação Nacional é composta pelas seguintes organizações:

  • Partido da Constituição – Mohamed El Baradei;
  • Corrente Popular Egípcia – Hamdeen Sabahi;
  • Partido do Congresso Egípcio – Amr Moussa;
  • Partido da Nova Comitiva – Mounir Fakhri Abdel Nour;
  • Partido do Egito Livre – Amr Hamzawy;
  • Partido Social Democrata Egípcio – Mohamed Abu Ghar;
  • Partido da Frente Democrática – Sakina Fouad;
  • Partido dos Egípcios Livres – Ahmed Saeed;
  • Aliança Democrática Revolucionária que inclui 10 partidos e movimentos revolucionários;
  • Partido do Aglomerado – Gouda Abdel Khalek;
  • Partido da Reforma e Desenvolvimento – Nosso Egito;
  • Partido da Liberdade;
  • Partido da Geração Democrática;
  • Partido Socialista Egípcio;
  • Aliança Popular Socialista;
  • Socialistas Revolucionários;
  • Partido da Paz Social; Partido Egito do Futuro;
  • Partido da Dignidade; Assembleia Nacional para a Mudança;
  • Aliança dos Partidos Nasseristas.
Além disso, é integrada pela Central Geral dos Camponeses, União Independente dos Camponeses e a Frente Nacional das Mulheres (fonte: OrienteMídia). 

Mohamed El Baradei
Um dos seus líderes, uma espécie de coordenador, é Mohamed El Baradei. Ele presidiu a Agência  Internacional de Energia Atômica por cinco anos. Teria sido reeleito por mais um mandato como é da tradição na ONU, mas foi vetado pelos EUA. Seu maior crime: disse que o programa nuclear iraniano não visava à construção da bomba, tinha fins energéticos e científicos. Foi banido. Caiu em desgraça. Mas ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Baradei não é homem de esquerda. Talvez de centro. Um técnico. Teria sido imensamente votado nas eleições do ano passado, mas declinou de sua candidatura, abrindo espaços políticos para outras forças. Agora, é líder do Partido da Constituição. Foi duro contra o fundamentalismo religioso de Mursi e as mudanças na Constituição egípcia. Dialogava com as forças armadas em nome da FSN para as mudanças de rumo no país.

É preciso registrar as quatro reivindicações unitárias da Frente, apoiadas pelo PC Egípcio:

  1. Renúncia imediata de Mursi;
  2. Governo de transição com eleições em pelo menos seis meses;
  3. Medidas econômicas em favor das massas populares e
  4. Suspensão da atual Constituição e elaboração de uma nova. Esse é o programa que unifica toda a oposição.
O papel das forças armadas

As forças armadas egípcias tiveram grande papel na história. Apoiaram a derrubada da monarquia em 1952, deram sustentação para Nasser nacionalizar o canal de Suez e peitaram Israel em pelo menos dois confrontos diretos.

Uma das primeiras medidas de Mursi foi trocar o comando das forças armadas. Aposentou 12 generais de altas patentes e nomeou novos. Alguns mais jovens inclusive. Dentro de sua linha mais religiosa. No entanto, essas mexidas de nada adiantaram. Seu projeto político e religioso, de sua Irmandade, não conta com nenhum respaldo na tropa. Os militares egípcios defendem a laicidade do Estado, da mesma forma que isso na Turquia é um tabu. Não se admite o retorno de um Estado religioso e fundamentalista.
 
Abdel Fattah Al Sisi
Esse jovem comandante do Estado Maior das Forças Armadas, Abdel Fattah Al Sisi, dialogava com a FSN. O ato do dia 30 de junho fora marcado pela oposição um mês antes. Já se sabia que ele levaria milhões às ruas. Diferentemente do Brasil, os partidos levaram sim suas bandeiras, suas faixas, suas reivindicações. O general Sisi dialogava com a oposição. Assim, no domingo, em pronunciamento à nação, deu ultimato ao presidente Mursi. Não para que ele saísse, mas para que ele mudasse os rumos da economia do país, formasse um governo que tivesse partidos de todas as correntes políticas.

Mursi não mudou de posição, nem arredou o pé. Foi inábil politicamente até seus últimos momentos na presidência. Discursou na TV Al Jazeera que transmite em inglês e na TV Al Mayadeen (libanesa) que transmite em árabe e reafirmou que nada mudaria. O máximo que fez foi admitir “certos erros”.

Isso enfureceu ainda mais as massas árabes. Já desde a manhã da quarta-feira (3/7/2013) em todas as cidades egípcias o povo tomou conta das ruas e praças. Os cálculos eram de 30 milhões de egípcios protestando e pedindo a saída do presidente.

O ultimato venceu às 19h. Novamente, o general Al Sisi foi à TV. As imagens atrás do púlpito em que discursou tinham, além da bandeira nacional, as bandeiras das três forças militares. À sua esquerda e à sua direita, duas fileiras de cadeiras duplas com todas as lideranças nacionais, dos partidos, das Igrejas Coopta (a mais antiga Igreja cristã da terra), Islâmica, o presidente do Supremo Tribunal Federal de lá e organizações da sociedade civil. Mostrou ampla unidade nacional.

Adly Mansour
Nesse pronunciamento, ficava nomeado como novo presidente do Egito o jurista de carreira – cristão inclusive, o que mostra que o problema nunca foi religioso como muitos procuram mostrar – Adly Mansour. Que era vice-presidente da Suprema Corte desde 1992. Ela fora incumbido de reescrever, com auxílio de juristas, a constituição da República. Deve indicar a formação de um governo de união nacional. Fala-se no nome de Baradei para primeiro-ministro, para formar um governo “técnico”, que recupere aceleradamente a economia nacional.

No entanto, também no seio das forças armadas, o rompimento de Mursi com a nação Síria, da qual o Egito fora associado no que foi chamado de República Árabe Unida – RAU em 1958, caiu igual a uma bomba. Repercutiu de forma extremamente negativa essa atitude serviçal ao sionismo e ao imperialismo.

A repercussão na mídia burguesa

O que chamamos de mídia burguesa não passa de uma organização empresarial, capitalista, que vende propaganda. Nunca notícia. Está a serviço de um tipo particular de capitalismo, que é o financeiro. É golpista de primeira hora. Jamais teve apreço por democracia alguma. Muito ao contrário. Sempre que pode, em qualquer país do mundo, apoia abertamente golpes de Estado contra presidentes democraticamente eleitos. Criminaliza a política em geral. Aliena o povo. Embandeira-se falsamente com palavras de ordem “moral” e “ética”, mas seus protegidos são os maiores corruptos.

No caso do Egito, a cobertura não poderia ser diferente. A mídia golpista passou a defender o “presidente eleito democraticamente” e a “condenar o golpe de estado” (sic). A sua “democracia” é de fachada. Apega-se à forma e despreza o conteúdo. Faz o jogo do imperialismo, que queria ver Mursi no comando, para não abrir fronteira aos palestinos. Para financiar a derrubada do presidente sírio. Para ver o Egito se ajoelhar ao FMI.

No caso do Brasil, os comentaristas dos telejornais, em especial da tal Vênus Platinada, se contorceram em usar e abusar do termo “golpe militar”, “golpe de Estado”, “tomada de poder pelos militares”. A indignação dessa gente é completamente seletiva. Alinharam-se imediatamente aos golpistas em Honduras em 2011 e aos golpistas no Paraguai em 2012. Na maior cara dura. Agora, em completo desprezo aos 30 milhões que foram às ruas, se agarram a Mursi, não porque gostem dele, mas é o que eles têm de plantão para manter o mundo árabe na órbita imperialista.

Quem ganha e quem perde com as mudanças no Egito

É preciso ainda ver os rumos que as coisas irão tomar. Ainda não temos respostas para todas as perguntas. Nem temos ainda as perguntas certas a serem feitas. Mas, alguns palpites iniciais podemos e devemos oferecer.

A primeira certeza que tenho é de que o grande derrotado são os Estados Unidos. Se Mursi nunca foi o presidente do sonhos dos imperialistas, tampouco eles tiveram plenamente o controle de forma a indicar um aliado seu diretamente como Mubarak foi por 30 anos. Obama mesmo acaba de dizer que vai rever a ajuda militar em armamentos de 1,5 bilhão de dólares que todos os anos o Egito recebe desde 1981 (foram pelo menos 45 bilhões de dólares no período). Ainda que não fosse em dinheiro, essa ajuda sempre foi fundamental para armar o exército egípcio.

Sabemos que o que está em jogo ali não é essa ajuda. Mas, o acordo de paz com Israel, que Mursi preservou e agora volta à mesa e volta a assombrar os planejadores do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O segundo maior derrotado nesse processo é, sem dúvida alguma, a Turquia. Erdogan já vinha se isolando e enfrentando protestos populares cada dia maiores. Chegou a dizer que as manifestações que lá ocorriam tinham a mesma natureza que as do Brasil, como que para conseguir solidariedade da presidente Dilma. Que elas eram insufladas artificialmente para desestabilizar seu governo. Falso. As TVs turcas ignoraram completamente os milhões nas ruas do Egito durante todo o dia da quarta, 3 de julho. Ele deve estar apavorado neste momento. Deve temer sua sombra, mas em especial seu Exército, guardião da constituição e da laicidade do Estado turco.

Perde também o Hamas, o grupo palestino criado há 20 anos com a ajuda de Israel, que certas correntes que se dizem de “esquerda” no Brasil acham que é revolucionário. Não bastasse o seu financiador ter deixado o poder no Catar para seu filho de 33 anos, para onde na cidade de Doha eles mudaram o seu escritório político deixando Damasco por fazerem oposição ao presidente Bashar, agora se veem órfãos de seu outro aliado que é a Irmandade. Se já estavam isolados entre os palestinos pelas suas posições e distantes dos 13 partidos que integram a estrutura da OLP, da resistência palestina, que é laica e democrática, agora se isolam ainda mais.

Bashar al-Assad
Parece que vão pagando caro todos os que conspiraram pela derrubada do governo do presidente sírio, Dr. Bashar al Assad. A primeira que sai foi a que havia dito “Bashar tem que sair” (sic), que foi a “Hilária” Clinton. Depois, caiu o emir do Catar, Hamad Al Thani. Agora Mursi paga o seu preço. Quem será o próximo?

Sobre quem ganha, também só tenho uma certeza. As massas árabes da Síria foram para as ruas nesta quarta, 3 de julho. Dançaram e cantaram. Comemoraram a queda do traidor dos árabes. O grande vencedor é o jovem presidente Bashar. Ele aproveitou para dar uma entrevista para o jornal sírio Al Thawra (A Revolução), onde afirma que a maior derrota é do “islã político”. Sua frase exata: “todos os que usam a religião a serviço de seus interesses políticos ou de interesses de seus grupos, cairão, em todo o mundo, um depois do outro”. Tem sido profético o presidente sírio. Elogia o povo milenar egípcio, com forte pensamento pan-árabe.

Também nesse sentido, se fortalece o pensamento secular, pan-arabista, patriótico, que já vinha ganhando terreno desde as mobilizações de janeiro de 2011. Nesse sentido, fortalecem-se as forças de esquerda, socialistas e comunistas. Não por acaso, no mesmo dia 3 de julho o PC Libanês, o mais antigo do Oriente Médio, emitiu nota saudando o povo egípcio pela sua vitória nas ruas, com a queda de Mursi. A mesma coisa fez o PC Egípcio, que participou de todas as manifestações anti-Mursi.

Por fim, o fortalecimento da Rússia no cenário mundial. Ela que vinha apoiando desde o primeiro momento a resistência dos sírios aos ataques externos, agora, mais do que nunca, é alçada a país que os analistas burgueses chamam de global player. Veio para ficar. Seu poder e cacife ampliam-se consideravelmente. Sem falar da China. Mesmo que discreta, cresce no cenário internacional.

Desdobramentos e conclusões

Como já disse, é cedo para tirarmos muitas lições e conclusões. Muitos cenários podem ocorrer.

É provável que Baradei vire mesmo primeiro-ministro de um governo que recupere a economia nacional, rompa acordos com o FMI, atenda as aspirações básicas do povo, em especial dos mais pobres, criando empregos. Que retorne à soberania nacional. Que indique um secretário-geral da Liga Árabe, como é da tradição do Egito ocupar esse posto, que seja verdadeiramente comprometido com as causas árabes.

Mas que, fundamentalmente, restabeleça de imediato as relações políticas e diplomáticas com a Síria. Que se interrompa o financiamento e o apoio aos terroristas que atacam a Síria. Que se abra a fronteira do país com a Faixa de Gaza. Que apoie o processo de paz na Palestina. Enfim, que restabeleça o diálogo nacional com todas as forças políticas, entidades da sociedade civil e as centrais sindicais.

Podemos estar presenciando, agora sim, uma verdadeira primavera dos árabes. Quiçá o avanço em uma situação geopolítica que possa trazer a ampla independência nacional dos países árabes, que possa trazer democracia popular e bem-estar para as massas. Mais do que um desejo pessoal, é uma aspiração desse povo milenar que tantos legados deixou para toda a humanidade.

[*] Lejeune Mirhan. Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala e colaborador do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep entre 1986 e 2006.